Consequências do Brexit

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Em boa companhia com o Francisco Pereira Coutinho e com a Emelin de Oliveira, estarei em Santarém, no próximo Sábado, a dizer umas coisas sobre o Brexit. Não estou certo de que vá dizer algo de muito substantivo ou até relevante, muito menos acertado. Estou, portanto, no registo ideal para falar deste tema.

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Temos médicos a mais ou a menos?

O meu ensaio deste mês no Observador foi sobre a falta, ou o excesso, de médicos. Há opiniões para todos os gostos, e há forma de o determinarmos. Não temos é (ainda) os dados para o fazer.

P.S. – Para quem não acompanhou, o do mês passado foi sobre as listas de espera no SNS.

Dois erros clamorosos

Quando, há um ano e pico, tomava café com um dos membros-fundadores do que seria mais tarde o partido Iniciativa Liberal, recordo-me de fazer dois prognósticos (ainda o jogo nem havia começado): 1) que nunca seriam um partido liberal, até porque há uma contradição insanável nos termos; 2) que muito provavelmente o partido iria ser canibalizado por progressistas, à semelhança do que aconteceu com o Movimento Liberal Social, transformando-se em mais um trampolim da esquerda. Disse, porém, que para terem o meu singelo apoio, pelo menos em espírito, bastava-me que fossem menos socialistas do que os outros. Desejei-lhe boa sorte e seguimos viagem.

Hoje, vendo em retrospectiva, temo que alguns destes prognósticos se estejam lentamente a materializar. Vejo na estratégia actual dois erros que me parecem ser absolutamente contra-producentes para os objectivos que serão — diria eu — os de um partido liberal. Um é um erro meramente comunicacional (sei bem que estão especialistas no assunto a definir o marketing político, mas ouso, ainda assim, dizê-lo). O outro é um erro de posicionamento ideológico.

O primeiro é a luta estéril pelo fim da destrinça esquerda/direita. Sabemos bem que a origem destes termos remonta à Constituinte da Revolução Francesa, que está desactualizado, que não reflecte as múltiplas dimensões políticas, etc e tal. Ainda assim, é espúrio um partido perder-se no diz e desdiz que não é de esquerda nem de direita. Os de esquerda dirão que afinal é um partido de direita com medo de o assumir; os de direita dirão que é um partido de esquerda encapotado. No meio ficam três ou quatro que votam de forma «pragmática», sem olhar a «ideologias», e que oscilariam entre BE e CDS só para garantirem a «rotação do poder».

O segundo erro é dedicarem grande parte do seu tempo e das suas energias a rebaterem conservadores, quando deveriam estar a rebater socialistas. Sempre me deixou perplexo o sectarismo que pautava a esquerda, com a troca de remoques — isto quando não escalava às trocas mais físicas — para saberem quem era verdadeiramente o digno mandatário do maoismo, do estalinismo ou de qualquer uma das correntes primogénitas do real socialismo marxista. Deixa-me agora perplexo que a luta se trave à direita (note-se que ainda coloco o IL nesta esfera), e que o IL faça do aborto, um tema que sempre dividiu liberais (Hobbes e Locke diziam que existe um direito inalienável à vida; JS Mill, pese embora o seu flagrante utilitarismo, era opositor declarado do aborto; já Rothbard, por seu lado, achava que o feto é um parasita no corpo da mulher, pelo que a decisão é da mulher), uma bandeira. Este tema, pelas suas implicações morais (e aqui faço a ressalva de que moralidade não implica religiosidade, algo que também parece apoquentar sobremaneira muitos membros do IL) deveria ficar à consciência de cada um, e se todo o partido votasse a seu favor, pois que assim seja, mas não por posição e imposição una do partido. Fazer do tema uma causa do partido é que me parece muito progressista — eis um raro instante em que um progressista, rejeitando a possibilidade de escolhermos a escola dos nossos filhos ou o hospital onde queremos ser tratados, fala de «liberdade de escolha».

Em suma, e espero estar enganado — escrevo isto na esperança de estar mesmo enganado —, o que está a acontecer em Portugal e, muito em particular, à Iniciativa Liberal, parece ser um remake do que aconteceu outrora nos EUA: tendo o socialismo se tornado uma palavra proibida, os progressistas açambarcaram o mais neutro termo liberal, estabelecendo aí a sua plataforma. Pode servir os interesses eleitorais, não serve é os interesses do país. Afinal, já temos partidos socialistas que cheguem.

Os fascistas do futuro

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Dizia Churchill (na verdade foi Ignazio Silone, embora não se saiba bem se Churchill alguma vez terá usado também esta expressão em discurso não registado) que os fascistas do futuro apelidar-se-ão de anti-fascistas. Curiosamente, os Antifa exibem justamente este comportamento fascista, procurando censurar e boicotar eventos dos quais não gostam, e o nome e as acções fazem mesmo jus ao prenúncio.

Seja como for, é muito preocupante que uma universidade, que deve ser um espaço de discussão, de pluralidade e de confronto de ideias, especialmente a KCL, pela sua notoriedade, compactue com coisas como esta, em especial com isto:

“Safe space” marshals are employed by the students’ union to patrol speaker events on campus where there is a potential for audience members to be offended.

Três séculos depois voltamos ao Obscurantismo, com o alto patrocínio das chancelas do regime. Depois admirem-se que os partidos populistas ganhem eleições e conquistem cada vez mais eleitorado.

