Vai ficar tudo mal: a vertigem do Covid-19

Anunciar a evolução do número de novos casos sem associar o crescimento no número de testes realizados é uma má prática que continuamos a difundir diariamente.

Estranharia que no mundo hoje não estivéssemos a conseguir fazer muito mais testes do que em Abril deste ano. A consequência de se fazerem mais testes é que, necessariamente, há mais casos positivos identificados, por comparação com o pico da crise em Abril. Do mesmo modo, não é líquido que o aumento da testagem a nível mundial não tenha sido acompanhado de uma perda de eficácia, resultante da (má) qualidade de alguns testes, ou até, das suas características (rapidez e simplicidade por vezes implica menos rigor na testagem), com necessário impacto nos chamados “falsos positivos”, ou seja, pessoas que tendo testado positivo, efetivamente não estão com o vírus.

Não me interpretem mal: é importante monitorar a evolução da doença, e rastrear é fundamental; sou totalmente a favor da testagem massiva. Os testes são uma componente essencial da gestão duma pandemia.

Agora, estar diariamente a endeusar estes números e a difundi-los de forma alarmista e até à náusea, sem os interpretar à luz de outros dados bem mais relevantes – como o número de mortos, a sua faixa etária, morbilidade, internados, internados em UCI – é próprio de uma sociedade masoquista dominada pelo pânico.

Ética a Nicómaco

Manifestação 1 de Maio 2020

Na sua obra, “Ética a Nicómaco“, Aristóteles mostra-nos como o caráter é resultado de nossos atos, “o nosso caráter é o resultado da nossa conduta“, escreve-se. A virtude está ao nosso alcance, do mesmo modo que o vício. E se está ao nosso alcance, agir, existem situações em que o imperativo ético passa para por não-agir, quando as circunstâncias nos dizem que a nossa obrigação é simplesmente, não actuar, por exemplo se de uma dada ação resultar um resultado vil. No plano político e cívico, aquilo que temos assistido com as comemorações do 25 de Abril e, hoje, do 1 de Maio, mostram como alguns responsáveis políticos, que se consideram guardiães da ética republicana, usando o ascendente que têm sobre gente que há muito deixou de pensar, pervertem o regime, uns, na sua pulsão para a ação, outros, simplesmente na sua cobardia, que seguramente Aristoteles classificaria de vil.

Fui a favor do confinamento em Março, por considerar que tal se afigurava necessário e proporcional para travar a pandemia e organizar os serviços de saúde. Logo nessa altura comecei a alertar para o bloqueio que o medo estaria a criar nas pessoas, sendo por isso necessário começar a organizar os mecanismos de confiança para, na medida do possível, voltamos à normalidade.

Desde Março inúmeras liberdades foram suspensas. Liberdades de circulação, liberdades económicas, a possibilidade de trabalhar e garantir o sustento para os seus. Liberdades religiosas, tão essenciais para muitos como as necessidades materiais. O Estado tem exigido muito de todos, ao ponto de não permitir sequer que as pessoas se despeçam das que lhe são próximas, limitando significativamente os funerais, uma restrição de uma enorme violência para os que nestes tempos viram os seus partir. Tenho concordado e subscrito as dificuldades que o governo de Portugal enfrenta na gestão de uma crise com poucos meios, com uma população amedrontada, e onde existem inúmeras incertezas. Procuro dar o meu contributo (aqui, aqui, e aqui) na criação de uma opinião que ajude os portugueses a libertar-se do medo, e a organizar um regresso a uma realidade que vai ser de uma dureza nunca vivida por várias gerações de portugueses.

Dito tudo isto, não posso deixar de me entristecer com esta ação do 1 de Maio, que a par das celebrações do 25 de Abril, exibem um regime que está caduco e aprisionado. Os sindicatos em Portugal com estas ações mostram que não são solidários com o país e que no seu autismo tudo farão para nos arrastar nas suas caricaturas e decadência. Só líderes políticos eticamente maus, ou fracos, aceitam na sua magistratura este estado de coisas.

“Longos dias têm 100 anos”

Há dez anos atrás, vivia eu paredes meias com o Museu que perpetua a obra magnífica de Vieira da Silva e do seu marido, Arpad Szenes, choquei com uma biografia escrita nos anos 80, por Agustina Bessa-Luís, “Longos dias têm 100 anos“, onde a propósito da personagem ficcional e idealizada da pintora, a escritora partilha connosco um pensamento que se renova e reinventa nos tempos que hoje vivemos:

“Ainda hoje sei muito pouco de tudo, o que me causa embaraço quando vejo a tremenda bagagem de conhecimentos que têm as pessoas. Se ouvirmos tudo o que se diz nos autocarros, nas praias, nas repartições, ao fim do dia podíamos escrever uma enciclopédia em vinte volumes e até ter êxito com ela. Não há nada de mais aceitável do que a pequena sabedoria, os amores confessáveis e as histórias de doenças”

Vieira da Silva 1

Não há sistemas de saúde robustos sem economias saudáveis. Portanto, a ideia de que estamos confrontados com uma escolha entre “vida” e “economia” é uma falácia do raciocínio, motivada em grande parte por razões ideológicas.

