Guerra às crianças

O meu texto de ontem no Observador.

‘Eu sei, eu sei: os milhões doados para alívio das vítimas de Pedrógão, de que o PS apressadamente se apoderou para distribuir como se fosse a generosa origem do dinheiro, estão em parte incerta; o relatório sobre Pedrógão foi atrasado para depois das eleições autárquicas, que o PS não brinca em serviço nem deixa que 66 mortos lhe atrapalhem pretensões eleitorais; a ministra da Administração Interna pede relatórios atrás de relatórios sobre o que corre mal – no caso, as refeições próprias de alturas de más colheitas na África subsaariana dadas aos bombeiros – como se não lhe coubesse antecipadamente garantir que uma ou outra coisa, pelo menos, corresse bem. E um quilométrico etc.

Mas deixem-me voltar ao caso dos cadernos de atividades que foram retirados por coação do ministro Eduardo-‘frígida’-Cabrita e a sua Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Porque, com a recomendação da CIG, iniciou-se a tentativa de institucionalização daquilo que as crianças do sexo feminino não podem fazer.

Em 1917 as meninas tinham de ser prendadas, não podiam correr como os rapazes nem subir às árvores, tinham de saber bordar e tocar piano, usavam roupas que lhes tolhiam os movimentos, desporto só, com sorte, ténis. Em 2017, as meninas não podem vestir cor de rosa (atenção, um menino transgénero pode vestir cor de rosa para se afirmar menina, mas as miúdas têm de escolher azul ou uma cor neutra), as princesas foram guilhotinadas e joguem futebol feminino faz favor.

Os espartilhos colocados às meninas mudam mas permanecem afiados. Jamais deixar a meninada escolher cores e atividades e brinquedos, com toda a liberdade conforme os gostos, desde o karaté à ginástica rítmica. Melhor negar o direito às miúdas de usufruírem de qualquer divertimento associado ao universo feminino. (Horror! Repitam mantras satânicos para vos proteger desse pavor que são TODOS os comportamentos femininos.)’

O resto está aqui.

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Mas será amor reiterado à mentira?

Apareceu-me este texto à frente e fiquei indisposta. Dê as voltas que dê, não entendo a razão por que um sacerdote católico escreve um texto cheio de mentiras e aldrabices a propósito de Diana Spencer. É certo que este padre católico escreve com frequência coisas que revolvem as entranhas, mas que decida mentir à conta da Princesa Diana, que morreu há vinte anos, é algo que me escapa. Poderia dar-se o caso de querer reeditar a guerra – de que agora ninguém se lembra e que os mais novos nem deram pela conta – entre os partidários de Diana e os da família real britânica, em prol da causa monárquica. Mas nem isto tem razão de ser. A rainha aprendeu a lição com a morte de Diana, soube ser humilde e perceber que o papel que os súbditos dela esperavam se alterara – é ver por exemplo a reação da Rainha depois do incêndio de Kensington deste verão, ou depois dos atentados terroristas em Londres em 2005 -, está tudo pacificado, o filme A Rainha já mostrou o seu lado, agora até a série The Crown pretende mostrar o lado humano da soberana e os seus dilemas e lhe ganha a simpatia por todo o mundo. Porquê mentir?!

Já é bastante indecoroso ter um sacerdote católico dedicando um artigo quase competo à árvore genealógica de umas tantas pessoas e comparando quem é mais nobre e quem é mais real. Mas para que inventa a história de que alguém alguma vez chamou a Diana ‘princesa do povo’ para fazer crer que ela era plebeia (esse supremo defeito para o articulista)?! Tony Blair chamou a Diana ‘princesa do povo’, e o nome pegou, numa alusão ao enorme amor e fascínio que o povo britânico lhe dedicava, visível na catarse lacrimal coletiva que ocorreu depois de Diana morrer. Nunca ninguém lhe escondeu o título de ‘lady’, nem a ascendência na família Spencer, impossível de camuflar, que deu rebentos (pela derivação dos duques de Malborough, o primeiro chamado John Spencer) tão desconhecidos como aquele discreto primeiro-ministro durante a segunda guerra mundial, Winston SPENCER Chulchill, de quem ninguém em Inglaterra ouviu falar ou recorda.

Também é notório, pelo que vai escrevendo, que o articulista, apesar de padre católico, gostaria de um deus-juiz e não aprecia grandemente a misericórdia. Por isso aproveita para terminar o texto informando que Diana não se portou sempre como a sua posição exigia. Sinceramente, que nojo. Isto perante uma pessoa que já morreu, e que com todos os defeitos que teria (todos temos, e os de Gonçalo Portocarrero de Almada são gritantes), e problemas de saúde vários, tinha um inegável espírito de serviço, grande coragem e – algo que o articulista não percebe – empatia pelo sofrimento alheio. Mostrando o ranço que lhe vai na alma, apesar de declarar que Diana nem sempre se portou como devia, branqueia o comportamento do seu marido, falando na ‘alegada infidelidade conjugal de Carlos’. Bom, Carlos de Gales assumiu numa famosa entrevista televisiva que foi infiel a Diana. Não há nada de alegado nisto.

Enfim, não percebo o objetivo de tanta aldrabice. Mas como dizia Jesus, bem-aventurados os pobres de espírito’.

Viciados em proibir

O meu texto desta semana no Observador.

‘Sabem quem deu indicação à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) que ‘recomendou’ (pois) retirada dos cadernos da Porto Editora? O ministro da tutela, Eduardo Cabrita. O deputado socialista que em 2013, para fins políticos, chamou ‘frígida’ a Maria Luís Albuquerque. Cabrita é, além de malcriado e censor, um protozoário machista que não sabe debater política envolvendo uma mulher sem ir buscar ataques sexuais. Donde, para António Costa e PS, é o ministro ideal para tutelar a promoção da igualdade de género.

Mas cheguemos ao caso em concreto. Simples: as editoras publicam os livros que entendem, respaldadas no conhecimento de mercado, e os consumidores compram ou não. Umas publicam livros para meninas e/ou para meninos, outras para ambos, ilustrações ao gosto do freguês. Quem incentiva as filhas a gostar de princesas e os filhos de piratas, compra(va) os da Porto Editora. Quem apreciava mais outras temáticas, ou é um indefetível dos produtos unissexo, compra para outros lados.

E o estado não tem que vigiar o bem-estar das criancinhas? Tem, claro. Tem que assegurar que os pais alimentam devidamente a criançada, cumprem a escolaridade obrigatória, dão cuidados médicos, não os espancam nem os torturam psicologicamente, não os violam nem deixam violar por outros. E cuidados semelhantes. O estado também deve certificar manuais escolares que promovam a igualdade de direitos e oportunidades entre os sexos. Fora desta esfera, e nos livros não obrigatórios, é desandar.

Mas desmascarada a mentira ‘os exercícios são mais fáceis para as meninas’, há razões incontornáveis para o marialva Cabrita e a CIG banirem dois livros? Há, porque para a CIG tudo o que tenha vagamente a ver com o universo feminino merece esgares de desprezo e é para proibir. De resto, qualquer pessoa com neurónios mirrados percebe que a forma das famílias estupidificarem as filhas é comprar-lhes cadernos para estimularem as capacidades cognitivas.’

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O PS já começou a construir o seu Index

Com a desvantagem que o Índex da Igreja Católica, além de já ter sido extinto há umas boas décadas, era seguido voluntariamente pelos católicos que o quisessem (no meu caso, e sou católica, já gozei abundantemente por a IC também não ‘recomendar’ os livros do Harry Potter às impressionáveis mentes cristãs), enquanto que o Índex do PS tem força de chantagem estatal às empresas que lá caem.

Enfim, quem se coliga com comunistas e alucinados derivados é porque tem afinidades de valores totalitários. O PS não espanta por aqui.

À criatura que se diz feminista, Rita Ferro Rodrigues, recomendo que alguém lhe faça chegar uma versão do Animal Farm. Pode ser aquela em desenhos animados, que a senhora não parece ser capaz de grandes abstrações. Talvez consiga perceber a parte dos que lutaram contra a ditadura que terminaram replicando, para pior, a ditadura que derrubaram. Se tiver um assomo de consciência, perceberá que é a história da sua família.

Mas se pensam que Rita Ferro Rodrigues é do pior que nos pode calhar, é lerem Inês Pedrosa, que quer proibir os supermercados de arrumarem a mercadoria que têm para venda como bem entendem. Estamos entregues a doidos varridos. Doidos varridos.

inês pedrosa

 

 

Notas breves sobre a cimeira do G20

1. Como se previa, Trump foi toureado por Putin no encontro do fim de semana. Alegadamente Trump acusou Putin de interferir nas eleições americanas, estamos seguros que com grande convicção, já que veio depois de várias tiradas tonitruantes de Trump assegurando que o hacking russo não existiu e não influenciou as eleições. Mas apesar de não ter existido nenhum hacking russo – Putin disse que não e alguma vez o senhor faltaria à verdade? Trump, a grande custo (vide as tiradas tonitruantes), lá acreditou em Putin – Trump e Putin resolveram criar não sei o quê de cibersegurança (pelo meio vai o reconhecimento de que os States não conseguem garantir a sua segurança sozinhos, pelo que se aliam aos que mais põem em perigo essa segurança; é tudo muito lógico, se virem bem depois de beberem uns dez gins tónicos) para prevenir que não volte a acontecer aquilo que nunca aconteceu – o hacking russo nas eleições americanas. De caminho, negociou-se um cessar fogo que mesmo que se efetue não cessará quase fogo nenhum. Uma vitória diplomática americana, portanto. Só ensombrada por outra, a daquele acordo de comércio (cof) com a China, verdadeiramente groungbreaking, em que um país vendia carne ao outro e, em compensação, recebe os seus cartões de crédito. O mundo não será igual depois de um entendimento desta dimensão entre os Estados Unidos e esta potência. Em Hamburgo, Trump não só concedeu tudo que tinha para conceder a Putin, sem nada de retorno, como o elevou à categoria de par do POTUS. O que, em boa verdade, neste momento é.

