Sobre John Nash…

Meu artigo sobre John Nash para o IMB:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2102

A ver navios

Quando um navio naufraga, é importante afastar-se rapidamente, para não ser puxado para baixo. O navio chinês já começou a adernar. O que acontecerá com o bote brasileiro, que insiste em não sair de perto? Aguardemos…

Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia

misesrevMomento publicitário: convido todos os amigos e leitores d’O Insurgente a conhecerem e, se assim o desejarem,a curtirem a página da nossa revista Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia no Facebook. Somos a única revista acadêmica em língua portuguesa dedicada à Escola Austríaca. Contemplamos não somente a divulgação das ideias Austríacas, mas também o desenvolvimento da corrente através da produção de pesquisas originais.

Black Friday

Alguém ainda acredita em Black Friday no país da “malandráááji”? Black Friday Brasil: tudo pela metade do dobro!

O Bárbaro Vitoria e os Intelectuais Civilizados

Em uma palestra proferida no dia 16 de maio de 1944, Leo Strauss discorreu acerca de como estudar filosofia medieval. Na ocasião, Strauss deixou claro que o papel do historiador do pensamento é tentar entender os autores do passado exatamente como eles entendiam a si mesmos. Ora, entender um autor tal como ele entendia a si mesmo não é uma tarefa fácil. Afinal de contas, já é extremamente difícil colocar-se no lugar do outro quando estamos frente a frente e tentamos compreender as ideias de nosso interlocutor para o bom andamento de um debate. É mais difícil ainda quando a separação, além de espacial, também é temporal. No entanto, não há outra saída: ou tentamos entender os autores do passado tal como eles se entendiam, ou, ainda de acordo com Leo Strauss, abandonamos o único critério praticável de objetividade.

Considerar que recorremos ao passado para validar, sustentar ou legitimar nossas ideias do presente já é uma postura preconceituosa: é a afirmação, implícita ou explícita, de que o presente é melhor do que o passado. É o que ocorre quando alguém considera-se capaz de interpretar um autor do passado melhor do que ele entendia a si próprio, já que, no espaço de tempo que nos separa daquele autor, nosso pensamento teria necessariamente avançado, conceitual e culturalmente. Mais ainda: quando um teórico ou acadêmico do presente está plenamente convicto da Verdade presente nas ideias que defende (ou em favor das quais milita), então ele passa a ver tudo o que nossos antecessores produziram como meras etapas inferiores em um processo evolutivo-progressivo que chega ao ápice na sua própria ideologia e conjunto de concepções. Dessa maneira, por exemplo, quem interpreta o mundo à luz de uma inevitável dialética de luta de classes, termina interpretando os filósofos gregos do período clássico a partir desse marco conceitual; ou quem considera “óbvio” que identidades são necessariamente constituídas por diferenças, conseguirá enxergar esse movimento teórico presente até em historiadores da antiguidade, como Heródoto.

A postura arrogante de que nós somos mais “esclarecidos” do que nossos antecessores leva, ainda, à preguiça intelectual. Se alguém já considera que seu arcabouço teórico-conceitual é mais avançado do que o de autores do passado, então por que dar-se ao trabalho de tentar colocar-se no espaço e no tempo de tais autores? Em situações como essa, a motivação para estudar a história do pensamento não decorre de um compromisso com o conhecimento, mas sim do comprometimento com uma ideologia. Tal posicionamento leva a inevitáveis abusos interpretativos, a distorções conceituais e à perpetuação de mitos.

Não é exagero dizer que o século XVI é um marco para o início da modernidade. É um longo século que compreende a descoberta e colonização de vastos territórios até então desconhecidos pelos europeus. Além disso, é o século que compreende também a Reforma protestante e os primórdios da Revolução Científica. Podemos ainda acrescentar a conclusão da Reconquista e o desenvolvimento do Humanismo. À luz de tantos acontecimentos históricos, sociais e culturais, o contato com seres de aparência humana, porém de hábitos muito distintos dos povos europeus, colocou a “questão indígena” em posição de destaque nos debates intelectuais do Renascimento ibérico. A partir das disputas em torno do tema da humanidade dos ameríndios, lançaram-se as bases para o ulterior desenvolvimento do direito internacional e surgiram as primeiras teorias modernas da guerra justa.

