Vencidos da vida

Como diria o sr Presidente, somos os maiores. Os maiores dos maiores, os melhores entre os melhores. Temos Ronaldo. Somos os maiores. Os maiores. Viva Portugal. Os maiores. Portugal! Portugal! Portugal!

Oxalá Marcelo Rebelo de Sousa tivesse razão. Acontece que não é o caso. Os últimos 200 anos de Portugal foram uma autêntica chalaça. E não tinha de ser assim.

https://observador.pt/opiniao/vencidos-da-vida/

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Talvez não seja possível

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Talvez o nosso entorpecimento crónico não tenha mesmo solução. Os funcionários públicos, resignados, preferirão aqueles que mais patacas prometem. Os pensionistas, preocupados, optarão pelos que desdenham dos riscos do futuro e por quem os acalenta com promessas pífias de que tudo está bem, tudo vai bem. Os jovens, abnegados, continuarão à margem de um sistema político que nada lhes diz. Os empresários, estafados, querem é ser deixados em paz, privilegiando assim a certeza do sofrível à incerteza do superlativo, favorecendo a previsibilidade da máquina que, atormentando-os, não os assusta. Os trabalhadores, esmorecidos e rendidos à marcha lenta que dita os seus miserentos salários, revoltados mas conformados, levantarão as suas vozes mas assinalarão a mesma cruz, o mesmo caminho de sempre que os levou exactamente ao mesmo sítio onde sempre estiveram e de onde nunca saíram. E todos juntos digladiar-se-ão pelas migalhas que saem dos seus bolsos e voltam a entrar, tocados pela graça daqueles que lhes prometem ser a sua salvação.

E talvez esta enorme letargia que asfixia Portugal e o condena à estagnação, nos paralisa no marasmo e nos hebeta a alma, não tenha solução. Talvez estejamos mesmo condenados, num qualquer fado batê a que os deuses nos condenaram, a sermos isto, nada mais do que isto, e sempre menos do que poderíamos ser. Talvez tudo isto seja verdade. Mas não menos verdade é que um conjunto de indivíduos — são sempre indivíduos — capitosos, persistentes, achou que a ideia de que Portugal é isto, mas pode ser muito mais do que isto. Olhando para a toalha que ali jaz, no chão, e de que já quase todos abdicamos, estes teimosos tiveram o arrojo de dizer: só depende de nós. E por tudo isto, e mesmo que falhem, e mesmo que não seja possível fazer melhor, no Domingo irei votar Iniciativa Liberal.

Fake news com a alta chancela do DN

Circula por aí a teoria que postula que as fake news terão sido uma criação das redes sociais. Até ao surgimento destas redes, o mundo contemplava apenas a verdade com estoicismo. Na verdade, na verdade as fake news já existem há séculos, mas sob outro nome: propaganda. E a propaganda, diligentemente veiculada pelos apparatchiks e demais idiotas úteis, serve fins políticos. Lenine sabia-o: pese embora ter ganhado apenas por um voto, apelidou o seu grupo de bolshevicks (maioria) e ao grupo oposto de menchevicks (minoria), e assim ficou. A política é a arte da percepção.

Logo, não é de estranhar que surjam notícias que são pura propaganda, ou, como agora se diz, fake news. É o caso desta. Depois de fazer capa com o Maserati de um dirigente sindical — como se isso tivesse qualquer relevância política no caso em apreço —, o DN excede-se a si mesmo (já de si uma tarefa difícil) e consegue uma artifício propagandístico de igual monta e engenho: vender um aumento da despesa como uma arrecadação para o Estado. Veja-se: os aumentos da Função Pública, oportunamente anunciados em vésperas de eleições, custarão 1462 milhões de Euros aos contribuintes. Parte desse montante são impostos, pelo que o custo líquido estimado será de 1334 milhões. O DN distorce assim a notícia, servindo os interesses políticos do governo.

Comprova-se, portanto, que as redes sociais são apenas um catalisador, carecendo sempre de uma fonte que produza a propaganda. Neste caso foi o DN. Recomenda-se, assim, que a Lusa actualize da seguinte forma o parágrafo que reproduz em todas as suas peças a propósito das fake news:

As notícias falsas, comummente conhecidas por ‘fake news’, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o ‘Brexit’ no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro. São também exemplo disso os anúncios do ex-Ministro Pedro Marques e as capas do Diário de Notícias.

