Tertúlia: Liberalismo e Feminismo

O Instituto Mises Portugal organizará, dia 11 de Abril, uma tertúlia dedicada a explorar a relação entre o liberalismo e o feminismo. Terá como convidadas a nossa Maria João Marques e a Ana V. Martins e realizar-se-à na Sala D. Henrique, O Navegador do Instituo de Estudos Políticos da UCP, pelas 19 horas.

O Paciente Inglês

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Como a direita continua a não ter vergonha na cara e teima em chafurdar na mesma desonestidade intelectual de que acusa os Costas e os Galambas desta vida, acumulam-se as duras críticas à sensata posição do Governo de Portugal em relação à guerra fria entre a Rússia e o Reino Unido. Serão os mesmos que evocam uma aliança centenária, quase pretendendo fazer a equivalência entre a defesa da mesma e o patriotismo, patriotismo esse que os leva, em certas ocasiões e nas poucas partes que conhecem de cabeça, a cantar um hino que surge de uma marcha exigindo que os portugueses rasgassem essa tal aliança e pegassem em armas, o equivalente a um suicídio dos dolorosos, “contra os Bretões”. Bom povo inglês, sempre do nosso lado em Goa, em Angola, em Timor.

Bem faz o Governo em exigir prova concreta que suporte as acusações inglesas, como também faria bem em desconfiar das mesmas, sejam elas apresentadas. Não há muito tempo, a dupla Durão e Portas arrastou Portugal para um conflicto desencadeado à margem do direito internacional, cujas provas, posteriormente, se verificaram serem falsas, e que pode bem acartar as culpas da terrível situação que o Médio Oriente hoje enfrenta. Sim, PSD e CDS têm ambos sangue nas mãos e a choradeira dos seus dirigentes e apoiantes quando se deparam com imagens dos meninos sírios lembra aquelas viúvas chorosas no luto do defunto,  tendo umas semanas antes escarniado o marido à cabeceira do amante.

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O CDS Feminista

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Foi ontem anunciado que será aprovada na AR a mudança da funesta Lei da Partidade, com o aumento da percentagem prevista para 40% e o alargamento do critério a todos os órgão politicos electivos. Na minha curta jornada pelo mundo da política já conheci, pessoalmente e pela via literária, uma imensidão de opiniões dentro das próprias ideologias, mesmo dentro das direitas, diversidade essa, em muitas ocasiões, bem fundamentada. Ora eu já conheci pessoas de direita, incluindo bons conservadores, defendendo a legalização das drogas leves ou da prostituição e socialistas que se lhe opunham. Já conheci quem de direita se opusesse à liberalização do porte de arma para defesa pessoal ou fosse um ambientalista fervoroso – como este que vos fala – e socialistas que optassem pelas posições contrárias. Muito se pode escrever acerca destas questões e muito se pode e se tem teorizado sob o seu enquadramento, legítimo ou não, à luz das ideologias relevantes.
O que eu nunca conheci pessoalmente, nunca encontrei nos livros, nem nunca ouvi num podcast foi uma feminista – nos moldes em que actualmente o feminismo se enquadra, na sua terceira via – que fosse de direita. Sendo improvável a existência de um cavalo com asas, nem pelas leis da biologia nem pelas da física, é mais provável eu ter exagerado nos shots de tequila do que estar na presença da mítica criatura. O que me leva a concluir que, dada a diferente natureza entre os fenómenos da própria e os ideológicos, quando me deparo com a primeira pessoa, supostamente à direita, que se diz feminista, é mais provável essa pessoa não ser, de facto, de direita do que estarmos na presença de um cisne negro, terminando eu a indagar acerca do escombro do espectro político em que a Presidente do CDS habita. Dito isto, revivo o debate que se acendeu pelas posições tomadas, na AR, por um deputado do partido, debate esse que gerou páginas de discussão na imprensa, no Facebook, na blogosfera e nas suas caixas de comentários, pois dizia-se ser impensável o partido ser tão complacente a uma suposta violação grave da matriz do partido.

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CDS – Uma Reflexão Pré-Congresso

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O CDS padece, desde a sua génese, de uma lamentável disposição a ser bengala. Esta disposição, originada, a meu ver, por um medo de parar, permite-lhe ir andando, mas também o impede de correr. Nas ocasiões, poucas, em que o CDS resolveu tentar aspirar a marcar a sua posição no espectro político, ora obteve votações expressivas da parte do povo português – ver este artigo de Richard A. H. Robinson -, ora foi esmagado por circunstâncias da época, como o foi o choque de Lucas Pires e do Grupo de Ofir – ver artigo do Adolfo MN – com a ascensão do Cavaquismo. Faz falta pensar, sobretudo pensar. Os tecnocratas que nos apoquentam, os que nos bombardeiam diariamente com chavões como challenge e leadership e branding, não entenderam, ou não quiseram entender, o poder da marca na política: e essa marca é a ideologia, firme, segura de si.

