A ministra da festa cor de rosa e da reforma agrária

O meu texto de ontem no Observador.

‘Faço já a declaração de interesses: não tenho nada contra festas, nem contra revistas cor-de-rosa, nem contra ministros divertindo-se, nem contra fotografias de pessoas aperaltadas em eventos sociais. Eu própria passei uma parte das férias num local com alguma influência britânica onde ainda se valoriza o vestir bem para jantar, no fio da navalha entre a formalidade e a informalidade. Percebo, portanto, que a ministra da administração interna, Constança Urbano de Sousa, tenha decidido ir a uma festa durante as férias e nela se tenha feito fotografar.

Mas a ministra não é uma capitalista impenitente como eu. Detenhamo-nos, então, por momentos nesta propensão que os socialistas têm, mesmo agora extremados à esquerda e adeptos da luta de classes, de se aliarem a eventos com uma inegável frivolidade social e a revistas de fofocas. Afinal os socialistas empedernidos nunca resistiram ao luxo. Veja-se como os Castro celebraram a miséria cubana contratando Christian Louboutin para fornecer as fardas para os Jogos Olímpicos. Ou Bernie Sanders, que prometia uma revolução socialista americana e acabou a comprar uma casa cara num lago idílico (os Adirondacks, lá perto, são dos sítios que me estão atravessados na garganta para visitar).

De resto, o comportamento da ministra é consistente com o de António Costa, agora ‘chocado’, quase lacrimejante (levem-lhe chá de verbena), mas que também se fez fotografar numa praia algarvia, risonho e feliz da vida. Nem sei se este género de ação não terá magicado pelas cabecinhas do PS que se supõem génios de estratégia política. A mensagem seria inspirada em Pangloss: estamos no melhor dos mundos, a governação está encarrilhada, como podem ver corre tudo tão bem que até nos podemos despreocupadamente dedicar a festas e riso durante as férias. Afinal é este governo que acredita nos poderes mágicos do otimismo, porventura depois de terem lido meia dúzia de best sellers de autoajuda: se acreditares que vai correr bem, então vai correr bem. E, se não correr, a comunicação social amiga finge que sim e os papalvos dos eleitores pensarão que as suas desgraças individuais não se replicam pelo resto da população.

Houve o problema do costume em se tratando de um governo socialista: a realidade. Estava António a rir na praia e Constança na festa cor de rosa quando já o país ardia como se não houvesse amanhã. Que não tenham arrepiado a estratégia propagandística ‘ministros, festejemos ostensivamente a boa governação’, mostra uma falta de senso e de noção e de respeito atroz e perturbante.

Claro que Constança Urbano de Sousa teve de abandonar as suas festas cor-de-rosa para fazer controlo de danos. Desde aí tivemos entrevistas da ministra quase todos os dias, declarações à comunicação social, textos elegíacos sobre a senhora em jornais, tentativas de culpar a União Europeia. E descobrimos que afinal a reação mais ajuizada da ministra da administração interna aos fogos que consomem as florestas é mesmo participar em festas.’

O resto está aqui.

Então o epílogo

Uns meses depois deste assunto, recebi no meu local de trabalho uma notificação para ir levantar à esquadra tal e tal outra notificação. Como não costumo entregar-me a uma vida de crime, imaginei do que se tratava. Lá fui levantar a notificação para ir prestar declarações à PSP ali ao lado do Tejo. Porventura a queixa foi apenas feita para me intimidar, assim uma espécie de aviso de uma pessoa poderosa a uma humilde blogger, esperando que eu utilizasse alguma manigância de me esquivar a receber a notificação, por o meu nome não estar completo ou assim. Como não tenho por hábito esquivar-me, o certo é que quando o meu advogado ligou para a PSP para remarcar a minha prestação de declarações – e porque evidentemente a queixa não tinha nenhumas pernas para andar e poderia fazer boomerang – soube que a queixa já havia sido retirada. A acusação era de ameaça de devassa da intimidade (ou coisa parecida, estou a dizer de cor). Adivinhem a autoria.

A viúva (depois da traição da Visão, o qualificativo negra não destoa)

Mandaram-me umas cenas que a namoradinha socrática aparentemente escreveu sobre mim por causa do meu último texto no Observador. No meio dos longos descabelamentos da senhora que não interessam, afirma que eu ameacei revelar informações sobre a vida privada.

Ora bem, é falso. Nunca ameacei revelar nada da vida privada de Câncio porque nunca soube nada da vida privada de Câncio, só (muito pouco) do que Câncio et al forçavam ao mundo que os rodeava, nesta questão absolutamente involuntário, saber. (E em instâncias próprias poderei sempre detalhar.) De resto, nos casos em que a proteção da vida privada e do relacionamento com sócrates era semelhante, da parte de Câncio, às vezes em que a própria senhora tratava de publicitar a relação, por exemplo tornando públicas  e escrevendo publicamente sobre as queixas que fazia às autoridades dos jornalistas por causa do tratamento de ‘namorada de sócrates’ que a imprensa lhe dava.

Mas agora fiquei com vontade de recordar o início disto tudo e o comportamento autoritário por default de Câncio (quem podia, podia, não era?) nos tempos socráticos. Um dia, Câncio escreve no DN um ‘perfil‘ sobre o novo ministro da cultura de sócrates, uma das coisas mais ridiculamente parciais que eu li na vida. Era o jornalismo dos tempos socráticos: tínhamos uma namorada do pm a escrever ‘notícias’ elegíacas e embevecidas como se não tivesse um claríssimo conflito de interesses, num jornal supostamente de referência e com um diretor que avalizava a situação.

E eu decidi fazer um post a gozar com o ‘perfil’ que a jornalista escrevera. Vai daí a senhora dedica-me um post ameaçador no blogue de então (o 5 Dias), porque a idoneidade profissional e a difamação e isto e aquilo e as ações judiciais servem mesmo para estes casos. (E se não é mesmo a forma socrática vintage de lidar com opiniões hostis.)

Em suma, não sei, graças a deus, se Câncio fazia loud sex com sócrates e nunca ameacei revelá-lo. Sabia, na altura, que Câncio se dava de forma muito próxima com sócrates (agora, como toda a gente, e pelo que ambos já contaram, até sei mais do que sabia na altura) e que se tivesse respeito pelos seus leitores e brio profissional não escreveria textos supostamente com rigor jornalístico sobre os governos que este chefiou sem fazer disclosure do conflito de interesses. Depois de algumas peripécias, houve seguimento disto tudo fora blogue, mais uma manifestação de prepotência e intimidação típica dos tempos socráticos, em que Câncio, depois da fanfarronice inicial, saiu de fininho. Também sei o que Câncio moralmente vale pela leitura do texto da Visão. Mas o que tem mais piada é que Câncio, com a caracterização de idiota útil que deu de si na Visão, prova mesmo o ponto do meu post que despoletou tudo: Câncio não tinha capacidade nem discernimento para avaliar sócrates, quanto mais escrever sobre ele da forma minimamente imparcial que se exige a um jornalista. Obrigada, então, por me dar razão, oito anos depois.

o ranço jacobino, versão 582

Aparentemente, segundo a jornalista impoluta Câncio, noticiar uma degolação de um padre e tentativa de degolação de uma freira e mais uns reféns numa Igreja é fazer a propaganda do Daesh. Compreende-se, todas as vidas são iguais mas umas são mais iguais que outras, e não podemos assumir que um ataque a uns ranhosos de uns religiosos católicos numa igreja tem tanta importância como um ataque a uma discoteca de gays. Há coisas – e vidas e mortes – que não vale nada a pena noticiar.

(Apanhado no twitter do João Pereira da Silva.)