2. Merkel – com o seu rolar de olhos com Putin e o scolding a Trump por causa dos acordos de Paris – mostra como é, atualmente, A Líder do mundo ocidental, sem reverência por quem não merece reverência, e sem problemas em constatar publicamente que aquilo que a Europa, no seu melhor, é, está muito acima de produtos políticos como Trump ou Putin.

3. O estado da administração Trump vê-se por termos uma Ivanka a substituir o pai nas mesas dos líderes quando este estava ocupado. Ivanka não percebe nada do que se passa naquelas mesas (ok, não é muito diferente do seu pai, mas este foi eleito), e pelo menos teve o bom senso de ficar calada todo o tempo e não se embaraçar. Mas das duas, uma. Ou Ivanka pediu muito ao pai para ir ela para a mesa, apesar de nada saber do que lá é dito, e o pai disse que sim, da mesma maneira que os pais deixam os filhos criança sentarem-se nas suas secretárias nos seus escritórios para brincarem aos donos ou diretores de empresas – o que, enfim, mostra que Trump devia ter ficado com o seu robe no seu quarto da Casa Branca a tuitar em vez de ir à cimeira. Ou, em alternativa, Trump não confia em absolutamente ninguém da sua administração e teve de mandar a filha, em quem confia absolutamente apesar de não perceber nada, para espiar o que se passa na sua ausência e, quem sabe, impedir que fosse gozado pelos seus pares nas suas costas.

Os mortos são um pormenor

O meu texto desta semana no Observador.

‘1. Em 1958, Mao Zedong lançou o Grande Salto em Frente. Alucinadas políticas agrícolas, industriais e de obras públicas, de conceção inteiramente humana, resultaram, segundo o académico Frank Dikötter, em pelo menos 45 milhões de mortos. Qual foi a desculpa oficial apresentada pelas autoridades chinesas para a fome e os mortos? Ora: houve uma sucessão de calamidades naturais que resultaram em colheitas minúsculas. Este tempo ficou conhecido como os ‘três anos de desastres naturais’.

Francisco da Silva Costa, Miguel Cardina e António Avelino Batista Vieira, em ‘As inundações de 1967 na região de Lisboa, Uma catástrofe com diferentes leituras’, sobre a tragédia das ditas cheias, verificaram que a imprensa amiga do regime focava as notícias no sentimento de fatalidade, no impacto das causas naturais e na generosidade geral que se seguiu. (Reconhecem?)

É próprio de ditaduras culpar desastres naturais por mortes evitáveis. Há que impedir contestação e protestos por incompetências e negligências dos queridos líderes. É neste quadro que devemos ler os argumentos dos jornalistas engajados que nos querem convencer que nada há a fazer porque a floresta arde, o aquecimento global está aí – e fica tudo dito.

É neste contexto também que enquadramos a história tão prontamente cozinhada por todas as autoridades, a do desastre natural incontrolável e das condições climatéricas atípicas (alguma vez se viu neste polo norte onde vivemos altas temperaturas e baixa humidade?). Uma situação imprevisível (a geringonça tinha dado ordem ao clima para só se fazer notar a partir de 1 de julho, e ninguém está a reprovar devidamente esta irreverência climática). Num país onde nada se descobre, em poucas horas encontrou-se a maldosa da árvore que recebeu o raio e matou toda a gente. A culpa é da árvore, do raio e, se há culpa humana, é da aleivosa criatura que ali a plantou há algumas décadas. Ao jornalista Sebastião Bugalho, do i, a gente da zona contou que a trovoada seca ocorreu depois do fogo deflagrar. Devem ter inalado fumo de alguma plantação ilegal de marijuana que ardeu.

2. Foi bom ver as gelatinas que nos governam. Num momento em que precisávamos de gente de cabeça fria e decisão certeira, a pessoa do Palácio de Belém e o secretário de estado deixaram-se fotografar, na noite do desastre, emocionados, abraçados, como se a desabar. A ministra Urbano de Sousa teve a falta de noção de falar dos seus estados emocionais numa entrevista televisiva. O primeiro-ministro, em vez de se mostrar ao comando, tuitou-se a abraçar uma senhora.

Indecorosa utilização das emoções. Quando necessitávamos de confiar que nos protegiam, apresentaram-se como se lhes devêssemos dar um lenço para assoar as lágrimas.’

O resto está aqui.

Reles é não fazer perguntas e não apontar responsabilidades só porque o governo é socialista

Enquanto os indícios de negligência se amontoam – na reação ao fogo do fim de semana (as autoridades mandaram pessoas para a estrada onde acabaram por quase morrer, bombeiros não foram enviados a tempo,…) e na prevenção (nem sei por onde começar; é ler por exemplo isto e isto; ou questionar onde se escolheu gastar dinheiro, nos últimos anos, tanto na administração central como nas autarquias) – e que perguntas curiosas estão sem resposta – porque houve informação tardia? porque não há no IPMA registo de trovoada seca naquela zona? -, simultaneamente avançam os esforços de branqueamento político antecipado do governo e do PS na responsabilidade política da catástrofe.

A narrativa parece ser ‘é obsceno para a memória das vítimas estar-se a fazer política com as mortes’. Ora vão dar uma volta ao inferno, para não dizer pior. Os governantes e políticos eleitos e jornalistas não perderam ninguém no fogo, pelo que mantêm as capacidades – e a obrigação – de não se fingirem paralisados com tanta dor. Já vários apontaram as diferenças com a tragédia também pelo fogo da torre de apartamentos de Londres. Não passou pela cabeça de ninguém em Inglaterra pedir para não colocarem os conservadores (centrais e da autarquia daquela zona de Kensington) no hot spot de quem tem respostas a dar para não desonrar a memória das vítimas. Na Alemanha, depois do atentado de Natal, imediatamente Angela Merkel foi criticada pela sua política de refugiados. Ingleses e alemães são uns papalvos que não sabem viver em democracia. Por cá temos todos de ficar bem caladinhos, com as luminárias putrefactas do regime a verterem moralismos sobre quem quer responsabilidades apuradas. Entendamo-nos: o que esta gente ruim pretende é agora impor o silêncio sobre responsabilidades socialistas, instituir a ridícula responsabilidade única da natureza e, mais tarde, fazer uma comissão de inquérito de fantochada, como a CGD, para branquear oficialmente a sua área política. E isto, sim, é que é gargalhar sobre as mortes ocorridas.

Lamento, não participo nisto. Morrerram 60 pessoas. Temos um governo em funções, quase a meio do mandato. O ministro da agricultura atual foi também o ministro da agricultura de sócrates, pelo que sacudir responsabilidades é inútil. E como esta questão de prevenção de incêndios não é conjuntural de uma legislatura, vale a pena lembrar que, nos últimos 22 anos, o PS governou 16 deles.

Lamento, mas o maior responsável pela tremenda negligência que matou este fim de semana 60 pessoas é tão ostensivamente evidente como um elefante no meio de uma sala. Os pormenores do que correu mal poderão – se tivermos muita sorte desta vez – virem a ser escalpelizados, e o Ministério Público verá se algum crime ocorreu. Mas a responsabilidade política, meus caros, neste caso não pode ser posta debaixo do tapete em nome de um hipócrita respeito pelas vítimas e um real branqueamento do PS. É criminoso branquear isso só porque se trata do partido amiguinho. Os familiares dos que morreram, e os mortos, merecem exatamente o contrário: intransigência em não deixar fugir quem permanentemente olhou para o lado. Ah, e quanto mais se esforçam por calar exigências de responsabilidades, mais ideia dão de que muito têm a temer.

Sobre a tragédia do fogo de Pedrogão Grande

Uns apontamentos iniciais. Porque se é certo que temos clima propenso a fogos florestais, e que as condições climatéricas ‘atípicas’ que não raro resultam em incêndios, de altas temperaturas e baixa humidade, são muito típicas por cá, nada nesta propensão para e regularidade de condições ‘atípicas’ nos deve levar a pensar que nada há a fazer e que o melhor é sofrermos os fogos estoicamente, que fazem parte da sorte que nos calhou.

1. Muitas pessoas morreram encurraladas pelas chamas em estradas. O incêndio foi muito rápido, sim, senhores. Mas este é o momento para nos congratularmos por termos governantes que gastaram tanto dinheiro na caça às multas, com radares por todo o lado, não vão os meliantes que guiam a 60km/hora escapar, quando somos um país com propensão para fogos, com estradas e até autoestradas no meio de arvoredos suscetíveis de arderem no verão. Ainda bem que nunca se desviou dinheiro da caça às multas para coisas úteis como painéis eletrónicos nas estradas das zonas com floresta, de forma que, havendo sinalização de um fogo, imediatamente quem passa nas estradas num raio de uns bons quilómetros fique avisado do que se passa e possa inverter marcha ou alterar o caminho. Ainda bem que o dinheiro é usado onde serve melhor as populações.

