Os ateus-carrapato

O meu texto da semana passada no Observador. Esta semana duplamente pertinente.

‘Nem todos os ateus são carrapatos, claro. A maioria são pessoas normais que vivem a sua vida sem incomodar os outros em excesso. Não fazem da descrença na divindade uma batalha de vida, não escarnecem dos crédulos obscurantistas que têm fé, não esbugalham os olhos transidos de fúria de cada vez que referem a Igreja Católica. São pessoas com quem se pode ter (e frequentemente tem) conversas bem pertinentes sobre espiritualidade e religião. No meu caso (de católica), tenho mais valores e pontos de vista em comum com a maioria dos meus amigos ateus do que com os católicos conservadores fundamentalistas.

Mas há ateus-carrapato, consideravelmente diferentes das pessoas ateias normais minding their own businesses. Caracterizam-se, grosso modo, pelo ódio de morte à religião católica e pela irracionalidade absoluta e agressiva de cada vez que um católico se expressa publicamente – onde estão as purgas nos jornais e nas televisões quando precisamos delas?! Se por acaso quem se expressa publicamente é um padre, o transtorno é tal que ficamos em cuidados se algum destes carrapatos não vai para casa auto mutilar-se. Qualquer dinheiro dos contribuintes que vá parar a uma instituição católica ou de católicos dá-lhes ímpetos de emigrarem – que, infelizmente, não concretizam.

São pessoas suscetíveis. Tal como não conseguem sobreviver com sanidade (e nota-se) sem uma bateria de sessões de psicoterapia de cada vez que ouvem um piropo obsceno na rua, também se ofendem com crimes hediondos como receber desejos de um ‘santo natal’. (Que género de psicopata deseja um ‘santo natal’ a uma pessoa de religião desconhecida?!)’

O resto do texto está aqui.

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O diabo está nos planos e nos lapsos informáticos

O meu texto de hoje no Observador.

‘Isto tudo para dizer que não me choca que adolescentes de treze anos leiam Valter Hugo Mãe, com as suas frases polémicas que lemos nos últimos dias. Eu nunca li nada de Valter Hugo Mãe, não adquiri grande vontade, e, sobretudo, tenho demasiados livros que quero mesmo, mesmo ler e que permanecem fielmente à espera da minha atenção na mesa de cabeceira e nas estantes lá de casa. Mas o autor escreveu um post no Facebook bastante consequente sobre este escândalo. E se, como diz, no livro estas frases provocam sofrimento à criança, então são mesmo pedagógicas: mostram que palavras fortes de conteúdo sexual são muitas vezes usadas para magoar. E que isso merece julgamento moral. Por mim, nada contra.

Mas, claro, também não tenho nada contra os pais que objetam a uma ou outra palavra crua nas leituras dos seus filhos. É conveniente começarem já uma petição para banir Gil Vicente da poluição educativa que se oferece às crianças, bem como a referência, quando se fala de Bocage, das suas Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas –, mas cada um sabe aquilo que prefere que os seus filhos leiam.

Em todo o caso – não podia deixar de ser – tenho bastante contra uma geringonça do calibre de um ‘plano nacional de leitura’. Atenção: parece-me bem que se forneçam leituras de apoio aos conteúdos das várias disciplinas; e que para as aulas de português haja certas balizas entre as quais os professores possam escolher.

Mas por que diabo o Estado tem de recomendar leituras aos pobres cidadãos menores para os seus tempos livres? A que propósito uma escola manda os alunos lerem o livro tal e tal nas férias de Natal? Não era mais divertido, e respeitador da individualidade dos alunos, deixá-los escolher (pelo menos os que quisessem escolher)? E de seguida até verificar o que cada um havia escolhido e porquê? Havendo sugestão (repito: sugestão) de leituras, não poderiam ficar a cargo de cada professor ou de cada escola? Supomos que os educadores não sabem escolher livros para cada turma, sem necessitar de grandiosos planos? Não chega já de formatação, com os conteúdos programáticos iguais nos nossos oitenta e nove mil quilómetros quadrados, e dados da mesma forma? O Estado precisa de nós tão arrumadinhos a ponto de todos lermos os mesmos livros, independentemente de gosto e interesse? E que disparate é esse de serem os burocratas do Ministério da Educação a decidirem qual é a idade adequada para ler que livro (já descontando lapsos informáticos)?’

O texto completo está aqui.

sócrates e Gabriela Canavilhas fazem escola nos Estados Unidos

A intragável Kellyanne Conway já veio reclamar por ainda ninguém nos media ter sido despedido por dizer mal do adorável líder Trump. Que, juntamente com o alt rightist Bannon (a criatura horrenda à vista mas que mesmo assim se sente na posição de dizer que as mulheres que usam contracetivos são pouco atraentes, que os machistas têm a boa característica de não entenderem que não são exatamente o Colin Firth – se fossem não necessitavam de ser machistas -, e que, não sendo, com certos comentários só provocam risota generalizada no mulherio), têm afirmado que os media são ‘o partido da oposição’. E no meio disto tudo há maluquinhos que continuam a fingir que o grande problema atual são os media (os mainstream media, tremam de medo!) e o seu enviesamento – que, existindo, é uma roca de bebé quando comparado ao assalto à liberdade de imprensa que Trump pretende concretizar.

O que é Trump e ao que vinha estava à vista de toda a gente. O tipo de pessoa que Trump é – e, inevitavelmente, o tipo de líder que Trump poderia ser, porque é uma impossibilidade pessoas execráveis darem líderes decentes – estava escancarado. As ideias e as tendências autoritárias e antidemocráticas foram escritas em letra fluorescente. A megalomania e a obsessão com as audiências televisivas gritavam a pedir atenção. Quem não quis ver, foi porque assim escolheu. Muita gente fez por não ver – porque do outro lado estava o verdadeiramente grave: uma gaja. (De resto o ódio a Hillary só teve parecido com o ódio, do outro lado da política mas igual, que foi oferecido a Margaret Thatcher. E pela mesmíssima razão.) Lembremo-nos dessas pessoas.

Entretanto, Trump aparentemente já redige as suas ordens executivas sem revisão dos departamentos, que são tradicionalmente consultados quando estas lhes dizem respeito. O horripilante Bannon, sem experiência que não gerar ódio nos media, foi nomeado para o NSC. Já o presidente dos chefes de estado maior das forças armadas e o diretor da National Intelligence foram dispensados de reuniões. Não quer receber relatórios de lado nenhum, porque a criatura laranja sabe a realidade por osmose (assim como Fidel Castro representava a vontade democrática do povo cubano por osmose). O queriducho do genro anda em guerras de poder para manter o ouvido do sogro. A senhora da ONU já veio ameaçar os países que votarem em sentido contrário ao dos EUA no Conselho de Segurança. Mas já sabem, é continuar a dizer que há imensos checks and balances (só o sistema judicial se fez avistar), e que (eram os mesmo que afiançavam durante a campanha) Trump estava apenas a marcar a sua posição, que depois de eleito suavizaria as suas propostas até as tornar normais. Ah, e que o facto de a criatura laranja ser tremendamente impopular já nesta altura é uma patranha das sondagens; aquelas que nacionalmente davam regra geral uma pequena vitória a Hillary, que afinal terminou tendo mais 2% dos votos que Trump, quase 3 milhões de eleitores (mas que quando alguém – eu – dizia que não tinham errado e que revelavam incerteza, era chamada das coisas que os simpatizantes de Trump já nos foram habituando). É continuarem. Por mim, se os republicanos não decidirem travar Trump – e só o farão se perceberem que continuar o apoio lhes trará custos eleitorais, que a maioria de congressistas e senadores já mandou os princípios às urtigas – desconfio que teremos a definitiva sulamericanização, ou russificação, da democracia americana.

elogio do medo

Não tenho nenhuma discordância de fundo a assinalar com o que o Rodrigo Adão da Fonseca aqui escreve, deambulo mais só sobre dois pontos.

