Taiwan, Trump e o início da terceira grande guerra

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A capacidade que Trump tem, involuntariamente, em proporcionar a exposição de profundas contradições de discurso à esquerda e à direita deverá, a seu tempo, servir de case study nos mais prestigiados cursos da área por este globo fora. Argumentar que o presidente-eleito da maior potência mundial não deveria conversar ao telefone com uma governante democraticamente eleita de forma a não ofender terceiros é próprio de uma geração de políticos e paineleiros cujos problemas de coluna me ofereceram uma pseudo-carreira como blogger.

Já no Brexit, à direita, pesavam os argumentos económicos, não fosse a soberania, esse artefacto que pouco diz à modernidade estabelecida, incomodar negociatas. Os tecnocratas de serviço, uma classe formada no economês das business schools desta vida, para quem a história e a cultura são luxos parasitários de rodas dentadas pouco produtivas e cuja profundida ideológica, por escrito, caberia numa nota de 5, querem convencer-nos que fazer o correcto de nada vale sem o lucro como amparo.

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Todos os fascistas são gordos

O Ricardo Paes Mamede, sujeito de que nunca ouvi falar mas que, segundo me indicam, reúne alguns afectos cá no burgo, decidiu estabelecer uma relação de causa-efeito entre a obesidade, o alcoolismo, a diabetes e a falta de exercício físico e a vitória de Donald Trump. Em Portugal, onde Gramsci reina, cultura e esquerda andaram sempre numa partilha de lençóis nada púdica e pouco saudável. Isso conduz a que, por um lado, todo o cantor, escritor ou pintor – basicamente todo o criador – tenha palco para debitar alarvidades e que, por outro lado, uma inspiração quase que artística invada as luminárias da academia, atingindo estas o pleno da sua criatividade nas mais bizarras propostas e declarações. 

No entanto, uma ressalva. Desde que deixei o ginásio que reparo em sintomas de que as minhas posições se têm extremado. O que, há uns anos, era uma sujeita simpática que de mim discordava, hoje é uma temível feminazi. Pinochet tornou-se uma piada recorrente e não são poucas as vezes em que me vejo evocar Salazar com um carinhoso Tio. Depois temos outros casos. O Colectivo Insurgente é maioritariamente constituído por gente que gosta de lhe dar no copo, no Mises o problema é igual ou maior. Ora há aqui, de facto, uma interessante correlação entre a pinga e as tendências facho-neoliberais que merece tratamento estatístico. Hão-de reparar, por exemplo, que os deputados da direita são bem mais gordos que os da esquerda, o que me leva a crer que o processo de acumulação de riqueza contemporâneo de que nos fala David Harvey atingiu uma nova etapa: a da acumulação de gordura.

Convém recordar que tendências pós-modernas como lanchar comida de passarinho, não comer carne, frequentar aulas de zumba ou pilates, atraem tendencialmente mais malta de esquerda, tudo pessoal muito boa onda e moderno que considera que fazer uma peregrinação à bairrada para assassinar porquinhos e tomar banho em espumante é uma actividade demodé, desprovida de consciência de classe, mais própria do patriarcado opressor. E assim, caros amigos, podemos concluír que o senhor não estava, de modo algum, errado. Ler o Observador engorda. E os gordos não sabem votar.

“Baby, Stop Crying “

e5b2b4d65f9dbe1ae510fe0cbab40a68Olá amigos, vamos falar do Nobel? A questão que me apoquenta é o facto de, das pessoas que conheço e em que reconheço um extraordinário bom gosto literário, nenhuma reconheça valor algum ao Nobel da Literatura.

Este é um prémio que ainda presta o serviço de impressionar aquele tipo de sujeito que tem o Eça como o melhor escritor português – quando nem o melhor escritor em língua portuguesa da sua época ele foi – que equipara Saramago aos russos, tem o Paulo Coelho em boa conta e jura a pés juntos que tentou ler o Lobo Antunes, sem sucesso. Ou que, por excesso de tempo livre para incorrer em originais fantasias, lamenta o Nobel que não foi dado a Pessoa, como se o senhor fosse conhecido em vida.

A criatura que assombra mesas de jantar de hamburguerias gourmet, com conversas literárias regadas a gin merdoso, pintando o facebook com citações mais reles que o gosto. Impinge livros a toda a gente, barafusta contra um país atrasado que lê pouco e pode apontar-se ao insucesso destas aventuras o grau de alfabetização ainda não ter baixado por cá.

Daí que me custe perder a disposição a debater as acções de uma instituição que não premiou Tolstoi, Nabokov, Proust, Céline, Borges ou até mesmo Lobo Antunes ou Agustina. No entanto, este ano, o debate é interessantíssimo. Devem os músicos ser premiados?

