“O Triunfo dos Porcos”

Citar o “1984” de Orwell é hoje uma das receitas mais fáceis e preguiçosas que um qualquer Conde de Abranhos tem à sua disposição, chegada a hora de enquadrar, em duas penadas, aquilo que são as aspirações totalitárias de um Estado que tudo faz para nos vigiar.

O Conde de Abranhos, recorde-se, é uma personagem ficcional nascida da fértil imaginação de Eça de Queirós, um político medíocre (o Abranhos, leia-se), que, a despeito de uma licenciatura mal parida, não deixou de perceber que o uso da frase feita, das mesmas fórmulas repetidas até à náusea, e a prevalência da retórica, em detrimento das convicções, poderiam ser condimentos úteis para suportar as aspirações de quem quer apenas ter uma vidinha e ser um intelectual de pacotilha – entenda-se, de alcance regional ou paroquial. Uma das características principais do Abranhos passava por citar de forma acrítica certos conceitos religiosamente memorizados (a “sebenta”), para justificar e defender precisamente aquilo que estes visavam combater. Assim, uma das passagens mais hilariantes da vida política de Abranhos consistiu na utilização dos princípios basilares da Constituição liberal para defender e justificar a afirmação da Carta absolutista ou tradicionalista, sem que nisso encontrasse – nem ele, nem os seus pares – qualquer contradição.

Ao ler a mais recente repetição ad nauseam do argumentário Pachequiano, no Público,  e das reações acríticas de muitos dos seus leitores e pares, recordei-me do desabafo humorístico de um bom amigo que, nos tempos idos de 2010, o comparava ao Conde de Abranhos. Em boa verdade, só mesmo um Conde de Abranhos para dissertar a partir de Orwell, socialista encartado, fazendo do britânico um libertário e resistente, e da sua obra uma espécie de antecipação exacta de uma realidade que, merecendo reflexão, está longe de corresponder na íntegra ao que se alinhava em “1984”.

Não me interpretem mal: as distopias de Orwell são obras maiores, que merecem a nossa leitura e atenção. Há aliás uma de que gosto particularmente, e que também é frequentemente recordada e utilizada nas citações de pacotilha ou de bolinho chinês (sim, é uma piada ao que sobrou do Maoísmo). Vou assim, eu próprio, vestir a pele de Abranhos, para manipular torturar em benefício dos meus argumentos, “Animal Farm”, traduzida para português como “O Triunfo dos Porcos”, obra que sempre me atraiu, não tanto pelo livro, que li de uma assentada, mas pelo fascínio que me causou a sua adaptação em filme de animação.

“O Triunfo dos Porcos” é uma obra satírica que ironiza, sobretudo, com os idealistas do marxismo que se deixam deixaram capturar por um sistema corrupto e apenas movido pela retórica do Poder, um Poder que subjuga todos e expulsa os que, metaforicamente, não estejam dispostos a mover-se “sobre quatro patas”.

Se Pacheco Pereira poderia ser personagem de uma das obras secundárias do Eça, não hesitemos, poderia igualmente ser, indubitavelmente, um dos porcos do Orwell. Orwell, Orwell, como não recordar que Pacheco Pereira faz parte desse grupo de idealistas que, na juventude, sonhavam com uma sociedade igualitária? Ou, como nos dizia Orwell, pela voz das suas personagens suínas, uma sociedade onde uma elite não parasitasse à custa do esforço e do trabalho dos animais? À semelhança dos porquinhos Snowball, Napoleão e Squealer, Pacheco e muitos dos seus semelhantes perderam-se nos trilhos da vida, capturados pelo sistema que tanto juraram desmantelar e combater. Começaram com “duas”, mas rapidamente perceberam que é muito melhor narrar a Utopia, mas caminhar num estilo de vida “a quatro patas”. 