O que se ensina pelas nossas escolas

O Gabriel Mithá Ribeiro dedicou a sua última crónica do Observador a relatar um revisionismo histórico surreal que podemos encontrar não no manual de história da China, como seria de esperar, mas num manual de história de Portugal, escrito por portugueses e leccionado por portugueses a pobres criaturas portuguesas.

Em causa está a forma assertiva com que os autores do manual de história abordam o Holocausto e todo o período do nazismo e a forma soft e descontraída com que se referem à China de Mao e aos mais de 60 milhões de mortos que esta causou — e que os autores estranhamente omitem.

Antes que uns tontos me venham acusar de nazi, deixo bem claro que a crítica é, obviamente, à forma eufemizada com que os autores do manual se referem ao maoísmo, e não à forma factual e detalhada com que se referem ao nazismo. Em particular, atente-se a estas duas passagens:

Sobre o nazismo alemão ensina-se que «O fascismo era uma doutrina antiliberal e antidemocrática. (…) Os movimentos fascistas perpetuaram-se no poder graças à organização de um sistema fortemente violento e repressivo (…). (…) Os judeus foram deportados para campos de extermínio nos quais ocorreu o genocídio de 11 milhões de pessoas, mortas nas câmaras de gás (polacos, eslavos, homossexuais, ciganos, opositores políticos, prisioneiros de guerra, deficientes). Seis milhões eram judeus» (pp.136, 142 e 147 – I Parte) [sublinhados meus para facilitar a comparação].

O mais relevante está aqui: um regime fascista, antidemocrático, facínora, que cometeu crimes contra a humanidade e em particular contra os judeus, tendo exterminado mais de 6 milhões nas câmaras de gás. Bastante fica por dizer, mas os detalhes mais relevantes, e mais sangrentos, não são omitidos.

Compare-se com a descrição do que foi a China de Mao, o Grande Passo em Frente e a Revolução Cultural, tal como relatado pelo Gabriel:

«A nação chinesa foi [ter sido]  mobilizada para um programa de desenvolvimento económico (…)» (p.72 – II Parte). Depois, vem a referência ao período das «Cem Flores» (1957) em que a violência do regime atingiu os que caíram no engodo do convite à crítica aberta, sendo referido que «(…) a contestação cresceu e o governo respondeu com repressão e purgas, em grande escala» (p.72 – II Parte). Sem mais. Não se referem ou mostram cadáveres ou os «laogai», os campos de reeducação e trabalho forçado da República Popular da China.

Como se não bastasse, refere-se ao período pós maoismo, encabeçado por Deng Xiaoping, como

Aos sucessores de Mao coube o desafio de modernizar a China e de integrá-la nos circuitos da economia mundial» (p.75 – II Parte).

Tudo está bem quando acaba bem. Perante um regime que condenou à fome milhões de Chineses, que matou dezenas de milhões de civis (não apenas em contexto de guerra), diz-se ao estudante que o governo respondeu com «repressão e purgas». «Repressão e purgas».

O resto está na crónica do Gabriel. Não obstante estes esforços para denunciar esta óbvia doutrinação, Che Guevara continuará a ser beatificado e descrito como um líder que inspira milhões de pessoas por todo o mundo, e o marxismo cultural travestido de «história» continuará. É o fado da civilização Ocidental, tão sequioso por se redimir de ser a civilização Ocidental.

What can’t be debated on campus

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Como sempre, e para o bem e para o mal, estamos 20 anos atrasados em relação ao resto do mundo, pelo que isto ainda é marginal em Portugal — mas já aconteceu. Recordemos a ejecção de Jaime Nogueira Pinto, por um grupo de alunos da FCSH-UNL, que conseguiu efectivamente que este não fosse discursar à conferência para a qual tinha sido convidado.

Já nos EUA, Canadá ou Reino Unido (nos países nórdicos já nem são precisas estas plataformas, já existe auto-censura), os movimentos de «No Platform» criam verdadeiras barricadas à liberdade de expressão, evitando assim que tudo o que saia da concepção de um certo grupo, vulgo do politicamente correcto, possa ser abertamente discutido. Fosse isto na Alemanha e falássemos alemão, eu arriscaria dizer que estávamos em 1937 ou 38, e que a queima de livros está na calha. Estamos em 2018, pelo que banem-se as pessoas de quem discordamos e proibem-se os livros com os quais não concordamos.

Enfim, a coisa é grave, mas como é óbvio ninguém em Portugal lhe vai ligar patavina, até que, um dia, esse alguém dê a sua opinião — nada mais do que a sua opinião — e seja objecto de um processo colocado pela Faculdade ou pela empresa porque foi «racista», apelou ao «discurso de ódio», foi «heteropatriarcal», entre outros epítetos.

Para quem ligar, que leia isto:

https://www.wsj.com/…/what-cant-be-debated-on-campus-151879…

Europe’s submission to Islam: Houellebecq is the new Orwell

Um excelente paralelo entre 1984, de George Orwell, e Submission, do Michel Houellcebecq, que retrata uma França submergida ao Islão. Do escritor João Cerqueira, para ler aqui.

