O Bloco de Esquerda e Angola

Angola

Há  mais de 40 anos, em 27 de Maio de 1977, iniciou-se em Angola uma purga dentro do MPLA que terá resultado em mais de 30.000 vítimas mortais. A cisão no partido então presidido por Agostinho Neto teve repercussões na esquerda portuguesa. A linha mais ortodoxa dentro do PCP lançou um manto de silêncio sobre a barbárie. Outra corrente, hoje sobretudo representada no Bloco de Esquerda, tinha evidente afinidade com muitas das vítimas do massacre: Sita Valles, Nito Alves, José Van Dunem ou Rui Coelho para só citar alguns. É à luz destes factos históricos que deve ser lida a posição de total distanciamento do regime encabeçado por José Eduardo dos Santos que o Bloco de Esquerda manteve. Mas é então errado que o Bloco adopte uma posição de condenação radical do poder corrupto e manchado de sangue de Luanda? Obviamente que não e é justo reconhecer que foi uma vez dissonante num espetro político marcado pelo total alinhamento, no caso do PCP, ou pela hipocrisia, no caso dos restantes partidos. Mas vale o que vale. Não encontramos no Bloco a mesma coerência quando se trata de avaliar outros regimes totalitários e violentos de esquerda (sobre os de direita o Bloco tem naturalmente uma posição explícita e faz muito bem). No caso de Cuba, por exemplo, onde se esperava indignação, tivemos cumplicidade com o regime torcionário. A posição do Bloco sobre Angola não resulta portanto de um imperativo ético enquanto tal, transponível para qualquer outra geografia ou momento onde exista violação das mais elementares liberdades e direitos, mas da reação a uma ferida histórica que continua aberta.

O Estado da Saúde na União Europeia (UE) 2019

É hoje apresentado um relatório OCDE/Comissão Europeia sobre o estado da Saúde na UE. Há alguns dados positivos para Portugal e Catarina “Salvem O SNS Que Está Muito Bem” Martins e João “The Spin Machine” Galamba já abriram o espumante. Mas será caso para tanto?

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Vamos ver. Para começar, é falso que o estudo, ao contrário do que afirma João Galamba, permita concluir que o SNS é melhor a salvar vidas de doentes do que os restantes sistemas. Portugal aparece com melhor resultado do que a média da UE em alguns indicadores. É bom, mas é isso.

E também é falso, ao contrário do que afirma Catarina Martins, que o estudo permita concluir que o SNS é um dos melhores do mundo. Desde logo, porque  analisa apenas sistemas da UE. E, depois, porque lá está: em alguns indicadores estamos melhor do que a média UE, em outros não. Acresce que nem todos os resultados apresentados são consequência do sistema de saúde público embora este tenha, naturalmente, uma grande influência.

Atentemos então em alguns dados. A esperança de vida para começar. A de Portugal é superior à da média da UE. E cresceu praticamente 5 anos num período de 7 anos. É muito bom e percebe-se o entusiasmo de João e Catarina. Mas os dados referem-se a ao período de 2010 a 2017. Isto significa que uma parte relevante do mérito deve ter estado no governo de Passos Coelho.

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Por outro lado, o investimento em saúde per capita continua abaixo da média da UE embora tenha aumentado progressivamente nos últimos anos. Mais uma vez, os dados utilizados no estudo são de 2017. Well done, Passos Coelho.

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Já no que diz respeito aos recursos humanos, Portugal tem aparentemente mais médicos do que a média da UE. Mas, como o próprio estudo indica, é preciso cuidado na interpretação. No caso português, os dados apenas recolhem o nº de profissionais habilitados para o exercício da medicina e não o daqueles que estão efetivamente a exercer. Já no que diz respeito a enfermeiros, estamos bem abaixo da média da UE.

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Por último, vamos aos indicadores de eficácia que são os que levaram ao entusiasmo de João e Catarina. Portugal está melhor que a média UE quer em “Causas Evitáveis de Mortalidade”, quer em “Causas Tratáveis de Mortalidade”, com evolução recente muito positiva.

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Justifica-se então o espumante quanto a estes indicadores? Justifica, sim senhor. Mas, tal como o estudo indica, os dados considerados são de 2016 e a forte evolução ocorreu entre 2011 e 2016. Façamos, portanto, com João e Catarina, um brinde entusiástico a Passos Coelho.

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Concluindo:

  • há indicadores positivos e outros nem tanto
  • nada no estudo permite dizer que o SNS é um dos melhores do mundo ou que é o melhor a salvar vidas
  • a evolução positiva de alguns indicadores ocorreu, em parte relevante, durante o governo de Pedro Passos Coelho.

 

*os dados do estudo podem encontrar-se aqui: https://ec.europa.eu/health/sites/health/files/state/docs/2019_chp_pt_portuguese.pdf

 

Uma semana alucinante

Um Presidente incontinente que homenageia o sem-abrigo errado e que se pronuncia de forma disparatada sobre o processo. Um candidato a Bastonário oportunista e que prejudica a estratégia da defesa. Uma Ministra da Justiça que visita a arguida e que, quando fala aos Órgãos de Comunicação Social à saída da prisão, já nem sequer se lembra do nome da pessoa. Mas que grande vergonha, caramba.

Em casa de ferreiro, espeto de pau?

O LIVRE está a contratar. De acordo com o edital, que pode ser consultado aqui, o processo de seleção terá como critério fundamental a análise do CV e da experiência profissional e um dos requisitos é a capacidade de comunicação dos candidatos. Estão a concurso duas vagas: Assessor Político e Assistente Administrativo. O salário do Assessor Político é o dobro do previsto para o Assistente Administrativo e o contrato a celebrar em ambos os casos terá uma duração de dois anos. Com este enquadramento, temo que o LIVRE esteja, naturalmente de forma involuntária, a cair na falácia da meritocracia, a discriminar candidatos com dificuldade de comunicação e a promover a desigualdade salarial e a precariedade.

Humano, demasiado humano

A súbita sanha que os Abrantes (Câncio, Vega9000, Galamba) têm revelado contra a Iniciativa Liberal nas últimas horas não é estratégica, mas é humana. Não é que vejam ainda na IL uma ameça imediata ao bafio que querem preservar, é que projectam nela a memória da guerra na blogosfera em que a defesa acéfala de Sócrates foi exposta e derrotada. Não vem do futuro, vem do passado.