Sobre a tragédia do fogo de Pedrogão Grande

Uns apontamentos iniciais. Porque se é certo que temos clima propenso a fogos florestais, e que as condições climatéricas ‘atípicas’ que não raro resultam em incêndios, de altas temperaturas e baixa humidade, são muito típicas por cá, nada nesta propensão para e regularidade de condições ‘atípicas’ nos deve levar a pensar que nada há a fazer e que o melhor é sofrermos os fogos estoicamente, que fazem parte da sorte que nos calhou.

1. Muitas pessoas morreram encurraladas pelas chamas em estradas. O incêndio foi muito rápido, sim, senhores. Mas este é o momento para nos congratularmos por termos governantes que gastaram tanto dinheiro na caça às multas, com radares por todo o lado, não vão os meliantes que guiam a 60km/hora escapar, quando somos um país com propensão para fogos, com estradas e até autoestradas no meio de arvoredos suscetíveis de arderem no verão. Ainda bem que nunca se desviou dinheiro da caça às multas para coisas úteis como painéis eletrónicos nas estradas das zonas com floresta, de forma que, havendo sinalização de um fogo, imediatamente quem passa nas estradas num raio de uns bons quilómetros fique avisado do que se passa e possa inverter marcha ou alterar o caminho. Ainda bem que o dinheiro é usado onde serve melhor as populações.

2. A criatura de Belém. Não sei bem como pensa Marcelo Rebelo de Sousa, que apareceu a correr, que os seus bonitos olhos ajudam os bombeiros nos momentos em que está tudo em alvoroço – parece-me que só cria distrações ao trabalho que já precisa de concentração e decisões rápidas, e complicações de segurança – mas pior que isso é a declaração de MRS, em cima do acontecimento, de que tudo o que podia ser feito foi feito. Tal falta de respeito e de responsabilidade nunca se viu. Provavelmente este fogo seria sempre calamitoso, mas como pode a criatura de Belém garantir que não se poderia ter dado melhor resposta? Que as estradas não pudessem ter sido cortadas de imediato? Não sabiam que a temperatura iria estar em níveis estratosféricos e por isso com tendência para incêndios bravos? Não dá para ter a proteção civil preparada nestas típicas condições atmosféricas ‘atípicas’? Tanto mais que a austeridade já terminou, e agora há dinheiro para tudo, e estamos todos pacificados e amiguinhos, como assegura Marcelo.

Um presidente da república (nem merece maiúsculas) a branquear antecipadamente o necessário apuramento de responsabilidades numa tragédia com mais de 60 mortos é de fazer de corar de vergonha defuntos enterrados há dez anos. Tanto mais que há indícios que, se não há reparos (pelo contrário) aos bombeiros que estão no terreno, já a proteção civil e toda a organização que envia os bombeiros aparenta ter respondido tarde – mesmo tendo em conta que seria sempre impossível conter este fogo sem danos de maior.

Lindas histórias de amizade e de amor familiar

O meu texto desta semana no Observador.

‘Nenhum bom pai ou mãe de família resiste a uma eloquente história de amizade. Sabem quem retratou bem amizades? Hergé, com a amizade entre Tintin e o Capitão Haddock ou o jovem chinês Tchang. Para os amigos do mundo animal podemos também incluir Milou, que prescinde uma vez ou outra de roer uns saborosos ossos para ajudar Tintin.

Aprecio igualmente exemplos de dedicação à família. Trago à colação, por exemplo, Lord Arthur Saville, criação de Oscar Wilde, que por amor à sua futura mulher cometeu o crime que lhe cabia antes de casar. Considerava indigno e uma desconsideração pela sua prometida senhora entrar no estado de casamento com afazeres pendentes de natureza questionável.

É por ter tal enlevo por estas histórias de afetos que fiquei tão enternecida com o que se passou por estes dias para os lados dos amigos e familiares do PS. Ah, o gosto de termos gente a governar-nos que trata tão amorosamente de amigos e família.

Vejamos os Best Friends Forever António Costa e Lacerda Machado. Esse, o feliz contemplado com a nomeação para a administração da TAP, aquele negócio que o dito BFF do primeiro-ministro ajudou – tão generosa e desinteressadamente, fez tudo para o bem do país sem esperar nenhuma recompensa (pecuniária) – a trazer de novo para as garras do Estado. Ora sobre este pestilento assunto há alguns pontos a referir.