O que se está a passar radica noutro eixo de análise, e prende-se com a gestão da incerteza. Os países foram surpreendidos por um vírus que, devido às suas características, paralisou os decisores políticos. Estes, num cenário de incerteza, estão a procurar equilibrar as suas respostas de curto prazo com os impactos daí resultantes, no médio e longo prazos.

É pacífico que, em tese, se salvam mais vidas se houver um rápido processo de imunização nas comunidades, e nesse período, se protegerem os cidadãos de risco. A principal razão pela qual muitos países não estão a optar, nesta fase, por deixar o vírus expandir-se livremente, radica desde logo, no receio que uma expansão rápida (este vírus aparentemente tem uma grande facilidade de propagação) bloqueie a resposta hospitalar, ou infecte demasiados cidadãos de risco antes de se atingir a imunização (sobretudo em comunidades onde não é fácil separar e proteger os cidadãos de risco, por razões culturais). O que foi assistimos em Itália, nas duas primeiras semanas de Março, foi decisivo para as opções que, um pouco por todo o mundo ocidental, começaram a ser tomadas, há duas semanas atrás. A Itália tem um bom sistema de saúde, pelo que a dificuldade que tiveram em gerir um pico da pandemia, e os relatos assustadores que fomos recebendo, deixaram apreensivos decisores políticos que temeram que nos seus países, menos preparados do que a Itália, um aumento da procura bloqueasse a resposta hospitalar e tratamento dos doentes mais graves, sejam vítimas de COVID-19 ou de qualquer outro tipo de doença.

O desafio, hoje, umas semanas já decorridas, não passa por entrar em disputas ideológicas sem sentido, ou recriminações maniqueístas e de falsa moralidade sobre as opções disponíveis. A economia de mercado estava a funcionar em pleno, e esta crise resulta, apenas, das dificuldades – com a quais temos a obrigação cívica de ser solidários – dos decisores políticos gerirem um fenómeno de incerteza que mexe com aquilo que nos é mais caro: a saúde e a sobrevivência.

O desafio, depois desta crise, não é pensar qual é o papel do Mercado, mas do Estado e das nossas comunidades, a quem compete antecipar e gerir estas crises. Neste momento, há que manter a coesão, temos de com serenidade e abertura de espírito fazer um esforço grande – TODOS – para minimizar os prejuízos o os impactos que as medidas de curto prazo, que tenham de ser tomadas, possam ter no médio e longo prazos. Esse exercício de equilíbrio é fundamental, porque todas as decisões que tomarmos hoje, terão, pela positiva ou pela negativa, consequências no nosso Futuro, não apenas num Futuro longínquo, mas já amanhã. Longos dias têm 100 anos, mas que, por esta vez, saibamos aprender com os erros, e começar, já amanhã, a construir o Futuro. Que saibamos aprender as lições, ser “como o frade no seu horto, [acordando] sempre a horas, (…) [retomando] a palavra que tinha começado muitos anos antes”, honrando a memória daqueles que, com engenho e arte, nos ensinaram grandes lições, não nos deixando ofuscar pela espuma dos dias e pelas névoas do medo e do ressentimento:

“Longos dias têm cem anos”. Assim me diziam quando se tratava de protelar um assunto, de o fazer amadurecer na lânguida separação do inadiável. E os longos dias passavam, carregados de justo sentimento pelas coisas que devíamos fazer de maneira lesta e durável. Às vezes, não se faziam nunca. Outros planos, mudanças, resistências, vazios súbitos do coração, que é quem nos comenda o trabalho e a fantasia. “Longos dias têm cem anos”. Era uma admoestação e uma ironia para o preguiçoso inveterado que num século acha tempo adequado para os seus projectos e a combinação laboriosa que os acabe.

O caminho para a servidão

Bastou um vírus e a inevitabilidade de provisoriamente convivermos com ele, para que rapidamente boa parte da nossa sociedade tenha capitulado e desenvolvido pulsões totalitárias. Ironicamente, não vem do Estado essa vontade de ir mais longe na compressão dos direitos, nem (apenas) de militantes da esquerda radical. São os cidadãos, alguns deles a militar supostamente na liberdade, a rasgar as vestes em defesa de soluções securitárias, exigindo ao Estado sevicias e outro tipo de humilhações, em troca da eliminação completa do novo coronavírus da face do planeta e da possibilidade de regressar à vidinha.