Morreu o primo

Uma quinta-feira destas, o Costa chega ao Conselho de Ministros e diz-lhe a assessora:

– Senhor Primeiro Ministro, hoje temos muita gente a faltar…
– Então?
– Houve muita gente a ligar de manhã, a avisar que hoje não podia vir…
– Quem?
– Olhe… O Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social não pode vir porque lhe morreu o Pai.
– Ok…
– A Ministra da Presidência e da Modernização Administrativa não pode vir porque lhe morreu o Avô.
– Ok…
– O Ministro dos Negócios Estrangeiros não pode vir porque lhe morreu um cunhado.
– Ok…
– O Ministro da Defesa Nacional não pode vir porque lhe morreu um primo.
– Ok…
– O Ministro da Administração Interna não pode vir porque lhe morreu um irmão.
– Ok…
– A Ministra da Justiça não pode vir porque lhe morreu um tio.
– Ok…
– O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior não pode vir porque lhe morreu o sogro.
– Ok…
– A Ministra da Saúde não pode vir porque lhe morreu um sobrinho.
– Espere lá…
– Diga, Senhor Primeiro Ministro
– O meu primo Zé morreu?!

Nota: adaptado de uma anedota que anda a circular por aí. Créditos: desconhecido. Plausibilidade: total.

A tragédia portuguesa enunciada em 10 actos

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Após uma enorme manifestação popular (de uma pessoa) coloco agora aqui um texto publicado no Facebook, a propósito das declarações da secretária de Estado da Habitação, que quer «ir atrás dos prédios devolutos e penalizá-los a sério». Já não bastava perseguirem contribuintes, agora querem perseguir prédios também. Estas afirmações são um prólogo de um episódio que remonta à 1ª República e que é sintomático do que é Portugal, e que se desenrola em 10 actos, culminando no nosso triste fado: miséria. Até quando?

1º acto — Na 1ª República, para colher apoio popular — que era nenhum — à república, os republicanos decidem congelar as rendas
2º acto — Salazar, apercebendo-se que a medida colhe apoio popular, decide manter a lei, para desgraça dos senhorios e gáudio dos inquilinos
3º acto — O 25 de Abril vem, pois claro, reforçar o congelamento das rendas, proibindo os despejos, incluindo de quem não paga
4º acto — Em 1990, Cavaco acaba com a obrigatoriedade de contratos vitalícios, mas apenas para contratos posteriores a 1990
5º acto — Em 2012, por imposição externa (a nossa acção está sempre dependente de factores externos, raramente fazemos algo por iniciativa própria), estabelece-se um período transitório para a lei das rendas
6º acto — O mercado anima-se com o feito, e os centros de Porto e de Lisboa deixam de ser amálgamas de prédios devolutos e desertos, inabitados ou habitados por pessoas que pagam 20€ de renda
7º acto — Socialistas voltam ao poder; surge uma nova lei das rendas que na prática acaba com o período transitório e congela novamente as rendas antigas até 2025
8º acto — O efeito é, não surpreendentemente, um abrandamento do mercado de arrendamento e a indisponibilidade para os senhorios fazerem obras, até porque, em alguns casos não incomuns, isso agravaria ainda mais os encargos que os senhorios já têm com prédios habitados por titulares das rendas antigas
9º acto — Governo chateado vai atrás desses senhorios titulares de prédios devolutos que o são porque o próprio estado português, numa sequência de más decisões, assim o quis.
10º acto — Miséria, o fado português. Somos reiteradamente ultrapassados por todos os países da Europa do Leste. Estamos já no 5º lugar da liga dos últimos da Europa, e somos dos países que continua a divergir dos restantes.

Até quando?

Quem nos salva de quem nos quer salvar?

«O que o senhor João e a dona Virgínia querem é ter acesso aos melhores cuidados de saúde, sejam ricos ou sejam pobres, seja num hospital público ou privado, sem que tenham de esperar mais de um ano por uma consulta de especialidade. Esses são os princípios constitucionais do nosso sistema de saúde e são também as preocupações, arriscaria dizer, de grande maioria dos portugueses. E se 2 milhões e 500 mil portugueses optam por ter um seguro de saúde ou ADSE, despesa que acresce ao que já contribuem para o SNS, é porque algo não está a ser satisfeito.»