Um. Veem para que servem as empresas públicas? Os políticos podem aventar as tretas que se lembrarem, inventar benefícios para os consumidores, aludir falsamente a um qualquer interesse nacional (sei lá, como os balcões da CGD que vão fechar pelo motivo mais comum nas empresas privadas, o lucro, ou os voos que a TAP já não faz para o Porto). A verdade é mais prosaica: os políticos defendem a existência de empresas públicas porque querem ter nelas a possibilidade de colocar amigos recebendo simpáticos ordenados ou, ocasionalmente, emprateleirar inimigos. E enquanto existirem empresas públicas essa será a sua serventia. Clamar contra nomeações de amigos (pessoais ou políticos) ao mesmo tempo que se declara paixão ao setor empresarial do Estado é diletantismo de amantes de unicórnios ou hipocrisia de mal-intencionados. A única solução para impedir estas promiscuidades amistosas é não dar oportunidades. Que é como quem diz: privatizar as empresas públicas.’

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Turismo: do passado inventado às insuportáveis peneiras

O meu texto de hoje no Observador.

‘Continuando-se a discutir esses horripilantes alojamentos locais e arrendamentos de curta duração – por oposição ao passado glorioso, tranquilo, pacífico, de amor generalizado entre os vizinhos que se vivia antes das enchentes de turistas – resolvi fazer serviço público. Vou contar a minha experiência de vida numa zona histórica.

De 2001 a 2008 morei numa das encostas históricas de Lisboa, num apartamento que reabilitei. Foi antes de os habitantes das zonas históricas de Lisboa serem ‘expulsos’ pelos turistas e pelas rendas caras que os senhorios agora conseguem obter (aproveito para explicar devagarinho: se os senhorios não conseguirem cobrar rendas ditas ‘caras’ pelas casas, também não vão gastar o seu dinheiro reabilitando-as). Curiosamente, estas pobres pessoas que foram ‘expulsas’ já não moravam nas zonas históricas naqueles anos, apesar das rendas mais baixas. Não sei o que os impedia de lá residirem. Certamente estavam todos a trabalhar como voluntários nos campos de refugiados no sul do Sudão. Ou, em alternativa, fazendo viagens de autoconhecimento como backpackers na Índia, descobrindo, entre outras coisas, a reação da pele à falta de banho durante três meses.

Adiante. Descrevo alguns dos meus vizinhos. Tudo gente com arrendamentos permanentes. Já na altura eram bastante internacionais. Por baixo de mim morava um casal de franceses. Tinham o costume de à uma da manhã começarem a ouvir música (se é que se pode aplicar o termo àquela mescla de gritos que se imaginaria virem de uma sala de interrogatórios de Guantanamo, de rugidos dos animais mais ferozes da natureza e de rock alternativo). O prédio é antigo, a insonorização entre pisos é irrisória, o volume da música era suficiente para impedir qualquer sono. Com regularidade discutiam como se se pretendessem assassinar. Os berros franceses eram acompanhados de sons que sempre concluí tratarem-se de destruição de mobília. Ah: a paz e tranquilidade que a ausência de turistas permite.’

O resto está aqui.

Teresa Anjinho: da escala de prioridades ignóbil à chico-espertice

Quarta-feira, Conferências do Estoril. Teresa Anjinho faz uma intervenção sobre acolhimento de refugiados, ficando pela parte mais moral e humanitária – e eu apreciei-a. Mas as coisas descarrilam quando começam as perguntas da audiência. Alguém pergunta sobre acolhimento de refugiados nos países europeus e Teresa Anjinho diz coisas lindas. Por exemplo, que ‘integração não é assimilação’, não podemos exigir que os refugiados abandonem os seus valores; mais: ‘a integração funciona nos dois sentidos’, os refugiados têm de nos respeitar mas nós temos também de respeitar a sua cultura. Portanto, já sabem, para Teresa Anjinho, política do CDS (???), nada daquela boa ideia de aceitarmos na Europa refugiados (ou qualquer tipo de imigrante, de resto) em troca do compromisso de adotarem os nossos valores e o nosso modo de vida. Nada disso: a tónica de toda a resposta de Teresa Anjinho foi da necessidade de nós, europeus, aceitarmos nos nossos países uma cultura alheia (e tantas vezes antagónica, digo eu), assim uma espécie de vida paralela, uma Europa islâmica ao lado de uma Europa de raízes judaico-cristãs.

