Fidel Castro e as ditaduras fofinhas

O meu texto de hoje no Observador.

‘As reações dos políticos foram igualmente repugnantes. Do PCP veio o gozo descarado costumeiro. Jorge Sampaio, essa insignificância política de que não rezaria a história se um dia Cavaco não tivesse perdido umas eleições, deu um testemunho (e porquê, Deus meu, alguém se lembra de pedir um testemunho a Jorge Sampaio?) onde aplaudiu a simpatia do hirsuto Castro, entre outras qualidades adoráveis. Do atual Presidente, que há pouco tempo se fez fotografar sorridente ao lado do tirano, também nada de tragável veio.

Mas o pior chegou na forma dos votos de pesar que o parlamento aprovou pela morte da criatura. E se do PS extremista se espera todos os enlevos com as ditaduras comunistas, já não se perdoa que o PSD tenha escolhido abster-se nesta votação. É por estas e por outras que a suposta direita parlamentar merece todas as geringonças que a atropelem: os eleitores não respeitam quem não se dá ao respeito.

Enfim. Para terminar com uma nota de humor, depois das entranhas revolvidas com as reações portuguesas à morte de um carrasco das Caraíbas, podemos pelo menos reconhecer que ninguém por cá foi tão ridículo como Trudeau – deu azo a uma das hashtags mais divertidas dos últimos tempos –, que produziu um tributo a Fidel Castro que até a canadiana CBC chamou de ‘deliberadamente obtuso’. Parece que Fidel amava de amor profundo o povo cubano (matou e prendeu uns tantos, mas o que interessa isso?) e criou um maravilhoso mundo com boa saúde e educação.

O que é verdade. Quem não aprecia um destino de turismo sexual com oferta de gente muito escolarizada a prostituir-se? Também me lembro do filme Guantanamera, dos idos dos anos 90, onde uma professora universitária e um seu antigo aluno referiam áreas do saber cubanas, utilíssimas em qualquer curso superior, da estirpe de ‘marxismo dialético’ ou ‘socialismo aplicado’. Quem não saliva pela oportunidade de estudar isto?’

O texto com princípio, meio e fim está aqui.

A violência simpática da esquerda que nos salva da barbárie

O meu texto de hoje no Observador.

‘Apoiar assassinos, ditadores, protoditadores e catalisadores de pobreza generalizada, sendo estes de esquerda, é bom. Visitar um evento na única democracia decente do Próximo Oriente é mau.

Vai daí, um blogue anarquista decide punir o chefe português provocador que ousou associar-se ao extorsionário cubano, perdão, aos guerrilheiros terroristas colombianos, perdão, (muito pior!), aos israelitas. Fizeram muito bem. Pintalgaram-lhe o restaurante de tinta encarnada. É para o chefe aprender. Deixo aqui a justificação do ato:

‘O vermelho que escorre no vidro é o sangue que Avillez avilta com a sua colaboração culinária. A cola que veda a fechadura é a fome provocada que Avillez quer gourmet. As ementas recheadas de realidade são a face visível de que ‘o destino das nações depende da forma como elas se alimentam.’

Eu não percebi nada do que queriam dizer, ofereço um bombom a quem traduzir a algaraviada, mas em boa verdade as sequências de palavras e frases vindas das pessoas de extrema-esquerda costumam gritar falta de lógica formal e conteúdo revelador de um autor com QI aí, no máximo, 79. Pelo que não me espantei. Como de resto considerei a lambuça pretensiosa a armar ao poético refrescantemente consistente com o que esperamos da extrema-esquerda. Gosto sempre que não me desfaçam as desilusões.

E o chefe nem pode argumentar que não estava avisado, que estes anarquistas, perdão, anjinhos, que destroem propriedade privada são leais e avisam atempadamente o mundo das consequências das suas aleivosias. Depois do chefe ter ignorado os avisos feitos na ‘imprensa dos monopólios’ (e quem ousa ignorar avisos de maluquinhos deste calibre?), os criminosos, perdão, os justiceiros decretaram ‘que não nos encheu os olhos, deixando um travo amargo nos nossos estômagos de poetas, que apenas um copo de ação direta – essa forma máxima de poesia – mitigará’. Mais uma vez não se percebe nada, mas dá para rir com o estilo de escrita adolescente. E para nos questionarmos se os ‘estômagos de poetas’ não estarão a necessitar de transplante à conta da ingestão de comprimidos com substâncias alucinogénias.’

O texto completo está aqui.

Frente isolacionista revolucionária

O meu texto de hoje no Observador. Porque não são só os eleitores de Trump que são ignorantes. E, por estes dias, nem só a esquerda é revolucionária.

‘Não é só nos Estados Unidos que as ideias protecionistas e isolacionistas têm fôlego. O Brexit não é nada além disso, e vamos ver para onde irá a União Europeia. São também umas ideias filhas diletas da ignorância. Historicamente o mundo tem aumentos de prosperidade quando há maiores trocas comerciais entre os países. Sucedeu no século segundo antes de Cristo, quando explodiu o comércio entre os impérios chinês, persa e indo-grego e o mundo helénico e romano através das rotas da seda terrestre e marítima. Outra vez depois dos descobrimentos europeus. Mais uma vez a partir do século XX. Este dinamismo comercial espevita os avanços tecnológicos, filosóficos, artísticos. Já o mundo de Trump e dos seus apoiantes é paroquial, imobilista – e mais pobre.

Em boa verdade é uma ignorância parecida com a que Jerónimo de Sousa conta para louvar, aparentemente sem estar entorpecido por substâncias psicotrópicas, as maravilhas da União Soviética e da ‘democracia avançada’ (aquilo que as pessoas não infetadas pelo vírus marxista chamam de ditadura). Na realidade paralela de Jerónimo de Sousa, ‘a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), num curto período de tempo histórico, alcançou um significativo desenvolvimento industrial e agrícola, erradicou o analfabetismo e generalizou a escolarização e o desporto, eliminou o desemprego, garantiu e promoveu os direitos das mulheres, das crianças, dos jovens e dos idosos, o desenvolvimento de múltiplas formas de expressão artística, conquistou um elevado nível científico e técnico’. Leram bem. Vão lá tomar um chá de tília para acalmarem com a falta de vergonha alheia.’

O texto todo está aqui.

Deixem lá as sondagens em paz

A eleição de Trump foi sinal de muitas coisas más, e nem todas só do lado do republicano, é certo, mas não exatamente de falhanço de sondagens. Claro que muitas sondagens erraram a determinar os likely voters (desde logo porque tomavam em conta a tradição de votar dos inquiridos, e muitos votantes de Trump costumavam não votar), mas os últimos resultados estavam perigosamente próximos. Além disso, o LA Times deu consistentemente nos últimos dias vitórias a Trump no seu tracking e o IBD e a Rasmussen tanto davam empates como vitórias marginais de cada um dos candidatos. Quem acompanhava as sondagens dificilmente via motivos para estar descansado.

