Aperitivo

Por Paulo Tunhas

Uma concepção alargada da liberdade só pode ser obtida, e sempre provisoriamente, através de um diálogo com a tradição. E a tradição não apresenta nunca o carácter de um sistema. Quer isto entre outras coisas dizer que uma tradição alargada da liberdade não pode assentar sobre uma teoria sistemática da sociedade.

 

À comunidade insurgente

Dia 4 de Maio mais uma Tertúlia liberal promovida pela Oficina da Liberdade na Comissão de Viticultura das Regiões do Vinho Verde, no Porto. O Paulo Tunhas e a Zita Seabra vão discutir o 25 de Abril e a Liberdade moderados pelo Michael Seufert. A não perder. Antes da Tertúlia há um jantar privado com os oradores e ainda há 4 lugares disponíveis. Os interessados no jantar, por favor enviem mail para tertulialiberal@gmail.com. Para a Tertúlia, a entrada é livre. Apareçam.

 

Em vez de cortar árvores…

…talvez não fosse má ideia castrar os que escrevem as leis.

Bem sei que há as minhas pessoas e os meus animais (os meus Ozzy, Mimi e Angie por exemplo) mas há duas coisas que me obrigam sempre a parar, quase em contemplação, como que numa espécie de ascese. O granito gasto pelos passos das pessoas, como os degraus na entrada da Igreja da terra da minha mãe que há mais de 400 anos são caminhados e estão longe da forma original, só e apenas à custa dos passos dos fiéis. As pedras dos muros e pontes romanas em Trás-Os-Montes, que gosto de tocar e imaginar os legionários que por ali marcharam há dois mil anos. E as árvores, as árvores que resistem há gerações, que resistiram aos fogos, às tempestades, ao vento e à chuva, ao abate indiscriminado para criar pasto e vinha. As pedras e as árvores são as testemunhas silenciosas do que sou e de quem sou. Gosto dos imponentes carvalhos, castanheiros e salgueiros transmontanos, dos pinheiros mansos e amendoeiras algarvios, dos cedros e camélias do Minho, das oliveiras e sobreiros alentejanos, gosto de árvores. Gosto do embondeiro angolano, do matapalo costa-ricense, das sequóias californianas. Gosto de estar no 17 de Vidago e ver à esquerda do green aquele velho cedro que me convida. Cada árvore abatida, cada pedra arrancada, cada fraga partida é um bocadinho de mim que desaparece. É uma coisa tolkieniana muito minha. Quem dera houvera Ents. Puta que pariu os Orcs que nos pastoreiam, legislam, arquitectam e engenham.

Tertúlia Liberal

Notas soltas do meu amigo Pedro Quadros sobre a tertúlia de 26 de Janeiro no Gémio Literário em Lisboa, com a Maria de Fátima Bonifácio e o Rui Ramos.

Meus apontamentos e ideias sobre a Tertúlia “A Dádiva da Dívida” realizada a 26.01.2018 no Grêmio Literário, Lisboa. Conferencistas : Maria de Fátima Bonifácio e Rui Ramos. Já no Século XIX registávamos a propensão para o endividamento excessivo do Estado. Défice crónico das contas do Estado. Contas públicas sem rigor nem credibilidade. 1874 – Bancarrota parcial, assumindo-se que parte da dívida não poderia ser amortizada. Essa “folga fiscal” permitiu o “Fontismo” com os investimento em caminhos de ferro e estradas.

1892/3 – Bancarrota total do Estado. Tinha sido antecedida por um período de prosperidade, graças ás exportações e remessas de emigrantes. Mas sem convergência com a Europa – esta, mais industrializada, crescia mais rapidamente. Balança comercial deficitária. A adesão ao Padrão-Ouro facilitava o crédito externo. A 2ª dívida pública per capita mais alta da Europa, a seguir à Grécia.

A revolução republicana no Brasil interrompe as remessas de emigrantes. Simultaneamente, a Argentina entra em bancarrota. Descrédito afeta Portugal. Corrida aos bancos. As grandes empresas portuguesas entram em falência e são compradas por estrangeiros. Rotura com os credores para alimentar chauvinismo populista. Orientação para o mercado interno, fortemente regulado. Os aforradores nacionais aplicam as suas poupanças no estrangeiro, comprando dívida pública britânica. A economia nacional mantem-se como uma das mais isoladas e pobres da Europa.