O estudo objetivo do pensamento do século XVI é, ademais, um excelente começo para desmistificar crenças contemporâneas a respeito dos acontecimentos na época colonial. O processo de conquista e colonização das Américas envolveu, obviamente, a participação direta de representantes do Clero. Mas como foi essa participação? Não há sombra de dúvida de que a Igreja Católica enviava missionários para destruir as culturas indígenas e forçar os nativos à conversão, não é mesmo? Somente alguém muito ingênuo defenderia a ideia de que não havia uma exploração sistemática do trabalho dos índios, com apoio da Igreja, não é? Vejamos…

O processo de conquista não foi incruento. O autor Lewis Hanke conta que, em 1511, os ameríndios eram escravizados, roubados e assassinados em Hispaniola. Antonio de Montesinos, frei dominicano, indignou-se com a situação e defendeu os indígenas, afirmando que eles possuíam almas racionais e que seria um dever dos espanhóis amá-los como a si mesmos. Mais ainda, posicionando-se explicitamente contra a escravização dos indígenas, em 1537 o papa Paulo III proclamou a Bula Sublimus Dei, na qual estabeleceu que os índios não podiam ser tratados como “brutos a nosso serviço” e deixou claro que, tanto os índios americanos quanto quaisquer outros povos que pudessem ainda vir a ser descobertos não poderiam ser privados da liberdade e das suas propriedades, e jamais poderiam ser escravizados, mesmo que permanecessem fora da fé de Jesus Cristo.

O pensador mais representativo do Renascimento espanhol que se posicionou a respeito da questão indígena foi o teólogo dominicano Francisco de Vitoria (1483–1546). Vitoria estudou na França, onde voltou-se para o pensamento tomista. Ao levar o tomismo para a Espanha, fundou a Escola de Salamanca, ou Escola Espanhola da Lei Natural. Vitoria e os demais pensadores católicos da Escola de Salamanca utilizaram o pensamento tradicional e os ensinamentos de Sto. Tomás de Aquino para lidar com as transformações políticas, econômicas e sociais do início da modernidade. Já que eles aplicaram o pensamento tomista aos problemas de seu tempo, ao invés de adaptarem o tomismo para as suas necessidades contingenciais, é mais correto referir-se a eles como “tomistas tardios” e não como “neotomistas”.

Um erro grosseiro que ainda se propaga a respeito de Vitoria é a ideia de que ele teria defendido que, caso os indígenas não aceitassem a conversão ao Cristianismo, isso já seria, por si só, motivo suficiente para uma guerra justa contra eles. Afinal de contas, os espanhóis levavam o Evangelho àqueles povos bárbaros e, quando eles rejeitavam a Palavra, tornavam-se inimigos da Cristandade. Como não exterminá-los ou escravizá-los diante de tal afronta aos esforços de evangelização?

O problema com o “argumento” do parágrafo anterior é que Francisco de Vitoria, como qualquer bom teólogo católico, jamais atropelaria o livre-arbítrio dos nativos. Os espanhóis tinham, sim, o direito de pregar o Evangelho aos índios. Mas os índios também tinham o direito de rejeitá-lo. Enquanto seres humanos dotados de razão natural, os indígenas não eram moralmente inferiores aos europeus. A razão natural permitia-lhes distinguir entre o certo e o errado, e a lei natural conferia-lhes o pleno direito de escolha. Logo, já é uma aberração – sem nenhuma base teológica! – afirmar que a não-conversão teria sido razão suficiente para massacrar ou escravizar os nativos americanos… e mais grotesco ainda é afirmar que um teólogo tomista do século XVI teria defendido tal posição.

Há, ainda, uma outra interpretação contemporânea do pensamento de Vitoria, bem mais sutil e menos grosseira do que a que acabei de expor (mas não menos distorcida). Ela consiste na ideia de que Vitoria substituiu a escravidão natural aristotélica pelos rudimentos do que viria a ser, no período moderno, uma teoria do desenvolvimento, de acordo com a qual os indígenas, por estarem situados em um estágio anterior da humanidade, deveriam ser tutelados pelos espanhóis. Dessa maneira, os espanhóis, justamente por estarem mais próximos da Verdade, e por já viverem na civilização (em contraste com a barbárie), teriam a obrigação moral de guiar os indígenas para o caminho correto. Isso evitaria a interpretação ingênua de que as guerras contra os indígenas eram justificadas pela rejeição do Evangelho, colocando em seu lugar a ideia de que o desenvolvimento e a modernização seriam a solução, na época, para o problema da diferença.