The novel Submission by Michel Houellebecq was criticized, and its author threatened, even before it was published. No price was put on the French writer’s head, as it had been with Salman Rushdie, but the fury of the Islamic community was enough for Houellebecq to cancel the presentation of the book and hide. Why? Does it offend Muhammad or ridicule believers? Distort the Islamic religion? Contains falsehoods? No. Submission shows just how France would be if an Islamic party, the Muslim Brotherhood, won elections. And the result would be that the lay, republican and democratic values of the West would be gradually replaced by Islamic law. France would begin to look like Saudi Arabia. Mandatory teaching of Islam for children, proscription of non-Islamic teachers, imposition of clothing standards for women, lawful polygamy, etc. That is, a regression and a nightmare for those who believe in freedom and human rights.

A doença do centralismo

Sim, a ideia de enviar o Capoulas Santos e o Ministério da Agricultura para a Zebreira ou o Vieira da Silva e o seu (com sentido de propriedade, mesmo) Ministério da Segurança Social para as ilhas Selvagens apraz-me de sobremaneira, mas não iria resolver o problema do centralismo. O problema do centralismo é outro. É este:

http://observador.pt/opiniao/a-doenca-do-centralismo/

Enciclopédia da União Europeia

Foi finalmente lançada a Enciclopédia da União Europeia, um compêndio de textos jurídicos e económicos sobre a génese, desenvolvimento e até sobre as crises a que a União Europeia, com todas as suas imperfeições, tem estado sujeita. Sem desprimor para os restantes, gostaria de destacar a coordenação do Prof. Francisco Pereira Coutinho, que me convidou a escrever duas entradas, uma sobre o Euro e outra sobre os Critérios de convergência.

Com todas as suas imperfeições, a União Europeia continua a ser um projecto altamente positivo para a paz e prosperidade dos seus povos.

O livro está à venda na editora Petrony.

Questões em aberto na Macroeconomia moderna

Há uma série de questões de investigação na área da Macroeconomia, em particular da Política Monetária e da Moeda, que me deixam sobejamente curioso. A primeira tem que ver com a forma como a inflação é medida. A forma mais usual é usar um índice de preços do consumidor (geralmente a versão harmonizada, o HICP). Isto ignora por completo as variações dos preços dos activos financeiros, o que não é de todo despiciendo, especialmente quando NASDAQ e S&P500 sobem 20% yoy, e os preços do imobiliário estão também em forte ascensão. Tudo isto pode ter um impacto muito grande na condução da política monetária por parte dos bancos centrais. Há argumentos interessantes de ambos os lados. Por um lado, faz sentido não incluir activos, se por inflação entendermos variações da unidade de conta (o que leva a variações absolutas nos preços nominais, isto é, no nível de preços), e não variação dos preços relativos. Neste segundo caso, um bem fica mais caro em relação a outro, o que não significa necessariamente que seja por efeito da alteração da unidade de conta (pode ser porque a procura por aquele bem aumentou consideravelmente; vide aumento do preço do imobiliário em Portugal). A questão é se as autoridades monetárias devem ou não estar atentas a estas variações. A criação de sistemas macroprudenciais que monitorizem estas apreciações nos preços dos activos indica que sim, mas isto depois não é plasmado nos objectivos dos bancos centrais (desconheço uma regra de Taylor que considere preço dos activos).

A segunda questão é bem mais interessante. Qual o impacto das cryptocurrencies no mercado das moedas, no mercado interbancário, e como isso interferirá na condução da política monetária e fiscal. As cryptos criam, antes de mais, concorrência no mercado das moedas. Se por um lado era caro e pouco prático ter uma conta em USD ou em CHF, as cryptos tornam tudo isso obsoleto. Ainda mais quando começam a surgir startups que permitem usar meios de pagamento tradicionais (Visa e Mastercard) para pagar com cryptos (TenZ, Monaco). Isto tem várias implicações. A primeira é que as pessoas já não dependem de bancos para depositarem os seus bens nem para pedirem crédito, o que quebra por completo o canal de transmissão de política monetária. Os bancos centrais são (mais ou menos) eficazes porque conseguem afectar a taxa de juro no mercado interbancário. Ora, tal deixa de acontecer. Segundo, os bail ins criaram um moral hazard grave: em caso de crise, a probabilidade de um bank run aumentou. Se dantes levantar o dinheiro e guardá-lo em casa era impraticável (embora tal tenha acontecido na Grécia), em meia dúzia de cliques pode comprar uma cryptocurrency e usá-la em qualquer lugar do mundo. Se a procura por moeda cai, estaremos permanentemente na ZLB.

Enfim, questões interessantes a analisar. Davam um belo PhD.

O sacrifício do cordeiro

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Não é cordeiro nem se sacrificou, mas Ricardo Araújo Pereira foi estendido e simbolicamente enterrado pela turba inquisitorial que policia o pensamento e que faz birra porque o mundo teima em não ser como tweetam. O crime do Ricardo? Ter opinião — e não ser um cordeiro.

Percebe-se. Afinal, há coisas invioláveis à luz da mais nobre ética republicana. A primeira é duvidar da sacrosantidade de José Sócrates e da incapacidade das amásias em questionar de onde vinha o dinheiro — o que acontece em Formentera fica em Formentera. A segunda é achar que até não estamos mal, e que aqueles rituais obscurantistas de supressão da liberdade de expressão e de ideias, tão em voga no séc XVI, não devem ser mais do que um pequeno compêndio nos livros de história.