Quando questionada por José Rodrigues dos Santos (o moderador) sobre uma declaração que na Alemanha obrigariam os refugiados que querem ficar a assinar, dizendo que sabiam que não podiam matar a sua mulher em caso de esta cometer adultério – algo que qualquer pessoa minimamente informada percebe que se trata de uma maneira de informar que na Europa não se permitem crimes de honra, algo que na minha opinião é muito necessário (tal como as famosas aulas na sequência de Colónia para explicar aos refugiados que as mulheres europeias não estão disponíveis para terem sexo com eles só porque estão de minissaia ou lhes dirigem a palavra) e se for feito com pouca subtileza, i really don’t care porque valores mais altos (preservar vidas de mulheres islâmicas) se levantam – Teresa Anjinho repudiou enfaticamente (repito: repudiou enfaticamente) tal processo alemão, que era um tremendo desrespeito para a cultura islâmica (!!!!).

Bom, claramente para Teresa Anjinho a hierarquia de valores a defender é a seguinte: poupar as sensibilidades ultra-machistas islâmicas (coitadinhos deles, não se lhes pode dizer que não podem matar as mulheres) e só depois, sabe-se lá quando, dar a informação de que na Europa os costumes bárbaros comuns nos países islâmicos (só um ignorante que nunca leu jornais não o sabe) não são permitidos por cá – isto, claro, como primeiro passo para evitar os tais crimes de honra.

É isto defender coisas ignóbeis? É, sim, senhores. Inaceitável vindo de alguém que se diz de direita? Sem dúvida. Talvez por isso agora Teresa Anjinho – com chico-espertice desonesta – venha levantar poeira por eu ter mostrado a minha repugnância pelo que defendeu publicamente. Fiz um post (moderadíssimo) no facebook dando conta de como as pessoas passam tão facilmente para a apologia da manutenção dos valores dos outros em vez da exigência de respeito pelos nossos valores. Parece que Teresa Anjinho viu. E além de outras formas de comunicação, também objetáveis, comigo (que qualquer político devia perceber que são inaceitáveis), apesar de saber o que me tinha motivado a tal observação – estava na resposta a uma pergunta que a deputada do CDS Ana Rita Bessa me havia feito no post que Anjinho leu -, fez um post sonso onde aparecia outra resposta minha, mas omitiu para o seu clube de fãs a minha explicação. Tudo para se lamentar e refazer verdades. Diz até, insidiosamente, que palavras minhas de um comentário em resposta a uma amiga eram palavras que eu lhe atribuía. (Isto, claro, além de mostrar no print screen quem fez comentários no meu post, e likes, o que é de uma deselegância tremenda para pessoas que não têm nada a ver com a questão nem têm de levar com os achaques de Teresa Anjinho.)

Não sei o que pensa Teresa Anjinho – e, neste momento, não me interessa; acho que é o tipo de pessoa que não aguenta escrutínio, tem modos questionáveis, muda de ideias conforme as audiências, não é inteligente a ponto de perceber que deve deixar morrer assuntos em que não tem razão e em que faz acusações desagradáveis e infundadas, e, por tudo isto, é bom que esteja afastada da condução da governação. Talvez estivesse a dizer o que achou necessário para ter mais palmas da audiência. Talvez estivesse a mostrar a JRS que é uma pessoa que diz coisas redondinhas e bonitinhas e, por isso, pode ir à RTP. Não sei. O que sei é que é vergonhoso termos políticos de direita a defender publicamente o que acima descrevi. O que tem mais piada é que a senhora se diz feminista e eu até já a tinha elogiado publicamente por isso mesmo. Em todo o caso, aqui fica a descrição do que se passou, porque gosto muito pouco que publicamente me acusem de falsificar quando comento o que de facto ocorreu.

Claro que Teresa Anjinho e seus seguidores podem considerar que tudo o que a senhora defendeu está muito certo. Não podem, no entanto, ao mesmo tempo reclamar que têm o estancar crimes dos muçulmanos (da Europa) contra mulheres como prioridade, nem que defendem a necessidade de adaptação dos que para cá vêm viver. E isso, agentes políticas pouco consistentes gostem e entendam ou não, é e deve ser objeto de crítica.

Mandar na propriedade dos outros

O meu texto de hoje no Observador.