Ontem havia quem exigisse a demissão da Provedora de Justiça, referida como “mera licenciada em Direito“, por ter dado provimento a queixas contra a DGS. Houve quem tenha ido mais longe, exigindo a “detenção da Provedora“, para evitar que ela exerça aquilo que é suposto: ser o garante da Lei e da sua aplicação pelas entidades administrativas, neste período excepcional que vivemos, de Estado de Emergência. Pela manhã, acordei com o pedido de vários twitternautas, de que pudessem ser libertados do Estado de Emergência, mediante apresentação de um certificado sanitário, de que já estariam imunizados face ao novo coronavirus. O zénite, porém, encontrei-o nas palavras de uma cidadã desesperada, que diz estar disposta a “prescindir da sua privacidade“, defendendo soluções semelhantes às da China e de Israel no combate ao COVID19, para concluir o seguinte:

Se o preço a pagar para deixarmos de estar todos confinados em casa, for cada um de nós permitir o acesso aos seus dados pessoais para que as autoridades consigam mapear o nosso dia-a-dia, terem acesso a onde e com quem estivemos para conseguir identificar novos focos de propagação da doença, contem comigo!

Eu cedo já a todas as autoridades o acesso a todas as minhas contas e perfis digitais se a partir dessa cedência elas fizerem o seu trabalho que é controlar cada um de nós para um bem comum.

Pelo bem de todos, eu cedo os meus dados!

A liberdade que hoje temos foi conquistada a pulso, ao longo de séculos. Muitos milhões de pessoas morreram, para a defender e conquistar. Muitos suportaram bombas, trincheiras, fome, perseguição. Todas estas atitudes de capitulação são degradantes e insultam a memória dos que, antes de nós, nos entregaram tão valiosa herança. Temos um sistema imunitário muito vulnerável, não ao COVID e outras patologias, mas ao medo que está a corroer as bases das sociedades livres.

Na sua obra “O caminho para a Servidão“, Hayek constatava algo que é hoje visível: a luta pela segurança tende sempre a ser mais forte do que o amor à liberdade. Considerava ainda ser sensato sacrificar temporariamente a liberdade de modo a garanti-la no futuro. Mas também nos recordava que, se a longo prazo, podemos ser os criadores do nosso destino, no imediato, somos escravos das ideias que criamos. Há nesta pandemia um lado incerto, uma ameaça que nos pode paralisar, mas devemos saber que não viveremos melhor no futuro se prescindirmos de aquilo que nos trouxe até aqui, evolução, progresso, bem estar, construídos em liberdade. “Uma civilização complexa como a nossa baseia-se necessariamente no ajustamento do indivíduo a mudanças cuja causa e natureza ele não pode compreender“, escrevia Hayek. Se o futuro é incerto, pelo menos, saibamos confiar nas nossas convicções. São elas que nos devem guiar. A servidão não é o caminho.

Esta crise resulta de uma falha de Estado, e não de Mercado

O governo nesta fase deveria procurar não acicatar os ânimos, para poder recolher a base de apoio alargado necessária para rapidamente encontrarmos uma saída para o pandemónio em que caímos por causa da pandemia do novo coronavírus. Como escrevi na semana passada, em artigo publicado no Observador, em conjunto com o André Azevedo Alves, o regresso à normalidade terá necessariamente de ocorrer antes da pandemia estar erradicada, pelo que é fundamental que haja boa comunicação, sobriedade, e capacidade de liderança.

Ora, durante o debate parlamentar, António Costa não resistiu à pequena picardia de sinalizar como iliberal, no contexto desta crise, a procura de respostas por parte do Estado para o problema económico resultante das medidas draconianas de isolamento e restrição à circulação e à liberdade económica que foram decretadas como resposta à pandemia do novo Coronavírus.

As afirmações do senhor primeiro ministro – que alinham com as de muitos que à esquerda ainda não perceberam as raízes desta crise – convidam-me a recordar que esta crise em nada se deve a uma falta de resposta da economia, que estava a funcionar sem problemas, sendo antes politicamente motivada, sobretudo por decisões de governantes europeus e norte-americanos a quem cabe assegurar a Saúde Pública, prevenir a resposta a pandemias, combater as fake news, e manter a normalidade. Vale a pena lembrar que outras economias de mercado – como a Coreia do Sul, ou o Japão, vítimas da pandemia várias semanas antes do que nós, na Europa, e na América do Norte – foram capazes de encontrar soluções de resposta bastante mais equilibradas, e causadoras de bastante menos prejuízos e restrições do que as que temos vindo a sofrer.

Esta crise resulta de uma falha de Estado, e não de Mercado.