Já agora acrescento, para se ver como a incerteza estava plasmada nas sondagens e que as sondagens não têm culpa de se terem valorizado apenas aquelas que davam o resultado preferido: no caso do IBD, as sondagens a dois (Hillary e Trump), davam a vitória a Hillary; já as sondagens do IBD a quatro (com Gary Johnson e Jill Stein), exatamente nos mesmos dias, davam a vitória a Trump. Como disse num comentário, por mim, que ia vendo todas as sondagens, e que achava, como toda a gente, uma probabilidade grande a vitória de Hillary (sobretudo por causa das notícias do early vote latino) na verdade achei também sempre que a eleição não estava segura nem que a probabilidade de Hillary ganhar estivesse nos 60%, menos ainda nos 80% – e precisamente por ver as sondagens. Acho que estava à vista de toda a gente a possibilidade de vitória de Trump.

revolucionários unidos

A maioria esmagadora dos americanos acha que Trump não é habilitado para ser presidente e não tem temperamento para ser presidente. Parte dessa mesma maioria votou em Trump para presidente.

Entretanto, por cá, podemos festejar. Estamos a ver o princípio do fim da terceira globalização e de uma gloriosa época de trocas comerciais internacionais. E – com o feroz anti-institucionalismo do movimento de Trump – também o fim da era das instituições democráticas, que, com defeitos e benfeitorias, criaram a civilização mais admirável de sempre.

GOP: o partido do eleitorado em vias de extinção

Há oito anos, quando Obama ganhou o primeiro mandato, o GOP parecia ter percebido o que se estava a passar: demograficamente não era sustentável continuar como o partido dos WASP, com variações evangélicas. Já Bush, o W., tinha cortejado e conquistado o voto latino. McCain bateu-se com Obama para seduzir os eleitores latinos (não conseguiu, mas deu luta).

Depois das eleições de 2008, uma das estrelas em ascensão do GOP era Bobby Jindal, governador do Luisiana. Mais tarde revelou-se um flop, com o carisma de uma natureza morta, mas por algum tempo entusiasmou como o futuro do GOP. A qualidade que excitava as esperanças era a sua ascendência indiana. O GOP sabia que tinha perdido o eleitorado negro, mas mostrava vontade de se bater para conseguir os votos das outras minorias: latinos, asiáticos, marcianos, whatever.

Nestas eleições foi o que se sabe. O KKK prometeu andar a vigiar o voto dos negros, evidentemente para os intimidar e levar a não votar. Na Carolina do Norte, resmas de eleitores negros foram retirados das listas eleitorais para eliminar estes votos no opositor de Trump. A deplorável Ann Coulter queixou-se de que Trump ganharia se só votassem as pessoas com 4 avós já americanos (Bill Kristol respondeu-lhe que o grupo com a maior percentagem de avós nascidos nos EUA eram os negros). E a campanha foi tão ofensiva e racista que aparentemente está a haver uma surge de votantes latinos, que evidentemente vomitam a ideia de Trump.

Claro que parte disto tudo deve-se às ideias trogloditas de Trump, que resolveu acicatar o ressentimento do eleitorado branco que quer lamber as feridas pelas alterações estruturais que os deixaram economicamente mais vulneráveis – os mesmos que sempre julgaram como parasitas os negros que reclamavam que a estrutura económica e social os deixava economicamente vulneráveis. Mas também vem de uma porção que sempre foi considerável no GOP, com um racismo latente apenas não assumido, o GOP que se opôs aos civil rights com Goldwater e o GOP que contava com a estratégia sulista para ganhar presidenciais.

Se Trump perder, como todas as pessoas não apreciadoras de abusadores sexuais desejam, será sintoma de o GOP não só não ter aprendido a lição, como de incapacidade de se adaptar àquilo que são os Estados Unidos. Se continuar assim, estas eleições bem podem ser aquelas que selaram que os latinos se tornaram um eleitorado seguro democrata.

 

Querida esquerda, nada acaba até estar acabado

O meu texto de ontem no Observador.

‘E o que dá por ‘encerrado’ a geringonça? Escândalos que alguma malvada comunicação social e a sempre aleivosa oposição inventam. Santos Silva deu por encerrado o caso das viagens pagas pela Galp a Rocha Andrade, e agora o BE também já informou que o caso das licenciaturas falsas de um chefe de gabinete do secretário de Estado da Educação está encerrado. E ai de nós se discordarmos. Ainda apanhamos mais umas décimas de impostos sobre os combustíveis se não formos dóceis e obedientes.

Há quem se escandalize pela sobranceria destes encerramentos compulsivos. Neste caso das licenciaturas falsas, por exemplo, pessoas miudinhas (e sem gosto pelas distrações ornitológicas preferidas pela geringonça) podem argumentar que há muito por explicar. Se Nuno Félix foi uma escolha do ministro Tiago Brandão Rodrigues, amigo próximo, independentemente de este saber ou não da mentira da nota biográfica, o ministro não é responsabilizado por escolher (e voltar a escolher) uma pessoa capaz de mentir sobre o seu percurso académico? Já não se avaliam os governantes pela qualidade das pessoas que escolhem recrutar?

Lembrando o motorista – teimariam os tais picuinhas –, não será um ministro politicamente responsável pela rebaldaria, inclusive financeira, de viagens diárias de quatrocentos quilómetros para transportar um chefe de gabinete de casa para o trabalho? Claro que não. Vamos agora submeter a geringonça a esse tipo de escrutínio? Pensam que estão a lidar com um governo de direita?’

O texto todo está aqui.

Nem temos direito a aldrábias com panache

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Sobre esta epidemia de senhores do PS que por terem ido uma dúzia de vezes a universidades se apresentam como licenciados, e a outra criatura que já vai em autor proclamado de dois livros que as escutas mostram que não escreveu, só me ocorre dizer uma coisa. Que saudades daquelas pessoas que, tendo subido na vida e desgostosas das origens familiares pouco aristocráticas, corriam a comprar retratos antigos nos leilões e nos antiquários, penduravam-nos nas paredes de casa e alegremente os apresentavam aos convidados como os seus antepassados. Ou dos corruptos de bom coração como Lord Chiltern de An Ideal Husband, que sempre tem o mérito de ser personagem na minha peça preferida de Oscar Wilde.  Parecendo que não, até para se ser aldrabão é aconselhável algum nível e gosto.

O clube das mulheres nasty e o clube dos senhorios espoliados

O meu texto de ontem no Observador.

‘O clímax veio no terceiro debate, quando chamou ‘nasty woman’ (‘mulher detestável’) a Hillary. Para Trump e a sua corte de seguidores sexistas, foi uma forma genial de por a contraparte feminina no seu lugar. Como dizia um congressista republicano, ‘às vezes uma senhora precisa que lhe digam que está a ser nasty’. (Não é adorável? Ainda bem que existem estes homens beneméritos e esclarecidos para nos darem ralhetes. Só espero que nenhuma senhora que se cruze com esta pessoa nos próximos tempos não lhe entorne em cima da roupa, por azar, um copo daqueles cafés que os americanos bebem a escaldar. Seria uma grande pena.)

Para o resto do mundo com noções de decência em funcionamento, em geral, e para as mulheres, em particular, o ‘nasty woman’ funcionou como uma declaração de guerra. Além do barulho nos media com o insulto, as mulheres correram para o twitter proclamando-se nasty. Já há há t-shirts à venda e demais parafernália. Porque, de facto, já fomos todas nasty. Não por atos desagradáveis ou imorais, mas pela ousadia de questionarmos homens que não entendem como não somos só produtoras de elogios e salamaleques. Acontece-nos muito. Temos orgulho em ser assim nasty. Tanto que até a Teen Vogue – muito mais afiada do que muitos comentadores masculinos por esse mundo fora, mesmo os que desgostam de Trump, que não estão a perceber a magnitude da repugnância que a criatura gera nas mulheres – sugeriu que o comentário tinha acabado de ganhar a eleição a Hillary.’

