Carta à Ministra das Finanças

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Exma Sra Doutora Ministra das Finanças Mariana Mortágua, dado que pelo cheiro VExa aparenta ter abandonado os cueiros há pouco, e o filho que tenho já ser suficientemente crescido para que me tenha esquecido como se explicam as coisas às crianças, não sei bem como lhe começar a explicar as particularidades da vida das pessoas normais. Mas tentarei e faço-o com a melhor das intenções. Creia que quero ajudá-la.

Sabe, alguns de nós na minha geração e mais velhos, por vicissitudes da realidade, tivemos que começar a trabalhar muito jovens ainda (no meu caso aos 11 anos). Aprendemos desde cedo a virtude do esforço e da poupança, aprendemos a adiar prazeres e a ter uma perspectiva de vida. Aprendemos que não seríamos sempre jovens e um dia iríamos precisar de algum suporte que só nós mesmos, com esforço, inteligência e foco no futuro poderíamos garantir. Depois fomos pais e esse foco cresceu, a nossa esperança de vida aumentou e o futuro prolongou-se. Creio que quando formos avós estas coisas tornar-se-ão ainda mais importantes.

Cara Doutora Ministra das Finanças, VExa diz que têm que “perder a vergonha de ir buscar a quem acumula dinheiro”. Não sei o que o senhor seu pai lhe terá ensinado. A viver à custa de outrem? A aproveitar-se do esforço alheio? A fazer tábua rasa da vida de pessoas que não conhece e para cujo bem estar nunca contribuiu? Se o fez, lamento informá-la mas isso tem um nome e não é bonito.

Repare: não ando há décadas a trabalhar com honestidade e rigor para que VExa e os infelizes que a aplaudem venham após todo este tempo tirar-me o que me custou sangue, suor e lágrimas a acumular; não ando há décadas a fazer das tripas coração para que VExa e respectivo séquito me roubem o que já foi várias vezes tributado para a sustentar a si e a outros semelhantes. Note que se a Sra Doutora Ministra das Finanças algum dia provar o que eu e muitos outros provamos há décadas, terei todo o gosto em ganhar respeito pelas suas opiniões, até lá, perdoe mas oiço-a como ouvia o meu filho quando ele acabava de molhar a fralda. Somada alguma irritação que ele, pelo amor que lhe tenho, não me provocava, evidentemente.

 

Com cordialidade

 

Helder Ferreira, Profissão: desgraçado.

Long dark train

darktrain.jpgÀ custa do Fernando Melro dos Santos redescobri este tema do Adrian Borland (The Sound) que não consigo deixar de ouvir em loop. Eu que nunca fui de “ouvir” letras tenho como com raras excepções o Morrison e o Borland, dois poetas, e parei nesta. Até porque sou pai. Pai de um que está close to the chance to leave this train. Não sei bem o que isto significa, mas quando um pai tem como aspiração maior que um filho vá para longe não deve significar coisa boa. A shattered land?

Long Dark Train, Adrian Borland (Youtube)

This long dark train
For years it’s rolled
We cry in vain

The doors stay closed
Driven for the few
By sleight of hand
It runs the length
Of this shattered land
But soon the chance will come
The chance to leave this train
And don’t forget, don’t forget, NO, NO
To never come this way again

Death on the tracks
It rattles down
Past silent yards
Through ghostly towns
Past disused towers
It powers by
It runs on time
It runs on lies

I think I hear the scream of brakes
And just up ahead the buffers wait
The terminal for this long dark train

 

Audaces Fortuna Juvat

portuguesearmycommandoslogoNão sou Comando mas sei o suficiente e conheço e convivi com “cabeças de fósforo” suficientes.

Não é Paraquedista, Fuzileiro, Ranger e muitíssimo menos Comando quem quer, só o é quem aguenta e não são todos. No curso de Comandos 127 são 61 instruendos, 61 voluntários pré seleccionados com o rigor possível e desses poucos chegarão ao fim do dito curso. Os Comandos não são um grupo de costureiras cujo maior risco é picarem-se nos dedos se se esquecerem de usar o dedal. São militares de elite, os melhores dos melhores e cansados de o provar desde cenários de guerra a sério, a exercícios da NATO. São uma das melhores tropas de elite do Mundo e os riscos que correm na instrução é real e eles sabem-no. Para o que lhes é exigido e para o nível de eficácia que têm que atingir é extraordinário como não morre meia dúzia em cada curso. O que é que os media e os indignados profissionais julgam que faz um militar de elite? Bolas de Berlim ou crochet?

Quando era instrutor no Exército (Artilharia e Engenharia) houve “semanas de campo” em que estávamos abivacados a menos de 1 km de acampamentos de escuteiros onde miúdos de 12 anos faziam rappel e slide no mato mas nós, militares, homens de barba, estávamos proibidos de o instruir e fazer por causa dos riscos de acidente. Go figure. O ridículo em tudo que tem que ver com a relação dos media e do poder político com as Forças Armadas vem de longe e o erro de casting desta amostra de Ministro da Defesa é só mais um dos episódios, talvez o epílogo da coisa. Até o Comandante Supremo dos gajos, a Picareta da República,  não passa de mais um frouxo sem a mínima ideia de quem são os homens que supostamente comanda. Nunca passou dos cocktails e “Porto de Honra” nem passará.

Mama Sumae!! meus caros camaradas “cabeça de fósforo”, bem hajam.

ALA, ALA! Arriba!