Se sim, Dylan e Cohen seriam óbvios candidatos, assim como Morissey, Eminem ou Chico Buarque – incluir Tupac ou Kurt Cobain na lista já colocaria o interlocutor ao nível dos apaixonados de Paulo Coelho. Se não, o que é legítimo e não me choca, é favor atribuírem o prémio a um génio português – coisa que nunca foi feita – se possível à Agustina, visto o Lobo Antunes ser demasiado casmurro para se deixar morrer sem o galão e, consequentemente, ser gajo para escrever umas pérolas só por vingança.

A Direita não é fixe

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A direita, em Portugal, é aquela garota socialmente inadequada que se tenta adaptar para ser fixe, mas como nunca resulta, acaba por sofrer bullying de todos. Uns dias, quer ser moderna e xpto como a esquerda – aquela amiga tree hugger que apelida os omníveros de assassinos, que lança impropérios revolucionários no Iphone 6 e acha Marx um equivalente ao Pai Natal, mas mais simpático. Lá faz uns vídeos catitas, lança cartazes que parecem saídos dum concerto do mais novo dos Carreira, carrega no povo nos discursos, bate nos ricos, arranja lá umas propostas fracturantes manhosas em que ninguém acredita mas que julga capazes de comprar uns votos, elogia Mário Soares, torna-se feminista. Faz figura de parva, acaba gozada.
No dia seguinte percebe que ser bloquista não é fixe e passa a olhar os intelectuais como exemplo. Cita livros que não leu, refere músicas que não existem, fala do teatro com amor, ainda que só lá tenha ido para ver o La Féria, afirma que aquele filme dirigido pela Rita Blanca com João Canijo a protagonista é muito bom. Quando é entrevistada deixa cair mais nomes de conhecidos que um puto barrado à porta de uma discoteca, ainda que, como este, seja visível a dificuldade em articular duas frases em português correcto. Pior que tudo, elogia Mário Soares. E isso, claro, percebe-se à distância e, mais uma vez, termina em gozo a brincadeira.
Mas a direita não desiste e, na manhã seguinte, vem vestida de direita. Mas a direita antiga, tráz os modos dos pais e a roupa dos irmãos mais velhos, refina o sotaque, faz-se adulta, aparentemente. E esta coisa da liberdade de expressão passa a ser uma malcriadisse dos jovens, os valores cristãos andam pelas ruas da amargura, metam-se os pretos, os ganzados e os maricas em alto mar e “lá vai torpedo”, os chineses estão a rebentar com o comércio e vamos lá andar atentos que estes espanhóis não são de confiança – é fechar as portas e meter os D.A.M.A. a tocar na fronteira, que, desse modo, ninguém entra. Insulta Mário Soares – pelo menos isso – , mas considera que a saída das mulheres da cozinha nos colocou às portas de um holocausto demográfico.
E aí entorna o caldo, já não há paciência e a carga de porrada que leva é de tal calibre que falta a semana toda à escola. Um dia, a direita vai perceber que não é fixe tentar ser igual aos outros meninos e reconhecer que só lhe resta ser ela mesma para ser feliz – desde que, sendo ela mesma, fuja de Mário Soares como quem foge da malária.
Só que, caros(as) amigos(as), no que toca a pessoas, o bullying é uma coisa horrenda, mas no que toca à direita portuguesa é uma lambarice.

Facadas Multiculturais

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Uma mulher e as três filhas, dos 8 aos 14 anos, foram esfaqueadas num resort francês por um sujeito que entendeu estarem com pouca roupa. Tenho três teorias. A primeira é a de que o sujeito – sendo que eu não caio nessa vagabundagem da direita radical que se percipita sempre nestes casos – temendo que a senhora e as crias se constipassem, foi buscar uma faca para cortar uns panos e tropeçou, acidentalmente, com a faca nas mãos. A minha segunda teoria é que, mãe e filhas, talvez se apresentassem, de facto, numa indumentária tão moralmente reprovável que culminou no enlouquecimento do pobre homem, chocado com tamanha leviandade. Ora a minha terceira – e mais provável – teoria conclui que desta vez a coisa foi, certamente, obra dos perigosos Judeus Ortodoxos. Esses, os Cristãos Radicais, os Budistas Fundamentalistas e os Ateus Militantes andam a deixar a Europa a ferro e fogo.