‘Percebo: somos um país de invejosos do sucesso e do dinheiro alheios; e o PS achou por bem capitalizar eleitoralmente esta infeliz característica. Também percebo: somos um país com pouco apreço por esse direito fundamental, o direito à propriedade privada. Que inclui, claro, o mais amplo uso dessa propriedade para os fins legais que o proprietário entende.

A terraplanagem socialista quer ganhar votos com as pessoas que ficam com ataques de nervos por não conseguirem arrendar casas nas zonas históricas das cidades, mormente Lisboa. Porque, meus amigos, toda a gente sabe que é um direito inalienável arrendar casas nos centros históricos. Mais ou menos como aquele por que a JS clamava em 2009: o direito ao TGV. Coitadas das pessoas. Há três anos nunca quereriam ir morar para os centros históricos, no tempo daquele passado glorioso: o dos inquilinos que pagavam escassas dezenas de euros a cada mês por uma casa onde cabia uma família média. Com estas boas rendas, os prédios apresentavam-se de tinta descascada e janelas apodrecidas. E não incomodava gente cool que também não existissem casas para arrendar, porque estavam ocupadas pelos contratos de há cinquenta anos a setenta euros por mês.

Mas por estes dias entendem que alguém tem a obrigação de lhes arrendar casa – com renda acessível se faz favor, que não queremos cá usuras. Estas pessoas estão generosamente dispostas a ocupar as casas que outros recuperaram (com expetativa de outro negócio), em troca de renda parca, tudo para livrar os proprietários do pecado da ganância. São uns beneméritos, no fundo.

É o persistente problema do PS e seus satélites: percebem muito de lirismo e pouco de racionalidade económica. Julgam sempre que, se exterminarem um negócio, por artes mágicas a oferta antes da destruição se manterá depois. Não vislumbram, nem com desenho, que se impedirem (via obstrução dos condomínios) o arrendamento local, as casas atualmente disponíveis para esta atividade não vão assim continuar para arrendamento permanente; nem surgir novas. Estes proprietários irão aplicar o dinheiro noutro lado.’

O resto está aqui.

Para as pessoas que pensam que a Igreja era a melhor amiga do capitalismo até chegar o mauzão encarnado do Francisco

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Como anda por aí gente muito desmemoriada – e, pelo que leio nas tedes sociais, afogados em fel e azedume de cada vez que lhes referem o Papa Francisco – venho aqui fazer serviço público lembrando algumas coisas dos antecessores de Francisco. Porque há quem, de tantas proclamações de amor a Bento XVI, pareça os socráticos queixando-se da agressividade do processo de ajustamento e fazendo por esquecer a situação herdada pela coligação que a resolveu.

João Paulo II. O senhor que mais parecia papa de uma religião mariana, em vez de uma religião cristã. Que se fartou de escrever contra o capitalismo selvagem. Ah, e que lá por ter trabalhado para desmantelar o comunismo soviético na Europa não hesitou em ser um grande fator de reabilitação de Fidel Castro, que recebeu um muito cordial João Paulo II em Cuba (espero não provocar desmaios em ninguém). E muito bem, que não cabe à Igreja boicotar regimes políticos; há católicos em Cuba e de um Papa espera-se que procure dar conforto espiritual aos crentes, que os guie, não que dê lições de ciência política ou de economia.

E Bento XVI? Bem, não disse tanto mal do capitalismo (um bocadinho menos) porque dizia pouco de quase tudo (preferia estar no meio dos seus livros). Atenção, eu gosto de Bento XVI. Aprecia de discussões intelectuais, tem sentido estético apurado, partilha comigo o gosto por sapatos Prada, e claramente esforçava-se por desfazer a sua imagem de rottweiler de João Paulo II. Gosto de Bento XVI sobretudo porque teve a coragem e a dignidade de reconhecer que era escancaradamente desadequado para a função para que foi eleito. Odiava a evangelização – que é, desde Jesus e São Paulo, uma vocação inalianável da tal Igreja universal – e era com evidente sacrifício e timidez que viajava e contactava com as multidões. Foi incapaz – não com cumplicidade ou maldade, mas com negligência – de lidar com os escandândalos dos padres abusadores sexuais. Reconhecidamente não conseguiu parar as máfias do Vaticano. A Igreja estava a tornar-se um ambiente onde a bufaria era um modo de vida,  bem como as vinganças e os ressentimentos pessoais. Acima de tudo, queria tornar a Igreja um grupinho pequeno e manejável, sem caridade ou misericórdia, de gente muito intelectualizada e cumpridora de intermináveis regras que a diferenciasse da populaça entregue aos instintos. Em vez de opção preferencial pelos pobres, havia a obsessão com a moral sexual.