BrasaoRE3Tenho andado aqui calado com a cagada dos incêndios porque não percebo nada do assunto nem tenho opinião que valha a pena. Mas há merdas que, chegados a este ponto de imbecilidade, já me tiram do sério.
Anda por aí muito ignorante indignado por causa da (não) participação dos militares no combate aos incêndios. Meus queridos, vocês ou são ignorantes, ou não sabem do que falam, ou são umas bestas.
No meu tempo no Regimento de Engenharia 3 enquanto Oficial de Dia, recebi várias vezes de madrugada equipas de militares desfeitos, negros de cinza, esfomeados, sedentos e com fardas queimadas por andarem 36, 48, 72 horas a abrir corta fogos no meio de incêndios com máquinas de engenharia sem pregar olho. Os Regimentos de Engenharia devem ser das poucas instituições que fazem prevenção de incêndios o ano todo, limpam estradas florestais e abrem corta-fogos, por exemplo. Quando são solicitados pelas Câmaras Municipais respondem sempre com os meios que têm e no âmbito da missão que lhes foi destinada de apoio ao bem-estar das populações, não porque lhes tenha sido atribuída uma missão específica para incêndios, mas porque se preocupam e colaboram a tempo e horas. Quando ainda ninguém pensa em incêndios já eles andam a preveni-los como podem. E para os políticos, tanto nacionais como autárquicos, é muito conveniente, mostram obra quase de borla (só pagam combustíveis, manutenção das viaturas e máquinas, alimentação e dormida aos militares, mais nada) e ganham votos à custa dos militares. O RE3 de Espinho trabalha, sem alarido nem mediatismo, 365 dias por ano em frentes de trabalho por todo o Norte. Perguntem às pessoas de Castanheira de Pêra, Arouca, Vagos, Cabeceiras de Basto, etc. só que como não fazem publicidade, os betos bem pensantes urbanos e os ardinas dos merdia acusam-nos de não fazerem nada e aos Governos de não os utilizarem. E se esses merdia se lembrassem de dar um salto a Espinho e falar com o CMDT do Regimento? Como nos podem informar se eles próprios não se informam? Já tentaram integrar uma equipa da Engenharia Militar neste combate? Continue reading “ALA, ALA! Arriba!”

Ramiel, Arcanjo da Esperança

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Eu no Diário Económico de hoje sobre arcanjos, mafarricos, anjos e nefilim.

O Diabo já passou, diz o suposto primeiro-ministro. Só que o Mafarrico é o mestre da dissimulação e esconde-se nos detalhes. Não, não passou, há-de visitar-nos e não tarda muito.

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Chumbo

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Um dos meus amigos é um senhor com bem mais de 70 anos que há quase cinquenta tem actividade ligada ao comércio (interno) e à exportação. Já teve indústrias e hoje é dono (embora já se tenha afastado da gestão) de uma cadeia de cerca de 80 lojas em Portugal. Um senhor curioso, hiper-activo e que não desiste de pensar.

Contou-me hoje que em Julho de há um ano fez uma experiência que repetiu na semana passada. Em 2015, numa sexta feira cerca das 17 horas, ficou 15 minutos à porta de uma loja Primark a contar o número de sacos que saíam. Em Julho de 2015 contou 188 sacos cheios em 15 minutos. Ficou mais 15 minutos à porta de outras duas lojas, numa contou 27 sacos, na outra 7 sacos. Na sexta feira da semana passada, mais ou menos exactamente um ano depois, fez o mesmo à porta da Primark. Contou no mesmo período de tempo, 81 sacos meio vazios. 81. Uma quebra de 57%.

Bem sei que isto é uma história de um caso que, por si só, significa muito pouco. Mas para quem, como eu, lida com centenas de clientes deste tipo não é surpresa nenhuma. Bem pode o 2º Ministro sorrir enquanto sua abundantemente, bem pode a amostra de Ministro das Finanças exibir o sorriso idiota que o caracteriza, podem os deputados da geringonça estrebuchar, gritar e ameaçar. Não adianta, quem trabalha e tem que sustentar uma família sabe perfeitamente o caminho por onde nos estão a levar: de regresso à bancarrota e desta vez não será tão fácil como foi em 2011, 2012 e 2013.

Mas enfim, sobra-nos a tristeza, uma tristeza que pesa como chumbo porque não há nada que possamos fazer.

Da bela França

Às vezes acontece-me tropeçar em textos tão bem escritos que não sei se me envergonhe de tentar alinhavar letras na língua de Camões se hei-de guardá-los como quem guarda uma preciosa jóia de família. Este aqui abaixo é extraordinário e das coisas mais belas que li nos últimos tempos. Além da beleza da escrita relembra-nos que o que aconteceu ontem é muito maior do que parece.

É a grandeza da França que faz grande a vitória de Portugal. Alguns franceses terão dito que Portugal jogava um futebol nojento. Nem lhes responderia, mas alguns portugueses gritam agora que ganhámos à França de merda. Discordo. Ganhámos à grande e imensa França que guarda os modos de quem já foi Senhora do Mundo e ainda tem na cabeça acordes de Debussy e Bizet, ou não tivesse o hino mais bonito do mundo, no qual o de Portugal se inspirou.

E ganhámos à nossa maneira dramática. Caído o comandante, onze guerreiros portugueses souberam seguir o que o racionalíssimo treinador português – o extraordinário engenheiro – lhes dizia e foram, como um vinho que precisa de estágio, jogando melhor minuto a minuto. Se o jogo tivesse cinco horas, Portugal acabaria a jogar um futebol que nem Pelé ou Maradona saberiam jogar.

