A Redenção Trágica

A Política Apocalíptica de Greta

Por considerar tudo o que envolve a moça, no mínimo, ridículo, tenho evitado escrever sobre Greta Thunberg. Como se vê, acabei por ceder. You can run but you can’t hide. A Greta está em todo o lado: a abrir o jornal, nas trends do twitter, nas partilhas do facebook, nas conversas do metro. Um ridículo com tais proporções não deixa de ser ridículo mas deixa de ser desprezável.

No meio disto tudo posso, pelo menos, dizer: eu avisei. No meu texto de estreia aqui no blog, insurgia-me, enquanto jovem, contra a juventude. Dizia que “a sapiência juvenil é reiterada aos pontapés e todos tem algo a dizer sobre o jovem enquanto agente da mudança”. Mal sabia eu que, meio ano depois, as minhas palavras ganhariam vida e cerca de 20000 jovens portugueses faria uma “greve às aulas pelo clima”. O objetivo: “uma mudança de paradigma”. E, para que não restem dúvidas, eles não estão “a brincar com isto”. Não tenho dúvidas. Se acho que brincar seria uma atividade mais sã? Sim, mas isso não vem à baila. Jovens que querem mudar o mundo não são novidade. A novidade são os adultos encantados com os jovens que querem mudar o mundo.

Como dizia no meu texto, podemos datar esta inversão epistemológica em que o domínio do conhecimento passou para os mais novos com alguma exatidão: maio de 1968. Os protestos que aí ocorreram são, de certa forma, o mito fundador das “greves estudantis” que vemos hoje. E, na minha opinião, muito mais grave do que dar voz aos jovens (que, por si, não representa um problema) foi o surgimento e a deificação do “espírito jovem”, a expressão favorita de todos aqueles que gostam de mascarar o seu ressentimento com eufemismos. O “espírito jovem” não é, por si, um problema. Aliás, é mais do que normal que a Greta, com 16 anos, tenha esse mesmo “espírito jovem”. Torna-se patológico quando nunca é ultrapassado. O problema é, como nos diz o cada vez mais atual Nelson Rodrigues, que “o fato de um imbecil ter 17 anos transformou-se em um mérito formidável. O sujeito passou a ser seguido e respeitado, não por ter tais ou quais méritos, mas por ter nascido em 1952 [leia-se, 2003]”.

Greta Thunberg é o símbolo perfeito da “espírito jovem”-ização da sociedade, onde todos querem mudar o mundo de cima para baixo, de acordo com os seus ditames, como uma criança mimada. Para tal, qualquer discussão séria (que tem de existir) sobre como tratar os problemas ambientais sem matar o comércio, a mobilidade internacional, a agricultura e, acima de tudo, o desenvolvimento do 3º mundo, é adiada em prol de discursos apocalípticos. Com isto, o movimento de Greta Thunberg apenas consolidou algo que o maio de 68 falhou em fazer: a dimensão religiosa do “espírito jovem”. Não é preciso muito esforço para encontrar elementos apocalípticos no movimento liderado pela jovem sueca. Porém, a um paganismo e conceção de natureza enquanto a “Grande Mãe” foi somado um elemento apocalíptico tipicamente cristão. Aliás, não são poucos os que tentam (e tentaram) consolidar-se como profetas ao prever a data do Eco-Juízo Final.

O problema não é Greta Thunberg, é aquilo que ela encarna: uma crise que é, no seu âmago, espiritual. Como bem notou o Jorge Miguel Teixeira: “Que nos interessa se Greta é doente?”. Os seus supostos problemas mentais não explicam nada sobre o fenómeno que ela encarna: um gigante vácuo emocional que domina jovens e adultos. E esse mesmo vácuo concretiza-se tanto no movimento ambiental apocalíptico quanto no identitarismo que seduz cada vez mais, por exemplo, a juventude francesa. No cerne de ambos jaz o espírito revolucionário, que enxerga o mundo como uma longa e histórica tirania dos obscurantistas, que deve ser ultrapassada a qualquer custo pelos iluminados. É esse espírito que domina o mais recente discurso de Greta, onde diz que a sua infância foi roubada. A cegueira apocalíptica impede Greta (e todos os seus entusiastas) de ver que ela teve a sorte de ter uma infância incomparavelmente melhor que a da larguíssima maioria das crianças que habitam ou já habitaram este planeta. E mais, parece que as coisas vão continuar a melhorar para as futuras gerações.

