Porque dentro de vinte anos as pessoas perguntarão umas às outras: onde estavas quando foi apresentado o Manual Modernista para a Modernidade?

manual-modernistaÉ amanhã o aguardado lançamento do livro Manual Modernista para a Modernidade, de Vítor Cunha. Bel’miró fará também uma aparição surpresa. Não temam: os serviços secretos de quinze países protegem este evento das ameaças terroristas repetidas nos últimos dias pelo Grupo de Amigos de Sócrates das Zonas Tribais do Paquistão. A apresentação contará com a minha intervenção – estava para ser Angelina Jolie (declarada admiradora do Vítor Cunha), mas ocorrências pessoais determinaram que não pudesse deslocar-se a Portugal, e evidentemente eu fui a substituição óbvia – mas não devem levar a mal ao livro e à sua apresentação por isso.

Apareçam.

Cleptomaníacos unidos, coligação de governo ao seu dispor

O meu texto de hoje no Observador.

‘Como se não fosse tudo muito claro, o tuit a seguir clarificou. Mariana Mortágua não quer que o número de milionários aumente. Percebem? O bloco e o PS não querem cá ricos neste país. Xô. Era o que faltava. Há governos que têm como objetivo não deixar que o número de pobres aumente, preferencialmente que o número de pobres diminua. O BE e o PS têm como finalidade da governação algo muito mais à frente: impedir que as pessoas enriqueçam.

Portanto, querido concidadão, gosta daquele conceito que é a ascensão social? Pois emigre, que por cá não queremos gente com desejos imorais de subir na vida. Nasceu pobre? Fique lá, e agradeça as esmolas que BE e PS querem dar para lhe comprar o voto. É remediado? Pois dê-se por satisfeito e fique quieto, nada de estudar nem de mandar os filhos para a universidade a ver se conseguem empregos mais bem pagos que os dos seus pais.

Não é uma maravilha de desígnio para um país? Sugiro que nas próximas eleições os cartazes do PS apregoem ‘não queremos gente rica’ e ‘imobilidade social sempre’.

Mas atenção: isto melhora. Entrou em cena Catarina Martins. E se no BE uma doutoranda em Economia tem este nível teórico indigente, imagine a atriz e encenadora. Catarina não desiludiu: ‘Comprar casa não é investimento. Investimento é quando se cria valor. Investimento é quando se criam postos de trabalho’.

Uau. Pela mesma ordem de ideias, uma empresa que compre um escritório mais espaçoso, mais bem situado e mais confortável – em vez de deixar os trabalhadores num pardieiro – também não está a investir, já que não construiu nada. E, gente que trabalha em imobiliárias, estão ver? O vosso trabalho não cria valor nem serve para nada. Embrulhem. É óbvio: comprar uma casa com melhores condições onde a nossa família viva bem, perto de escolas boas onde os nossos filhos possam ter sucesso académico, que não implique perder excessivo tempo no transporte para o trabalho, vê-se logo que não é um ‘investimento’. Não estamos a investir na qualidade de vida familiar. Nem na melhoria de perspetivas dos nossos filhos. Nem a adquirir um valor que os nossos descendentes um dia herdarão. Nada disso. Parabéns, Catarina.’

O texto completo está aqui.

para contextualizar indignações de gente hipócrita

De facto indigna que uma pessoa escreva um livro a contar a intimidade sexual de outras pessoas, fazendo uso de alegadas confidências de terceiros que já morreram. Mas convém lembrar (e eu lembrei no facebook e este post nasce dessa recordação) que São José de Almeida já fez o mesmo: escreveu um livro onde exibe a homossexualidade de pessoas que já morreram, outras ainda não (tal como JAS), que nunca assumiram essa orientação sexual e que não mandataram (certo pelo menos no caso dos mortos) jornalistas de esquerda para lhes vasculhar assuntos de cama. As informações que revela obteve-as muito por confidências de terceiros que se mantêm anónimos. (Até José António Saraiva é mais corajoso aqui.)

O mais engraçado: é que este livro foi muito apreciado pela gente que agora se indigna apopleticamente com José António Saraiva. As revelações de sexualidade alheia escritas por gente amiga, está muito bem; revelações de sexualidade alheia escritas pelos ódios de estimação, ai o mundo que acabou. É verem por exemplo esta publicidade ao livro de São José de Almeida no jugular. E este texto embevecido de Fernanda Câncio no DN (obrigada pelo envio, João Pereira da Silva). Sobre o livro promovido por Vidal e por Câncio, ler o Malomil. Deixo aqui um pedaço, para se ver o livro que foi promovido.

‘Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». […]

Sendo lésbicas ou não, há um denominador comum às várias mulheres referenciadas neste cadastro narrativo: é tudo gente morta. […] Várias, como se vê, morreram já depois do 25 de Abril, muito depois, podendo ter assumido mais livre, enfática e publicamente a sua orientação sexual. Não o quiseram fazer. Mas São José tratou bem delas, fê-las a todas saltar da toca. Cá p’ra fora do armário, vá, suas malucas, que isto de se andar a esconder no roupeiro é coisa bem feia e muito hipócrita.

Ao Capítulo 6 entramos no closet masculino. De acordo com o depoimento do dirigente comunista Ruben de Carvalho, cuja autoridade nestas matérias desconhecemos qual seja, o Subsecretário de Estado da Presidência, Paulo Rodrigues, «era conhecido publicamente pelas suas relações homossexuais» (pág. 126). Também Pedro Feytor Pinto, responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, «o António Ferro dos anos setenta», era «assumidamente homossexual» (pág. 126). Porém, nas suas memórias, recentemente publicadas (Na Sombra do Poder, Lisboa, 2011), Feytor Pinto não se revela, em lugar algum, «assumidamente homossexual». Aliás, em duzentas páginas de texto não dedica sequer uma linha à sua intimidade. E o «António Ferro dos anos setenta» está aí, vivo e lúcido, escrevendo memórias, dando entrevistas, aparecendo na televisão, proferindo conferências. Por que motivo não o contactou São José Almeida? Era o mínimo que se impunha, não apenas a uma historiadora como a uma jornalista digna desse nome: cruzar as fontes, confrontar testemunhos, ouvir os visados. Por que não falou a autora com Pedro Feytor Pinto?’

A ASAE ataca de novo

O meu texto desta semana no Observador.

‘Um dos melhores efeitos secundários do governo da coligação PSD-CDS foi a ASAE com trela curta. Depois veio o tempo novo e à esquerda gostam do mundo arrumado, catalogado, com muitos fiscais disto e daquilo a atormentarem as empresas respeitáveis. Donde: a ASAE anda satisfeita a mostrar de novo os caninos aguçados, e até já faz operações na comunicação social queixando-se de necessitar de maior orçamento.

Pelo que sugiro dissecar as atividades da ASAE. E encontramos as seguintes práticas apocalípticas dos privados que a ASAE, num comportamento reminiscente de Tintin a desmascarar traficantes de droga, nos livrou. Há a venda especulativa (não desmaiem) de bilhetes para jogo de futebol. Apesar de não se saber de gangs apontando armas de fogo a obrigar à compra, e de aparentemente os compradores terem pago o valor que atribuíam a verem o jogo dentro do estádio, a ASAE gastou o dinheiro dos contribuintes a impedir valdevinos de venderem bens que eram sua propriedade (os bilhetes) a outros que os queriam comprar.

Numa inspeção a bombas de gasolina, situações mais destrutivas que um atentado terrorista (atos para os quais a ASAE também tem formação) foram encontradas. Houve casos de ‘incumprimento de requisitos gerais e específicos de higiene relativos aos géneros alimentícios’. Não se diz que os géneros alimentícios estavam estragados, e não deixariam de o referir para fins propagandísticos, pelo que presumimos que a falta de cumprimento de ‘requisitos gerais e específicos’ não impediu os ‘géneros alimentícios’ de se manterem em bom estado.