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Vírus

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Soube há pouco que um bug informático impede o Ministério das Finanças de transferir os reembolsos do IRS. Fui à procura do problema e descobri que é um vírus informático desenvolvido por um hacker de Venda da Gaita ali perto de Pedrógão Grande. O vírus é conhecido pelo nome “Martelarcontas 2.0.1.6”.

Curiosamente, tentei esta manhã pagar a 2ª prestação do IMI deste ano e o PC não me deixou. O anti-vírus diz que a máquina está infectada por outro vírus (este desenvolvido por um hacker residente em Rego do Azar, Ponte de Lima e chama-se “Atrasarpagamentodeimpostos 0.7.1.6”). Parece que só me deixa pagar o IMI dia 31 às 23:59. Desde já as minhas desculpas ao Senhor Professor Doutor Professor Senhor Mário Centeno.

No Future

kafka2Eu no Diário Económico de ontem sobre défices, Sex Pistols, futuro, falta dele, filhos e netos.

 

Enquanto os nossos pastores se entretêm na AR e no Governo a discutir de quem é a responsabilidade daquela décima a mais ou a menos no défice, cá fora estamos nós e os nossos filhos, e estes em particular condenados a perder o futuro.

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Mitómanos e progressistas

kafka2Qual é a dificuldade em perceber que sem capital não há emprego? Eu, hoje no Diário Económico

As reacções às palavras do actual primeiro-ministro sobre a possibilidade de emigração dos professores por comparação com as reacções às mesmas palavras do anterior, dizem o suficiente sobre a distorção do debate político à esquerda.

Mas enfim, a eterna e juvenil luta do Bem contra o Mal faz parte da visão socialista do mundo e, quanto a isso, não há grande coisa que possa ser feita. O importante nesta proposta de António Costa não é a hipocrisia ou a ausência de indignação, é o facto de revelar algum bom senso e realismo.

 

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Equus africanus asinus

asno

A ver se encerro, por agora, a minha participação nesta discussão idiota das escolas com Contrato de Associação. É que não tem ponta por onde se lhe pegue.
Estou-me literalmente nas tintas se são melhores que as escolas ESTATAIS ou piores, estou-me ainda mais nas tintas para se o Estado tem capacidade instalada desaproveitada (um tanga jeitosa, quem tiver dois dedos de testa sabe que mesmo que fosse verdade a médio prazo o custo/aluno tenderá para a média, basta não ser burro). Dado o consenso entre vocês e de que eu discordo (outra história) de que o estado deve pagar a educação via impostos a toda a gente, interessam-me duas coisas: o custo por aluno e a escolha das famílias.
Se é para pagar, quero lá saber onde os putos são educados, pelo mesmo preço, os pais que escolham. E nem sequer me interessa se fazem bem ou mal, é a escolha deles e se houvesse nesta choldra um mínimo de decência todos aceitaríamos a escolha desses pais. Custa-nos o mesmo ou menos, não é por estarem na escola ESTATAL que vamos pagar menos impostos, a escolha deles não nos afecta em nada e esta é a definição de estupidez, prejudicar os outros (neste caso impedi-los de escolher) sem que se ganhe rigorosamente nada com isso.
Mais, estou-me ainda mais nas tintas, dada a situação como ela é, se essa hipótese de escolha está acessível a absolutamente todos ou não, nem que fosse só um a ter essa liberdade, para mim seria melhor que não haver nenhum. E não está acessível a todos porque a maioria fica a dever muito pouco ao, comparativamente inteligente, asno.
Viver no meio de tanta mesquinhez, inveja e ignorância tira-me anos de vida. Como disse o outro: isto dá vontade de morrer.

O que está em causa é só e apenas isto que escrevi há duas semanas no Diário Económico. A maioria dos críticos dos Contratos não passa de uma manada de idiotas úteis:

“Tal como as reversões nas concessões dos transportes, toda esta polémica dos contratos de associação se resume a entregar ao PCP, via FENPROF e CGTP, o controlo total do trabalho na educação. São mais de cem mil professores e outros tantos funcionários (incluindo os transportes), um exército formidável que pode ser facilmente instrumentalizado conforme a conveniência do partido.”

 

Lubrificando

keep-calm-and-lube-up

Na impossibilidade de melhor vai-se lubrificando a Geringonça com o que houver à mão. Eu no Diário Económico de hoje.

Lubrificante

Toda esta polémica se resume a entregar ao PCP, via FENPROF e CGTP, o controlo total do trabalho na educação. São mais de cem mil professores, um exército formidável que pode ser facilmente instrumentalizado conforme a conveniência do partido.

O resto no site do DE.

 

Envelhecer

putedoNão me chateia nem me assusta envelhecer. O que me assusta é envelhecer e mesmo antes de ser velho, perder faculdades e começar a bater mal, a ver conspirações, bandidos e espécimes pouco recomendáveis em todo o lado. Nos que me são próximos, nos que me são distantes e nos mais ou menos. Caramba, um tipo podia bem envelhecer e morrer, nem que entrevado, mas com o cérebro a funcionar. Nem sempre é assim, é tramado.

 

Asco

kafka2Eu, a distribuir elogios no Diário Económico.

A blindagem dos estatutos das empresas, especialmente a banca, nunca teve outro objectivo que não fosse proteger certos accionistas à custa de todos os outros, dos consumidores de serviços bancários e dos contribuintes.