Qual Squealer (de todos os porcos, o mais dotado em termos de oratória, o “educador do povo”, aquele que se arrogava de “transformar o preto em branco” (sic), para muitos, a corporização suína do jornal Público/Quadratura do Círculo/SIC/DN/Sábado-e-lagartixas-e-mais-não-sei-o-quê Pravda), Pacheco Pereira dá-se ao trabalho de dissertar ecumenicamente sobre uma qualquer distopia totalitária, torturando o “1984” a seu bel-prazer, com truques de mágica e retórica, até concluir que, afinal, o corolário português das fake news e do Big Brother foram, pasme-se, a governação de Passos e Portas, cujo funeral o país já fez, mas que Pacheco teima em não deixa enterrar. Diz-me o esquilo Tico: se o Conde de Abranhos era capaz de justificar a Carta com os princípios da Constituição Liberal, e Squealer se gabava de fazer do preto, branco, porque não pode Pacheco Pereira arriscar e comparar Passos a Trump, fazer de Orwell um paladino crítico das fake news e de uma sociedade bafienta que – horror (!) – está a “destruir a mediações”, ou dizer que a mutação semântica da palavra “cortes” em “poupanças” mais não é do que uma conspiração orquestrada do um malévolo propagandista, em conluio com a comunicação social?

Já o esquilo Teco chama-me à razão: se a idade faz de nós condescendes, convém, ainda assim, fugir de uma postura, digamos, quadrúpede. Pelo que, qual King Bob, regressado do meu desterro, me apetece enaltecer: nem todas as formas de retórica devem merecer a nossa placidez. Passos e Portas não podem ser comparados a Trump. E a substituição da palavra “cortes”, por “poupanças”, não corresponde a qualquer newspeak, mas apenas a formas distintas, politicamente legítimas, de enfatizar as consequências da crise em que Portugal mergulhou, fruto de anos de má governação. Pois se não há dúvida que houve “cortes”, tão pouco podemos ignorar que esses cortes se materializaram em “poupanças”, poupanças importantes para se atingir o equilíbrio “orçamental”.

O que não dá para ignorar são as contradições insanáveis dos textos de Pacheco Pereira, que nem sequer se dá ao trabalho – por que em bom rigor, nem disso necessita – de manter a coerência interna do seu argumentos. Por um lado, fala na destruição das mediações, como corolário daquilo que considera ser a afirmação de um mundo totalitário, para adiante nos dizer que, afinal, é a comunicação social que compactou, na disseminação do lugar-comum. Como não dá para ignorar que o mesmo Pacheco que, recorrentemente nos aponta a emergência de uns media capturados, tem bancada e projeta-se em todos os grupos de comunicação social do país, da Impresa, à SONAE, à Cofina, até à Global Media, todos eles com ligações fortíssimas ao status quo. E mais exemplos poderíamos dissecar, se o tempo não tivesse – usando um dos clichês do economês – um elevado custo de oportunidade.

Tempo é dinheiro. Pelo que termino por aqui. Não sem rematar, como se exige em qualquer dissertação barata que se apropria de Orwell, com a frase que se impõe. Orwell escreveu uma distopia, nós vivemos nessa distopia. Estava certo, e seguramente escreveu “O Triunfo dos Porcos” a pensar no Portugal de hoje: “Todos os animais são iguais. Mas uns são mais iguais do que outros”.

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São os partidos donos do Parlamento?

Em 2015, o PSD apresentou-se ao eleitorado em listas conjuntas formadas a meias com o CDS-PP. Foi num determinado núcleo de deputados que votei, agregados na PaF, e são eles os depositários do meu voto. O meu voto foi para uma legislatura, e não para que a quase dois anos das próximas eleições o PSD ignore que, até lá, tem de respeitar o mandato dos eleitores. Não escolhi Rui Rio, nem Elina Fraga, nem Isabel Meirelles, para gerirem o meu voto. Nem o meu voto está ao serviço do PSD e daquilo que são as suas aspirações eleitorais, em 2019.

O PSD tem todo o direito de se reorganizar e, no quadro do que são as decisões dos seus militantes, pensar na forma como se vai apresentar aos eleitores nas próximas eleições.