O texto todo está aqui.

objetivo do governo: promover a mendicidade

beggarA Nancy Mitford escreveu com graça (e já referi isto isto umas tantas vezes) que as ternuras pelo comunismo eram uma doença, com o nome catita de ‘pull to the east’. Cada vez mais me convenço que tem razão. Não pode ser de outro modo: quem propõe uma barbaridade destas só pode ser doente, clinicamente nuts.

Em resumo. Estas criaturas doentes e doentias que nos governam primeiro impedem por mais cinco anos os senhorios de ganhar dinheiro dignamente através de uma atividade legítima: arrendar a sua propriedade a outros e usufruir do rendimento das rendas. Depois aumentam-lhes o IMI (quantas casas das colinas das zonas antigas de Lisboa ou do Porto, arrendadas por meia dúzia de euros, não terão vistas fabulosas e boa exposição solar?). Quando já quebraram os proprietários – à conta de os impedir de obter rendimentos por si próprios e do assalto via impostos – dão-lhes então umas migalhinhas de dinheiros (daqueles que, nas imortais palavras de Elisa Ferreira, são do estado, pelo que são do PS) para fingirem que têm boas intenções. Deixar liberalizar o mercado do arrendamento e subsidiar quem comprovadamente não pode pagar as rendas que subiram – isso não lhes passa pela cabeça, que assim tinham menos gente controlada através da distribuição de dinheiro.

Estas pessoas doentes que nos governam, decorre da sua ideologia, não conseguem tolerar-nos um modo de vida diferente de sermos todos mendigos do estado.

Progressistas pela moral e contra os vícios

O meu texto desta semana no Observador.

‘Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e eletricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultamontanos e rústicos. Que proponham exatamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).’

O texto todo está aqui.

Francisco Seixas da Costa, o Trump português

Eu, sem saber como, sempre tive um certo iman para os maluquinhos da net. Por estes dias aparentemente tenho um novo observador bilioso. No meu texto da semana passada no Observador, contei o miserável tratamento que Guterres deu ao seu ministro das finanças, Pina Moura, publicamente despedido enquanto estava na AR a defender o orçamento retificativo de 2001. Logo veio Seixas da Costa comentar, dizendo mais ou menos que eu era uma ignoramus e contava a aldrabice que eu confundira Pina Moura com Manuela Arcanjo. Não sei se a aldrabice se deve a alzheimer precoce ou a gosto pela mentira (ou outro motivo igualmente pouco edificante), mas o certo é que Seixas da Costa não resistiu a contar a dita aldrabice com aquele ar sobranceiro de quem dá lições paternalistas a uma mulherzinha, coitada, e que os machistas tantas vezes adotam.

Entretanto voltou à carga. Ficou zangado com Vasco Pulido Valente porque este não ficou de coração pleno de harmonia universal, nem marcou a correr viagem para o Nepal para quatro meses de meditação celebratória, com o novo emprego de Guterres. Zangou-se também com um cronista que escreve na Sábado e no DN, Alberto Gonçalves of course, a quem acusa de azia – sem perceber que fala de uma qualidade que é afinal sua. E, ainda, com uma ‘uma caixadóculos direitolas de taxa arreganhada’.

Não faço ideia se a direitolas caixa de óculos é a yours truly, e se for até fico feliz de causar irritação na personagenzinha, que há estirpes de pessoas que eu gosto de irritar. Melhor ainda se irrito por ser sorridente. Percebo que Seixas da Costa prefira o ar macambúzio e sério de quem acha que está a salvar o mundo durante todos os minutos que passa acordado, ou a circunspeção sisuda de quem não pode falhar na missão que Marx lhe comunicou durante os seus sonhos mais deliciosos – tudo coisas que se encontram em abundância na esquerda. Prefere também certamente o riso risível a que se entrega ao ler factos indisputáveis das tropelias de Guterres.

Em todo o caso, sobre Seixas da Costa não me interessa muito falar. Se quiserem, podem ir ler o José Meireles Graça reduzir a picadinho a gelatina Seixas da Costa. Mas há um ponto importante. É que só para a cronista feminina a gelatina refere uma característica física: a necessidade de usar óculos. (E, no meu caso – ou no de outra mulher -, o gosto, como percebe qualquer pessoa pensante, porque se não me achasse piada de óculos não os usaria. Donde, concluiria uma pessoa pensante, dizer que eu uso óculos não é algo que me perturbe.) Claro que a seguir, como é sonso de mais (e gelatina) para assumir que queria reduzir a dita cronista à sua característica física de caixa de óculos – sendo que aos cronistas masculinos (oh surpresa) não calhou fazer elaborações fisiológicas – veio acusar outros de falta de sentido de humor. E declarar-se utilizador de óculos.

Ora bem, tendo nos últimos dias (e meses) a criatura Trump sistematicamente feito comentários sobre o físico das mulheres que lhe fazem chegar a pimenta ao nariz, parece-me que é hora de expormos as criaturas malcriadas, trogloditas e machistas a quem salta logo o comentário às características físicas das mulheres que ousam estar no espaço público. Comigo, além do recente bilioso, aconteceu há pouco tempo com o Quadros. Recentemente uma amiga de facebook – que conheço pessoalmente e é bem gira – lá levou com avaliação física by Alfredo Barroso, no meio de uma disputa facebuquiana. (Ah, e que mulher portuguesa não anseia por saber a avaliação que dela fazem portentos de beleza como os todos aqui referidos, de Trump a Barroso?)

O que tem mais piada nisto tudo é que este género de comentários é sempre feito por homens que estão mais para o lado de Quasimodo que para o de Adónis. Até me parece que é uma vingança contra o mundo que porventura já lhes trouxe umas tantas tampas de mulheres. No fundo, estão a acertar contas. Pelo que, além de lhes darmos os epítetos (de australopitecos) merecidos, devemos também informá-los que se tornam ainda mais ridículos, sobretudo junto do mulherio.

Quanto a Seixas da Costa, só me resta repetir o que disse no twitter, depois de ser insultada pela elegante gelatina (tão gelatina quanto o ídolo Guterres): o chá que se bebe em adulto nas embaixadas é demasiado tardio para ainda ter benefícios naquilo que importa. E cumprimentos dos meus óculos. Não são os que eu uso normalmente. Comprei-os para os dias de mood anos 50. Mesmo sendo os óculos dos dias fancy, têm mais gravitas que a pomposidade possidónia do reverendíssimo senhor embaixador. Ah, e olhe que o Gambrinus (onde eu por acaso ia muito com certas pessoas próximas que felizmente já não são) é, como diz o meu filho mais velho, muito século passado. Do tempo em que os homenzinhos podiam (tentar) reduzir a discussão das opiniões proferidas pelas mulheres a graçolas sobre as suas características físicas – e escapar.

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Aaaaah, esqueci-me. Obrigada, reverendíssimo embaixador, por me agrupar com dois cronistas como VPV e Alberto Gonçalves. Raras vezes recebi tamanho elogio ao que escrevo.

Epicamente saloios

O meu texto da semana passada no Observador. Vai só agora porque encalacrei o computador, está a ser por estes dias diligentemente reparado e eu resisto a escrever posts no ipad.