2. A criatura de Belém. Não sei bem como pensa Marcelo Rebelo de Sousa, que apareceu a correr, que os seus bonitos olhos ajudam os bombeiros nos momentos em que está tudo em alvoroço – parece-me que só cria distrações ao trabalho que já precisa de concentração e decisões rápidas, e complicações de segurança – mas pior que isso é a declaração de MRS, em cima do acontecimento, de que tudo o que podia ser feito foi feito. Tal falta de respeito e de responsabilidade nunca se viu. Provavelmente este fogo seria sempre calamitoso, mas como pode a criatura de Belém garantir que não se poderia ter dado melhor resposta? Que as estradas não pudessem ter sido cortadas de imediato? Não sabiam que a temperatura iria estar em níveis estratosféricos e por isso com tendência para incêndios bravos? Não dá para ter a proteção civil preparada nestas típicas condições atmosféricas ‘atípicas’? Tanto mais que a austeridade já terminou, e agora há dinheiro para tudo, e estamos todos pacificados e amiguinhos, como assegura Marcelo.

Um presidente da república (nem merece maiúsculas) a branquear antecipadamente o necessário apuramento de responsabilidades numa tragédia com mais de 60 mortos é de fazer de corar de vergonha defuntos enterrados há dez anos. Tanto mais que há indícios que, se não há reparos (pelo contrário) aos bombeiros que estão no terreno, já a proteção civil e toda a organização que envia os bombeiros aparenta ter respondido tarde – mesmo tendo em conta que seria sempre impossível conter este fogo sem danos de maior.

Lindas histórias de amizade e de amor familiar

O meu texto desta semana no Observador.

‘Nenhum bom pai ou mãe de família resiste a uma eloquente história de amizade. Sabem quem retratou bem amizades? Hergé, com a amizade entre Tintin e o Capitão Haddock ou o jovem chinês Tchang. Para os amigos do mundo animal podemos também incluir Milou, que prescinde uma vez ou outra de roer uns saborosos ossos para ajudar Tintin.

Aprecio igualmente exemplos de dedicação à família. Trago à colação, por exemplo, Lord Arthur Saville, criação de Oscar Wilde, que por amor à sua futura mulher cometeu o crime que lhe cabia antes de casar. Considerava indigno e uma desconsideração pela sua prometida senhora entrar no estado de casamento com afazeres pendentes de natureza questionável.

É por ter tal enlevo por estas histórias de afetos que fiquei tão enternecida com o que se passou por estes dias para os lados dos amigos e familiares do PS. Ah, o gosto de termos gente a governar-nos que trata tão amorosamente de amigos e família.

Vejamos os Best Friends Forever António Costa e Lacerda Machado. Esse, o feliz contemplado com a nomeação para a administração da TAP, aquele negócio que o dito BFF do primeiro-ministro ajudou – tão generosa e desinteressadamente, fez tudo para o bem do país sem esperar nenhuma recompensa (pecuniária) – a trazer de novo para as garras do Estado. Ora sobre este pestilento assunto há alguns pontos a referir.

Um. Veem para que servem as empresas públicas? Os políticos podem aventar as tretas que se lembrarem, inventar benefícios para os consumidores, aludir falsamente a um qualquer interesse nacional (sei lá, como os balcões da CGD que vão fechar pelo motivo mais comum nas empresas privadas, o lucro, ou os voos que a TAP já não faz para o Porto). A verdade é mais prosaica: os políticos defendem a existência de empresas públicas porque querem ter nelas a possibilidade de colocar amigos recebendo simpáticos ordenados ou, ocasionalmente, emprateleirar inimigos. E enquanto existirem empresas públicas essa será a sua serventia. Clamar contra nomeações de amigos (pessoais ou políticos) ao mesmo tempo que se declara paixão ao setor empresarial do Estado é diletantismo de amantes de unicórnios ou hipocrisia de mal-intencionados. A única solução para impedir estas promiscuidades amistosas é não dar oportunidades. Que é como quem diz: privatizar as empresas públicas.’

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Turismo: do passado inventado às insuportáveis peneiras

O meu texto de hoje no Observador.

‘Continuando-se a discutir esses horripilantes alojamentos locais e arrendamentos de curta duração – por oposição ao passado glorioso, tranquilo, pacífico, de amor generalizado entre os vizinhos que se vivia antes das enchentes de turistas – resolvi fazer serviço público. Vou contar a minha experiência de vida numa zona histórica.

De 2001 a 2008 morei numa das encostas históricas de Lisboa, num apartamento que reabilitei. Foi antes de os habitantes das zonas históricas de Lisboa serem ‘expulsos’ pelos turistas e pelas rendas caras que os senhorios agora conseguem obter (aproveito para explicar devagarinho: se os senhorios não conseguirem cobrar rendas ditas ‘caras’ pelas casas, também não vão gastar o seu dinheiro reabilitando-as). Curiosamente, estas pobres pessoas que foram ‘expulsas’ já não moravam nas zonas históricas naqueles anos, apesar das rendas mais baixas. Não sei o que os impedia de lá residirem. Certamente estavam todos a trabalhar como voluntários nos campos de refugiados no sul do Sudão. Ou, em alternativa, fazendo viagens de autoconhecimento como backpackers na Índia, descobrindo, entre outras coisas, a reação da pele à falta de banho durante três meses.

Adiante. Descrevo alguns dos meus vizinhos. Tudo gente com arrendamentos permanentes. Já na altura eram bastante internacionais. Por baixo de mim morava um casal de franceses. Tinham o costume de à uma da manhã começarem a ouvir música (se é que se pode aplicar o termo àquela mescla de gritos que se imaginaria virem de uma sala de interrogatórios de Guantanamo, de rugidos dos animais mais ferozes da natureza e de rock alternativo). O prédio é antigo, a insonorização entre pisos é irrisória, o volume da música era suficiente para impedir qualquer sono. Com regularidade discutiam como se se pretendessem assassinar. Os berros franceses eram acompanhados de sons que sempre concluí tratarem-se de destruição de mobília. Ah: a paz e tranquilidade que a ausência de turistas permite.’

O resto está aqui.

Teresa Anjinho: da escala de prioridades ignóbil à chico-espertice

Quarta-feira, Conferências do Estoril. Teresa Anjinho faz uma intervenção sobre acolhimento de refugiados, ficando pela parte mais moral e humanitária – e eu apreciei-a. Mas as coisas descarrilam quando começam as perguntas da audiência. Alguém pergunta sobre acolhimento de refugiados nos países europeus e Teresa Anjinho diz coisas lindas. Por exemplo, que ‘integração não é assimilação’, não podemos exigir que os refugiados abandonem os seus valores; mais: ‘a integração funciona nos dois sentidos’, os refugiados têm de nos respeitar mas nós temos também de respeitar a sua cultura. Portanto, já sabem, para Teresa Anjinho, política do CDS (???), nada daquela boa ideia de aceitarmos na Europa refugiados (ou qualquer tipo de imigrante, de resto) em troca do compromisso de adotarem os nossos valores e o nosso modo de vida. Nada disso: a tónica de toda a resposta de Teresa Anjinho foi da necessidade de nós, europeus, aceitarmos nos nossos países uma cultura alheia (e tantas vezes antagónica, digo eu), assim uma espécie de vida paralela, uma Europa islâmica ao lado de uma Europa de raízes judaico-cristãs.

Quando questionada por José Rodrigues dos Santos (o moderador) sobre uma declaração que na Alemanha obrigariam os refugiados que querem ficar a assinar, dizendo que sabiam que não podiam matar a sua mulher em caso de esta cometer adultério – algo que qualquer pessoa minimamente informada percebe que se trata de uma maneira de informar que na Europa não se permitem crimes de honra, algo que na minha opinião é muito necessário (tal como as famosas aulas na sequência de Colónia para explicar aos refugiados que as mulheres europeias não estão disponíveis para terem sexo com eles só porque estão de minissaia ou lhes dirigem a palavra) e se for feito com pouca subtileza, i really don’t care porque valores mais altos (preservar vidas de mulheres islâmicas) se levantam – Teresa Anjinho repudiou enfaticamente (repito: repudiou enfaticamente) tal processo alemão, que era um tremendo desrespeito para a cultura islâmica (!!!!).

Bom, claramente para Teresa Anjinho a hierarquia de valores a defender é a seguinte: poupar as sensibilidades ultra-machistas islâmicas (coitadinhos deles, não se lhes pode dizer que não podem matar as mulheres) e só depois, sabe-se lá quando, dar a informação de que na Europa os costumes bárbaros comuns nos países islâmicos (só um ignorante que nunca leu jornais não o sabe) não são permitidos por cá – isto, claro, como primeiro passo para evitar os tais crimes de honra.

É isto defender coisas ignóbeis? É, sim, senhores. Inaceitável vindo de alguém que se diz de direita? Sem dúvida. Talvez por isso agora Teresa Anjinho – com chico-espertice desonesta – venha levantar poeira por eu ter mostrado a minha repugnância pelo que defendeu publicamente. Fiz um post (moderadíssimo) no facebook dando conta de como as pessoas passam tão facilmente para a apologia da manutenção dos valores dos outros em vez da exigência de respeito pelos nossos valores. Parece que Teresa Anjinho viu. E além de outras formas de comunicação, também objetáveis, comigo (que qualquer político devia perceber que são inaceitáveis), apesar de saber o que me tinha motivado a tal observação – estava na resposta a uma pergunta que a deputada do CDS Ana Rita Bessa me havia feito no post que Anjinho leu -, fez um post sonso onde aparecia outra resposta minha, mas omitiu para o seu clube de fãs a minha explicação. Tudo para se lamentar e refazer verdades. Diz até, insidiosamente, que palavras minhas de um comentário em resposta a uma amiga eram palavras que eu lhe atribuía. (Isto, claro, além de mostrar no print screen quem fez comentários no meu post, e likes, o que é de uma deselegância tremenda para pessoas que não têm nada a ver com a questão nem têm de levar com os achaques de Teresa Anjinho.)