Homens e invertebrados

exemplo

Pode concordar-se ou não até com a existência de Forças Armadas, discutir-se o seu papel e a sua necessidade ou utilidade hoje em Portugal. Sendo consensual que existam não se pode em caso algum tratá-las como se fossem meras Direcções Gerais ou Repartições de funcionários (embora muitas vezes os próprios militares se ponham nesse papel, ver por exemplo os Sindicatos e Associações que formam).

O que o Ministro fez ao comentar um não-caso (ridículo) nos media e a forma como o fez, revelam o mais absoluto desconhecimento do que são as Instituições que tutela. Um Ministro da Defesa não trata os líderes das FA como se fossem seus funcionários. O mesmo para o Presidente da República que, tanto quanto sei, ainda é o Chefe Supremo das Forças Armadas e nessa posição não pode permitir que o Ministro desrespeite, como o fez, um seu Chefe de Estado Maior e aceitar sem discussão a demissão deste. “O Marcelo” só tinha que chamar o Ministro à sua presença e pedir-lhe satisfações pelo comportamento inqualificável impondo a sua autoridade como máximo responsável pelos homens e mulheres que, mais que servir o Estado, servem uma Nação com 900 anos e a representam muito mais que quem conjunturalmente é suposto governa-la .

Ao desrespeitar o General Carlos Jerónimo, Chefe do Estado Maior do Exército, o que o Ministro consegue é perder ele mesmo qualquer réstea de autoridade perante os milhares de homens e mulheres que conhecem o General e (pelas notícias que me chegam de quem o conhece bem) o respeitam e têm orgulho em serem comandados por um homem como ele. Não há muitos “General Carlos Jerónimo”.

As Forças Armadas vivem da disciplina, do espírito de corpo e do respeito pela hierarquia de comando. Com responsáveis políticos do calibre do ministro e do PR nada disto resiste nem vale a pena. Mais vale acabarem com elas.

Na foto acima o Major-General Carlos Jerónimo a ensinar os invertebrados políticos como se lidera.

Imperativos

kafka2I call ‘moralism’ a system of normative moral principles sufficient for the positive regulation of life. In other words, moralism excludes the possibility of morally indifferent actions. According to it, every action must be characterized as either fulfillment or violation of duty. [Leonard Nelson, System of Ethics, Yale University Press, 1956, p. 89.]

É muito por isto acima que tenho muitas vezes dificuldade em definir-me como sendo de direita sendo certo que de esquerda, nos tempos que vivemos, não sou de certeza (provavelmente sê-lo-ia há 150 anos, hoje não me revejo em nenhum dos dois lados da coisa).

O que é absolutamente insuportável na esquerda deste século é o moralismo arrogante e a pretensa superioridade moral, características que, quer-me parecer, acabam por ser comuns a uma direita mainstream que existiu durante muito tempo até há poucos anos. Basta ver as audições do Frank Zappa no Congresso americano nos anos 70-80. O que me encanita, é que se fosse hoje vivo, o papel dos moralistas seria desempenhado pelo lado oposto da barricada. Letras como a de Bobby Brown Goes Down, ou Dinah Moe Hum são, hoje, extremamente ofensivas mas para a esquerda beata e moralista. Hoje, seria varrido na imprensa, nas rádios e nas universidades e estaria atulhado de processos da moral majority desta vez de esquerda. Continue reading “Imperativos”

Democratas

kafka2“Freedom is the freedom to say that two plus two make four. If that is granted, all else follows.”George Orwell, 1984

Não compreendo um Mundo onde a liberdade não seja o valor mais alto e o princípio de onde decorrem todos os outros valores. Ela expressa-se de muitas formas mas, acima de todas as outras expressa-se pela possibilidade de se pensar o que se quiser o dizer o que se entender livre de coação. Até pela maneira como me expresso aqui e outros sítios sei bem que forço os limites dessa minha liberdade, mas faço-o porque não estou disposto a abdicar dela um milímetro que seja. Nem entendo que isto não seja pacífico, não percebo que possa seja de que maneira for posto em causa. A um homem por ser tirado tudo, se lhe for tirado isto, não lhe resta mesmo nada. E começa sempre por pequenas coisas.

Vem isto a propósito de uma discussão a que assisti no twitter onde há quem não perceba que condenar a disruption dos comícios do Trump é defender, não o dito, mas a liberdade sagrada que ele e os seus apoiantes têm de se reunir e defender o que quiserem sem interferência alheia. Mas são assim os democratas, a liberdade é um bem precioso, mas é só a deles. O curioso, é que esta gente no twitter indígena que provavelmente rasga as vestes na defesa “dos valores de Abril” é incapaz de os defender para as opiniões das quais não gostam. Pelo contrário, diria que apoiam a proibição constitucional de Partidos fascistas, defendem a liberdade de associação, mas só das associações de que eles gostam ou que acham toleráveis. Sem o perceberem (digo eu, às tantas sabem-no perfeitamente) não são melhores, pelo contrário, que os que proíbem ou defendem que devem ser impedidos de se expressar. Cada vez mais democracia e fascismo se confundem e talvez um seja o fim inevitável da outra.

Bordel

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Já se escreveram rios de tinta sobre o problema dos manuais escolares e da sua permanente alteração. É o óbvio ululante e quase unânime (excepto entre os interessados) que não passa de um lóbi de editoras, professores e escolas que vive de rendas. Para todos eles é muito conveniente que os manuais sejam renovados o máximo de vezes possível, é disso que vivem.