1. Arrumando já a questão do medo. Estou muito pouco otimista, reconheço. Não cabe aqui neste post elencar ou sequer resumir razões, mas vejo uma série de indícios que me levam a temer que nos encaminhemos para tempos mais obscurantistas. Vejo isso em várias zonas do mundo, em uns tantos regimes, nas mudanças de posicionamento político e de valores das populações. Trump não começou nada, é só mais um sintoma. Infelizmente é um sintoma que poderá ter poderes performativos e agravar a doença. Não vejo bem como Trump poderá ser contido (os fellow republicanos não aparentam estar interessados nisso) e também não vejo como as instituições americanas escaparão incólumes a alguém que claramente quer testar as leis ao limite (veja-se o nepotismo, os conflitos de interesses e os recebimentos de estrangeiros) e que manda tradições não escritas às urtigas (caso da declaração de impostos, exames médicos,…).

Em todo o caso vou continuar pessimista. Tenho grande fé na capacidade das pessoas estragarem realidades boas. Não sou muito dada a histerias apocalípticas, mas passei muito tempo a clamar sobre o perigo do islão na Europa, e sempre me habituei a ser vista como uma maluquinha catastrofista. Afinal cabe na cabeça de alguém que a luminosa forma de vida europeia pudesse ser recusada por quem por cá viesse a ter a sorte de residir? O importante era sermos muuuuuuito tolerantes, que precisamente essa tolerância seria o que ganharia o coração dos islâmicos e lá lhes colocaria a vontade de se tornarem europeus ocidentais de gema. Viu-se. Deram por garantida a atração do modo de vida europeu – e enganaram-se. Desconfio que que a confiança na resiliência das instituições americanas seja depósito igualmente bom de confiança.

Provavelmente Trump terá o mesmo fim de Obama. O exagero progressista, do igualitarismo à força, da arrogância de Obama gerou a reação trumpista oposta. Trump, que (felizmente, para este fim) é excessivo, megalómano e não admite limites à sua ação, também provavelmente gerará reação para a esquerda (como se Trump fosse de direita) e cairá por isso. Mas o dano fica feito – fica sempre. Mais ainda nos Estados Unidos, que não têm uma história de séculos, nem uma cultura mais ou menos uniforme com raízes imemoriais, como sucede a tantos países pelo mundo. Nem sequer tem um inimigo preferencial, daqueles com que os países já não conseguem viver, de tão acostumados à rivalidade secular (França vs Inglaterra, China vs Japão,…). Os Estados Unidos vão buscar a essência e a convicção da bondade e da superioridade do país a um génetro de realidades etéreas diferentes: à constituição (que outro país venera desta forma a constituição?), aos pais fundadores, às instituições democráticas. E por isso estão mais suscetíveis a rasteiras a estas últimas

2. Não faço grandes análises sociológicas ou psicológicas sobre as manifestações que têm ocorrido nos Estados Unidos aquando da tomada de posse de Trump, e confesso que não as acho (essas análises) muito relevantes. Porque o ponto é: se as pessoas se querem manifestar e se o fazem sem incomodar a vida alheia, sem destruir propriedade de outros, sem violência – então que o façam, acho muito bem, e eu certamente não me sinto autoridade para dizer se as manifestações são narcísicas ou se merecem ser o germinar do maior movimento político e social do século XXI. O ponto também é: este tipo de manifestações só é visto como perigo em regimes autoritários ou securitários. Se as manifestações forem fogos-fátuos de celebridades excitadas, morrerrão com o passar do tempo e não importunaram ninguém; se ganharem contornos políticos mais consistentes, desde que não adotem a revolução armada, também nada a dizer. Evidentemente cada um valoriza segundo a sua personalidade e quadro de valores todas as realidades, mas para mim um político eleito poderoso que se recusa a submeter ao escrutínio normal na democracia que o elegeu, que ataca o contra poder da comunicação social e quer relacionar-se com os eleitores através de tuits, e que mente escancaradamente (e com não sei quantos idiotas úteis a aplaudir a mentira evidente e a defendê-la) será sempre infinitamente mais perigoso que os maluquinhos que se manifestam, vigorosamente mas pacificamente, pela autodeterminação sexual do tigre das neves.

Já participei em manifestações – a última foi de apoio ao governo PaF, em frente à AR quando este foi derrubado pela geringonça. Sabia perfeitamente que não teria efeito nenhum a minha deslocação a São Bento, mas fui na mesma, porque a ação humana não vale a pena apenas pela eficácia. Já estive noutras manifestações, ajuntamentos, etc. Não me sinto, portanto, com autoridade para julgar quem assim se manifesta – com as salvaguardas do parágrafo anterior. Participar publicamente e agir, em última instância, são sempre comportamentos narcísicos. Cada vez mais se comprova cientificamente que há recompensas (até ao nível da química cerebral) quando agimos de acordo com o que consideramos bem. A gratuitidade só existe na relação com os filhos (e porque os vemos como parte de nós); tudo o resto é sempre motivado pela nossa própria necessidade. Pelo que tirarmos tempo para participar numa manifestação sobre algo que reputamos importante é, no fundo, uma decisão narcísica. Noutro nível, esta forma de participação (bem como outras mais empenhadas) podem até ser curativas. Vem nos livros: o veterano que dedica a sua vida pós-guerra a manifestar-se pela solução pacífica dos conflitos; a vítima de abusos sexuais que vê como missão trabalhar com outras vítimas e sensibilizar o público para estes crimes; o preso político que quando sai do seu país entende ter a responsabilidade de alertar o mundo para as supressões de direitos que se vivem no seu local de origem. Etc. Etc. Etc.

Mas, em boa verdade, nada disto importa muito. O que me importa é não dar o meu contributo para um mundo onde é mais importante escrutinar manifestantes pacíficos que o presidente que manda mentir na primeira conferência de imprensa sobre um pormenor risível, e com claras tendências para um culto de personalidade. Um mundo onde a hora das fotografias apresentadas na comunicação social provoca rasgar de vestes, mas é peanuts um proteccionista que nem aceita que mexicanos e chineses (os novos ogres do mundo) possam gerir bancos americanos. Um mundo onde passa normalmente um presidente ameaçar a China, que nunca pôs em perigo os Estados Unidos, e que impede departamentos governamentais de passarem informação à imprensa, tudo sem sobressaltos; porque grave, grave é um discurso de uma atriz famosa numa cerimónia de Hollywood. Cada um tem as suas prioridades para os seus escândalos, as minhas estão neste estado e não vejo razão para mudarem.

Então votos de boa administração Trump

O meu texto de hoje no Observador. Porque, caros amigos liberais, o problema de Trump não é só a defesa do protecionismo. Nem, sequer, tratar-se de um apalpador compulsivo. (Ainda que qualquer das duas chegue e sobre para repelir eventuais apoios a Trump.) O maior problema é ser um autoritário, muito poderoso, que não admite limites ou o simples escrutínio à sua ação – e que, podendo (e quem pode conter Trump não está com vontade disso), vai deteriorar a democracia americana de uma forma talvez irreparável. As boas instituições não estão imunes aos humanos viciados, como bem nos ensina a História.

‘Entretanto, no meio de tudo isto, temos Trump mandando o seu press secretary mentir garantindo que teve a MAIOR multidão de sempre a assistir a uma tomada de posse. Ponto final. Além das divertidas tendências para o culto da personalidade – Trump tem mais gente a vê-lo porque é o mais arrebatador político desde que o poder centralizado do estado surgiu na noite dos tempos, como bem nos informam os superlativos que o POTUS usa sobre si próprio e as suas habilidades – há o mote que foi dado à presidência: mentir quando os factos não confirmam a estonteante maravilha que é Trump. Os funcionários do irmão americano do INE bem podem começar a estudar métodos de inventar estatísticas, caso a realidade tenha a falta de senso de não brindar Trump com o MAIOR crescimento económico desde Adam Smith, ponto final.