Ao ambicionar diminuir-se ideologicamente, para com isso assaltar o eleitorado ao centro, o CDS consolida a desconfiança já tremida daquela que é a sua base: a direita. E porque um mal nunca vem só, enxota de vez os desapontados, aqueles que nos mais de 40% de abstenção não se reconhecem neste sistema putrefacto do arco da governação. Hipoteca o futuro por umas migalhas no presente, apesar de ser, mais tarde do que imaginam os arautos da serenidade do bom povo português, Pinheiros de Azevedo desta vida que tomam por fumaça o êxodo dos jovens da política, candidato a como os outros perecer na poeira do tempo, olhado daqui a uns anos como relíquia de uma época menos afortunada.

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A Direita Portuguesa não tem vergonha

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A direita portuguesa não tem, nunca teve e é dispensável que o leitor estude os astros para entender que, provavelmente, nunca terá vergonha na cara. Rebentou uma bomba no cenário político, na presente semana, quando a direita cá do burgo descobriu que no sistema de ensino português existem escolas em que os alunos transitam de ano com quase meia dúzia de notas negativas. Apressou-se pois a atribuir a efeméride às reformas efetuadas na pasta da educação pelo governo PSD/CDS, governo esses cujas reformas se conhecem tão profundas que foram facilmente revertidas em poucos meses. Voltam-se os olhos para Passos Coelho, o homem cuja reconhecida honestidade lhe permitiu enfiar o programa eleitoral na gaveta, estava ainda fresca a tinta do acordo de coligação. Sócrates, a bem da verdade, tardaria bem mais a mostrar ao que veio.

No entanto, para não variar, o problema está mal explicado. Ainda era Durão Barroso primeiro-ministro e já passavam multidões com mais de quatro negativas, isto na minha escola. Anos mais tarde, não muitos, confessava-me uma directora de turma, de uma cidade bem distante da minha, que era forçada, com as colegas, a passar de ano alunos com mais de quatro negativas. Pelo meio, não faltou quem se gabasse de passar de todas as maneiras e feitios. Nada mudou e não tem mais culpa este governo que os que o antecederam, incluindo os de direita – mais estritamente ao centro que outra coisa – em que os meus caros andavam por estas bandas num silêncio ensurdecedor.

A questão do facilitismo está entranhada num ME que esteve, desde a sua fundação, a soldo dos professores e dos partidos. Dos professores, sem dúvida, porque são os mais benificiados por um sistema burocrático e centralizado, sem sinais de flexibilidade, quando de outro modo os maus professores estariam no centro de emprego. E dos partidos que, comos e sabe, sobrevivem das estatísticas que os próprios promovem. Ao contrário do que a propaganda laranja tentou incutir ao país, as reformas a que assistimos apenas arranharam a superfície do problema, o ministro Crato, que se propunha “implodir o ME”, terá provavelmente ganho afinidade com o edifício e tudo ficou, não na mesma, mas por lá perto.

Não obstante, como vale tudo, Passos Coelho é um cadáver político e a líder do CDS um fanfarra de banalidades, vemos nascer a indignação em quem sempre teve a educação na boca sem sequer ter procurado investigar minimamento os problemas que por décadas a têm assolado. E tão incapaz se sente esta direita em rebater a geringonça que até a desonestidade intelectual serve de arma política, essa que do alto da sua autoridade moral tantas vezes os vemos apontar aos adversários.

Falta vergonha. Muita.

Como derrotar Rui Moreira

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Segundo a imprensa nacional, Rui Moreira trocou as voltas ao PS, o  que é um tremendo exagero. O Presidente da CMP deixou os papagaios que dirigem o partido do governo fazer o que estes de melhor fazem, retirando daí o respectivo casus belli. O PSD, à falta de candidato para as duas principais cidades do país, regozijou-se de imediato. Passos Coelho ergueu-se do mundo dos mortos para onde a insignificância do seu discurso e da sua estratégia política o conduziram para arremessar uma bicada ao Partido Socialista e os seus correlegionários, no Porto, abrem champanhe. Mas aqui colocam-se vários problemas que, a meu ver, ainda não surgiram à massa laranja.