Sob essa ótica interpretativa, Francisco de Vitoria caracteriza sistematicamente os indígenas em um patamar inferior de uma hierarquia graduada na Criação, vivendo em um estado de desordem social e religiosa, decorrente de uma falta de sintonia com a Lei Natural. O objetivo de Vitoria, para esses autores, seria encontrar uma justificativa moral e teológica para a conquista da América. Para isso, a separação horizontal/ôntica entre os europeus e os ameríndios seria substituída por uma separação vertical/temporal: em vez de escravos naturais, os nativos americanos seriam como crianças, a serem ensinadas e preparadas para a vida “civilizada” pelos colonizadores cristãos. No centro dessa análise, temos a transposição, da contemporaneidade ao século XVI, da ideia “inquestionável” de que identidades são constituídas por diferenças. Como o próprio Ius Gentium de Vitoria torna difícil sustentar uma separação “Self-Other” em termos espaciais, já que ele entendia o mundo como uma reunião de povos distintos a serem respeitados em suas particularidades, então essa separação “Self-Other” deveria existir necessariamente no tempo. É a única dedução possível a partir do axioma da relação constitutiva entre identidades e diferenças.

Mais ainda, interpretar a questão indígena do século XVI como uma “teoria do desenvolvimento” cai no problema do recurso ao passado para legitimar posturas teóricas do presente, consideradas mais avançadas e mais esclarecidas do que o pensamento do fim do período medieval e do início da modernidade. É no mínimo divertido constatar que grande parte dos autores contemporâneos, em áreas tais como Filosofia, Teoria Política ou Relações Internacionais, condenam com convicção, em nome do politicamente correto, toda e qualquer postura evolucionista, devido ao espectro do “darwinismo social” (que de darwinismo não tem nada!); mas, ao mesmo tempo, consideram um sentido evolutivo progressivo no pensamento: os problemas e as soluções dos nossos antepassados intelectuais eram pueris e ingênuas, enquanto o que se pensa atualmente representa o esclarecimento e o progresso. Em termos de ideias, os autores medievais e do início da modernidade são tratados como verdadeiros bárbaros intolerantes, pois a tocha do progresso e da civilização intelectual está nas mãos dos autores representativos do movimento pós-virada linguística, esclarecidos arautos do relativismo moral como princípio inquestionável e inabalável de tolerância e fraternidade. Isso é, no mínimo, irônico, pois já em Vitoria existe a ideia de tolerância como base para as relações entre os povos, e isso mais de cem anos antes de Westphalia.

Mais do que nunca, estamos diante da necessidade de acatar o conselho de Leo Strauss e devemos fazer um esforço para tentar entender os autores do passado tal como eles se entendiam. Vitoria não pensava em termos de identidades e diferenças. Vitoria tampouco enfrentava o problema de tentar legitimar a conquista espanhola dos territórios americanos. Ao abordar a questão indígena, o fundador da Escola de Salamanca tinha por objetivo analisar, à luz da doutrina de Sto. Tomás de Aquino, os abusos que eram denunciados pelos missionários a respeito do tratamento dos ameríndios, bem como suas implicações morais.

Ao contrário de considerá-los moralmente inferiores ou atrasados, Vitoria afirmava que os indígenas americanos faziam uso da razão e eram perfeitamente capazes de distinguir entre o certo e o errado. Mais ainda, Vitoria comparou os indígenas com os europeus, e fez questão de esclarecer que, mesmo na Europa “civilizada” não havia poucos indivíduos que se comportavam de maneira deplorável: “Por lo que creo que el que nos parezcan tan idiotas y romos, proviene en su mayor parte de la mala y bárbara educación, pues tampoco entre nosotros escasean rústicos poco desemejantes de los animales” (“pelo que acredito que o fato deles parecerem tão idiotas e estúpidos deriva, em grande parte, da sua educação precária e bárbara, pois tampouco entre nós faltam os rústicos que são pouco dessemelhantes dos animais”).

Quando os indígenas estivessem em pecado, e fora do estado de salvação, aí sim os europeus cristãos teriam a obrigação apostólica de orientá-los, porém “si solamente de ese modo se propone la fe a los bárbaros y no la abrazan, no es razón suficiente para que los españoles puedan hacerles la guerra, ni obrar contra ellos, por derecho de guerra” (“se somente desse modo propõe-se a fé aos bárbaros e eles não a abraçam, isso não é razão suficiente para que os espanhóis possam ir à guerra contra eles, nem agir contra eles por direito de guerra”). Ora, essa orientação não deve ser interpretada como o exercício de um direito de tutela sobre seres incapazes, dado que Vitoria deixa bem claro que os indígenas são seres humanos plenamente dotados de razão natural, capazes de distinguir entre o certo e o errado e, mais ainda, totalmente livres para fazer suas escolhas, pelo inviolável direito ao livre-arbítrio. Vitoria não afirma a superioridade moral dos espanhóis. Ele defende, sim, a vocação apostólica e a necessidade de anunciar o Evangelho aos ameríndios, mas isso não deve ser confundido como a afirmação de um “direito de tutela” e menos ainda como a defesa de uma superioridade civilizacional dos espanhóis sobre os ameríndios.

