Que país é este que se abandona a si próprio?

É triste, mas parece que neste país já vão sendo normais as notícias que dão conta desta práctica bárbara que é o abandono de animais de estimação nos períodos de férias. É triste, mas é daquelas coisas tristes que nos vão passando pelos olhos. Hoje, vá-se lá saber porquê, o algoritmo do Facebook presenteou-me com uma outra história de abandonos — ao que parece, não menos vulgar, mas para mim desconhecida. Dizia a notícia da RTP:

“A pior época é sem dúvida a do Natal e a de férias – altura em que muitos idosos são deixados ao abandono à porta dos hospitais, ou inscritos com moradas e números de telefone falsos.”

A notícia não é nova, mas permanece actual e… vem aí o Natal.

Que diabo, será que isto vai acontecer outra vez? Vamos nós deixar que isto aconteça outra vez? Ou vamos todos continuar a olhar para o lado. Ou, pior, vamos olhar para o lado, com a tranquilidade que o pagamento dos impostos dá às nossas consciências?

E, já agora, e também a propósito do pagamento de impostos: isto não se resolve com políticas sociais com vista à criação de instituições ou albergues para os idosos. Isso só serve para criar empregos a mais parasitas — que depois, aliás, já terão o assunto resolvido quando chegar a vez de porem os pais deles numa qualquer IPSS.  Ainda para mais, depois de uma vidinha inteira a descontar para tudo e mais alguma coisa e a pagar impostos com língua de palmo. Sim, isso bem que justificaria que o Estado tratasse disso.

Mas, não. Não é por aí.

E porque estes tristes episódios não são novidade, já deveríamos (há muito!) ter percebido que não é por aí.

Isto resolve-se, sim. Resolve-se com educação, com valores morais sólidos. Com respeito pela liberdade, pela responsabilidade e pela vida.
Ser adulto livre significa também ser responsável por aqueles a quem damos a vida e por aqueles que nos deram a vida.

Liberdade é isto. O resto é dependência.

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Alma minha gentil, que te partiste

imagesDiz a Dra. Manuela Ferreira leite, ex-Presidente do PSD, hoje, em entrevista à TSF:

“Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objetivo de pôr a direita na rua, eu acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua.”

Toda a gente tem direito às suas infelicidades, mas esta tirada parece-me particularmente infeliz.

  1. É infeliz desde logo porque, ao comparar o PSD com o BE e o PCP, está a colocar o PSD ao nível daqueles dois partidos. Tradicionalmente, e até por respeito à expressão eleitoral de cada partido, o “espelho” do PSD seria o PS e apenas o PS. Isso é, aliás, essencial para a estratégia de “alternância” entre os dois grandes.
  2. Daqui resultaria que o PSD deixa de alternar com o PS no governo para passar a alternar com BE e PCP na formação da maioria parlamentar de apoio ao PS. De facto, na equação montada por Ferreira Leite parece resultar que, ao fazer como o BE e o PCP, o PSD estaria disposto a assumir a posição presentemente ocupada por eles, assim vendendo “a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”. Assumir esta posição de menorização e subalternidade é mau. Fazê-lo no dia seguinte às eleições directas no seu partido é péssimo.
  3. E é esta menorização, esta disponibilidade para “vender a alma ao diabo”, que não se admite a uma ex-Presidente do PSD. Não é apenas uma proposta de venda, é uma confissão de falta de alma. E, infelizmente, talvez a Dra. Ferreira Leite tenha razão, é isso que falta hoje ao PSD: alma.

Vazio

MPMaduro

O recente artigo de Miguel Poiares Maduro, no Publico, será o melhor que o PSD tem
para oferecer. A mim sabe-me a pouco. Demasiado pouco.

O texto está formalmente bem escrito, como seria de esperar. É um texto escrito por alguém que sabe pensar e que, neste preciso momento, quer marcar a sua posição no xadrez interno do partido. Mais a mais, o texto não só percorre todas as capelinhas sagradas do laranjal como apresenta os melhores pergaminhos: não será por acaso que, no mesmo parágrafo, junta Bernstein, Sá Carneiro e o seu Pai, que identifica como um dos primeiros presidentes de câmara eleitos em democracia.

O enquadramento referencial está perfeito, o que só aumenta ainda mais a expectativa para o verdadeiro enquadramento que procuramos e que titula o artigo: “a matriz ideológica do PSD”.

Foi esse, aliás, o desafio que eu comprei:

 

 

“Chamem-nos o que quiserem, mas compreendam aquilo que defendemos.”

Pois bem, eu bem tentei e continuo a tentar, mas não consigo. Terei certamente as minhas limitações, mas o que fui encontrando foram referências demasiado vagas, que dificilmente poderão não ser partilhadas por qualquer partido político no âmbito da vigente Constituição da República Portuguesa.

Fica, portanto, a afirmação de fé no PSD: “é a sua matriz ideológica aberta e moderada que está em condições de oferecer o melhor e mais claro projeto político ao país.”