O que sei do assunto é enquanto pai e nem uma vez em mais de doze anos consegui aproveitar manuais de anos anteriores. Manuais que além de mal escritos, desadequados relativamente aos exames (é ver os de matemática do 12º ano e comparar com os exames) e, nas cadeiras em que se prestam a isso, ideologicamente marcados (o manual de História do 10º ano da cria cá de casa incluía uma ode ao Che) são, regra geral, uma merda, ano após ano e sempre novos e diferentes. Isto para não ir aos livros de exercícios que se multiplicam como coelhos.

O Governo quer dar manuais “gratuitos” aos miúdos do primeiro ano. Não se percebe o que fizeram os do 2º, 3º, 4º, etc aos socialistas para porem os pais destes a pagar os manuais dos do 1º ano, mas enfim. Com isto, o Governo faz duas ou três coisas:

Aumenta o preço dos ditos manuais;

Aumenta a despesa do Estado;

Põe, mais uma vez, remediados e ricos a pagar coisas “gratuitas” a outros remediados e ricos.

O que devia fazer, este e os anteriores, era partir a espinha à porcaria do lóbi que enriquece à custa de quem precisa. Só que para isso é preciso tê-los no sítio e as elites merdosas que pastoreiam um povo bem melhor que elas definem-se também pela falta de grãos. Ou são elas próprias as beneficiárias do esbulho a que somos sujeitos.

Para ajudar, leio por aí elogios a esta medida. À aposta na educação das crianças, à consciência social e assim. Entre vomitar e mandar esta gente toda pra puta que os pariu, prefiro a segunda. Infelizmente não tenho outra solução se não pagar e sustentar a cambada de chulos, até ao estoiro final.

Animal farm

flipAinda a liberdade de expressão. Repito que, para mim, não há bem mais precioso, não há nada que se compare a ser livre de pensar e exprimir esse pensamento como quiser, onde quiser e quando quiser, sendo que ninguém é obrigado a dar-me uma caixa de sabão e um megafone. Da mesma maneira, não entendo que seja quem for, por mais execrável que a opinião possa ser, seja de que forma for impedido de a exprimir, ou punido por fazê-lo. A frase “I disagree with what you say, but I will defend to the death your right to say it” é erroneamente atribuída a Voltaire mas resume o que devia significar viver numa democracia no que respeita ao pensamento e à sua livre expressão.

Nas últimas décadas tem prevalecido a cultura americana e mais coisa menos coisa chega cá. No meio de muita coisa boa chega a “diversidade”, a tolerância intolerante, a “minority sensitivity”, o “discurso de ódio” e mais uma carrada de inanidades dignas de atrasados mentais.

Os casos sucedem-se, por exemplo este:

“a university “fitness to practise” panel concluded that he was entitled to his opinion on the issue of gay marriage but that there was a danger he “may have caused offence to some individuals” by voicing it.!

Reparem, o problema não é a opinião, é exprimi-la. Fantástico.

Se quereis mesmo ficar assustados com o que o fascismo reciclado nos traz, é ver este artigo na Vanity Fair. Mas há muitos, cada vez mais e no nosso caso, esse fascismo moderno está bem representado no “irreverente” e progressista Bloco de Esquerda que o Partido Socialista Novo parece querer seguir, nos jornais, nas escolas e na Academia. Alguns dirão que isto são só uns idiotas armados em cães com pulgas. A esses relembraria o Padre Niemoller: first they came for the jews…

Fahrenheit 451

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Talvez por me ver a mim mesmo como uma espécie de moço do balde deste blogue e por tendencialmente não me vedar no que respeita a opiniões e termos usados, tenho para mim, que no meio de toda a bosta socialista e colectivista em que tenho que marinar, não há bem mais precioso do que poder expressar-me livremente, usando os termos que bem me apetecer sendo o único limite difamar alguém. Não devo nada a ninguém a não ser à minha família e não tenho nenhuma obrigação de respeitar cânone nenhum nem de escrita nem de opinião nem de coisa nenhuma. Nem eu nem ninguém.

A existência de uma STASI ou uma PIDE só foi possível porque existiram bufos e fascistas anónimos suficientes para as alimentar, foram as pessoas comuns que as sustentaram e lhes deram uma razão para existirem, foram pessoas como as que agora denunciam a página do Pedro Boucherie Mendes ao Facebook ou criam petições para impedir a venda do livro do Henrique Raposo. Estes incapazes, estes fascistazinhos são uma longa tradição neste pedaço de sebo à beira mar plantado. Nada de novo no Portugal dos Messias socialistas. O twitter paródia ao Passos Coelho sobreviveu a toda a legislatura, o twitter paródia ao Messias Costa nem três meses se aguentou após ser formado o novo governo antes de ser fechado compulsivamente; o dito humorista sem qualquer sentido de humor João Quadros, há anos que insulta e difama quem pode e quem não pode nas redes sociais, mas como é “de esquerda”, não tem denúncias (e ainda bem que não as tem); agora, em virtude da presença do Henrique Raposo a propósito do seu livro no programa do Pedro Boucherie Mendes, os fascistas, os bufos nacional-socialistas conseguiram fechar-lhe a conta do facebook. Não vem mal ao Mundo, há outras plataformas e o FB não é o alfa e o ómega da liberdade de expressão. O que é fodido e diz muito de vocês, dos vossos vizinhos e dos democratas que por aí andam, é que alguém se tenha dado ao trabalho de denunciar o facebook do Pedro pelo crime de opinião. Existisse PIDE e tinham todos cartão, filhos da puta é coisa que não falta. Já agora, este filhos da puta serve para todos os subscritores da petição que tenta impedir a venda de um livro e de todos os que lestos na defesa do livro e da cultura quando lhes agrada, estão agora calados.