A interpretação do pensamento de Vitoria como uma tentativa de justificar a conquista da América por outros meios, através do estabelecimento de uma separação temporal que situa os indígenas na infância da humanidade, ao mesmo tempo em que afirma aos espanhóis a obrigação moral de tutelá-los e conduzi-los à civilização cristã, é, portanto, uma descaracterização do seu pensamento, que somente faz sentido para quem aplica dogmaticamente, ao século XVI, as teses historicistas, economicistas, perspectivistas e desenvolvimentistas do presente. Além disso, tal interpretação caracteriza o pensamento contemporâneo como o apogeu de uma pretensa civilização intelectual, estabelecendo assim um sentido evolutivo e progressivo que situa os autores do passado na infância do pensamento e os autores contemporâneos na maioridade civilizada e esclarecida.

O tomismo tardio da Escola de Salamanca foi um movimento intelectual que, no século XVI, lançou as bases para o desenvolvimento intelectual da modernidade. Não é exagero afirmar que a Economia Liberal, o Direito Internacional e as Relações Internacionais modernas nasceram naquele momento, a partir das reflexões de autores como Francisco de Vitoria, Domingo de Soto, Luis de Molina, Martín de Azpilcueta Navarro, Diego de Covarrubias y Leyva e muitos outros. Interpretá-los através das lentes contemporâneas, tingidas pelo marxismo desenvolvimentista e desfocadas pelo pós-estruturalismo perspectivista consiste em um verdadeiro ato de violência intelectual. Aos que defendem que o avançadíssimo pensamento contemporâneo, tolerante em seu relativismo, relativo em sua tolerância, é o supra-sumo do progresso do pensamento, ao passo em que a Escolástica tardia representa a intolerância e a barbárie da reação católica à modernidade nascente, recomendo uma meditação mais atenta sobre a obra original de Francisco de Vitoria, em especial o seguinte trecho: “… tampoco entre nosotros escasean rústicos poco desemejantes de los animales”.

(Publicado também em http://www.claudiotellez.org)

Bibliografia:

HANKE, Lewis. (1965). The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America. Boston: Little, Brown and Company.

INAYATULLAH, Naeem; BLANEY, David L. (2004). International Relations and the Problem of Difference. London: Routledge.

LIGGIO, Leonard P. (2000). “The Heritage of Spanish Scholastics”. Religion & Liberty, v. 10, n. 1, p. 8-10.

STRAUSS, Leo. (1996). “How to Study Medieval Philosophy” [1944]. Interpretation, v. 23, n. 3, p. 319–338.

VITORIA, Francisco de. (1934) Relecciones Teológicas del Maestro Fray Francisco de Vitoria. Tomo II. Madrid: Imprenta La Rafa.

O tamanho do buraco

“A dívida federal, que contabiliza os endividamentos do governo nos mercados interno e externo, avançou 1,69% em outubro ante setembro, para 2,023 trilhões de reais, o maior da série histórica, informou o Tesouro Nacional nesta segunda-feira. A dívida chegou ao patamar de 2 trilhões apenas uma vez, em dezembro de 2012, segundo a série do Tesouro. Mas ainda ficou abaixo dos 2,02 trilhões verificados em outubro. A série mostra ainda que a dívida pública dobrou entre 2004 e 2013, nos governos Lula e Dilma.” Dívida pública atinge maior patamar da história em outubro.

Agora, com licença… vou lá trabalhar mais para pagar essa dívida…

Are governments capable of evil?

“Are governments capable of evil? Yes, of course they are. All institutions are. But they’re more capable of incompetence.” (Sherlock Holmes, da série Elementary, S02E03)

Acordo com o Irã (ou Irão)

Cá no Brasil, dizemos “Irã”. Em Portugal, diz-se “Irão”. Mais uma vez, constato o quanto meus amigos d’além-mar estão corretos (ou correctos). Afinal de contas, para onde “irão” as relações internacionais depois desse passo? De acordo com Obama, abriu-se o caminho para um mundo mais seguro; já Netanyahu afirma que trata-se de um erro histórico. Caso o acordo final venha a confirmar-se, o maior de todos os desafios não será acomodar o ceticismo de Israel com uma pretensa “boa vontade” iraniana; será avaliar o quanto vale o Direito Internacional em uma região onde pouca importância se dá à ideia de uma sociedade internacional regida por normas e valores. É esse o principal sentido do termo “histórico” na advertência de Netanyahu. Teremos a corroboração de que o Médio Oriente (ou Oriente Médio, como dizemos cá no Brasil) segue uma lógica própria? Será mais uma confirmação da “sabedoria eterna” do realismo? Ou realmente estamos a testemunhar uma adequação do Irã à “globalidade” contemporânea? Agora é esperar para ver…

Inteligentinhos

Ainda o debate (interminável!) sobre a (interminável!) criminalidade no Brasil… ou, direitos humanos para os humanos direitos.