‘do nada’

costapmAposto que se o terrorista de ontem tivesse sido mesmo de extrema-direita, a culpa das mortes não seria da austeridade, da política externa, do facto de viver numa casa sem ar condicionado (que na Alemanha faz muita falta com tanto calor que por lá se padece), do patrão que promoveu outro em vez do inocente rapaz, do carro de um árabe endinheirado que no último inverno molhou o pobrezinho com a água que estava na estrada, do passarinho que escolheu o jovem desadaptado para fazer as suas necessidades, da alergia ao pólen, do céu cinzento da Alemanha, de uma admiração misguided por Mussolini (afinal são só as hormonas da juventude), nada disso, a culpa seria da ideologia má e da maldade da pessoa que conscientemente a escolhe e se inspira por ela para os seus atos. O nosso ilustre pm (até me escorrega o computador das mãos), determinado em colecionar na sua conta os tuits mais ofensivamente imbecis até ao fim dos tempos, não diria que a morte e a violência vieram ‘do nada‘; diria que vinham do sítio do costume.

(Foto roubada ao João Gonçalves no facebook.)

Mas queremos mesmo isto na Europa?

O meu texto desta semana no Observador. Se tivesse escrito depois de ontem, teria acrescentado os maluquinhos que se esforçam por fazer crer que o terrorismo atual é tão provável vir do islão como da religião/ideologia do lado.

‘É daquelas pessoas que dá palmadinhas compadecidas nas costas do muçulmano que violou a rapariga ocidental de minissaia, afinal veio de uma cultural onde é normal maltratar mulheres, e por cá está desempregado? Acha, como Ana Gomes, que a culpa dos atentados terroristas na Europa é da austeridade? Defende que os pobres diabos, sejam violadores ou terroristas, têm de ser compreendidos, assimilados, receber muito dinheiro dos estados sociais europeus e, sobretudo, desculpados? Considera que os vilões verdadeiros são os que denunciam que os costumes islâmicos são aberrantes, concretamente para a condição feminina, e não podem ser tolerados na Europa? De cada vez que há denúncia de vilanias islâmicas, prefere escrutinar o mensageiro para tentar repudiar a mensagem? Vê como de uma lógica cristalina clamar contra o patriarcado e o heteropatriarcado e, simultaneamente, recusar aceitar que as comunidades islâmicas na Europa têm propensão para violar e brutalizar mulheres, e acumular com defesa de regimes que enforcam ou afogam gays? Repete vinte vezes por dia o mantra ‘o islão é uma religião de paz’?

Pois bem, é conveniente reconhecer que as pessoas iluminadas que responderam sim a dez por cento destas questões são cúmplices do caldo culpabilizante das vítimas que propicia os crimes dos islâmicos. Duvido que o à vontade criminal fosse tão grande se não notassem a solidariedade dos iluminados. Se não desconfiassem que a sua origem os vai livrar de investigações ou acusações mal um idiota útil grite xenofobia. Se não percebessem que a sociedade europeia se deixa vitimizar.

Vamos rever a matéria. O mais importante religioso muçulmano de Portugal é acusado pela mulher (que aparece com a cara ensanguentada em fotografias – certamente foi contra uma porta, como é costume) de violência doméstica. O que sucede? Os jornais param rapidamente de falar sobre o assunto e o presidente da república dos afetos escolhe fazer na mesquita do acusado uma cerimónia no início do seu mandato.’

O resto do texto está aqui.

As lições do Ronaldo e da seleção para os meus filhos

O meu texto de hoje no Observador.

‘A segunda: o ‘que se f@#$’. Tirando o vernáculo, é mesmo este o espírito que quero ver exibido perante os meus filhos. Ao contrário do hino por estes dias tão cantado, estamos longes de ser valentes. Somos temerosos. Odiamos correr riscos porque não conseguimos lidar com um possível fracasso – como se fracassar não fosse a sina de todos nós várias vezes na vida. Um líder político que perca eleições ou um treinador que não ganhe campeonatos tem de ser corrido na hora. Deleitamo-nos com estatísticas que mostram que as novas empresas falham em números expressivos – à laia de aviso ‘ninguém de juízo se mete nessa aventura estranha de criar um negócio’. Até parece que os empresários de sucesso, sem exceção, não tiveram projetos em que só perderam dinheiro e ganharam traquejo. Temos até vários partidos políticos – os da geringonça – que veem como ofensiva a promoção do empreendedorismo.

Pelo que o espírito ‘que se f%0&’ faz muita falta. Vamos à luta, arriscamos e, se correr mal, paciência, que se… As cassandras que se calem, as carpideiras que parem de treinar para a catástrofe que se avizinha, que pior que cairmos picadinhos no chão é ficarmos na zona de segurança, na mediocridade calculada, perto das saias da mãe (em se tratando dos meus filhos, claro que estou disponível para abrir uma brecha nesta teoria) e da boia de salvação.’

O texto completo está aqui.

O meu texto de ontem no Observador.

‘Queria escrever sobre a mais recente polémica com o Facebook: empresa tão moderna, tão hipster, tão tecnológica, tão universo-aos-nossos-pés que não deixa as senhoras que lá trabalham vestirem-se de forma sexy. A propósito disso fui reler as notícias de Tim Hunt, o Nobel que acha uma maçada as mulheres cientistas: que os cientistas e as cientistas apaixonam-se e as mulheres choram quando são criticadas. Aqui, apanhei a verborreia de V.S. Naipaul sobre mulheres escritoras, vi tudo encarnado e decidi alargar o arco deste texto.

A saber: a mania que alguns egos masculinos têm de que a forma de agir, de trabalhar, de pensar, de escrever, de o que quer que seja masculina é a forma correta, o padrão, a ordem natural do mundo funcionar. E que a maneira feminina – e sim, eu voto sempre na existência de diferenças entre os sexos e nunca na igualdade intrínseca entre os xy e as xx (o que é muito diferente de assumir que há papeis, profissões, talentos predeterminados para cada sexo) – é um desvio à norma, fruto de emoções desordenadas e irracionalidades várias, sobretudo algo que as mulheres têm de corrigir se querem ser levadas a sério pelos guardiães da seriedade (também conhecidos como elementos do sexo masculino).

Este padrão masculino vai ao ponto das alucinações de Naipaul: a maneira de escrever certa e com qualidade é a masculina. O curioso é que este tipo de opiniões é levado a sério ou, pelo menos, reproduzido sem ser em tom de escárnio em jornais decentes. Quando merecia a zombaria que oferecemos a sugestões estrambólicas como a de retirar dos cursos de literatura as obras dos escritores masculinos, brancos e das potências colonizadoras. Os maluquinhos esquerdistas americanos querem extirpar os cursos de Shakespeare e Chaucer. Naipaul, porventura com o ego insuflado de que padecem os temperamentos artísticos e políticos, como aqui bem ilustrou Paulo Tunhas, opina que a escrita de Jane Austen ou das Brontë ou de George Eliot é ‘unequal to him’ (vá, vamos todos desmaiar ao mesmo tempo de comoção pelo tamanho do talento másculo de Naipaul).’

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Canavilhas e o seu maior amigo

Como membro da Assembleia de Freguesia (da zona onde moro) há alguns anos, posso testemunhar como os cocós dos cães, que os donos malcriados deixam no espaço público, são uns dos problemas recorrentes apresentados pelos residentes na Assembleia de Freguesia. Por questões de higiene e por questões de saúde – e, também, pelo incómodo que a falta de educação alheia causa, mesmo quando se consegue evitar pisar o cocó. É, por isso, muito curioso este testemunho (apanhado no facebook da Maria João Nogueira) sobre Canavilhas e o seu animal de estimação. Cada vez mais acho que o problema do PS não é só ideológico: é de formação e de educação básicas.