Lamento, mas quem quiser fazer parte de uma coisa destas deve fundar um grupo de gnósticos. A Igreja nunca foi isto e nunca será. Quanto aos ateus e agnósticos adoradores de Bento XVI e que se sentem agredidos por Francisco, acho-os mesmo ridículos. Parecem a Câncio e derivados a botar julgamento em realidades que não compreendem.

Desta vez podemos fazer o perfil sociológico dos eleitores?

Ouvi há pouco na RTP3 um jornalista francês dizer qualquer coisa como ‘em França, para estas eleições, diz-me quanto ganhas e onde vives e digo-te como votas’. Quem ganhava mais de 3000€, votava Macron, quem ganhava menos de 1500€, votava Le Pen, quem tinha o secundário ou menos escolhia também Le Pen e por aí adiante. O Observador tem aqui mais umas pistas para os eleitotes de cada candidato.

Estão, claro, todos errados em insistirem nisto. Como se sabe, desde a vitória de Trump e do Brexit, é um grande pecado dizer quem vota nos isolacionismos, nos protecionismos e nos candidatos de tendências autoritárias. Quem referia que grupos eleitorais votavam nestes vencedores era uma pessoa ressabiada, que não percebia os grandes movimentos da história, na verdade que não aceitava os resultados das eleições (quase como ir buscar tanques para participar em golpes contra os resultados eleitorais). Claro que não se podia dizer que os eleitores de Trump eram maioritariamente rurais, nunca tinham saído dos States, menos escolarizados e que o único grupo de mulheres que votou em Trump foram as mulheres brancas sem frequência universitária. Afirmar que os broncos votaram num claríssimo bronco laranja (e a sua prestação presidencial inicial não deixa dúvidas sobre a sua magnitude de bronco) era não ter percebido NADA (como se fosse difícil perceber por que ganhou Trump). De igual modo, é crime de lesa qualquer coisa referir quem votou Leave no ano passado no UK. Nada de dizer que foram os eleitores mais velhos a imporem uma decisão que vai sobretudo afetar os mais novos, que não queriam sair. Ou os blue collar. Não pode ser. Temos todos de fingir que são os que frequentam em abundância a Metropolitan Opera e o Carnegie Hall e o moderníssimo Royal National Theatre que votaram Trump e Leave.

Espero que agora, como foi uma mulher, se possa dizer que os simplórios (e não faltarão epítetos) é que votaram na gaja extremista. Pelo menos para isso as eleições francesas devem ter servido: já voltámos a poder fazer análise sociológica eleitoral.

Não tenho culpa da escravatura. E não pago.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Bom, por Portugal pastoreia-se agora um tema tão pertinente quanto os anteriores. Tome conhecimento o leitor que precisa de dedicar amplo tempo do seu dia à problemática da escravatura. Escravatura? – pergunta o leitor espantado. E cogita com os seus botões que nunca viu um escravo, nunca possuiu um escravo, indigna-se quando lê reportagens denunciando escravatura no século XXI em zonas de África ou da Ásia ou ligada ao tráfico sexual aqui na Europa. Que diabo esperam mais do leitor desprevenido?!

Aparentemente é nossa urgente obrigação – mais de dois séculos depois da abolição da escravatura em território português e de um século depois da abolição em todo o império português – debater as culpas de Portugal na história da escravatura e do comércio de escravos. Na verdade, lendo certos textos, desconfio que se espera de nós que qualquer boa mãe e bom pai de família se entreguem à penitência, batendo com contrição no peito enquanto envergamos uma canga, por, há vários séculos, um ou outro dos nossos antepassados possuírem ou comercializaram escravos. Mais: há até quem questione se nós – contribuintes que nunca escravizámos ninguém – deveríamos pagar indemnizações aos descendentes dos escravos. (Este debate é tanto mais importante quanto não há uma vítima viva do comércio de escravos português.)’

O texto completo está aqui.