Em primeiro lugar, e apesar das circunstâncias, o PS tem um candidato conhecido da cidade, com obra feita – não estou aqui a avaliar a mesma – neste mandato. Ser-lhe-á complicado atacar Rui Moreira, mas o PSD aqui não fica em melhor figura, pois desta feita tem uma figura de peso que, neste xadrês autárquico, pode e deve apostar, não na derrota de Moreira, mas na derrota do PSD, procurando o segundo lugar.

Ao mesmo tempo, o já aparvalhado e oco discurso do PSD Porto perde fogo – se é que alguma vez o teve. E por isso, com uma amabilidade que não me é característica, elenquei algumas hipóteses, partindo, é claro, do que o PSD já tem demonstrado ser o seu foco: acusar Rui Moreira de coisas.

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Nós, os Verdocas e as Vacinas

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Reparo numa situação caricata. Vejo que se verifica, como em poucas vezes, um consenso relativamente à crítica aos pais que não vacinaram os miúdos. Mas a gravidade da situação está na hipocrisia patente em criticar a atitude, olvidando a ideologia. Se um casal de rednecks do Sul dos EUA deixasse – como muitos deixam – morrer uma criança por negligência de tratamento médico, atitude esta consequência do seu conjunto de valores, as redes sociais e os jornais estariam recheados de notícias e comentários contra o (suposto) tenebroso obscurantismo dos cristãos. Partir-se-ia, portanto, da atitude para a ideologia que -supostamente – a causa. Ora eu ainda não vi ninguém a expor o grau de demência dos hippies naturalistas que lançam vivas à homeopatia e outras formas de banha da cobra – só falta, tendo em conta os tempos, exigirem terapias de Reiki no SNS – e que preferem vacinar os cães em detrimento dos filhos. Talvez sejam os mesmos que enchem o facebook com máximas que nos explicam que os animais são preferíveis às pessoas. É a modernidade que, além de desumanizar, amplia nichos circenses, legitimados por leituras dignas do Prof. Mambo e pelos partidos e agremiações que conhecemos de outras festas, numa eterna batalha contra forças secretas e, acima de tudo, contra o Homem, essa criatura repelente.

O caro leitor já apanhou, certamente, sujeitos destes à mesa – se não apanhou, certamente tem sorte. Eles têm dietas que os imunizam das doenças, têm tratamentos “com milénios de história” que os curam delas – o que refuta o ponto anterior, mas quem falou em lógica? Eles amassam a sua com a autoridade moral de quem se libertou de todos os químicos que o capitalismo lhe enfiou pelo bucho e de todos os medicamentos – inúteis pela certa – que uma consipiração que começa na indústria farmaceutica e descamba nos Bilerberg o obriga a tomar. Você, caro leitor, é uma besta sem auto-consciência espiritual que se vai deixando levar pelos homens do poder. Essa dorzinha já os tipos na Babilónia sabiam curar. E se não for caso de médico chama-se um xamã. Eles sabem, pois. Leram uma vasta bibliografia  de livros, panfletos e artigos da internet, foram a inúmeros colóquios, workshops e acampamentos, estando portanto bem mais habilitados que o vulgo – os médicos não contam, pois estão comprados – para dissertar sobre a saúde das massas. O mundo apelida-os de loucos – Matias Damásio é sempre apropriado nestas situações – mas loucos somos nós.

E, por meio desta loucura auto-infligida – choca-me a leviandade com que se lança no escárnio o sujeito que vai implorar ao Santo por ajuda, respeitando, ao mesmo tempo, gente que, além de prejudicar terceiros com o seu obscurantismo, ainda faz questão de tentar institucionalizar a coisa. E vem sempre um idiota útil – Lenine sempre teve uns apelidos porreiros para distribuir – pregar o respeito. Vamos lá ser coerentes. E além da coerência, sempre vital, admitir que tratamos de um problema de saúde pública, em que o suposto argumento da liberdade individual não escuda terceiros do potencial epidémico da questão da não-vacinação, nem protege as crianças à guarida desta gente, em questões como a de outros tratamentos ou na da nutrição. Evocar argumentos Rothbardianos sobre a legitimidade da negligência, além de suicídio assitido para o movimento liberal – assistido por Rothbard – em nada ajuda a um debate cada vez mais importante na sociedade actual e que não se pode guiar por teorias sem qualquer aplicação viável ao nosso mundo. Enquanto aguardo as vossas reacções vou ali ver se os meus orixás me tratam esta dor nas costas.