Não sei o que pensa Teresa Anjinho – e, neste momento, não me interessa; acho que é o tipo de pessoa que não aguenta escrutínio, tem modos questionáveis, muda de ideias conforme as audiências, não é inteligente a ponto de perceber que deve deixar morrer assuntos em que não tem razão e em que faz acusações desagradáveis e infundadas, e, por tudo isto, é bom que esteja afastada da condução da governação. Talvez estivesse a dizer o que achou necessário para ter mais palmas da audiência. Talvez estivesse a mostrar a JRS que é uma pessoa que diz coisas redondinhas e bonitinhas e, por isso, pode ir à RTP. Não sei. O que sei é que é vergonhoso termos políticos de direita a defender publicamente o que acima descrevi. O que tem mais piada é que a senhora se diz feminista e eu até já a tinha elogiado publicamente por isso mesmo. Em todo o caso, aqui fica a descrição do que se passou, porque gosto muito pouco que publicamente me acusem de falsificar quando comento o que de facto ocorreu.

Claro que Teresa Anjinho e seus seguidores podem considerar que tudo o que a senhora defendeu está muito certo. Não podem, no entanto, ao mesmo tempo reclamar que têm o estancar crimes dos muçulmanos (da Europa) contra mulheres como prioridade, nem que defendem a necessidade de adaptação dos que para cá vêm viver. E isso, agentes políticas pouco consistentes gostem e entendam ou não, é e deve ser objeto de crítica.

Mandar na propriedade dos outros

O meu texto de hoje no Observador.

‘Percebo: somos um país de invejosos do sucesso e do dinheiro alheios; e o PS achou por bem capitalizar eleitoralmente esta infeliz característica. Também percebo: somos um país com pouco apreço por esse direito fundamental, o direito à propriedade privada. Que inclui, claro, o mais amplo uso dessa propriedade para os fins legais que o proprietário entende.

A terraplanagem socialista quer ganhar votos com as pessoas que ficam com ataques de nervos por não conseguirem arrendar casas nas zonas históricas das cidades, mormente Lisboa. Porque, meus amigos, toda a gente sabe que é um direito inalienável arrendar casas nos centros históricos. Mais ou menos como aquele por que a JS clamava em 2009: o direito ao TGV. Coitadas das pessoas. Há três anos nunca quereriam ir morar para os centros históricos, no tempo daquele passado glorioso: o dos inquilinos que pagavam escassas dezenas de euros a cada mês por uma casa onde cabia uma família média. Com estas boas rendas, os prédios apresentavam-se de tinta descascada e janelas apodrecidas. E não incomodava gente cool que também não existissem casas para arrendar, porque estavam ocupadas pelos contratos de há cinquenta anos a setenta euros por mês.

Mas por estes dias entendem que alguém tem a obrigação de lhes arrendar casa – com renda acessível se faz favor, que não queremos cá usuras. Estas pessoas estão generosamente dispostas a ocupar as casas que outros recuperaram (com expetativa de outro negócio), em troca de renda parca, tudo para livrar os proprietários do pecado da ganância. São uns beneméritos, no fundo.

É o persistente problema do PS e seus satélites: percebem muito de lirismo e pouco de racionalidade económica. Julgam sempre que, se exterminarem um negócio, por artes mágicas a oferta antes da destruição se manterá depois. Não vislumbram, nem com desenho, que se impedirem (via obstrução dos condomínios) o arrendamento local, as casas atualmente disponíveis para esta atividade não vão assim continuar para arrendamento permanente; nem surgir novas. Estes proprietários irão aplicar o dinheiro noutro lado.’

O resto está aqui.

Para as pessoas que pensam que a Igreja era a melhor amiga do capitalismo até chegar o mauzão encarnado do Francisco

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Como anda por aí gente muito desmemoriada – e, pelo que leio nas tedes sociais, afogados em fel e azedume de cada vez que lhes referem o Papa Francisco – venho aqui fazer serviço público lembrando algumas coisas dos antecessores de Francisco. Porque há quem, de tantas proclamações de amor a Bento XVI, pareça os socráticos queixando-se da agressividade do processo de ajustamento e fazendo por esquecer a situação herdada pela coligação que a resolveu.

João Paulo II. O senhor que mais parecia papa de uma religião mariana, em vez de uma religião cristã. Que se fartou de escrever contra o capitalismo selvagem. Ah, e que lá por ter trabalhado para desmantelar o comunismo soviético na Europa não hesitou em ser um grande fator de reabilitação de Fidel Castro, que recebeu um muito cordial João Paulo II em Cuba (espero não provocar desmaios em ninguém). E muito bem, que não cabe à Igreja boicotar regimes políticos; há católicos em Cuba e de um Papa espera-se que procure dar conforto espiritual aos crentes, que os guie, não que dê lições de ciência política ou de economia.

E Bento XVI? Bem, não disse tanto mal do capitalismo (um bocadinho menos) porque dizia pouco de quase tudo (preferia estar no meio dos seus livros). Atenção, eu gosto de Bento XVI. Aprecia de discussões intelectuais, tem sentido estético apurado, partilha comigo o gosto por sapatos Prada, e claramente esforçava-se por desfazer a sua imagem de rottweiler de João Paulo II. Gosto de Bento XVI sobretudo porque teve a coragem e a dignidade de reconhecer que era escancaradamente desadequado para a função para que foi eleito. Odiava a evangelização – que é, desde Jesus e São Paulo, uma vocação inalianável da tal Igreja universal – e era com evidente sacrifício e timidez que viajava e contactava com as multidões. Foi incapaz – não com cumplicidade ou maldade, mas com negligência – de lidar com os escandândalos dos padres abusadores sexuais. Reconhecidamente não conseguiu parar as máfias do Vaticano. A Igreja estava a tornar-se um ambiente onde a bufaria era um modo de vida,  bem como as vinganças e os ressentimentos pessoais. Acima de tudo, queria tornar a Igreja um grupinho pequeno e manejável, sem caridade ou misericórdia, de gente muito intelectualizada e cumpridora de intermináveis regras que a diferenciasse da populaça entregue aos instintos. Em vez de opção preferencial pelos pobres, havia a obsessão com a moral sexual.

Lamento, mas quem quiser fazer parte de uma coisa destas deve fundar um grupo de gnósticos. A Igreja nunca foi isto e nunca será. Quanto aos ateus e agnósticos adoradores de Bento XVI e que se sentem agredidos por Francisco, acho-os mesmo ridículos. Parecem a Câncio e derivados a botar julgamento em realidades que não compreendem.

Desta vez podemos fazer o perfil sociológico dos eleitores?

Ouvi há pouco na RTP3 um jornalista francês dizer qualquer coisa como ‘em França, para estas eleições, diz-me quanto ganhas e onde vives e digo-te como votas’. Quem ganhava mais de 3000€, votava Macron, quem ganhava menos de 1500€, votava Le Pen, quem tinha o secundário ou menos escolhia também Le Pen e por aí adiante. O Observador tem aqui mais umas pistas para os eleitotes de cada candidato.

Estão, claro, todos errados em insistirem nisto. Como se sabe, desde a vitória de Trump e do Brexit, é um grande pecado dizer quem vota nos isolacionismos, nos protecionismos e nos candidatos de tendências autoritárias. Quem referia que grupos eleitorais votavam nestes vencedores era uma pessoa ressabiada, que não percebia os grandes movimentos da história, na verdade que não aceitava os resultados das eleições (quase como ir buscar tanques para participar em golpes contra os resultados eleitorais). Claro que não se podia dizer que os eleitores de Trump eram maioritariamente rurais, nunca tinham saído dos States, menos escolarizados e que o único grupo de mulheres que votou em Trump foram as mulheres brancas sem frequência universitária. Afirmar que os broncos votaram num claríssimo bronco laranja (e a sua prestação presidencial inicial não deixa dúvidas sobre a sua magnitude de bronco) era não ter percebido NADA (como se fosse difícil perceber por que ganhou Trump). De igual modo, é crime de lesa qualquer coisa referir quem votou Leave no ano passado no UK. Nada de dizer que foram os eleitores mais velhos a imporem uma decisão que vai sobretudo afetar os mais novos, que não queriam sair. Ou os blue collar. Não pode ser. Temos todos de fingir que são os que frequentam em abundância a Metropolitan Opera e o Carnegie Hall e o moderníssimo Royal National Theatre que votaram Trump e Leave.

Espero que agora, como foi uma mulher, se possa dizer que os simplórios (e não faltarão epítetos) é que votaram na gaja extremista. Pelo menos para isso as eleições francesas devem ter servido: já voltámos a poder fazer análise sociológica eleitoral.

Não tenho culpa da escravatura. E não pago.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Bom, por Portugal pastoreia-se agora um tema tão pertinente quanto os anteriores. Tome conhecimento o leitor que precisa de dedicar amplo tempo do seu dia à problemática da escravatura. Escravatura? – pergunta o leitor espantado. E cogita com os seus botões que nunca viu um escravo, nunca possuiu um escravo, indigna-se quando lê reportagens denunciando escravatura no século XXI em zonas de África ou da Ásia ou ligada ao tráfico sexual aqui na Europa. Que diabo esperam mais do leitor desprevenido?!