Temos estado todos pacientes e bastante unidos, a arcar com os prejuízos de decisões que terão o seu tempo certo para serem analisadas e avaliadas. Mas atenção, não há nada de iliberal em o Estado incluir nas medidas de resposta à crise soluções para as empresas que estão simplesmente impedidas de laborar, por decisão estatal cujos méritos todos temos aceitado nesta fase não questionar ou discutir. Grande parte da irresponsabilidade política desta crise nem sequer se deve, por esta vez, à nossa governação, podendo ser endereçada a outros países com bastantes mais responsabilidades globais, e de quem se exigia mais. Portugal tem por isso ainda mais razões para se manter coeso, e sem entrar em divisões artificiais.

Portugal precisa de lideranças sóbrias para sobreviver, não à pandemia, mas ao pandemónio que entretanto se montou à volta deste vírus. Haverá um tempo de balanço, para em serenidade avaliarmos o que falhou. Até lá, temos de tentar em conjunto, todos, salvar o máximo e minimizar os danos, no que seja possível. Tal passa por o Estado organizar o mais depressa possível a resposta hospitalar, os centros de rastreio que necessita, e os planos de contingência para os diversos cenários, para poder voltar a libertar a sociedade, que permanece aprisionada, com prejuízos inevitáveis que, sejamos realistas, dificilmente o Estado conseguirá cobrir. O que se pede ao senhor primeiro ministro é que, além de liderar, devolva em civismo aquilo que tem sido o apoio de todos na resolução de um problema que os poderes políticos criaram, e que todos estamos a ter de suportar.

As árvores morrem de pé

Debater a eutanásia de uma forma panfletária ou seguindo um guião ou uma cartilha não me entusiasma. Não tenho frases eloquentes para escrever sobre o tema, nem estou seguro que seja possível ter respostas translúcidas para um dilema que é íntimo, de humanidade, e que se coloca no epílogo da vida. Com total honestidade, não tenho orgulho na minha posição, nem um libelo acusatório para quem sobre este tema pense diferente. Há muito que não tenho paciência para a Constituição, e já não sei bem o que é juridicamente um “direito absoluto”. Cada vez respeito mais a complexidade que é lidar com a dor, o sofrimento e a exigência de carácter que tal implica. Fico aliás estupefacto com a aparente facilidade com que tantos em ambas as barricadas são capazes de dissertar sem dúvidas sobre alguns dos assuntos que, para muitos de nós, humanos com sentido e consciência, mais nos tiram o discernimento: o sofrimento na doença e a hora da morte. Admito que esta degenerescência no debate seja mais um sinal dos tempos, onde na Torre de Babel em que voluntariamente nos fechamos se escreve muito mais para os que compreendem a nossa linguagem, para alicerçar agendas, e bastante menos para analisar o próprio tema e construir as pontes que, desejavelmente, deveriam ser o suporte das soluções em sociedades plurais, tolerantes e saudavelmente recheadas de diferenças.

Da minha parte, espero ter sempre força e ânimo para que a doença não me vença, ser capaz de dar sentido à dor e ao sofrimento para nunca desejar a morte. Espero que quando os meus olhos se apaguem possa ver uma luz na escuridão e sentir o calor de uma mão amiga, familiar, de alguém que me ame. Espero nas minhas limitações físicas ouvir ao longe um eco ensurdecedor de todos os que me rodeiam. Espero morrer fisicamente esvaziado mas com o coração cheio de amor.

Tenho medo que a hora da minha morte seja precedida de um hiato silencioso, suspensa por um derradeiro ato burocrático, em que pessoas que me desconhecem procurem avaliar na minha fragilidade se ainda existe uma réstia de discernimento e capacidade para decidir o meu caminho. Tenho medo de morrer desejando a morte, aguardando a minha viagem final um salvo-conduto, cheio de carimbos e autorizações. Assusta-me pensar que posso vir a morrer sozinho, com as mãos vazias e geladas, desejando uma injecção que me alivie a dor de me ter tornado dispensável e não amado. Espero, se me faltar a força de espírito para querer viver, que a minha morte seja ao menos acelerada por um ato de amor.

Tenho medo de morrer sozinho, nas mãos dos que possam interpretar na minha fragilidade, a minha vontade. Espero que a minha morte não implique o preenchimento de mais um formulário passível de copy-paste, sujeito a apostilha e imposto do selo.

Quando debatemos a eutanásia, não falamos hoje todos a mesma linguagem, nem partilhamos os mesmos valores. Para muitos (desconfio ainda assim que cada vez menos), a recusa da eutanásia passa por não se aceitar que a vida possa ser disponível às mãos dos nossos semelhantes. Para muitos, como eu, viver é um ato de responsabilidade, cujas incidências aceitamos, mas cujo fim não nos compete comandar. A minha vida não me pertence, sou apenas o seu guardião, não tendo por isso a liberdade de decidir quando ela começou, ou quando terá de acabar.