Daqui se conclui que se não estás com eles, estás contra eles, Ricardo. Ou contra elas. Ou contra el@s. Ainda que tenhas defendido a legalização do aborto, pairado pelo PCP, votado no Bloco, apoiado o Livre, não é aceitável que não alinhes em toda e qualquer causa progressista do dia.

Se dúvidas houvesse da importância do progresso, ainda ontem se dava conta de mais um flagelo acometido no Reino Unido, que só não tomou outras proporções porque uma mãe atenta decidiu interceder. Não é que foram passar o filme da Bela Adormecida na escola da filha de 6 anos? Esse mesmo, o filme em que a Princesa, que não havia previamente autorizado o beijo do Príncipe pois encontrava-se a dormir, foi beijada de supetão. Ilustrado, sim, mas assédio sexual.

Perguntam-te enfim, como derradeiro momento de redenção, antes mesmo de desembrenharem a faca: de que lado vais estar, Ricardo? Eu não sei, mas o jardim visto do lado de lá do manicómio parece um lugar bem mais agradável.

25 de Novembro

Alguns poderão estar esquecidos, outros nunca terão ouvido, outros estarão equivocados e alguns terão escutado uma versão deturpada ou selectiva da coisa. Mas quando Jaime Neves e os restantes comandos impedem o golpe dos pára-quedistas de Tancos, impedem não apenas um golpe militar, mas o golpe militar da extrema-esquerda que visava garantir que Portugal passava de uma ditadura de direita para uma ditadura de esquerda, comunista e à boa moda soviética, isto assumindo que os arrufos entre estalinistas e maoístas se resolviam. Isto foi no dia 25 de Novembro de 1975. O 25 de Abril sem o 25 de Novembro teria sido uma mera mudança de cores de camisola. É, portanto, uma data tão alusiva à democracia como é o 25 de Abril, e, como tal, merece ser recordada, celebrada, felicitada, festejada.

Um dos partidos que mais fez pela consolidação do 25 de Novembro foi precisamente o PS de Mário Soares. Que o Bloco de Esquerda, que mais não é do que a agremiação da UDP e do PSR, radicais que buscavam essa ditadura comunista, e o PCP, que, bom, é o PCP, não celebrem o 25 de Novembro parece-me coerente. Afinal, o sonho de uma ditadura comunista foi gorado. Que o PS alinhe no circo é que é absolutamente inaceitável. Uma vergonha.

PPPs: pela sua Saúde

Against all odds, as PPPs em Saúde foram uma excelente solução, que trouxe uma poupança líquida para o Estado na prestação de cuidados de saúde. Só na PPP do Hospital de Cascais são 30M€/ano. BE e PCP querem revertê-las por mero capricho ideológico, quando toda a evidência vai em sentido contrário. Aliás, a participação do sector privado tem sido absolutamente fundamental para

a melhoria da eficiência no financiamento e na prestação de cuidados de saúde pela competição e cooperação geradas, pela utilização mais racional dos recursos, pela repartição de responsabilidades e pelo aumento da produtividade, pelo incremento da equidade, no acesso, através do aumento da oferta, da maior cobertura geográfica do país, da redução de barreiras de acesso, da redução das listas de espera e ainda pela melhor articulação entre os setores traduzida na melhoria global dos resultados em saúde.

Quem o diz não sou eu, é o actual Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, na sua tese de doutoramento.

O meu artigo no Observador.

Não há solução. Excepto uma.

Parece que há uma qualquer tradição na ausência de soluções. Antes era com as cheias.

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Agora é com os incêndios:

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Se António Costa acha que não tem solução um país alegadamente de 1º mundo, em 2017, não ser capaz de prevenir a morte de 100 dos seus, então só resta uma solução: demitir-se.

Um contributo para o futuro do PSD

Eis um excelente contributo para a discussão sobre o que deverá ser o PSD do futuro:

[…] precisamos vitalmente de outra coisa, precisamos de mais liberalismo, de mais liberdade económica, de mais espírito empresarial. Sem mais “crise” (das que falava Schumpeter) e sem mais “boa” insegurança, não somos capazes de mudar. O estado tudo faz para nos poupar a essa insegurança, e, como toda a Europa, afundamo-nos, pouco a pouco, na manutenção, geracionalmente egoísta, de um modelo social insustentável a prazo e que nos condena a definhar. É verdade que duvido que hoje alguém consiga ganhar uma eleição propondo o fim do conforto providencial, mas isso remete para a perda de margem de manobra democrática, face ao crescendo demagógico. E nem sequer vale a pena apelar á racionalidade, porque ela, a não ser para meia dúzia de iluminados normalmente sem fome e com emprego certo, aconselha a ter a pomba na mão a troca-la pelas duas que estão a voar. Estamos de facto, um pouco tramados, mas se calhar foi sempre assim na história.

Pacheco Pereira Vintage, ano de 2005.

Álvaro vs Isaltino

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Álvaro Almeida: vida dedicada ao serviço público, currículo irrepreensível; professor universitário, doutoramento na LSE, alto quadro no FMI, Presidente de várias instituições pública, condecorado.

Resultado 2017: 10.4%

***

Isaltino Morais: perda de mandato autárquico; condenado a 9 anos de prisão por fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais.

Resultado 2017: 41.7%

Esta é a imagem do país. Em suma, temos o país que merecemos, com os políticos que merecemos, com o fado que merecemos.