‘A habilidade guterrista para as contas públicas, por exemplo, não está ao alcance de qualquer um. Só mesmo um génio como Guterres consegue espatifar as contas públicas numa conjuntura económica tremendamente favorável. Em meia dúzia de anos, com crescimento económico robusto, situação internacional favorável, receitas fiscais a jorrarem viçosamente para o orçamento de estado e juros da dívida pública a caírem com a adesão ao euro, Guterres teve o mérito de não só não cumprir nenhum dos critérios orçamentais do pacto de estabilidade e crescimento, como ainda foi virtuoso a ponto de nos conduzir a uma situação de défices excessivos. Tal capacidade destrutiva é, de facto, um talento escasso mesmo no político típico português.

Os amigos de Guterres. Temos a agradecer ao atual secretário geral da ONU ter trazido para a política estadistas gigantes da estirpe de Sócrates (tão polivalente que é agora também intelectual de gabarito prestes a lançar o segundo livro) (ok, podem tirar uns momentos para gargalhadas) e de Armando Vara (que na CGD e no BCP emulou a arte de Guterres para as contas públicas).’

O texto todo está aqui.

Porque dentro de vinte anos as pessoas perguntarão umas às outras: onde estavas quando foi apresentado o Manual Modernista para a Modernidade?

manual-modernistaÉ amanhã o aguardado lançamento do livro Manual Modernista para a Modernidade, de Vítor Cunha. Bel’miró fará também uma aparição surpresa. Não temam: os serviços secretos de quinze países protegem este evento das ameaças terroristas repetidas nos últimos dias pelo Grupo de Amigos de Sócrates das Zonas Tribais do Paquistão. A apresentação contará com a minha intervenção – estava para ser Angelina Jolie (declarada admiradora do Vítor Cunha), mas ocorrências pessoais determinaram que não pudesse deslocar-se a Portugal, e evidentemente eu fui a substituição óbvia – mas não devem levar a mal ao livro e à sua apresentação por isso.

Apareçam.

Cleptomaníacos unidos, coligação de governo ao seu dispor

O meu texto de hoje no Observador.

‘Como se não fosse tudo muito claro, o tuit a seguir clarificou. Mariana Mortágua não quer que o número de milionários aumente. Percebem? O bloco e o PS não querem cá ricos neste país. Xô. Era o que faltava. Há governos que têm como objetivo não deixar que o número de pobres aumente, preferencialmente que o número de pobres diminua. O BE e o PS têm como finalidade da governação algo muito mais à frente: impedir que as pessoas enriqueçam.

Portanto, querido concidadão, gosta daquele conceito que é a ascensão social? Pois emigre, que por cá não queremos gente com desejos imorais de subir na vida. Nasceu pobre? Fique lá, e agradeça as esmolas que BE e PS querem dar para lhe comprar o voto. É remediado? Pois dê-se por satisfeito e fique quieto, nada de estudar nem de mandar os filhos para a universidade a ver se conseguem empregos mais bem pagos que os dos seus pais.

Não é uma maravilha de desígnio para um país? Sugiro que nas próximas eleições os cartazes do PS apregoem ‘não queremos gente rica’ e ‘imobilidade social sempre’.

Mas atenção: isto melhora. Entrou em cena Catarina Martins. E se no BE uma doutoranda em Economia tem este nível teórico indigente, imagine a atriz e encenadora. Catarina não desiludiu: ‘Comprar casa não é investimento. Investimento é quando se cria valor. Investimento é quando se criam postos de trabalho’.

Uau. Pela mesma ordem de ideias, uma empresa que compre um escritório mais espaçoso, mais bem situado e mais confortável – em vez de deixar os trabalhadores num pardieiro – também não está a investir, já que não construiu nada. E, gente que trabalha em imobiliárias, estão ver? O vosso trabalho não cria valor nem serve para nada. Embrulhem. É óbvio: comprar uma casa com melhores condições onde a nossa família viva bem, perto de escolas boas onde os nossos filhos possam ter sucesso académico, que não implique perder excessivo tempo no transporte para o trabalho, vê-se logo que não é um ‘investimento’. Não estamos a investir na qualidade de vida familiar. Nem na melhoria de perspetivas dos nossos filhos. Nem a adquirir um valor que os nossos descendentes um dia herdarão. Nada disso. Parabéns, Catarina.’

O texto completo está aqui.

para contextualizar indignações de gente hipócrita

De facto indigna que uma pessoa escreva um livro a contar a intimidade sexual de outras pessoas, fazendo uso de alegadas confidências de terceiros que já morreram. Mas convém lembrar (e eu lembrei no facebook e este post nasce dessa recordação) que São José de Almeida já fez o mesmo: escreveu um livro onde exibe a homossexualidade de pessoas que já morreram, outras ainda não (tal como JAS), que nunca assumiram essa orientação sexual e que não mandataram (certo pelo menos no caso dos mortos) jornalistas de esquerda para lhes vasculhar assuntos de cama. As informações que revela obteve-as muito por confidências de terceiros que se mantêm anónimos. (Até José António Saraiva é mais corajoso aqui.)

O mais engraçado: é que este livro foi muito apreciado pela gente que agora se indigna apopleticamente com José António Saraiva. As revelações de sexualidade alheia escritas por gente amiga, está muito bem; revelações de sexualidade alheia escritas pelos ódios de estimação, ai o mundo que acabou. É verem por exemplo esta publicidade ao livro de São José de Almeida no jugular. E este texto embevecido de Fernanda Câncio no DN (obrigada pelo envio, João Pereira da Silva). Sobre o livro promovido por Vidal e por Câncio, ler o Malomil. Deixo aqui um pedaço, para se ver o livro que foi promovido.

‘Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». […]

Sendo lésbicas ou não, há um denominador comum às várias mulheres referenciadas neste cadastro narrativo: é tudo gente morta. […] Várias, como se vê, morreram já depois do 25 de Abril, muito depois, podendo ter assumido mais livre, enfática e publicamente a sua orientação sexual. Não o quiseram fazer. Mas São José tratou bem delas, fê-las a todas saltar da toca. Cá p’ra fora do armário, vá, suas malucas, que isto de se andar a esconder no roupeiro é coisa bem feia e muito hipócrita.

Ao Capítulo 6 entramos no closet masculino. De acordo com o depoimento do dirigente comunista Ruben de Carvalho, cuja autoridade nestas matérias desconhecemos qual seja, o Subsecretário de Estado da Presidência, Paulo Rodrigues, «era conhecido publicamente pelas suas relações homossexuais» (pág. 126). Também Pedro Feytor Pinto, responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, «o António Ferro dos anos setenta», era «assumidamente homossexual» (pág. 126). Porém, nas suas memórias, recentemente publicadas (Na Sombra do Poder, Lisboa, 2011), Feytor Pinto não se revela, em lugar algum, «assumidamente homossexual». Aliás, em duzentas páginas de texto não dedica sequer uma linha à sua intimidade. E o «António Ferro dos anos setenta» está aí, vivo e lúcido, escrevendo memórias, dando entrevistas, aparecendo na televisão, proferindo conferências. Por que motivo não o contactou São José Almeida? Era o mínimo que se impunha, não apenas a uma historiadora como a uma jornalista digna desse nome: cruzar as fontes, confrontar testemunhos, ouvir os visados. Por que não falou a autora com Pedro Feytor Pinto?’

A ASAE ataca de novo

O meu texto desta semana no Observador.

‘Um dos melhores efeitos secundários do governo da coligação PSD-CDS foi a ASAE com trela curta. Depois veio o tempo novo e à esquerda gostam do mundo arrumado, catalogado, com muitos fiscais disto e daquilo a atormentarem as empresas respeitáveis. Donde: a ASAE anda satisfeita a mostrar de novo os caninos aguçados, e até já faz operações na comunicação social queixando-se de necessitar de maior orçamento.