Ainda assim, deixo o alerta para que desta ocorrência não se tirem conclusões desmedidas que propaguem o ódio e coloquem em cheque o nosso paraíso multicultural. Ou não é verdade que estes pequenos e insignificantes mal entendidos – facadas, machadas, atropelamentos e bombas – são um ínfimo preço a pagar pela solidariedade entre povos irmãos e os escritos do Prof. Boaventura ? E, na verdade, o que são umas facadas amigáveis quando recebemos, por outro lado, o fraterno abraço dos valores do outro ? Excepto, claro se o leitor for homossexual, mulher, ateu ou, entre um vasto leque de exemplos, um vil comedor de porco.

 

Sobre o terrorismo islâmico

Uma democracia liberal sofre uma vaga de violentos atentados: carros bomba, atiradores, atropelamentos em massa. Os perpretores, bárbaros terroristas islâmicos, acusam o país de estar a violar o seu território, entre outras justificativas, incluindo as metafísicas. Os Pablos Iglésias e os Boaventuras desta vida concluem que não Podemos pagar aos terroristas com a mesma moeda – activistas, desculpem-me. Entre os comentadores da praça a palavra de ordem é diálogo. Entretanto, os media do Ocidente apressam-se a apontar o racismo e a xenofobia inerente ao país em questão.
Sim, estou a falar de Israel.

Gerontofobia – A Nova Moda da Esquerda

O ódio instalado contra os idosos – que já se tinha feito sentir após o Brexit – continua a ser abraçado pela esquerda europeia (neste caso a espanhola) – tudo malta muito porreira e tolerante. Claro que há aquela modesta questão de desejarem a morte a todos os velhos do país, mas isso são coisas da irreverência e da idade que lhes hão-de passar. Como lhes passou aquela moda de achar que o Ché Guevara até era gajo com quem se bebia uns copos e que esta cena de insultar uns padres e partir umas montras até é capaz de dar numa tarde bem passada.

E por entre casas de banho mistas e a extinção do homem branco, instaura-se por decreto um paraíso meio que hippie, meio que estalinista. Utopias estas que, se “cada uma no seu canto” já eram indigestas, somadas ganham (wait, keynesian pun) efeitos multiplicadores – como quando algum cínico iluminado resolver juntar  a Maya e o Nuno Graciano no mesmo programa.

A comunicação social tem representado o papel que lhe conhecemos: colocar-se às cavalitas desta fanfarra e tomar os leitores por atrasados mentais. Lá vai dando voz aos injustiçados pela tirania da terceira idade – cujo sortimento de valores, além de demodé, atrapalha o progresso.

O futuro é deles. E que merda de futuro.

Felizes Repetições

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A repetição incessante de certos fenómenos políticos é tramada para o cronista. Tão tramada que não consigo deixar de escrever isto envolto numa bizarra sensação de déjà vu. O que não só torna fastidioso o meu exercício, como denuncia uma lasca de tédio que poderá estar à espreita do leitor. Felizmente, para o liberal, esta reincidência é uma consequência das melhores razões.

A extrema-esquerda tropeçou de novo, meteu os pés pelas mãos – como no jiu jitsu – e tal é a a sua comoção que já tem metido a boca por outros locais menos meritórios. Lugares comuns. Memes com os semblantes dos derrotados. Uma esquerdista esganiçada perde a postura no twitter ou no facebook. Piada com o Costa – respirar e gozar com o Costa começam a alcançar frequências semelhantes, muito por culpa do próprio. Primeiras reflexões do politburo: a culpa é do povo que não compreende que só lhes queríamos dar os mesmos direitos que os venezuelanos (graçola com a Venezuela, nunca falha).Lá vamos nós fazer contas – isto está uma salgalhada da pior espécie. Os comentadores de serviço apontam um fenómeno que explique o sucedido – e se não encontrarem um que assente inventam-no. Post aziado do Daniel Oliveira em momentos. O líder da oposição, Marques Mendes, afirmará que tudo correu como havia previsto. Os portugueses, em massa, cerram os dentes ao melhor jogador do mundo como se este lhes ousasse aumentar os impostos ou, bem mais grave, tivesse ido tomar o pequeno-almoço com o sujeito que o fez. Tudo igual. Tudo porreiro. Quinta há jogo.

A Europa e os Ingleses, por mim e por Paulo Portas

Dos saudosos tempos em que Paulo Portas era o líder que a Direita merecia, por contraste com o líder que a direita veio a ter – numa versão desfalcada dele próprio, como aqueles filmes que se perdem na sala de edição e nos deixam para a posteridade a dúvida pertinente de como teriam ficado sem as cenas cortadas. A dicotomia entre “dúvida dos lúcidos” e a “fé nos espertos” expõe com brilhantismo o pensamento conservador – assente em mecanismos arcaicos como o bom senso – em confronto com o pensamento progressista – que sem muita conversa abre as pernas às serenatas dos amanhãs que cantam.