Estava Canavilhas a passear o seu animal de estimação quando o mesmo defeca na relva junto à minha casa e ao meu escritório. Esperei que a boa vizinha, cidadã cumpridora e conhecida deputada da Nação apanhasse o dejecto expelido. Em vão. Dali saiu sem qualquer rebuço. Porque a minha mulher é mais corajosa que eu, que fiquei a ruminar por dentro, dispara em direcção a Gabriela e pergunta-lhe: “não vai apanhar?” Resposta pronta: “relva não é passeio”. E, malcriadamente, vira as costas e vai embora. Brilhante, as crianças não brincam na relva, os dejectos aí podem ficar, abandonados. Estupefactos vimo-la afastar-se na sua pose senhorial.’

orgulhosamente sós

O meu texto de hoje no Observador.

‘Calhou ir passar uns dias a Londres e chegar no dia do referendo. Das pessoas todas com que fui metendo conversa sobre o assunto, só encontrei um votante do Leave (e ainda no dia da votação; sem surpresas, foi o mais velho). Mas não queria de maneira nenhuma sair da União Europeia. Queria só ganhar capacidade negocial para impor limites à interferência britânica na vida dos ingleses e, se o referendo acabasse em Remain, preocupava-o que a partir daí a Grã-Bretanha fosse tomada como certa: tiveram a oportunidade de sair, não aproveitaram, agora sentem-se direitinhos e não revirem os olhos a cada novo delírio da Comissão ou do Parlamento Europeu. (As palavras ilustrativas são minhas, mas o sentimento é do meu interlocutor.)

Outro, taxista muito tatuado, estava abalado com o resultado e a demissão de Cameron e só repetia que era preciso respeitar a democracia. Dois irlandeses (da parte republicana), em duas lojas diferentes de Mayfair, estavam divertidos com o choque e pavor em que viam o Reino Unido. Outra pessoa dizia, no dia do resultado, ‘it feels weird in London today’. Uma portuguesa a trabalhar numa pizzaria contava que os amigos que votaram Leave não estavam a contar ganhar e já se tinham arrependido.

Mas o resultado foi o que foi, e não adiantam pesares ou arrependimentos. Tal como é inútil deambular à volta da evidência dos líderes do Leave, Boris Johnson e Nigel Farage, preferirem ter perdido e não magicarem o que fazer com a vitória. Farage já pediu no Parlamento Europeu um acordo de comércio – depois de tratar a EU como um Darth Vader supranacional, zona de comércio livre incluída. (A acrescer à desgraça, Farage corre o risco de abandonar o bem pago lugar no Parlamento Europeu para o desemprego, o que acontecerá se não conseguir expulsar do reino os malvados estrangeiros, quem sabe até reverter a invasão normanda.) Boris já garantiu (decidiu sozinho pelos quinhentos milhões de habitantes da EU) que os estrangeiros poderiam permanecer na Grã-Bretanha e os britânicos que trabalham e vivem no continente lá continuariam – no fim de uma campanha xenófoba que culpou os estrangeiros residentes no Reino Unido de todos os males desde as pragas do Egito. Mais uns dias e corremos o risco de assistir a um súbito amor britânico pelo trabalho empenhado dos parlamentares europeus em prol do tamanho adequado dos autoclismos e dos urinóis.’

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hubris

Acho alguma piada ler como o referendo e o seu filho Brexit terão fantásticas consequências para a Grã-Bretanha. Que não precisam para nada da UE e mais isto e aquilo. Tem mesmo piada. Ora bem.

1. A UE era parte do cimento que colava uma união – o Reino Unido – que quem conhece um poucochinho de história sabe que já teve demasiados sobressaltos para ser de continuidade evidente. Como consequência do Brexit, será mais um (grande) agravo se a população inglesa impuser aos escoceses, galeses e irlandeses do Norte a saída da UE que eles com o seu voto escolheram rejeitar. A Irlanda do Norte já pensa juntar-se à parte republicana, os escoceses querem a independência e até os galeses já dão que falar. Pelo que num futuro não muito longínquo, muito provavelmente terá sido uma mera Inglaterra a sair da UE, não o Reino Unido.

2. A Inglaterra escolhe sair da UE quando já não tem império, não precisa de assustar ninguém com a sua marinha e num momento do mundo em que a Europa perde influência. Com os Estados Unidos a virarem-se cada vez mais para o Pacífico e para a Ásia, não só porque lá estão os maiores conflitos potenciais como estarão sem dúvida os maiores negócios e a prosperidade económica. Que se suponha que uma Inglaterra – ou mesmo um Reino Unido – neste state of affairs terá alguma relevância mundial sozinha, é para gargalhar. Bem podem brandir a special relationship com os Estados Unidos. É olhar para a história – costuma ser útil – e ver como em 1940, quando os ingleses precisaram de uns barcos de guerra velhos cedidos pelos americanos, estes, mesmo com special relationship, aproveitaram-se do estado de necessidade britânico para lhes sacar a utilização de bases navais por todo o lado e por muito tempo. Por alguma razão até o imperialista Churchill era favorável a uma organização supranacional europeia depois da WWII.

3. O voto no leave – e sim, as clivagens de sentido de voto por grupo demográfico permitem tirar bastantes conclusões – não é o voto dos grupos dinâmicos do eleitorado. Foi o voto dos que temem as interações internacionais, dos que consideram ganhar com o isolamento face à Europa – que pela sua incapacidade para singrar numa Grã-Bretanha integrada num espaço europeu acabaram por conseguir cortar as asas aos bem sucedidos. O voto leave não foi um voto na mudança, foi um voto no status quo – de há cinquenta anos.

Donde: é fatal como o destino que uma Inglaterra fora da UE seja uma quase-irrelevância. E é por isto que o Brexit é triste. Não pelos efeitos na UE – que merece as chibatadas todas que lhe conseguirmos dar, e o Brexit é uma mais que justa recompensa para a sobranceria dos líderes europeus das últimas décadas. É por isso que aquela capa icónica da Spectator com a borboleta – que tanta gente andou a partilhar alegremente – é um logro. A Inglaterra vai-se soltar, mas menos cintilante, e num mundo que já não gosta de borboletas e prefere ladybirds.

Proteger o estado e os contribuintes de Sócrates e discípulos

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nos tempos de Sócrates passei algum do meu tempo a clamar – não propriamente no deserto, mas nos blogues – que a pior herança do socratismo não seria o descalabro financeiro. Mesmo depois da bancarrota de 2011, mantenho que pior que a crise com que o desvario socialista nos presenteou foi a degradação moral da nossa democracia (que já era moralmente periclitante) trazida pelo PS de Sócrates.

O ataque cerrado, agressivo e concertado às pessoas ruins e aleivosas que tinham a ousadia de quebrar a imagem idílica que o PS queria transmitir do país. A falta de educação ostensiva do primeiro-ministro na Assembleia da República para os representantes dos eleitores dos outros partidos. O à vontade público com que organismos públicos cortavam publicidade em órgãos de comunicação social desafetos ou boicotavam a estação televisiva mais vista pela maioria dos cidadãos. A forma como a CGD emprestava dinheiro a empresários amigos para adquirem ações de empresas para, de seguida, receberem de volta o favor de estes votarem para o BCP uma administração com os escolhidos do governo. Os comentários execráveis de Augusto Santos Silva, em flagrante competição com o inquisitorial Louçã, que se tornaram na normalidade de ser ministro sob Sócrates. Isto, claro, sem atender aos caminhos socráticos, ainda mais sinuosos, que se conheceram no fim ou depois da era Sócrates.