Álvaro Almeida

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Álvaro Almeida tem obra feita, mas não da obra que interessa. Não fez rotundas, não repavimentou três vezes a mesma avenida, não andou a virar frangos em comícios vários, não surge com frequência na televisão a repetir lugares-comuns e banalidades que tais, não tem processos dúbios com a justiça, não tem um círculo de amigos que vai do eixo Bairro Alto-Príncipe Real, não tem antecedentes em jotas. Não prometeu, entre canapés, alterações ao PDM para satisfazer um qualquer construtor.

Em suma, um péssimo candidato sem capital político — pelo menos a fazer fé no comentariado habitual que pulula nos media, emitido antes e depois de comentarem o desaire do Benfica na Basileia. Álvaro Almeida é professor universitário com créditos firmados e vasto currículo, foi alto quadro no FMI, Presidente da Administração Regional de Saúde do Norte, Presidente da Entidade Reguladora da Saúde. Uma vida dedicada ao serviço público, não se servindo, porém, da cousa pública. Confirmam-se, portanto, os clamores dos comentadores da bola, perdão, de política.

Isto não faz de Álvaro Almeida aquele personagem amplamente conhecido, popular, que faz passeatas grandiosas por Lisboa e se publicita. É, aliás, um enorme choque com o historial autárquico de Portugal — muito pródigo e disponível para reeleger autarcas condenados ou em vias de. Mas faz de Álvaro Almeida o melhor candidato à Câmara Municipal do Porto, ou de qualquer Câmara. Talvez não desta época, talvez não deste país, mas o melhor.

Declaração de interessestenho um enorme apreço e consideração por Álvaro Almeida por circunstâncias várias, mas especialmente porque foi meu professor e meu co-orientador de doutoramento. Mas nada disto influencia a minha posição, apenas a corrobora.

Google is your big brother

Se o caso do despedimento do James Damore já não indiciava nada de positivo, cada vez fica mais claro que a Google virou polícia do pensamento.

Quando se pesquisa por «white couple» no Google:

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Quando se pesquisa por «black couple»:

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A pergunta inevitável é se o Google usa o conteúdo de artigos de que não gosta para prejudicar o PageRank do site.

A citação é uma tecnologia heteromasculina e neoliberal

A ciência produz-se através de artigos científicos que são submetidos para revistas internacionais, com revisão por pares, e que geralmente dão o seu contributo em cima de outros trabalhos já publicados e revistos (raramente, ou nunca, uma contribuição é 100% original, no sentido em que faz sempre uso de algum método ou saber anterior). Ora, este processo desencadeia um subprocesso de citações, onde prestamos o devido reconhecimento ou crítica a um trabalho passado.

Carrie Mott e Daniel Cockayne (juro), «cientistas sociais» especializados em gender studies, argumentam que isto de contar citações é um instrumento, e cito, «neoliberal», que contribui para a «reprodução da heteromasculinidade branca do pensamento geográfico». Urge, assim, que os feministas e anti-racistas se insurjam contra esta ferramenta do neoliberalismo, e que «resistam a estas tecnologias anti-éticas de predomínio das hierarquias na produção científica». Trocando por miúdos, entre o prémio Nobel reconhecido pelos seus pares que tem dezenas de milhares de citações e um tolinho qualquer que diz que os pénis são uma construção social, a diferença é só mesmo o preconceito hereropatriarcal.

Abstract

An increasing amount of scholarship in critical, feminist, and anti-racist geographies has recently focused self-reflexively on the topics of exclusion and discrimination within the discipline itself. In this article we contribute to this literature by considering citation as a problematic technology that contributes to the reproduction of the white heteromasculinity of geographical thought and scholarship, despite advances toward more inclusivity in the discipline in recent decades. Yet we also suggest, against citation counting and other related neoliberal technologies that imprecisely approximate measures of impact, influence, and academic excellence, citation thought conscientiously can also be a feminist and anti-racist technology of resistance that demonstrates engagement with those authors and voices we want to carry forward. We argue for a conscientious engagement with the politics of citation as a geographical practice that is mindful of how citational practices can be a tool for either the reification of, or resistance to, unethical hierarchies of knowledge production. We offer practical and conceptual reasons for carefully thinking through the role of citation as a performative embodiment of the reproduction of geographical thought.

E para manter esta tradição herero-patriarcal e neoliberal, eis a citação: Mott et al (2017) – Citation matters: mobilizing the politics of citation toward a practice of ‘conscientious engagement’. Gender, Place & Culture – A Journal of Feminist Geography.

Armando Pereira é bom demais para o país que o viu nascer

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Escreve o Público que Armando Pereira, «produtor de cabos de fibra óptica», não sossega o Governo, pois «parece não ter o perfil para dirigir uma empresa como a Altice». Armando Pereira é de facto insólito. Ao contrário de outras sumidades, Armando Pereira foi para um qualquer bairro de lata em França aos 14 anos, e aos 11 já era feirante — e não consta que o fosse por carolice. Não foi para um luxuoso apartamento em Paris pago por um amigo, frequentar um mestrado na Sorbonne, com uma dissertação escrita por um obscuro professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Não, foi mesmo trabalhar, imagine-se o despautério. Entretanto percebeu que havia ali uma oportunidade, numa época em que a rede por cabo estava em expansão. Sem o élan de um verdadeiro gestor, daqueles que ganham prémios internacionais e depois levam à falência a respectiva empresa, pede uns 80 mil Euros a um banco para constituir a sua empresa. Registe-se a saloiice do mendicante, que ao invés de pedir 100 mil Euros à Caixa Geral de Depósitos para comprar um Mercedes Classe S, pede-os para fazer efectivamente algo. Fá-lo, e, inusitadamente, chega mesmo a pagar o empréstimo de volta. Constrói um império — sem subsídios, sem o préstimo do Estado, sem favores de políticos.