Os meus gostos filosóficos sempre me inclinaram para o pessimismo mas creio que a única forma de combater o pensamento apocalíptico dominante é mostrar que há sólidas razões para não desesperar. O ocidente parece ser dominado por um síndrome de “fim de Roma”, onde paralelos com o decadentismo romano são traçados quase diariamente. E talvez seja por isso que não conseguimos perceber o quão singular (no bom sentido) é a nossa situação. Um dos sentimentos morais mais importantes numa comunidade política é a gratidão. Ora, é impossível ter qualquer tipo de gratidão pelo passado quando o pensamos como um tirania patriarcal e genocida que contribuiu para que o nosso mundo esteja à beira do desastre – e que, por isso, nos “roubou a infância”. Esta forma de pensar, para além de levar ao vácuo emocional que descrevi antes, é falsa. Recomendo, para contrabalançar o discurso apocalíptico cada vez mais dominante, o site humanhrogress.org ou o recente projeto da British Conservation Alliance onde podemos descobrir diariamente razões para ser gratos e soluções efectivas para os maiores problemas que nos assolam.

Face esta nova religião secular apocalíptica, vale lembrar a frase de Chesterton: ““When men choose not to believe in God, they do not thereafter believe in nothing, they then become capable of believing in anything”. O mundo de significados foi deslocado para a ordem puramente imanente da política. Aproxima-mo-nos de uma existência que começa e acaba na política e que começa a ver a mesma não como um espaço de debate entre adversários mas como um terreno de extermínio de inimigos, o lugar onde se dá a derradeira luta entre o Bem e o Mal e em que, claro, o Bem deve vencer. No caso de Greta, o Bem é verde e o Mal é não-Verde. O verdadeiro perigo da política apocalíptica jaz no facto de que a expectativa apocalíptica, ao perceber que jamais será realizada a contento (porque, afinal de contas, ninguém sabe quando o dia chegará), é o combustível para o surgimento de um ressentimento que enfim destruirá o resto de civilização que ainda julgamos conhecer tão bem.greta.png

A Cultura do Ressentimento

Nietzsche é um filósofo pop. Como diria o Dâmaso de Eça: é “chique a valer”. Todos falam sobre a morte de Deus, sobre o Super-Homem e até, no caso dos poucos que realmente o leram, sobre o eterno retorno. Contudo, é comummente deixado de lado um dos seus mais importantes pensamentos: a análise do ressentimento.

Para Nietzsche, o ressentimento é uma espécie de desespero existencial diante da indiferença do Universo perante cada um de nós. É o tomar consciência de que as estrelas não brilham para magnificar os nossos olhos, assim como o mar não existe para que nademos nele. Assim, as razões para o ressentimento são intermináveis. Qualquer um dos motivos que levaram Caim a matar Abel criam em nós esse ressentimento: o inferno que é lidar com pessoas mais capazes e afortunadas do que nós mesmos, por exemplo.

Uma das formas mais fáceis de atenuar este problema abismal é querer que o resolvam por nós ou simplesmente atirar a culpa para um terceiro, para uma estrutura ou abstracção social. A base do ódio organizado à beleza e à riqueza (mascarado de impostos progressivos em nome da “justiça social” – expressão em que, como o velho Hayek notou, é um pleonasmo) é, a rigor, o bom e velho ressentimento. Luta de classes é a fantasia que se tem contra os mais afortunados e mais competentes, ou seja, ressentimento. A obsessão moderna por tornar toda a gente igual (diferente da nobre noção de que somos iguais perante a lei) é puro ressentimento. Julgar que, enquanto artista, eu deveria receber uma “Bolsa Joana Vasconcelos”, porque o maldito capitalismo não reconhece o meu trabalho, é ressentimento.

E é esta filosofia da inveja que impera no cerne do pensamento socialista e revolucionário. Achar que fortunas alheias prejudicam a humanidade é, por exemplo, um caso preocupante de inveja. Mesmo que estas fortunas sejam obtidas de modo ilícito, o problema não reside no facto das mesmas serem maiores que «a minha», mas na forma ilegítima de como foram obtidas. Esta inveja inveterada é incrivelmente descrita por Ayn Rand em “A revolta de Atlas”, um excelente remédio para o ressentimento moderno. Na sua obra, as pessoas são atacadas pelo seu sucesso e pela concretização das suas realizações, temática resumida na frase «a coisa mais imoral na Terra é ofender alguém não por suas falhas, mas por suas virtudes». A inveja é, a rigor, o ódio do bom por ser bom.