Posto isto, quando a improvável Canavilhas aventou o despedimento da jornalista do Público que teve a ousadia de refutar o agora aliado do governo, o alegado professor Mário Nogueira, só me apeteceu sugerir: ponha a mão no ar quem se espanta com tamanha intimidação de jornalistas. E – ainda mais – quem estranha que a intimidação fosse assim, às escâncaras e sem qualquer vergonha. Esta é a característica mais perturbante do comportamento de Canavilhas: a evidência de como no PS consideram que é seu direito natural mandar calar quem bem entendem. Tanto, que nem sentem necessidade de o fazer num canto escuro e escondido.’

O resto está aqui.

Mouraria ou chinatown?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Fernando Medina – presidente da Câmara de Lisboa em punição por todos os pecados da capital – é o político socialista exemplar. ‘Inimigo dos automobilistas e voraz com os recursos dos lisboetas’ seria um bom mote para a sua campanha de 2017.

Já muita gente escreveu sobre a mesquita que a CML entendeu por bem tomar as dores de construir e a hipocrisia flagrante de pretender defender o Estado laico radical, rasgando contratos de associação livremente estabelecidos pelo Estado para poupar as suscetíveis criancinhas à exposição ao ópio do povo por um lado, e, por outro, correr a substituir-se à comunidade islâmica na construção de uma mesquita. E se calhar atrás da mesquita vem a madrassa e a querida câmara socialista de Lisboa é bem capaz de decidir – para mostrar como somos tolerantes, multiculturais e essas virtudes teologais do credo esquerdista – contribuir financeiramente para a catequese muçulmana dos alunos da mesquita da Mouraria. Depois, claro, de ter protegido as crianças portuguesas – mesmo as das famílias ignaras que até queriam e gostavam – da exposição a essa praga maior da vida portuguesa que é o cristianismo.

Para os argumentos sobre laicidade dirijam-se se faz favor aos textos de João Miguel Tavares e Sebastião Bugalho. Eu gostava de acrescentar outro argumento: o Estado devia (como quase sempre) estar quieto. Ao contrário do que dizem os fãs do projeto – e até João Miguel Tavares – não faz qualquer sentido construir naquela zona uma mesquita. Porque há vários séculos aquela zona era habitada por islâmicos devemos agora lá construir uma mesquita? Porque se abriram lá lojas de proprietários paquistaneses e bangladechianos temos de lhes oferecer um local de culto? E a população chinesa da zona, que é pelo menos tão numerosa e visível? Está já em estudo pelos assessores diletos de Medina a construção de um templo a Confúcio? Outro a Mêncio? Foi encomendada alguma estátua da bodhisattva Guanyin?’

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Uma investigação conveniente

Era muito conveniente esclarecer-se por que razão a direção-geral de educação está a investigar as escolas com contratos de associação. Recebeu alguma queixa dos pais? Quantas? Com que conteúdo? Onde estão? Ou recebeu ordens – ou sugestões ou ‘já sabes o que fazer quando eu pisco três vezes o meu olho esquerdo’ – do ministro Brandão Rodrigues ou da secretária de estado Leitão para investigar quem tem de forma audível por todo o país contestado as políticas do governo?

É esta investigação uma vingança e uma perseguição do governo? É que não vamos esquecer que a geringonça nem tem vergonha de fazer ameaças públicas.

Confesse, Isabel: o seu problema são os traumas com o catolicismo

Eu nunca poria os meus filhos num colégio da Opus Dei, e sempre me apresentaram o Deus misericordioso, que toma conta de mim mesmo (ou sobretudo) no meio dos turbilhões e que nunca desiste de mim – e que até se diverte com esta minha maneira heterodoxa de me relacionar com ele. Mas eu não sou (nem quero ser) exemplo para ninguém, nem pretendo impor os meus pontos de vista sobre a fé.

Isto a propósito da nova fatwa da fanática Isabel Moreira contra a suposta falta de laicidade de Assunção Cristas, que infelizmente julga todos pela bitola do seu fanatismo. Isabel Moreira nunca superou os traumas de infância no colégio Mira Rio. Não tenho nada a ver com isso. O que não aceito é que apoie políticas – como o fim dos contratos de associação – e profira insanidades no parlamento na tentativa de exorcizar os seus traumas. Há toda uma gama de alternativas terapêuticas mais salutares para a vida em sociedade, desde psicofármacos a velas de aromaterapia, dependendo do tamanho do dano sofrido.

Denúncias justiceiras (e sandálias)

O meu texto de hoje no Observador.

‘Este fim de semana algo assombroso aconteceu. Ou, melhor, não aconteceu. Foi fim de semana de campanha do Banco Alimentar e não vi um único dos espíritos da esquerda-progressista-laica-o-voluntariado-é-uma-treta com quinze achaques seguidos contra o papel da odiosa caridade na ajuda aos mais pobres. Fiquei à espreita e não vislumbrei um único comentário verrinoso a Isabel Jonet.

Não, não ocorreu nenhum atentado terrorista que desviasse as atenções. Foi algo muito mais catastrófico: uma manifestação participadíssima a reclamar pela continuação dos contratos de associação onde já existem e pela continuidade da vida escolar dos alunos que os frequentam.

Mas – agradeçamos aos espíritos dos participantes na segunda internacional comunista – há quem esteja bem atento às manobras desta gente que defende os contratos de associação, que é mais perigosa que os meliantes (infelizmente praticantes de infrações ainda não tipificadas na lei) que se voluntariam para os supermercados a distribuir sacos ou dividir os alimentos doados no armazém do BA. E estes vigilantes têm feito denúncias escabrosas.

Por exemplo. Uns justiceiros, agora em voga no twitter, que uma noite sonharam com Engels e acordaram no dia seguinte com a missão de escancarar os horrorosos truques da comunicação social contra o nosso admirável e venerável governo, revelaram uma conspiração de dimensões quase internacionais. A manifestação prática era o uso, por duas apresentadoras da RTP e da TVI, de roupa amarela, numa clara e poderosa mensagem subliminar de apoio aos colégios com contratos de associação. Valentes pessoas que denunciam tais ignomínias.’

O resto está aqui.

rapazes: da próxima fiquem em casa a ver a novela. (é esta a lógica, não é?)

Aparentemente os traficantes da favela onde aconteceu o gang rape da adolescente já resolveram o assunto com os violadores e de maneira um tudo-nada violenta. Aparentemente ficaram zangados porque a violação trouxe a polícia para dentro da favela e porque, apesar de traficantes, consideram os crimes sexuais particularmente repugnantes de entre toda a panóplia de crimes.

Ora tenho a dizer que neste momento estou com mais consideração por estes traficantes que algumas criaturas, aparentemente pensantes (mas não), que nos últimos dias vi pelo facebook ou pelo twitter a verter fel porque a ‘vítima’ (assim entre aspas) tinha um percurso de vida questionável (como se isso justificasse uma violação), ou a insinuar que afinal não tinha havido violação nenhuma, foi tudo consentido. Porquê? Porque os violadores disseram que foi consentido e portanto palavra de homem é lei. A ordinária da gaja era uma agarradinha, prostituta, envolvida com um traficante, já com um filho, quem é que acredita numa mulher assim? Mas os homens – eles próprios os traficantes, carregados de armas, capazes de filmar sexo coletivo com uma mulher entorpecida e colocar na net – são uns tipos impecáveis, uns amores de pessoa, que razão teriam (além de evitarem acusação e condenação) para mentirem?!

É como digo. Além de não manifestarem estes esquemas mentais intelectualmente indigentes do que eu vi por cá, pelos vistos os traficantes têm uma réstia de decência que alguns law abiding portugueses não têm perante uma vítima de um crime hediondo. E tendo em conta que os investigadores brasileiros também estão mais preocupados em julgar a vítima que os violadores, confesso que estou sem grande empatia para as vítimas destes crimes justicialistas.