A cultura dominante porém hoje recusa crescentemente esta visão. A liberdade para dispor integralmente do próprio corpo é algo que hoje se assume como um pressuposto na discussão, e que a maioria considera já como um dado de partida. Viver já não é uma responsabilidade, mas apenas um direito. Somos além disso cada vez menos preparados para aceitar o sofrimento inevitável, para lhe dar sentido, para saber viver em alegria na fragilidade, mesmo quando a marca da dor é muito forte. Na cultura dominante são aceitáveis fórmulas de sofrimento, se forem desejadas, no desporto, no trabalho, até nas nossas vidas íntimas, mas paralisamos se elas resultarem das circunstâncias de uma vida onde a fragilidade e a decadência físicas são incontornáveis. Acresce que com a evolução tecnológica e científica a nossa esperança de vida tende a aumentar exponencialmente, mas muitas vezes num contexto de limitação e doença prolongada muito exigentes para cada um de nós, para os que nos rodeiam – e para o chamado “erário público”.

Ora, no contexto cultural e social em que vivemos, dificilmente a eutanásia deixará de se impor no curto prazo, seja nesta legislatura, seja numa legislatura próxima. Há muito que os valores dominantes estão alinhados para valorizar a recusa do sofrimento e o arbítrio da pessoa sobre a sua vida e o seu corpo, e cada vez mais a eutanásia e outras fórmulas de morte assistida ou facilitada serão a solução fácil para dar resposta às múltiplas circunstâncias às quais não vamos conseguir dar resposta. Mesmo muitos dos que hoje têm medo da morte ou a recusam, serão empurrados pelas circunstâncias para uma lenta e solitária decadência física, com falta de cuidados, progressiva ou até abruptamente abandonados à sua sorte. A eutanásia e outras fórmulas de morte assistida ou facilitada são hoje genuinamente vistas por muitos como expressões de livre arbítrio e, até, de misericórdia e generosidade; ora, estes sentimentos e convicções convenientemente acalmarão, no contexto das vidas de hoje, as consciências dos saudáveis, cegando voluntariamente a burocratização da morte. Se a vida – e todas as suas incidências – se tornou apenas num direito e não numa responsabilidade que nos vincula a todos, porque não associar a liberdade a um redentor sopro de morte?

O mundo que favorece a afirmação da eutanásia enquanto valor e enquanto expediente há muito que está a ser construído. Quem hoje o recusa, já só apenas resiste, pois pouco tem a propor à maioria que não compreende a sua linguagem. Agora, se as nossas convicções são fortes, e válidas, como acredito que são, temos de saltar os muros que nos isolam, sem saudosismos, e fugindo do conforto das frases feitas das soluções do passado que não respondem aos problemas do nosso tempo. E nisso há muito a fazer: há uma nova linguagem que importa construir, que motive as futuras gerações para sair das Trevas em que já estamos mergulhados. Até lá, resta-nos a dignidade de morrer de pé, como as árvores, firmes nas nossas raízes, esperando que a natureza se renove, afirmando um novo tempo.

One short sleep past, we wake eternally, / And death shall be no more, Death thou shalt die

Um sono curto passado, e acordaremos eternamente, / E a morte não o será mais, a morte morrerá

(John Donne)

 

Academia Insurgente

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Na quinta-feira passada, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, a nossa Graça Canto Moniz prestou provas de doutoramento, tendo sido aprovada por unanimidade, com nota máxima e louvor, por um exigente júri que incluiu três arguições. A Graça junta-se assim ao extenso quadro de honra de doutorados do Insurgente, sendo a primeira mulher insurgente a concluir com êxito provas doutorais. Em nome do coletivo Insurgente, parabéns!

Por um espaço de centro-direita em Portugal

Votei pela primeira vez em eleições legislativas no CDS, e não me arrependo. Como não se deve arrepender o partido de ter tentado ir além daquilo que era o seu nicho, e falar, não para dentro, mas para todo o espaço de centro-direita. Faz bem o partido em analisar o que aconteceu, desde janeiro deste ano, quando todas as sondagens apontavam para um resultado superior a 10%, tentando perceber que erros de percurso terão existido, mas também, porque razão, desde essa altura, boa parte do eleitorado de sempre do CDS entrou numa estranha autofagia, quase masoquista, como se crescer fosse em si uma heresia inaceitável.

Enquanto cidadão português, não militante de qualquer partido, espero que o espaço não socialista se reorganize, sem populismos, dogmatismos ou demagogias, de forma a voltar a ser uma alternativa relevante aos olhos dos portugueses. E neste processo de reorganização espero que o CDS não se deixe desanimar por um mau resultado, continuando a apostar na linha de renovação e abertura ensaiada desde 2015. Porque pior do que o resultado de ontem, será tentar fechar o CDS a uma série de bandeiras que, tendo a sua relevância, não são suficientes para dar corpo a um partido com expressão eleitoral. Os partidos servem para resolver problemas, e para representar pessoas. Para poder ser eficaz na defesa da missão e dos valores próprios do CDS, o partido terá de ser relevante, e para isso representar várias formas de ver o centro-direita. Terá de ser portador de uma forte mundividência, e não, ser sectário. Importa agregar, não dividir. Espero, assim, que os futuros líderes do CDS aspirem a representar vários grupos do centro direita, com abertura, cosmopolitismo e sentido de tolerância, com sabedoria e rigor técnico, para que possam ser uma força relevante e alternativa ao socialismo, abordando os temas de hoje, fugindo à tentação de se tornarem um partido de nicho, capturado e identitário, e por essas razões, necessariamente sem ambição nem expressão.