Pelo que sugiro dissecar as atividades da ASAE. E encontramos as seguintes práticas apocalípticas dos privados que a ASAE, num comportamento reminiscente de Tintin a desmascarar traficantes de droga, nos livrou. Há a venda especulativa (não desmaiem) de bilhetes para jogo de futebol. Apesar de não se saber de gangs apontando armas de fogo a obrigar à compra, e de aparentemente os compradores terem pago o valor que atribuíam a verem o jogo dentro do estádio, a ASAE gastou o dinheiro dos contribuintes a impedir valdevinos de venderem bens que eram sua propriedade (os bilhetes) a outros que os queriam comprar.

Numa inspeção a bombas de gasolina, situações mais destrutivas que um atentado terrorista (atos para os quais a ASAE também tem formação) foram encontradas. Houve casos de ‘incumprimento de requisitos gerais e específicos de higiene relativos aos géneros alimentícios’. Não se diz que os géneros alimentícios estavam estragados, e não deixariam de o referir para fins propagandísticos, pelo que presumimos que a falta de cumprimento de ‘requisitos gerais e específicos’ não impediu os ‘géneros alimentícios’ de se manterem em bom estado.

Mas os comportamentos verdadeiramente diabólicos estancados pela ASAE vêm a seguir: ‘desrespeito pelas regras de anúncio de venda com redução de preços e a violação dos deveres gerais da entidade exploradora do estabelecimento de restauração e bebidas’. Uau, a ASAE protegeu-nos do desrespeito pelas regras de anúncio de vendas com redução de preço – mais uma vez foram só as regras desrespeitadas, aparentemente a redução do preço ocorreu mesmo – e de violação de uns misteriosos (mas seguramente essenciais para manter vivos três quartos da população portuguesa) ‘deveres gerais’. Deus guarde a ASAE que tais préstimos nos dá.

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Mao Zedong: ‘A revolução não é uma festa’

cultural_revolutionMao Zedong morreu fez ontem quarenta anos, e escrevi um texto para o Observador sobre Mao e a sua liderança do Partido Comunista Chinês e da China. Enjoy.

‘Quando na manhã de 9 de setembro de 1976, há quarenta anos, os altifalantes espalhados pelas ruas das cidades chinesas informaram, “com a mais profunda tristeza, que o Camarada Mao Zedong, o nosso estimado e amado grande líder”[i] morrera durante a madrugada, dias depois do seu terceiro ataque cardíaco em quatro meses, os chineses não ficaram surpreendidos. Durante os milénios da história chinesa os fenómenos naturais haviam sido sempre obedientes a informar as populações sobre a manutenção, ou não, do mandato do Céu pelos governantes. Inundações, terramotos e colheitas destruídas? Eram sinal inequívoco de que a dinastia perdera o favor do Céu e que as populações, seguindo os ensinamentos de Mêncio, poderiam substituir os governantes que tinham perdido a virtude.

Ora a 26 de julho daquele ano, um terramoto violento destruíra a cidade de Tangshan, perto (segundo a perceção das distâncias na China) de Pequim, onde também se sentira o abalo. Evidentemente a informação dada à população foi escassa – sobretudo sobre o número de mortos (estimados entre quinhentos e setecentos mil), sobre a incompetência do Exército de Libertação Popular a procurar sobreviventes entre os escombros e sobre as valas comuns onde se enterraram os cadáveres cobertos de lixívia – mas a notícia foi passando, bem como a claríssima mensagem da natureza: a morte de algum poderoso aproximava-se.

Pelo que aquando do anúncio da morte de Mao, o pesar oficial foi registado e o luto público foi estritamente observado. No entanto, para a população chinesa, bem como para a hierarquia do Partido Comunista Chinês, a reação foi mais de alívio do que de dor. A notícia chegava ao fim dos dez terríveis anos da Revolução Cultural – que proporcionou os animadores números de uns estimados (números de Andrew Walder e Yang Su) um milhão e meio de mortos e cem milhões de chineses perseguidos e punidos. A China estava exausta.

A ausência de tristeza e de choros com a morte de Mao foi mais sintomática por ter ocorrido meses depois da morte do primeiro-ministro Zhou Enlai, a 8 de janeiro de 1976. Zhou era tido pela generalidade dos chineses como a imagem da moderação – por oposição a Mao e aos radicais a quem este, a espaços, dava rédea solta para atormentar as populações – se não mesmo do humanismo no meio da loucura da Revolução Cultural. Quando morreu, maciças manifestações foram espontaneamente organizadas pelos chineses (e meticulosamente reprimidas pelas autoridades) em cidades do norte e do sul da China, do litoral e do interior. Coroas de flores acumulavam-se nas praças das cidades, pessoas choravam, e houve até o desafio ostensivo às autoridades com a ocupação da praça Tian’anmen a 4 e 5 de abril, por altura do Festival Qingming (em que tradicionalmente se prestava honras aos mortos), com direito a carga militar sobre os manifestantes.’

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(Um dia destes conto a história da fotografia.)

Autoajuda para decidir sentido de voto

O meu texto de ontem do Observador. Com incursão lá no fim ao caos em que Fernando Medina colocou Lisboa.

‘Qualquer editora e livraria que se preze tem no catálogo livros destinados a resolverem todos os problemas conhecidos pela humanidade. É um bibliotecário tímido? Dale Carnegie ensina como fazer amigos e influenciar pessoas. Tem dificuldade em encontrar o amor (verdadeiro ou temporário) nesta sociedade voraz e cínica? Livros explicam que proferir dois mantras a cada manhã resulta num príncipe encantado cinco meses depois. Pescado o dito príncipe, ou princesa, descobre que felizes para sempre é treta da Disney? Compre o famoso Os Homens São de Marte, As Mulheres São de Vénus para entender os comportamentos da sua cara-metade interplanetária. Quer ficar rico especulando na Bolsa? Banqueiros de renome (alguns entretanto falidos e perseguidos pelo pouco impressionável sistema judicial) contam-lhe a receita secreta (mas que, por alguma razão misteriosa, não tem produzido milionários de geração espontânea pelo menos ao ritmo da proliferação de vulgaridades no Twitter do deputado João Galamba).

Ora há que dizer que as editoras e livrarias nacionais deviam alargar, com urgência, os assuntos dos livros de autoajuda ao discernimento do sentido de voto dos eleitores nacionais. Era pegar numa qualquer lista de uma revista feminina que elenque os traços do valdevinos que nunca aceitará compromissos e transpô-la para políticos tóxicos. Eu dou uma ajuda.

Exemplo: se um partido político está falido e vive da caridade e da disponibilidade de tesouraria dos seus militantes, então há alguma probabilidade de esse partido político estroina com a sua contabilidade ter também maus resultados nas contas públicas. É natural que um partido político que não tem dinheiro para pagar a eletricidade das suas instalações se dedique, quando governo, a atrasar (ainda mais) os pagamentos aos fornecedores do Estado. Quem não gere bem a sua casa não sabe gerir a casa dos outros ou a casa de todos. Sem surpresas, o partido político falido (PS) foi quem governou treze dos dezasseis anos antes de nos oferecer a bancarrota de 2011. É sempre uma alegria observar comportamentos consistentes nos nossos colegas da espécie humana.

