Porque é que não se ensina política na escola?

O Agrupamento de Escolas Henrique Sommer ilustra bem porque é que a política, e por essa via a doutrinação, deve ser mantida fora da escola.

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Consequências do Brexit

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Em boa companhia com o Francisco Pereira Coutinho e com a Emelin de Oliveira, estarei em Santarém, no próximo Sábado, a dizer umas coisas sobre o Brexit. Não estou certo de que vá dizer algo de muito substantivo ou até relevante, muito menos acertado. Estou, portanto, no registo ideal para falar deste tema.

Temos médicos a mais ou a menos?

O meu ensaio deste mês no Observador foi sobre a falta, ou o excesso, de médicos. Há opiniões para todos os gostos, e há forma de o determinarmos. Não temos é (ainda) os dados para o fazer.

P.S. – Para quem não acompanhou, o do mês passado foi sobre as listas de espera no SNS.

Dois erros clamorosos

Quando, há um ano e pico, tomava café com um dos membros-fundadores do que seria mais tarde o partido Iniciativa Liberal, recordo-me de fazer dois prognósticos (ainda o jogo nem havia começado): 1) que nunca seriam um partido liberal, até porque há uma contradição insanável nos termos; 2) que muito provavelmente o partido iria ser canibalizado por progressistas, à semelhança do que aconteceu com o Movimento Liberal Social, transformando-se em mais um trampolim da esquerda. Disse, porém, que para terem o meu singelo apoio, pelo menos em espírito, bastava-me que fossem menos socialistas do que os outros. Desejei-lhe boa sorte e seguimos viagem.

Hoje, vendo em retrospectiva, temo que alguns destes prognósticos se estejam lentamente a materializar. Vejo na estratégia actual dois erros que me parecem ser absolutamente contra-producentes para os objectivos que serão — diria eu — os de um partido liberal. Um é um erro meramente comunicacional (sei bem que estão especialistas no assunto a definir o marketing político, mas ouso, ainda assim, dizê-lo). O outro é um erro de posicionamento ideológico.

O primeiro é a luta estéril pelo fim da destrinça esquerda/direita. Sabemos bem que a origem destes termos remonta à Constituinte da Revolução Francesa, que está desactualizado, que não reflecte as múltiplas dimensões políticas, etc e tal. Ainda assim, é espúrio um partido perder-se no diz e desdiz que não é de esquerda nem de direita. Os de esquerda dirão que afinal é um partido de direita com medo de o assumir; os de direita dirão que é um partido de esquerda encapotado. No meio ficam três ou quatro que votam de forma «pragmática», sem olhar a «ideologias», e que oscilariam entre BE e CDS só para garantirem a «rotação do poder».

O segundo erro é dedicarem grande parte do seu tempo e das suas energias a rebaterem conservadores, quando deveriam estar a rebater socialistas. Sempre me deixou perplexo o sectarismo que pautava a esquerda, com a troca de remoques — isto quando não escalava às trocas mais físicas — para saberem quem era verdadeiramente o digno mandatário do maoismo, do estalinismo ou de qualquer uma das correntes primogénitas do real socialismo marxista. Deixa-me agora perplexo que a luta se trave à direita (note-se que ainda coloco o IL nesta esfera), e que o IL faça do aborto, um tema que sempre dividiu liberais (Hobbes e Locke diziam que existe um direito inalienável à vida; JS Mill, pese embora o seu flagrante utilitarismo, era opositor declarado do aborto; já Rothbard, por seu lado, achava que o feto é um parasita no corpo da mulher, pelo que a decisão é da mulher), uma bandeira. Este tema, pelas suas implicações morais (e aqui faço a ressalva de que moralidade não implica religiosidade, algo que também parece apoquentar sobremaneira muitos membros do IL) deveria ficar à consciência de cada um, e se todo o partido votasse a seu favor, pois que assim seja, mas não por posição e imposição una do partido. Fazer do tema uma causa do partido é que me parece muito progressista — eis um raro instante em que um progressista, rejeitando a possibilidade de escolhermos a escola dos nossos filhos ou o hospital onde queremos ser tratados, fala de «liberdade de escolha».

Em suma, e espero estar enganado — escrevo isto na esperança de estar mesmo enganado —, o que está a acontecer em Portugal e, muito em particular, à Iniciativa Liberal, parece ser um remake do que aconteceu outrora nos EUA: tendo o socialismo se tornado uma palavra proibida, os progressistas açambarcaram o mais neutro termo liberal, estabelecendo aí a sua plataforma. Pode servir os interesses eleitorais, não serve é os interesses do país. Afinal, já temos partidos socialistas que cheguem.

Os fascistas do futuro

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Dizia Churchill (na verdade foi Ignazio Silone, embora não se saiba bem se Churchill alguma vez terá usado também esta expressão em discurso não registado) que os fascistas do futuro apelidar-se-ão de anti-fascistas. Curiosamente, os Antifa exibem justamente este comportamento fascista, procurando censurar e boicotar eventos dos quais não gostam, e o nome e as acções fazem mesmo jus ao prenúncio.

