Jogos de guerra

Twilight Struggle

Ora deixem-me ver se percebi bem: a União Europeia, através da mesma PAC com que já distorce a produção agrícola europeia, prepara-se para, por via de uma intervenção com dinheiro dos contribuintes comunitários, financiar a remoção – leia-se a mais que provável destruição – de produtos agrícolas. Desse modo pretende-se assegurar que os consumidores (comunitários, veja-se lá) vão ter que pagar preços mais altos pelos produtos que os produtores produziram em excesso e que só venderiam a menor preço, tudo isto em virtude das sanções impostas pela mesma União Europeia à Rússia. No final do dia, garantir os proveitos do costume aos seus produtores. Ou sejam, pagamos todos para assegurar o sucesso e os proveitos dos produtores agrícolas, e entretanto financiamos os joguinhos de guerra da baronesa Ashton et al. É isso, não é?

Eu também gosto de jogar, mas pago os meus próprios jogos e não ando a brincar com a vida dos demais por conta.

A primazia moral da pulverização

I have wanted to give Iraq a lesson in democracy — because we’re experienced with it, you know. And, in democracy, after a hundred years, you have to let your slaves go. And, after a hundred and fifty years, you have to let your women vote. And, at the beginning of democracy, is that quite a bit of genocide and ethnic cleansing is quite okay. And that’s what’s going on now.

Kurt Vonnegut

É talvez profunda e negramente irónico que, alguns dias depois de se assinalarem os sessenta e nove anos volvidos sobre os bombardeamentos nucleares em Hiroshima e Nagasaki, esteja em cima da mesa em discussão a indignação moral e o discurso do Horror, alicerçados na difusão de imagens que exibem cabeças decapitadas, como se de troféus se tratassem, por jihadistas. Uma discussão que procura utilizar esse facto para sustentar a posição dos guerreiros morais que nos separam da negra barbárie do extremismo islâmico.

Naturalmente que não são imagens simpáticas ou fáceis de digerir, pelo menos pelos cidadãos de um ocidente já em grande medida esquecido do convívio na primeira pessoa e in loco com os horrores da guerra. Mas essa reacção é afinal um sintoma que permite concluir do distanciamento e alheamento que essas pessoas têm em relação àquilo que é feito em seu nome, sustentado nas “democracias evoluídas” e nos “valores ocidentais” com que os que governam o Ocidente enchem os ouvidos dos governados.

À exibição de algumas cabeças cortadas em fotos preparadas para circular pelos blogs e pelas redes sociais dos indignados, contrapõem-se os milhares de vítimas da acção militar dos exércitos regulares das potências que supostamente partilham dos valores mais altos. As fotografias dos últimos não povoam esses fora tão somente porque não existem fotografias de vítimas pulverizadas de forma grossista por artilharia ou por higiénicos mísseis guiados por laser. Ou não são suficientemente palatáveis e convenientes para abrirem os noticiários do dia.

Enquanto uns apontam o dedo em jeito de ameaça com cinco cabeças aos seus pés, outros apontam outro dedo em jeito de outra ameaça, na elevação impoluta do palanque da Casa Branca, depois dos drones debaixo do seu comando terem pulverizado com mais uns mísseis Hellfire mais umas dezenas de participantes num casamento algures num arrabalde no distante Iémen.
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Pessoas que nunca aprendem

Rambo III

E com a última peça do puzzle completa-se o cenário e vive-se finalmente o sonho húmido de qualquer produtor e/ou vendedor de armamento.

Neste momento, depois da acção incisiva e elevado patrocínio do Prémio Nobel da Paz, e em mais um exercício com a reconhecida chancela da política externa americana, temos os Estados Unidos a armar, de forma directa ou indirecta, as três facções que se degladiam na luta pelo poder no Iraque, incidentalmente patrocinando a sua reacção contra um ignóbil e genocida agressor dos direitos humanos. Agressor esse sobre o qual pendem suspeitas fundadas de ter recebido treino e equipamento da mesma proveniência.

Num verdadeiro dois em um, ficam também entregues, com este anúncio de entrega de armas aos curdos iraquianos, as saudações e os parabéns ao confrade Atlântico Erdogan pela esmagadora ascensão à presidência da Turquia nas eleições realizadas no dia de ontem. Naturalmente acompanhados de votos de muitas e boas parcerias no futuro, e de promessas da mais estrita solidariedade na defesa da nação turca.

Está desta forma mais uma vez assegurado o esforço de fund-raising do senhor presidente, e dadas as garantias de atenção aos dramas longínquos onde os EUA não podem mesmo deixar de estar presentes, em nome dos profundos valores ocidentais que representam, e de uma forma que não podemos deixar de assinalar num historial já razoável da sua política externa e das suas consequências.