Aparentemente é nossa urgente obrigação – mais de dois séculos depois da abolição da escravatura em território português e de um século depois da abolição em todo o império português – debater as culpas de Portugal na história da escravatura e do comércio de escravos. Na verdade, lendo certos textos, desconfio que se espera de nós que qualquer boa mãe e bom pai de família se entreguem à penitência, batendo com contrição no peito enquanto envergamos uma canga, por, há vários séculos, um ou outro dos nossos antepassados possuírem ou comercializaram escravos. Mais: há até quem questione se nós – contribuintes que nunca escravizámos ninguém – deveríamos pagar indemnizações aos descendentes dos escravos. (Este debate é tanto mais importante quanto não há uma vítima viva do comércio de escravos português.)’

O texto completo está aqui.

O socialismo de Cristas strikes again

Mas as pessoas do CDS enlouqueceram?! Fiquei boquiaberta com esta notícia. Agora quer o CDS como bandeira o valor do trabalho – quando devia preocupar-se com condições para aliviar as empresas de custos desnecessários, inúteis, consumidores de recursos e, lá está, inimigos da produtividade e da acumulação de capital, que é o que melhora salários e condições de trabalho?! Terão noção que só perdem votos à direita com esta converseta e não ganham um único voto à esquerda? Farão ideia do que é o eleitorado preferencial de um partido de direita?!

E a ideia da sabática é do mais ridículo e diletante que já li. Devem supor que todos os trabalhadores são gente com possibilidades de ir fazer um mestrado ou uma pós graduação para enriquecer o CV. Quando, na verdade, para a maioria dos trabalhadores – pouco escolarizados e muito indiferenciados – parar de trabalhar por algum tempo é suicidário, sobretudo depois dos quarenta anos. De resto se o CDS se preocupa com os trabalhadores, devia informá-los como prejudica uma futura contratação alguém ter estado todo o tempo do subsídio de desemprego sem trabalhar, nunca incentivá-los a parar por seis meses para um tempinho de enriquecimento pessoal ou – delírio completo ( o país está cheio de gente capaz de se sustentar seis meses sem trabalhar) – lazer. Só falta darem o passo seguinte e proporem que este tempo agradável seja pago pelos contribuintes.

Enfim, Assunção Cristas sempre se gabou de ser pouco de direita e pouco ideológica, mas isto é abuso.

As coincidências do circunspecto Porfírio

Por um tuit do Miguel Noronha descobri que Porfírio Silva me dedicou na quinta feira passada alguma atenção por causa do meu texto dessa semana no Observador. Quer dizer, Porfírio garante não me prestar atenção nenhuma (é uma pessoa muito importante e com o tempo inteiramente preenchido de afazeres daqueles life changing para 73,8% da população mundial, como se verá), mas é obrigado a isso involuntariamente quando pessoas más das suas redes sociais lhe ferem os sombrios olhos (porque carregados com a missão de salvas o mundo através do socialismo da geringonça, e isso é tarefa que ensombra tudo, como se sabe) com a exibição dos meus malévolos escritos. E assim Porfírio lá tem, contra a sua vontade, de me acusar – num texto em que basicamente elenco posições de apoiantes da geringonça sobre Hollande e Venezuela – de ser intelectualmente desonesta, se não mesmo desonesta e ponto final. Porque sou eu desonesta? Inventei alguma posição ou citação? Porfírio, esse espírito arguto que acusa de desonestidade quem descreve corretamente posições alheias, não explica.

Mas sabem o que tem mais piada? Nem é o facto de Porfírio – esse grande ideólogo da geringonça, e uma das pessoas reles que acusou claramente Passos Coelho de usar o cancro da sua mulher para benefício eleitoral – me dar afinal tanta atenção que um dia, não faço ideia quando, porventura depois de eu ter mostrado as suas ideias no Observador, ou lá referido o soez ataque a Passos Coelho, me ter procurado no twitter (porque eu não interagi com ele e nem o seguia) e me ter bloqueado. Afinal Porfírio bloqueia muita gente, todos aqueles que não lhe reconhecem a superioridade ideológica e a genialidade, não devemos valorizar.

Não, o que tem mais piada foi o ataque de Porfírio à minha querida pessoa (porque a desonesta era eu, não o meu texto) ter vindo na quinta-feira, depois da yours truly, na quarta-feira à noite anterior, na assembleia de freguesia a que pertenço, ter dado Porfírio Silva (que não me liga nenhuma) como exemplo de eleito pelo PS que, apesar de deputado à AR, bloqueia quem o escrutina. Mas estou certa que se tratou apenas de uma coincidência, que no PS não se entregam à coscuvilhice do que se passa na assembleia da minha freguesia e que Porfírio não é assim tão thin skinned, uma espécie de Trump em versão filósofo, que não percebe que a sua posição o obriga a estar acima de certas coisas e das respostas pavlovianas. De resto, se não fosse coincidência e fosse mesmo uma resposta, no seu facebook Porfírio provavelmente teria incluído também uma ameaça de bofetadas, qual Ascenso Simões e João Soares, que parece ser a reação por defeito dos socialistas a tudo.

Quanto às acusações que me faz, já se percebeu, aquando do caso de Laura, mulher de Passos Coelho, que Porfírio acusa os outros daquilo que ele próprio é e do que é capaz.

Viagem pela memória: Chavez e Hollande esperanças do socialismo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Recordemos ainda o affair venezuelano. Neste caso, em boa verdade, a tentativa de assobiar para o lado vem só de PS e BE. O PCP, mais genuíno, continua a defender o regime chavista da Venezuela. Mesmo depois das manifestações massivas, das mortes dos manifestantes, das cargas policiais sobre quem protesta, dos inúmeros atropelos à liberdade e à democracia, da supressão de opositores, da fome e da pobreza a alastrar apesar das reservas petrolíferas, das filas para os supermercados onde escasseiam os bens básicos, da nacionalização das padarias. João Ferreira – o candidato à Câmara de Lisboa pelo PCP – fez a 6 de abril uma intervenção no Parlamento Europeu defendendo os ‘factos reais’ da maravilhosa situação na Venezuela. Que, de resto, só vive sobressaltos graças à ‘ingerência’ dos vilões imperialistas. (E verbalizam tudo isto sem a ajuda de estupefacientes.)

Mas se PS e BE fingem que nunca se cruzaram com o regime chavista, avive-se a memória. O reincidente Soares, criticando Maduro, elogiou Chavez. Depois, note-se, de Chavez abrir caminho para o estrondoso Maduro, que Soares criticava, e patrocinar referendos manhosos para manutenção do crescente poder presidencial, ou encerrar compulsivamente, em várias levas, rádios e televisões privadas pouco obedientes. Bom, calar órgãos de comunicação social hostis é o sonho de qualquer socialista português. Talvez também por isto Sócrates decretou Chavez um ‘amigo de Portugal’. Em 2016 – repito, em 2016, quando o regime chavista já tinha descambado na catástrofe ditatorial e produtora de miséria – a câmara socialista da Amadora teve a falta de vergonha de inaugurar uma Praça Hugo Chavez. Diz-me quem celebras, dir-te-ei quem és.

E o Bloco? É amigo de coração do regime chavista desde sempre. Lembro-me de ver Louçã (aqui em mais um elogio) na televisão declarando que a vitória de Chavez, em referendo, significava a vitória do socialismo e da população mais pobre. A queda dos preços do petróleo é que minou o sucesso venezuelano – há sempre uma desculpa, não é? Também defendem, quase sem tirar nem por, as políticas económicas que cozinharam a calamidade venezuelana.’

O texto completo está aqui.

Sim, a noite eleitoral de ontem foi positiva

Podem quanto quiserem lembrar que Macron pode ter dificuldades a eleger deputados, sendo que não tem partido. E que houve 40% de alminhas eleitoras francesas que recusaram a União Europeia (que estes 40% assustem quando vários referendos já se fizeram e perderam sobre questões europeias, sem que tenha havido levantamento para abandonar a UE, já acho que é alguma tendência para o susto). Podem aventar todos os cuidados. Que, mesmo assim, a maior votação de Macron, e a sua provável eleição, é uma boa notícia: Macron provou que o anti establishment – que ganhou a noite eleitoral francesa, depois de ganhar outros lados – não tem de estar capturado por maluquinhos da estirpe de Trump, Melechon, Le Pen, Farage, o inimigo do banho e da higiene pessoal que manda no Podemos, Wilders. E isto, caríssimos, é de grande significado.

Quanto ao resto, sem embarcar em messianismos e vendo as dificuldades, Macron não é um tevolucionário que quer deitar às urtigas o bom da UE – as quatro liberdades, desde logo, a paz europeia, a prosperidade que traz fazermos parte de um espaço maior com trocas intensas de todo o género – para defender projetos pessoais de poder (que não se alcançam sem inventar um demónio). É economicamente sensato. E, cereja no topo do bolo, a criatura laranja – que, tal como os comunistas não consegue conceber que todas as relações dos humanos e das instituições humanas não são um jogo de soma zero, e se esforça por criar uns Estados Unidos fortaleza num mundo de escombros, sem entender (porque mede tudo com o seu ego e precisa de se ver como o líder cimeiro do universo) que uma UE resistente e sólida não é nenhum perigo para os EUA, pelo contrário – apoiou Marine Le Pen (como se um presidente de um aliado tivesse de dar palpites sobre os candidatos franceses). Pelo que também se tratou de os franceses mandarem Trump dar uma volta. Em suma, já vi noites eleitorais bem piores.