O socialismo de Cristas strikes again

Mas as pessoas do CDS enlouqueceram?! Fiquei boquiaberta com esta notícia. Agora quer o CDS como bandeira o valor do trabalho – quando devia preocupar-se com condições para aliviar as empresas de custos desnecessários, inúteis, consumidores de recursos e, lá está, inimigos da produtividade e da acumulação de capital, que é o que melhora salários e condições de trabalho?! Terão noção que só perdem votos à direita com esta converseta e não ganham um único voto à esquerda? Farão ideia do que é o eleitorado preferencial de um partido de direita?!

E a ideia da sabática é do mais ridículo e diletante que já li. Devem supor que todos os trabalhadores são gente com possibilidades de ir fazer um mestrado ou uma pós graduação para enriquecer o CV. Quando, na verdade, para a maioria dos trabalhadores – pouco escolarizados e muito indiferenciados – parar de trabalhar por algum tempo é suicidário, sobretudo depois dos quarenta anos. De resto se o CDS se preocupa com os trabalhadores, devia informá-los como prejudica uma futura contratação alguém ter estado todo o tempo do subsídio de desemprego sem trabalhar, nunca incentivá-los a parar por seis meses para um tempinho de enriquecimento pessoal ou – delírio completo ( o país está cheio de gente capaz de se sustentar seis meses sem trabalhar) – lazer. Só falta darem o passo seguinte e proporem que este tempo agradável seja pago pelos contribuintes.

Enfim, Assunção Cristas sempre se gabou de ser pouco de direita e pouco ideológica, mas isto é abuso.

As coincidências do circunspecto Porfírio

Por um tuit do Miguel Noronha descobri que Porfírio Silva me dedicou na quinta feira passada alguma atenção por causa do meu texto dessa semana no Observador. Quer dizer, Porfírio garante não me prestar atenção nenhuma (é uma pessoa muito importante e com o tempo inteiramente preenchido de afazeres daqueles life changing para 73,8% da população mundial, como se verá), mas é obrigado a isso involuntariamente quando pessoas más das suas redes sociais lhe ferem os sombrios olhos (porque carregados com a missão de salvas o mundo através do socialismo da geringonça, e isso é tarefa que ensombra tudo, como se sabe) com a exibição dos meus malévolos escritos. E assim Porfírio lá tem, contra a sua vontade, de me acusar – num texto em que basicamente elenco posições de apoiantes da geringonça sobre Hollande e Venezuela – de ser intelectualmente desonesta, se não mesmo desonesta e ponto final. Porque sou eu desonesta? Inventei alguma posição ou citação? Porfírio, esse espírito arguto que acusa de desonestidade quem descreve corretamente posições alheias, não explica.

Mas sabem o que tem mais piada? Nem é o facto de Porfírio – esse grande ideólogo da geringonça, e uma das pessoas reles que acusou claramente Passos Coelho de usar o cancro da sua mulher para benefício eleitoral – me dar afinal tanta atenção que um dia, não faço ideia quando, porventura depois de eu ter mostrado as suas ideias no Observador, ou lá referido o soez ataque a Passos Coelho, me ter procurado no twitter (porque eu não interagi com ele e nem o seguia) e me ter bloqueado. Afinal Porfírio bloqueia muita gente, todos aqueles que não lhe reconhecem a superioridade ideológica e a genialidade, não devemos valorizar.

Não, o que tem mais piada foi o ataque de Porfírio à minha querida pessoa (porque a desonesta era eu, não o meu texto) ter vindo na quinta-feira, depois da yours truly, na quarta-feira à noite anterior, na assembleia de freguesia a que pertenço, ter dado Porfírio Silva (que não me liga nenhuma) como exemplo de eleito pelo PS que, apesar de deputado à AR, bloqueia quem o escrutina. Mas estou certa que se tratou apenas de uma coincidência, que no PS não se entregam à coscuvilhice do que se passa na assembleia da minha freguesia e que Porfírio não é assim tão thin skinned, uma espécie de Trump em versão filósofo, que não percebe que a sua posição o obriga a estar acima de certas coisas e das respostas pavlovianas. De resto, se não fosse coincidência e fosse mesmo uma resposta, no seu facebook Porfírio provavelmente teria incluído também uma ameaça de bofetadas, qual Ascenso Simões e João Soares, que parece ser a reação por defeito dos socialistas a tudo.

Quanto às acusações que me faz, já se percebeu, aquando do caso de Laura, mulher de Passos Coelho, que Porfírio acusa os outros daquilo que ele próprio é e do que é capaz.