“Dirão os inteligentinhos que a causa da criminalidade é social. Hoje em dia, “causa social” serve para tudo, como um dia foram os astros e noutro a vontade dos deuses.”  (Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo)

Adeus, Margaret Thatcher!

Foi-se a Margaret Thatcher. Foram pessoas como ela que construíram o mundo no qual vivemos hoje. Não consigo deixar de observar que, ano após ano, a Guerra Fria fica cada vez mais distante… e não consigo compreender por que há tantas regiões do mundo que vão na direção contrária e ainda aferram-se a ideologias que não têm mais razão de ser.

Obrigado, Margaret Thatcher.

O possível fim do sonho chileno…

Bem dizem por aqui que “alegria de pobre dura pouco”. O Chile enfrenta a forte possibilidade de que a Bachelet volte à presidência.

Se isso se concretizar, o que o Chile tem conquistado em termos de liberalização nos últimos anos poderá dar lugar a uma política mais voltada para o resto do “continente”.

Mas essa é apenas a velha história da América Latina…

 

Lógica + Evidências

Eu peço desculpas por não ter dado continuidade à conversa, pois passei por uns problemas pessoais nos últimos dias (perdi um gatinho muito querido – sim, isso é MUITO importante para mim, mesmo que para muita gente possa parecer ridículo – e depois fui para o interior do estado, onde a internet é péssima). Mas li o texto do Lourenço Vales e gostei muito. Na verdade, considero que temos mais concordâncias do que discordâncias, mesmo que isso não seja aparente à primeira vista.

Na verdade, minha ideia é bastante simples: não se trata de uma área ser mais ou menos científica do que outra. Ou de uma ciência ser melhor ou pior do que outra. Já pensei assim, mas abandonei esse pensamento. O que vejo agora são pessoas com posturas mais ou menos científicas, dentro de uma visão bastante simples e até ingênua do que é ciência. Não estou pensando em grandes considerações epistemológicas ou metodológicas (sim, elas são importantes, e é por isso que a discussão vale a pena). Estou pensando apenas no mínimo do mínimo: lógica e evidências. Quando estou diante de um fenômeno que desejo entender melhor, tento formular uma explicação que seja logicamente consistente. Isso, para mim, é básico: se posso derivar contradições da minha proposta teórica, então é porque ela fica melhor no cesto de lixo. Mas somente isso não basta. Preciso ter a conexão com o mundo real, e aí entra o papel as evidências. Creio que meus dois grandes “inspiradores” nisso tudo são o Bruce Bueno de Mesquita, um cientista político que admiro por sua produção acadêmica, e o Richard Dawkins, acerca de quem costumo brincar dizendo que é meu “guru espiritual”. Concordo com Dawkins sobre o significado de “teoria”: precisa fazer sentido, mas sem evidências não é suficiente. E o Bruce diz mais ou menos a mesma coisa. Deixo aqui um link para um texto dele que esclarece melhor esse posicionamento.

Em grande parte, minha posição também é influenciada pela minha formação original na Matemática. Como matemático, estou ciente de que é possível criar universos maravilhosos e estudar objetos abstratos que têm propriedades incríveis… e tudo isso dentro de uma lógica precisa e rigorosa, claro. Só que sem nenhum compromisso com o mundo real. É por isso que não considero a Matemática como uma ciência; é por isso que não considero que algo seja “pior” ou “menos importante” só por não ser uma ciência. E é também por isso que insisto tanto na necessidade de termos “lógica + evidências”. Fora disso, podemos discutir falsificabilidade, Lakatos, Quine, Laudan, Feyerabend, as sonatas de Beethoven e assim ad infinitum… E milhões de questões aparecerão, e sem dúvida poderemos enriquecer nosso conhecimento acerca do que significa praticar uma área humana/social, como a Economia ou a Política. Posso abrir mão até da predictibilidade (apesar da minha área de concentração ser a teoria dos jogos e jogos evolutivos na política internacional). Mas não abro mão de querer *aprender* mais a respeito de como o mundo funciona. Sempre ciente, é claro, de que alcançarei um conhecimento sempre incompleto e aprimorável, e jamais verdades absolutas e definitivas. Se eu quisesse respostas fechadas e definitivas para os questionamentos que me motivam, não procuraria por elas na ciência. Há outros livros e lugares que oferecem respostas prontas para as questões mais profundas que a mente humana é capaz de produzir, e muitas vezes ao custo de apenas uma “módica” contribuição mensal… e de uma boa dose de uma certa característica espiritual que, (talvez) infelizmente, creio já ter perdido há muito tempo.