Berço da democracia moderna, o velho reino não aceita lições sobre a vontade popular nem diktats regados em Bruxelas a bom vinho pago pelo contribuinte. Como PP apontou, Bruxelas tem um efeito nefasto nos nossos políticos, já de si abestalhados de nascença. A transformação do político que vai de Lisboa para Bruxelas é semelhante áquela do que vai do Porto para Lisboa, a não ser no grau de aburguesamente, que é exponencialmente maior. Um tipo estava aqui descansadinho a debater os impostos ou os pensionistas levado com um bairrada e, quando dá por si, já se ocupa em longas dissertações, lubrificadas a champanhe do melhor, sobre a socialização dos porcos – literalmente os porcos, não os colegas.

Quem pensam então que são estes velhacos bárbaros da “Old Britain” que ousam optar pela via radical de seguir o seu próprio destino sem dar satisfações a uma vasta gama de poderes maioritariamente não eleitos ? Desta feita até que afrontam o brilhantismo dos comissários europeis, cuja passagem pelas mais nobres instituições de ensino do continente e arredores e o longo convívio com o luxo e o glamour de plástico dos novos ricos da política lhes forneceu o direito divino de saber o que é melhor para nós, independentemente da inoportuna opinião que nós – leigos ingratos – pudéssemos tecer sobre o assunto.

Para certos bandalhos, a democracia, essa só aceitável quando o resultado lhes é favorável. Aí estamos perante a vontade soberana do bom povo. Se assim não for, a democracia não é mais que um atraso de vida para a revolução em curso. Os velhos, os analfabetos e toda a essa gente de pé rapado desprovida de canudo – esses traidores de classe – venceram as elites aburguesadas na corte de Estrasburgo e os jovenzinhos diplomadas de mentezinhas muito abertas e tão multiculturais que boicotam o Natal para não ofender ninguém. Os tais que ameaçam despejar milénios de civilização eurpeia na sarjeta de um quarto de banho misto.

Pelo meio da fanfarra esganiçada só faltou intimar o Reino Unido de guerra, entre um discurso de medo que não se ouvia desde a guerra fria, abusivas intrusões de chefes de estado estrangeiros na campanha e diversas comparações de Farage e Boris com Hitler e Trump, que teriam graça não tivessem sido os próprios apoiantes do Leave a utilizar as mesmas tácticas e o mesmo registo das referidas personagens.

Para mim, mais que a saudável vitória da liberdade e a chapada de luva branca aos eurocratas, enche-me de regozijo o ruidoso sofrimento de inúmeras criaturas de carácter e craveira  duvidosas a que vimos assistindo. Eu, como “mau cristão”, não consigo deixar de ficar feliz pela irritação patente no rosto dos burocratas de Bruxelas, nos socialistas, na direita envergonhada e, especialmente, numa comunicação social que nos prestou um horripilante e desonesto serviço nas últimas semanas. Sempre tive para mim que a forma mais fácil de distinguir o bem do mal é ver de que lado estão os vermes. E aqui, é certo, os vermes perderam.

Via João Tavares

O Porto já não mora aqui

Que as ratazanas se sufoquem em queijo putrefacto. Neste preciso momento, dadas as reacções aos lúcidos comentários de Carlos Abreu Amorim, vejo-me com mais diminuta consideração pelas mulas lobotomizadas que erguem vozes na defesa da oligarquia que se apoderou do Futebol Clube do Porto que pelos adeptos do Atlético de Carnide. E hão-de vir os Lopeteguis, os Fonsecas, os Xistras, os Peseiros, a Maçonaria e o Império Galáctico que continuarão a desviar o ónus da culpa para meras rodas dentadas substituíveis de uma máquina decrépita e enferrujada, meramente oleada pontualmente de forma a servir os interesses de uns quantos patrícios cuja única aptidão conhecida neste mundo é a cultura na arte do vígaro. Roma não paga a traidores. O Porto também não.

Sucedem-se as noites em pranto, o desespero colectivo, o escárnio alheio. Num estádio, num sofá, num relato atribulado, companheiro de viagem. E o que era um ritual prazeroso que ocupava a semana em supense do dia D transformou-se num frete, na espera passiva de nova tragédia anunciada. As borboletas no estômago, as adivinhas de quem espalharia a magia por entre os centrais do rival são hoje um medo frio que se vai acumulando até ao fatídico dia, valendo-lhe a sobra de esperança de que por engano ou distracção algum sujeito vestido de azul e branco a preceiro coloque a bola na baliza adversária.

É o acumular da estratégia sem tino, do comissionismo instalado, dos cargos hereditários, dos favores pagos a juros de Shylock, de uma firmeza na voz que se perdeu em madrugadas de bares de má fama. Tal é a falta de vergonha e o calculismo de encher a algibeira que não me admiraria que se movessem processos contra vozes descontentes apenas e só para dar de comer uns trocos ao advogado do clube.