Agora, não compreendo porque razão o Grupo Parlamentar deve agora lançar uma passadeira política para o novo líder de um partido que não é o depositário do meu voto, e do voto de muitos portugueses. A saída de Luis Montenegro do Parlamento, e a subordinação à força de muitos outros, da cena política, é assim uma traição ao voto de quem assiste à forma majestática como os partidos políticos ignoram o compromisso que assumem com os seus cidadãos, instrumentalizando-o em função daquilo que são os seus meros interesses eleitorais. Os deputados estão ao serviço dos eleitores que os elegeram, e não dos partidos que os integram. A obrigação do novo líder do PSD passa assim por ser capaz de respeitar a autonomia do Grupo Parlamentar. O mesmo Rui Rio que alegou no passado que não abandonava a Câmara Municipal do Porto, para se candidatar à liderança do PSD, porque tinha um compromisso com a cidade, é o mesmo que exige, agora, que o Grupo Parlamentar se conforme, ao serviço dos interesses de uma nova direção, que os cidadãos não escolheram. É esta a nova ética que vamos ter na política?

Ninguém segura a fera…

Mário CentenoTomando como referência o comportamento assumido na Passagem de Ano, parece-me razoável que os serviços do Ministério das Finanças se preocupem com a segurança de Mário Centeno que, diga-se, mostra uma grande apetência pelo risco, e uma constante predisposição para não cumprir com os protocolos.

Adenda: Mário Centeno garante, a partir de Bruxelas, que a sua conduta é sempre escrupulosa. Lili Caneças confirma: “muita parra, pouca uva, é só show-off para as redes sociais“, afirmou, para quem a quis ouvir. António Costa reforça, “se a agarrou, ele lá teve boas razões para o fazer“. Da minha parte, in dubio pro Centeno, que sou um profundo respeitador das presunções jurídicas, e já vou percebendo que não devemos acreditar em tudo que as pessoas dizem por aí, é tudo fake news.

Costa, o poliamoroso

A eleição de Mário Centeno é a todos os títulos surpreendente, e uma boa notícia para os que, como eu, receiam de sobremaneira os danos que a Geringonça governativa pode trazer ao futuro do país. Mário Centeno, enquanto líder do Eurogrupo, será a voz e a locomotiva do Euro, sendo duplamente responsável por aquilo que forem as políticas de rigor a aplicar em Portugal face às exigências da moeda única. Merkel, Macron e Rajoy – e o próprio António Costa – subscreveram um swap para cobrir o risco-geringonça, limitando eventuais veleidades a que os dois últimos anos da legislatura poderiam convidar, por pressão do Bloco de Esquerda e do PCP.

Com esta indigitação, António Costa dá mais um sinal da sua enorme capacidade de viver em plena harmonia numa relação poliamorosa, capaz de fazer a quadratura do círculo entre os corredores austeritários do diretório europeu e a domesticada extrema-esquerda portuguesa, que mostra uma capacidade invulgar para ignorar o que for preciso desde que assegure algumas benesses para as suas corporações.

No início da Geringonça, sou sincero, receei que Portugal radicalizasse perante a chantagem da extrema-esquerda, forçando o país a rupturas complicadas com os compromissos europeus e transaccionais, como a NATO. Afinal, e apesar de não serem despiciendos os desequilíbrios provocados por algumas opções da Geringonça, exigidas pela extrema-esquerda e de alguma forma desejadas por algum PS, ainda assim, António Costa mostrou-nos que, afinal, comunistas e trotskistas não comem criancinhas ao pequeno-almoço, sendo relativamente ordeiros na hora de engavetar as suas ideologias.

Neste poliamor, a extrema-esquerda pelos vistos é apenas visita ocasional, embora alimentada a morangos e champanhe: claramente, o PS não está disposto a deixar de cuidar do equilíbrio do lar na grande casa europeia. Os moderados agradecem este seguro de vida que nos é oferecido na quadra natalícia. Ficamos a aguardar pelas reações das amorosas senhoras do Bloco, e daquele senhor amoroso que lidera o PCP.