Que fazer ? Só a introdução da economia nacional na economia global permite o desenvolvimento. Mas esta exige flexibilidade e recursos que Portugal não tem. Consegue-se sobreviver mas não crescer.

Intervenções do público : Em 2011 só não repetimos os erros de 1892 porque as instituições europeias não nos deixaram. Não aprendemos nada. Com a bancarrota de 1892, Portugal ficou sem acesso a capitais estrangeiros até aos anos 1960. Custou-nos 70 anos de desenvolvimento. As elites políticas não aceitavam perdas de soberania : “Vamos crescer com o mercado interno. Vamos bater o pé aos credores externos”. Porque é que nos endividamos tanto e isso não tem repercussões nas nossas capacidades produtivas internas ? Houve investimentos mas não houve retorno económico. Como é possível ter-se gasto tanto dinheiro com tão pouco retorno ?

Ents

Há muitos anos que acho os comunistas, regra geral, os tipos mais divertidos de debater porque tendem a ser intelectualmente honestos. Defendem aquilo em que acreditam e não fazem juízos de intenções, ao contrário de socialistas light e social democratas que fazem da desonestidade e da dissimulação um modo de vida. Continuo a acreditar nisto, embora ache que à medida que os velhos comunistas vão morrendo, os que os substituem têm um problema de solidão neuronal na caixa craniana. A prova é o exemplo do jovem deputado Miguel Tiago cujo solitário neurónio não dá para mais que para babar-se enquanto balbucia alarvidades. Creio que os velhos comunistas que conheci, já falecidos, teriam até vergonha da descendência.

Diz o hiposináptico deputado, entre dois fios de baba, que taxar os Partidos é taxar pessoas, que os Partidos não são como a Igreja que é um ente.

Ora bem, temos então dois tipos de pagadores de impostos: entes e pessoas (às tantas é má interpretação da imprensa e refere-se aos Ents, pastores de árvores do Tolkien). Segundo hiponeuronal deputado, quem paga o IMI não sou eu, é a casa (ganha bem o estupor do apartamento); quem pagou o IA e o IVA das viaturas cá de casa não fomos nós, foi uma coisa com quatro rodas, uma carcaça e um motor; quem paga o IRS não é a minha família, é a conta bancária; quem paga o IRC da empresa não sou eu, as pessoas que trabalham comigo ou os nossos clientes, é um ente-outro, é um papel escriturado, reconhecido por um Notário e com um número no Registo Comercial; quem paga o IVA quando vou ao supermercado não sou eu, são as maçãs, o pão e o os iogurtes (no que em parte está bem acompanhado, é isso que dizem o legislador e o fisco). Tudo entes (ou Ents pastores de árvores) que não são pessoas.

Na esperança que ainda haja tempo para que nasça um segundo neurónio que lhe permita meia sinapse e o torne décimo-digno dos antecessores, diria ao hipocognitivo deputado:

  • Para aprender a ler;
  • Que quem paga impostos são sempre pessoas, não há entes-outros que o possam fazer enquanto não formos invadidos por extra-terrestres que se sujeitem às alarvidades do mentalmente desafiado deputado e amigos;
  • Que, com o devido respeito a um deputado da nacinha (mesmo que balbuciante e com dificuldades cognitivas), se vá pôr num porco, mamar na quinta pata de um boi.

Do Mal

A propósito dos PECs 2010-2011 e a malvadez da troika, no que respeita às privatizações, o PEC IV remete para o PEC III de 18 de Março de 2010 (!) onde isto na imagem estava previsto. Os que culpam o chumbo do PEC IV pelos males do Mundo, deviam lê-lo.

 

Estava prevista, por exemplo, a redução da compensação por despedimento (por parte do empregador) de 30 dias por cada ano de trabalho para 10 dias (mais outros 10 pagos por um Fundo que pagamos todos os meses e que não sei bem para onde vai o dinheiro, para indemnizações não parece ser). Alguém que tenha sido despedido durante ou após a governação da troika recebeu os tais 10 dias de indemnização por cada ano de trabalho vindo do Fundo de Compensação? Tanto quanto sei desde 2014 a indemnização é de 12 dias por cada ano de trabalho, as empresas pagam todos os meses para o tal Fundo de Compensação, alguém recebeu alguma coisa vinda daí?