A tal vergonha que não mora nas gargantas arranhadas dos assalariados, na guarda pretoriana, na lenga-lenga do “mas já nos deu muitas alegrias”. A vergonha que morre solteira pois não casa com escrúpulos de pilantra. É assim que estamos, cercados por dentro, agarrados a sebastianismos que não nos salvam e a palavras de ordem que caem em seco.

Sobra-nos a gradualmente mais distante memória de que já fomos felizes. E aquela crença de quem ama que talvez o voltemos a ser.

Talvez.

 

Sobre o cartaz do BE

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Eram todos Charlie, todos pela liberdade de expresão. Vivíamos numa ditadura do politicamente correcto. Do outro lado da barricada pernoitavam virgens ofendidas, dizia-se. Mas isso era na semana passada. E, de preferência, no que toca aos outros. Pois a II Lei Arroja da concorrência tem aplicações  que vão além das matérias económicas: a liberdade do uso do escárnio estende-se a todos os símbolos menos os meus. Sim, o cartaz do BE talvez seja de mau gosto. Sim, o cartaz do BE pode ser considerado ofensivo por quem professar a fé em questão. Mas é necessária uma daquelas latas que pintam a fachada duma igreja para ter andado a pregar uma ilimitada liberdade de expressão aos peixinhos e agora peregrinar pelas vielas da vida política com peditórios e escândalos. Quantos de vocês não partilharam memes que ridicularizaram determinada vaca sagrada da esquerdolândia, ou escreveram impropérios sobre o Islão ou sugeriram que o lugar do PC era no fundo do oceano – o Índico, de preferência. Parasita por aí uma direita beata sem vergonha no rosto e com uma coluna por demais flexível que insiste em abraçar pontualmente o ridículo como que por profecia. Tragam pipocas que o choro é livre.

Portugal em 111º lugar no ranking de Literacia Financeira

 

 Não é que o nível de literacia financeira necessariamente explique que mais de metade dos eleitores votem na esquerda. Da mesma forma que o nível de álcool no sangue de um indivíduo pode não explicar este ter dançado a macarena pelo vazio da calçada muda às 4 e pico da manhã. Estas conjecturações de causas são como as bruxas: eu não me acredito muito, mas que as há, há.

Deste modo, a ComparaJá efectua aqui uma análise a um estudo da Standard & Poors em que Portugal – surpreendam-se – obteve a honra do 111º mundial a nível da literacia financeira – tendo em conta quem tem sido votado como melhor escritor do país imagine-se o resultado em literacia no geral.

O nosso leitor pode por bem responder a um questionário da ComparaJá, semelhante ao da S&P, talvez numa tentativa de salvar a pátria e a figura. Só lhe pedimos que não passe o link aos seus amigos, colegas e familiares afectos à esquerda militante ou à direita keynesiana, que a impressão já não é a melhor e é de bem, para inglês – ou alemão – ver, não revelaras receitas da nossa falência – económica e cultural.

 

Isto da maioria escolher o Marcelo devia ser proibido

 Uma catrefada de décadas volvidas desde o fim da ditadura e uma determinada franja da sociedade portuguesa ainda convive bastante mal com esta modernice da democracia em que a maioria de um povo de chinelo de dedo, pouco letrado nos amanhãs que cantam nos saraus culturais da esquerda, escolhe um bandameco qualquer à revelia da cartilha agendada pelo determinismo histórico. E não há certamente justiça no mundo em ter que levar com tal sujeito se este não for, é claro, amigo do povo, povo este que nele votou mas que, por inconsciência de classe ou réstias de álcool da noitada de Sábado, está em absoluto alienado da sua vil agenda.

Em todo o acto eleitoral que não corre a preceito às supostas vanguardas da classe operária somos condenados a um tamanho chinfrim em loop nos dias seguintes que, a prazo, aquela “música” do Michel Telló até ameaça começar a soar bem. Não que a música campanha a dentro já não fosse de péssimo gosto e tom. Ora pois o candidato da burguesia vermelha ou é um homem de grande porte cultural, um intelectual ou tem-los lá a todos à volta, não vá deixar de cair um subsídio e aquele filme experimentalista acerca a epopeia do ser ou aquela exposição sobre o olho do cú correm o risco de não sair do papel a fim de deliciar o itenerário artístico do cidadão comum.

Marcelo não é dessa laia. É filho de fáxista e logo fascista por hereditariedade – o que me leva a questionar se às filhas de terroristas que se sentam em S. Bento também pesa esssa herança. Depois ri-se muito, é popularucho e gosta de opinar sobre o mundo. Diz-se por aí que é professor catedrático mas o boato em questão não vem pesar na dúvida em relação à intelectualidade do homem.