Da ditadura do politicamente correto

Um país com a riqueza patrimonial de Portugal deve, na minha opinião, colocar os seus monumentos nacionais ao serviço dos agentes económicos, para que estes os rentabilizem, desonerando os contribuintes dos elevados custos de manutenção dos mesmos. Acresce que a riqueza dos nossos edifícios são um fator diferenciador de atração de Portugal ou dos países que, à nossa semelhança, souberam ao longo de séculos ocupar um lugar especial na História. A utilização dos espaços públicos para fins privados deve ser feita, obviamente, com regras e normalidade, e a lei aprovada em 2014 introduziu, precisamente, esse sentido de equilíbrio de permitir que, caso a caso, fosse definida a adequação do uso dos monumentos. A lei de 2014 não veio propriamente permitir a utilização privada dos espaços públicos, mas introduzir regras numa prática que já existia anteriormente, num ambiente, pelo que percebi, de alguma opacidade normativa – uma vez que antes de 2014 já era prática corrente em alguns monumentos realizar atividades diversas de natureza festiva ou cultural sem que preços, e cadeias de aprovações, estivessem devidamente previstas. Estranho? Não. Até os franceses, que não passam por dificuldades financeiras, e têm os seus monumentos entre os mais bem mantidos do mundo, rentabilizam o seu património, com grande extensão, como aliás poderão ver aqui, na página do Palácio de Versailles dedicado às “private functions.

O que é assustador nesta historieta toda é pensar como os nossos responsáveis (?) políticos vivem ao sabor dos caprichos das redes sociais, que verdadeiramente definem a agenda, o debate – e, mais grave, a ação política. Foi isso que assistimos aquando dos incêndios de Pedrógão. Ou no caso do Urban Beach, discoteca conhecida pelos seus constantes desacatos. Ou no famoso livrinho para-meninos-e-meninas da Porto Editora. Basta alguém indignar-se, incendiar as redes sociais, e tornar o assunto viral, para que as pernas dos nossos governantes tremam que nem as dos banqueiros alemães. Ao bom estilo Twitter Trump, António Costa rapidamente alinhou com a turba cega,  culpando os seus antecessores, numa lógica Lucky Luke, em que o passa-culpas é disparado twittado mais rápido que a própria sombra. Pelo caminho, fica uma sensação que a decisão não é ponderada, não é pensada, e não merece o tempo de amadurecimento normal nestas situações. O importante é o goofy manter o equilíbrio em cima da prancha, backside e a disparar para a direita, adiando a arrebentação. Pedrógão, Tancos, Porto Editora, Urban Beach, Legionnella, Panteão. Vamos então surfando na onda, até que ela arrebente. O mar, esse, tem andado agitado, e promete.

 

Para quando então os “calendários Pingo Doce”?

Um dos principais problemas de alguma academia portuguesa é o auto-deslumbramento e a sensação que têm que só alguns illuminati dominam a vanguarda de um suposto conhecimento, que partilham entre si em ambiente obscuro e reservado. O italiano Nuccio Ordine despertou a minha atenção há uns anos atrás quando ouvi a sua intervenção em Madrid, numa sessão apresentada pelo escritor Fernando Savater. Quem me conhece, sabe que tenho especial interesse pelas questões relacionadas com o ensino clássico, enraizado nas humanidades e na valorização das artes, e que sou crítico daquilo que considero ser uma excessiva focalização num ensino mais técnico, altamente especializado, que limita e muito a mundividência individual e a capacidade crítica.

Tenho de dizer que a sua apresentação e a leitura posterior da obra que a suportava se revelaram uma desilusão. Não porque o livro não seja apelativo, recorrendo a inúmeros exemplos e citações, mas porque os fundamentos me pareceram muito confusos, encaminhando-se para uma série de fórmulas simplistas que, reconheço, são perfeitas para agradar aos que se satisfazem com argumentos maniqueístas assentes na lógica dos contrários, ou raciocínios do tipo dialético ou binário. Por exemplo, apresentam-se os fenómenos de troca como se eles próprios não acrescentassem valor, para depois dar nota que o conhecimento e o ensino são o único investimento onde a transmissão de saber não se faz à custa do esvaziamento do outro – argumento em si próprio completamente utilitarista, que é a base da sua crítica ao famigerado “lucro”. Critica-se o utilitarismo, para depois se defender a utilidade de outras fórmulas de saber, espartilhando de forma selectiva o pensamento de vários autores, como forma de legitimar, name dropping, uma suposta tese.