(Mais logo digo umas coisas sobre o voto em Marine Le Pen.)

É hoje!

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Catarina patroa, Catarina costureira

O meu texto de ontem no Observador.

‘Por estes dias, qualquer pessoa que esteja familiarizado com o conceito de ‘coluna vertebral’ tem sentido dores nas costas (causadas por curvaturas na coluna demasiado acentuadas e sinuosas) de cada vez que ouve ou lê uma notícia sobre o Bloco de Esquerda. Mais ou menos como quando às vezes no sentimos corar de vergonha pelas más figuras de terceiros, tão más que é impossível não nos carregarmos de embaraço por empatia. A boa notícia é: se está com medo de ter desenvolvido uma hérnia discal, ou uma contratura na cervical, é bem possível que afinal sejam só dores pelos flic-flacs da coluna dos dirigentes do BE.

Não que nos próprios se note mazelas. Aparentemente vivem bem com as colunas com vários nós de marinheiro. E os votantes do BE, segundo nos informam as sondagens, também não são apreciadores em demasia de uma coluna vertical. Aplaudem hipocrisia e contradição. Vamos conferir.

É ver Catarina Martins, que votou favoravelmente em 2016 o orçamento de 2017, queixar-se agora que o orçamento para a cultura é ‘vergonhosamente baixo’. Desengane-se o leitor se por segundos ponderou tratar-se de um ato penitencial à conta da Páscoa que se aproxima. Não, o bom bloquista é estranho aos exames de consciência dos católicos. Catarina Martins estava mesmo a insultar o documento que considerou bom para o país, dando-lhe o seu voto de deputada, como se nada tivesse a ver com tão vergonhoso documento.

Também é divertido (ou doloroso, para as pessoas mais sensíveis aos engulhos na coluna alheia) observar Catarina Martins pedindo limitação dos ordenados dos gestores das empresas privadas. Salvo rapto por extraterrestre e substituição por um clone, é a mesma Catarina Martins que votou contra as tentativas de PSD e CDS para limitação dos ordenados na CGD. Claro que encenaram umas objeções pró-forma, a salvar a sua alegada reputação virginal, mas quando foi necessário ajudaram o PS a impor salários indecorosos para uma empresa pública. (Se a CGD devia ser pública ou não – e não devia – é outra questão. Enquanto for, há que limitar as responsabilidades assumidas em nome dos contribuintes.)’

O resto está aqui.

Incursão da Ordem dos Médicos pela misoginia

O meu texto de ontem no Observador.

‘Tinha pensado esta semana escrever sobre a reação pacóvia de António Costa (perdoem a redundância de ‘pacóvia’ e ‘António Costa’) às declarações do senhor dos caracóis holandês. Mesmo sabendo que Costa não tem um vocabulário numeroso, ainda assim revirei os olhos pelas suas queixas de ‘sexismo’ e ‘racismo’ de Dijsselbloem. Foi o que se lembrou o pobre PM, não soube melhor que inventar para os portugueses uma raça diferenciada e supostamente menor que a raça holandesa. Ou ir para o politicamente correto infantil de afirmar que é um insulto as mulheres serem destinatárias de despesas masculinas – como se alguém, homem ou mulher, gostasse de um significant other sovina, gastando tudo consigo em vez de com as pessoas importantes da sua vida (mulheres lá no meio).

Mas adiante, que vi esta reportagem no fim de semana, sobre a alteração legislativa que permitiu aos pais assistirem às cesarianas nos hospitais públicos, bem como a recente oposição da Ordem dos Médicos. Resolvi, então, concentrar-me num efetivo ataque da Ordem dos Médicos às mulheres, em vez de nos sexismos inventados por Costa e tola esquerda nacional.

Tenho dois filhos e ambos nasceram de cesariana. O primeiro porque não fiz dilatação e o segundo porque passei os últimos dias de gravidez em repouso absoluto, às tantas rompeu-se o saco amniótico e a cesariana, que já havia sido recomendada, foi adiantada. Não tive desgostos pelas cesarianas, confesso. Foram partos cómodos, estive medicada para as dores, tive pós-partos fantásticos e, de resto, escapei de fazer uma episiotomia – que era o que mais me horrorizava em todo o processo. Ainda tentei convencei o médico de que não era precisa, umas semanas antes do parto, mas sem sucesso. Lá está: os médicos não ligam às necessidades e preferências das mães. Somos, evidentemente, umas histéricas (mesmo quando muito lidas e informadas sobre o assunto, como foi o meu caso) e os senhores doutores sabem sempre o que é melhor.

Chegando ao parto por cesariana. Leio que os anestesistas torcem o nariz à presença dos pais no bloco operatório aquando das cesarianas. Ora nas minhas duas cesarianas o pai da criançada claro que esteve presente. No primeiro, na Cruz Vermelha em Lisboa, o anestesista estava tão agoniado e assustado com os perigos desta intrusão que até filmou partes do parto e, no fim, nos ofereceu um cd com os melhores momentos do evento. Não faço ideia já do nome do médico, mas tem em mim uma fã adoradora até ao fim dos tempos. No segundo, noutro privado, não houve filme mas houve a presença do pai. Num país que, no fundo, da direita à esquerda, aprecia muitos os marcadores de diferenciação social, parece que minorar os desconfortos de um parto só deve estar reservado para quem tem dinheiro para pagar hospitais privados ou seguros de saúde – diz a Ordem dos Médicos.’

O resto está aqui.

A presunção de inocência e os prazos no dia da felicidade

O meu texto de ontem no Observador.

‘Vejam por exemplo os disparates que foram ditos e escritos sobre a presunção de inocência de Sócrates. A presunção de inocência é um conceito jurídico que garante que ninguém é condenado sem que existam provas sólidas de um crime cometido. Ponto final. Ora como qualquer pessoa pensante percebe, o que existe e ocorre no mundo, seja criminoso ou não, não é apenas o que é suscetível de ser provado em tribunal – e provado segundo regras que são elas próprias mutáveis e discutíveis, não desceram dos céus como presente intergaláctico de uma qualquer deusa da justiça do mundo greco-romano.

Alguém ser absolvido em tribunal, ou nem sequer ser acusado, não é selo de garantia de que não cometeu nenhum crime: é reconhecimento de que não há indícios suficientemente fortes para levar à privação de liberdade, ao pagamento de multas e indemnizações, à censura pública em forma de condenação. Desde logo porque muitos crimes são difíceis de provar – os criminosos geralmente aproveitam-se da falta de testemunhas e de registos de imagem e som para cometerem os crimes. Só nas séries televisivas como The Closer é que Kyra Sedgwick convence os meliantes a confessarem tudo. Acresce que a justiça é administrada por humanos, limitados, com a tendência para disparatar que todos temos (mesmo quando com boas intenções), e suscetíveis a preconceitos e estados de alma.

Mas do que se lê por aí os argumentos pela presunção de inocência de Sócrates são ainda mais salazarentos que esta constatação de que a justiça humana é falível. Segundo nos dizem, enquanto não houver uma sentença judicial transitada em julgado, devemos permanecer todos intimamente convencidos que Sócrates é inocente como um rebento de jasmim a aromatizar um chá verde. Quando, e se, houver condenação pelos tribunais, passaremos então, no momento em que lermos ou ouvirmos tal ansiada notícia, a acreditar convictamente (por ordem do tribunal) que Sócrates é culpado dos crimes por que for condenado.

É isto: temos gente que tem espaço em jornais e televisões, numa democracia liberal em 2017, a afirmar que os indivíduos não podem ajuizar por si próprios da culpabilidade de um ex primeiro-ministro. As convicções de cada um não podem ser por si determinadas, nada disso, temos de ficar à espera que um tribunal nos diga como devemos considerar, na nossa consciência, Sócrates – inocente ou culpado. Vade retro conceito demoníaco de formar opinião em regime de livre iniciativa. O estado ensina-lhe generosamente em que acreditar.’

O texto completo está aqui.

Portugal, o país onde não podemos escrever livros

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ontem quando escrevia este texto o país estava calmo, mas aposto que hoje existem, pelo menos, três bairros barricados em Lisboa. Nem imagino o atroz sofrimento da esquerda nacional por tão hedionda traição. Caso a PSP não tenha pensado atempadamente (o que é imperdoável e justifica por si só uma chamada da ministra Urbano ao parlamento) em vedar o acesso ao Tejo ao longo de toda a zona ribeirinha lisboeta, que o faça a correr, que eu temo um colapso na vontade de viver dos militantes da esquerda nacional e tentativas de suicídio em massa. Há que evitar um auto genocídio, senhores guardas.

Falo de quê? Bem, caro leitor, olhe à sua volta. Vai sair uma biografia de Jorge Sampaio nos anos da sua presidência, com colaboração do ex Presidente. Estou certa que as muito numerosas alminhas sensíveis que gritaram pela falta de elegância de Cavaco Silva por escrever as suas memórias do seu tempo de coabitação com Sócrates, pelo inimaginável atentado à privacidade (risos abundantes) das conversas entre um PR e um pm, essas alminhas sensíveis, digo eu, que andaram a fazer figuras tristes nas televisões, rádios e jornais, estão em agonias pela traição de Jorge Sampaio. E neste momento ou correm para as zonas ribeirinhas das cidades portuguesas para se desgraçarem ou estão em casa debaixo dos cobertores e encharcados em antidepressivos.