É por isso que me aferro tanto à necessidade de trabalhar sempre com lógica e evidências. Caso contrário, não teríamos muito mais o que fazer além de formular opiniões… e opiniões sustentadas no quê? No mero “direito de opinar”? Achar por achar? Desculpem, mas considero-me no direito de simplesmente não levar “achismos” em consideração. Ou talvez em princípios considerados auto-evidentes, que têm a sua origem em uma cosmologia medieval ou renascentista e que, ao contrário da ciência moderna, não acompanharam o que temos aprendido sobre o mundo desde então? Isso, infelizmente, envolveria a tal da característica espiritual que mencionei no parágrafo acima.

Enfim, essas são as minhas preocupações. Mas estou aqui para participar e para aprender com todos vocês. E agradeço muito pela oportunidade de estar aqui, convivendo e trocando ideias. Mesmo que eu possa estar errado em muitas coisas, e possivelmente estou mesmo, isso não é o mais importante. Não tenho medo de errar, tenho medo é de não atentar para os possíveis erros e, assim, não ter a oportunidade de poder reconhecê-los enquanto tais e rever meus conceitos quando necessário.

A Matemática e a Economia Austríaca

Normatividade e positividade encontram-se em oposição? Quando William H. Riker propôs uma ciência política positiva, ele realmente desejava que fosse totalmente objetiva e isenta de normatividade? Creio que o problema está com o termo “normativo”. Uma coisa é ser normativo no sentido de formular propostas de como as coisas “deveriam ser”. Isso é o que normalmente entende-se por normatividade. Outra coisa *bem distinta* é quando a normatividade nos diz o que devemos fazer SE desejamos atingir um certo objetivo E estamos dotados de uma certa quantidade de informações. É nesse segundo caso que se encontra a Teoria da Escolha Racional, uma teoria que é, por sinal, normativa – e que fornece a base para a ciência política positiva de Riker.

A normatividade, portanto, não implica em prescritividade. Além disso, mesmo que a objetividade absoluta seja impossível, mesmo que fatores “culturais”, “sociais” ou “intersubjetivos” (seja lá o que forem esses conceitos vagos e imprecisos, deixo esse debate para os parisienses e simpatizantes) participem da definição de temas e de agendas de investigação, eles não interferem conscientemente (ou, pelo menos, não deveriam interferir) nas atividades de pesquisa científica.

Quando os adeptos de uma corrente teórica afirmam-se contrários à “pretensão científica”, ou declaram orgulhosamente que“pessoas não são números”, ou rejeitam a importância de darem a cara aos tapas da falseabilidade, isso de início já mostra uma incompreensão básica do próprio conceito de modelo científico. Ou talvez seja porque ainda estão aferrados a um entendimento do que foi a ciência no século XIX.

“Ah, mas a Matemática é apriorística”. Sim. Concordo. Mas a Matemática *não é uma ciência* e nem pretende dizer, *por si só*, algo sobre o mundo. O único compromisso da Matemática é para com a coerência e consistência lógica de seus resultados. Matemáticos “puros”, por assim dizer, não se importam com a realidade. Logo, o teste experimental, a observação cuidadosa, a análise de hard cases… tudo isso não faz muito sentido para um matemático puro, pois o que importa é que os resultados digam algo acerca do mundo da matemática – e, ao seu lado, o mundo real não passa de uma grosseira caricatura.

Pode-se APLICAR a Matemática, ou partes dela, para tentar entender como a natureza ou a sociedade funcionam. É nesse caso – e somente nesse caso – que pode-se afirmar que a “Matemática é uma linguagem”. Mas a Matemática, em si, com todos os seus “apriorismos”, tem seu fim em si mesma. Portanto, ela *não é* uma linguagem, mesmo que possa ser instrumentalizada dessa maneira. Aí está a beleza da coisa (G. H. Hardy concordaria com isso, acredito). Tentar transferir de forma exata o apriorismo da matemática para o mundo real é incorrer na mesma ingenuidade dos velhos racionalistas continentais.

Quando a Matemática é *instrumentalizada como linguagem* para tentamos aprender algo sobre o mundo real, torna-se Matemática Aplicada: uma maneira poderosa de descrever processos e deduzir POSSÍVEIS resultados. Sim, essa é a tão famigerada “capacidade preditiva”: a dedução de estados do mundo a partir de como o mundo se nos apresenta hoje. Porém os resultados são sempre *possíveis* e não *certos*. Se alguém quer previsões que sejam absolutamente certas, recomendo que recorra a uma cartomante, e não a um matemático.