Como Theodore Dalrymple vem demonstrando com as suas obras, o ressentimento ou “sentimentalismo”, como o autor gosta de chamar, tem impregnado tanto a esfera social como a política desde o século XVIII, graças a filósofos como Rousseau. Como descreve Dalrymple: “Nessa época, a visão cristã de que o homem nasceria imperfeito, mas poderia e deveria buscar pessoalmente a perfeição foi primeiramente questionada e depois trocada pela visão romântica de que o homem nascia naturalmente bom, mas era corrompido e transformado em mau por viver numa sociedade má”. Como consequência, “a exibição de vícios tornou-se a prova de maus tratos; o que se considerava defeito moral se tornou condição de vítima.” O criminoso que, na posse de uma faca, comete um crime, torna-se cada vez mais vítima a cada facada que dá. “A faca entrou”.

Para o “sentimentalista” não há criminoso, apenas um ambiente que não lhe deu o que devia. Numa inversão moral extremamente estranha e nociva, é o sofrimento de uma pessoa, e não as suas conquistas e virtudes, que a distingue do restante da espécie. A retórica opressor/oprimido passa a ser a dominante, e êxtases neuróticos como «micro-agressões» tornam-se conceitos estudados e encarados seriamente. Esta retórica ilibe todo o ressentido das suas responsabilidades individuais, problema que é hoje, mais atual que nunca.

Todos são vítimas, todos querem direitos e o Estado aparece como o novo Deus, a esperança de “justiça social” e o assegurador de todos estes fetiches modernos. E achava Nietzsche que Deus estava morto…

A Renúncia do Real

O último episódio da brilhante série Chernobyl é a encarnação perfeita da frase de Orwell: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”. Muito mais do que um desastre nuclear, a série retrata a profunda corrupção da alma que foi o comunismo e a pueril tentativa totalitária de viver uma segunda realidade, livre de complexidades, onde ser e parecer se confundem.

Gorbatchov disse, posteriormente, que Chernobyl foi o ínicio do fim da USSR. Longe disso. O ínicio do fim da USSR já está presente em Marx, em Lenine, em Trotsky e em todos aqueles que renunciaram o real em nome de um ideologia, de um projeto de mundo. O importante aqui é entender como esta deficiência da alma se pode transvestir de virtude. O monopólio da imundície está nas mãos dos que se julgam do bem e dos higiénicos compulsivos. Na visão do déspota, o governo totalitário não se caracteriza por perpetuar o mal a todos os seus servos. Pelo contrário, o totalitário é aquele que, julgando ter compreendido o mundo, pretende cuidar de todos os aspetos da vida dos seus escravos. A imaginação totalitária nasce sempre em quem se percebe santo. É este fenómeno que nos permite perceber a hagiologia contemporânea que é a imagética comunista.

Contudo, nada como a tradição cristã para demonstrar que quanto mais próximo alguém se julga de Deus, mais afogado na vaidade o sujeito se encontra. É a vaidade domina todo o pequeno ditador, evidenciada em verborreias recorrentes como “projeto de sociedade” ou “teoria de mundo”. E é a vaidade que impede o reconhecimento da tragédia que ocorreu em Chernobyl. Por trás do véu de bondade, esconde-se o pensamento único e o desejo de guiar corpo social. A impressão de santidade cria em todo o ditador aspiração de higienizar o globo via lei. Tudo o que atenta ao “projeto de sociedade” deve ser vetado, e aquele que questiona a santidade do projeto, censurado.

Vale a pena lembrar Michael Oakeshott, que costumava dizer que se mede a qualidade de um governante pela ausência de teorias de mundo em sua mente. O bom governante, segundo Oakeshott, entende que a política serve para manter a ordem e a livre-associação viáveis, estorvando a vida das pessoas o mínimo possível. Desta forma, a ausência da vaidade totalitária é essencial num jogo político saudável.