11 anos

Faz em Maio deste ano onze anos, estava eu na minha cidade favorita, San Diego, e recebi um mail do meu irmão a dizer: “big blogging news”. Na altura ambos escrevíamos num falecido blog chamado “A Baía dos Lobos” e éramos leitores ávidos d’O Insurgente. Não perdia o que escreviam o Miguel Noronha, o André Azevedo Alves, o Fernando Cruz Gabriel, o Manuel Sequeira e mais quem não me lembro agora. Nesse dia em Maio fomos convidados a fazer parte desta família nascida poucos meses antes. Desde aí tem sido one hell of a ride. Conheci pessoas interessantíssimas, do melhor que este pobre país produziu, ganhei amigos para a vida e para mim O Insurgente é um clã. Neste 11º  que se celebra hoje, parabéns aos fundadores, a nós todos e a esta extraordinária família de insurgentes que, sempre à pancada uns com os outros, se estima e acima de tudo se respeita.

E um obrigado pessoal aos leitores que nos têm acompanhado quer concordando quer discordando de nós, bem hajam. Venham mais onze.

Just do it

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Há uns dias escrevi isto e pedi-vos por favor que se calassem, que falassem menos e fizessem o que têm a fazer, seja lá o que for que querem fazer.

Não me preocupa o que vai acontecer ao Orçamento ou os rectificativos que inevitavelmente serão executados este ano. Não me preocupa que este Orçamento seja mais ou menos fantasioso (todos são) e com pouca aderência à realidade. Não me chateia nada que nos dividam em portugueses de primeira e de segunda, é o que sempre acontece com o socialismo à boa maneira, sempre foi assim e não vai mudar. Tudo isso são trocos. O que me preocupa, incomoda e prejudica de sobremaneira é a incerteza e a esquizofrenia de Vexas e da vossa oposição. Dê lá por onde der parecem todos entretidos em jogos florais enquanto cá fora, no Mundo das pessoas que não pára, estamos todos à espera. O vosso grupo de doutorados falhados, filósofos de vão de escada e professores que se sujeitam, por deslumbramento (?) a perder todo o capital de credibilidade que ganharam numa vida de trabalho, entretém-se a mudar o Mundo pel’ O Triunfo da Vontade.  Por mim, já  só quero saber com que linhas me coso. Se as loucuras da menina Mortágua ou as aleivosias do Ministro Adjunto são para seguir ou não. Se os disparates dos doutorados falhados que compõem a vossa bancada são para levar a sério, se o que diz o Primeiro Ministro ou o Ministro Vieira da Silva são para levar em frente. Se são, façam o favor, não se inibam. Deixem-se é de merdas por favor, já sei quase ao cêntimo e tudo o resto constante o que vou vender e cobrar até 31 de Dezembro. O problema está neste “tudo o resto constante”, façam o favor de ter juízo e o que tiverem a fazer, façam. Mas façam-no de uma vez, por favor.

Quando à oposição, vejam se fazem juz ao nome, já nos chega a quantidade de malucos que tem o Governo refém, só nos faltava que ficassem vocês também reféns de meia dúzia de doidos varridos.

Bostas

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Não me recordo de em 2011 ter sido assim. Ou em 2005. O que percebo nesta loucura de movimentações no controlo de uma quantidade de posições chave no Estado e noutros sítios, mesmo privados, é o suficiente para me pôr pior que uma galinha sem cabeça. Pelos vistos já só fica a faltar o lugar do Governador do Banco de Portugal e a coisa assenta. Enfim.

Em Novembro escrevi isto no twitter:

“qdo os dados económicos deste trimestre (OUT/NOV/DEZ) aparecerem na miséria que vão ser, culpem a “direita radical””

Lido permanentemente com mais de 100 pequenas e médias empresas e na segunda semana de Outubro assim que começou a confusão da Frente de Esquerda houve uma travagem súbita da actividade. Desde dia 15 de Janeiro ando a contactar/conversar com clientes um a um. No dia 9 de Fevereiro escrevi uma carta aberta ao Ministro das Finanças. Dia 11, outro post sobre qual é o sentimento dos meus clientes e hoje posso confirmar que como explico nesse post, são os meus clientes do Norte que têm razão. Repito, são mais de 100 empresas. Hoje posso confirmar o seguinte:

Na minha actividade (comércio) que tem uma elasticidade alta, desde Outubro que se nota uma travagem. Nas últimas quatro semanas parou. Mas parou mesmo. Da minha parte, acabo de perder 12% dos clientes, uma quebra de mais de 10% nas vendas depois de dois anos de crescimento, vários estão há quatro semanas praticamente sem vender (mas é sem vender mesmo, nada, zero!), uns quantos vão fechar a porta definitivamente e já nem lhes entrego as encomendas que tinham para esta altura (alombo eu com o stock). Isto é 2011 reloaded direitinho. E o que custa, e custa-me comó caralho, é que nada disto era necessário. As pessoas e o mercado já estavam adaptados aos cortes nos salários, aos impostos, a tudo. Vêm agora os génios tipo o doutorado falhado João Galamba, ou o filósofo de vão de escada Porfírio Silva, explicar-me a mim, eles que nunca pagaram um salário, que nunca arriscaram um pêlo em merda nenhuma, que não, não é assim. Eles é que sabem. Andámos todos enganados, fizemos sacrifícios desnecessários e em vão, não percebemos nada disto. São uns merdosos de cu alapado na AR que sabem.