Tudo muito bonito, sem dúvida, mas se fosse António Costa a dizê-lo num comício do PS, por certo que receberia a aclamação o seu partido com uma salva de palmas monumental.

Todos diferentes, todos iguais. E, por isso, desisto. Resignado. Não há nada a fazer. Resignado, sim, mas indignado também. Esta pequena passagem resume o ponto:

“O interesse público pode facilmente ser capturado pelo interesse do governo. (…) o modelo de intervenção do Estado deve separar o interesse público da sua gestão pelo governo (como fizemos com o serviço público de televisão).”

Se bem me recordo, Miguel Poiares Maduro teve responsabilidades directas sobre a RTP há não muito tempo. Na altura eu acreditei que ele seria capaz, se não de derrotar, pelo menos de enfraquecer o monstro. Enganei-me: o monstro continuou a crescer. Como continua a crescer o vazio do PSD.

(des)Consolo

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Fiquei um bom bocado a olhar para esta imagem. É um retrato que encerra muito do que passou nos últimos dias. (ou serão meses?) E, muito do que se passou, passou completamente ao lado de Lisboa.

É um retrato de um Presidente desconsolado que se esforça por consolar uma mulher inconsolável. Vidas de trabalho. Vidas que se tecem numa entre-ajuda permanente. E que se desfizeram em menos de nada, tantas vezes a ajudar o outro: um filho, um pai, um irmão, um vizinho, um desconhecido. Ou até um animal. Em Lisboa todos os cães têm nome, mas aqui até as vacas têm nome. Há gente que morreu a tentar salvar os seus animais, caramba! E não, não os levavam ao restaurante. Se calhar muita desta gente também nem terá entrado num, senão eventualmente por ocasiões festivas.

O muito que este fogo queimou pôs a nu um país que muitos desconheciam. E expôs, vergonhosamente, o fosso que separa a cidade e as serras. Antes de olharmos para a frente, é tempo de nos olharmos de frente. É tempo de percebermos que Portugal é demasiado pequeno para vivermos divididos entre litoral e interior ou Norte e Sul. Estes fogos não podem voltar a acontecer, mas este abandono a que as pessoas se viram votadas muito menos. É intolerável.  Não pode mesmo repetir-se.

Liberdade na Torre de Babel

MEPIsto é grave. E triste. Em vários planos e por várias razões.

Ver um homem, já com alguma idade, a dizer aquele chorrilho de disparates, é triste. Tratando-se de um deputado europeu, é grave.

Mas, enfim, o ridículo fica com ele e, diga-se de passagem, o fórum em que ele falou, não é muito relevante para a maioria dos europeus. E essa irrelevância, não sendo muito grave agrava a tristeza que vai caindo aos poucos sobre o projecto europeu.

Os eleitores europeus e os eurodeputados que (alegadamente) os representam agitaram-se incomodados perante as declarações e terão (assim espero…) respondido à letra ao seu colega. Óptimo, é para isso que serve um Parlamento. Mesmo que seja triste que só ouçamos falar deste Parlamento neste tipo de ocasiões…

Mas, para além destas reacções, o presidente do Parlamento Europeu também achou por bem lançar a sua acha para a fogueira. E não foi de modas: condenou o dito eurodeputado impondo-lhe “sanções inéditas”.

E é aqui que isto fica grave. E sério.

Qual foi, afinal, o objecto das sanções? Corrupção? Abuso de poder? Tráfico de influências? Aproveitamento indevido das imensas mordomias que assistem aos deputados europeus? Não, nenhuma das anteriores. O objecto da sanção foi, afinal de contas, puro delito de opinião.

Limitar a liberdade de expressão a alguém que foi legítima e democraticamente eleito para um parlamento é absolutamente injustificável. Fazê-lo em nome da liberdade é… perigoso.

It’s a Brave New World…

O Público dá-nos conta de uma criancinha que fez história (ou fizeram uma história à conta da criancinha…). A pequena Della foi registada por um pai e duas mães. Fantástico! Se ter dois pais é uma riqueza, ter três é muito melhor.

Já agora, e sempre em nome da celebração da família e da inclusão, etc e tal, que tal registarmos os filhos em nome dos nossos irmãos, cunhados e amigos mais chegados? Os católicos têm aquela coisa dos padrinhos, não é? Nunca se sabe o dia de amanhã…

Ora confiram lá a coisa, aqui:

 

 

Auschwitz

Já foi quase há 70 anos. Agora, mais que nunca, porque as memórias vivas começam a desaparecer, importa que não nos esqueçamos.

De uma forma ou de outra, estas “co-memorações” despertam para a necessidade de saber e de conhecer. Parafraseando Imre Kertész no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002: “O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”. (excerto final do texto de Esther Mucznick, hoje, no Publico)

Não podemos mudar o que existiu. Mas, enquanto existirmos, somos todos responsáveis pelo que vier existir.