Trump no seu discurso fez promessas sensatas e cumpríveis como (cito livremente) exterminar os terroristas e acabar em definitivo com o crime. Declarou o dia da sua tomada de posse um Dia de Devoção Patriótica (façamos uma genuflexão) com ecos da Primeira Guerra Mundial. Inventa que só perdeu o voto popular para Hillary Clinton (por quase 3 milhões de votos) porque imigrantes ilegais lhe roubaram a eleição. Mantém a recusa de mostrar a sua declaração de impostos (algo que até na nossa democracia de pantomina se faz) impossibilitando, assim, os americanos de escrutinarem as suas atividades económicas e o seu património. Garantiu ser uma contradição nos termos um presidente com conflitos de interesses. O prestável partido republicano (aquele com que os crédulos contam para limitar os disparates trumpistas) já tentou, de resto, emprateleirar um departamento de vigilância independente para as questões de ética no Congresso. Foi só parado pela fúria popular; até Trump teve de reprovar a pressa. […]

Um presidente megalómano propenso a mentir, fazer negócios que ninguém poderá avaliar e comprar uma guerra para distrair os seus detratores e energizar os indefetíveis. Uma primeira dama oficiosa, influente, com alma de feirante desonesta. Uns apaniguados obedientes que não recusam mentir. Um partido, com maioria nas duas câmaras do Congresso, que se vendeu e renega o que sempre promoveu (o comércio livre, por exemplo) para alimentar o projeto de poder próprio de Trump. Não, não: não é nenhum bombardeamento à democracia liberal como a conhecemos. Nem nunca houve na história instituições que soçobraram devido a homens viciosos que as usaram e desacreditaram. Só pode correr bem.

Mas não esquecer: o perigo real são os manifestantes contra Trump. Não têm poder para ordenar ataques com drones, ao contrário do seu alvo, mas o que interessa? E as maldosas fake news – que são todas as que expõem Trump. Mas especialmente tóxicas são as desavergonhadas das mais de 3 milhões de mulheres que se manifestaram pacificamente nos Estados Unidos. Deixo-vos um bom plano: fingir que estas manifestações não tiveram números impressionantes, nem são importantes, e exibir só as maluquinhas (existem sempre) que lá se passearam. Que tenham mão pesada para estas aleivosas que não descansam na perseguição (juro que li isto) a um pobre homem que acaba de ser eleito.’

O texto completo está aqui.

Mário Soares da discórdia

Um texto meu na Folha de São Paulo, sobre as opiniões que se formaram sobre Soares pela minha geração e querubins ainda mais novos. Um amuse-bouche:

‘Algumas pessoas em Portugal estão por estes dias espantadas pela ausência – gritante e ostensiva – do povo comum português nas cerimónias fúnebres de Mário Soares. Houve funeral de estado cuidadosamente preparado e executado – e bonito. Os políticos louvaram em abundância Soares. Os jornalistas lamentaram-se como se tivesse morrido o gatinho preferido. As televisões e jornais esqueceram que existia resto do mundo. A população? Não quis saber.’-

Aqui.

Extremistas a ensinarem crianças

O meu texto de hoje no Observador.

‘No ano letivo passado, a criança mais velha, então no quarto ano, teve pela primeira vez História de Portugal. Eu fiquei muito feliz (História sempre foi das minhas disciplinas preferidas e finalmente lá teria alguém em casa mais desperto para as secas que de vez em quando dou sobre este ou aquele pormenor do passado). O petiz saiu da aprendizagem interessado por História (o que diz muito bem da professora), mas de lá do meio do programa algo fez o rapaz ficar baralhado com as misérias do Portugal monárquico e as maravilhas do Portugal republicano.

Por razões misteriosas, ficou convencido que monarquia era sinónimo de ditadura e pobreza. E que a república, em Portugal, havia trazido o melhor dos mundos. Lá tive eu – que sou republicana, mesmo que não diabolize a monarquia (ok, assumo, é impossível resistir a gozar com certos membros de certas famílias reais) – que repor, naquela impressionável e adorável cabeça, a verdade.

Que a pobreza dos tempos monárquicos se devia mais às características secularmente estruturais de Portugal (e que muitas delas persistem hoje, iguais ou ligeiramente travestidas) que ao singelo facto de termos monarcas. Que a Primeira República foi uma rebaldaria indecorosa, com atropelos graves aos direitos e liberdades dos portugueses e de um anticlericalismo radical e dispensável. Que chegou à infâmia de proibir explicitamente o voto feminino, anteriormente possível em circunstâncias estreitas. Que nada faz equivaler ditaduras a monarquias. Que o ditatorial Estado Novo (de resto convidado pela rebaldaria) era um regime republicano. Que vários países europeus ricos e democráticos são monarquias e que a coisa socialista proto-totalitária venezuelana é uma república, bem como todos os totalitarismos comunistas (sendo que estes costumam descambar em monarquias das más, de facto). Etc., etc., etc..’

O resto do texto está aqui.

Depois das redes sociais, o fim do mundo como o conhecemos

O meu texto desta semana no Observador.

‘É que (e espero não provocar problemas coronários em jornalistas mais sensíveis) notícias falsas – ou enviesadas, ou incompletas, ou ao serviço de interesses políticos e económicos – sempre houve. Quantas vezes as notícias e as reportagens são tentativas escancaradas de evangelizar os leitores politicamente ou segundo as posições do jornalista? Quantas vezes os factos apresentados numa notícia são apenas parciais, silenciando-se os factos que dariam uma perspetiva mais completa mas mais ambígua ou contraditória, meticulosamente escolhidos ou ignorados para dar a ideia enviesada que o jornalista (ou o jornal) pretende?

Verdade: em cada notícia não se pode escrever a história toda desde o início dos tempos. E a realidade é fugaz e nem sempre possível de descobrir ou descrever, mesmo quando se tem as melhores intenções. E erros e distrações acontecem a todos. No entanto, se os factos escolhidos vão sempre no sentido de favorecer uma determinada visão da organização social, lamento, mas ou é assumida uma orientação editorial, e do jornalista, clara ou estamos perante uma fraude aos leitores. As fraudes quebram a confiança e a falta de confiança geralmente repele consumidores. Vai-se a ver, e é esta a grande causa da crise do jornalismo: vende-se distorção da realidade mascarada de isenção.’

o texto completo está aqui.

Estamos no grau zero, certo?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Durante horas pensei que o lamento oficial de Marcelo Rebelo de Sousa pela morte de George Michael era uma piada das redes sociais à hiperatividade presidencial a que MRS nos vem habituando. Nem acreditei quando li as notícias. Tive de ir ao site da Presidência da República confirmar que a mais recente exuberância pesarosa de MRS existia mesmo. Pelo que, queridos concidadãos, está na hora de assumirmos mais esta cruz nacional (e peço perdão por trazer este travo quaresmal para o tempo natalício): temos um Presidente que perde tempo a emitir lamentos oficiais pela morte de estrelas pop estrangeiras.

Enquanto aguardamos a publicação no site da Presidência da nota congratulatória de Marcelo Rebelo de Sousa pelo regresso das andorinhas na primavera (que as andorinhas não são menos que George Michael), ou talvez mesmo um comentário oficial do Presidente sobre a problemática das notícias falsas, devemos, quem sabe, perder uns momentos e dirigir a uma qualquer divindade do nosso agrado uma oração pedindo uma mordaça para Marcelo Rebelo de Sousa (já que o bom senso e o sentido das proporções não são suficientes para o moderar).’

O resto do texto está aqui.

As liberdades que não são de esquerda

O meu texto desta semana no Observador.

‘É oficial: pelos lados da geringonça cortaram as últimas amarras que os ligavam à realidade. É o que qualquer pessoa sensata conclui da promessa de Pedro Marques do novo aeroporto complementar no Montijo para 2019. Os tempos dessa entrada cimeira da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ‘direito ao TGV’, exigido pelos lunáticos da Juventude Socialista em 2009, estão de volta.

Claro que em 2019 dificilmente haverá aeroporto. A razão é simples e bruta: não há dinheiro. Mas, em boa verdade, o que interessa ao PS também não é a construção do aeroporto. É muito mais útil enganar os tolos com a retórica do investimento; encher jornais e noticiários com projetos grandiosos que o magnífico governo apadrinha (os jornalistas assim sempre se esquecem de referir os números risíveis do investimento que, de facto, temos tido e que mostram que com este desgoverno ninguém arrisca investir); oferecer uma cenoura coberta de chocolate, à laia de esperança, aos eleitores dos municípios da zona do futuro-barra-imaginário aeroporto.