Seja como for, é muito preocupante que uma universidade, que deve ser um espaço de discussão, de pluralidade e de confronto de ideias, especialmente a KCL, pela sua notoriedade, compactue com coisas como esta, em especial com isto:

“Safe space” marshals are employed by the students’ union to patrol speaker events on campus where there is a potential for audience members to be offended.

Três séculos depois voltamos ao Obscurantismo, com o alto patrocínio das chancelas do regime. Depois admirem-se que os partidos populistas ganhem eleições e conquistem cada vez mais eleitorado.

O que se ensina pelas nossas escolas

O Gabriel Mithá Ribeiro dedicou a sua última crónica do Observador a relatar um revisionismo histórico surreal que podemos encontrar não no manual de história da China, como seria de esperar, mas num manual de história de Portugal, escrito por portugueses e leccionado por portugueses a pobres criaturas portuguesas.

Em causa está a forma assertiva com que os autores do manual de história abordam o Holocausto e todo o período do nazismo e a forma soft e descontraída com que se referem à China de Mao e aos mais de 60 milhões de mortos que esta causou — e que os autores estranhamente omitem.

Antes que uns tontos me venham acusar de nazi, deixo bem claro que a crítica é, obviamente, à forma eufemizada com que os autores do manual se referem ao maoísmo, e não à forma factual e detalhada com que se referem ao nazismo. Em particular, atente-se a estas duas passagens:

Sobre o nazismo alemão ensina-se que «O fascismo era uma doutrina antiliberal e antidemocrática. (…) Os movimentos fascistas perpetuaram-se no poder graças à organização de um sistema fortemente violento e repressivo (…). (…) Os judeus foram deportados para campos de extermínio nos quais ocorreu o genocídio de 11 milhões de pessoas, mortas nas câmaras de gás (polacos, eslavos, homossexuais, ciganos, opositores políticos, prisioneiros de guerra, deficientes). Seis milhões eram judeus» (pp.136, 142 e 147 – I Parte) [sublinhados meus para facilitar a comparação].

O mais relevante está aqui: um regime fascista, antidemocrático, facínora, que cometeu crimes contra a humanidade e em particular contra os judeus, tendo exterminado mais de 6 milhões nas câmaras de gás. Bastante fica por dizer, mas os detalhes mais relevantes, e mais sangrentos, não são omitidos.

Compare-se com a descrição do que foi a China de Mao, o Grande Passo em Frente e a Revolução Cultural, tal como relatado pelo Gabriel:

«A nação chinesa foi [ter sido]  mobilizada para um programa de desenvolvimento económico (…)» (p.72 – II Parte). Depois, vem a referência ao período das «Cem Flores» (1957) em que a violência do regime atingiu os que caíram no engodo do convite à crítica aberta, sendo referido que «(…) a contestação cresceu e o governo respondeu com repressão e purgas, em grande escala» (p.72 – II Parte). Sem mais. Não se referem ou mostram cadáveres ou os «laogai», os campos de reeducação e trabalho forçado da República Popular da China.

Como se não bastasse, refere-se ao período pós maoismo, encabeçado por Deng Xiaoping, como

Aos sucessores de Mao coube o desafio de modernizar a China e de integrá-la nos circuitos da economia mundial» (p.75 – II Parte).

Tudo está bem quando acaba bem. Perante um regime que condenou à fome milhões de Chineses, que matou dezenas de milhões de civis (não apenas em contexto de guerra), diz-se ao estudante que o governo respondeu com «repressão e purgas». «Repressão e purgas».

O resto está na crónica do Gabriel. Não obstante estes esforços para denunciar esta óbvia doutrinação, Che Guevara continuará a ser beatificado e descrito como um líder que inspira milhões de pessoas por todo o mundo, e o marxismo cultural travestido de «história» continuará. É o fado da civilização Ocidental, tão sequioso por se redimir de ser a civilização Ocidental.

What can’t be debated on campus

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Como sempre, e para o bem e para o mal, estamos 20 anos atrasados em relação ao resto do mundo, pelo que isto ainda é marginal em Portugal — mas já aconteceu. Recordemos a ejecção de Jaime Nogueira Pinto, por um grupo de alunos da FCSH-UNL, que conseguiu efectivamente que este não fosse discursar à conferência para a qual tinha sido convidado.

Já nos EUA, Canadá ou Reino Unido (nos países nórdicos já nem são precisas estas plataformas, já existe auto-censura), os movimentos de «No Platform» criam verdadeiras barricadas à liberdade de expressão, evitando assim que tudo o que saia da concepção de um certo grupo, vulgo do politicamente correcto, possa ser abertamente discutido. Fosse isto na Alemanha e falássemos alemão, eu arriscaria dizer que estávamos em 1937 ou 38, e que a queima de livros está na calha. Estamos em 2018, pelo que banem-se as pessoas de quem discordamos e proibem-se os livros com os quais não concordamos.

Enfim, a coisa é grave, mas como é óbvio ninguém em Portugal lhe vai ligar patavina, até que, um dia, esse alguém dê a sua opinião — nada mais do que a sua opinião — e seja objecto de um processo colocado pela Faculdade ou pela empresa porque foi «racista», apelou ao «discurso de ódio», foi «heteropatriarcal», entre outros epítetos.

Para quem ligar, que leia isto:

https://www.wsj.com/…/what-cant-be-debated-on-campus-151879…