Para evitar o totalitarismo, é crucial entender que ele vem sempre mascarado como a receita fácil para o bem. Mais importante ainda, para o totalitário, o indivíduo deixa de ser um fim em si mesmo. Afinal, qualquer meio serve para que o Éden seja reconstruído.

Chernobyl foi a representação final do totalitarismo político e, pior, da mentalidade totalitária, esse fantasma que assombra cada um de nós. Foi esse fantasma que a série captou tão bem, o fantasma que faz com que dizer a verdade seja um ato revolucionário. A imaginação totalitária depende da renúncia do real, é a tentativa de viver uma segunda realidade, impondo essa tirania ao outro. A experiência totalitária depende, muito mais do que do poder do estado, da força de submissão que está na cabeça das pessoas. E, como a série deixa claro, a única forma que a mentalidade totalitária tem para sobreviver é a castração contínua de qualquer forma de consciência moral.

A “democracia” do PCP

À pergunta “Incomoda-o o facto de a Coreia do Norte não ser uma democracia?”, Jerónimo de Sousa respondeu: “Eu não fazia essa classificação de ser ou não ser”. Ao contrário do que pensam os incautos, a intelectualidade comunista está viva e com boa saúde, veja-se o devaneio hamletiano do dirigente do PCP. Não fosse Shakespeare suficiente, Jerónimo trata de apimentar o debate com a boa e velha dúvida socrática: “ O que é a democracia?”, pergunta o dirigente comunista. Como um digno socrático (nas mais diversas acepções do termo), Jerónimo logo corrige o seu discípulo, cujo conceito de democracia envolve “políticos eleitos, por exemplo”, relegando-o ao domínio do “é uma opinião”, ou seja, da doxa platónica (δόξα, para os entendidos). O diálogo terminou, infelizmente, numa aporia. Porém, tenho a certeza que o processo dialético continuará o seu caminho rumo ao esclarecimento.

Podemos tirar duas conclusões deste episódio: Jerónimo de Sousa não sabe o que é uma democracia ou, quiçá, Jerónimo de Sousa sabe perfeitamente o que uma democracia, nos é que não o entendemos. Tendo a ser simpático à segunda opção. Afinal, visto a quantidade de vezes que o PCP usa a palavra democracia, o ignorante aqui devo ser eu. Veja-se a marcha “Liberdade e Democracia”, a palestra “Liberdade, democracia e socialismo”(num colóquio sobre o famigerado democrata Karl Marx) ou as diversas manifestações do partido em relação ao “golpe contra a democracia” no Brasil e na Venezuela. O PCP reclama o conceito, usa-o abundantemente e não sabe o que ele significa? Estranho. Felizmente, o próprio Jerónimo começou a traçar um esboço conceptual, invocando a “democracia avançada tendo em conta os valores de Abril”, conceito que peca, creio, por falta de brevidade. Ao falar da “democracia avançada tendo em conta os valores de Abril”, porém, continuamos sem saber o que quer dizer com “democracia”. Não desesperemos. Dadas as diversas manifestações do partido contra o “golpe” na Venezuela e no Brasil, encontramos duas democracias aceites pelo PCP: o Brasil petista e a Venezuela de Chávez e Maduro. Ao que parece, democracia envolve, no caso do PT: esquemas de compra de votos; organização o maior escândalo de corrupção do país; tentativas de censura de imprensa; e regozijo pelo facto de “não ter um candidato de direita na campanha”. Já no caso da Venezuela atingimos um estado hiperdemocrático: em 14 eleições, o regime perdeu apenas uma; os poderes estão devidamente divididos: Maduro no executivo, Maduro no judicial e Maduro no legislativo; e os media estão devidamente controlados. Continuo, assim, sem descartar a segunda opção, apenas creio que deve ser devidamente reformulada: Jerónimo de Sousa sabe perfeitamente o que ele quer dizer com democracia e nós continuamos, voluntariamente, a ignorar esse facto.

