Submissão ou Venezuela

Se você não leu Submissão, de Michel Houellebecq, vem aí um spoiler: no livro, a França se islamiza basicamente porque os muçulmanos compram tudo e oferecem esposas adolescentes. O islã pode triunfar como identidade, mas ele vem mais para garantir e reforçar o hedonismo flácido dos personagens franceses.

No romance, o islã se apresenta como alternativa de esquerda ao Front National. Vem na categoria “tudo menos o Front National”. Curioso é que as diferenças entre a “extrema” esquerda de Mélenchon e a “extrema” direita de Le Pen as diferenças são mais superficiais e cosméticas do que substanciais. Lição: não subestimemos o poder da cosmética, do tribalismo ideológico.

Contudo, suponhamos que o véu se rasgasse e Le Pen e Mélenchon dessem as mãos numa firme aliança contra o maldito globalismo capitalista. Em duas décadas, talvez pudéssemos andar por Paris e pensar: “O que faltava a Caracas era a Champs Elysées!”.

Diante de uma perspectiva como essa — e juntos, Le Pen e Mélenchon têm 40% dos votos; será que nesses 40% estão os mais jovens? —, vale a pena perguntar: o hedonismo flácido bancado pelo islamismo imperialista de Submissão é uma alternativa tão terrível?

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Hoje é feriado no Brasil: Tiradentes

O dia de amanhã, 22 de abril, é o dia em que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Por aqui, não é nem nunca foi feriado, embora de alguns anos para cá tenha passado efetivamente a ser, porque ao menos no estado do Rio de Janeiro foi criado o “dia de São Jorge”, que todos sabem efetivamente ser o dia de Ogum. E é verdade que, devido à mistura que o povo faz, mantendo a tradição dos escravos, entre entidades do catolicismo e do candomblé, as igrejas dedicadas a São Jorge ficam lotadas de fiéis do orixá africano.

Mas eu queria mesmo era falar de Tiradentes. Será que é conhecido em Portugal? Não faço a menor ideia. No Brasil, Tiradentes é um personagem talvez melhor conhecido do que o próprio imperador Pedro II. Isso porque, como Tiradentes opôs-se à monarquia portuguesa, virou ícone da república brasileira. Isso porque Tiradentes, enquanto acontecia a Revolução Francesa (foi degolado em Minas Gerais em 1792), queria instaurar uma república no Brasil.

O que nos dá o que pensar, talvez um pouquinho mais em Portugal do que no Brasil, é que o principal motivo do ressentimento contra os portugueses na região das minas era a cobrança de impostos. A Coroa portuguesa ficava com intoleráveis VINTE POR CENTO da produção de ouro. O marquês de Pombal, agravando a situação, decidira estabelecer metas de produtividade para o Brasil, e as autoridades deram início à “derrama”, que era o equivalente ao midnight knock on the door para ver se o sujeito tinha algum ouro em casa para enviar ao marquês de Pombal.

O que aliás me lembra que o prefeito de São Paulo, tão louvado como “gestor” quanto o velho marquês, acaba estabelecer uma multa de 100% sobre impostos sonegados — e na definição dele de “sonegação” estão honest mistakes da contabilidade. Suponho até que, em Portugal, como no Brasil, também aconteça esta maravilhosa inversão do ônus da prova: quando o Estado acusa você de não ter pago imposto, você é que tem de provar sua inocência, não o Estado que tem de provar a culpa do sonegador.

Mas divago. Talvez pudesse divagar mais, lembrando de George W. Bush prometendo em sua primeira campanha que “ninguém terá de pagar mais do que um terço de sua renda…” Imaginem isto, um sujeito em Minas Gerais, em 1792, sendo morto e esquartejado por ressentir-se de 20% de impostos, e de cotas de arrecadação.

Renaud Camus & Pat Buchanan

N’O Estado da Arte, blog do jornal O Estado de São Paulo, encontra-se um interessante perfil de Renaud Camus, candidato presidencial francês que sequer é chamado para os debates.

Confesso que a primeira vez em que ouvi falar em Renaud Camus foi num almoço com um amigo, diplomata brasileiro. Ele próprio, descendente de franceses, demonstrava interesse pela ideia camusiana do “Partido da In-Nocência” — não da inocência no sentido de não ser culpado, mas de não fazer mal. Primum non nocere.

Discordemos o quanto quisermos de Camus, claro, mas tentemos entendê-lo. E uma comparação que me veio à mente foi com o velho Pat Buchanan (ou apenas oito anos mais velho do que Camus). Buchanan foi assessor de Reagan, perdeu repetidamente as primárias republicanas para ser candidato, e ajudou a criar o Reform Party, tendo sido um dos primeiros “terceiros candidatos” de monta às eleições presidenciais americanas. Como Camus, também foi excluído dos debates televisivos, e era difícil não entender isso como um ato de prudência: como Buchanan era também apresentador do programa Crossfire na CNN, seria difícil superar alguém que já dominava toda a linguagem da TV.

Buchanan, porém, foi uma espécie de pioneiro do nacionalismo que hoje encontra em Camus um representante à direita de Marine Le Pen: defendia o poder dos sindicatos, queria que os EUA parassem de exportar empregos, era abertamente nacionalista. Denunciava os acordos multilaterais de comércio, e um de seus slogans era free trade is not free, no sentido de que o livre comércio custa algo a alguém — o importante era que o eleitor de Buchanan acreditasse que o outro é que estava pagando, talvez.

Contudo, Buchanan escreve muitíssimo bem. Pode não ser um mestre do estilo como Camus, mas tem clareza e teve a coragem de escrever um livro que sugere que a Segunda Guerra Mundial foi desnecessária. Deu-nos um dos melhores títulos do mundo, o de sua autobiografia: Right from the Beginning, ou Desde o começo, Certo desde o começo, e Direitista desde o começo.

Três anos antes do famoso Le Suicide Français de Éric Zemmour, Buchanan também escreveu Suicide of a Superpower.

Com a eleição de Trump, ficam as perguntas: Buchanan veio cedo demais para os eleitores? E Camus? Encontrará em Le Pen seu voto útil?

É muito melhor tentar entender essas figuras do que descartá-las — o que é óbvio quando dito assim, mas não quando se considera o tratamento que boa parte da mídia lhes dispensa.