Os resultados da presente eleição, na sua distribuição de forças, e até na sua babelização, exibem uma completa capitulação moral do país, em detalhes que me escuso a comentar. Grande parte em qualquer caso da capitulação do eleitorado ao socialismo e a partidos estatizantes e protectores reside num medo patológico de enfrentar a mudança, de perder o pouco que se tem, que os partidos de centro-direita não souberam desmistificar, e até denunciar nos seus enganos. Em 1975, quando Portugal discutia a sua Constituição, e o socialismo nas suas diversas expressões se apresentava como via única para cumprir Portugal, homens de coragem souberam, com a sua voz, mostrar e pensar diferente. Lucas Pires, um amante da tolerância e das sociedades abertas, foi uma dessas vozes corajosas:

“(…) Se se quiser acabar com o medo como problema político, é pelo Homem e não pelo Estado que tem de se começar. O medo é, de facto, o peso e a sombra de um ente estranho e sobre-humano que nos ladeia e espreita desde a nascença. Ora a verdade é que o Estado só existe depois de pensado, só depois de nós (…)”.

Como em 1975, o CDS será relevante se souber mostrar às pessoas que o caminho para cumprir Portugal passa por recusar o socialismo, radicando no humanismo, na realização da pessoa face aos problemas contemporâneos, e só depois no Estado, que deverá ser pensado em função do Homem e da sua realização. Um humanismo porém que deverá ser tolerante, bebendo no pluralismo que é próprio das sociedades abertas, que os fundadores do CDS, e os seus líderes históricos, como Francisco Lucas Pires, tão bem souberam representar.

Porque devo votar no CDS? Onde posso encontrar conteúdos e informação à minha medida?

As redes sociais vieram aproximar as pessoas mas, numa certa medida, criaram também algum ruído que por vezes dificulta a comunicação. O mesmo se pode dizer dos media que, infelizmente, preferindo difundir fait divers, exibem níveis de captura que não ajudam os partidos fora do status quo a passar as suas mensagens. Não são poucas as pessoas com quem falo que criaram uma ideia menos positiva do CDS e das suas atuais lideranças, baseada sobretudo naquilo que são as posições veiculadas pelos seus opositores e críticos, e pelos media, sem contudo terem formado uma opinião a partir daquilo que são as propostas e a ação real do partido.

Da mesma forma, há os que me desabafam que não sabem onde podem encontrar informação e conteúdos sobre as propostas do CDS, para fazerem o seu próprio juízo e até as divulgarem a terceiros.

A boa notícia é que informação existe, está aí, disponível, em vários formatos, para quem quiser consultá-la e divulgá-la. O CDS produziu conteúdos claros, simples e não sensacionalistas que ajudam a perceber aquilo que tem a propor aos eleitores. Podem assim encontrar o CDS no Instagram (clica aqui), no Twitter (clica aqui), no Facebook (clica aqui), na página do programa Faz Sentido (clica aqui), e até no YouTube (clica aqui). Podem também receber aderir o canal do WhatsApp, enviando mensagem pelo WhatsApp para o número 935.450.529. Além do Programa Eleitoral, sempre mais denso e compreensivelmente menos consultado, mas que importa também divulgar, para os que gostam de analisar com detalhe.

Têm nestes links todos os conteúdos que necessitam para escolher em quem votar, em liberdade, e partilhá-los, para que ninguém se sinta desinformado ou influenciado pelo espírito negativista e enviesado que domina hoje as redes sociais e os media. Nunca se fez tanto para chegar junto dos eleitores; mas não esqueçamos, desde o PREC, nunca o CDS foi tão atacado.

Há por isso que fazer mais um esforço. Não se deixem enganar. O CDS preparou-se como nunca, com antecedência, com propostas consistentes e testadas, que servem melhor do que nenhum outro partido as aspirações de democratas-cristãos, conservadores e liberais, sem demagogia, propondo um realista desagravamento fiscal, mais liberdade na saúde, na educação, mais apoios para as famílias, para o mundo rural, apresentando-se com a equipa mais jovem de todos os partidos com assento parlamentar, e aquela que mais mulheres coloca, sem exigência de quotas, em posições de liderança e relevo, como são o caso das cabeças de lista em Lisboa e Porto, os dois maiores círculos eleitorais do país. A informação existe, está disponível, tudo se está a fazer para que não falte nada ao cidadão eleitor, em vários formatos, acessíveis a todos. Só falta agora que cada um de nós seja suficientemente responsável, se informe, e procure escolher, sem preconceito e em consciência. Divulgando uma mensagem e um voto que são tão importantes para combater a hegemonia da esquerda.