Áreas científicas (não a Matemática, que não é uma ciência) querem poder dizer algo a respeito do mundo real. Podem utilizar a Matemática (aí sim como linguagem), porque ela proporciona maior precisão a respeito do que é dito. Confiar nas linguagens naturais, além de inserir a indesejável imprecisão (que prejudica a objetividade científica), também abre as portas tanto para interpretações ideológicas perniciosas (que transformam o normativo em prescritivo), quanto para manipulações convenientes através da utilização hábil das ambiguidades naturais da linguagem corrente. A Matemática, então, *pode* servir à ciência, mesmo que isso não seja a sua principal função.

Uma teoria, para ser científica, não pode ser apenas um “palpite” acerca de como a realidade funciona. Tem que fazer sentido e ser logicamente consistente (é aí que a Matemática ajuda). Mas só isso não basta: ela tem que dizer algo acerca da realidade (e é aí que a Matemática, por si só, não ajuda). Lógica e evidências, portanto, formam os dois pilares sem qualquer um dos quais não conseguimos construir um edifício teórico. Somente a lógica, sem as evidências, leva à produção de pseudo-teorias que costumam ter muito mais valor apelativo do que científico. Somente evidências, sem sua organização em um arcabouço lógico, permite defender praticamente qualquer ideia ou ponto de vista.

A Estatística – que NÃO É, repito, NÃO É a mesma coisa que a Matemática, é uma coadjuvante nesse segundo pilar – o das evidências. Porque evidências têm que ser analisadas, catalogadas, avaliadas quanto a desvios do esperado, cuidadosamente mensuradas e assim por diante. Muitos pensam que, na Economia e na Política, todo o trabalho se resume a isso. Na verdade, essa é apenas uma parte. Incompleta e insatisfatória. É por isso que concordo com todas as críticas dos austríacos aos economistas que não fazem mais do que econometria e aplicação de métodos estatísticos. Contudo, dizer que isso é a mesma coisa que “Matemática”, é um problema conceitual. “Ah, mas a Estatística mexe com números e, por isso, pertence à Matemática”. Bom, a numerologia também mexe com números…

Admiro a Escola Austríaca de Economia. Ao longo das décadas, seus representantes têm nos agraciado com belíssimos insights para entender o funcionamento dos processos econômicos e sociais. No fundo, sua beleza reside na simplicidade… e a sua maior genialidade consiste em enxergar o óbvio que, por estar diante dos narizes de todos, passa despercebido.

Mas a Escola Austríaca *explica* alguma coisa? Precisamos de teorias científicas (lógica + evidências) para explicar fenômenos. E evidências não são apenas aspectos das realidade aos quais apontamos e exclamamos: “Olha, Zezinho, isso é uma evidência”. Evidências precisam ser adequadamente tratadas e lapidadas. São como diamantes brutos. Ao rejeitar não só a Matemática, mas também a sua prima de segundo grau, a Estatística, abre-se mão da capacidade de produzir explicações. Ao invés disso, o que se obtém são opiniões muito bem embasadas, em pressupostos não científicos, mas filosóficos e psicológicos, de como o mundo econômico “deveria” funcionar. Lamento, mas não se pode *confiar* em uma pretensa explicação apenas porque está de acordo com as ideias de um ou dois filósofos que morreram há três ou quatro séculos.

E quanto à capacidade de fazer previsões? Muitos consideram isso algo indesejável, por sua capacidade de orientar alguns governantes a utilizarem as previsões a seu favor e à realização de suas agendas malignas. É o medo do “Minority Report”.

Explicar o que já aconteceu é muito cômodo. Sem a qualidade preditiva, a ciência perde grande parte do seu valor. Mas predizer é adivinhar o futuro? Não. Predizer é orientar para onde se espera que o mundo caminhe *dado o que* sabemos hoje e levando em consideração tanto riscos (estimáveis) quanto incertezas (a respeito das quais quase nada podemos dizer). Se as previsões são utilizadas para fazer policy, o problema não é com as previsões: é com os policymakers e, o que é ainda mais grave, com os que elegem esses policymakers para seus cargos.

Ao rejeitar tanto a Matemática quanto a Estatística, a Escola Austríaca não consegue fazer previsões sobre o mundo real. Consegue, no máximo, produzir análises sobre o que já a aconteceu. Quanto ao futuro, ela consegue proporcionar excelentes intuições. Elas são acertadas, em grande parte das vezes, mas ainda assim não são fundamentadas em lógica E evidências, mas apenas em uma certa lógica e em evidências que não são tratadas como evidências, mas sim como exemplos que podem ou não estar de acordo com um certo conjunto de valores e princípios fundamentais. E isso implica em incorrer em um perigoso viés quando se trata de pesquisa científica.