Outro exemplo: há melhor metáfora para o Portugal guterrista e socrático do que a vida de Sócrates em Paris? Sócrates – se acreditarmos na sua narrativa oficial, que já é mais que suficiente para lhe indicarmos o caminho do ostracismo político – vivia em casas caras, com roupas vistosas e custosas, educação xpto para o filho, viagens frequentes. O dinheiro vinha de empréstimos descontrolados, sem atentar ao valor, menos ainda pensando na capacidade de os reembolsar. Se por momentos fingirmos todos acreditar que alguém se endivida com um amigo em meia dúzia de anos a ponto de ter de vender a casa para pagar essas dívidas, o que nos diz isso politicamente de uma pessoa? Devemos votar em quem está disponível para espatifar património duradouro (um bem imóvel que poderia até transmitir aos filhos) para poder comprar ténis Prada?’

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A ministra da festa cor de rosa e da reforma agrária

O meu texto de ontem no Observador.

‘Faço já a declaração de interesses: não tenho nada contra festas, nem contra revistas cor-de-rosa, nem contra ministros divertindo-se, nem contra fotografias de pessoas aperaltadas em eventos sociais. Eu própria passei uma parte das férias num local com alguma influência britânica onde ainda se valoriza o vestir bem para jantar, no fio da navalha entre a formalidade e a informalidade. Percebo, portanto, que a ministra da administração interna, Constança Urbano de Sousa, tenha decidido ir a uma festa durante as férias e nela se tenha feito fotografar.

Mas a ministra não é uma capitalista impenitente como eu. Detenhamo-nos, então, por momentos nesta propensão que os socialistas têm, mesmo agora extremados à esquerda e adeptos da luta de classes, de se aliarem a eventos com uma inegável frivolidade social e a revistas de fofocas. Afinal os socialistas empedernidos nunca resistiram ao luxo. Veja-se como os Castro celebraram a miséria cubana contratando Christian Louboutin para fornecer as fardas para os Jogos Olímpicos. Ou Bernie Sanders, que prometia uma revolução socialista americana e acabou a comprar uma casa cara num lago idílico (os Adirondacks, lá perto, são dos sítios que me estão atravessados na garganta para visitar).

De resto, o comportamento da ministra é consistente com o de António Costa, agora ‘chocado’, quase lacrimejante (levem-lhe chá de verbena), mas que também se fez fotografar numa praia algarvia, risonho e feliz da vida. Nem sei se este género de ação não terá magicado pelas cabecinhas do PS que se supõem génios de estratégia política. A mensagem seria inspirada em Pangloss: estamos no melhor dos mundos, a governação está encarrilhada, como podem ver corre tudo tão bem que até nos podemos despreocupadamente dedicar a festas e riso durante as férias. Afinal é este governo que acredita nos poderes mágicos do otimismo, porventura depois de terem lido meia dúzia de best sellers de autoajuda: se acreditares que vai correr bem, então vai correr bem. E, se não correr, a comunicação social amiga finge que sim e os papalvos dos eleitores pensarão que as suas desgraças individuais não se replicam pelo resto da população.

Houve o problema do costume em se tratando de um governo socialista: a realidade. Estava António a rir na praia e Constança na festa cor de rosa quando já o país ardia como se não houvesse amanhã. Que não tenham arrepiado a estratégia propagandística ‘ministros, festejemos ostensivamente a boa governação’, mostra uma falta de senso e de noção e de respeito atroz e perturbante.

Claro que Constança Urbano de Sousa teve de abandonar as suas festas cor-de-rosa para fazer controlo de danos. Desde aí tivemos entrevistas da ministra quase todos os dias, declarações à comunicação social, textos elegíacos sobre a senhora em jornais, tentativas de culpar a União Europeia. E descobrimos que afinal a reação mais ajuizada da ministra da administração interna aos fogos que consomem as florestas é mesmo participar em festas.’

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Então o epílogo

Uns meses depois deste assunto, recebi no meu local de trabalho uma notificação para ir levantar à esquadra tal e tal outra notificação. Como não costumo entregar-me a uma vida de crime, imaginei do que se tratava. Lá fui levantar a notificação para ir prestar declarações à PSP ali ao lado do Tejo. Porventura a queixa foi apenas feita para me intimidar, assim uma espécie de aviso de uma pessoa poderosa a uma humilde blogger, esperando que eu utilizasse alguma manigância de me esquivar a receber a notificação, por o meu nome não estar completo ou assim. Como não tenho por hábito esquivar-me, o certo é que quando o meu advogado ligou para a PSP para remarcar a minha prestação de declarações – e porque evidentemente a queixa não tinha nenhumas pernas para andar e poderia fazer boomerang – soube que a queixa já havia sido retirada. A acusação era de ameaça de devassa da intimidade (ou coisa parecida, estou a dizer de cor). Adivinhem a autoria.

A viúva (depois da traição da Visão, o qualificativo negra não destoa)

Mandaram-me umas cenas que a namoradinha socrática aparentemente escreveu sobre mim por causa do meu último texto no Observador. No meio dos longos descabelamentos da senhora que não interessam, afirma que eu ameacei revelar informações sobre a vida privada.

Ora bem, é falso. Nunca ameacei revelar nada da vida privada de Câncio porque nunca soube nada da vida privada de Câncio, só (muito pouco) do que Câncio et al forçavam ao mundo que os rodeava, nesta questão absolutamente involuntário, saber. (E em instâncias próprias poderei sempre detalhar.) De resto, nos casos em que a proteção da vida privada e do relacionamento com sócrates era semelhante, da parte de Câncio, às vezes em que a própria senhora tratava de publicitar a relação, por exemplo tornando públicas  e escrevendo publicamente sobre as queixas que fazia às autoridades dos jornalistas por causa do tratamento de ‘namorada de sócrates’ que a imprensa lhe dava.

Mas agora fiquei com vontade de recordar o início disto tudo e o comportamento autoritário por default de Câncio (quem podia, podia, não era?) nos tempos socráticos. Um dia, Câncio escreve no DN um ‘perfil‘ sobre o novo ministro da cultura de sócrates, uma das coisas mais ridiculamente parciais que eu li na vida. Era o jornalismo dos tempos socráticos: tínhamos uma namorada do pm a escrever ‘notícias’ elegíacas e embevecidas como se não tivesse um claríssimo conflito de interesses, num jornal supostamente de referência e com um diretor que avalizava a situação.

E eu decidi fazer um post a gozar com o ‘perfil’ que a jornalista escrevera. Vai daí a senhora dedica-me um post ameaçador no blogue de então (o 5 Dias), porque a idoneidade profissional e a difamação e isto e aquilo e as ações judiciais servem mesmo para estes casos. (E se não é mesmo a forma socrática vintage de lidar com opiniões hostis.)