Mas os comportamentos verdadeiramente diabólicos estancados pela ASAE vêm a seguir: ‘desrespeito pelas regras de anúncio de venda com redução de preços e a violação dos deveres gerais da entidade exploradora do estabelecimento de restauração e bebidas’. Uau, a ASAE protegeu-nos do desrespeito pelas regras de anúncio de vendas com redução de preço – mais uma vez foram só as regras desrespeitadas, aparentemente a redução do preço ocorreu mesmo – e de violação de uns misteriosos (mas seguramente essenciais para manter vivos três quartos da população portuguesa) ‘deveres gerais’. Deus guarde a ASAE que tais préstimos nos dá.

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Mao Zedong: ‘A revolução não é uma festa’

cultural_revolutionMao Zedong morreu fez ontem quarenta anos, e escrevi um texto para o Observador sobre Mao e a sua liderança do Partido Comunista Chinês e da China. Enjoy.

‘Quando na manhã de 9 de setembro de 1976, há quarenta anos, os altifalantes espalhados pelas ruas das cidades chinesas informaram, “com a mais profunda tristeza, que o Camarada Mao Zedong, o nosso estimado e amado grande líder”[i] morrera durante a madrugada, dias depois do seu terceiro ataque cardíaco em quatro meses, os chineses não ficaram surpreendidos. Durante os milénios da história chinesa os fenómenos naturais haviam sido sempre obedientes a informar as populações sobre a manutenção, ou não, do mandato do Céu pelos governantes. Inundações, terramotos e colheitas destruídas? Eram sinal inequívoco de que a dinastia perdera o favor do Céu e que as populações, seguindo os ensinamentos de Mêncio, poderiam substituir os governantes que tinham perdido a virtude.

Ora a 26 de julho daquele ano, um terramoto violento destruíra a cidade de Tangshan, perto (segundo a perceção das distâncias na China) de Pequim, onde também se sentira o abalo. Evidentemente a informação dada à população foi escassa – sobretudo sobre o número de mortos (estimados entre quinhentos e setecentos mil), sobre a incompetência do Exército de Libertação Popular a procurar sobreviventes entre os escombros e sobre as valas comuns onde se enterraram os cadáveres cobertos de lixívia – mas a notícia foi passando, bem como a claríssima mensagem da natureza: a morte de algum poderoso aproximava-se.

Pelo que aquando do anúncio da morte de Mao, o pesar oficial foi registado e o luto público foi estritamente observado. No entanto, para a população chinesa, bem como para a hierarquia do Partido Comunista Chinês, a reação foi mais de alívio do que de dor. A notícia chegava ao fim dos dez terríveis anos da Revolução Cultural – que proporcionou os animadores números de uns estimados (números de Andrew Walder e Yang Su) um milhão e meio de mortos e cem milhões de chineses perseguidos e punidos. A China estava exausta.

A ausência de tristeza e de choros com a morte de Mao foi mais sintomática por ter ocorrido meses depois da morte do primeiro-ministro Zhou Enlai, a 8 de janeiro de 1976. Zhou era tido pela generalidade dos chineses como a imagem da moderação – por oposição a Mao e aos radicais a quem este, a espaços, dava rédea solta para atormentar as populações – se não mesmo do humanismo no meio da loucura da Revolução Cultural. Quando morreu, maciças manifestações foram espontaneamente organizadas pelos chineses (e meticulosamente reprimidas pelas autoridades) em cidades do norte e do sul da China, do litoral e do interior. Coroas de flores acumulavam-se nas praças das cidades, pessoas choravam, e houve até o desafio ostensivo às autoridades com a ocupação da praça Tian’anmen a 4 e 5 de abril, por altura do Festival Qingming (em que tradicionalmente se prestava honras aos mortos), com direito a carga militar sobre os manifestantes.’

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(Um dia destes conto a história da fotografia.)

Autoajuda para decidir sentido de voto

O meu texto de ontem do Observador. Com incursão lá no fim ao caos em que Fernando Medina colocou Lisboa.

‘Qualquer editora e livraria que se preze tem no catálogo livros destinados a resolverem todos os problemas conhecidos pela humanidade. É um bibliotecário tímido? Dale Carnegie ensina como fazer amigos e influenciar pessoas. Tem dificuldade em encontrar o amor (verdadeiro ou temporário) nesta sociedade voraz e cínica? Livros explicam que proferir dois mantras a cada manhã resulta num príncipe encantado cinco meses depois. Pescado o dito príncipe, ou princesa, descobre que felizes para sempre é treta da Disney? Compre o famoso Os Homens São de Marte, As Mulheres São de Vénus para entender os comportamentos da sua cara-metade interplanetária. Quer ficar rico especulando na Bolsa? Banqueiros de renome (alguns entretanto falidos e perseguidos pelo pouco impressionável sistema judicial) contam-lhe a receita secreta (mas que, por alguma razão misteriosa, não tem produzido milionários de geração espontânea pelo menos ao ritmo da proliferação de vulgaridades no Twitter do deputado João Galamba).

Ora há que dizer que as editoras e livrarias nacionais deviam alargar, com urgência, os assuntos dos livros de autoajuda ao discernimento do sentido de voto dos eleitores nacionais. Era pegar numa qualquer lista de uma revista feminina que elenque os traços do valdevinos que nunca aceitará compromissos e transpô-la para políticos tóxicos. Eu dou uma ajuda.

Exemplo: se um partido político está falido e vive da caridade e da disponibilidade de tesouraria dos seus militantes, então há alguma probabilidade de esse partido político estroina com a sua contabilidade ter também maus resultados nas contas públicas. É natural que um partido político que não tem dinheiro para pagar a eletricidade das suas instalações se dedique, quando governo, a atrasar (ainda mais) os pagamentos aos fornecedores do Estado. Quem não gere bem a sua casa não sabe gerir a casa dos outros ou a casa de todos. Sem surpresas, o partido político falido (PS) foi quem governou treze dos dezasseis anos antes de nos oferecer a bancarrota de 2011. É sempre uma alegria observar comportamentos consistentes nos nossos colegas da espécie humana.

Outro exemplo: há melhor metáfora para o Portugal guterrista e socrático do que a vida de Sócrates em Paris? Sócrates – se acreditarmos na sua narrativa oficial, que já é mais que suficiente para lhe indicarmos o caminho do ostracismo político – vivia em casas caras, com roupas vistosas e custosas, educação xpto para o filho, viagens frequentes. O dinheiro vinha de empréstimos descontrolados, sem atentar ao valor, menos ainda pensando na capacidade de os reembolsar. Se por momentos fingirmos todos acreditar que alguém se endivida com um amigo em meia dúzia de anos a ponto de ter de vender a casa para pagar essas dívidas, o que nos diz isso politicamente de uma pessoa? Devemos votar em quem está disponível para espatifar património duradouro (um bem imóvel que poderia até transmitir aos filhos) para poder comprar ténis Prada?’

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A ministra da festa cor de rosa e da reforma agrária

O meu texto de ontem no Observador.

‘Faço já a declaração de interesses: não tenho nada contra festas, nem contra revistas cor-de-rosa, nem contra ministros divertindo-se, nem contra fotografias de pessoas aperaltadas em eventos sociais. Eu própria passei uma parte das férias num local com alguma influência britânica onde ainda se valoriza o vestir bem para jantar, no fio da navalha entre a formalidade e a informalidade. Percebo, portanto, que a ministra da administração interna, Constança Urbano de Sousa, tenha decidido ir a uma festa durante as férias e nela se tenha feito fotografar.

Mas a ministra não é uma capitalista impenitente como eu. Detenhamo-nos, então, por momentos nesta propensão que os socialistas têm, mesmo agora extremados à esquerda e adeptos da luta de classes, de se aliarem a eventos com uma inegável frivolidade social e a revistas de fofocas. Afinal os socialistas empedernidos nunca resistiram ao luxo. Veja-se como os Castro celebraram a miséria cubana contratando Christian Louboutin para fornecer as fardas para os Jogos Olímpicos. Ou Bernie Sanders, que prometia uma revolução socialista americana e acabou a comprar uma casa cara num lago idílico (os Adirondacks, lá perto, são dos sítios que me estão atravessados na garganta para visitar).