É possível aprender MUITO a partir dos resultados e reflexões da Escola Austríaca. Ela está mais próxima do que a Matemática (como ideal) do que da Estatística. Digo Matemática como *ideal*, porque o apriorismo me faz lembrar daqueles velhos racionalistas continentais…

Precisamos desenvolver mais a Escola Austríaca e dar mais espaço às suas reflexões. Afinal de contas, seus insights acerca de como a economia funciona são fantásticos, e suas intuições sobre o futuro não devem ser desprezadas. Só devemos ter o cuidado de não abandonar a razão científica, a preocupação a um só tempo com a lógica e com as evidências. Temos diante de nós a escolha: podemos jogar mais tempo fora discutindo contra opositores ideologicamente orientados (e, nesse caso, não seremos muito diferentes deles), ou podemos utilizar nosso tempo para produzir resultados logicamente consistentes e empiricamente verificáveis, e assim *realmente* termos algo a dizer sobre o mundo.

Argentina…

A Argentina já tem cinco prêmios Nobel, tem o Messi e agora tem o papa. Só não tem as Falkland Islands…

Ainda não descobri quantas divisões tem o papa. Mas ao menos parece que, além de ser jesuíta, também é católico.

Aviso aos navegantes

Atenção! A morte de Chávez *não é*, repito, *não é* um indício de que a América Latina possa estar se tornando um pouco menos terceiro-mundista. Por aqui, ouvem-se comentários que fazem questionar se realmente estamos no século XXI ou se alguma dobra no espaço-tempo mantém este continente estacionado na década de 1960…

Brincando de prefeito

Por aqui, é sempre a mesma coisa. Quando alguém ocupa o cargo de síndico do condomínio, começa logo a fazer várias obras: pintar a fachada, remodelar os canteiros, refazer o piso e assim por diante. Depois, quando muda o síndico, começa tudo outra vez.

O mesmo acontece com diretores de departamentos e instituições acadêmicas, que veem nas obras um meio de “mostrar serviço”.

Em praticamente todas as esferas, nota-se que a preocupação é muito mais com o visual do que com a qualidade. Assim, podem encher o peito de ar e dizer: “na minha *gestão*, remodelei os banheiros e coloquei sinteco em todas as dependências”.

Enfim, é uma cultura que admira tanto a administração pública que todos querem brincar de prefeito. Empreendedorismo, que é bom, necas. Para que gerar valor quando se pode brincar de “administrar” o dinheiro dos outros?

Aliás, por aqui, até os prefeitos brincam de prefeito…

Apenas uma sugestão

Diante da patética performance que o Brasil vem demonstrando nos últimos tempos, em referência às posições (neo)desenvolvimentistas que proliferam por aqui e relembrando o velho chavão de que o Brasil é o “país do futuro”, sugiro que, doravante, PIB passe a significar “possibilidade interna bruta” ao invés de “produto interno bruto”.

Ainda a blogueira cubana..

… que agora enfrenta dificuldades para entrar na Argentina.

Será que foi somente a América Latina que ficou de fora do século XXI?

Falta razão e sobra paixão (pathos). Afinal, é deveras patológico o comportamento de atribuir a culpa aos outros pelos próprios erros e pelo consequente subdesenvolvimento.

Quando Graham Greene descreveu o típico escritor latino-americano em “O Cônsul Honorário”, acertou na mosca. Por estas latitudes, ainda vive-se no reino da metáfora rebuscada…

Um Velho Amor…

… nunca se esquece!

Com a visita da blogueira cubana Yoani Sánchez, os manifestantes profissionais – aqueles mesmos que se apresentam como árduos defensores da liberdade de expressão e da democracia – têm dado mostras de que, no Brasil (e em grande parte da América Latina), as mentalidades estacionaram nos anos da Guerra Fria.
São sempre os mesmos velhos temas: o imperialismo yankee, a CIA, o complô da “direita” para destruir a imagem do regime castrista, a necessidade de abraçar modelos “alternativos” de desenvolvimento (claro, afinal de contas, quem tem medo de equações e de gráficos prefere acreditar em retóricas ao invés de aceitar evidências)…
Enquanto isso, as ações das empresas brasileiras experimentam uma queda acentuada, o dragão bate à porta novamente e o crescimento dá mostras de ser patético.
Mas quem, afinal de contas, nunca cometeu besteiras por amor?
P.S.: É bom estar de volta!