O PS sempre foi um partido da pós-verdade, muito antes do conceito estar na moda. Lembramo-nos das promessas de Centeno e Costa para o crescimento económico, não lembramos? Pelo que dizer que se quer construir o aeroporto, para o PS, é muito mais útil que construir mesmo o aeroporto. Quanto menos o pretenderem construir, mais proclamações enfáticas de amor assolapado pelo novo aeroporto deveremos ouvir. Vamos ser todos endoutrinados na bala de prata (mais uma, já houve tantas) que é o novo aeroporto para o desenvolvimento português. Quem não amar o projeto do novo aeroporto acima de todas as coisas, não é patriota. António Costa, naquela sua peculiar maneira de esmigalhar a língua portuguesa, ‘incontrará’ maneira de argumentar que é ‘inconxional’ não construir o novo aeroporto.’

O resto do texto está aqui.

A mais recente vítima do marxismo

O meu texto desta semana no Observador.

‘O Bartertown Diner era um restaurante marxista. Nas suas paredes exibia garbosamente imagens de Che Guevara e Mao Zedong. No seu facebook, em vez de se promoverem as novas iguarias, escreviam-se tiradas doutrinárias marxistas. Apesar de existir um proprietário, não havia essa mania capitalista dos chefes no restaurante, todos mandavam o mesmo e as decisões eram tomadas coletivamente. Toda a gente ganhava igualmente e implementou-se uma política de não aceitação de gorjetas. Os empregados tinham de pertencer a um sindicato. O que poderia correr mal?

Vejamos. Os clientes não podiam gratificar por um bom serviço, pelo que as refeições eram dispendiosas para compensar a perda das gorjetas. Como não havia incentivo para o tal bom serviço que poderia merecer a gorjeta, uma sandwich demorava quarenta minutos a entregar. Os horários eram decididos pelo coletivo, de acordo com a conveniência da força proletária; em resultado desta política orientada para o prestador de serviços, o restaurante abria só quando era conveniente a quem lá trabalhava, em vez de quando os potenciais clientes necessitavam de alimentação. No Reddit alguém aventou a possibilidade de ser indigesto partilhar um repasto com os assassinos em série representados nas paredes.’

O resto do texto está aqui.

Amor aos sanguinários: direita trumpista a papel químico da esquerda

Agora há esta nova moda à direita. Direita é como quem diz: das pessoas que apoiam Trump. Sempre presumi que para se questionarem as opções ocidentais não era necessário endeusar os sanguinários das outras zonas do mundo. E que para reconhecer que nos países islâmicos as ditaduras laicas são um mal menor se comparados com os possíveis substitutos não era preciso perder a vergonha e desatar a elogiar ditadores da estirpe de Assad – que, recorde-se, nem hesitou em usar armas químicas sobre a população síria (que de início o apoiava), e que tem um longo historial de abusos e torturas. De trumpistas até já li elogios a essa pessoa impecável que era Kadaffi. Certamente que questionar a intervenção na Líbia não pode apagar todos os crimes hediondos da criatura, certo? Ou há pessoas com tão pouca subtileza intelectual?

Esta direita trumpista é como a esquerda, muito crítica dos líderes democráticos mas tem como coqueluches gente miserável como Chávez, Fidel Castro, Evo Morales, Che Guevara, Mao Zedong. Na versão da direita: Obama e Hollande (e eu não aprecio nenhum dos dois uma pevide)? Escória da terra. Assad e Putin? Dois líderes grandiosos.

Não é só no amor a gente odiosa que a direita trumpista copia a esquerda. Na verdade, mostram o mesmo ódio ao ocidente e à vida ocidental. As sociedades ocidentais estão caducas, precisam de um estrondo que as revolucione, minadíssimas por essa gente perigossíssima que são as feministas e os gays e os imigrantes, há que não deixar pedra sobre pedra das atuais instituições, a NATO (essa organização sensaborona) é afinal a causa de todos os males do mundo. Isto no Ocidente – que tem a civilização mais rica, mais justa, mais admirável de toda a história da humanidade.

Vêm-me estas reflexões porque leio coisas por estes dias, vindas da direita (ataque de tosse, e desta vez não resulta da fenomenal gripe que me assalta), que me deixam de queixo caído. Tanto que chego à conclusão que, como bem dizem os trumpistas, o problema das eleições americanas não foram as fake news – desde logo porque a vitória de Trump se deveu a margens escassíssimas em poucos estados, tendo Hillary ganho o voto popular por cerca de mais 2,7 milhões de votos. O problema é mesmo haver tanta gente do lado que apoia Trump que mente descaradamente. Mentiram descaradamente durante a campanha e continuam a mentir descaradamente agora.

Veja-se por exemplo este texto de António Ribeiro Ferreira. Perde-se a capacidade de emitir palavras durante vários minutos, tal o amontoado de tretas. A primavera árabe – que apanhou EUA e Europa totalmente desprevenidos, afinal foi financiada por estes que não sabiam que ia ocorrer e que por muito tempo não fizeram ideia de como reagir. (E nem todos os países da primavera árabe – que nunca me entusiasmou – se engalfinharam numa guerra.) O apoio ocidental aos rebeldes na Síria pode ser caracterizado de néscio, desde logo por supor que haveria rebeldes que seriam leais a quem os ajudasse com munições e treino e equipamento, ou por manter o mito da existência dos ‘islâmicos moderados’. Mas não foi de todo a causa da guerra civil na Síria nem, sequer, o catalisador para os mortíferos combates desta guerra. Pelo que caracterizar estas ajudas pontuais como ‘criminosa aventura ocidental na Síria’ dá ideia ou de alucinações involuntárias sobre a realidade ou aldrabice deliberada.

Assad – que até teve uma grande vitória (uau – e, tendo em conta Aleppo, aposto que ARF também achou a destruição de Dresden uma grande vitória dos aliados; há quem não tenha argúcia para perceber que às vezes só há derrotas, mesmo quando há ganhos militares) e Putin são uns tipos impecáveis. Os curdos – que acabaram de explodir coisas e matar gente – são outros seres humanos, todos, acima de qualquer crítica. Supor que Assad – que anos a fio sustentou o Hezbollah, que lá por não ser a Al Qaeda ou o ISIS não deixa de ser um grupo de terroristas – é um trunfo no combate ao terrorismo, bem, é tão obtuso como inventar os tais ‘islâmicos moderados’ que poderiam ser aliados do ocidente.

Enfim, quando esta gente que agora apoia os amigos de Trump se interessar por saber as figuras que faz, tem uma solução fácil: é igual aos desavergonhados que há pouco tempo andaram a recordar flores e estrelas cintilantes sobre esse outro tipo impecável que foi Fidel Castro.

 

 

 

Fidel Castro e as ditaduras fofinhas

O meu texto de hoje no Observador.

‘As reações dos políticos foram igualmente repugnantes. Do PCP veio o gozo descarado costumeiro. Jorge Sampaio, essa insignificância política de que não rezaria a história se um dia Cavaco não tivesse perdido umas eleições, deu um testemunho (e porquê, Deus meu, alguém se lembra de pedir um testemunho a Jorge Sampaio?) onde aplaudiu a simpatia do hirsuto Castro, entre outras qualidades adoráveis. Do atual Presidente, que há pouco tempo se fez fotografar sorridente ao lado do tirano, também nada de tragável veio.

Mas o pior chegou na forma dos votos de pesar que o parlamento aprovou pela morte da criatura. E se do PS extremista se espera todos os enlevos com as ditaduras comunistas, já não se perdoa que o PSD tenha escolhido abster-se nesta votação. É por estas e por outras que a suposta direita parlamentar merece todas as geringonças que a atropelem: os eleitores não respeitam quem não se dá ao respeito.

Enfim. Para terminar com uma nota de humor, depois das entranhas revolvidas com as reações portuguesas à morte de um carrasco das Caraíbas, podemos pelo menos reconhecer que ninguém por cá foi tão ridículo como Trudeau – deu azo a uma das hashtags mais divertidas dos últimos tempos –, que produziu um tributo a Fidel Castro que até a canadiana CBC chamou de ‘deliberadamente obtuso’. Parece que Fidel amava de amor profundo o povo cubano (matou e prendeu uns tantos, mas o que interessa isso?) e criou um maravilhoso mundo com boa saúde e educação.

O que é verdade. Quem não aprecia um destino de turismo sexual com oferta de gente muito escolarizada a prostituir-se? Também me lembro do filme Guantanamera, dos idos dos anos 90, onde uma professora universitária e um seu antigo aluno referiam áreas do saber cubanas, utilíssimas em qualquer curso superior, da estirpe de ‘marxismo dialético’ ou ‘socialismo aplicado’. Quem não saliva pela oportunidade de estudar isto?’