De resto, o comportamento da ministra é consistente com o de António Costa, agora ‘chocado’, quase lacrimejante (levem-lhe chá de verbena), mas que também se fez fotografar numa praia algarvia, risonho e feliz da vida. Nem sei se este género de ação não terá magicado pelas cabecinhas do PS que se supõem génios de estratégia política. A mensagem seria inspirada em Pangloss: estamos no melhor dos mundos, a governação está encarrilhada, como podem ver corre tudo tão bem que até nos podemos despreocupadamente dedicar a festas e riso durante as férias. Afinal é este governo que acredita nos poderes mágicos do otimismo, porventura depois de terem lido meia dúzia de best sellers de autoajuda: se acreditares que vai correr bem, então vai correr bem. E, se não correr, a comunicação social amiga finge que sim e os papalvos dos eleitores pensarão que as suas desgraças individuais não se replicam pelo resto da população.

Houve o problema do costume em se tratando de um governo socialista: a realidade. Estava António a rir na praia e Constança na festa cor de rosa quando já o país ardia como se não houvesse amanhã. Que não tenham arrepiado a estratégia propagandística ‘ministros, festejemos ostensivamente a boa governação’, mostra uma falta de senso e de noção e de respeito atroz e perturbante.

Claro que Constança Urbano de Sousa teve de abandonar as suas festas cor-de-rosa para fazer controlo de danos. Desde aí tivemos entrevistas da ministra quase todos os dias, declarações à comunicação social, textos elegíacos sobre a senhora em jornais, tentativas de culpar a União Europeia. E descobrimos que afinal a reação mais ajuizada da ministra da administração interna aos fogos que consomem as florestas é mesmo participar em festas.’

O resto está aqui.

Então o epílogo

Uns meses depois deste assunto, recebi no meu local de trabalho uma notificação para ir levantar à esquadra tal e tal outra notificação. Como não costumo entregar-me a uma vida de crime, imaginei do que se tratava. Lá fui levantar a notificação para ir prestar declarações à PSP ali ao lado do Tejo. Porventura a queixa foi apenas feita para me intimidar, assim uma espécie de aviso de uma pessoa poderosa a uma humilde blogger, esperando que eu utilizasse alguma manigância de me esquivar a receber a notificação, por o meu nome não estar completo ou assim. Como não tenho por hábito esquivar-me, o certo é que quando o meu advogado ligou para a PSP para remarcar a minha prestação de declarações – e porque evidentemente a queixa não tinha nenhumas pernas para andar e poderia fazer boomerang – soube que a queixa já havia sido retirada. A acusação era de ameaça de devassa da intimidade (ou coisa parecida, estou a dizer de cor). Adivinhem a autoria.

A viúva (depois da traição da Visão, o qualificativo negra não destoa)

Mandaram-me umas cenas que a namoradinha socrática aparentemente escreveu sobre mim por causa do meu último texto no Observador. No meio dos longos descabelamentos da senhora que não interessam, afirma que eu ameacei revelar informações sobre a vida privada.

Ora bem, é falso. Nunca ameacei revelar nada da vida privada de Câncio porque nunca soube nada da vida privada de Câncio, só (muito pouco) do que Câncio et al forçavam ao mundo que os rodeava, nesta questão absolutamente involuntário, saber. (E em instâncias próprias poderei sempre detalhar.) De resto, nos casos em que a proteção da vida privada e do relacionamento com sócrates era semelhante, da parte de Câncio, às vezes em que a própria senhora tratava de publicitar a relação, por exemplo tornando públicas  e escrevendo publicamente sobre as queixas que fazia às autoridades dos jornalistas por causa do tratamento de ‘namorada de sócrates’ que a imprensa lhe dava.

Mas agora fiquei com vontade de recordar o início disto tudo e o comportamento autoritário por default de Câncio (quem podia, podia, não era?) nos tempos socráticos. Um dia, Câncio escreve no DN um ‘perfil‘ sobre o novo ministro da cultura de sócrates, uma das coisas mais ridiculamente parciais que eu li na vida. Era o jornalismo dos tempos socráticos: tínhamos uma namorada do pm a escrever ‘notícias’ elegíacas e embevecidas como se não tivesse um claríssimo conflito de interesses, num jornal supostamente de referência e com um diretor que avalizava a situação.

E eu decidi fazer um post a gozar com o ‘perfil’ que a jornalista escrevera. Vai daí a senhora dedica-me um post ameaçador no blogue de então (o 5 Dias), porque a idoneidade profissional e a difamação e isto e aquilo e as ações judiciais servem mesmo para estes casos. (E se não é mesmo a forma socrática vintage de lidar com opiniões hostis.)

Em suma, não sei, graças a deus, se Câncio fazia loud sex com sócrates e nunca ameacei revelá-lo. Sabia, na altura, que Câncio se dava de forma muito próxima com sócrates (agora, como toda a gente, e pelo que ambos já contaram, até sei mais do que sabia na altura) e que se tivesse respeito pelos seus leitores e brio profissional não escreveria textos supostamente com rigor jornalístico sobre os governos que este chefiou sem fazer disclosure do conflito de interesses. Depois de algumas peripécias, houve seguimento disto tudo fora blogue, mais uma manifestação de prepotência e intimidação típica dos tempos socráticos, em que Câncio, depois da fanfarronice inicial, saiu de fininho. Também sei o que Câncio moralmente vale pela leitura do texto da Visão. Mas o que tem mais piada é que Câncio, com a caracterização de idiota útil que deu de si na Visão, prova mesmo o ponto do meu post que despoletou tudo: Câncio não tinha capacidade nem discernimento para avaliar sócrates, quanto mais escrever sobre ele da forma minimamente imparcial que se exige a um jornalista. Obrigada, então, por me dar razão, oito anos depois.

o ranço jacobino, versão 582

Aparentemente, segundo a jornalista impoluta Câncio, noticiar uma degolação de um padre e tentativa de degolação de uma freira e mais uns reféns numa Igreja é fazer a propaganda do Daesh. Compreende-se, todas as vidas são iguais mas umas são mais iguais que outras, e não podemos assumir que um ataque a uns ranhosos de uns religiosos católicos numa igreja tem tanta importância como um ataque a uma discoteca de gays. Há coisas – e vidas e mortes – que não vale nada a pena noticiar.

(Apanhado no twitter do João Pereira da Silva.)

‘do nada’

costapmAposto que se o terrorista de ontem tivesse sido mesmo de extrema-direita, a culpa das mortes não seria da austeridade, da política externa, do facto de viver numa casa sem ar condicionado (que na Alemanha faz muita falta com tanto calor que por lá se padece), do patrão que promoveu outro em vez do inocente rapaz, do carro de um árabe endinheirado que no último inverno molhou o pobrezinho com a água que estava na estrada, do passarinho que escolheu o jovem desadaptado para fazer as suas necessidades, da alergia ao pólen, do céu cinzento da Alemanha, de uma admiração misguided por Mussolini (afinal são só as hormonas da juventude), nada disso, a culpa seria da ideologia má e da maldade da pessoa que conscientemente a escolhe e se inspira por ela para os seus atos. O nosso ilustre pm (até me escorrega o computador das mãos), determinado em colecionar na sua conta os tuits mais ofensivamente imbecis até ao fim dos tempos, não diria que a morte e a violência vieram ‘do nada‘; diria que vinham do sítio do costume.

(Foto roubada ao João Gonçalves no facebook.)

Mas queremos mesmo isto na Europa?

O meu texto desta semana no Observador. Se tivesse escrito depois de ontem, teria acrescentado os maluquinhos que se esforçam por fazer crer que o terrorismo atual é tão provável vir do islão como da religião/ideologia do lado.