Conclui-se, portanto, que Armando Pereira é um péssimo gestor, pelo menos quando medido pela bitola dos cânones portugueses que regem a boa gestão e a negociata dos indígenas. Compreende-se, assim, que o pobretanas feito milionário, que não janta no Tavares (quando o quiser fazer, Armando Pereira compra o Tavares), não frequenta a Rua do Grémio Lusitano, não vai caçar ao Alentejo ou recebe prémios de gestão, seja alvo da ira dos pelintras depenados que pululam por Lisboa e brunem os Oxford dos grandes empresários portugueses, dos que sabem negociar com políticos de igual estirpe. Estes, cujo maior feito de gestão terá sido ir à Staples comprar arquivos para o seu gabinete, arrogam-se do direito de criticar as competências de gestão de terceiros. Os mesmos que compactuaram com Zeinal Bava, Ricardo Salgado, entre outros portentos da gestão, glorificados vezes a fio pelo jornalismo indígena, são quem apontam as alabardas a Armando Pereira. Bem vistas as coisas, Armando Pereira não merece mesmo este país. Azar o dele que nele nasceu.

 

Uma história portuguesa, com certeza

Reza então assim a história:

  1. Em Fevereiro do corrente ano, Ministros sortidos e Primeiro Ministro manifestam-se a favor de Lisboa para receber a Agência Europeia do Medicamento; Margarida Marques diz que, como é óbvio de se ver, só pode ser em Lisboa. Afinal, que mais cidades têm hotéis e aeroportos, escolas ou jardins de infância, especialmente dos que falem estrangeiro? Tirando qualquer cidade que esteja num raio de 50 kms do Porto, Faro, Funchal ou até de Lisboa, apenas Lisboa, obviamente.

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  2. Importa aqui reiterar que a AEM deve mesmo ficar em Lisboa. Afinal, das cinco agências europeias sediadas em Espanha, nenhuma está em Madrid. E, como é bom de se ver, nós não somos provincianos como os espanhóis, por muito pouco óbvio que isso seja.
  3. Entretanto, António Costa jura que houve um parecer que dizia taxativamente que Lisboa era a melhor cidade para acolher a AEM, isto depois da visita a Londres para conhecer os escritórios actuais da AEM. O parecer é estranho, primeiro porque ninguém o viu, e segundo porque foi elaborado por uma comissão cujo nome é «Comissão de Candidatura Nacional para a instalação da Agência Europeia do Medicamento na cidade de Lisboa». Patético? Ainda não viu nada.
  4. Depois de outros se desdobrarem nas típicas desculpas que alimentam o círculo vicioso do centralismo, António Costa vem afinal jurar que tudo fez para que a AEM ficasse… em Lisboa? No Porto. Também ninguém sabe se isto é verdade, mas se uma fonte do PM o diz, então só pode ser verdade, e o Público faz o favor de noticiar a coisa como se fosse verdade: «Costa defendeu [estoicamente, como um grande estadista que é,] até ao limite candidatura do Porto à AEM». A nota é minha, o pensamento é do jornalista que copiou a peça da Lusa. O artigo é acompanhado de uma foto elucidativa, em que vemos Costa a tentar descobrir onde fica o Porto no mapa.

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  5. Como se tudo isto não fosse suficientemente mau, a notícia foi divulgada em primeira instância pela Lusa. A Lusa é uma instituição pública, ao serviço do Estado, que pelos vistos serve também para propaganda política, da fraquinha. O Público e o Observador cumpriram com diligência o que lhes foi encomendado, e reportaram a balela como se de uma verdade insofismável se tratasse.
  6. Razão tinha a D. Teresa, que mandou D. Afonso Henriques para Norte. O centralismo deste país não tem emenda.

O pénis é uma construção social

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Na perspectiva dos sociólogos fiéis à teoria do construcionismo social — falamos, pois, de fãs de Heidegger ou de Habermas — tudo é uma construção social. Ora, se tudo é uma construção social, nenhum motivo válido haverá para que o pénis, ou, porque não, uma bilha de gás, não seja também uma construção social.

Neste sentido, dois académicos, Peter Boghossian and James Lindsay, decidiram escrever um artigo «científico» onde demonstram que o pénis é uma construção social e que é o grande responsável, se dúvidas houvesse, pelo aquecimento global. O artigo é uma paródia, à semelhança do artigo do Sokal, mas foi aceite e publicado na revista Cogent Social Sciences.

Abstract
Anatomical penises may exist, but as pre-operative transgendered women also have anatomical penises, the penis vis-à-vis maleness is an incoherent construct. We argue that the conceptual penis is better understood not as an anatomical organ but as a social construct isomorphic to performative toxic masculinity. Through detailed poststructuralist discursive criticism and the example of climate change, this paper will challenge the prevailing and damaging social trope that penises are best understood as the male sexual organ and reassign it a more fitting role as a type of masculine performance.

Uma análise mais séria do assunto por parte dos próprios autores da paródia pode ser lida aqui.