O texto com princípio, meio e fim está aqui.

A violência simpática da esquerda que nos salva da barbárie

O meu texto de hoje no Observador.

‘Apoiar assassinos, ditadores, protoditadores e catalisadores de pobreza generalizada, sendo estes de esquerda, é bom. Visitar um evento na única democracia decente do Próximo Oriente é mau.

Vai daí, um blogue anarquista decide punir o chefe português provocador que ousou associar-se ao extorsionário cubano, perdão, aos guerrilheiros terroristas colombianos, perdão, (muito pior!), aos israelitas. Fizeram muito bem. Pintalgaram-lhe o restaurante de tinta encarnada. É para o chefe aprender. Deixo aqui a justificação do ato:

‘O vermelho que escorre no vidro é o sangue que Avillez avilta com a sua colaboração culinária. A cola que veda a fechadura é a fome provocada que Avillez quer gourmet. As ementas recheadas de realidade são a face visível de que ‘o destino das nações depende da forma como elas se alimentam.’

Eu não percebi nada do que queriam dizer, ofereço um bombom a quem traduzir a algaraviada, mas em boa verdade as sequências de palavras e frases vindas das pessoas de extrema-esquerda costumam gritar falta de lógica formal e conteúdo revelador de um autor com QI aí, no máximo, 79. Pelo que não me espantei. Como de resto considerei a lambuça pretensiosa a armar ao poético refrescantemente consistente com o que esperamos da extrema-esquerda. Gosto sempre que não me desfaçam as desilusões.

E o chefe nem pode argumentar que não estava avisado, que estes anarquistas, perdão, anjinhos, que destroem propriedade privada são leais e avisam atempadamente o mundo das consequências das suas aleivosias. Depois do chefe ter ignorado os avisos feitos na ‘imprensa dos monopólios’ (e quem ousa ignorar avisos de maluquinhos deste calibre?), os criminosos, perdão, os justiceiros decretaram ‘que não nos encheu os olhos, deixando um travo amargo nos nossos estômagos de poetas, que apenas um copo de ação direta – essa forma máxima de poesia – mitigará’. Mais uma vez não se percebe nada, mas dá para rir com o estilo de escrita adolescente. E para nos questionarmos se os ‘estômagos de poetas’ não estarão a necessitar de transplante à conta da ingestão de comprimidos com substâncias alucinogénias.’

O texto completo está aqui.

Frente isolacionista revolucionária

O meu texto de hoje no Observador. Porque não são só os eleitores de Trump que são ignorantes. E, por estes dias, nem só a esquerda é revolucionária.

‘Não é só nos Estados Unidos que as ideias protecionistas e isolacionistas têm fôlego. O Brexit não é nada além disso, e vamos ver para onde irá a União Europeia. São também umas ideias filhas diletas da ignorância. Historicamente o mundo tem aumentos de prosperidade quando há maiores trocas comerciais entre os países. Sucedeu no século segundo antes de Cristo, quando explodiu o comércio entre os impérios chinês, persa e indo-grego e o mundo helénico e romano através das rotas da seda terrestre e marítima. Outra vez depois dos descobrimentos europeus. Mais uma vez a partir do século XX. Este dinamismo comercial espevita os avanços tecnológicos, filosóficos, artísticos. Já o mundo de Trump e dos seus apoiantes é paroquial, imobilista – e mais pobre.

Em boa verdade é uma ignorância parecida com a que Jerónimo de Sousa conta para louvar, aparentemente sem estar entorpecido por substâncias psicotrópicas, as maravilhas da União Soviética e da ‘democracia avançada’ (aquilo que as pessoas não infetadas pelo vírus marxista chamam de ditadura). Na realidade paralela de Jerónimo de Sousa, ‘a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), num curto período de tempo histórico, alcançou um significativo desenvolvimento industrial e agrícola, erradicou o analfabetismo e generalizou a escolarização e o desporto, eliminou o desemprego, garantiu e promoveu os direitos das mulheres, das crianças, dos jovens e dos idosos, o desenvolvimento de múltiplas formas de expressão artística, conquistou um elevado nível científico e técnico’. Leram bem. Vão lá tomar um chá de tília para acalmarem com a falta de vergonha alheia.’

O texto todo está aqui.

Deixem lá as sondagens em paz

A eleição de Trump foi sinal de muitas coisas más, e nem todas só do lado do republicano, é certo, mas não exatamente de falhanço de sondagens. Claro que muitas sondagens erraram a determinar os likely voters (desde logo porque tomavam em conta a tradição de votar dos inquiridos, e muitos votantes de Trump costumavam não votar), mas os últimos resultados estavam perigosamente próximos. Além disso, o LA Times deu consistentemente nos últimos dias vitórias a Trump no seu tracking e o IBD e a Rasmussen tanto davam empates como vitórias marginais de cada um dos candidatos. Quem acompanhava as sondagens dificilmente via motivos para estar descansado.

Já agora acrescento, para se ver como a incerteza estava plasmada nas sondagens e que as sondagens não têm culpa de se terem valorizado apenas aquelas que davam o resultado preferido: no caso do IBD, as sondagens a dois (Hillary e Trump), davam a vitória a Hillary; já as sondagens do IBD a quatro (com Gary Johnson e Jill Stein), exatamente nos mesmos dias, davam a vitória a Trump. Como disse num comentário, por mim, que ia vendo todas as sondagens, e que achava, como toda a gente, uma probabilidade grande a vitória de Hillary (sobretudo por causa das notícias do early vote latino) na verdade achei também sempre que a eleição não estava segura nem que a probabilidade de Hillary ganhar estivesse nos 60%, menos ainda nos 80% – e precisamente por ver as sondagens. Acho que estava à vista de toda a gente a possibilidade de vitória de Trump.

revolucionários unidos

A maioria esmagadora dos americanos acha que Trump não é habilitado para ser presidente e não tem temperamento para ser presidente. Parte dessa mesma maioria votou em Trump para presidente.

Entretanto, por cá, podemos festejar. Estamos a ver o princípio do fim da terceira globalização e de uma gloriosa época de trocas comerciais internacionais. E – com o feroz anti-institucionalismo do movimento de Trump – também o fim da era das instituições democráticas, que, com defeitos e benfeitorias, criaram a civilização mais admirável de sempre.

GOP: o partido do eleitorado em vias de extinção

Há oito anos, quando Obama ganhou o primeiro mandato, o GOP parecia ter percebido o que se estava a passar: demograficamente não era sustentável continuar como o partido dos WASP, com variações evangélicas. Já Bush, o W., tinha cortejado e conquistado o voto latino. McCain bateu-se com Obama para seduzir os eleitores latinos (não conseguiu, mas deu luta).

Depois das eleições de 2008, uma das estrelas em ascensão do GOP era Bobby Jindal, governador do Luisiana. Mais tarde revelou-se um flop, com o carisma de uma natureza morta, mas por algum tempo entusiasmou como o futuro do GOP. A qualidade que excitava as esperanças era a sua ascendência indiana. O GOP sabia que tinha perdido o eleitorado negro, mas mostrava vontade de se bater para conseguir os votos das outras minorias: latinos, asiáticos, marcianos, whatever.

Nestas eleições foi o que se sabe. O KKK prometeu andar a vigiar o voto dos negros, evidentemente para os intimidar e levar a não votar. Na Carolina do Norte, resmas de eleitores negros foram retirados das listas eleitorais para eliminar estes votos no opositor de Trump. A deplorável Ann Coulter queixou-se de que Trump ganharia se só votassem as pessoas com 4 avós já americanos (Bill Kristol respondeu-lhe que o grupo com a maior percentagem de avós nascidos nos EUA eram os negros). E a campanha foi tão ofensiva e racista que aparentemente está a haver uma surge de votantes latinos, que evidentemente vomitam a ideia de Trump.