‘É daquelas pessoas que dá palmadinhas compadecidas nas costas do muçulmano que violou a rapariga ocidental de minissaia, afinal veio de uma cultural onde é normal maltratar mulheres, e por cá está desempregado? Acha, como Ana Gomes, que a culpa dos atentados terroristas na Europa é da austeridade? Defende que os pobres diabos, sejam violadores ou terroristas, têm de ser compreendidos, assimilados, receber muito dinheiro dos estados sociais europeus e, sobretudo, desculpados? Considera que os vilões verdadeiros são os que denunciam que os costumes islâmicos são aberrantes, concretamente para a condição feminina, e não podem ser tolerados na Europa? De cada vez que há denúncia de vilanias islâmicas, prefere escrutinar o mensageiro para tentar repudiar a mensagem? Vê como de uma lógica cristalina clamar contra o patriarcado e o heteropatriarcado e, simultaneamente, recusar aceitar que as comunidades islâmicas na Europa têm propensão para violar e brutalizar mulheres, e acumular com defesa de regimes que enforcam ou afogam gays? Repete vinte vezes por dia o mantra ‘o islão é uma religião de paz’?

Pois bem, é conveniente reconhecer que as pessoas iluminadas que responderam sim a dez por cento destas questões são cúmplices do caldo culpabilizante das vítimas que propicia os crimes dos islâmicos. Duvido que o à vontade criminal fosse tão grande se não notassem a solidariedade dos iluminados. Se não desconfiassem que a sua origem os vai livrar de investigações ou acusações mal um idiota útil grite xenofobia. Se não percebessem que a sociedade europeia se deixa vitimizar.

Vamos rever a matéria. O mais importante religioso muçulmano de Portugal é acusado pela mulher (que aparece com a cara ensanguentada em fotografias – certamente foi contra uma porta, como é costume) de violência doméstica. O que sucede? Os jornais param rapidamente de falar sobre o assunto e o presidente da república dos afetos escolhe fazer na mesquita do acusado uma cerimónia no início do seu mandato.’

O resto do texto está aqui.

As lições do Ronaldo e da seleção para os meus filhos

O meu texto de hoje no Observador.

‘A segunda: o ‘que se f@#$’. Tirando o vernáculo, é mesmo este o espírito que quero ver exibido perante os meus filhos. Ao contrário do hino por estes dias tão cantado, estamos longes de ser valentes. Somos temerosos. Odiamos correr riscos porque não conseguimos lidar com um possível fracasso – como se fracassar não fosse a sina de todos nós várias vezes na vida. Um líder político que perca eleições ou um treinador que não ganhe campeonatos tem de ser corrido na hora. Deleitamo-nos com estatísticas que mostram que as novas empresas falham em números expressivos – à laia de aviso ‘ninguém de juízo se mete nessa aventura estranha de criar um negócio’. Até parece que os empresários de sucesso, sem exceção, não tiveram projetos em que só perderam dinheiro e ganharam traquejo. Temos até vários partidos políticos – os da geringonça – que veem como ofensiva a promoção do empreendedorismo.

Pelo que o espírito ‘que se f%0&’ faz muita falta. Vamos à luta, arriscamos e, se correr mal, paciência, que se… As cassandras que se calem, as carpideiras que parem de treinar para a catástrofe que se avizinha, que pior que cairmos picadinhos no chão é ficarmos na zona de segurança, na mediocridade calculada, perto das saias da mãe (em se tratando dos meus filhos, claro que estou disponível para abrir uma brecha nesta teoria) e da boia de salvação.’

O texto completo está aqui.

O meu texto de ontem no Observador.

‘Queria escrever sobre a mais recente polémica com o Facebook: empresa tão moderna, tão hipster, tão tecnológica, tão universo-aos-nossos-pés que não deixa as senhoras que lá trabalham vestirem-se de forma sexy. A propósito disso fui reler as notícias de Tim Hunt, o Nobel que acha uma maçada as mulheres cientistas: que os cientistas e as cientistas apaixonam-se e as mulheres choram quando são criticadas. Aqui, apanhei a verborreia de V.S. Naipaul sobre mulheres escritoras, vi tudo encarnado e decidi alargar o arco deste texto.

A saber: a mania que alguns egos masculinos têm de que a forma de agir, de trabalhar, de pensar, de escrever, de o que quer que seja masculina é a forma correta, o padrão, a ordem natural do mundo funcionar. E que a maneira feminina – e sim, eu voto sempre na existência de diferenças entre os sexos e nunca na igualdade intrínseca entre os xy e as xx (o que é muito diferente de assumir que há papeis, profissões, talentos predeterminados para cada sexo) – é um desvio à norma, fruto de emoções desordenadas e irracionalidades várias, sobretudo algo que as mulheres têm de corrigir se querem ser levadas a sério pelos guardiães da seriedade (também conhecidos como elementos do sexo masculino).

Este padrão masculino vai ao ponto das alucinações de Naipaul: a maneira de escrever certa e com qualidade é a masculina. O curioso é que este tipo de opiniões é levado a sério ou, pelo menos, reproduzido sem ser em tom de escárnio em jornais decentes. Quando merecia a zombaria que oferecemos a sugestões estrambólicas como a de retirar dos cursos de literatura as obras dos escritores masculinos, brancos e das potências colonizadoras. Os maluquinhos esquerdistas americanos querem extirpar os cursos de Shakespeare e Chaucer. Naipaul, porventura com o ego insuflado de que padecem os temperamentos artísticos e políticos, como aqui bem ilustrou Paulo Tunhas, opina que a escrita de Jane Austen ou das Brontë ou de George Eliot é ‘unequal to him’ (vá, vamos todos desmaiar ao mesmo tempo de comoção pelo tamanho do talento másculo de Naipaul).’

O resto está aqui.

Canavilhas e o seu maior amigo

Como membro da Assembleia de Freguesia (da zona onde moro) há alguns anos, posso testemunhar como os cocós dos cães, que os donos malcriados deixam no espaço público, são uns dos problemas recorrentes apresentados pelos residentes na Assembleia de Freguesia. Por questões de higiene e por questões de saúde – e, também, pelo incómodo que a falta de educação alheia causa, mesmo quando se consegue evitar pisar o cocó. É, por isso, muito curioso este testemunho (apanhado no facebook da Maria João Nogueira) sobre Canavilhas e o seu animal de estimação. Cada vez mais acho que o problema do PS não é só ideológico: é de formação e de educação básicas.

Estava Canavilhas a passear o seu animal de estimação quando o mesmo defeca na relva junto à minha casa e ao meu escritório. Esperei que a boa vizinha, cidadã cumpridora e conhecida deputada da Nação apanhasse o dejecto expelido. Em vão. Dali saiu sem qualquer rebuço. Porque a minha mulher é mais corajosa que eu, que fiquei a ruminar por dentro, dispara em direcção a Gabriela e pergunta-lhe: “não vai apanhar?” Resposta pronta: “relva não é passeio”. E, malcriadamente, vira as costas e vai embora. Brilhante, as crianças não brincam na relva, os dejectos aí podem ficar, abandonados. Estupefactos vimo-la afastar-se na sua pose senhorial.’

orgulhosamente sós

O meu texto de hoje no Observador.

‘Calhou ir passar uns dias a Londres e chegar no dia do referendo. Das pessoas todas com que fui metendo conversa sobre o assunto, só encontrei um votante do Leave (e ainda no dia da votação; sem surpresas, foi o mais velho). Mas não queria de maneira nenhuma sair da União Europeia. Queria só ganhar capacidade negocial para impor limites à interferência britânica na vida dos ingleses e, se o referendo acabasse em Remain, preocupava-o que a partir daí a Grã-Bretanha fosse tomada como certa: tiveram a oportunidade de sair, não aproveitaram, agora sentem-se direitinhos e não revirem os olhos a cada novo delírio da Comissão ou do Parlamento Europeu. (As palavras ilustrativas são minhas, mas o sentimento é do meu interlocutor.)