E se Marcelo é o Sol – essa estrela burguesa que alimenta os sunsets dos betinhos da Foz – Sampaio da Nóvoa é o LUAR – e qualquer filme sobre organizações terroristas pode ser esclarecedor neste ponto. É uma calúnia isto que andam da dizer da sua formação, visto que como especialista em teatro é um grande político. Um homem do povo que é tão do povo que aufere mais de uma dezena de multiplos do rendimento médio deste. Tem ainda na sua corte figuras cujo conhecimento poderia em muito enriquecer a politica portuguesa como Rosa Mota ou Pilar Del Rio. Não digo Vasco Lourenço pois o instinto golpista que revela a cada intervenção – e o que se quero num país terceiromundista como o nosso são homens de farda a ameaçar correr com a politicagem – uma honesta vontade em mudar este terrível estado de coisas e retornar o país à paz de calmaria daqueles 2 anos do PREC.

As presidenciais acabaram e agora o tempo, antes de ser de consensos, será de amuo generalizado. Mas não digo da generalidade dos portugueses, pois estes fizeram vingar a sua escolha.

O povo, enganado como sempre, preferiu o primeiro. Agora o choro é livre.

 

 

Marcelo – O Banal

Não sei porque há-de alguém equacionar que Marcelo poderá colocar os interesses do PSD à frente dos do país, visto que o próprio sempre hesitou em colocar os interesses do partido à frente dos seus. Este discurso que carrega como única vitória cobrada ao tempo é uma orgia de banalidades com cobertura de carisma que por certo não engorda o cérebro. Enquanto este Governo nos conduz ao abismo podemos pelo menos assegurar que o discurso fúnebre será feito com estilo.

António Costa: Uma Análise Comparativa

antonioSão inúmeras as comparações que se vêm fazendo acerca da ascensão de António Costa, porque o povo é criativo e a ternura da arte e das letras tem-se feito bom desafogo para os males da vida. E certamente dói na existência assistir a tal figura ocupando o ofício chave da nação, na bonita ironia de ver o bobo da corte fantasiar o ministério numa corte de bobos.

Haverá quem o compare a um pirómano que, qual Nero, lançará o país nas chamas, dispenso provavelmente a harpa, pois não se lhe conhecem talentos nem dotes culturais e convenhamos que música ao povo já ele deu em demasiada. Mais ainda que esta comparação é injusta, pois o mundo é um lugar taciturno para os sonhadores e rapidamente – como com Tsipras – se faria à força do pirómano bombeiro. Bruxelas, qual pai severo e rigoroso, a bem do filho prontamente o colocaria na ordem, que o estudo é muito bonito e forma os homens para vida, que aquelas saídas ao Sábado são para acabar e que aquela moça que teima em frequentar a casa que nem uma arrendatária por caridade olha muito de esguelha e, já diziam os antigos, quem olha de esguelha não é de fiar.

Há também quem compare o ofício do ministério, com Costa, ao de uma mulher de má vida, pelo que terei, mais uma vez, que rebater o argumento, não por salvaguarda do próprio, mas por respeito a uma profissão que – salvo a condenação eterna por encomenda de algumas almas mais beatas – guarda mais respeito que o mesmo. E mais inadequada se põe esta analogia do ministério como bordel, quando temos em conta que é a raison d’etre deste deixar satisfação nos seus fregueses, que entram de calças na mão, satisfeitos à saída. Já o bordel do ministério de esquerda, como o quereis pintar, seria o imediato oposto, com o povo – ou parte dele – podendo até entrar satisfeito, mas saindo por certo com as calças na mão – sobrando em comum apenas os bolsos vazios.

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O Cavaquistão

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Eu concordo com os meus amigos de Esquerda: a vontade da maioria do povo português, expressa democraticamente, deve ser cumprida e portanto, dando seguimento a esta máxima, é bom que ouçam com a devida atenção as exigências de um Presidente da República que obteve quase 53% dos votos. Até porque, já que aparentemente os meus camaradas aprenderam recentemente a fazer contas, pelo que tenho visto, saberão observar que segundo a narrativa em voga, Cavaco Silva teve uma percentagem maior de votos que os partidos de esquerda somados e logo, não vendo cumprir o seu diktat, poderá muito bem deixar a governação de Portugal num limbo – bem mais sóbrio que divagações circenses – até novas eleições.