Vemos isto ao verificar que a tirada do dirigente do PCP, como qualquer barbaridade proferida à esquerda do PSD, foi recebida com a devida leniência. Houve, efetivamente, alguma indignação (ou, pelo menos, afetação de indignação), porém, sempre travada pela aura de desculpabilidade que rodeia o PCP. Donald Trump gabava-se de poder “dar um tiro a alguém” sem perde qualquer voto. Se conhecesse os encantos nacionais, saberia que o PCP já goza de tal complacência há muito mais tempo. Bernardino Soares pode ter “dúvidas de que não haja lá [na Coreia do Norte] uma democracia” e o Partido dos Trabalhadores da Coreia pode marcar presença no Avante sem que tal “aura de desculpabilidade” se perca. Esta, por sua vez, baseia-se em dois mitos: a ideia de que o PCP lutou pela liberdade e a ideia de que o PCP se desradicalizou.

O primeiro mito é facilmente desmascarado: a “democracia” do PCP costuma fazer par com a “liberdade” do PCP (veja-se a marcha “Liberdade e Democracia”) e, tendo em conta o seu sentido peculiar de “democracia”, podemos concluir que esta “liberdade” nada mais significa do que o seu contrário. Como notou Alberto Gonçalves, umas das misérias que o Salazarismo nos legou “foi o mito de que o PCP combateu a ditadura em nome da liberdade. No mundo real, o PCP lutava por uma ditadura mais repressiva, da qual aliás se espreitou o grotesco rosto em 1975.” Continuarmos a louvar a luta do PCP como uma luta democrática, como fez Marcelo Rebelo de Sousa, é cair na ladainha do partido. Para o PCP, “ditadura”, “liberdade”, “democracia” são conceitos flutuantes, cujo significado varia com a maré e que servem, pura e simplesmente, como eufemismos para a defesa do socialismo. Entretanto, a experiência mostra-nos que “liberdade e socialismo” ou “democracia e socialismo” fazem tanto sentido quanto “putaria e castidade”.

O segundo mito, igualmente enraizado, parte de uma má compreensão da trajetória do PCP. Este seduz, inclusivamente, parte da direita e baseia-se na ideia de que o PCP é agora um partido do sistema, que conversa com o PS, que faz a barba e usa gravata. Assim sendo, pensar um PCP radical seria perpetuar um “vem aí o diabo” que não espelharia nenhuma situação politica real. Ora, eu conheço poucas situações mais expressivas do “diabo” na política do que a de um partido “do sistema” que tem dúvidas quanto à natureza do regime Norte-Coreano.

É óbvio que o PCP de 2019 não tem planos de socialização dos meios de produção a curto prazo. Contudo, o PCP já faz a barba e usa gravata desde que passou à legalidade. Achar que isso significa uma desradicalização dos comunistas é não entender que o “PCP responde a nova realidade revolucionária”. Esta começou, por exemplo, no momento em que houve a “alteração da expressão «ditadura do proletariado», deixando de se usar a formulação mas mantendo-se o conceito”. Segundo o próprio partido, o conceito mantém-se sob diferentes formulações: “democracia” e “liberdade, quiçá. Esta nova realidade revolucionária é aquela em que vivemos: a realidade onde dúvidas em relação à natureza do regime Norte-Coreano ou Venezuelano são aceitáveis e têm representação parlamentar; a realidade onde conceitos como “liberdade” e “democracia” servem exatamente para subverter o seu sentido; a realidade onde a foice e o martelo são vistos como símbolos libertadores; a realidade em que acontece na FLUL o colóquio “Hegel/Marx- “Cães mortos” ainda vivem”, que já em 1963 era datado ; a realidade em que ser comunista é “cool”.

Apesar do seu caráter quase folclórico, a fala do dirigente do PCP é paradigmática tanto de um PCP que nunca se desradicalizou (e que continua a radicalizar o debate) como da nossa leniência frente aos radicalismos. E esta leniência é ainda mais visível quando falamos do Bloco de Esquerda. Esse caratér quase folclórico do PCP (que funciona para alguns como uma espécie de memorabilia de outubro de 1917) espelha, apesar de tudo, uma genuinidade que não se encontra no Bloco. Enquanto o Bloco apaga publicações de apoio à Venezuela, pelo menos o PCP não esconde as suas simpatias. Enquanto o PCP quer uma revolução para chamar de sua, o BE quer uma casa-de-banho não-binária para chamar de sua. Com isto, trabalham espontaneamente na mesma direção: alargar o espetro de opiniões aceitáveis de modo a abarcar posições que são, na sua essência, radicais — e, pior, transvestidas de virtude.