Como tive oportunidade de escrever, algures num mural perdido no Facebook, a minha desilusão resulta da discordância em relação ao modo como Ordine apresenta a ideia de “lucro”, associado-a apenas a uma visão utilitarista, e negando a sua dimensão moral. Do mesmo modo que vejo com simpatia a apologia de certas fórmulas do conhecimento – que eu cultivo e considero valiosas para a formação da pessoa – discordo da forma antitética como se divide conhecimento “útil” ou “inútil”, sendo o “lucro” a medida da utilidade. Na minha forma de ver as coisas, o simplismo como alguns autores continuam a posicionar o debate em fórmulas do tipo dialético, para alimentarem uma ideia de “bem” e “mal” sanável apenas por via do conflito, há muito deveria ter desaparecido do debate intelectual, pois não têm aderência à realidade: nem o lucro tem uma dimensão meramente utilitária, nem há a priori nenhuma fórmula de conhecimento que não tenha em si um potencial lucrativo e, em simultâneo, usando a escatologia do autor, um intuito lúdico. Tão pouco se compreende porque raio é necessário fazer a apologia da inutilidade para apontar para a utilidade dos saberes clássicos, denegrindo fórmulas válidas e legítimas de conhecimento técnico que são o suporte do estado de bem-estar em que vivemos.

Sou crítico da escolha feita pela FFMS, que considero infeliz. Mas fundamento a minha crítica. Preferiria ver na Fundação debates que apontassem para a dimensão ética do lucro, e para as fórmulas que o desvirtuam; que alertassem para o potencial de criação que existe na cooperação humana e no conhecimento não tecnocrático. Preferia que a visão de sociedades sempre em conflito, em que a Academia é apresentada como uma vanguarda intelectual líder na resistência contra a “barbárie do mercado”, defendida por Ordine, ficasse claramente associada às correntes de extrema-esquerda, não sendo promovida por Fundações que têm um posicionamento de valorização do mercado e da vontade de criar. Gostava, finalmente, de não viver num país onde algumas pessoas se sentem deslumbradas por apresentar, quase em 2018, aquilo que esteve em voga em 2013, despeitando quem já teve oportunidade para se desapontar no tempo certo com fórmulas recicladas de dialéticas intelectuais enterradas no século XX. 

Há um aspeto lateral que constantemente me desilude: o preconceito intelectual. Quando hoje apresentei as minhas reservas ao convite feito pela FFMS a Nuccio Ordine, as respostas que tive do director científico da Fundação, Pedro Magalhães, demonstram um fechamento e um nível de preconceito que são incompatíveis com a função.

Para Pedro Magalhães, o CV de Ordine funciona como argumento de autoridade para refutar as discordâncias de fundo apresentadas, tendo tido a deselegância muito própria de menorizar sem argumentar aquilo que eu possa ou não conhecer do autor – agindo em completo preconceito e sobranceria, de quem se julga num pedestal. A riqueza argumentiva é reforçada com a convicção que tem de que o simples facto de Ordine ter sido convidado pela Fundação Pirelli o defende na sua opção, ao ponto de isso ser usado como argumento. O que me leva a pensar que, lá para o final do ano, talvez venhamos a ser brindados – aí sim, com o meu aplauso – com um “Calendário Pingo Doce”.

Um homem orientado para a ação, mas vítima constante de “falsas partidas”.

Em 2016, e no rescaldo de uma época de incêndios particularmente complicada, António Costa assumiu perante os portugueses estar “chocado” por, dez anos após a sua passagem pelo MAI, a suposta reforma florestal não ter sido feita. O entusiasmo para a ação que senti em muitos, faz um ano, dissipou-se numa estrutura da Proteção Civil que não conseguiu evitar que este tivesse sido o pior ano de sempre em matéria de incêndios, com poucos paralelos a nível mundial. António Costa, Ministro da Administração Interna em vários dos anos mais fatídicos da história dos incêndios em Portugal, responsável pela aquisição polémica dos meios aéreos Kamov, e pela adjudicação do famigerado SIRESP, veio ontem falar ao país, dando nota que “agora é o tempo de decidir e de executar”. Reforçou ainda que, tendo por base os relatórios independentes, é tempo de reavaliar os meios aéreos e as comunicações. Costa já geriu demasiados anos o tema dos incêndios. A reavaliação é necessária. Mas sem a sua intervenção. Mais de cem mortos depois, num país decente, António Costa não tem condições para liderar um processo que não foi capaz de gerir, por mais do que uma vez. Há alturas em que temos de ser capazes de dizer: basta!