Outro, taxista muito tatuado, estava abalado com o resultado e a demissão de Cameron e só repetia que era preciso respeitar a democracia. Dois irlandeses (da parte republicana), em duas lojas diferentes de Mayfair, estavam divertidos com o choque e pavor em que viam o Reino Unido. Outra pessoa dizia, no dia do resultado, ‘it feels weird in London today’. Uma portuguesa a trabalhar numa pizzaria contava que os amigos que votaram Leave não estavam a contar ganhar e já se tinham arrependido.

Mas o resultado foi o que foi, e não adiantam pesares ou arrependimentos. Tal como é inútil deambular à volta da evidência dos líderes do Leave, Boris Johnson e Nigel Farage, preferirem ter perdido e não magicarem o que fazer com a vitória. Farage já pediu no Parlamento Europeu um acordo de comércio – depois de tratar a EU como um Darth Vader supranacional, zona de comércio livre incluída. (A acrescer à desgraça, Farage corre o risco de abandonar o bem pago lugar no Parlamento Europeu para o desemprego, o que acontecerá se não conseguir expulsar do reino os malvados estrangeiros, quem sabe até reverter a invasão normanda.) Boris já garantiu (decidiu sozinho pelos quinhentos milhões de habitantes da EU) que os estrangeiros poderiam permanecer na Grã-Bretanha e os britânicos que trabalham e vivem no continente lá continuariam – no fim de uma campanha xenófoba que culpou os estrangeiros residentes no Reino Unido de todos os males desde as pragas do Egito. Mais uns dias e corremos o risco de assistir a um súbito amor britânico pelo trabalho empenhado dos parlamentares europeus em prol do tamanho adequado dos autoclismos e dos urinóis.’

O resto está aqui.

hubris

Acho alguma piada ler como o referendo e o seu filho Brexit terão fantásticas consequências para a Grã-Bretanha. Que não precisam para nada da UE e mais isto e aquilo. Tem mesmo piada. Ora bem.

1. A UE era parte do cimento que colava uma união – o Reino Unido – que quem conhece um poucochinho de história sabe que já teve demasiados sobressaltos para ser de continuidade evidente. Como consequência do Brexit, será mais um (grande) agravo se a população inglesa impuser aos escoceses, galeses e irlandeses do Norte a saída da UE que eles com o seu voto escolheram rejeitar. A Irlanda do Norte já pensa juntar-se à parte republicana, os escoceses querem a independência e até os galeses já dão que falar. Pelo que num futuro não muito longínquo, muito provavelmente terá sido uma mera Inglaterra a sair da UE, não o Reino Unido.

2. A Inglaterra escolhe sair da UE quando já não tem império, não precisa de assustar ninguém com a sua marinha e num momento do mundo em que a Europa perde influência. Com os Estados Unidos a virarem-se cada vez mais para o Pacífico e para a Ásia, não só porque lá estão os maiores conflitos potenciais como estarão sem dúvida os maiores negócios e a prosperidade económica. Que se suponha que uma Inglaterra – ou mesmo um Reino Unido – neste state of affairs terá alguma relevância mundial sozinha, é para gargalhar. Bem podem brandir a special relationship com os Estados Unidos. É olhar para a história – costuma ser útil – e ver como em 1940, quando os ingleses precisaram de uns barcos de guerra velhos cedidos pelos americanos, estes, mesmo com special relationship, aproveitaram-se do estado de necessidade britânico para lhes sacar a utilização de bases navais por todo o lado e por muito tempo. Por alguma razão até o imperialista Churchill era favorável a uma organização supranacional europeia depois da WWII.

3. O voto no leave – e sim, as clivagens de sentido de voto por grupo demográfico permitem tirar bastantes conclusões – não é o voto dos grupos dinâmicos do eleitorado. Foi o voto dos que temem as interações internacionais, dos que consideram ganhar com o isolamento face à Europa – que pela sua incapacidade para singrar numa Grã-Bretanha integrada num espaço europeu acabaram por conseguir cortar as asas aos bem sucedidos. O voto leave não foi um voto na mudança, foi um voto no status quo – de há cinquenta anos.

Donde: é fatal como o destino que uma Inglaterra fora da UE seja uma quase-irrelevância. E é por isto que o Brexit é triste. Não pelos efeitos na UE – que merece as chibatadas todas que lhe conseguirmos dar, e o Brexit é uma mais que justa recompensa para a sobranceria dos líderes europeus das últimas décadas. É por isso que aquela capa icónica da Spectator com a borboleta – que tanta gente andou a partilhar alegremente – é um logro. A Inglaterra vai-se soltar, mas menos cintilante, e num mundo que já não gosta de borboletas e prefere ladybirds.

Proteger o estado e os contribuintes de Sócrates e discípulos

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nos tempos de Sócrates passei algum do meu tempo a clamar – não propriamente no deserto, mas nos blogues – que a pior herança do socratismo não seria o descalabro financeiro. Mesmo depois da bancarrota de 2011, mantenho que pior que a crise com que o desvario socialista nos presenteou foi a degradação moral da nossa democracia (que já era moralmente periclitante) trazida pelo PS de Sócrates.

O ataque cerrado, agressivo e concertado às pessoas ruins e aleivosas que tinham a ousadia de quebrar a imagem idílica que o PS queria transmitir do país. A falta de educação ostensiva do primeiro-ministro na Assembleia da República para os representantes dos eleitores dos outros partidos. O à vontade público com que organismos públicos cortavam publicidade em órgãos de comunicação social desafetos ou boicotavam a estação televisiva mais vista pela maioria dos cidadãos. A forma como a CGD emprestava dinheiro a empresários amigos para adquirem ações de empresas para, de seguida, receberem de volta o favor de estes votarem para o BCP uma administração com os escolhidos do governo. Os comentários execráveis de Augusto Santos Silva, em flagrante competição com o inquisitorial Louçã, que se tornaram na normalidade de ser ministro sob Sócrates. Isto, claro, sem atender aos caminhos socráticos, ainda mais sinuosos, que se conheceram no fim ou depois da era Sócrates.

Posto isto, quando a improvável Canavilhas aventou o despedimento da jornalista do Público que teve a ousadia de refutar o agora aliado do governo, o alegado professor Mário Nogueira, só me apeteceu sugerir: ponha a mão no ar quem se espanta com tamanha intimidação de jornalistas. E – ainda mais – quem estranha que a intimidação fosse assim, às escâncaras e sem qualquer vergonha. Esta é a característica mais perturbante do comportamento de Canavilhas: a evidência de como no PS consideram que é seu direito natural mandar calar quem bem entendem. Tanto, que nem sentem necessidade de o fazer num canto escuro e escondido.’

O resto está aqui.

Mouraria ou chinatown?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Fernando Medina – presidente da Câmara de Lisboa em punição por todos os pecados da capital – é o político socialista exemplar. ‘Inimigo dos automobilistas e voraz com os recursos dos lisboetas’ seria um bom mote para a sua campanha de 2017.

Já muita gente escreveu sobre a mesquita que a CML entendeu por bem tomar as dores de construir e a hipocrisia flagrante de pretender defender o Estado laico radical, rasgando contratos de associação livremente estabelecidos pelo Estado para poupar as suscetíveis criancinhas à exposição ao ópio do povo por um lado, e, por outro, correr a substituir-se à comunidade islâmica na construção de uma mesquita. E se calhar atrás da mesquita vem a madrassa e a querida câmara socialista de Lisboa é bem capaz de decidir – para mostrar como somos tolerantes, multiculturais e essas virtudes teologais do credo esquerdista – contribuir financeiramente para a catequese muçulmana dos alunos da mesquita da Mouraria. Depois, claro, de ter protegido as crianças portuguesas – mesmo as das famílias ignaras que até queriam e gostavam – da exposição a essa praga maior da vida portuguesa que é o cristianismo.

