Humano, demasiado humano

A súbita sanha que os Abrantes (Câncio, Vega9000, Galamba) têm revelado contra a Iniciativa Liberal nas últimas horas não é estratégica, mas é humana. Não é que vejam ainda na IL uma ameça imediata ao bafio que querem preservar, é que projectam nela a memória da guerra na blogosfera em que a defesa acéfala de Sócrates foi exposta e derrotada. Não vem do futuro, vem do passado.

A urgente descabronização

Depois da tragédia dos incêndios, impunha-se rigor e respeito. O governo preferiu o marketing. As notícias em Julho já eram claras: golas inúteis, adjudicadas por um técnico de protecção civil que era padeiro, pelo dobro do preço, a uma empresa turística do marido de uma autarca socialista que tinha sede num parque de campismo. Na fuga em frente, o ministro Cabrita tentou o enxovalho dos jornalistas em vez de apurar responsabilidades. O primeiro-ministro vê as notícias e não exige responsabilidades ao ministro. O Presidente da República vê as notícias e não exige responsabilidades ao primeiro-ministro. Comentadores apressam-se a afirmar que polémica não dura dois dias. Vocês desculpem, mas isto é tudo gente que não presta.

O erro de Bonifácio

Em artigo publicado hoje, Maria de Fátima Bonifácio afirma a não descendência (?) de africanos e ciganos da Declaração dos Direitos do Homem. Isto é usado para recusar um sistema de quotas. Mas, se admitíssemos o argumento, este serviria facilmente para negar-lhes também esses mesmos direitos fundamentais. Porque não “descendem”, teríamos que aceitar, por exemplo, que não se lhes aplica o princípio de que todos os seres humanos nascem livres e iguais. Aceitar esta tese abre a porta a um inquietante relativismo moral que parece ser, aliás, aquilo que Bonifácio queria combater. A proposta de quotas deve ser discutida a partir do entendimento sobre os princípios da liberdade e da igualdade, mas nunca da “descendência” ou não de valores fundamentais e universais.

Oportunidades

Esta coisa dos falecidos pode ser toda uma nova fileira de negócio gerida com uma abordagem colaborativa. A Marta Temido limpa-os das listas, o Bloco manda-os ter com Salazar, o Chega fica-lhes com as assinaturas e a Associação dos Amigos dos Cemitérios saca mais umas massas.

Ministério do Ambiente, a nova coutada do macho ibérico

A então mulher de Matos Fernandes foi a Chefe de Gabinete de uma Secretaria de Estado do Ministério do Ambiente em 2015. A própria pediu a exoneração em Setembro de 2018 na sequência do processo de divórcio com o Ministro. Em Junho de 2018, a nova namorada do Ministro foi nomeada para um alto cargo numa empresa pública tutelada pelo mesmo Ministério do Ambiente. Portanto, se bem percebo, o Ministro Matos Fernandes teve, simultaneamente, a então ainda sua mulher como Chefe de Gabinete de uma Secretaria de Estado do seu Ministério e a namorada num alto cargo de uma empresa pública que o seu Ministério tutela. No limite, como não se conhece exactamente a data de divórcio, pode ser que a coincidência no exercício de cargos de nomeação do Ministério do Ambiente tenha acontecido entre a recém-ex-mulher e a nova namorada. Em todo o caso, é obra.

Um caso exemplar

O ex-ministro Pedro Marques, cabeça de lista do PS nas Europeias, publicou no Sábado um post no Twitter em que acusa Paulo Rangel de “não fazer o trabalho no Parlamento Europeu”. Concretamente, afirma que o que se “conhece do seu trabalho é um relatório legislativo e um relatório não legislativo” e que Paulo Rangel “está num brilhante lugar 597 entre os mais de 760 (sic) deputados”. Antes, já tinha afirmado exactamente o mesmo ao Jornal de Notícias.

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Perante esta acusação, fui procurar informação. O que encontrei foi o seguinte:

1) Existe, realmente, um ranking que avalia os Eurodeputados pela sua actividade no PE. O score global é calculado a partir de um algoritmo que tem em conta diversos items (written questions, motions, reports, etc.).

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2) Ora, Rangel está de facto na posição 597 no item “reports”.

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3) Todavia, o score global de Rangel, que engloba toda a actividade relevante desenvolvida, coloca-o na posição 150.

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4) Rangel fica assim bem à frente, por exemplo, de Pedro Silva Pereira, o nº 3 da lista de Pedro Marques às Europeias, que não foi além do lugar 298.

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5) Mais, se consideramos o score global da totalidade dos Eurodeputados portugueses, Rangel está em 6º lugar, à frente do melhor socialista (Maria João Rodrigues) que ocupa o 8º lugar.

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Temos, portanto, que a acusação de Pedro Marques é completamente falsa e revela uma forma de fazer política que só não é surpresa porque conhecemos o seu percurso ao lado de Sócrates (mais um dos que não viram) e o seu trabalho enquanto foi ministro de Costa.

Notas adicionais:

a) A meio da tarde de Sábado, Pedro Marques apagou o post original. Poderá tê-lo feito porque referia erradamente um número de deputados do PE superior a 760 (na verdade são 751) e ficaria mal não conhecer regras básicas da Instituição a que se candidata; para apagar alguns comentários menos abonatórios que entretanto o post tinha merecido; para quebrar os links de retweets que entretanto algumas pessoas tinham feito (foi o meu caso, num post em que expunha o que escrevi acima). Ou então para assegurar todas estas finalidades. Em todo o caso, passados uns minutos publicou novo post em que faz a mesma afirmação, mas com o número de Eurodeputados corrigido. Uma tristeza, em qualquer circunstância.

b) Os dados que refiro estão integralmente disponíveis aqui: http://www.mepranking.eu/

c) A propósito desta questão, o ECO fez uma análise detalhada sobre a afirmação de Pedro Marques.

d) Em artigo publicado hoje também no ECO, Joaquim Miranda Sarmento traça um retrato demolidor do percurso de Pedro Marques.