Sou liberal desde pequenino, e vou votar no CDS

Desde que tenho consciência política que sou liberal, no sentido clássico, e com o tempo fui desenvolvendo simpatias austríacas, radianas, straussianas e anarquistas-libertárias. As minhas referências são por isso díspares, porque o que sempre me fascinou no pensamento liberal é poder olhá-lo, não como uma prescrição ou imposição de adesão, mas como uma tradição multi-secular, construída em diversos contextos culturais e históricos distintos, uma tradição que me ajuda a compreender o mundo e a formar o meu próprio pensamento, respeitando valores essenciais, tendo à cabeça, a liberdade ao serviço da pessoa e da sua felicidade, o culto da excelência e da virtude, a propriedade, e a tolerância.

Aprendi empiricamente que as democracias liberais mais saudáveis são as que conseguem dirimir as suas desejáveis diferenças no quadro do pluralismo e da tolerância, razão pela qual nunca considerei interessante que os partidos ditos de “poder” – ou seja, os que têm de resolver os problemas concretos das pessoas, do Estado e das empresas – fossem excessivamente dogmáticos e fechados (não obstante ser importante terem referências claras), pois tal significaria que não seriam representativos da sociedade portuguesa, nas suas diversas aspirações e especificidades. Uma força política, ou um conjunto limitado de forças políticas, para agregar 40% do eleitorado, não pode encerrar uma linha dogmática fechada, sob risco de totalitarismo, ou de pelo menos uma certa ditadura da maioria. “Partidos de poder” demasiado homogéneos são um perigo para o pluralismo e para as democracias que genuinamente respeitam a liberdade (e talvez por isso haja tantas tensões quando as esquerdas e as direitas mais radicais ou partidos de vanguarda e as suas ideias, como o PAN, conseguem assumir responsabilidades no sistema político).

Leo Strauss, nos ensaios compilados na obra What Is Political Philosophy?, apresenta a meu ver corretamente o risco que se corre quando se procura enjaular uma filosofia política (como é o caso do liberalismo, mas também da democracia-cristã, do conservadorismo, ou de qualquer outra corrente do pensamento político relevante) nos limites da ação. Para Strauss, uma filosofia política mais não é do que um processo para a tomada de uma consciência genuína dos problemas, ou seja, dos problemas fundamentais e abrangentes. Ora, é impossível pensar nesses problemas sem que nos inclinemos para uma ou mais soluções típicas. No entanto, na busca da sabedoria, a evidência de todas as soluções é necessariamente menor que a evidência dos problemas. Portanto, para Strauss, uma base de pensamento tão ampla como o liberalismo deixa de ser filosofia no momento em que a certeza subjectiva de uma certa solução se torna mais forte do que a consciência do caráter problemático dessa mesma solução: é nesse momento que nasce o sectário. O perigo de sucumbir à atração de soluções é essencial para a filosofia, e é nessa validação com a realidade que se testa a atualidade e força das ideias. Mas é fundamental que uma filosofia política como o liberalismo permaneça afastada das capturas que possam reduzir o seu pensamento aos limites de uma seita, tornando-o sectário, no sentido que lhes é dado por Strauss, de redução das possibilidades. É por isso que, para mim, homo liberali, é muito mais interessante o processo do que as suas prescrições, e seguramente mais apelativo poder estar em diálogo com várias forças políticas, procurando divulgar os valores essenciais da filosofia liberal, do que barricá-lo nas fronteiras de um só partido, de “nicho” ou “vanguarda”. O mais importante para mim tem sido perceber como uma mundividência liberal pode influenciar a procura da soluções para os problemas, por parte dos partidos que exercem o poder, e não tanto fazer do liberalismo, poder, ou uma doutrina ou ideologia orientada para a ação, prescritiva e encarcerada numa lógica partidária necessariamente sectária que lhe limite as possibilidades e ponha em causa o pluralismo. São estas as razões de fundo que me têm levado, desde que me lembro, a ser abertamente contra a existência de um partido liberal, e infelizmente algumas expressões recentes da realidade têm acentuado as minhas reservas.