Para os argumentos sobre laicidade dirijam-se se faz favor aos textos de João Miguel Tavares e Sebastião Bugalho. Eu gostava de acrescentar outro argumento: o Estado devia (como quase sempre) estar quieto. Ao contrário do que dizem os fãs do projeto – e até João Miguel Tavares – não faz qualquer sentido construir naquela zona uma mesquita. Porque há vários séculos aquela zona era habitada por islâmicos devemos agora lá construir uma mesquita? Porque se abriram lá lojas de proprietários paquistaneses e bangladechianos temos de lhes oferecer um local de culto? E a população chinesa da zona, que é pelo menos tão numerosa e visível? Está já em estudo pelos assessores diletos de Medina a construção de um templo a Confúcio? Outro a Mêncio? Foi encomendada alguma estátua da bodhisattva Guanyin?’

O resto está aqui.

Uma investigação conveniente

Era muito conveniente esclarecer-se por que razão a direção-geral de educação está a investigar as escolas com contratos de associação. Recebeu alguma queixa dos pais? Quantas? Com que conteúdo? Onde estão? Ou recebeu ordens – ou sugestões ou ‘já sabes o que fazer quando eu pisco três vezes o meu olho esquerdo’ – do ministro Brandão Rodrigues ou da secretária de estado Leitão para investigar quem tem de forma audível por todo o país contestado as políticas do governo?

É esta investigação uma vingança e uma perseguição do governo? É que não vamos esquecer que a geringonça nem tem vergonha de fazer ameaças públicas.

Confesse, Isabel: o seu problema são os traumas com o catolicismo

Eu nunca poria os meus filhos num colégio da Opus Dei, e sempre me apresentaram o Deus misericordioso, que toma conta de mim mesmo (ou sobretudo) no meio dos turbilhões e que nunca desiste de mim – e que até se diverte com esta minha maneira heterodoxa de me relacionar com ele. Mas eu não sou (nem quero ser) exemplo para ninguém, nem pretendo impor os meus pontos de vista sobre a fé.

Isto a propósito da nova fatwa da fanática Isabel Moreira contra a suposta falta de laicidade de Assunção Cristas, que infelizmente julga todos pela bitola do seu fanatismo. Isabel Moreira nunca superou os traumas de infância no colégio Mira Rio. Não tenho nada a ver com isso. O que não aceito é que apoie políticas – como o fim dos contratos de associação – e profira insanidades no parlamento na tentativa de exorcizar os seus traumas. Há toda uma gama de alternativas terapêuticas mais salutares para a vida em sociedade, desde psicofármacos a velas de aromaterapia, dependendo do tamanho do dano sofrido.

Denúncias justiceiras (e sandálias)

O meu texto de hoje no Observador.

‘Este fim de semana algo assombroso aconteceu. Ou, melhor, não aconteceu. Foi fim de semana de campanha do Banco Alimentar e não vi um único dos espíritos da esquerda-progressista-laica-o-voluntariado-é-uma-treta com quinze achaques seguidos contra o papel da odiosa caridade na ajuda aos mais pobres. Fiquei à espreita e não vislumbrei um único comentário verrinoso a Isabel Jonet.

Não, não ocorreu nenhum atentado terrorista que desviasse as atenções. Foi algo muito mais catastrófico: uma manifestação participadíssima a reclamar pela continuação dos contratos de associação onde já existem e pela continuidade da vida escolar dos alunos que os frequentam.

Mas – agradeçamos aos espíritos dos participantes na segunda internacional comunista – há quem esteja bem atento às manobras desta gente que defende os contratos de associação, que é mais perigosa que os meliantes (infelizmente praticantes de infrações ainda não tipificadas na lei) que se voluntariam para os supermercados a distribuir sacos ou dividir os alimentos doados no armazém do BA. E estes vigilantes têm feito denúncias escabrosas.

Por exemplo. Uns justiceiros, agora em voga no twitter, que uma noite sonharam com Engels e acordaram no dia seguinte com a missão de escancarar os horrorosos truques da comunicação social contra o nosso admirável e venerável governo, revelaram uma conspiração de dimensões quase internacionais. A manifestação prática era o uso, por duas apresentadoras da RTP e da TVI, de roupa amarela, numa clara e poderosa mensagem subliminar de apoio aos colégios com contratos de associação. Valentes pessoas que denunciam tais ignomínias.’

O resto está aqui.

rapazes: da próxima fiquem em casa a ver a novela. (é esta a lógica, não é?)

Aparentemente os traficantes da favela onde aconteceu o gang rape da adolescente já resolveram o assunto com os violadores e de maneira um tudo-nada violenta. Aparentemente ficaram zangados porque a violação trouxe a polícia para dentro da favela e porque, apesar de traficantes, consideram os crimes sexuais particularmente repugnantes de entre toda a panóplia de crimes.

Ora tenho a dizer que neste momento estou com mais consideração por estes traficantes que algumas criaturas, aparentemente pensantes (mas não), que nos últimos dias vi pelo facebook ou pelo twitter a verter fel porque a ‘vítima’ (assim entre aspas) tinha um percurso de vida questionável (como se isso justificasse uma violação), ou a insinuar que afinal não tinha havido violação nenhuma, foi tudo consentido. Porquê? Porque os violadores disseram que foi consentido e portanto palavra de homem é lei. A ordinária da gaja era uma agarradinha, prostituta, envolvida com um traficante, já com um filho, quem é que acredita numa mulher assim? Mas os homens – eles próprios os traficantes, carregados de armas, capazes de filmar sexo coletivo com uma mulher entorpecida e colocar na net – são uns tipos impecáveis, uns amores de pessoa, que razão teriam (além de evitarem acusação e condenação) para mentirem?!

É como digo. Além de não manifestarem estes esquemas mentais intelectualmente indigentes do que eu vi por cá, pelos vistos os traficantes têm uma réstia de decência que alguns law abiding portugueses não têm perante uma vítima de um crime hediondo. E tendo em conta que os investigadores brasileiros também estão mais preocupados em julgar a vítima que os violadores, confesso que estou sem grande empatia para as vítimas destes crimes justicialistas.

Estou certa que os que correram a escarnecer da vítima de violação estarão satisfeitos com esta justiça popular. É que como diz a Madalena Vidal no facebook: ‘Se os violadores estivessem na igreja isto também não lhes tinha acontecido.
#‎azarucho‘ Ou a Susana Beirão: ‘Se a tivessem mantido dentro das calças não tinham ficado sem ela… (mais ou menos a lógica dos comentários “cro-magnons” sobre as mulheres que usam roupas provocantes)’.

governo de alucinados, parte 854

lsd

Devo dizer primeiro que não vejo mal na ideia de ter uma contribuição para a segurança social diferenciada segundo o vínculo laboral. É mais provável que quem tenha um contrato a prazo viva um período de desemprego (por não ter o contrato renovado) do que quem esteja efetivo (porque é mais difícil e caro de despedir). Pelo que faz sentido uma contribuição maior para quem tem mais probabilidade de precisar de subsídio de desemprego.

Como é evidente, esta diferenciação só podia ser feita diminuindo a contribuição do empregador para os trabalhadores efetivos e mantendo-a para os trabalhadores a prazo. Mas como temos um governo de lunáticos que acredita que as vacas voam, mesmo numa situação de uma tremenda quantidade de desempregados – que evidentemente quando, e se, encontrarem emprego será pelo menos inicialmente com vínculo temporário -, prepara-se para estragar a vida aos tais imensos desempregados ao encarecer a sua contratação via subida da TSU para as empresas; e, donde, tornando-a mais improvável de ocorrer.

Acho que isto não vai lá sem transplante de cérebro aos ministros deste governo.

(Rafael Chust entretanto lembrou-me no facebook do investimento dos fundos da segurança social na recuperação urbana. De facto também é isto: pomos as empresas produtivas, as que sobreviveram à crise, a pagar as clientelas partidárias do PS em Lisboa.)