Em suma, não sei, graças a deus, se Câncio fazia loud sex com sócrates e nunca ameacei revelá-lo. Sabia, na altura, que Câncio se dava de forma muito próxima com sócrates (agora, como toda a gente, e pelo que ambos já contaram, até sei mais do que sabia na altura) e que se tivesse respeito pelos seus leitores e brio profissional não escreveria textos supostamente com rigor jornalístico sobre os governos que este chefiou sem fazer disclosure do conflito de interesses. Depois de algumas peripécias, houve seguimento disto tudo fora blogue, mais uma manifestação de prepotência e intimidação típica dos tempos socráticos, em que Câncio, depois da fanfarronice inicial, saiu de fininho. Também sei o que Câncio moralmente vale pela leitura do texto da Visão. Mas o que tem mais piada é que Câncio, com a caracterização de idiota útil que deu de si na Visão, prova mesmo o ponto do meu post que despoletou tudo: Câncio não tinha capacidade nem discernimento para avaliar sócrates, quanto mais escrever sobre ele da forma minimamente imparcial que se exige a um jornalista. Obrigada, então, por me dar razão, oito anos depois.

o ranço jacobino, versão 582

Aparentemente, segundo a jornalista impoluta Câncio, noticiar uma degolação de um padre e tentativa de degolação de uma freira e mais uns reféns numa Igreja é fazer a propaganda do Daesh. Compreende-se, todas as vidas são iguais mas umas são mais iguais que outras, e não podemos assumir que um ataque a uns ranhosos de uns religiosos católicos numa igreja tem tanta importância como um ataque a uma discoteca de gays. Há coisas – e vidas e mortes – que não vale nada a pena noticiar.

(Apanhado no twitter do João Pereira da Silva.)

‘do nada’

costapmAposto que se o terrorista de ontem tivesse sido mesmo de extrema-direita, a culpa das mortes não seria da austeridade, da política externa, do facto de viver numa casa sem ar condicionado (que na Alemanha faz muita falta com tanto calor que por lá se padece), do patrão que promoveu outro em vez do inocente rapaz, do carro de um árabe endinheirado que no último inverno molhou o pobrezinho com a água que estava na estrada, do passarinho que escolheu o jovem desadaptado para fazer as suas necessidades, da alergia ao pólen, do céu cinzento da Alemanha, de uma admiração misguided por Mussolini (afinal são só as hormonas da juventude), nada disso, a culpa seria da ideologia má e da maldade da pessoa que conscientemente a escolhe e se inspira por ela para os seus atos. O nosso ilustre pm (até me escorrega o computador das mãos), determinado em colecionar na sua conta os tuits mais ofensivamente imbecis até ao fim dos tempos, não diria que a morte e a violência vieram ‘do nada‘; diria que vinham do sítio do costume.

(Foto roubada ao João Gonçalves no facebook.)

Mas queremos mesmo isto na Europa?

O meu texto desta semana no Observador. Se tivesse escrito depois de ontem, teria acrescentado os maluquinhos que se esforçam por fazer crer que o terrorismo atual é tão provável vir do islão como da religião/ideologia do lado.

‘É daquelas pessoas que dá palmadinhas compadecidas nas costas do muçulmano que violou a rapariga ocidental de minissaia, afinal veio de uma cultural onde é normal maltratar mulheres, e por cá está desempregado? Acha, como Ana Gomes, que a culpa dos atentados terroristas na Europa é da austeridade? Defende que os pobres diabos, sejam violadores ou terroristas, têm de ser compreendidos, assimilados, receber muito dinheiro dos estados sociais europeus e, sobretudo, desculpados? Considera que os vilões verdadeiros são os que denunciam que os costumes islâmicos são aberrantes, concretamente para a condição feminina, e não podem ser tolerados na Europa? De cada vez que há denúncia de vilanias islâmicas, prefere escrutinar o mensageiro para tentar repudiar a mensagem? Vê como de uma lógica cristalina clamar contra o patriarcado e o heteropatriarcado e, simultaneamente, recusar aceitar que as comunidades islâmicas na Europa têm propensão para violar e brutalizar mulheres, e acumular com defesa de regimes que enforcam ou afogam gays? Repete vinte vezes por dia o mantra ‘o islão é uma religião de paz’?

Pois bem, é conveniente reconhecer que as pessoas iluminadas que responderam sim a dez por cento destas questões são cúmplices do caldo culpabilizante das vítimas que propicia os crimes dos islâmicos. Duvido que o à vontade criminal fosse tão grande se não notassem a solidariedade dos iluminados. Se não desconfiassem que a sua origem os vai livrar de investigações ou acusações mal um idiota útil grite xenofobia. Se não percebessem que a sociedade europeia se deixa vitimizar.

Vamos rever a matéria. O mais importante religioso muçulmano de Portugal é acusado pela mulher (que aparece com a cara ensanguentada em fotografias – certamente foi contra uma porta, como é costume) de violência doméstica. O que sucede? Os jornais param rapidamente de falar sobre o assunto e o presidente da república dos afetos escolhe fazer na mesquita do acusado uma cerimónia no início do seu mandato.’

O resto do texto está aqui.

As lições do Ronaldo e da seleção para os meus filhos

O meu texto de hoje no Observador.

‘A segunda: o ‘que se f@#$’. Tirando o vernáculo, é mesmo este o espírito que quero ver exibido perante os meus filhos. Ao contrário do hino por estes dias tão cantado, estamos longes de ser valentes. Somos temerosos. Odiamos correr riscos porque não conseguimos lidar com um possível fracasso – como se fracassar não fosse a sina de todos nós várias vezes na vida. Um líder político que perca eleições ou um treinador que não ganhe campeonatos tem de ser corrido na hora. Deleitamo-nos com estatísticas que mostram que as novas empresas falham em números expressivos – à laia de aviso ‘ninguém de juízo se mete nessa aventura estranha de criar um negócio’. Até parece que os empresários de sucesso, sem exceção, não tiveram projetos em que só perderam dinheiro e ganharam traquejo. Temos até vários partidos políticos – os da geringonça – que veem como ofensiva a promoção do empreendedorismo.

Pelo que o espírito ‘que se f%0&’ faz muita falta. Vamos à luta, arriscamos e, se correr mal, paciência, que se… As cassandras que se calem, as carpideiras que parem de treinar para a catástrofe que se avizinha, que pior que cairmos picadinhos no chão é ficarmos na zona de segurança, na mediocridade calculada, perto das saias da mãe (em se tratando dos meus filhos, claro que estou disponível para abrir uma brecha nesta teoria) e da boia de salvação.’

O texto completo está aqui.

O meu texto de ontem no Observador.

‘Queria escrever sobre a mais recente polémica com o Facebook: empresa tão moderna, tão hipster, tão tecnológica, tão universo-aos-nossos-pés que não deixa as senhoras que lá trabalham vestirem-se de forma sexy. A propósito disso fui reler as notícias de Tim Hunt, o Nobel que acha uma maçada as mulheres cientistas: que os cientistas e as cientistas apaixonam-se e as mulheres choram quando são criticadas. Aqui, apanhei a verborreia de V.S. Naipaul sobre mulheres escritoras, vi tudo encarnado e decidi alargar o arco deste texto.

A saber: a mania que alguns egos masculinos têm de que a forma de agir, de trabalhar, de pensar, de escrever, de o que quer que seja masculina é a forma correta, o padrão, a ordem natural do mundo funcionar. E que a maneira feminina – e sim, eu voto sempre na existência de diferenças entre os sexos e nunca na igualdade intrínseca entre os xy e as xx (o que é muito diferente de assumir que há papeis, profissões, talentos predeterminados para cada sexo) – é um desvio à norma, fruto de emoções desordenadas e irracionalidades várias, sobretudo algo que as mulheres têm de corrigir se querem ser levadas a sério pelos guardiães da seriedade (também conhecidos como elementos do sexo masculino).