Fonte: The conceptual penis as a social construct, Jamie Lindsay & Peter Boyle, Cogent Social Sciences (2017), 3: 1330439.

Recordar o Novas Oportunidades

Porque o actual Governo se prepara para recauchutar e recuperar o Novas Oportunidades, um dos maiores embustes na fabricação de notas a gosto, convém recordar alguns dos efeitos colaterais da coisa. Aqui está um.

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Malditos geógrafos, que ignoram o seu corpo

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Mais preocupada com corpos de terceiros, esta investigadora ignora como o seu corpo pode influenciar a sua investigação científica

Há poucos dias inaugurei uma coluna onde partilhei convosco alguns dos artigos «científicos» que andam a ser produzidos com o meu e com o vosso dinheiro, e cujo contributo societal é tão relevante quanto admirar um piaçaba 6 horas a fio. O primeiro desses artigos «científicos» visava mostrar como é que um determinado tipo de esquilos era vítima de racismo e discriminação.

Hoje, tenho o prazer de partilhar convosco um artigo que procura demonstrar que os geógrafos ignoram os seus corpos, a sua sexualidade e o seu erotismo, escondendo até, imagine-se, os seus desejos sexuais do resto da comunidade científica, e como isto tudo influencia a carreira de investigação. A investigadora partilha até, num digno exercício de reflexividade, a sua experiência como mulher-investigadora desejada, quiçá proveito da sua voluptuosidade, e como isso influenciou a sua carreira científica. Finalmente, o artigo tem uma secção dedicada a clubes de swing, sem dúvida um pilar fundamental de investigação científica rigorosa.

Uma vez mais, é bom saber que o nosso dinheiro está a ser bem aplicado.

Fonte: De Craene, Valerie (2017). “Fucking geographers! Or the epistemological consequences of neglecting the lusty researcher’s body”. Journal of Gender, Place & Culture.

Os esquilos estão sujeitos a discriminação e racismo

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Evidência de um esquilo burguês em processo de acumulação de capital.

Depois do fantástico — sendo que aqui fantástico denota mesmo o sentido estrito — artigo onde o «investigador» propõe que olhemos para os icebergs numa perspectiva feminista; depois de eu próprio ter tido um resumo que se propunha a demonstrar que a calçada portuguesa é machista aceite numa conferência de feminismo pós-colonialista, eis que dei finalmente conta de um qualquer imperativo categórico que me impele a partilhar convosco trabalhos de igual monta.

Assim, estreio n’O Insurgente uma coluna onde disseminarei artigos auto-proclamados «científicos», passe a ignomínia, das gentes que investigam no lastro deixado pela escola de Frankfurt. Estreio-me com When ‘Angelino’ squirrels don’t eat nuts: a feminist posthumanist politics of consumption across southern California, uma análise necessária à forma como os esquilos estão sujeitos ao racismo e discriminação generalizada dos media pela forma como se alimentam.

Abstract
Eastern fox squirrels (Sciurus niger), reddish-brown tree squirrels native to the eastern and southeastern United States, were introduced to and now thrive in suburban/urban California. As a result, many residents in the greater Los Angeles region are grappling with living amongst tree squirrels, particularly because the state’s native western gray squirrel (Sciurus griseus) is less tolerant of human beings and, as a result, has historically been absent from most sections of the greater Los Angeles area. ‘Easties,’ as they are colloquially referred to in the popular press, are willing to feed on trash and have an ‘appetite for everything.’ Given that the shift in tree squirrel demographics is a relatively recent phenomenon, this case presents a unique opportunity to question and re-theorize the ontological given of ‘otherness’ that manifests, in part, through a politics whereby animal food choices ‘[come] to stand in for both compliance and resistance to the dominant forces in [human] culture’. I, therefore, juxtapose feminist posthumanist theories and feminist food studies scholarship to demonstrate how eastern fox squirrels are subjected to gendered, racialized, and speciesist thinking in the popular news media as a result of their feeding/eating practices, their unique and unfixed spatial arrangements in the greater Los Angeles region, and the western, modernist human frame through which humans interpret these actions. I conclude by drawing out the implications of this research for the fields of animal geography and feminist geography.

Publicado na revista Gender, Place & Culture — A Journal of Feminist Geography (Taylor & Francis), e certamente merecedor de todo e qualquer financiamento público que lhe tenha sido atribuído.

#SOSVenezuela

A Venezuela é mais uma das vítimas do socialismo, que, como sempre, degenera em ditadura, escassez, fome e pobreza.

Euro, dívida, banca

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A minha recensão ao livro do PCP — Euro, dívida, banca, publicada no jornal ECO.

A proposta do PCP para “romper com os constrangimentos” e “desenvolver” Portugal está condensada em oitenta e nove páginas de tamanho A5, o que é uma pechincha literária dado o desiderato económico a que se propõe. O livro “Euro, dívida, Banca” remete de imediato para panfletos políticos de igual espécie, como o incontornável Manifesto Comunista. Mas esta parecença é casual, esvanecendo-se logo na primeira página. É que, se Marx e Engels fazem um uso irrepreensível da escrita, construindo uma narrativa que, discordando-se da ideia, é possível seguir com interesse, o livro do PCP é a este respeito sofrível, sendo sofrível o qualificativo a que alguma comiseração obriga.