Ainda sobre os contratos de associação: um piadista que atira sempre ao lado (com acrescento da aldrabice seguinte)

Anda por aí a circular uma imagem de um dito de Pedro Marques Lopes, presumo que do seu facebook, onde este afirma que no Colégio São João de Brito andam pelas aulas psicólogas a atormentar as criancinhas para as constrangerem a ir à manifestação de amanhã. Porque uma das conversas de treta dos partidários do fim dos contratos de associação é ‘ai jesus que instrumentam as criancinhas’. (Como o Filipe Nunes Vicente notou no twitter, só se podem exibir criancinhas para as causas progressistas.) Ora como o São João de Brito é uma realidade que conheço muito bem – andei lá uma catrefada de anos, os meus irmãos andaram lá, os meus sobrinhos andaram lá, os meus filhos não andam lá porque o colégio é muito longe, grande parte dos meus amigos faz parte do grupo que lá formei, faço parte da direção da associação de antigos alunos, tenho amigos que são ou foram lá professores, tenho imensos amigos com filhos que lá estudam, e mais uns pozinhos semelhantes – esclareço alguns pontos.

1. Qualquer pessoa que dê a entender, mais ou menos explicitamente, que o SJB é um colégio com contrato de associação devia ter vergonha da falta de seriedade argumentativa a que se entrega. Por outro lado, quem acredita que o SJB – ou qualquer outro colégio prestigiado (ou não) em Lisboa – tem alunos cuja propina é paga pelo estado ao abrigo dos contratos de associação, devia ir entregar-se ao serviço de neurologia mais próximo para que lhe façam tratamento de choques elétricos a fim de estimularem os circuitos cerebrais.

2. Não tenho notícia, de entre todos os meios de onde as poderia receber, que haja alguém, psicóloga ou contínua, professor ou auxiliar, a forçar os alunos a fazerem o que quer que seja neste processo da extinção dos contratos de associação.

3. As psicólogas? No SJB há inúmeros jesuítas, a maior parte com um relacionamento próximo com os alunos. São os professores de religião, são professores de filosofia, são professores de música, são diretores de turma, etc. Costuma haver inclusive os jesuítas in the making, que no seu período de magistério vão frequentemente para os colégios; como são novinhos, são em tão grande parte amigos dos alunos como membros da autoridade. Sempre que há algum assunto importante que os jesuítas entendem ser necessário transmitir aos alunos, são os jesuítas que o transmitem. Só quem não conhece nada de funcionamento de jesuítas supõe que delegam em psicólogas qualquer mensagem que julgam relevante. A ter acontecido alguma coisa, nunca poderá ter sido mais que alguma conversa informal.

4. No SJB sempre notei um escrupuloso respeito pela liberdade dos alunos. Nos anos que lá estive, não participava em nenhuma das atividades espirituais, não me crismei (na minha turma um primo do Miguel Botelho Moniz e eu fomos os únicos), nem sequer fazia a oração da manhã. (Respeitava muito quem fazia isso tudo, evidentemente.) O único evento em que participei, levada pelo Colégio, foi na missa de João Paulo II no estádio do Restelo, e motivada pela melhor razão: poder faltar às aulas nessa tarde. Passei a missa a fumar virada de costas para o altar, um contínuo pôs-me às cavalitas para eu ver o Papa a passar, depois desatou a correr atrás do papamóvel e eu ia caindo e morrendo. Foi tudo. Nunca tive qualquer constrangimento ou qualquer repreensão pela minha escolha. Em sentido oposto, nunca – repito: nunca – houve qualquer tentativa de nos forçarem a tomar posição sobre qualquer assunto politicamente em voga.

5. Isto dito, acho que os alunos adolescentes do SJB têm idade para, querendo, participar na manifestação contra o fim dos contratos de associação. Ao contrário dos hipócritas de esquerda – que colocam os filhos em colégios enquanto retiram a outros menos endinheirados a possibilidade de fazer o mesmo – de facto sempre fomos doutrinados na ideia de que a melhor educação deve estar disponível para ricos e pobres.

6. Nunca estive no colégio dos jesuítas de Santo Tirso, e mal conheço o de Cernache. Mas conheço os jesuítas, tenho amigos jesuítas que andam por estes dois colégios, e posso dizer sem exagero que é um crime fecharem-nos para entregarem os alunos à Fenprof e à vontade de os doutrinar na ideologia mata-frades de Alexandra Leitão, Tiago Brandão Rodrigues e António Costa. Luís Froes lembrava no outro dia no facebook a expulsão dos jesuítas, que provocou uma hecatombe na população escolarizada em Portugal. Não é uma comparação descabida.

Acrescento: agora mesmo no fb Pedro Morgado me informou de que afinal PML diz que não eram psicólogas, mas que alguém ‘doutrinou mesmo as crianças’. Esta denúncia tem, claro, a mesma credibilidade que a anterior. Porque, convenhamos, os alunos e pais de alunos do SJB não costumam confundir os jesuítas – que é quem fala em nome dos jesuítas – com as psicólogas do colégio.

(Retirei o acrescento nº 2 sobre o ensino noturno que o SJB teve durante muito tempo, de adultos que não haviam terminado a escolaridade, porque este já não existe precisamente por dificuldades de financiamento, segundo esclarecimento que me fez um jesuíta. Logo não interessa nada para esta discussão dos contratos de associação.)

Contratos de associação, o processo da sua extinção e o bem comum

Vale a pena ler o José Maria Brito sj no Observador sobre os contratos de associação. Dá uma perspetiva de quem conhece o que se passa, em vez de fazer avaliações com o google maps. Quando o vi no facebook pedi ao Zé Maria para o postar aqui, esta semana não tive tempo para isso, pelo que fica agora.

‘Falo dos contratos de associação a partir da realidade que conheço: Colégio da Imaculada Conceição (CAIC), em Cernache, Coimbra e o Instituto Nun’ Alvres (INA) em Santo Tirso. Estas duas escolas fazem parte da lista daquelas com que o Governo deseja terminar o contrato de associação. Conheço-as não apenas por ser jesuíta e por estas escolas pertencerem à Companhia de Jesus, mas por ter trabalhado numa delas e por ter acompanhado de perto o trabalho que cada uma delas faz em termos de intervenção social. Não quero com isto desconsiderar nenhuma outra escola, mas falar com conhecimento de causa.

O que se passa então nestas escolas? Estas escolas aceitam todos os alunos de acordo com regras do Ministério, havendo umapercentagem elevada a beneficiar de apoios socias. Nesses e noutros casos, é feito um acompanhamento das famílias que vai para além do estipulado na Ação Social Escolar. Estas escolas integram alunos institucionalizados e alunos com necessidades educativas especiais. Pontualmente, aceitam a transferência de estudantes a pedido de escolas públicas estatais devido a questões disciplinares ou dificuldades de integração. Não se nega a participação em atividades extracurriculares por razões económicas. Existe uma real colaboração com diferentes entidades na resposta às necessidades da população. Sejam elas a comissão de proteção de menores, os municípios ou uma escola primária do estado cujos alunos utilizam o refeitório da escola com contrato de associação.

Nenhum destes estabelecimentos de ensino vive desinserido da sua realidade local ou fechado ao mundo. Basta para isso pensar nos projetos de educação para o desenvolvimento e para a cidadania (crise dos refugiados; acesso à educação; comércio justo, justiça social global), no projeto de educação para a afetividade e sexualidade e no trabalho que se faz no acompanhamento e crescimento – também espiritual – dos alunos ou nos acampamentos realizados no verão.

Nada disto seria possível sem um corpo comprometido de educadores: gratuidade; preocupação de acompanhamento pessoal, de sinalizar situações de risco; dúvidas e desabafos sem hora marcada; o desejo das direções para que se vá mais longe; a insistência dos educadores de ensino especial para que se integre cada vez melhor e mais plenamente; visitas domiciliárias de técnicos de Serviço Social.’