Claro que parte disto tudo deve-se às ideias trogloditas de Trump, que resolveu acicatar o ressentimento do eleitorado branco que quer lamber as feridas pelas alterações estruturais que os deixaram economicamente mais vulneráveis – os mesmos que sempre julgaram como parasitas os negros que reclamavam que a estrutura económica e social os deixava economicamente vulneráveis. Mas também vem de uma porção que sempre foi considerável no GOP, com um racismo latente apenas não assumido, o GOP que se opôs aos civil rights com Goldwater e o GOP que contava com a estratégia sulista para ganhar presidenciais.

Se Trump perder, como todas as pessoas não apreciadoras de abusadores sexuais desejam, será sintoma de o GOP não só não ter aprendido a lição, como de incapacidade de se adaptar àquilo que são os Estados Unidos. Se continuar assim, estas eleições bem podem ser aquelas que selaram que os latinos se tornaram um eleitorado seguro democrata.

 

Querida esquerda, nada acaba até estar acabado

O meu texto de ontem no Observador.

‘E o que dá por ‘encerrado’ a geringonça? Escândalos que alguma malvada comunicação social e a sempre aleivosa oposição inventam. Santos Silva deu por encerrado o caso das viagens pagas pela Galp a Rocha Andrade, e agora o BE também já informou que o caso das licenciaturas falsas de um chefe de gabinete do secretário de Estado da Educação está encerrado. E ai de nós se discordarmos. Ainda apanhamos mais umas décimas de impostos sobre os combustíveis se não formos dóceis e obedientes.

Há quem se escandalize pela sobranceria destes encerramentos compulsivos. Neste caso das licenciaturas falsas, por exemplo, pessoas miudinhas (e sem gosto pelas distrações ornitológicas preferidas pela geringonça) podem argumentar que há muito por explicar. Se Nuno Félix foi uma escolha do ministro Tiago Brandão Rodrigues, amigo próximo, independentemente de este saber ou não da mentira da nota biográfica, o ministro não é responsabilizado por escolher (e voltar a escolher) uma pessoa capaz de mentir sobre o seu percurso académico? Já não se avaliam os governantes pela qualidade das pessoas que escolhem recrutar?

Lembrando o motorista – teimariam os tais picuinhas –, não será um ministro politicamente responsável pela rebaldaria, inclusive financeira, de viagens diárias de quatrocentos quilómetros para transportar um chefe de gabinete de casa para o trabalho? Claro que não. Vamos agora submeter a geringonça a esse tipo de escrutínio? Pensam que estão a lidar com um governo de direita?’

O texto todo está aqui.

Nem temos direito a aldrábias com panache

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Sobre esta epidemia de senhores do PS que por terem ido uma dúzia de vezes a universidades se apresentam como licenciados, e a outra criatura que já vai em autor proclamado de dois livros que as escutas mostram que não escreveu, só me ocorre dizer uma coisa. Que saudades daquelas pessoas que, tendo subido na vida e desgostosas das origens familiares pouco aristocráticas, corriam a comprar retratos antigos nos leilões e nos antiquários, penduravam-nos nas paredes de casa e alegremente os apresentavam aos convidados como os seus antepassados. Ou dos corruptos de bom coração como Lord Chiltern de An Ideal Husband, que sempre tem o mérito de ser personagem na minha peça preferida de Oscar Wilde.  Parecendo que não, até para se ser aldrabão é aconselhável algum nível e gosto.

O clube das mulheres nasty e o clube dos senhorios espoliados

O meu texto de ontem no Observador.

‘O clímax veio no terceiro debate, quando chamou ‘nasty woman’ (‘mulher detestável’) a Hillary. Para Trump e a sua corte de seguidores sexistas, foi uma forma genial de por a contraparte feminina no seu lugar. Como dizia um congressista republicano, ‘às vezes uma senhora precisa que lhe digam que está a ser nasty’. (Não é adorável? Ainda bem que existem estes homens beneméritos e esclarecidos para nos darem ralhetes. Só espero que nenhuma senhora que se cruze com esta pessoa nos próximos tempos não lhe entorne em cima da roupa, por azar, um copo daqueles cafés que os americanos bebem a escaldar. Seria uma grande pena.)

Para o resto do mundo com noções de decência em funcionamento, em geral, e para as mulheres, em particular, o ‘nasty woman’ funcionou como uma declaração de guerra. Além do barulho nos media com o insulto, as mulheres correram para o twitter proclamando-se nasty. Já há há t-shirts à venda e demais parafernália. Porque, de facto, já fomos todas nasty. Não por atos desagradáveis ou imorais, mas pela ousadia de questionarmos homens que não entendem como não somos só produtoras de elogios e salamaleques. Acontece-nos muito. Temos orgulho em ser assim nasty. Tanto que até a Teen Vogue – muito mais afiada do que muitos comentadores masculinos por esse mundo fora, mesmo os que desgostam de Trump, que não estão a perceber a magnitude da repugnância que a criatura gera nas mulheres – sugeriu que o comentário tinha acabado de ganhar a eleição a Hillary.’

O texto todo está aqui.

objetivo do governo: promover a mendicidade

beggarA Nancy Mitford escreveu com graça (e já referi isto isto umas tantas vezes) que as ternuras pelo comunismo eram uma doença, com o nome catita de ‘pull to the east’. Cada vez mais me convenço que tem razão. Não pode ser de outro modo: quem propõe uma barbaridade destas só pode ser doente, clinicamente nuts.

Em resumo. Estas criaturas doentes e doentias que nos governam primeiro impedem por mais cinco anos os senhorios de ganhar dinheiro dignamente através de uma atividade legítima: arrendar a sua propriedade a outros e usufruir do rendimento das rendas. Depois aumentam-lhes o IMI (quantas casas das colinas das zonas antigas de Lisboa ou do Porto, arrendadas por meia dúzia de euros, não terão vistas fabulosas e boa exposição solar?). Quando já quebraram os proprietários – à conta de os impedir de obter rendimentos por si próprios e do assalto via impostos – dão-lhes então umas migalhinhas de dinheiros (daqueles que, nas imortais palavras de Elisa Ferreira, são do estado, pelo que são do PS) para fingirem que têm boas intenções. Deixar liberalizar o mercado do arrendamento e subsidiar quem comprovadamente não pode pagar as rendas que subiram – isso não lhes passa pela cabeça, que assim tinham menos gente controlada através da distribuição de dinheiro.

Estas pessoas doentes que nos governam, decorre da sua ideologia, não conseguem tolerar-nos um modo de vida diferente de sermos todos mendigos do estado.

Progressistas pela moral e contra os vícios

O meu texto desta semana no Observador.

‘Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e eletricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultamontanos e rústicos. Que proponham exatamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).’

O texto todo está aqui.

Francisco Seixas da Costa, o Trump português

Eu, sem saber como, sempre tive um certo iman para os maluquinhos da net. Por estes dias aparentemente tenho um novo observador bilioso. No meu texto da semana passada no Observador, contei o miserável tratamento que Guterres deu ao seu ministro das finanças, Pina Moura, publicamente despedido enquanto estava na AR a defender o orçamento retificativo de 2001. Logo veio Seixas da Costa comentar, dizendo mais ou menos que eu era uma ignoramus e contava a aldrabice que eu confundira Pina Moura com Manuela Arcanjo. Não sei se a aldrabice se deve a alzheimer precoce ou a gosto pela mentira (ou outro motivo igualmente pouco edificante), mas o certo é que Seixas da Costa não resistiu a contar a dita aldrabice com aquele ar sobranceiro de quem dá lições paternalistas a uma mulherzinha, coitada, e que os machistas tantas vezes adotam.

Entretanto voltou à carga. Ficou zangado com Vasco Pulido Valente porque este não ficou de coração pleno de harmonia universal, nem marcou a correr viagem para o Nepal para quatro meses de meditação celebratória, com o novo emprego de Guterres. Zangou-se também com um cronista que escreve na Sábado e no DN, Alberto Gonçalves of course, a quem acusa de azia – sem perceber que fala de uma qualidade que é afinal sua. E, ainda, com uma ‘uma caixadóculos direitolas de taxa arreganhada’.

Não faço ideia se a direitolas caixa de óculos é a yours truly, e se for até fico feliz de causar irritação na personagenzinha, que há estirpes de pessoas que eu gosto de irritar. Melhor ainda se irrito por ser sorridente. Percebo que Seixas da Costa prefira o ar macambúzio e sério de quem acha que está a salvar o mundo durante todos os minutos que passa acordado, ou a circunspeção sisuda de quem não pode falhar na missão que Marx lhe comunicou durante os seus sonhos mais deliciosos – tudo coisas que se encontram em abundância na esquerda. Prefere também certamente o riso risível a que se entrega ao ler factos indisputáveis das tropelias de Guterres.