Os meus amigos de Esquerda, que já suspiravam em acenos de foices e martelos com a instituíção de uma república das bananas – quiçá da Madeira – terão que compreender que não residimos na Venezuela, nem na Argentina. Os meus caros têm a infeliz sina de ter nascido no Cavaquistão, onde Cavaco Silva, por mais que os anos passem por ele, por mais que contra ele atentem a cada intervenção sua e por mais que alguns – como eu próprio – concordem em dele discordar, continua a ser visto pela maioria – silenciosa – da população portuguesa como o seu garante de estabilidade, um papel que Soares, beijando a senilidade bolchevique a que a idade o conduziu, deixou escapar pela mesma gaveta onde antes havia guardado o socialismo.

Os quase 53% que votaram no Presidente da República não fazem grandes manifestações, não gostam de chinfrim, são gente de bem e de trabalho que mais quer é que o país ande para a frente. E estes, meus caros, são a maioria do povo português que vós teimais em achar que representais.  Temos pena, mas o choro é livre.

O Fim da Democracia em Portugal

Tenho assistido, especialmente nas redes sociais, a um extenso exercício de teatralidade com vista a vestir o chumbo do programa do Governo como um golpe de estado, uma revolução armada, um estado de sítio. Faz lembrar – e a memória ainda estará bem viva – o que se escrevia com a mão canhota sobre o FMI, quando este aterrou na Portela ou o que se disse da direita quando Sócrates caiu e por aí adiante. Foi, aparentemente, o fim do mundo moderno.

Segurem lá as hormonas, que já ando farto de vos ver por aí a decretar o fim da democracia e da liberdade e – só falta mesmo – da civilização ocidental. Quem vos ouvir ficará com a ideia de que o Soviete de Petrogrado já tomou o Palácio de Inverno e que o Aurora já dispara. Assistimos a um triste “assalto ao poder” (entenda-se artifício político), triste, mas em conformidade com o sistema em que nos enquadramos. Certamente passaremos um mau bocado e o paradigma eleitoral, como o conhecemos, poderá mudar definitivamente, quiçá com a diluição da importância do voto útil e algum pendor para os partidos mais pequenos. Mas acabem lá com a choradeira e a dramatização, que eu cheguei a casa e fiquei a pensar que a CGTP tinha tomado Belém.

O debate lúcido e sem demagogias não se quer só quando são os outros falar. E depois de uns anos valentes a rebater o sofismo das “narrativas” do outro lado não nos ficará bem assumir a mesma postura e a mesma lógica na construção de argumentos – ou seja, nenhuma.

O homem branco daquela fotografia

Lido no Papo de Homem, escrito pelo italiano Riccardo Gazzaniga  e traduzido por Almerinda Bento. Uma história fantástica.

O cara branco daquela foto:

Sempre vi a fotografia como uma imagem poderosa de dois negros descalços, com as cabeças curvadas, de punhos erguidos com luvas negras, enquanto tocava o hino nacional dos Estados Unidos. Era um forte gesto simbólico, tomando posição pelos direitos civis afro-americanos num ano de tragédias que incluíram as mortes de Martin Luther King e de Bobby Kennedy.

É uma foto histórica de dois homens negros. Por este motivo, nunca prestei realmente atenção ao outro homem, branco como eu, imóvel, no segundo degrau do pódio de metal. Considerava-o como uma presença casual, um extra no momento de John Carlos e de Tommie Smith, ou mesmo uma espécie de intruso. Com efeito, pensava mesmo que aquele sujeito – que parecia ser apenas um rival inglês – representava na sua gelada imobilidade a vontade de resistir à mudança que Smith e Carlos invocavam no seu protesto silencioso. Mas estava errado.

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Em Defesa do Veganismo

Gosto do meu bife assim: blue raw. É um desatino tremendo explicar aos senhores do restaurante o que é que “mesmo muito mal passado” significa.

Desconheço qual possa ser o problema de tantas pessoas contra os vegans. Vejo constantemente, ao vivo e nas redes sociais, mensagens de escárnio e irritação para com este estilo de vida que, como as calças dobradas no tornozelo, o gin e os hambúrgueres, está francamente na moda. Apesar de aparecer sempre por aí um jovem revolucionário que aponta o dedo aos carnívoros como eu – porque ser omnívoro é para bebés – com insultos e afins, como quem compara a matança do porco ao holocausto e acha que tirar leite da teta da vaca constitui uma violação dos direitos da mesma equivalente a um gang rape numa aldeia bósnia nos tempos do Milosevic, geralmente os vegans são excelentes pessoas que sabem meter-se na sua própria vida.