Estou certa que os que correram a escarnecer da vítima de violação estarão satisfeitos com esta justiça popular. É que como diz a Madalena Vidal no facebook: ‘Se os violadores estivessem na igreja isto também não lhes tinha acontecido.
#‎azarucho‘ Ou a Susana Beirão: ‘Se a tivessem mantido dentro das calças não tinham ficado sem ela… (mais ou menos a lógica dos comentários “cro-magnons” sobre as mulheres que usam roupas provocantes)’.

governo de alucinados, parte 854

lsd

Devo dizer primeiro que não vejo mal na ideia de ter uma contribuição para a segurança social diferenciada segundo o vínculo laboral. É mais provável que quem tenha um contrato a prazo viva um período de desemprego (por não ter o contrato renovado) do que quem esteja efetivo (porque é mais difícil e caro de despedir). Pelo que faz sentido uma contribuição maior para quem tem mais probabilidade de precisar de subsídio de desemprego.

Como é evidente, esta diferenciação só podia ser feita diminuindo a contribuição do empregador para os trabalhadores efetivos e mantendo-a para os trabalhadores a prazo. Mas como temos um governo de lunáticos que acredita que as vacas voam, mesmo numa situação de uma tremenda quantidade de desempregados – que evidentemente quando, e se, encontrarem emprego será pelo menos inicialmente com vínculo temporário -, prepara-se para estragar a vida aos tais imensos desempregados ao encarecer a sua contratação via subida da TSU para as empresas; e, donde, tornando-a mais improvável de ocorrer.

Acho que isto não vai lá sem transplante de cérebro aos ministros deste governo.

(Rafael Chust entretanto lembrou-me no facebook do investimento dos fundos da segurança social na recuperação urbana. De facto também é isto: pomos as empresas produtivas, as que sobreviveram à crise, a pagar as clientelas partidárias do PS em Lisboa.)

Ainda sobre os contratos de associação: um piadista que atira sempre ao lado (com acrescento da aldrabice seguinte)

Anda por aí a circular uma imagem de um dito de Pedro Marques Lopes, presumo que do seu facebook, onde este afirma que no Colégio São João de Brito andam pelas aulas psicólogas a atormentar as criancinhas para as constrangerem a ir à manifestação de amanhã. Porque uma das conversas de treta dos partidários do fim dos contratos de associação é ‘ai jesus que instrumentam as criancinhas’. (Como o Filipe Nunes Vicente notou no twitter, só se podem exibir criancinhas para as causas progressistas.) Ora como o São João de Brito é uma realidade que conheço muito bem – andei lá uma catrefada de anos, os meus irmãos andaram lá, os meus sobrinhos andaram lá, os meus filhos não andam lá porque o colégio é muito longe, grande parte dos meus amigos faz parte do grupo que lá formei, faço parte da direção da associação de antigos alunos, tenho amigos que são ou foram lá professores, tenho imensos amigos com filhos que lá estudam, e mais uns pozinhos semelhantes – esclareço alguns pontos.

1. Qualquer pessoa que dê a entender, mais ou menos explicitamente, que o SJB é um colégio com contrato de associação devia ter vergonha da falta de seriedade argumentativa a que se entrega. Por outro lado, quem acredita que o SJB – ou qualquer outro colégio prestigiado (ou não) em Lisboa – tem alunos cuja propina é paga pelo estado ao abrigo dos contratos de associação, devia ir entregar-se ao serviço de neurologia mais próximo para que lhe façam tratamento de choques elétricos a fim de estimularem os circuitos cerebrais.

2. Não tenho notícia, de entre todos os meios de onde as poderia receber, que haja alguém, psicóloga ou contínua, professor ou auxiliar, a forçar os alunos a fazerem o que quer que seja neste processo da extinção dos contratos de associação.

3. As psicólogas? No SJB há inúmeros jesuítas, a maior parte com um relacionamento próximo com os alunos. São os professores de religião, são professores de filosofia, são professores de música, são diretores de turma, etc. Costuma haver inclusive os jesuítas in the making, que no seu período de magistério vão frequentemente para os colégios; como são novinhos, são em tão grande parte amigos dos alunos como membros da autoridade. Sempre que há algum assunto importante que os jesuítas entendem ser necessário transmitir aos alunos, são os jesuítas que o transmitem. Só quem não conhece nada de funcionamento de jesuítas supõe que delegam em psicólogas qualquer mensagem que julgam relevante. A ter acontecido alguma coisa, nunca poderá ter sido mais que alguma conversa informal.

4. No SJB sempre notei um escrupuloso respeito pela liberdade dos alunos. Nos anos que lá estive, não participava em nenhuma das atividades espirituais, não me crismei (na minha turma um primo do Miguel Botelho Moniz e eu fomos os únicos), nem sequer fazia a oração da manhã. (Respeitava muito quem fazia isso tudo, evidentemente.) O único evento em que participei, levada pelo Colégio, foi na missa de João Paulo II no estádio do Restelo, e motivada pela melhor razão: poder faltar às aulas nessa tarde. Passei a missa a fumar virada de costas para o altar, um contínuo pôs-me às cavalitas para eu ver o Papa a passar, depois desatou a correr atrás do papamóvel e eu ia caindo e morrendo. Foi tudo. Nunca tive qualquer constrangimento ou qualquer repreensão pela minha escolha. Em sentido oposto, nunca – repito: nunca – houve qualquer tentativa de nos forçarem a tomar posição sobre qualquer assunto politicamente em voga.

5. Isto dito, acho que os alunos adolescentes do SJB têm idade para, querendo, participar na manifestação contra o fim dos contratos de associação. Ao contrário dos hipócritas de esquerda – que colocam os filhos em colégios enquanto retiram a outros menos endinheirados a possibilidade de fazer o mesmo – de facto sempre fomos doutrinados na ideia de que a melhor educação deve estar disponível para ricos e pobres.

6. Nunca estive no colégio dos jesuítas de Santo Tirso, e mal conheço o de Cernache. Mas conheço os jesuítas, tenho amigos jesuítas que andam por estes dois colégios, e posso dizer sem exagero que é um crime fecharem-nos para entregarem os alunos à Fenprof e à vontade de os doutrinar na ideologia mata-frades de Alexandra Leitão, Tiago Brandão Rodrigues e António Costa. Luís Froes lembrava no outro dia no facebook a expulsão dos jesuítas, que provocou uma hecatombe na população escolarizada em Portugal. Não é uma comparação descabida.

Acrescento: agora mesmo no fb Pedro Morgado me informou de que afinal PML diz que não eram psicólogas, mas que alguém ‘doutrinou mesmo as crianças’. Esta denúncia tem, claro, a mesma credibilidade que a anterior. Porque, convenhamos, os alunos e pais de alunos do SJB não costumam confundir os jesuítas – que é quem fala em nome dos jesuítas – com as psicólogas do colégio.

(Retirei o acrescento nº 2 sobre o ensino noturno que o SJB teve durante muito tempo, de adultos que não haviam terminado a escolaridade, porque este já não existe precisamente por dificuldades de financiamento, segundo esclarecimento que me fez um jesuíta. Logo não interessa nada para esta discussão dos contratos de associação.)

Contratos de associação, o processo da sua extinção e o bem comum

Vale a pena ler o José Maria Brito sj no Observador sobre os contratos de associação. Dá uma perspetiva de quem conhece o que se passa, em vez de fazer avaliações com o google maps. Quando o vi no facebook pedi ao Zé Maria para o postar aqui, esta semana não tive tempo para isso, pelo que fica agora.

‘Falo dos contratos de associação a partir da realidade que conheço: Colégio da Imaculada Conceição (CAIC), em Cernache, Coimbra e o Instituto Nun’ Alvres (INA) em Santo Tirso. Estas duas escolas fazem parte da lista daquelas com que o Governo deseja terminar o contrato de associação. Conheço-as não apenas por ser jesuíta e por estas escolas pertencerem à Companhia de Jesus, mas por ter trabalhado numa delas e por ter acompanhado de perto o trabalho que cada uma delas faz em termos de intervenção social. Não quero com isto desconsiderar nenhuma outra escola, mas falar com conhecimento de causa.