Ando eu e mais umas centenas de milhares de burros que tiveram o azar de ir parar a sócios gerentes, mais os trabalhadores disto tudo a fazer das tripas coração para me virem estes putos de merda a cheirar a cueiros, que não fazem ideia nenhuma de coisa nenhuma, aos gritos, querer ensinar-me. Quem julgam eles que são? Uma bosta, é o que é.

Dá para se calarem, um bocadinho? Por favor

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A bancarrota de 2011 que levou ao pedido de ajuda externa deixou-me pior que estragado e a subsequente cobardia do Governo PSD/ CDS deixou-me enervado e irritado como nunca. Já o que o actual Governo anda a fazer só me deixa triste, como diria a senhora minha mãe, triste como a noite.

Embora considere que muitas das opções do Governo são prejudiciais para nós quase todos, não tenho problemas em discutir se são ou não. Embora me pareça que muito disto não passa de politiquice para conquistar votos para uma eleição que, no PS acham que será antes de 2019, não discuto que não haja por trás também boas intenções. Tudo isto é relativamente secundário.

O que me deixa numa tristeza que só eu sei, é a incapacidade desta gente, a começar nos caceteiros de serviço na bancada na AR e a acabar no Ministro das Finanças, é que não percebam que, desde Outubro, isto está tudo suspenso, à espera, sejam empresas, sejam famílias.

Provavelmente todos neste governo leram Maquiavel, alguns até dirão que é com base nele que conduzem a acção política. Infelizmente não há nada pior que um ignorante com umas luzes de teoria, mas pronto, é o que há. Se querem revogar e reverter seja lá o que for que querem, façam-no de uma vez. Se precisam aumentar impostos, aumentem-nos de uma vez. Se querem distribuir dinheiro e recursos pelas clientelas, se querem fazer uma revolução, façam-no. Mas, por favor, calem-se. Todo o santo dia, desde Outubro, há alguém com peso na actual minoria que nos Governa e respectivas muletas que tem alguma coisa a adiantar cheio de talvez, se, conforme, no caso de, etc.

O que é um plano? Um plano não passa de uma racionalização da incerteza. Quem faz um plano fá-lo para minimizar a incerteza. Usa as variáveis que pode ou consegue e, de acordo com isso, age. Seja um turista, seja uma multinacional. Por maioria de razão na medida dos recursos nós nas 378.000 empresas pequenas não temos o controlo da maioria das variáveis que afectam o negócio. Controlamos muito menos que numa grande empresa. Qualquer negócio é incerto, pode ter o melhor plano do Mundo, pode ter a melhor estratégia, os melhores recursos e mesmo assim falhar. A taxa de mortalidade empresarial é de 50% ao fim de dois anos e de 70% ao fim de cinco anos.

Dito isto, o que é o pior e que nem sequer é discutível, que se tem passado desde Outubro? A incerteza. A dificuldade em perceber exactamente algumas variáveis relevantes para qualquer plano que quer pessoas, quer empresas queiram fazer. Ninguém sabe nada. Um exemplo: o aumento do ISP. Sim já se sabia que viria a ser aumentado. Só que, de repente, acordámos um dia de manhã e tinha sido aumentado nessa noite. Foi decidido numa sexta feira à noite aumentá-lo no dia seguinte. O Secretário de Estado das Finanças (que ainda nos vai fazer ter saudades da aberração Núncio) não há dia que não venha com ideias, o Ministro da Educação é conforme acorda de manhã, muda isto ou aquilo, o líder da coisa é dia sim dia não com mais um conflito, mais uma declaração, mais um guerrinha, mais sei lá o quê.

Calem-se por favor. O que têm a fazer, façam e façam-no como aconselhou Maquiavel, mas calem-se por amor de Deus! E despachem-se.

O paquiderme

kafka2Agora para fugir à depressão geringonçal. Os portugueses somos uma Nação extraordinária. Sim, temos uma data de atavismos e idiossincrasias só nossas que não nos ajudam. Apesar disso e de não existir povo sem defeitos colectivos, ainda há dias no twitter apanhei uma conversa onde se referiam palavras para as quais não existe tradução em inglês. Um bife que nos conhece falou no “desenrascanço”. Julgo que para isto não existe tradução em língua nenhuma e, apesar de todas a críticas que possam ser feitas a esta característica, é imbatível. É só uma questão de estar enquadrada num contexto que a possa aproveitar. Não é por acaso que portugueses trabalhadores, gestores ou empresários noutros países são apreciados e bem sucedidos. É esta capacidade de, sob pressão extrema, resolver problemas com uma facilidade estonteante. Da minha experiência, um alemão ou um americano (que são umas máquinas de eficiência) não conseguem. Andam eles tipo galinhas sem cabeça e se houver um português por perto, no pasa nada.

Dizia-me há semanas um cliente que como eu, ou mais que eu, conhece Mundo, que os empresários em Portugal, pequenos ou grandes, são heróis. Todo o contexto está montado para os travar e impedir de produzir e, e isto é mesmo incrível, mesmo assim, existem, crescem e muitos são bem sucedidos. Os empresários que se dão bem em Portugal, em qualquer outro sítio do Mundo desenvolvido, seriam uns tycoons.

A produtividade do trabalho em Portugal é baixíssima. Curiosamente, quando sujeitos a regras alemãs, os trabalhadores portugueses são super-produtivos. A ladainha é a gestão. Não, os gestores portugueses sujeitos a um contexto alemão, francês ou americano também são produtivos e bons tal como os trabalhadores.