O estranho caso de Emídio Lúcia-Lima, deputado do PAN e terrorista

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Esta é a verdadeira história de Emídio Lúcia-Lima. Começa em pequenino, ainda nem havia nascido. Sua mãe, vegan e praticante de reiki, e seu pai, voyeur de árvores e de outras pessoas não humanas, preparavam o parto natural. Estava lá também o cão, que auxiliava e garantia a limpeza do espaço. Era forte o cheiro a incenso e a seitã do dia anterior, aquecido ao lume, que tinha esturricado. O pai gritava força e contorcia-se em posição de bakasana, inspirando assim a mãe. Ao fim de muitas horas de contemplação da relva, de três ou quatro canas índicas e do pai em posição fetal, eis finalmente que sai Emídio, de cordão umbilical numa mão e com um ramo de stevia noutra, que aquilo lá por casa foi um forrobodó há duas noites atrás. O panegírico dos dois em honra a Osha, que juntou as forças da natureza para que tudo corresse bem, era incompreensível, até porque era em hindu. O almoço estava muito bom, sim. Juntaram num tacho duas folhas de louro, uns ramos de alecrim e tomilho lá do jardim, um pouco de sal e pimenta e a placenta. Ainda deu para guardar em tupperwares vegan, que são caixinhas feitas de papel, e reaqueceram ao jantar. O Emídio cresceu para ser um rapaz forte, apesar das anemias constantes. Bebeu do leite materno até aos 8 anos de idade, altura a partir da qual disse à mãe que queria algo mais gourmet, que era vegan mas gostava de experimentar coisas novas, e fez a transição para o leite de soja e para bagas goji. Entrou numa escola daquelas naturalistas, que não são bem escolas, mas espaços onde as crianças se borram ainda mais do que o normal. Teve o seu primeiro desgosto amoroso aos 12 anos, quando escrevemos aquelas cartas parvas com duas caixas a perguntar se a pessoa de quem nós gostamos quer namorar connosco. Nunca recebeu resposta do pinheiro e até ao dia de hoje não sabe bem o porquê, mas desconfia de que o pinheiro gostava era do bad boy de 14 anos, repetente nas aulas de Criação Corporal e Introdução à Biodanza, que perseguia passarinhos e comia os frangos ainda eles eram bebés no ovo — ah, é sempre assim, exclamava ele, preferem sempre os maus. Lúcia-Lima cresceu e tornou-se num homem poliamoroso, pansexual, pananimal e pangénero, amando tudo e o seu contrário. Mantinha uma relação com uma andorinha e com um gnu, e de vez em quando dava uma escapadela com uma árvore de pêra-abacate, por quem se apaixonou na ressaca do pinheiro. É sempre assim, procuramos um amor que compense outro que não correu bem. Tudo isto era aceite entre todos, ou não mantivessem também a andorinha e o gnu relações duplas e até triplas. Aos 16, Lúcia-Lima já participava em manifestações no Terreiro do Paço e em Benavente, no festival do chouriço. Levava sempre a sua t-shirt a dizer «Friend with a broccoli» enquanto gritava coisas como «Mais tofu! Menos marisco!» ou então «Sejamos conscienciosos com as pessoas não humanas que coabitam no nosso espaço», palavras de ordem muito fortes que dirigia às pessoas humanas. O «Touradas só de humanos! Free Touros!» também era recorrente, até porque isto era uma questão civilizacional e o Partido Socialista votou contra esta questão civilizacional, os bárbaros. Os pais, entretanto, divorciaram-se. A mãe não tolerou ver o pai abraçado a uma árvore dona Joaquina, que dava umas belas pêras (toda a gente tem um passado, e os pais do Emídio não eram excepção). Isto revoltou-o muito e vai daí junta-se a um grupo terrorista, o IRA. O que acontece a seguir já todos sabemos — vai para o calabouço e, pior, é obrigado a comer entrecosto de porco e pica-pau para o resto da sua vida.

Esta é a história de Emídio Lúcia-Lima. Quando encontrar alguém como o Emídio, não o insulte, não o agrida. Adopte-o.