o monopólio da choraminguice

Esta crónica do Diário de Notícias e uma chamada de atenção, no facebook, do Paulo Cruchinho para um excelente artigo de Henrique Monteiro (o meu jornalista de esquerda favorito e um dos poucos genuinamente intelectualmente honestos da espécie) sobre a morte de António Borges reavivaram-me a importância da dicotomia “esquerda-direita” nos nossos dias e, sobretudo, a importância que deveria ter num país desorientado como Portugal.

Em síntese, o que o texto do Diário de Notícias casualmente acentua é que, vinte e quatro anos após a queda do Muro de Berlim e pouco menos do que isso volvido sobre a falência dos regimes socialistas do bloco de leste, a esquerda mantém o monopólio da choraminguice social e a direita continua a ser tida, à priori, como insensível à pobreza e ao infortúnio. É este, e não mais do que este, o significado de se dizer que, apesar de possuir uma inteligência notável, o que António Borges defendia era “detestável” e causador das maiores desgraças humanas. E é isto que, sem mais, muita gente imediatamente pensa quando lhe falam em “esquerda” e “direita”, sentindo-se mais de “esquerda”, por presumirem o que é a “direita”. Ora, isto tem, nos regimes democráticos de sufrágio universal, consequências evidentes e nada negligenciáveis.

Por isso, e se mais não houvesse, parece-me cada vez mais absurdo continuar a rejeitar a importância da dicotomia “esquerda-direita”, e pretender que nos podemos – e devemos – situar fora ou para além dela. Ao contrário dos liberais, e não sem tantas ou mais desavenças históricas de família do que estes, os socialistas não deixam o seu património por mãos alheias. O que os liberais, por puro preconceito, fazem chama-se entregar o ouro ao bandido.

os erros do mercado

O mercado não é um sistema económico perfeito. O mercado não gera equilíbrios absolutos, estáveis e permanentes. A economia de mercado tem crises, como qualquer outro sistema económico, desde logo porque a economia de mercado é uma economia de trocas e decisões humanas, e estas, por natureza, são falíveis. Se considerarmos que essas decisões incidem sobre recursos escassos, então compreenderemos melhor porque elas podem ser mal tomadas e provocar efeitos contrários aos pretendidos, isto é, prejuízo em vez de lucro.

Todavia, a economia de mercado é o melhor sistema económico conhecido e experimentado pelas sociedades humanas. Apesar de gerar erro, esse erro pode ser reparado com mais facilidade pelos operadores que lhe estão mais próximos, do que por distantes decisores políticos que desconhecem o contexto das decisões tomadas. As pessoas podem falhar? É claro que sim. As decisões dos agentes de mercado podem ser erradas? Sem dúvida. Há pessoas que preferem o conflito e a fraude, à cooperação e à honradez? É inequivocamente verdade.

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o socialismo: uma história fácil de entender

Os socialistas não acreditam que o mercado, isto é, as pessoas em processo directo de cooperação sem intermediários, consigam compor os seus interesses e promover o desenvolvimento e bem-estar social. O socialismo vê a sociedade como um drama, onde as pessoas se digladiam em vez de cooperarem. Acreditam, também, que o egoísmo humano leva, em processo de mercado, à concentração da riqueza numa minoria privilegiada e ao agravamento das desigualdades sociais. Ora, como o fim do socialismo é a igualdade material dos homens, os socialistas defendem a criação de autoridades de intermediação das acções humanas, a fim de torná-las socialmente úteis. Para cumprirem os seus objectivos, os socialistas promovem, a partir de uma autoridade central, uma distribuição de rendimentos supostamente mais eficaz do que aquela que o mercado consegue, fazendo-o por via de processos de redistribuição (tirar alguma coisa a todos em proporção crescente consoante os seus rendimentos, para atribuir aos que menos têm e mais precisam). Com essas políticas de redistribuição ficariam sanadas as supostas ineficiências do mercado e alcançar-se-ia a igualdade material entre os indivíduos. Vamos ver como é que isto funciona, esclarecendo, desde, já, que isto não funciona.

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a direcção geral da tutela e acompanhamento do mercado de laranjas

Sobre o mercado livre, escreve o leitor Rb: “Mas porque é que a balança na sua banca de fruta dá um peso inferior à minha? Não deve ser certificada”. O nosso leitor sugere que a falta de tutela e de vigilância pública conduzem inevitavelmente à fraude e ao prejuízo dos consumidores. Para o evitar, sugere a intervenção reguladora e fiscalizadora do poder público. É uma crítica e uma posição muito comuns ao mercado livre, que merecem alguns comentários. Aproveitando a metodologia proposta por Rb, vamos fazê-los sob a forma de algumas hipóteses práticas.