So, there’s something terribly wrong with this Country, isn’t there?

Há. Sempre o mesmo e desde sempre, desde que o outro aviou a mãe: o Estado. Com um povo destes, desenrascado, capaz do melhor, com capacidade de trabalho e de risco, hoje educado, o que falta? Eu digo-vos: que o filho da puta do estado e dos governos saiam da frente!!!

Mas não, a cada um que se sucede no pastoreio, vem outro pior. Que nos sufoca mais, que nos taxa mais, que nos exige mais papelinhos, mais facturas, mais taxas, mais licenças, mais justificações, mais relatórios, mais explicações e mais a puta que os pariu. Já Camões dizia de forma premonitória: o rei fraco faz fraca a forte gente.

É um estado paquidérmico, obeso e fraco que nos impede de cumprir um destino que podia ser outro. Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado. Ou coisa que o valha.

WTF?

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Há alguns anos tinha um indicador de que em seis meses haveria uma queda na actividade. Era Setúbal. Quando lá começava a haver retracção no comércio era certinho que seis meses depois era generalizado no país inteiro. A zona de Setúbal e próxima (Barreiro, Montijo, Palmela) era sempre o primeiro sítio a levar pancada e já nos anos 90 era assim. De 2000 para 2001 e de 2002 para 2003 funcionou como um relógio suíço. Setúbal caiu, seis meses depois caiu o país todo.

Desde 2009-2010 perdi o indicador dos problemas, tudo isto entrou em queda. A partir do primeiro trimestre de 2014 senti uma recuperação que começou no Norte. Andavam algarvios, alentejanos e lisboetas deprimidos (tive com eles dias de me apetecer desistir) e a Norte dar com clientes animados e a crescer. Quero no entanto crer que, apesar de a partir do segundo semestre esse optimismo se ter alargado ao país todo, não foi indicador de nada. Por qualquer razão, a Norte recuperou-se algum optimismo antes de ele se estender ao resto. Isto porque se foi indicador, está na altura de pôr o cinto de segurança. Parece parvo mas o facto é que este mês/trimestre, a coisa virou ao contrário, se a Sul e na Grande Lisboa, há optimismo e esperança, a Norte há cuidado, mais rigor e algum temor. Não sei o que pense disto.

A cátedra dos jumentos

kafka2A necessidade do transcendente é imanente (perdoe-se-me a contradição) à condição humana. Nesse sentido percebe-se que a maioria dos ateus substituam a religião por outra coisa qualquer, nomeadamente as ideologias com ênfase nas totalitárias que para tudo têm resposta. Vem isto a propósito de ter ouvido hoje (com grande esforço e sacrifício, sublinho) a Dra Elisa Ferreira, prestigiada figura do meu Porto, a debitar asneira na ETV. Percebo que pessoas menos prestigiadas que a Dra Elisa Ferreira como a menina Mortágua ou o Professor Louçã, em virtude da fé, andem pelos quelhos onde se parece mover a senhora para quem o dinheiro dos contribuintes é o “dinheiro do PS”. A Fé é de difícil discussão. Ora bem, falando de cátedra, como falam quase todos os ignorantes, a insigne figura portuense, queixava-se dos baixos impostos e burocracia(!) sobre as empresas neste ou naquele país (Holanda por exemplo), chama-lhe imoral e pouco ético. Insurgia-se conta a Zona Franca da Madeira e a a race to the bottom da concorrência fiscal no que respeita às corporate taxes. Infelizmente, a cada pouco, lá tenho que vir eu com esta história. Já são dois artigos no DE e vários posts neste blogue.
Ora bem, para a Sra Dra “Dinheiro do PS”, com certeza são os carros que pagam o IUC ou o ISV, não são pessoas. Saiba que uma empresa é um objecto ainda mais inanimado que um carro e, pior, abstracto. Ou seja, pode dizer-se que as empresas pagam impostos no mesmo sentido em que se pode dizer que são os carros que pagam o IUC ou as casas que pagam IMI.
No fim de qualquer cadeia fiscal está uma pessoa a pagar o imposto, seja ele qual for. No caso do IRC quem o paga (que são pessoas) depende essencialmente de duas coisas: dimensão e abertura da economia. Assim, pagam-no três tipos de pessoas: accionistas, trabalhadores – sob a forma de salários mais baixos – e consumidores (preços mais altos). No caso dos EUA, por exemplo, dada a dimensão da economia, o IRC recai mais sobre os accionistas que no caso português, por este ter uma economia pequena. Além de pequena é uma das economias mais abertas do Mundo, estando por isso sujeita à concorrência internacional, o que torna a subida dos preços (o IRC seria mais pago pelos consumidores) mais difícil. Ao ser mais aberta torna também o capital ainda mais móvel o que salvaguarda essencialmente os accionistas. Assim, em Portugal, repito, uma economia pequena e aberta, quem paga o IRC? As empresas são ficções jurídicas que só servem para organizar capital e trabalho, empresas pagam tanto os impostos, como os carros pagam ISV ou as casas pagam o IMI. Em Portugal o IRC é essencialmente pago pelos trabalhadores. Ou seja, neste caso, vir com merdas sobre a dicotomia impostos sobre empresas/impostos sobre o trabalho é idiota. Os impostos sobre as empresas somam aos impostos sobre o trabalho, são os mesmos que pagam ambos. Eliminar o IRC (o imposto mais estúpido do Mundo) favorece quem trabalha, investe ou consome, não há mais ninguém a ser favorecido.