É que, pelo que leio, Jorge Sampaio conta conversas efetivamente privadas, sobre assuntos da sua candidatura, com o líder do partido por que queria ser apoiado. Estou à espera do pior dos paladinos da defesa do direito à privacidade – é como quem diz, dos maluquinhos que argumentam que os contactos entre um ministro e um particular, versando uma empresa pública e a futura relação da empresa com o dito particular, são privados e, como tal, fora do escrutínio democrático dos media e dos representantes dos eleitores. (Não são.)’

O resto está aqui.

É tirar o carro e o motorista a Fernando Medina, sff

Apanhei este vídeo no facebook da Sofia Vala Rocha e, depois de quase engasgar, venho aqui dizer que acho Fernando Medina pouco ambicioso. É muito pouco querer tornar um eixo de Lisboa, que percorre a cidade quase na totalidade de sul a norte, numa avenida de passeios largos (a Av. da Liberdade é a mais çarga da Europa, julgo já ter lido por aí), com esplanadas, lojas fabulosas, hotéis e por aí – e, claro, com tremendas restrições ao trânsito automóvel. Afinal há que tornar Lisboa numa cidade com trânsito ainda mais infernal. Como está ainda se chateia pouco os munícipes.

Que se queira impedir que a Av. da Liberdade seja só um sítio de atravessamento automóvel está muito bem. Que se queixa dividir Lisboa em duas partes inatravessáveis, com o eixo Fontes Pereira de Melo e Av. da República, tipo muro clintonista-trumpista, no meio, já me parece um tanto excessivo. Ou não. Se calhar o melhor mesmo é tornar Lisboa uma cidade pedonal (exceto para os carros dos membros do governo e da CML, claro). Acho que seria um grande sucesso. Sobretudo para reduzir população. Tornar-se-ia uma cidade muito mais fácil de governar e de ganhar eleições, especialmente se se desse umas casas que entretanto vagassem às clientelas socialistas – e a atribuição de casas pela CML, com finalidade de ganhar votantes PS, já é uma política perseguida por todos os socialistas municipais de Lisboa.

Só peço que, enquanto eu continuar a viver em Lisboa, o imaginativo Medina construa uns pequenos cais ao longo da margem do Tejo. Assim, quando eu quiser ir jantar à Bica, é só descer um bocadinho até ao rio e depois apanhar o barco para a secção oriental da cidade. Tipo como se lê de Londres nos livros de Dickens. Tudo pela modernidade.

Mas já não sobra nada entre o politicamente correto histérico e a boçalidade?

O meu texto desta semana no Observador.

‘A culpa primeira pertence à esquerda progressista histérica, que canonizou o politicamente correto como a bitola para se aferir a decência de uma pessoa. Aos que, perante cada dúvida mínima sobre os dogmas esquerdistas, rasgavam as vestes, eriçavam-se-lhes os cabelos e, sobretudo, insultavam. Aos que ficaram roucos de tanto gritar xenofobia, racismo, homofobia, islamofobia, fascismo sempre que encontravam alguém que, estando a milhas do extremismo de direita, cometia o gravíssimo pecado de não coincidir inteiramente no credo progressista.

Um atrevido quer discutir a permissibilidade de os gays darem sangue (mesmo se por desconhecimento técnico)? Bom, há cabelos arrancados, caixas inteiras de ansiolíticos tomadas de uma vez e, acima de tudo, insultos abundantes.

Um pobre infeliz (evidentemente afirmando que a maioria dos muçulmanos são gente pacífica que não sonha com explodir as entranhas dos crentes de outras religiões) constata ligação entre terrorismo e islão, convencido por minudências como muitos clérigos islâmicos usarem os seus púlpitos religiosos para radicalizarem e apoiarem o terrorismo? Ou pelo facto de os terroristas muitas vezes seguirem literalmente o corão, incluindo a parte das escravas sexuais ou a de garantirem que nem todas as cabeças de infiéis estejam ligadas aos corpos em que nasceram? Ultraje. Há choro e ranger de dentes com a indignação. Evidentemente que o islão é uma religião de paz e os terroristas uns apóstatas. Se se quer insultar uma religião, façam o favor de se dirigirem para os facínoras da Igreja católica.

Ah, ainda o islão. É carregar nos insultos aos machistas conservadores, essa escória abjeta que a evolução das espécies não solucionou devidamente (com o extermínio). E, a seguir, defender a burka e o burkini como símbolos da libertação feminina. E fingir que os abusos sexuais na passagem de ano em Colónia não ocorreram e os autores não eram islâmicos. Quem é que liga a uns apalpões valentes a umas louras alemãs? Os imigrantes podem apalpar, só Trump é que não.’

O resto do texto está aqui.

Os ateus-carrapato

O meu texto da semana passada no Observador. Esta semana duplamente pertinente.

‘Nem todos os ateus são carrapatos, claro. A maioria são pessoas normais que vivem a sua vida sem incomodar os outros em excesso. Não fazem da descrença na divindade uma batalha de vida, não escarnecem dos crédulos obscurantistas que têm fé, não esbugalham os olhos transidos de fúria de cada vez que referem a Igreja Católica. São pessoas com quem se pode ter (e frequentemente tem) conversas bem pertinentes sobre espiritualidade e religião. No meu caso (de católica), tenho mais valores e pontos de vista em comum com a maioria dos meus amigos ateus do que com os católicos conservadores fundamentalistas.

Mas há ateus-carrapato, consideravelmente diferentes das pessoas ateias normais minding their own businesses. Caracterizam-se, grosso modo, pelo ódio de morte à religião católica e pela irracionalidade absoluta e agressiva de cada vez que um católico se expressa publicamente – onde estão as purgas nos jornais e nas televisões quando precisamos delas?! Se por acaso quem se expressa publicamente é um padre, o transtorno é tal que ficamos em cuidados se algum destes carrapatos não vai para casa auto mutilar-se. Qualquer dinheiro dos contribuintes que vá parar a uma instituição católica ou de católicos dá-lhes ímpetos de emigrarem – que, infelizmente, não concretizam.

São pessoas suscetíveis. Tal como não conseguem sobreviver com sanidade (e nota-se) sem uma bateria de sessões de psicoterapia de cada vez que ouvem um piropo obsceno na rua, também se ofendem com crimes hediondos como receber desejos de um ‘santo natal’. (Que género de psicopata deseja um ‘santo natal’ a uma pessoa de religião desconhecida?!)’

O resto do texto está aqui.

O diabo está nos planos e nos lapsos informáticos

O meu texto de hoje no Observador.

‘Isto tudo para dizer que não me choca que adolescentes de treze anos leiam Valter Hugo Mãe, com as suas frases polémicas que lemos nos últimos dias. Eu nunca li nada de Valter Hugo Mãe, não adquiri grande vontade, e, sobretudo, tenho demasiados livros que quero mesmo, mesmo ler e que permanecem fielmente à espera da minha atenção na mesa de cabeceira e nas estantes lá de casa. Mas o autor escreveu um post no Facebook bastante consequente sobre este escândalo. E se, como diz, no livro estas frases provocam sofrimento à criança, então são mesmo pedagógicas: mostram que palavras fortes de conteúdo sexual são muitas vezes usadas para magoar. E que isso merece julgamento moral. Por mim, nada contra.

Mas, claro, também não tenho nada contra os pais que objetam a uma ou outra palavra crua nas leituras dos seus filhos. É conveniente começarem já uma petição para banir Gil Vicente da poluição educativa que se oferece às crianças, bem como a referência, quando se fala de Bocage, das suas Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas –, mas cada um sabe aquilo que prefere que os seus filhos leiam.

Em todo o caso – não podia deixar de ser – tenho bastante contra uma geringonça do calibre de um ‘plano nacional de leitura’. Atenção: parece-me bem que se forneçam leituras de apoio aos conteúdos das várias disciplinas; e que para as aulas de português haja certas balizas entre as quais os professores possam escolher.

Mas por que diabo o Estado tem de recomendar leituras aos pobres cidadãos menores para os seus tempos livres? A que propósito uma escola manda os alunos lerem o livro tal e tal nas férias de Natal? Não era mais divertido, e respeitador da individualidade dos alunos, deixá-los escolher (pelo menos os que quisessem escolher)? E de seguida até verificar o que cada um havia escolhido e porquê? Havendo sugestão (repito: sugestão) de leituras, não poderiam ficar a cargo de cada professor ou de cada escola? Supomos que os educadores não sabem escolher livros para cada turma, sem necessitar de grandiosos planos? Não chega já de formatação, com os conteúdos programáticos iguais nos nossos oitenta e nove mil quilómetros quadrados, e dados da mesma forma? O Estado precisa de nós tão arrumadinhos a ponto de todos lermos os mesmos livros, independentemente de gosto e interesse? E que disparate é esse de serem os burocratas do Ministério da Educação a decidirem qual é a idade adequada para ler que livro (já descontando lapsos informáticos)?’

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sócrates e Gabriela Canavilhas fazem escola nos Estados Unidos

A intragável Kellyanne Conway já veio reclamar por ainda ninguém nos media ter sido despedido por dizer mal do adorável líder Trump. Que, juntamente com o alt rightist Bannon (a criatura horrenda à vista mas que mesmo assim se sente na posição de dizer que as mulheres que usam contracetivos são pouco atraentes, que os machistas têm a boa característica de não entenderem que não são exatamente o Colin Firth – se fossem não necessitavam de ser machistas -, e que, não sendo, com certos comentários só provocam risota generalizada no mulherio), têm afirmado que os media são ‘o partido da oposição’. E no meio disto tudo há maluquinhos que continuam a fingir que o grande problema atual são os media (os mainstream media, tremam de medo!) e o seu enviesamento – que, existindo, é uma roca de bebé quando comparado ao assalto à liberdade de imprensa que Trump pretende concretizar.