1ª Hipótese: Num mercado de laranjas dez vendedores oferecem os seus produtos aos consumidores. Os consumidores são absolutamente livres de comprar as laranjas que entenderem, aos vendedores da sua preferência. Para tanto, comparam os preços, a qualidade dos diferentes produtos e a seriedade dos vendedores. Se numa banca um desses vendedores vender meio quilo como se fosse um, falseando os pesos da sua balança, o que fará um consumidor? Certamente que, apercebendo-se do logro, comparando com as compras de outros consumidores, optará por qualquer um dos outros vendedores que estejam na praça. O vendedor que praticou a fraude, insistindo nela, rapidamente ficará sem clientes e sairá do mercado.

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o mercado: uma história simples de entender*

O mercado é um local, não necessariamente físico, onde as pessoas convergem para trocar bens e serviços.

O mercado existe desde que os homens abandonaram o isolamento das cavernas e passaram a especializar o seu trabalho em função das suas aptidões, competências e necessidades.

Um mercado é, portanto, um conjunto de pessoas em interacção para estabelecerem entre si relações de troca. Será mais ou menos livre, consoante as pessoas sejam menos ou mais condicionadas na tomada de decisões quanto ao destino do que lhes pertence. O mercado livre e a liberdade individual são conceitos sinónimos. Onde não há mercado não existe liberdade.

Os liberais acreditam que as pessoas cooperam entre si e que, por isso, os mercados devem ser livres de intervenção estranha à dos operadores das transações.

Os socialistas de todas as ideologias crêem que o conflito é o princípio propulsor da vida em sociedade, pelo que advogam a existência de um intermediário, teoricamente neutro, o estado, que deverá intervir no mercado para supostamente prevenir ou dirimir esses conflitos.

Num mercado intervencionado as pessoas não são plenamente soberanas no exercício da sua vontade. Alguém com autoridade lhes limitará essa soberania, impondo regras que elas não criaram, fixando os preços e as demais condições do negócio, ou apropriando-se de parte do produto das suas transações. Há sociedades, nos dias de hoje e no passado, sem mercados legalmente reconhecidos, onde as pessoas não podem transacionar sem ser por meio de um intermediário – o estado – que determina todas as condições de todas as operações de troca. Nessas sociedades a propriedade é praticamente proibida e as trocas assumem frequentemente uma natureza clandestina e ilegal: os bens são transacionados em mercado clandestino, ilegal, ou “negro”, a custos mais elevados do que o que seria normal num mercado livre, por incorporarem o elevado custo do risco da actividade empresarial ilegal. Com excepção daqueles que pertencem às elites dirigentes, as pessoas vivem miseravelmente nesses países onde não há mercado.

Os liberais acreditam que um mercado só é verdadeiramente livre se estiver aberto, sem restrições, à participação de todos os que nele queiram vir vender ou comprar os bens aí transacionados. A isto chamam “livre concorrência”, que é o mecanismo natural dos mercados para equilibrarem os seus diversos agentes, melhorarem a qualidade e o preço dos produtos, e, curiosamente, para pacificarem as relações entre todos os intervenientes.

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em quantos partidos se vai partir o psd

Partido do Bode Expiatório: A culpa foi do Portas, do Portas, do Portas, do Portas, do Portas, do Portas…

Partido dos Poucos Mas Bons: Agora somos só nós, os puros e duros. Os traidores já se foram. Podemos governar sozinhos. Temos legitimidade e se o Sócrates conseguiu e o Cavaco consentiu, porque não tentar?

Partido dos Magrebinos: A culpa foi do Gaspar, do Gaspar, do Gaspar, do Gaspar, do Gaspar, do Gaspar…

Partido dos Marqueses e Barões: o PSD foi tomado pela ralé, que menosprezou as suas ilustres figuras históricas, a quem o partido, o país e a dívida pública tanto devem. Essa grossa injustiça tem de ser reparada urgentemente por um grande governo de coligação nacional, onde as pessoas de bem do PS tenham também o seu merecido lugar.

Partido do Menezes: Se o Constitucional não me deixar ser presidente da câmara do Porto, cidade que amo da profundeza das minhas entranhas à ponta dos meus cabelos, estou disponível para voltar a liderar o partido e expulsar os sulistas e liberais que o desgraçaram.

Partido Barrosista: Se o Grande Líder não for reeleito em Bruxelas (há quem diga que o renegado Hollande tem-no de ponta), estará aqui para encabeçar mais uma Grande Marcha. Às ordens de Portugal!

Partido da Vovó Manuela: O problema não é piqueno, mas para grandes problemas grandes remédios. E a minha experiência com a dívida é grande. Tão grande, ou ainda maior do que a própria. E o Professor Marcelo até disse que me apoiava…

Partido Presidencialista: Isto só lá vai com uma reforma constitucional que consagre o presidencialismo e faça do Professor presidente vitalício da nossa república. Só assim a boa moeda expurgará a moeda má.

Partido do Pedro: Se me pedirem muito, bem, escusam de ser muito insistentes e até podem nem pedir, estou pronto para voltar a liderar o PPD/PSD, partido do meu coração. Afinal, a obra que comecei ainda não está concluída, e como estou a andar por aqui…

Partido do Bugs Bunny: That’s all folks!