Irrelevantes

Com a nomeação de Carlos Moedas para integrar a Comissão Europeia, ou seja, com a nomeação pelo governo de um seu membro para o cargo, fica mais uma vez demonstrada a absoluta irrelevância das eleições europeias, agora mais uma vez no que toca a eventuais leituras internas dos seus resultados.

Depois da campanha de propaganda protagonizada pelas (sempre iluminadas) mentes federalistas, entusiasmadas a vender a ficção da “eleição do presidente da Comissão” no último momento eleitoral, fica assim confirmada a sabedoria da imensa maioria que deu às últimas eleições a relevância que estas efectivamente merecem.

E ainda bem que assim foi.

Por detrás do véu (2)

Maria João,

Tenho que admitir que, assim como tinhas as tuas anotações pendentes em relação a esta questão em concreto, o tema da liberdade de expressão é uma questão que desperta em muito o meu interesse, e que mesmo em relação a este tema já tenho também o meu cadastro de discussões sobre o assunto. Posto isto, flûte para aqui, flûte para acolá, aqui fica a minha réplica em relação aos teus pontos.

  1. A questão do nudismo no espaço público foi herdada do teu segundo artigo sobre o assunto. É aliás um argumento típico quando se pretende demonstrar a inviabilidade de uma interpretação absoluta do usufruto do direito à liberdade de expressão em espaço público, pretendendo demonstrar a necessidade de aceitar limitações e ponderações redutoras dessa liberdade invocando para isso os mais diversos objectivos, desde a protecção das crianças às minorias. Conjugado com as práticas sexuais em público, são um argumento recorrente que achei por bem rebater.
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Por detrás do véu

Maria João,

Acho que me vou candidatar a alguns dos prometidos nomes.

Na minha opinião, a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não foi um momento para saudar, mas antes mais uma lamentável mensagem do tribunal aos estados signatários da convenção sinalizando a sua tolerância destes e doutros futuros avanços no sentido de limitar legalmente um conjunto base de liberdades. Pelo caminho, alimenta-se um discurso de moralismo por via legal, e a natural tentação populista de, ao invés de se resolverem os problemas concretos, se dar um passo em frente criando legislação avulsa cheia de propaladas boas intenções, com desfecho amplamente expectável e com vítimas também mais ou menos evidentes.

O que deveria estar em discussão, quando muito, deveria ser eventualmente sobre se é ou não legítimo aos estados legislarem no sentido de limitarem o exercício da anonimidade em público, ou seja, se é legitimo estes instituírem uma obrigação de os indivíduos serem identificáveis (visualmente ou até eventualmente de outras formas) pelos demais quando se encontram em locais públicos. Seria uma discussão sem dúvida interessante e porventura de alcance bem mais alargado, mas que parece ter sido mais utilizada como expediente do que propriamente com intenções defensáveis.
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Quilos de carne

Vindas de quem promove e incentiva a colonização e a ocupação ilegal de territórios que, aos olhos do direito internacional tutelado pelas organizações internacionais de que Israel escolheu fazer parte são zonas de interposição entre forças beligerantes, e vem tentando fazer pela força dos factos consumados aquilo que não consegue pela força dos argumentos e do cumprimento das regras que voluntariamente assumiu, só posso qualificar como lágrimas de crocodilo as que são vertidas pela morte de pessoas que, em primeiro lugar, não deveriam sequer estar no local onde sucederam os eventos que culminaram nesse desfecho.

Talvez da próxima vez em que o governo israelita quiser vir a publico anunciar a criação de uma nova vaga de colonatos em circunstâncias idênticas se possa lembrar, quando envia nova leva de civis armados para defender a sua guarda avançada no terreno, de quantos desfechos semelhantes está a promover e a incitar. Quantos são os quilos de carne dos seus que se propõe trucidar na máquina para comprar a sua vitória unilateral. Para depois tudo não ficar atolado na hipocrisia que transpira em declarações de circunstância como as que se ouvem na sequência do sucedido, quando o polícia, juiz e carrasco já investigou e se pronunciou inequivocamente em relação aos culpados. Isto depois da orgia de 10 mortos e 500 detidos com que se banqueteou depois do desaparecimento. Nas averiguações.

É que, se “o Diabo ainda não criou a vingança apropriada para o sangue de uma criança”, há alguns que deveriam por a mão na consciência e avaliar de todo o trabalho que andam a fazer por iniciativa própria nesse sentido.