O que se passa então nestas escolas? Estas escolas aceitam todos os alunos de acordo com regras do Ministério, havendo umapercentagem elevada a beneficiar de apoios socias. Nesses e noutros casos, é feito um acompanhamento das famílias que vai para além do estipulado na Ação Social Escolar. Estas escolas integram alunos institucionalizados e alunos com necessidades educativas especiais. Pontualmente, aceitam a transferência de estudantes a pedido de escolas públicas estatais devido a questões disciplinares ou dificuldades de integração. Não se nega a participação em atividades extracurriculares por razões económicas. Existe uma real colaboração com diferentes entidades na resposta às necessidades da população. Sejam elas a comissão de proteção de menores, os municípios ou uma escola primária do estado cujos alunos utilizam o refeitório da escola com contrato de associação.

Nenhum destes estabelecimentos de ensino vive desinserido da sua realidade local ou fechado ao mundo. Basta para isso pensar nos projetos de educação para o desenvolvimento e para a cidadania (crise dos refugiados; acesso à educação; comércio justo, justiça social global), no projeto de educação para a afetividade e sexualidade e no trabalho que se faz no acompanhamento e crescimento – também espiritual – dos alunos ou nos acampamentos realizados no verão.

Nada disto seria possível sem um corpo comprometido de educadores: gratuidade; preocupação de acompanhamento pessoal, de sinalizar situações de risco; dúvidas e desabafos sem hora marcada; o desejo das direções para que se vá mais longe; a insistência dos educadores de ensino especial para que se integre cada vez melhor e mais plenamente; visitas domiciliárias de técnicos de Serviço Social.’

O texto todo – onde também se faz uma boa descrição da má-fé (palavra escolhida por mim) do governo neste processo – está aqui.

Trudeaus caídos

O meu texto desta semana no Observador.

‘Sabe quem é Justin Trudeau, o formoso, não sabe? Esse: o primeiro-ministro do Canadá. O que tem uma franja com os milímetros que cobre a testa tão detalhadamente calculados quantos os centímetros para a direita da cara de José Sócrates aquando do anúncio na televisão do resgate da troika. O que se tuitou numa imagem exibindo a sua força de braços ao suspender-se em prancha sobre uma mesa (chamam-lhe, li, a pose do pavão, que nunca ninguém disse que a realidade não tem um sentido de humor cáustico). E que oferece, com encenação de improviso que consegue convencer crianças de vinte meses e seis dias, lições de computação quântica (baralhando tudo, mas quem quer saber?)

Justin é – como faz parte da descrição obrigatória do líder de esquerda – avassaladoramente maravilhoso. Bonito (ou assim o dizem), jovem, progressista, um coração de manteiga para os refugiados sírios. Com pedigree familiar (que a esquerda que se diz igualitária nunca deixa de apreciar): é filho de um outro ex-primeiro-ministro canadiano. Ah, claro, e com uma mulher gira, Sophie, que foi à Casa Branca rivalizar no guarda-roupa com a fashionista Michelle Obama, também nova, antiga estrela de televisão, mãe de família moderna.

De acordo com a peculiar forma a preto e branco de ver o mundo do lado esquerdo da vida, o casal Trudeau não pode ser apelativo apenas politicamente. Por decreto é também bonito, sofisticado, culto, moderno, bem vestido, lido, uns pais formidáveis, arrebatadores, estonteantes, enfim, acrescentem aqui todos os adjetivos bons e cintilantes que há no mundo. Uma reedição dos santos de altar para a esquerda convencida que é iconoclasta.’

O resto está aqui.

as consequências virão, ai virão, virão

As consequências das políticas mata-frades do governo, tornado agora agente comercial da Fenprof, terão consequências mais largas do que apenas o desemprego dos professores e auxiliares que serão despedidos com o fim de grande parte das turmas em contratos de associação. Ou a instabilidade dos alunos que engrossarão as fileiras de reféns das greves e reivindicações corporativas da Fenprof. Leia-se o que escreveu Ana Rita Bessa, deputada do CDS, no facebook:

‘Na passada segunda feira visitei o Colégio da Imaculada Conceição, em Cernache. No refeitório estava a mesa posta para receber os meninos da escola EB1 próxima, estatal, que não tem refeitório. Quem se preparava para ir buscar os meninos a essa escola, eram duas auxiliares do colégio que ajudam “as colegas” da EB1, estatal. De resto, quando a EB1, estatal, esteve em obras, algumas aulas tiveram lugar no colégio com contrato de associação . Soube-se esta noite que este colégio não poderá abrir mais turmas novas. Aparentemente não é supletivo da rede estatal.
Mais cedo ou mais tarde, fechará portas. Também aos meninos da EB1.’

Entre outras questões que se poderiam comentar, presumo que no meio da tal poupança de dinheiro dos contribuintes com a não duplicação de recursos blablablá se inclua gastar dinheiro com a construção de um refeitório para a maravilhosa escola pública que não o tem.

Panama papers: o fim do socialismo (se fôssemos inteligentes)

O meu texto desta semana no Observador.

‘‘Estamos a assistir à morte do capitalismo’ – foi assim que eu dei pelos primeiros comentários no twitter aos Panama papers. Continuei a minha vida sem correr a ver o fim do capitalismo, que sempre que surge um tema quente nas redes sociais – tirando um atentado terrorista ou parecido (em que reajo logo e de seguida fico tempo demorado a receber insultos e ameaças por não ter o meu coração cheio de amor para com o islão) – continuo despreocupadamente a colocar links sobre a última violação por um gangue na Índia, ou as influências maoistas em Xi Jinping ou o último comentário jocoso que os meus filhos me dirigiram, durante várias horas até finalmente focar a minha atenção na agitação do momento.

Mas depois de muitos tuites ilustrando a ‘estocada final’ no e ‘o estertor’ do capitalismo, lá tive curiosidade (moderada) sobre o que o estava a matar. Assim de repente, lembro-me que o capitalismo morreu em 2008, em 2001 e com as crises bolsistas de 1987 e 1997, pelo que acho sempre as notícias da morte do capitalismo manifestamente exageradas.

Nos dias a seguir foi o que se sabe. Escândalo por um paizito qualquer presumir poder usar a sua soberania para decidir qual a taxa de impostos que cobra ou deixa de cobrar a quem tem negócios através do país. A bílis e a inveja foram exibidos ao som de trombetas contra os ricos (ainda anónimos). Uma esperança do PSD perguntava-se por que ainda não houvera uma intervenção militar no Panamá. (Porque qual é o curso de ação evidente face a um país que quer cobrar pouco impostos? É claríssimo e translúcido: bloqueio marítimo a estes meliantes, drones a largar bombas, corte de relações diplomáticas, invasão pelo exército. Isto tudo ali com a bomba de hidrogénio de reserva, não vão estes agressores internacionais começarem a oferecer um cabaz de Natal aos donos das cinquenta maiores offshores.)

(Esta seria mais uma oportunidade para comentar o estado da nossa direita – com revirar de olhos a acompanhar este ‘direita’ – mas hoje concentremo-nos noutro lado.)

Até que os Panama papers foram tornados públicos há dias e se verificou – grande surpresa – que a maioria dos envolvidos são políticos de profissão. E não é preciso ser dotado de imaginação hiperativa para perceber que para os políticos o maior uso das empresas offshore e dos paraísos fiscais é esconderem fundos obtidos através da corrupção. Ao contrário de outros grupos profissionais, que podem simplesmente (e legitimamente) querer pagar menos impostos sobre os rendimentos legalmente ganhos.’