Em todo o caso, sobre Seixas da Costa não me interessa muito falar. Se quiserem, podem ir ler o José Meireles Graça reduzir a picadinho a gelatina Seixas da Costa. Mas há um ponto importante. É que só para a cronista feminina a gelatina refere uma característica física: a necessidade de usar óculos. (E, no meu caso – ou no de outra mulher -, o gosto, como percebe qualquer pessoa pensante, porque se não me achasse piada de óculos não os usaria. Donde, concluiria uma pessoa pensante, dizer que eu uso óculos não é algo que me perturbe.) Claro que a seguir, como é sonso de mais (e gelatina) para assumir que queria reduzir a dita cronista à sua característica física de caixa de óculos – sendo que aos cronistas masculinos (oh surpresa) não calhou fazer elaborações fisiológicas – veio acusar outros de falta de sentido de humor. E declarar-se utilizador de óculos.

Ora bem, tendo nos últimos dias (e meses) a criatura Trump sistematicamente feito comentários sobre o físico das mulheres que lhe fazem chegar a pimenta ao nariz, parece-me que é hora de expormos as criaturas malcriadas, trogloditas e machistas a quem salta logo o comentário às características físicas das mulheres que ousam estar no espaço público. Comigo, além do recente bilioso, aconteceu há pouco tempo com o Quadros. Recentemente uma amiga de facebook – que conheço pessoalmente e é bem gira – lá levou com avaliação física by Alfredo Barroso, no meio de uma disputa facebuquiana. (Ah, e que mulher portuguesa não anseia por saber a avaliação que dela fazem portentos de beleza como os todos aqui referidos, de Trump a Barroso?)

O que tem mais piada nisto tudo é que este género de comentários é sempre feito por homens que estão mais para o lado de Quasimodo que para o de Adónis. Até me parece que é uma vingança contra o mundo que porventura já lhes trouxe umas tantas tampas de mulheres. No fundo, estão a acertar contas. Pelo que, além de lhes darmos os epítetos (de australopitecos) merecidos, devemos também informá-los que se tornam ainda mais ridículos, sobretudo junto do mulherio.

Quanto a Seixas da Costa, só me resta repetir o que disse no twitter, depois de ser insultada pela elegante gelatina (tão gelatina quanto o ídolo Guterres): o chá que se bebe em adulto nas embaixadas é demasiado tardio para ainda ter benefícios naquilo que importa. E cumprimentos dos meus óculos. Não são os que eu uso normalmente. Comprei-os para os dias de mood anos 50. Mesmo sendo os óculos dos dias fancy, têm mais gravitas que a pomposidade possidónia do reverendíssimo senhor embaixador. Ah, e olhe que o Gambrinus (onde eu por acaso ia muito com certas pessoas próximas que felizmente já não são) é, como diz o meu filho mais velho, muito século passado. Do tempo em que os homenzinhos podiam (tentar) reduzir a discussão das opiniões proferidas pelas mulheres a graçolas sobre as suas características físicas – e escapar.

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Aaaaah, esqueci-me. Obrigada, reverendíssimo embaixador, por me agrupar com dois cronistas como VPV e Alberto Gonçalves. Raras vezes recebi tamanho elogio ao que escrevo.

Epicamente saloios

O meu texto da semana passada no Observador. Vai só agora porque encalacrei o computador, está a ser por estes dias diligentemente reparado e eu resisto a escrever posts no ipad.

‘A habilidade guterrista para as contas públicas, por exemplo, não está ao alcance de qualquer um. Só mesmo um génio como Guterres consegue espatifar as contas públicas numa conjuntura económica tremendamente favorável. Em meia dúzia de anos, com crescimento económico robusto, situação internacional favorável, receitas fiscais a jorrarem viçosamente para o orçamento de estado e juros da dívida pública a caírem com a adesão ao euro, Guterres teve o mérito de não só não cumprir nenhum dos critérios orçamentais do pacto de estabilidade e crescimento, como ainda foi virtuoso a ponto de nos conduzir a uma situação de défices excessivos. Tal capacidade destrutiva é, de facto, um talento escasso mesmo no político típico português.

Os amigos de Guterres. Temos a agradecer ao atual secretário geral da ONU ter trazido para a política estadistas gigantes da estirpe de Sócrates (tão polivalente que é agora também intelectual de gabarito prestes a lançar o segundo livro) (ok, podem tirar uns momentos para gargalhadas) e de Armando Vara (que na CGD e no BCP emulou a arte de Guterres para as contas públicas).’

O texto todo está aqui.

Porque dentro de vinte anos as pessoas perguntarão umas às outras: onde estavas quando foi apresentado o Manual Modernista para a Modernidade?

manual-modernistaÉ amanhã o aguardado lançamento do livro Manual Modernista para a Modernidade, de Vítor Cunha. Bel’miró fará também uma aparição surpresa. Não temam: os serviços secretos de quinze países protegem este evento das ameaças terroristas repetidas nos últimos dias pelo Grupo de Amigos de Sócrates das Zonas Tribais do Paquistão. A apresentação contará com a minha intervenção – estava para ser Angelina Jolie (declarada admiradora do Vítor Cunha), mas ocorrências pessoais determinaram que não pudesse deslocar-se a Portugal, e evidentemente eu fui a substituição óbvia – mas não devem levar a mal ao livro e à sua apresentação por isso.

Apareçam.

Cleptomaníacos unidos, coligação de governo ao seu dispor

O meu texto de hoje no Observador.

‘Como se não fosse tudo muito claro, o tuit a seguir clarificou. Mariana Mortágua não quer que o número de milionários aumente. Percebem? O bloco e o PS não querem cá ricos neste país. Xô. Era o que faltava. Há governos que têm como objetivo não deixar que o número de pobres aumente, preferencialmente que o número de pobres diminua. O BE e o PS têm como finalidade da governação algo muito mais à frente: impedir que as pessoas enriqueçam.

Portanto, querido concidadão, gosta daquele conceito que é a ascensão social? Pois emigre, que por cá não queremos gente com desejos imorais de subir na vida. Nasceu pobre? Fique lá, e agradeça as esmolas que BE e PS querem dar para lhe comprar o voto. É remediado? Pois dê-se por satisfeito e fique quieto, nada de estudar nem de mandar os filhos para a universidade a ver se conseguem empregos mais bem pagos que os dos seus pais.

Não é uma maravilha de desígnio para um país? Sugiro que nas próximas eleições os cartazes do PS apregoem ‘não queremos gente rica’ e ‘imobilidade social sempre’.

Mas atenção: isto melhora. Entrou em cena Catarina Martins. E se no BE uma doutoranda em Economia tem este nível teórico indigente, imagine a atriz e encenadora. Catarina não desiludiu: ‘Comprar casa não é investimento. Investimento é quando se cria valor. Investimento é quando se criam postos de trabalho’.

Uau. Pela mesma ordem de ideias, uma empresa que compre um escritório mais espaçoso, mais bem situado e mais confortável – em vez de deixar os trabalhadores num pardieiro – também não está a investir, já que não construiu nada. E, gente que trabalha em imobiliárias, estão ver? O vosso trabalho não cria valor nem serve para nada. Embrulhem. É óbvio: comprar uma casa com melhores condições onde a nossa família viva bem, perto de escolas boas onde os nossos filhos possam ter sucesso académico, que não implique perder excessivo tempo no transporte para o trabalho, vê-se logo que não é um ‘investimento’. Não estamos a investir na qualidade de vida familiar. Nem na melhoria de perspetivas dos nossos filhos. Nem a adquirir um valor que os nossos descendentes um dia herdarão. Nada disso. Parabéns, Catarina.’