O texto todo – onde também se faz uma boa descrição da má-fé (palavra escolhida por mim) do governo neste processo – está aqui.

Trudeaus caídos

O meu texto desta semana no Observador.

‘Sabe quem é Justin Trudeau, o formoso, não sabe? Esse: o primeiro-ministro do Canadá. O que tem uma franja com os milímetros que cobre a testa tão detalhadamente calculados quantos os centímetros para a direita da cara de José Sócrates aquando do anúncio na televisão do resgate da troika. O que se tuitou numa imagem exibindo a sua força de braços ao suspender-se em prancha sobre uma mesa (chamam-lhe, li, a pose do pavão, que nunca ninguém disse que a realidade não tem um sentido de humor cáustico). E que oferece, com encenação de improviso que consegue convencer crianças de vinte meses e seis dias, lições de computação quântica (baralhando tudo, mas quem quer saber?)

Justin é – como faz parte da descrição obrigatória do líder de esquerda – avassaladoramente maravilhoso. Bonito (ou assim o dizem), jovem, progressista, um coração de manteiga para os refugiados sírios. Com pedigree familiar (que a esquerda que se diz igualitária nunca deixa de apreciar): é filho de um outro ex-primeiro-ministro canadiano. Ah, claro, e com uma mulher gira, Sophie, que foi à Casa Branca rivalizar no guarda-roupa com a fashionista Michelle Obama, também nova, antiga estrela de televisão, mãe de família moderna.

De acordo com a peculiar forma a preto e branco de ver o mundo do lado esquerdo da vida, o casal Trudeau não pode ser apelativo apenas politicamente. Por decreto é também bonito, sofisticado, culto, moderno, bem vestido, lido, uns pais formidáveis, arrebatadores, estonteantes, enfim, acrescentem aqui todos os adjetivos bons e cintilantes que há no mundo. Uma reedição dos santos de altar para a esquerda convencida que é iconoclasta.’

O resto está aqui.

as consequências virão, ai virão, virão

As consequências das políticas mata-frades do governo, tornado agora agente comercial da Fenprof, terão consequências mais largas do que apenas o desemprego dos professores e auxiliares que serão despedidos com o fim de grande parte das turmas em contratos de associação. Ou a instabilidade dos alunos que engrossarão as fileiras de reféns das greves e reivindicações corporativas da Fenprof. Leia-se o que escreveu Ana Rita Bessa, deputada do CDS, no facebook:

‘Na passada segunda feira visitei o Colégio da Imaculada Conceição, em Cernache. No refeitório estava a mesa posta para receber os meninos da escola EB1 próxima, estatal, que não tem refeitório. Quem se preparava para ir buscar os meninos a essa escola, eram duas auxiliares do colégio que ajudam “as colegas” da EB1, estatal. De resto, quando a EB1, estatal, esteve em obras, algumas aulas tiveram lugar no colégio com contrato de associação . Soube-se esta noite que este colégio não poderá abrir mais turmas novas. Aparentemente não é supletivo da rede estatal.
Mais cedo ou mais tarde, fechará portas. Também aos meninos da EB1.’

Entre outras questões que se poderiam comentar, presumo que no meio da tal poupança de dinheiro dos contribuintes com a não duplicação de recursos blablablá se inclua gastar dinheiro com a construção de um refeitório para a maravilhosa escola pública que não o tem.

Panama papers: o fim do socialismo (se fôssemos inteligentes)

O meu texto desta semana no Observador.

‘‘Estamos a assistir à morte do capitalismo’ – foi assim que eu dei pelos primeiros comentários no twitter aos Panama papers. Continuei a minha vida sem correr a ver o fim do capitalismo, que sempre que surge um tema quente nas redes sociais – tirando um atentado terrorista ou parecido (em que reajo logo e de seguida fico tempo demorado a receber insultos e ameaças por não ter o meu coração cheio de amor para com o islão) – continuo despreocupadamente a colocar links sobre a última violação por um gangue na Índia, ou as influências maoistas em Xi Jinping ou o último comentário jocoso que os meus filhos me dirigiram, durante várias horas até finalmente focar a minha atenção na agitação do momento.

Mas depois de muitos tuites ilustrando a ‘estocada final’ no e ‘o estertor’ do capitalismo, lá tive curiosidade (moderada) sobre o que o estava a matar. Assim de repente, lembro-me que o capitalismo morreu em 2008, em 2001 e com as crises bolsistas de 1987 e 1997, pelo que acho sempre as notícias da morte do capitalismo manifestamente exageradas.

Nos dias a seguir foi o que se sabe. Escândalo por um paizito qualquer presumir poder usar a sua soberania para decidir qual a taxa de impostos que cobra ou deixa de cobrar a quem tem negócios através do país. A bílis e a inveja foram exibidos ao som de trombetas contra os ricos (ainda anónimos). Uma esperança do PSD perguntava-se por que ainda não houvera uma intervenção militar no Panamá. (Porque qual é o curso de ação evidente face a um país que quer cobrar pouco impostos? É claríssimo e translúcido: bloqueio marítimo a estes meliantes, drones a largar bombas, corte de relações diplomáticas, invasão pelo exército. Isto tudo ali com a bomba de hidrogénio de reserva, não vão estes agressores internacionais começarem a oferecer um cabaz de Natal aos donos das cinquenta maiores offshores.)

(Esta seria mais uma oportunidade para comentar o estado da nossa direita – com revirar de olhos a acompanhar este ‘direita’ – mas hoje concentremo-nos noutro lado.)

Até que os Panama papers foram tornados públicos há dias e se verificou – grande surpresa – que a maioria dos envolvidos são políticos de profissão. E não é preciso ser dotado de imaginação hiperativa para perceber que para os políticos o maior uso das empresas offshore e dos paraísos fiscais é esconderem fundos obtidos através da corrupção. Ao contrário de outros grupos profissionais, que podem simplesmente (e legitimamente) querer pagar menos impostos sobre os rendimentos legalmente ganhos.’

O resto está aqui.

Absurdos: o privilégio da esquerda

O meu texto de hoje no Observador.

‘Uma vez passei um dia muito agradável a rir-me às gargalhadas na biblioteca principal de Cambridge. Felizmente era quase Natal, passei o dia no quinto andar duma ala sem ver vivalma, sentada encostada ao radiador do aquecimento central.

Estava a ler livros e journais de História da Revolução Cultural Chinesa e dei com ‘produção de conhecimento’ (escrevo isto com os sais junto ao nariz) admirável de reputados académicos. Li elogios à censura maoista e críticas aos intelectuais que desafiavam os limites da censura, que afinal deviam acertar primeiro com as autoridades o que publicavam. Um afirmava que Mao era um visionário (lá isso era, mas não da boa espécie) e referia a ‘retidão moral’ dos Guardas Vermelhos (os adolescentes que se dedicaram a torturar e a assassinar professores e inimigos imaginários depois de Mao os incitar a essa violência).

A gargalhada maior veio com uma defesa da Revolução Cultural, argumentando que um agente político experiente e pouco aventureiro como Lin Biao a havia apoiado. Lin Biao, um ano após a publicação desta zurrapa, morreu num voo em fuga para a União Soviética depois de se descobrir um início de golpe que o envolvia para assassinar Mao.

Lembrei-me desta produção científica (ou, em linguagem mais comum, destas aldrabices) de académicos favoráveis ao maoismo (ou, em linguagem que por cá se usa muito, de gente ‘do lado certo da história’) ao ler este texto de Nicholas Kristof onde confessa a intolerância ideológica e religiosa da academia americana. Refere um cristão negro cuja maior dificuldade na academia não era a cor de pele, mas a religião. E constata que em muitos departamentos universitários é mais fácil encontrar marxistas que republicanos.’

O resto, com um twist no assunto, está aqui.