Durante vários anos, o PSD soube ser um partido interclassista e agregador de diversas mundividências políticas, que incluíam sociais-democratas, católicos, liberais, mas na sua maioria, sobretudo gente que sem grandes preocupações ideológicas acreditava no humanismo e na liberdade, por oposição a uma sociedade liderada pelo Estado. Foi este PSD o partido depositário do meu voto ao longo de 25 anos. Infelizmente, o PSD está a ser vítima de uma luta fratricida entre facções geriáticas rivais que, com claro prejuízo para o país, o empurrou para uma autofagia que o afasta, nas presentes eleições legislativas, do seu papel de liderança e alternativa ao socialismo e à Geringonça. O PSD fechou-se a todos os que não alinhem na linha única dominante. O PSD não é hoje um partido motivado para liderar o país, simplesmente porque prescindiu de ser a força política representativa de diversos grupos essenciais para assegurar o pluralismo e o sentido de representação necessários para ser governo.

A perda de relevância eleitoral do PSD deixou uma boa parte do eleitorado de direita órfão e sem representação, apesar de não faltarem partidos emergentes que disputam esse espaço deixado vago: Aliança, Chega e Democracia 21 não têm mostrado capacidade de afirmação, e ficarei surpreendido se conseguirem eleger algum deputado.

Seria importante, a meu ver, que o fechamento do PSD não se traduza numa desmobilização do eleitorado que recusa o socialismo e as extremas-esquerdas, ou na sua transferência para o voto excêntrico. Pela minha parte, e à semelhança do que ocorreu nas últimas autárquicas e europeias, irei entregar o meu voto ao CDS-PP.

O CDS, sob liderança de Assunção Cristas, tem feito um grande esforço de abertura, para ser mais abrangente e poder representar diversas formas de viver a direita. O CDS é hoje um partido com lideranças jovens mas preparadas, aberto a conservadores, democratas-cristãos e liberais, um partido sólido e trabalhador, como tem sido visível, quer na boa performance da sua líder nos diversos debates ocorridos até à data, quer no seu programa eleitoral, preparado durante mais de dois anos por uma equipa ampla e plural liderada pelo Adolfo Mesquita Nunes. O CDS preparou-se com seriedade para ir mais além, e ser alternativa para os que, como eu, hoje, à direita, não se identificam com o atual PSD.

Não deixa de ser irónico que a ambição do CDS, de ir mais além na sua capacidade de representar mais gente à direita, seja hoje apontada como uma fragilidade. O CDS tem hoje um discurso e um programa que, não traindo aquilo que é a sua matriz essencial e fundadora, se preocupa – e a meu ver, bem – com as soluções que propõe para os problemas de um eleitorado que quer mais liberdade na educação e na saúde, menos impostos, mais apoios para as famílias e para os idosos, soluções para o interior e para o mundo rural, e uma presença menos asfixiante do Estado nas suas vidas. O programa e as soluções propostas estão alinhadas com o cenário macro-económico vigente, exequíveis caso o CDS venha a integrar um governo, e perfeitamente coerentes com uma visão conservadora, democrata-cristã e liberal da sociedade e da política. Ora, num mundo dominado por redes sociais e bolhas de opinião, onde a conflitualidade separa mais do que agrega, o que vemos, afinal, são grupos de afinidade a demarcar-se, por entenderem que o CDS não é hoje suficientemente democrata-cristão, ou suficientemente conservador, ou suficientemente liberal, ou porque se “rendeu ao pragmatismo”, ou porque por algum detalhe transcendente frequentemente associado a infeções do umbigo, o partido e a sua líder não lhes serve. Existem hoje setores da sociedade portuguesa para quem trabalhar denominadores comuns não os motiva, preferindo uma balcanização ruidosa e de trincheira, ou até uma importação forçada de formas de ver o mundo que nada têm a ver com os nossos problemas e a nossa forma de estar e viver em Portugal, como trumpismos, bolsonarismos, voxismossalvinismos e orbanismos, entre outros ismos, com resultados que estão a ser catastróficos para a direita.

Como liberal, votarei neste CDS, pois considero que este é o partido que melhor se preparou para propor soluções eficazes que defendem a liberdade e a propriedade ao serviço da pessoa e da sua felicidade, num contexto de abertura e tolerância, acomodando soluções que deveriam servir bem a conservadores, democratas-cristãos, e liberais, e até sociais-democratas descontentes e todos os que não se revêem na Geringonça e no socialismo que quer ser homogéneo no país, pondo em causa o pluralismo e a liberdade. A (alguns d)os meus amigos liberais que, barricados ou mordidos por alguma vespa asiática, não deixam de me apontar o desconforto por haver que não adira em deriva coletiva ou osmose à sua mais recente paixão pela vanguarda partidária, desejo-lhes as maiores felicidades e sucessos, recordando que as ideias não têm donos, e as sábias palavras de Strauss, que verbalizam melhor do que eu, aquilo que penso:

The danger of succumbing to the attraction of solutions is essential to philosophy which, without incurring this danger, would degenerate into playing with the problems. But the philosopher does not necessarily succumb to this danger, as is shown by Socrates, who never belonged to a sect and never founded one. And even if the philosophic friends are compelled to be members of a sect or to found one, they are not necessarily members of one and the same sect: Amicus Plato.