O resto está aqui.

Absurdos: o privilégio da esquerda

O meu texto de hoje no Observador.

‘Uma vez passei um dia muito agradável a rir-me às gargalhadas na biblioteca principal de Cambridge. Felizmente era quase Natal, passei o dia no quinto andar duma ala sem ver vivalma, sentada encostada ao radiador do aquecimento central.

Estava a ler livros e journais de História da Revolução Cultural Chinesa e dei com ‘produção de conhecimento’ (escrevo isto com os sais junto ao nariz) admirável de reputados académicos. Li elogios à censura maoista e críticas aos intelectuais que desafiavam os limites da censura, que afinal deviam acertar primeiro com as autoridades o que publicavam. Um afirmava que Mao era um visionário (lá isso era, mas não da boa espécie) e referia a ‘retidão moral’ dos Guardas Vermelhos (os adolescentes que se dedicaram a torturar e a assassinar professores e inimigos imaginários depois de Mao os incitar a essa violência).

A gargalhada maior veio com uma defesa da Revolução Cultural, argumentando que um agente político experiente e pouco aventureiro como Lin Biao a havia apoiado. Lin Biao, um ano após a publicação desta zurrapa, morreu num voo em fuga para a União Soviética depois de se descobrir um início de golpe que o envolvia para assassinar Mao.

Lembrei-me desta produção científica (ou, em linguagem mais comum, destas aldrabices) de académicos favoráveis ao maoismo (ou, em linguagem que por cá se usa muito, de gente ‘do lado certo da história’) ao ler este texto de Nicholas Kristof onde confessa a intolerância ideológica e religiosa da academia americana. Refere um cristão negro cuja maior dificuldade na academia não era a cor de pele, mas a religião. E constata que em muitos departamentos universitários é mais fácil encontrar marxistas que republicanos.’

O resto, com um twist no assunto, está aqui.

Voando sobre um ninho de cucos

O meu texto da semana passada no Observador.

‘Corram para os abrigos: anda aí uma direita ‘radical’, agressiva, perigosa, má como as cobras (e quem vos diz isto é esta vossa amiga fóbica de serpentes). O governo – sempre pronto a proteger-nos de todos os perigos (menos os de umas contas públicas que só fazem sentido depois de consumo de LSD) – já tratou, estou certa, de dotar os psicólogos nacionais de bolsas chorudas para a investigação dos traços fisionómicos comuns nesta direita ‘radical’, para que o cidadão decente possa identificar o malandro radical direitolas sempre que por ele (ou ela) passa na rua.

A tese não é nova – vem desde as eleições. Não havendo votos, inventou-se outra fonte de legitimidade. É que o PS tinha de governar – Costa e sus muchachos nem queriam nada – para salvar o país da direita radical que tinha tomado a coligação. E quanto mais o PS se radicalizava e se aliava aos universalmente reconhecidos extremistas, mais se gritava ‘direita radical’, enquanto se acendiam velinhas nas lojas maçónicas para que o cidadão português não reparasse no que se passava.

Pacheco Pereira esmera-se agora na denúncia desta malvada e aleivosa direita radical que anda à solta pelo país, sobretudo nos blogues, no twitter e nos comentários. E escrevem também nesses lugares malsãos que são este vosso criado Observador, no Sol e no ‘extinto’ Diário Económico (os trabalhadores, jornalistas incluídos, que continuam a trabalhar para dar notícias no agora digital Diário Económico, certamente agradecem tanta consideração). Permitam-me notar só um pormenor: deixando de lado as caixas de comentários, tomando só as pessoas funcionais de direita existentes nestes meios, as generalizações de Pacheco Pereira têm uma adesão à verdade parecida com a que Sócrates costuma evidenciar.’

O resto está aqui.

O enlevo do PSD por um extremista

O meu texto desta semana no Observador.

‘Essa excentricidade (para o nosso regime socialista abrilista) que é o indivíduo de direita tem muita razão para a cada ano, nas celebrações do 25 de abril, se perguntar por que razão a direita parlamentar aceita com bonomia ser enxovalhada pela esquerda. Por essa esquerda que nos faz saber que o regime não é nosso, que nos toleram só enquanto não tivermos demasiado espevite – e, é evidente, formos produzindo impostos.

Ou por que não respondem em espécie a António Costa quando – rude e descortez – afirma que não ouviu as críticas de Paula Teixeira da Cruz. Elegante ato que não é só uma graçola malcriada dita por um pm a quem jornalistas embevecidos gabam a ‘habilidade’. É um comportamento anti-democrático, porque ao recusar ouvir os representantes Costa está, na verdade, a recusar ouvir os representados que votaram no PSD. O que interessa o que essa gente eleitoralmente pouco avisada diz, desde que paguem (muitos) impostos, não é?

Dou aqui uma pista para a explicação da complacência da direita parlamentar perante o abuso da esquerda. É que a direita parlamentar, sobretudo o PSD, está pejada de pessoas que só por algum acaso não se filiaram no PS ou, até, no BE. É preciso provas disto? Eu ofereço-as.

Prova A. O texto de Mónica Ferro sobre Bernie Sanders. Sanders é – além de uma surpresa, como é dito no título (mas uma epidemia de cólera também costuma ser uma surpresa) –, cito, um ‘social-democrata confesso’. Cito mais: ‘Sanders soube […] cultivar, com um tom de intimidade e merecedor de confiança, a imagem de um líder com quem os americanos, os mais excluídos, os mais discriminados, os mais marginalizados, também se podem identificar.’’

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texto que contém spoilers

Ninguém me perguntou – o que é uma grave falha – mas eu também tenho um livro que emprestei e não me foi devolvido e sofro horrores por isso ao fim de para aí vinte anos. Geralmente odeio emprestar livros (mais vale comprar e oferecer) por causa desta mania coletivista de não se devolverem livros que foram emprestados. O último que emprestei foi uma preciosidade da Teolinda Gersão ao Henrique Raposo, mas só porque a pessoa com quem o Henrique é casado me tinha devolvido, ou para devolver, o Life After Life da gigante Kate Atkinson. São pessoas de boas contas em livros, portanto. Os outros que emprestei e não me foram devolvidos são livros de substituição fácil (ainda que, enfim, não tenham sido os livros que eu li, e não têm as minhas marcas, o que parecendo que não faz toda a diferença), exceto em dois casos, mas um era sobre assunto de que entretanto perdi o interesse e outro não tinha qualidade literária que me provocasse luto. De qualquer modo, lembro-me dos empréstimos todos e só devido aos bons ensinamentos cristãos da minha vida não aponto inquisitorialmente os nomes.
Mas vamos à ovelha bibliográfica transviada. Emprestei o Escalas do Levante, de Amin Maalouf e népias de devolução. Não é fácil encontrar o livro por aí, pelo que tenho sobrevivido sem ele. Com frequência dou por mim a rogar pragas ao autor pela falta de informação da cena final, em que o narrador se recusa a coscuvilhar (para melhor nos informar) como termina o reencontro descrito. Se tivesse permanecido com o livro, certamente iria reler aquela cena muitas vezes, com a esperança irracional de lá encontrar afinal uma clarificação. Lembro-me que na adolescência mais tenra tive de ler muitas vezes o final de Os Três Mosqueteiros para acreditar que a Constance Bonacieux morria mesmo. Algo semelhante se preparava para ocorrer com Escalas de Levante. Mas este curso natural das coisas foi interrompido pelo malfadado empréstimo. Também dou por mim com frequência a rogar pragas à pessoa a quem emprestei o livro por me ter privado da vivência deste pequeno comportamento compulsivo.

Mais notícias da geringonça

O meu texto de ontem no Observador.

