Louçã, o bom pai de família

Há algo que me chamou a atenção na Convenção do Bloco: o papel assumidamente tutelar de Louçã, que se desmultiplicou em intervenções, recomendações e afirmações, qual pater familias, a explicar-nos o que o Bloco é, deve ser, e irá ser. Menorizando a liderança, retirando-lhe palco, enaltecendo as virtudes dos que são @s seus/suas discipul@s preferid@s. Toda esta performance teve lugar num ambiente de reverência embevecida dos media, que nunca questionaram Louçã pelo exercício desta magistratura honorária e quase aristocrática. Pensei para com os meus botões: “imaginem o que seria se Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas, ou até José Sócrates ou Carlos Carvalhas, assumissem idêntico papel nos seus partidos“. Pois é, o Bloco pode querer ser Governo, e até vir a ser Governo, mas o seu Congresso mostrou-nos uma organização que ainda funciona como um Kindergarten, em que políticos-mirim são levamos à escola pela mão do papá.

Anúncios

Frases que merecem respeito – 1

“A esquerda apaga a má impressão dos seus crimes acusando a direita de crimes futuros”.

Olavo de Carvalho

“Com a verdade me enganas”

45087167_10212872052011191_5691189279061966848_n

Há um dito da sabedoria popular portuguesa que resume bem um tipo de notícias que grassa por aí, como a que procurou passar a ideia que Paulo Portas seria, afinal, um adepto de Bolsonaro e das suas políticas: “com a verdade me enganas“. Não sendo tecnicamente “fake news“, na  prática, neste tipo de notícias, o que se faz é retirar uma frase do seu contexto, destacá-la, dando-lhe um sentido diferente e muitas vezes contrário ao que o seu autor lhe deu ou quis dar, no momento em que a proferiu.

Há muitas razões para que isso seja feito, por exemplo, para fazer um título apelativo, ou até para deliberadamente criar um facto político relevante, como parece ter sido o caso. As técnicas associadas ao “clickbait” nasceram inicialmente para gerar receitas online, mas rapidamente se tornaram num elemento relevante para gerar tráfego ou induzir pessoas em erro. No caso da desinformação, tal parte do princípio – correto – que muitos dos que hoje interagem com este tipo de notícia, não as lê, ou até, se deixa levar apenas pelo sentido perverso da manipulação do título.

Hoje, é preciso uma dupla atenção na leitura e reprodução do que quer que seja, pois, se a maioria das fake news são fáceis de identificar, na sua inverosimilhança, o mesmo já não ocorre com este tipo de manipulações subtis, associadas ao clickbait, ou, como se diz em português, “com a verdade me enganas“.

O mundo está perigoso. Como estava enganado Fukuyama quando decretou o fim da História…

Vodafone: Publicidade hipster ou enganosa?

Nunca percebi porque razão certas marcas optam por mensagens publicitárias que são depois inconsistentes com as características do produto ou do serviço oferecido. Em especial, faz-me confusão quando a promessa é feita nuns anúncios publicitários onde o humor e a sátira são a base da comunicação, com uns atores muito pós-modernos e fofinhos que nos procuram convencer que, afinal, no caso da marca X, as coisas funcionam obviamente de forma diferente.

A Vodafone lançou há uns tempos uma campanha super-agressiva onde nos procura convencer, com recurso ao humor, que ainda estamos a queixar-nos na net, e “eles” já estão à porta de nossa casa. Pois bem, viram aquele anúncio em que a Vodafone promete que aparece num instante? No meu caso, não apareceram. Nem avisaram. Nem recebi qualquer feedback. Depois de assinar o contrato, foram comprar tabaco e nunca mais voltaram. Em duas semanas, e após horas gastas em litigância com um call center, não consegui da Vodafone duas coisas simples: que me instalassem internet no escritório, e que me trocassem um smart router em casa.

O mais irritante é que os algoritmos passam a vida a propor-me a visualização do anúncio acima, o qual insiste igualmente em aparecer, diversas vezes, quando ao fim do dia, procuro desligar dos problemas do dia-a-dia.

Assim se destroem marcas ou, pelo menos, se atira dinheiro para publicidades desnecessárias, que só servem para criar falsas expectativas nos consumidores. Vou obviamente desligar o serviço, e entregar-me nas mãos de um fornecedor igualmente mau. Irei, em qualquer caso, escolher um operador que divulgue os seus produtos e serviços de uma forma sóbria, para não me sentir gozado quando vir a publicidade hipster da marca.

“O Triunfo dos Porcos”

Citar o “1984” de Orwell é hoje uma das receitas mais fáceis e preguiçosas que um qualquer Conde de Abranhos tem à sua disposição, chegada a hora de enquadrar, em duas penadas, aquilo que são as aspirações totalitárias de um Estado que tudo faz para nos vigiar.