Aproveitando o espírito platónico/socrático de Jerónimo de Sousa, vale lembrar que, segundo Platão, a democracia está a um passo da tirania. É essa a democracia do PCP.

Sem Título

Uma Defesa da Humildade

George Washington morreu, em 1799, rodeado pelos médicos mais consagrados da época. Deparados com uma infeção na epiglote, receitaram ao “Pai da Nação” cinco doses de sangria que, em suma, removeram metade do seu sangue. Na esperança de cura, o tratamento apenas agendou a morte do ex-presidente. A idiotice daqueles médicos parece-nos, nos dias de hoje, óbvia. O corpo humano é demasiado complexo e compreendê-lo viria a exigir mecanismos inexistentes na época. Sem essa compreensão, quase toda a intervenção se revela prejudicial.

No seu ensaio Da Estupidez, Robert Musil esboça um novo ponto de vista sobre uma velha reflexão: se os filósofos e intelectuais sempre procuraram definir a sabedoria, Musil pretende antes entender a estupidez. A estupidez não é simplesmente o antónimo da sabedoria — é, na verdade, cheia de subtilezas. O escritor distingue a estupidez honesta — aquela do “pobre em representações e em vocabulário, daquele que quando assimila qualquer coisa, não tem muita predisposição para consentir que lha retirem logo em seguida, nem para permitir que a analisem”, a estupidez incapacitante, talvez honrada, associada a limitações intrínsecas de um indivíduo — e a estupidez inteligente — uma estupidez superior, elevada, funcional, errática, pretensiosa e, mais, resultado da esforço voluntário de abdicação do pensamento crítico.

O maior problema do estúpido inteligente é que a sua deficiência é sobretudo moral, a sua estupidez advém de um esforço contínuo, reiterado em expressões como “eu não sou mais estúpido do que os outros” ou na sua necessidade de se ver mergulhado “em títulos e formas de tratamento como majestade, eminência, excelência, magnificência, prelado e afins”. Este não entende que, na tentativa de esconder a sua estupidez honesta, apenas pratica a velha arte do auto-elogio, da vaidade.

Nassim Taleb analisa a estupidez inteligente sob a forma do IYI-Intellectual Yet Idiot (Intelectual, Porém Idiota). O IYI é aquele que “patologiza outros por fazerem coisas que ele não entende sem perceber que o seu entendimento talvez seja limitado. Ele acha que as pessoas devem agir de acordo com os seus melhores interesses e ele acha que sabe os seus interesses, particularmente se estes forem “red necks” ou da classe inglesa que votou pelo Brexit. Quando a plebe faz algo com sentido para ela mesma, mas sem sentido para ele, o IYI usa o termo «ignorante»”.

A incapacidade dos médicos de George Washington em curar o presidente foi fruto de uma ignorância que estes se negavam a admitir, era um “experimento contra a realidade”. Se 220 anos depois ultrapassamos as sangrias e o humoralismo, não ultrapassamos algo mais grave e, surpreendemente, ainda mais comum nos nossos dias: a arrogância fatal que consome os “especialistas”, a estupidez que requer esforço para ser atingida.

Da mesma forma que aqueles médicos apoiavam teorias pré-cientificas e absurdas, a maior parte de produção em ciências humanas ainda crê que encontrou a estrutura basilar da sociedade, o motor da história, a causa e solução dos problemas sociais. O único problema é que, muito mais do que o corpo humano, a sociedade é complexa e a sua compreensão está aquém de uma teoria de gabinete.

A manutenção da civilização depende de um tecido infinitamente emaranhado e delicado de relações e atividades, das mais modestas às mais grandiosas. Destas, poucas são calculáveis. Como nos lembra Friedrich Hayek, a “incapacidade dos economistas em sugerir políticas mais bem-sucedidas está intimamente ligada à propensão a imitar, o mais rigorosamente possível, os procedimentos das mais brilhantemente exitosas ciências físicas”. Enquanto as ciências físicas trabalham com dados concretos e objetivos, a maior parte das ações humanas são inteiramente subjetivas, imensuráveis e impossíveis de ser isoladas. As teorias económicas dominantes, por exemplo, têm-se limitado a “encontrar” relações entre dados numéricos (a relação entre o nível de emprego e o tamanho da procura agregada por bens e serviços, no caso Keynesiano), ignorando por completo todas os outros fatores imprevisíveis e aleatórios da atuação humana.