‘Chamo a atenção aos caros leitores que vou escrever já a seguir sobre o ilustre governo de Portugal e não, como por momentos pode parecer, sobre uma agremiação circense da Mongólia Interior. Ou sobre um grupo de hippies que se isolou da sociedade numa quinta numa zona remota da Índia e se autorregula recorrendo a rituais xamânicos.

Começo, feita a ressalva necessária, com pompa. A saber de um feito verdadeiramente irrepetível, avassalador, histórico: a inauguração de uma estação de metro, esse meio de transporte revolucionário que foi, como se sabe, introduzido no país há meia dúzia de meses pelos bons préstimos do tempo novo da geringonça. Só foi pena o governo não dar – como a espetacularidade da ocasião merecia – tolerância de ponto para o país celebrar em uníssono a abertura de uma nova estação de metro na Reboleira.

Mas o ilustre governo proporcionou-nos muito mais (e já era tanto) do que celebração. Na pessoa do primeiro-ministro, senhor que conhece o futuro das alterações climáticas, a evolução tecnológica das energias limpas e da indústria automóvel e, sobretudo, o que é bom para cada um de nós, fez-nos saber que temos de nos habituar a viver sem os carros. Se fosse alguém malvado de direita lá haveria gritaria por termos um governo a querer tirar os confortos que o capitalismo, perdão, a intervenção socialista do estado, e o enriquecimento das populações proporcionam. Mas assim foi só o pm paternalista a dar-nos bons conselhos sobre ‘moblidade [sic – eu não tenho culpa da peculiar dicção do pm]’.

Logo a seguir – e mostrando com atos a sua titânica preocupação com a poluição provocada pelos combustíveis fósseis e suas consequências no aquecimento global, bem como o seu amor pelo uso de transportes públicos que tanto aconselhou aos autóctones dos arrabaldes lisboetas – o pm sacrificou-se em prol dos seus princípios sobre a dita ‘moblidade [sic]’. Em vez de viajar confortavelmente em executiva – e gratuitamente na parte da viagem na TAP – até Atenas, António Costa acedeu ao enorme desconforto de se fazer transportar num Falcon – com custo horário de vários milhares de euros – para visitar a sua alma gémea política, o austerista-mor Tsipras.

Para mostrar o desconforto a que se sujeitou para ser coerente com os seus sermões aos automobilistas portugueses, Costa até se fez fotografar na minúscula cabine do Falcon. Na verdade tão minúscula que o que mais sobressaía era a protuberante barriga do pm aprisionada num casaco de malha justíssimo. Por momentos confesso – eu sou dada a estes maus sentimentos, não há nada a fazer – que me lembrei daqueles padres renascentistas gorduchos que a Reforma atacou, carregados de anéis nos dedos sapudos, que pregavam o ascetismo aos famélicos camponeses das suas dioceses. Mas – descansai – rapidamente se abateu sobre mim o respeito devido ao chefe de governo e se dissiparam as desconfianças de hipocrisia.’

O resto está aqui.

Indignações seletivas

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nesta última semana confesso que fui assaltada amiúde de desconfianças fundamentadas sobre as capacidades cognitivas dos felizes habitantes de Portugal. Joana Vasconcelos disse que se fosse refugiada levaria na mochila joias, óculos de sol e ipad e meio Portugal enlouqueceu. Ah, onde já se viu, que falta de noção da senhora, deve pensar que vai para um fim de semana num resort de luxo, uma alienada das agruras da vida enquanto refugiada (que os críticos de Joana Vasconcelos conhecem desde pequeninos, evidentemente), ai a sorte de já se ter dado descanso à guilhotina vai para mais de duzentos anos.

Pois bem, eu declaro que levaria as mesmas coisas que Joana Vasconcelos na mochila. Os óculos de sol, porque sofro de grande sensibilidade à luz e não prevejo que uma eventual temporada como refugiada me curasse essa condição. Na verdade, se virem alguém por Lisboa a guiar de óculos escuros mesmo no inverno, às vezes até a chover, quando o céu não está mesmo, mesmo cinzento e desmaiado, sou eu.

O ipad também levaria, desde logo porque padeço de uma certa adicção ao objeto e já há muitos sítios por essa Europa com wifi gratuito. Claro que houve uns pomposos hipócritas que proclamaram recusar as tecnologias e declararam levar livros, se não mesmo vários volumes de enciclopédias, para a sua vida de refugiados. Ora eu também gostaria de levar muitos dos meus livros, mas os diabinhos literários têm a mania de serem pesados. Transtorna-me separar-me, até porque sou um dos seres que se afeiçoa aos livros, dos meus romances da Jane Austen forrados a tecido da Penguin, por exemplo. Mas reconheço que gosto mais de viajar livre de contraturas na cervical, e sem necessidade de emplastros anti-inflamatórios, do que dos livros. Na verdade – e porque também sou uma junkie da leitura – se fosse refugiada era bem provável que me sentisse à vontade para desrespeitar os direitos de autor e demais legalidades e descarregasse livros pirateados para o meu ipad, onde depois os leria confortavelmente.

E levaria as joias, claro. São objetos valiosos facilmente transportáveis que qualquer pessoa sem maleitas cognitivas perceberia dever transportar nesta situação. Se a viagem corresse bem, seriam valores que eu manteria. Se não corresse bem, as joias são razoavelmente fáceis de vender, ou um bom meio de pagamento, pelo que são muito úteis quando há necessidade de fundos. Mais. Como sou uma capitalista impenitente e uma reacionária de direita, evidentemente valorizo bens como joias. Além de serem bonitas (as minhas, pelo menos), há algumas que me partiria o coração perder. O anel que os meus pais me deram quando eu fiz trinta anos. O anel (eu sou uma pessoa de anéis, preferencialmente grandes e originais) que me deram quando fiz quarenta anos. O anel (já disse) que recebi quando o meu filho mais velho nasceu e os brincos com que me brindou o mais novo. E por aí adiante.’

O resto está aqui.

Niqab de alta-costura

O meu texto de ontem no Observador.

‘Dei por este assunto no twitter. No princípio do ano li que a Dolce&Gabbana iria ter uma coleção de abayas e niqabs. Depois de controlar a subida súbita de tensão arterial, recorrendo aos cristais de quartzo e à aromaterapia (à falta de medicação convencional para a maleita de que eu normalmente não padeço), que a notícia me provocou, apelei de imediato ao boicote à Dolce&Gabbana. No dia seguinte reincidi no Facebook: ‘Ontem soube da traição da Dolce&Gabbana, que lançou uma coleção de abbayas e niqabs da marca, juntando-se assim ao lado negro da força que impõe indumentárias simbólicas da opressão e do desrespeito dos direitos humanos das mulheres. O que convoca, claro, um boicote à empresa por todas as mulheres de boa vontade. (Perfumes, que eu thank God não gosto, incluídos.)’

Entretanto voltei à minha vida, que não se cruza amiúde com a Dolce&Gabbana. Mas houve desenvolvimentos. A Marks & Spencer decidiu por à venda um burkini nas suas lojas. Isto depois de a Mango ou a DKNY (a segunda marca da luxuosa Donna Karan), entre outras, terem lançado roupa para o Ramadão. A ministra francesa dos direitos das mulheres, Laurence Roussignol, contra-atacou, acusando as marcas ocidentais que vendem roupa feminina desenhada segundo os ditames islâmicos de irresponsabilidade, de colaborarem no controlo social dos corpos das mulheres, estarem a vender os princípios ao lucro e comparou até as mulheres que viam com bons olhos estas indumentárias como os ‘negros que apoiavam a escravatura’. E agora podem aplaudir a ministra, que bem merece. Pelo menos por não ter cedido aos rodriguinhos com que as feministas de esquerda costumam tratar este assunto.’

O resto do texto está aqui.