O texto completo está aqui.

para contextualizar indignações de gente hipócrita

De facto indigna que uma pessoa escreva um livro a contar a intimidade sexual de outras pessoas, fazendo uso de alegadas confidências de terceiros que já morreram. Mas convém lembrar (e eu lembrei no facebook e este post nasce dessa recordação) que São José de Almeida já fez o mesmo: escreveu um livro onde exibe a homossexualidade de pessoas que já morreram, outras ainda não (tal como JAS), que nunca assumiram essa orientação sexual e que não mandataram (certo pelo menos no caso dos mortos) jornalistas de esquerda para lhes vasculhar assuntos de cama. As informações que revela obteve-as muito por confidências de terceiros que se mantêm anónimos. (Até José António Saraiva é mais corajoso aqui.)

O mais engraçado: é que este livro foi muito apreciado pela gente que agora se indigna apopleticamente com José António Saraiva. As revelações de sexualidade alheia escritas por gente amiga, está muito bem; revelações de sexualidade alheia escritas pelos ódios de estimação, ai o mundo que acabou. É verem por exemplo esta publicidade ao livro de São José de Almeida no jugular. E este texto embevecido de Fernanda Câncio no DN (obrigada pelo envio, João Pereira da Silva). Sobre o livro promovido por Vidal e por Câncio, ler o Malomil. Deixo aqui um pedaço, para se ver o livro que foi promovido.

‘Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». […]

Sendo lésbicas ou não, há um denominador comum às várias mulheres referenciadas neste cadastro narrativo: é tudo gente morta. […] Várias, como se vê, morreram já depois do 25 de Abril, muito depois, podendo ter assumido mais livre, enfática e publicamente a sua orientação sexual. Não o quiseram fazer. Mas São José tratou bem delas, fê-las a todas saltar da toca. Cá p’ra fora do armário, vá, suas malucas, que isto de se andar a esconder no roupeiro é coisa bem feia e muito hipócrita.

Ao Capítulo 6 entramos no closet masculino. De acordo com o depoimento do dirigente comunista Ruben de Carvalho, cuja autoridade nestas matérias desconhecemos qual seja, o Subsecretário de Estado da Presidência, Paulo Rodrigues, «era conhecido publicamente pelas suas relações homossexuais» (pág. 126). Também Pedro Feytor Pinto, responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, «o António Ferro dos anos setenta», era «assumidamente homossexual» (pág. 126). Porém, nas suas memórias, recentemente publicadas (Na Sombra do Poder, Lisboa, 2011), Feytor Pinto não se revela, em lugar algum, «assumidamente homossexual». Aliás, em duzentas páginas de texto não dedica sequer uma linha à sua intimidade. E o «António Ferro dos anos setenta» está aí, vivo e lúcido, escrevendo memórias, dando entrevistas, aparecendo na televisão, proferindo conferências. Por que motivo não o contactou São José Almeida? Era o mínimo que se impunha, não apenas a uma historiadora como a uma jornalista digna desse nome: cruzar as fontes, confrontar testemunhos, ouvir os visados. Por que não falou a autora com Pedro Feytor Pinto?’

A ASAE ataca de novo

O meu texto desta semana no Observador.

‘Um dos melhores efeitos secundários do governo da coligação PSD-CDS foi a ASAE com trela curta. Depois veio o tempo novo e à esquerda gostam do mundo arrumado, catalogado, com muitos fiscais disto e daquilo a atormentarem as empresas respeitáveis. Donde: a ASAE anda satisfeita a mostrar de novo os caninos aguçados, e até já faz operações na comunicação social queixando-se de necessitar de maior orçamento.

Pelo que sugiro dissecar as atividades da ASAE. E encontramos as seguintes práticas apocalípticas dos privados que a ASAE, num comportamento reminiscente de Tintin a desmascarar traficantes de droga, nos livrou. Há a venda especulativa (não desmaiem) de bilhetes para jogo de futebol. Apesar de não se saber de gangs apontando armas de fogo a obrigar à compra, e de aparentemente os compradores terem pago o valor que atribuíam a verem o jogo dentro do estádio, a ASAE gastou o dinheiro dos contribuintes a impedir valdevinos de venderem bens que eram sua propriedade (os bilhetes) a outros que os queriam comprar.

Numa inspeção a bombas de gasolina, situações mais destrutivas que um atentado terrorista (atos para os quais a ASAE também tem formação) foram encontradas. Houve casos de ‘incumprimento de requisitos gerais e específicos de higiene relativos aos géneros alimentícios’. Não se diz que os géneros alimentícios estavam estragados, e não deixariam de o referir para fins propagandísticos, pelo que presumimos que a falta de cumprimento de ‘requisitos gerais e específicos’ não impediu os ‘géneros alimentícios’ de se manterem em bom estado.

Mas os comportamentos verdadeiramente diabólicos estancados pela ASAE vêm a seguir: ‘desrespeito pelas regras de anúncio de venda com redução de preços e a violação dos deveres gerais da entidade exploradora do estabelecimento de restauração e bebidas’. Uau, a ASAE protegeu-nos do desrespeito pelas regras de anúncio de vendas com redução de preço – mais uma vez foram só as regras desrespeitadas, aparentemente a redução do preço ocorreu mesmo – e de violação de uns misteriosos (mas seguramente essenciais para manter vivos três quartos da população portuguesa) ‘deveres gerais’. Deus guarde a ASAE que tais préstimos nos dá.

O resto está aqui.

Mao Zedong: ‘A revolução não é uma festa’

cultural_revolutionMao Zedong morreu fez ontem quarenta anos, e escrevi um texto para o Observador sobre Mao e a sua liderança do Partido Comunista Chinês e da China. Enjoy.

‘Quando na manhã de 9 de setembro de 1976, há quarenta anos, os altifalantes espalhados pelas ruas das cidades chinesas informaram, “com a mais profunda tristeza, que o Camarada Mao Zedong, o nosso estimado e amado grande líder”[i] morrera durante a madrugada, dias depois do seu terceiro ataque cardíaco em quatro meses, os chineses não ficaram surpreendidos. Durante os milénios da história chinesa os fenómenos naturais haviam sido sempre obedientes a informar as populações sobre a manutenção, ou não, do mandato do Céu pelos governantes. Inundações, terramotos e colheitas destruídas? Eram sinal inequívoco de que a dinastia perdera o favor do Céu e que as populações, seguindo os ensinamentos de Mêncio, poderiam substituir os governantes que tinham perdido a virtude.

Ora a 26 de julho daquele ano, um terramoto violento destruíra a cidade de Tangshan, perto (segundo a perceção das distâncias na China) de Pequim, onde também se sentira o abalo. Evidentemente a informação dada à população foi escassa – sobretudo sobre o número de mortos (estimados entre quinhentos e setecentos mil), sobre a incompetência do Exército de Libertação Popular a procurar sobreviventes entre os escombros e sobre as valas comuns onde se enterraram os cadáveres cobertos de lixívia – mas a notícia foi passando, bem como a claríssima mensagem da natureza: a morte de algum poderoso aproximava-se.

Pelo que aquando do anúncio da morte de Mao, o pesar oficial foi registado e o luto público foi estritamente observado. No entanto, para a população chinesa, bem como para a hierarquia do Partido Comunista Chinês, a reação foi mais de alívio do que de dor. A notícia chegava ao fim dos dez terríveis anos da Revolução Cultural – que proporcionou os animadores números de uns estimados (números de Andrew Walder e Yang Su) um milhão e meio de mortos e cem milhões de chineses perseguidos e punidos. A China estava exausta.

A ausência de tristeza e de choros com a morte de Mao foi mais sintomática por ter ocorrido meses depois da morte do primeiro-ministro Zhou Enlai, a 8 de janeiro de 1976. Zhou era tido pela generalidade dos chineses como a imagem da moderação – por oposição a Mao e aos radicais a quem este, a espaços, dava rédea solta para atormentar as populações – se não mesmo do humanismo no meio da loucura da Revolução Cultural. Quando morreu, maciças manifestações foram espontaneamente organizadas pelos chineses (e meticulosamente reprimidas pelas autoridades) em cidades do norte e do sul da China, do litoral e do interior. Coroas de flores acumulavam-se nas praças das cidades, pessoas choravam, e houve até o desafio ostensivo às autoridades com a ocupação da praça Tian’anmen a 4 e 5 de abril, por altura do Festival Qingming (em que tradicionalmente se prestava honras aos mortos), com direito a carga militar sobre os manifestantes.’

O resto está aqui.

(Um dia destes conto a história da fotografia.)