O Conde de Abranhos, recorde-se, é uma personagem ficcional nascida da fértil imaginação de Eça de Queirós, um político medíocre (o Abranhos, leia-se), que, a despeito de uma licenciatura mal parida, não deixou de perceber que o uso da frase feita, das mesmas fórmulas repetidas até à náusea, e a prevalência da retórica, em detrimento das convicções, poderiam ser condimentos úteis para suportar as aspirações de quem quer apenas ter uma vidinha e ser um intelectual de pacotilha – entenda-se, de alcance regional ou paroquial. Uma das características principais do Abranhos passava por citar de forma acrítica certos conceitos religiosamente memorizados (a “sebenta”), para justificar e defender precisamente aquilo que estes visavam combater. Assim, uma das passagens mais hilariantes da vida política de Abranhos consistiu na utilização dos princípios basilares da Constituição liberal para defender e justificar a afirmação da Carta absolutista ou tradicionalista, sem que nisso encontrasse – nem ele, nem os seus pares – qualquer contradição.

Ao ler a mais recente repetição ad nauseam do argumentário Pachequiano, no Público,  e das reações acríticas de muitos dos seus leitores e pares, recordei-me do desabafo humorístico de um bom amigo que, nos tempos idos de 2010, o comparava ao Conde de Abranhos. Em boa verdade, só mesmo um Conde de Abranhos para dissertar a partir de Orwell, socialista encartado, fazendo do britânico um libertário e resistente, e da sua obra uma espécie de antecipação exacta de uma realidade que, merecendo reflexão, está longe de corresponder na íntegra ao que se alinhava em “1984”.

Não me interpretem mal: as distopias de Orwell são obras maiores, que merecem a nossa leitura e atenção. Há aliás uma de que gosto particularmente, e que também é frequentemente recordada e utilizada nas citações de pacotilha ou de bolinho chinês (sim, é uma piada ao que sobrou do Maoísmo). Vou assim, eu próprio, vestir a pele de Abranhos, para manipular torturar em benefício dos meus argumentos, “Animal Farm”, traduzida para português como “O Triunfo dos Porcos”, obra que sempre me atraiu, não tanto pelo livro, que li de uma assentada, mas pelo fascínio que me causou a sua adaptação em filme de animação.

“O Triunfo dos Porcos” é uma obra satírica que ironiza, sobretudo, com os idealistas do marxismo que se deixam deixaram capturar por um sistema corrupto e apenas movido pela retórica do Poder, um Poder que subjuga todos e expulsa os que, metaforicamente, não estejam dispostos a mover-se “sobre quatro patas”.

Se Pacheco Pereira poderia ser personagem de uma das obras secundárias do Eça, não hesitemos, poderia igualmente ser, indubitavelmente, um dos porcos do Orwell. Orwell, Orwell, como não recordar que Pacheco Pereira faz parte desse grupo de idealistas que, na juventude, sonhavam com uma sociedade igualitária? Ou, como nos dizia Orwell, pela voz das suas personagens suínas, uma sociedade onde uma elite não parasitasse à custa do esforço e do trabalho dos animais? À semelhança dos porquinhos Snowball, Napoleão e Squealer, Pacheco e muitos dos seus semelhantes perderam-se nos trilhos da vida, capturados pelo sistema que tanto juraram desmantelar e combater. Começaram com “duas”, mas rapidamente perceberam que é muito melhor narrar a Utopia, mas caminhar num estilo de vida “a quatro patas”. 

Qual Squealer (de todos os porcos, o mais dotado em termos de oratória, o “educador do povo”, aquele que se arrogava de “transformar o preto em branco” (sic), para muitos, a corporização suína do jornal Público/Quadratura do Círculo/SIC/DN/Sábado-e-lagartixas-e-mais-não-sei-o-quê Pravda), Pacheco Pereira dá-se ao trabalho de dissertar ecumenicamente sobre uma qualquer distopia totalitária, torturando o “1984” a seu bel-prazer, com truques de mágica e retórica, até concluir que, afinal, o corolário português das fake news e do Big Brother foram, pasme-se, a governação de Passos e Portas, cujo funeral o país já fez, mas que Pacheco teima em não deixa enterrar. Diz-me o esquilo Tico: se o Conde de Abranhos era capaz de justificar a Carta com os princípios da Constituição Liberal, e Squealer se gabava de fazer do preto, branco, porque não pode Pacheco Pereira arriscar e comparar Passos a Trump, fazer de Orwell um paladino crítico das fake news e de uma sociedade bafienta que – horror (!) – está a “destruir a mediações”, ou dizer que a mutação semântica da palavra “cortes” em “poupanças” mais não é do que uma conspiração orquestrada do um malévolo propagandista, em conluio com a comunicação social?

