Um tempo bom para trocadilhos

Ontem, a grécia ficou no Euro. E hoje?

De qualquer forma, um Euro vai acabar antes do outro. Resta saber qual.

Euro trash

A disfuncionalidade europeia criou, primeiro, o cogumelo do Syriza, e agora faz chantagem para as eleições de domingo. Seria cómico se não fosse trágico:

A União Europeia está de olhos postos nas eleições gregas, que se realizam no próximo domingo. E poderá melhorar as medidas impostas ao país no caso de o vencedor ser Antonis Samaras, líder do partido conservador Nova Democracia.

Borbulha

Dizer que o actual problema económico espanhol é sobretudo bancário e não tem que ver com contas públicas ou opções políticas é um pouco falacioso. O problema bancário da Espanha resulta sobretudo das práticas das caixas regionais, com inevitáveis consequências sobre o resto do sistema. Ora, é consabido que as caixas regionais foram usadas como instrumento de uma política de habitação das regiões autónomas, consistindo basicamente no fornecimento de casas ao povo com crédito abundante e barato. Esquerda e direita não se distinguiram nesta espécie de “desorçamentação” épica (ou “falsificação das contas”, à grega).

E depois há as contas públicas propriamente ditas. O Estado central espanhol pôde vangloriar-se estes anos todos de apresentar orçamentos equilibrados porque na realidade estava a varrer para debaixo do tapete das contas regionais o lixo do desequilíbrio. Não deve haver hoje uma autonomia solvente em Espanha. Ora aqui é que está o problema: na hora de assumir a responsabilidade, terá de ser o Estado central a fazê-lo, ou a Catalunha e a Andaluzia vão assinar directamente com a Troika um memorando de entendimento?

O mesmo se passa com os bancos, de resto: apesar da ficção do “resgate exclusivamente bancário”, estamos na verdade perante um resgate ao país. Se esta “linha de crédito” (acho que foi assim que o Governo espanhol lhe chamou) de 100 mil milhões de euros não tivesse sido aberta pela Troika, abri-la-ia o Estado central. O valor seria de aproximadamente 10% do PIB. Se juntarmos a isto os actuais 8.5% do défice actual, o défice orçamental de Espanha atingiria as proximidades dos 20%.

Sucessos

Parece que, afinal, Portugal é o único “caso de sucesso” dos países “intervencionados” pela Troika – pelo menos a dita, o Governo e vários comentadores acham que é um “caso de sucesso”. Isto porque o “caso de sucesso” da Irlanda se vai esvaziando lentamente. Diz que a campanha para o referendo ao “pacto orçamental” andou em torno do seguinte tema: votem Sim e a Troika fará concessões quanto à dívida bancária, que está muito longe de resolvida; votem Não e a Troika não as fará. Votaram Sim, mas parece que a Troika (i.e. a Alemanha) não vai fazer concessões. É chato.

God speed

Espanta como se discute tranquilamente, e como se de soluções muito realistas se tratasse, a “união bancária” e a “união orçamental”. Independentemente de quaisquer considerações sobre as questões da democracia, do federalismo, da representação ou da legitimidade (embora também por causa delas) estamos perante a mais inflamatória das “soluções”.

Sobre a “união bancária”, o Ricardo já notou muito bem que só pode redundar na “união orçamental”. Curiosamente, também a sra. Merkel (veja-se este artigo de Ambrose Evans-Pritchard).

Quanto à “união orçamental”, é a loucura. Pelo menos feita agora, em cima do joelho, para desenrascar.

Como no filme Speed, estamos metidos num autocarro que não pode parar, sob pena de explodir. Como no filme Speed, alguém deveria organizar a nossa saída ordenada, deixando o autocarro espalhar-se causando o menor dano possível. Não sei o que será preciso para chegar lá.

Uma educação europeia

Sempre me pareceu verdadeira a ideia de que os padrões da Educação em Portugal, particularmente nos critérios de avaliação, têm vindo a baixar nas últimas décadas. Também sempre me pareceu que o caso português não era o pior. Contacto todos os dias com alunos universitários do mundo inteiro. Não lhes descubro qualquer particular superioridade académica (muitas vezes até o contrário). Numa altura em que temos um ministro da Educação anti-“eduquês”, a OCDE produz esta recomendação no mais retinto “eduquês”. Julgo que reflecte bem o que se pensa sobre isto na Europa.