O que é Trump e ao que vinha estava à vista de toda a gente. O tipo de pessoa que Trump é – e, inevitavelmente, o tipo de líder que Trump poderia ser, porque é uma impossibilidade pessoas execráveis darem líderes decentes – estava escancarado. As ideias e as tendências autoritárias e antidemocráticas foram escritas em letra fluorescente. A megalomania e a obsessão com as audiências televisivas gritavam a pedir atenção. Quem não quis ver, foi porque assim escolheu. Muita gente fez por não ver – porque do outro lado estava o verdadeiramente grave: uma gaja. (De resto o ódio a Hillary só teve parecido com o ódio, do outro lado da política mas igual, que foi oferecido a Margaret Thatcher. E pela mesmíssima razão.) Lembremo-nos dessas pessoas.

Entretanto, Trump aparentemente já redige as suas ordens executivas sem revisão dos departamentos, que são tradicionalmente consultados quando estas lhes dizem respeito. O horripilante Bannon, sem experiência que não gerar ódio nos media, foi nomeado para o NSC. Já o presidente dos chefes de estado maior das forças armadas e o diretor da National Intelligence foram dispensados de reuniões. Não quer receber relatórios de lado nenhum, porque a criatura laranja sabe a realidade por osmose (assim como Fidel Castro representava a vontade democrática do povo cubano por osmose). O queriducho do genro anda em guerras de poder para manter o ouvido do sogro. A senhora da ONU já veio ameaçar os países que votarem em sentido contrário ao dos EUA no Conselho de Segurança. Mas já sabem, é continuar a dizer que há imensos checks and balances (só o sistema judicial se fez avistar), e que (eram os mesmo que afiançavam durante a campanha) Trump estava apenas a marcar a sua posição, que depois de eleito suavizaria as suas propostas até as tornar normais. Ah, e que o facto de a criatura laranja ser tremendamente impopular já nesta altura é uma patranha das sondagens; aquelas que nacionalmente davam regra geral uma pequena vitória a Hillary, que afinal terminou tendo mais 2% dos votos que Trump, quase 3 milhões de eleitores (mas que quando alguém – eu – dizia que não tinham errado e que revelavam incerteza, era chamada das coisas que os simpatizantes de Trump já nos foram habituando). É continuarem. Por mim, se os republicanos não decidirem travar Trump – e só o farão se perceberem que continuar o apoio lhes trará custos eleitorais, que a maioria de congressistas e senadores já mandou os princípios às urtigas – desconfio que teremos a definitiva sulamericanização, ou russificação, da democracia americana.

elogio do medo

Não tenho nenhuma discordância de fundo a assinalar com o que o Rodrigo Adão da Fonseca aqui escreve, deambulo mais só sobre dois pontos.

1. Arrumando já a questão do medo. Estou muito pouco otimista, reconheço. Não cabe aqui neste post elencar ou sequer resumir razões, mas vejo uma série de indícios que me levam a temer que nos encaminhemos para tempos mais obscurantistas. Vejo isso em várias zonas do mundo, em uns tantos regimes, nas mudanças de posicionamento político e de valores das populações. Trump não começou nada, é só mais um sintoma. Infelizmente é um sintoma que poderá ter poderes performativos e agravar a doença. Não vejo bem como Trump poderá ser contido (os fellow republicanos não aparentam estar interessados nisso) e também não vejo como as instituições americanas escaparão incólumes a alguém que claramente quer testar as leis ao limite (veja-se o nepotismo, os conflitos de interesses e os recebimentos de estrangeiros) e que manda tradições não escritas às urtigas (caso da declaração de impostos, exames médicos,…).

Em todo o caso vou continuar pessimista. Tenho grande fé na capacidade das pessoas estragarem realidades boas. Não sou muito dada a histerias apocalípticas, mas passei muito tempo a clamar sobre o perigo do islão na Europa, e sempre me habituei a ser vista como uma maluquinha catastrofista. Afinal cabe na cabeça de alguém que a luminosa forma de vida europeia pudesse ser recusada por quem por cá viesse a ter a sorte de residir? O importante era sermos muuuuuuito tolerantes, que precisamente essa tolerância seria o que ganharia o coração dos islâmicos e lá lhes colocaria a vontade de se tornarem europeus ocidentais de gema. Viu-se. Deram por garantida a atração do modo de vida europeu – e enganaram-se. Desconfio que que a confiança na resiliência das instituições americanas seja depósito igualmente bom de confiança.

Provavelmente Trump terá o mesmo fim de Obama. O exagero progressista, do igualitarismo à força, da arrogância de Obama gerou a reação trumpista oposta. Trump, que (felizmente, para este fim) é excessivo, megalómano e não admite limites à sua ação, também provavelmente gerará reação para a esquerda (como se Trump fosse de direita) e cairá por isso. Mas o dano fica feito – fica sempre. Mais ainda nos Estados Unidos, que não têm uma história de séculos, nem uma cultura mais ou menos uniforme com raízes imemoriais, como sucede a tantos países pelo mundo. Nem sequer tem um inimigo preferencial, daqueles com que os países já não conseguem viver, de tão acostumados à rivalidade secular (França vs Inglaterra, China vs Japão,…). Os Estados Unidos vão buscar a essência e a convicção da bondade e da superioridade do país a um génetro de realidades etéreas diferentes: à constituição (que outro país venera desta forma a constituição?), aos pais fundadores, às instituições democráticas. E por isso estão mais suscetíveis a rasteiras a estas últimas

2. Não faço grandes análises sociológicas ou psicológicas sobre as manifestações que têm ocorrido nos Estados Unidos aquando da tomada de posse de Trump, e confesso que não as acho (essas análises) muito relevantes. Porque o ponto é: se as pessoas se querem manifestar e se o fazem sem incomodar a vida alheia, sem destruir propriedade de outros, sem violência – então que o façam, acho muito bem, e eu certamente não me sinto autoridade para dizer se as manifestações são narcísicas ou se merecem ser o germinar do maior movimento político e social do século XXI. O ponto também é: este tipo de manifestações só é visto como perigo em regimes autoritários ou securitários. Se as manifestações forem fogos-fátuos de celebridades excitadas, morrerrão com o passar do tempo e não importunaram ninguém; se ganharem contornos políticos mais consistentes, desde que não adotem a revolução armada, também nada a dizer. Evidentemente cada um valoriza segundo a sua personalidade e quadro de valores todas as realidades, mas para mim um político eleito poderoso que se recusa a submeter ao escrutínio normal na democracia que o elegeu, que ataca o contra poder da comunicação social e quer relacionar-se com os eleitores através de tuits, e que mente escancaradamente (e com não sei quantos idiotas úteis a aplaudir a mentira evidente e a defendê-la) será sempre infinitamente mais perigoso que os maluquinhos que se manifestam, vigorosamente mas pacificamente, pela autodeterminação sexual do tigre das neves.

Já participei em manifestações – a última foi de apoio ao governo PaF, em frente à AR quando este foi derrubado pela geringonça. Sabia perfeitamente que não teria efeito nenhum a minha deslocação a São Bento, mas fui na mesma, porque a ação humana não vale a pena apenas pela eficácia. Já estive noutras manifestações, ajuntamentos, etc. Não me sinto, portanto, com autoridade para julgar quem assim se manifesta – com as salvaguardas do parágrafo anterior. Participar publicamente e agir, em última instância, são sempre comportamentos narcísicos. Cada vez mais se comprova cientificamente que há recompensas (até ao nível da química cerebral) quando agimos de acordo com o que consideramos bem. A gratuitidade só existe na relação com os filhos (e porque os vemos como parte de nós); tudo o resto é sempre motivado pela nossa própria necessidade. Pelo que tirarmos tempo para participar numa manifestação sobre algo que reputamos importante é, no fundo, uma decisão narcísica. Noutro nível, esta forma de participação (bem como outras mais empenhadas) podem até ser curativas. Vem nos livros: o veterano que dedica a sua vida pós-guerra a manifestar-se pela solução pacífica dos conflitos; a vítima de abusos sexuais que vê como missão trabalhar com outras vítimas e sensibilizar o público para estes crimes; o preso político que quando sai do seu país entende ter a responsabilidade de alertar o mundo para as supressões de direitos que se vivem no seu local de origem. Etc. Etc. Etc.

Mas, em boa verdade, nada disto importa muito. O que me importa é não dar o meu contributo para um mundo onde é mais importante escrutinar manifestantes pacíficos que o presidente que manda mentir na primeira conferência de imprensa sobre um pormenor risível, e com claras tendências para um culto de personalidade. Um mundo onde a hora das fotografias apresentadas na comunicação social provoca rasgar de vestes, mas é peanuts um proteccionista que nem aceita que mexicanos e chineses (os novos ogres do mundo) possam gerir bancos americanos. Um mundo onde passa normalmente um presidente ameaçar a China, que nunca pôs em perigo os Estados Unidos, e que impede departamentos governamentais de passarem informação à imprensa, tudo sem sobressaltos; porque grave, grave é um discurso de uma atriz famosa numa cerimónia de Hollywood. Cada um tem as suas prioridades para os seus escândalos, as minhas estão neste estado e não vejo razão para mudarem.