Alma minha gentil, que te partiste

imagesDiz a Dra. Manuela Ferreira leite, ex-Presidente do PSD, hoje, em entrevista à TSF:

“Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objetivo de pôr a direita na rua, eu acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua.”

Toda a gente tem direito às suas infelicidades, mas esta tirada parece-me particularmente infeliz.

  1. É infeliz desde logo porque, ao comparar o PSD com o BE e o PCP, está a colocar o PSD ao nível daqueles dois partidos. Tradicionalmente, e até por respeito à expressão eleitoral de cada partido, o “espelho” do PSD seria o PS e apenas o PS. Isso é, aliás, essencial para a estratégia de “alternância” entre os dois grandes.
  2. Daqui resultaria que o PSD deixa de alternar com o PS no governo para passar a alternar com BE e PCP na formação da maioria parlamentar de apoio ao PS. De facto, na equação montada por Ferreira Leite parece resultar que, ao fazer como o BE e o PCP, o PSD estaria disposto a assumir a posição presentemente ocupada por eles, assim vendendo “a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”. Assumir esta posição de menorização e subalternidade é mau. Fazê-lo no dia seguinte às eleições directas no seu partido é péssimo.
  3. E é esta menorização, esta disponibilidade para “vender a alma ao diabo”, que não se admite a uma ex-Presidente do PSD. Não é apenas uma proposta de venda, é uma confissão de falta de alma. E, infelizmente, talvez a Dra. Ferreira Leite tenha razão, é isso que falta hoje ao PSD: alma.
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Vazio

MPMaduro

O recente artigo de Miguel Poiares Maduro, no Publico, será o melhor que o PSD tem
para oferecer. A mim sabe-me a pouco. Demasiado pouco.

O texto está formalmente bem escrito, como seria de esperar. É um texto escrito por alguém que sabe pensar e que, neste preciso momento, quer marcar a sua posição no xadrez interno do partido. Mais a mais, o texto não só percorre todas as capelinhas sagradas do laranjal como apresenta os melhores pergaminhos: não será por acaso que, no mesmo parágrafo, junta Bernstein, Sá Carneiro e o seu Pai, que identifica como um dos primeiros presidentes de câmara eleitos em democracia.

O enquadramento referencial está perfeito, o que só aumenta ainda mais a expectativa para o verdadeiro enquadramento que procuramos e que titula o artigo: “a matriz ideológica do PSD”.

Foi esse, aliás, o desafio que eu comprei:

 

 

“Chamem-nos o que quiserem, mas compreendam aquilo que defendemos.”

Pois bem, eu bem tentei e continuo a tentar, mas não consigo. Terei certamente as minhas limitações, mas o que fui encontrando foram referências demasiado vagas, que dificilmente poderão não ser partilhadas por qualquer partido político no âmbito da vigente Constituição da República Portuguesa.

Fica, portanto, a afirmação de fé no PSD: “é a sua matriz ideológica aberta e moderada que está em condições de oferecer o melhor e mais claro projeto político ao país.”

Tudo muito bonito, sem dúvida, mas se fosse António Costa a dizê-lo num comício do PS, por certo que receberia a aclamação o seu partido com uma salva de palmas monumental.

Todos diferentes, todos iguais. E, por isso, desisto. Resignado. Não há nada a fazer. Resignado, sim, mas indignado também. Esta pequena passagem resume o ponto:

“O interesse público pode facilmente ser capturado pelo interesse do governo. (…) o modelo de intervenção do Estado deve separar o interesse público da sua gestão pelo governo (como fizemos com o serviço público de televisão).”

Se bem me recordo, Miguel Poiares Maduro teve responsabilidades directas sobre a RTP há não muito tempo. Na altura eu acreditei que ele seria capaz, se não de derrotar, pelo menos de enfraquecer o monstro. Enganei-me: o monstro continuou a crescer. Como continua a crescer o vazio do PSD.

(des)Consolo

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Fiquei um bom bocado a olhar para esta imagem. É um retrato que encerra muito do que passou nos últimos dias. (ou serão meses?) E, muito do que se passou, passou completamente ao lado de Lisboa.

É um retrato de um Presidente desconsolado que se esforça por consolar uma mulher inconsolável. Vidas de trabalho. Vidas que se tecem numa entre-ajuda permanente. E que se desfizeram em menos de nada, tantas vezes a ajudar o outro: um filho, um pai, um irmão, um vizinho, um desconhecido. Ou até um animal. Em Lisboa todos os cães têm nome, mas aqui até as vacas têm nome. Há gente que morreu a tentar salvar os seus animais, caramba! E não, não os levavam ao restaurante. Se calhar muita desta gente também nem terá entrado num, senão eventualmente por ocasiões festivas.