Este padrão masculino vai ao ponto das alucinações de Naipaul: a maneira de escrever certa e com qualidade é a masculina. O curioso é que este tipo de opiniões é levado a sério ou, pelo menos, reproduzido sem ser em tom de escárnio em jornais decentes. Quando merecia a zombaria que oferecemos a sugestões estrambólicas como a de retirar dos cursos de literatura as obras dos escritores masculinos, brancos e das potências colonizadoras. Os maluquinhos esquerdistas americanos querem extirpar os cursos de Shakespeare e Chaucer. Naipaul, porventura com o ego insuflado de que padecem os temperamentos artísticos e políticos, como aqui bem ilustrou Paulo Tunhas, opina que a escrita de Jane Austen ou das Brontë ou de George Eliot é ‘unequal to him’ (vá, vamos todos desmaiar ao mesmo tempo de comoção pelo tamanho do talento másculo de Naipaul).’

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Canavilhas e o seu maior amigo

Como membro da Assembleia de Freguesia (da zona onde moro) há alguns anos, posso testemunhar como os cocós dos cães, que os donos malcriados deixam no espaço público, são uns dos problemas recorrentes apresentados pelos residentes na Assembleia de Freguesia. Por questões de higiene e por questões de saúde – e, também, pelo incómodo que a falta de educação alheia causa, mesmo quando se consegue evitar pisar o cocó. É, por isso, muito curioso este testemunho (apanhado no facebook da Maria João Nogueira) sobre Canavilhas e o seu animal de estimação. Cada vez mais acho que o problema do PS não é só ideológico: é de formação e de educação básicas.

Estava Canavilhas a passear o seu animal de estimação quando o mesmo defeca na relva junto à minha casa e ao meu escritório. Esperei que a boa vizinha, cidadã cumpridora e conhecida deputada da Nação apanhasse o dejecto expelido. Em vão. Dali saiu sem qualquer rebuço. Porque a minha mulher é mais corajosa que eu, que fiquei a ruminar por dentro, dispara em direcção a Gabriela e pergunta-lhe: “não vai apanhar?” Resposta pronta: “relva não é passeio”. E, malcriadamente, vira as costas e vai embora. Brilhante, as crianças não brincam na relva, os dejectos aí podem ficar, abandonados. Estupefactos vimo-la afastar-se na sua pose senhorial.’

orgulhosamente sós

O meu texto de hoje no Observador.

‘Calhou ir passar uns dias a Londres e chegar no dia do referendo. Das pessoas todas com que fui metendo conversa sobre o assunto, só encontrei um votante do Leave (e ainda no dia da votação; sem surpresas, foi o mais velho). Mas não queria de maneira nenhuma sair da União Europeia. Queria só ganhar capacidade negocial para impor limites à interferência britânica na vida dos ingleses e, se o referendo acabasse em Remain, preocupava-o que a partir daí a Grã-Bretanha fosse tomada como certa: tiveram a oportunidade de sair, não aproveitaram, agora sentem-se direitinhos e não revirem os olhos a cada novo delírio da Comissão ou do Parlamento Europeu. (As palavras ilustrativas são minhas, mas o sentimento é do meu interlocutor.)

Outro, taxista muito tatuado, estava abalado com o resultado e a demissão de Cameron e só repetia que era preciso respeitar a democracia. Dois irlandeses (da parte republicana), em duas lojas diferentes de Mayfair, estavam divertidos com o choque e pavor em que viam o Reino Unido. Outra pessoa dizia, no dia do resultado, ‘it feels weird in London today’. Uma portuguesa a trabalhar numa pizzaria contava que os amigos que votaram Leave não estavam a contar ganhar e já se tinham arrependido.

Mas o resultado foi o que foi, e não adiantam pesares ou arrependimentos. Tal como é inútil deambular à volta da evidência dos líderes do Leave, Boris Johnson e Nigel Farage, preferirem ter perdido e não magicarem o que fazer com a vitória. Farage já pediu no Parlamento Europeu um acordo de comércio – depois de tratar a EU como um Darth Vader supranacional, zona de comércio livre incluída. (A acrescer à desgraça, Farage corre o risco de abandonar o bem pago lugar no Parlamento Europeu para o desemprego, o que acontecerá se não conseguir expulsar do reino os malvados estrangeiros, quem sabe até reverter a invasão normanda.) Boris já garantiu (decidiu sozinho pelos quinhentos milhões de habitantes da EU) que os estrangeiros poderiam permanecer na Grã-Bretanha e os britânicos que trabalham e vivem no continente lá continuariam – no fim de uma campanha xenófoba que culpou os estrangeiros residentes no Reino Unido de todos os males desde as pragas do Egito. Mais uns dias e corremos o risco de assistir a um súbito amor britânico pelo trabalho empenhado dos parlamentares europeus em prol do tamanho adequado dos autoclismos e dos urinóis.’

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hubris

Acho alguma piada ler como o referendo e o seu filho Brexit terão fantásticas consequências para a Grã-Bretanha. Que não precisam para nada da UE e mais isto e aquilo. Tem mesmo piada. Ora bem.

1. A UE era parte do cimento que colava uma união – o Reino Unido – que quem conhece um poucochinho de história sabe que já teve demasiados sobressaltos para ser de continuidade evidente. Como consequência do Brexit, será mais um (grande) agravo se a população inglesa impuser aos escoceses, galeses e irlandeses do Norte a saída da UE que eles com o seu voto escolheram rejeitar. A Irlanda do Norte já pensa juntar-se à parte republicana, os escoceses querem a independência e até os galeses já dão que falar. Pelo que num futuro não muito longínquo, muito provavelmente terá sido uma mera Inglaterra a sair da UE, não o Reino Unido.

2. A Inglaterra escolhe sair da UE quando já não tem império, não precisa de assustar ninguém com a sua marinha e num momento do mundo em que a Europa perde influência. Com os Estados Unidos a virarem-se cada vez mais para o Pacífico e para a Ásia, não só porque lá estão os maiores conflitos potenciais como estarão sem dúvida os maiores negócios e a prosperidade económica. Que se suponha que uma Inglaterra – ou mesmo um Reino Unido – neste state of affairs terá alguma relevância mundial sozinha, é para gargalhar. Bem podem brandir a special relationship com os Estados Unidos. É olhar para a história – costuma ser útil – e ver como em 1940, quando os ingleses precisaram de uns barcos de guerra velhos cedidos pelos americanos, estes, mesmo com special relationship, aproveitaram-se do estado de necessidade britânico para lhes sacar a utilização de bases navais por todo o lado e por muito tempo. Por alguma razão até o imperialista Churchill era favorável a uma organização supranacional europeia depois da WWII.

3. O voto no leave – e sim, as clivagens de sentido de voto por grupo demográfico permitem tirar bastantes conclusões – não é o voto dos grupos dinâmicos do eleitorado. Foi o voto dos que temem as interações internacionais, dos que consideram ganhar com o isolamento face à Europa – que pela sua incapacidade para singrar numa Grã-Bretanha integrada num espaço europeu acabaram por conseguir cortar as asas aos bem sucedidos. O voto leave não foi um voto na mudança, foi um voto no status quo – de há cinquenta anos.

Donde: é fatal como o destino que uma Inglaterra fora da UE seja uma quase-irrelevância. E é por isto que o Brexit é triste. Não pelos efeitos na UE – que merece as chibatadas todas que lhe conseguirmos dar, e o Brexit é uma mais que justa recompensa para a sobranceria dos líderes europeus das últimas décadas. É por isso que aquela capa icónica da Spectator com a borboleta – que tanta gente andou a partilhar alegremente – é um logro. A Inglaterra vai-se soltar, mas menos cintilante, e num mundo que já não gosta de borboletas e prefere ladybirds.