O imperialismo contra-revolucionário ataca

O PCP diz estar do lado do povo venezuelano, que tem sido vítima de uma «ingerência do imperialismo». O PCP tem razão. Pelas fotos percebe-se nitidamente, se dúvidas houvesse, que se trata de uma contra-revolução burguesa.

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Fonte: In Venezuela, The ‘Mother of all Marches’, The Atlantic.

Escalpelizando os números do défice

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O menor défice em democracia é, em boa parte e em bom português, um embuste. O fenómeno não é recente, e historicamente a aldrabice tem sido tanta que a Eurostat, a entidade estatística da Comissão Europeia, se viu forçada a rever as regras de contabilidade nacional, incorporando na última revisão, a ESA2010, dívida que esteja no perímetro das Administrações Públicas, redefinindo inclusivamente esse mesmo perímetro (Empresas Públicas do Estado estavam fora, por exemplo). Passou a incluir também compromissos futuros, ainda que estes não gerem fluxos de caixa no momento presente. A tramóia foi tão criativa que foi necessário criar um indicador exótico, o défice estrutural, para remover o efeito de medidas não-estruturais, não-repetíveis, ou one-off, como o eram a repatriação de capitais ou a incorporação de fundos de pensões de empresas como a PT, ainda que no futuro representem uma despesa adicional para o Estado, ou receitas de privatizações.

Por regra todos os governos fazem isto. O fenómeno, aliás, não se limita ao défice. O economista Charles Goodhart, professor na LSE, disse mesmo que a partir do momento em que um determinado indicador se torna um objectivo de política, então deixa de ser um bom indicador. A falcatrua reporta a tempos longínquos, mas talvez o exemplo seminal seja o da adesão da Grécia ao Euro. Coadjuvada pela Goldman Sachs, conseguiu maquilhar as contas para garantir a entrada. A recorrência é tanta que a conjectura virou lei — lei de Goodhart.

Serve isto para dizer que não sendo o fenómeno recente, é particularmente gravoso neste caso. Por vários motivos: (i) para este nível de défice, 0.6 pp representam mais de 20% do ajuste; (ii) o PS vangloria-se destes valores, que, em termos estruturais, representam um ajuste de 0% em relação ao ano transacto; (iii) isto coloca pressão adicional sobre os anos subsequentes. Isto porque não é possível continuar a congelar investimento público quando este está em níveis historicamente baixos, não é possível continuar a congelar cativações, promover PERES, vender F-16, reavaliar activos (embora o Governo se prepare para reavaliar artigos rurais…) ou recuperar pre-paid margins.

A comparação correcta é olhar para o défice sem medidas one-off em 2015 e compará-lo com o alcançado em 2016. Em 2015, descontado o efeito BANIF, o défice foi de 2.9%. Em 2016, descontadas as medidas one-off, terá sido de 2.7%. Ou seja, um ajustamento efectivo de 0.2 pp, que foi, com efeito, conseguido à custa de duas medidas que embora não sejam consideradas one-off para a Eurostat são-no de facto: (i) a redução drástica do investimento público de €4.3 mil milhões para €2.9 mil milhões; (ii) 100 milhões de Euros de poupança em juros da dívida, rubrica esta também irrepetível, pois a taxa de emissão média aumentou consideravelmente em 2016. Quer isto dizer que o ajustamento estrutural se afigura nulo, se é que não piorou†.

Posto isto, torna-se evidente que este défice é alcançado sobretudo à custa da receita do costume: ganhos imediatos de curto prazo em detrimento do longo prazo. Seja como for, não deixa de ser positivo que o PS, com a extrema-esquerda a reboque, escolha o baixo défice como um marco da sua legislatura. Uma evolução notável face a anos anteriores, em que o défice, aliás, até deveria ser maior — a acreditar nas palavras de alguns palavrosos deputados do Partido Socialista. Se por nada mais, um bem haja pelo menos por isso.

† – Os detalhes podem ser encontrados no relatório do CFP (Relatório 1/2017) ou na nota mensal de Março do Fórum para a Competitividade.

Um pequeno ensaio sobre a grande estagnação

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O motto foi dado por uma partilha do sempre recomendável Pedro Romano. O link apontava para um artigo do Simon Wren-Lewis, um pós-keynesiano indefectível de Oxford, que, à semelhança de outros economistas como Larry Summers, acham que a grande estagnação económica, particularmente visível no século XXI, se deve a um problema crónico, ou estrutural, de falta de procura agregada.

A posição tem alguns argumentos válidos, embora, em última análise, se trate mais de um problema de método: como os modelos keynesianos dão muito ênfase à procura agregada (basta ver que o modelo IS/LM de Hicks nem inclui oferta agregada; foi necessária uma alteração tardia, que, de forma mal amanhada, resultou no modelo AS/AD), então tudo é um problema de procura agregada. Parece-me — e isto é uma perspectiva pessoal, pois a questão está longe de estar encerrada — que existem outros factores, especialmente do lado da oferta, que poderão explicar este declínio no PIB, ou mesmo na percepção do crescimento do PIB (uma outra teoria é que muitos dos ganhos actuais não são contabilizados no PIB).

Seja como for, escrevi um pouco sobre o assunto. O pouco alongou-se, e de pouco virou um (pequeno) ensaio, que recua ao século XVIII para fazer compêndio para o que temos hoje. Um pequeno ensaio sobre a grande estagnação.