O muito que este fogo queimou pôs a nu um país que muitos desconheciam. E expôs, vergonhosamente, o fosso que separa a cidade e as serras. Antes de olharmos para a frente, é tempo de nos olharmos de frente. É tempo de percebermos que Portugal é demasiado pequeno para vivermos divididos entre litoral e interior ou Norte e Sul. Estes fogos não podem voltar a acontecer, mas este abandono a que as pessoas se viram votadas muito menos. É intolerável.  Não pode mesmo repetir-se.

Liberdade na Torre de Babel

MEPIsto é grave. E triste. Em vários planos e por várias razões.

Ver um homem, já com alguma idade, a dizer aquele chorrilho de disparates, é triste. Tratando-se de um deputado europeu, é grave.

Mas, enfim, o ridículo fica com ele e, diga-se de passagem, o fórum em que ele falou, não é muito relevante para a maioria dos europeus. E essa irrelevância, não sendo muito grave agrava a tristeza que vai caindo aos poucos sobre o projecto europeu.

Os eleitores europeus e os eurodeputados que (alegadamente) os representam agitaram-se incomodados perante as declarações e terão (assim espero…) respondido à letra ao seu colega. Óptimo, é para isso que serve um Parlamento. Mesmo que seja triste que só ouçamos falar deste Parlamento neste tipo de ocasiões…

Mas, para além destas reacções, o presidente do Parlamento Europeu também achou por bem lançar a sua acha para a fogueira. E não foi de modas: condenou o dito eurodeputado impondo-lhe “sanções inéditas”.

E é aqui que isto fica grave. E sério.

Qual foi, afinal, o objecto das sanções? Corrupção? Abuso de poder? Tráfico de influências? Aproveitamento indevido das imensas mordomias que assistem aos deputados europeus? Não, nenhuma das anteriores. O objecto da sanção foi, afinal de contas, puro delito de opinião.

Limitar a liberdade de expressão a alguém que foi legítima e democraticamente eleito para um parlamento é absolutamente injustificável. Fazê-lo em nome da liberdade é… perigoso.

It’s a Brave New World…

O Público dá-nos conta de uma criancinha que fez história (ou fizeram uma história à conta da criancinha…). A pequena Della foi registada por um pai e duas mães. Fantástico! Se ter dois pais é uma riqueza, ter três é muito melhor.

Já agora, e sempre em nome da celebração da família e da inclusão, etc e tal, que tal registarmos os filhos em nome dos nossos irmãos, cunhados e amigos mais chegados? Os católicos têm aquela coisa dos padrinhos, não é? Nunca se sabe o dia de amanhã…

Ora confiram lá a coisa, aqui:

 

 

Auschwitz

Já foi quase há 70 anos. Agora, mais que nunca, porque as memórias vivas começam a desaparecer, importa que não nos esqueçamos.

De uma forma ou de outra, estas “co-memorações” despertam para a necessidade de saber e de conhecer. Parafraseando Imre Kertész no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002: “O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”. (excerto final do texto de Esther Mucznick, hoje, no Publico)

Não podemos mudar o que existiu. Mas, enquanto existirmos, somos todos responsáveis pelo que vier existir.

Eppur si muove!

Para além de outras virtudes, o artigo de Ricardo Campelo de Magalhães (que não subscrevo na íntegra) tem o mérito de fazer saltar alguns coelhos da toca. Um deles é esta ideia, que aparece pela pena de João Miguel Tavares num comentário ao seu próprio artigo:

“(…) Mas isso não torna esta lei menos justa quando olhada da perspectiva de crianças que hoje em dia não têm o mesmo direito das outras, que é verem legalmente reconhecidos dois progenitores que elas tratam como tal.”

Ora o ponto continua a ser este. Por mais voltas que se lhe dê continua a haver este pequeno problema: os progenitores não são aqueles que a lei reconhece como tal, mas a moça e o moço que, juntando os trapinhos ou não, juntaram, com sexo ou sem ele, aquela coisa de que se fazem as criancinhas.

Não se trata de Direito Natural, nem de preconceitos religiosos, nem nenhuma dessas coisas medonhas de outros tempos. Trata-se apenas de conseguirmos aceitar a realidade tal como ela é. E, por vezes, a vida é madrasta.