E assim sendo, quando se abstêm de tentar salvar o mundo declarando uma jihad aos apreciadores da posta à mirandesa, merecem todo o nosso respeito. São pessoas que pagam um preço caro – muitas das vezes literalmente – por seguirem aquilo em que acreditam, ao contrário dos seus primos afastados, os vegetarianos. São, acima de tudo, gente fofa e altruísta que faz baixar a oferta e nos permite comer um bife maior e mais suculento a preços mais baixos.Que seria de nós, com o aumento dos preços da carne nos recentes anos, se não houvesse quem a parasse de comer ? É uma win-win situation. Excepto quando uma vegan vos tenta levar a jantar e vos começa a impingir restaurantes. Aí o bixo pega.

Cavaco traduzido para miúdos

  • Indigita Passos Coelho como PM.
  • Passa um atestado de irresponsabilidade ao PS.
  • Recusa por completo um governo que inclua a esquerda radical.
  • Passa a batata quente ao parlamento.

Fica a dúvida do que acontecerá se a AR chumbar o programa da coligação (a hipótese mais provável), tendo em conta que, neste momento, os seus poderes – os do PR – estão limitados.

Sobre a Presidente da Fundação Saramago

Alguém me consegue explicar este fetichismo bafiento pela Pilar del Río, uma tipa que teima em sustentar a fundação a que preside às custas dos contribuintes portugueses ? É que, além de não se lhe conhecer qualquer feito, obra ou pensamento de relevo (nem com sentido) em Espanha – quanto mais em Portugal – a única razão aparente para o fascínio é ter sido casada com um indivíduo que tinha tanto de bom escritor como de péssimo ser humano.

O PSD e a Paz Cartaginesa

O ano era 1975 e o país vivia dias negros. Sá Carneiro estava sitiado. Governava Vasco Gonçalves, com a bênção dos comunistas e do MFA. No PPD mandava Emídio Guerreiro que discursava sobre nacionalizações e colectivizações. A JSD nomeava Marx como uma das suas influências e a facção de Jorge Sá Borges tinha peso no partido e ameaçava tomar a liderança e ensaiar uma aliança com a esquerda radical. Sá Carneiro, afastado pela doença, não cedeu. Bateu-se contra o PREC e contra os radicais do seu partido. Acabou por vencer e voltar para limpar a casa.

O ano era 1977 e o país vivia dias anos negros. Sá Carneiro estava sitiado. FMI havia aterrado na Portela e em pouco tempo o PS de Soares, no governo, estaria coligado com o CDS. O partido estava à mercê da ala social-democrata encabeçada por figuras como Pinto Balsemão, Sousa Franco ou Ferreira Júnior. Sá Carneiro, mais uma vez, não cedeu. Exilado, desferiu ataques contra Eanes, governo e a própria ala que lhe fazia oposição dentro do PSD. Disputou a liderança e reconquistou-a, tendo enfrentado uma maioria que se lhe opunha no grupo parlamentar – as Opções Inadiáveis – e uma consequente cisão de 37 deputados que haveriam de criar a ADSI. Ao lado do génio político de Amaro da Costa construiu as bases para a primeira coligação de direita em Portugal e, como é bem sabida, para a sua primeira maioria absoluta.

O ano era 1980 e o país vivia dias negros. Sá Carneiro estava sitiado. A sua Aliança Democrática, agora no governo, pouco podia fazer contra uma Constituição altamente socializante e contra um presidencialismo militarizado apostado em limitar a sua acção política. O PS rejeitava uma solução de Bloco Central com Soares como candidato presidencial e Eanes, tudo indicava, iria ser reeleito. Sá Carneiro não cedeu. Tomou diligências para se demitir após as presidenciais e ser sucedido por Eurico de Melo. Teimoso como era, não tivesse sido brutalmente assassinado, teria ido mais uma vez a eleições pouco tempo depois.

Por esta altura o leitor estará a pensar: “lá vêm estes gajos com mais um artigo do Sá Carneiro”! Com uma certa razão, admito. Mas o que proponho aquilo não é qualquer evocação a sebastianismos com os quais não convivo bem. Poderia ter citado Thatcher, mas tendo em conta a data corria o risco de ser repetitivo e Sá Carneiro, além de ser um exemplo deste contexto, apesar de ser substancialmente citado é absolutamente desconhecido, mesmo no seio da direita. O que proponho é que o PSD aprenda com o exemplo de um líder teimoso que sabia bem o que queria e para onde levar o país, mesmo que isso implicasse colocar por diversas vezes a sua carreira política em xeque. Esta cedência transversal que a coligação pretende apresentar ao PS é vergonhosa para os seus eleitores, para os seus militantes e para a sua história. É própria destas lideranças, herdeiras do pior que as jotas têm para oferecer, cuja coluna vertebral cresceu inclinada por força de hábito e cujo deserto intelectual obriga a citar Churchill – para parecer bem – e a aplicar Chamberlain – por défice de legumes no sítio certo.

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