Já o esquilo Teco chama-me à razão: se a idade faz de nós condescendes, convém, ainda assim, fugir de uma postura, digamos, quadrúpede. Pelo que, qual King Bob, regressado do meu desterro, me apetece enaltecer: nem todas as formas de retórica devem merecer a nossa placidez. Passos e Portas não podem ser comparados a Trump. E a substituição da palavra “cortes”, por “poupanças”, não corresponde a qualquer newspeak, mas apenas a formas distintas, politicamente legítimas, de enfatizar as consequências da crise em que Portugal mergulhou, fruto de anos de má governação. Pois se não há dúvida que houve “cortes”, tão pouco podemos ignorar que esses cortes se materializaram em “poupanças”, poupanças importantes para se atingir o equilíbrio “orçamental”.

O que não dá para ignorar são as contradições insanáveis dos textos de Pacheco Pereira, que nem sequer se dá ao trabalho – por que em bom rigor, nem disso necessita – de manter a coerência interna do seu argumentos. Por um lado, fala na destruição das mediações, como corolário daquilo que considera ser a afirmação de um mundo totalitário, para adiante nos dizer que, afinal, é a comunicação social que compactou, na disseminação do lugar-comum. Como não dá para ignorar que o mesmo Pacheco que, recorrentemente nos aponta a emergência de uns media capturados, tem bancada e projeta-se em todos os grupos de comunicação social do país, da Impresa, à SONAE, à Cofina, até à Global Media, todos eles com ligações fortíssimas ao status quo. E mais exemplos poderíamos dissecar, se o tempo não tivesse – usando um dos clichês do economês – um elevado custo de oportunidade.

Tempo é dinheiro. Pelo que termino por aqui. Não sem rematar, como se exige em qualquer dissertação barata que se apropria de Orwell, com a frase que se impõe. Orwell escreveu uma distopia, nós vivemos nessa distopia. Estava certo, e seguramente escreveu “O Triunfo dos Porcos” a pensar no Portugal de hoje: “Todos os animais são iguais. Mas uns são mais iguais do que outros”.

São os partidos donos do Parlamento?

Em 2015, o PSD apresentou-se ao eleitorado em listas conjuntas formadas a meias com o CDS-PP. Foi num determinado núcleo de deputados que votei, agregados na PaF, e são eles os depositários do meu voto. O meu voto foi para uma legislatura, e não para que a quase dois anos das próximas eleições o PSD ignore que, até lá, tem de respeitar o mandato dos eleitores. Não escolhi Rui Rio, nem Elina Fraga, nem Isabel Meirelles, para gerirem o meu voto. Nem o meu voto está ao serviço do PSD e daquilo que são as suas aspirações eleitorais, em 2019.

O PSD tem todo o direito de se reorganizar e, no quadro do que são as decisões dos seus militantes, pensar na forma como se vai apresentar aos eleitores nas próximas eleições.

Agora, não compreendo porque razão o Grupo Parlamentar deve agora lançar uma passadeira política para o novo líder de um partido que não é o depositário do meu voto, e do voto de muitos portugueses. A saída de Luis Montenegro do Parlamento, e a subordinação à força de muitos outros, da cena política, é assim uma traição ao voto de quem assiste à forma majestática como os partidos políticos ignoram o compromisso que assumem com os seus cidadãos, instrumentalizando-o em função daquilo que são os seus meros interesses eleitorais. Os deputados estão ao serviço dos eleitores que os elegeram, e não dos partidos que os integram. A obrigação do novo líder do PSD passa assim por ser capaz de respeitar a autonomia do Grupo Parlamentar. O mesmo Rui Rio que alegou no passado que não abandonava a Câmara Municipal do Porto, para se candidatar à liderança do PSD, porque tinha um compromisso com a cidade, é o mesmo que exige, agora, que o Grupo Parlamentar se conforme, ao serviço dos interesses de uma nova direção, que os cidadãos não escolheram. É esta a nova ética que vamos ter na política?

Ninguém segura a fera…

Mário CentenoTomando como referência o comportamento assumido na Passagem de Ano, parece-me razoável que os serviços do Ministério das Finanças se preocupem com a segurança de Mário Centeno que, diga-se, mostra uma grande apetência pelo risco, e uma constante predisposição para não cumprir com os protocolos.

Adenda: Mário Centeno garante, a partir de Bruxelas, que a sua conduta é sempre escrupulosa. Lili Caneças confirma: “muita parra, pouca uva, é só show-off para as redes sociais“, afirmou, para quem a quis ouvir. António Costa reforça, “se a agarrou, ele lá teve boas razões para o fazer“. Da minha parte, in dubio pro Centeno, que sou um profundo respeitador das presunções jurídicas, e já vou percebendo que não devemos acreditar em tudo que as pessoas dizem por aí, é tudo fake news.