Certa vez, Karl Marx disse que “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; o ponto, contudo, é mudá-lo”. Porém, o maior feito de Marx foi ter demonstrado que não se muda o que não se entende. Dada a impossibilidade da matematização do tecido social, a ação politica (seja ela social ou económica) é, no mínimo, irracional. Reconhecer que a “pretensão do conhecimento” se baseia em premissas dúbias é um exercício de humildade e sensatez. A incapacidade de teóricos para aperfeiçoar a sociedade deveria ser tão pouco surpreendente quanto a incapacidade dos médicos de George Washington para curar a sua infeção por meio de sangrias.

Mas a estupidez inteligente está viva e com boa saúde. Veja-se a queda de 20% nas casas para arrendar. O pacote de medidas aprovado no Parlamento teve dois resultados: rendas mais caras e menor oferta. A humildade de entender que sabemos muito pouco e a responsabilidade para assumir as consequências dos nossos atos são os dois pilares de sabedoria. Infelizmente, dos que aprovaram o pacote de medidas, nenhum vai sentir na pele as consequências dos seus atos. Enquanto a situação piora, os estúpido inteligentes regozijam-se no seu gabinete uma vez que nunca “arriscam a pele”, nunca sofrem as consequências das suas teorias.

No seu discurso de receção do Prémio Nobel de economia, Hayek proferiu: “o esforço fatal do homem no sentido de controlar a sociedade – esforço que não apenas faz do homem um tirano de seus concidadãos, mas também pode levá-lo a destruir uma civilização que não foi engendrada por cérebro algum: uma civilização que tem prosperado como resultado dos esforços livres de milhões de indivíduos.” Ámen.

Fake News

Lembro-me de ler, na semana passada, uma triste notícia sobre a morte precoce de uma jornalista da Fox News. Para minha surpresa, vi essa notícia – que julguei inócua – ressurgir no meu feed do Facebook em tom de piada: “A Bre Payton merece o prémio Darwin 2018”. Incapaz de entender a graça, fui pesquisar sobre o assunto. Deparei-me com uma notícia do Correio da Manhã e outra da Sabádo que, realmente, anunciavam um acontecimento digno de um sketch dos Monty Python: Jornalista que fez apelo contra vacinas morreu de gripe AApresentadora antivacinação morre aos 26 anos após contrair gripe suína 

Ora, eu, na minha inocência, julguei que a rapariga era mais inteligente. Fui, então, procurar mais sobre a sua militância anti-vacinação. Felizmente, a Sabádo e o Correio da Manhã pouparam-me trabalho. Em ambas as notícias podemos encontrar a única menção que a desgraçada fez à anti-vacinação em toda a sua vida e esta, para júbilo do tribunal popular pós-moderno, foi feita num tweet (e, pasmem, de 2011!). O tweet incriminador diz, literalmente, o seguinte: “@latimes: Whooping cough: State urges more people to get vaccinated http://lat.ms/jlJcoa ” // NOOO! vaccines are from the devil!”

Creio que chegamos com isto a um novo estágio de loucura: se até há poucos meses reputações eram arruinadas por causa do que se disse num tweet aos 19 anos, agora reputações são arruinadas por causa do que não se disse num tweet aos 19 anos. Qualquer pessoa sã – excluindo, portanto, os jornalistas – entende a ironia do tweet. Não se trata de um comentário peculiarmente sagaz, nem peculiarmente subtil: é uma simples ironia. E este comentário, até por ser um caso isolado, devia ser ainda mais facilmente entendido como tal. Infelizmente, os arqueólogos de tweets não são capazes de conceber tamanhas subtilezas. Ou será que são?

Bastou ler a notícia novamente para que entendesse a assunção de que a rapariga era uma militante anti-vacinação. Afinal, estamos perante uma “comentadora da Fox News”, “conservadora”, “convicta apoiante de Trump”, com “opiniões vistas como radicais” e que, preparem-se, “em várias ocasiões mostrou-se contra a saúde pública e chegou a dizer inclusivamente que esta “não é um direito humano”. É claro que estamos perante alguém anti-vacinas. Eu diria mais, anti-civilização. Pior que defender a anti-vacinação aos 19 anos, só apoiar Trump aos 26. Estão desculpados, jornalistas.