Desprestígio do ensino vocacional: um golpe igualitário

Podem encontrar o meu artigo completo, no site do Instituto Ludwig von Mises Portugal.

O momento em que o aluno decide o seu próprio rumo escolar é um dos mais determinantes para a sua vida e não é vantajoso para ninguém que essa decisão seja tomada de forma leviana ou desinformada. Contudo, se um excesso de cautela leva a que se subestime a autonomia dos indivíduos, abre-se caminho a uma intromissão política crescente que irá transformar as salas de aulas em espaços de nivelamento na mediocridade e de escassez de criatividade, forçando os alunos a seguirem um ensino obrigatório, alargado a longo prazo, e uniforme a nível programático.

Se a ânsia de prosseguir políticas educativas racionalistas acaba por fazer vergar a vontade dos alunos e passa a invadir um espaço de influência que deveria estar reservado essencialmente ao indivíduo e à família, essa tendência política irá infantilizar a capacidade de escolha dos alunos e poderá dar azo ao estabelecimento de metas irrealistas a nível económico, político e social. Uma meta irrealista nesta matéria será, por exemplo, – e porque os objectivos vocacionais não se livram do risco de incorrer em racionalismo planificado – almejar que seja atingido um determinado número de inscrições em cursos técnico-profissionais pela modalidade de ensino dual, e não ter em conta a capacidade de absorção do tecido empresarial nacional. No caso português, recorde-se que predomina uma racionalização das políticas planificadas centralmente, o que prejudica ainda mais a persecução de objectivos educacionais que devem ser geridos de acordo com as especificidades e oportunidades regionais.

Sob a justificação de igualdade de oportunidades, sacrificam-se, muitas vezes, a liberdade e a responsabilidade; nomeadamente, a liberdade de não gastar tempo inútil (12 anos de escolaridade obrigatório, no caso português) em programas escolares generalistas quando não há intenção de prosseguimento de estudos, e a responsabilidade de, mediante as reconhecidas capacidades pessoais, verificar as possibilidades reais do mercado de trabalho. As oportunidades vão estando previstas e têm sido dados passos positivos desde os anos 80, passada a fase de extinção do ensino comercial e técnico que aconteceu a partir de Junho de 1975, pelo desejo de combate à perpetuação das desigualdades sociais. Um golpe ideológico que muito terá contribuído para desprestigiar as profissões técnicas. Este espírito revolucionário cunhado nas decisões políticas, indiferente às necessidades de mão-de-obra qualificada e de diversidade de competências, levou a que fosse tentada uma reinvenção do ensino profissional, em 1983, por José Augusto Seabra, mas que não alcançaria sucesso devido à falta de adesão dos alunos, já pendendo preferencialmente para o continuação dos estudos. Só em 1989 é que viria a arrancar a reforma do ensino secundário que, entre outros objectivos, procurava promover a multiplicação da oferta formativa profissionalizante.(5)

As palavras de Merkel, já aqui referidas, causaram escândalo porque tem vindo a persistir um problema grave de expectativas entre os licenciados. A maioria das pessoas é atingida, directa ou indirectamente, quando confrontada com esta desagradável realidade (alunos, familiares de alunos, docentes, etc.). Mais do que um problema de massificação e de mediocridade no ensino superior, sofre-se pelo problema inevitável da falta de credibilidade (naturalmente, em consequência dos dois anteriores).

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A progressiva inaptidão de um famoso ou o medo de ser linchado

Em alguns espaços informativos e de comentário político – recordo-me em particular do Prós e Contras de ontem – vai-se ouvindo falar do perigo da “justiça espectáculo”. Curiosamente, ou não, este alerta é pronunciado pelos mesmos que se referem a uma “crise da democracia”. Parece-me que há aqui um mal entendido, mas a nebulosa utilização, ou invenção, de certos conceitos também não ajuda.

Se uma pessoa preza sobretudo a privacidade e a discrição, tem interesse em escolher uma casa mais isolada, com as desvantagens que essa decisão comporta; por exemplo, a desvantagem de estar mais desamparada em caso de emergências ou o risco de ser esquecida pelos amigos no dia-a-dia. Por outro lado, se determinada pessoa privilegiar o hábito de ser o centro das atenções, exibindo-se como figura de proa ou vedeta, tenderá a situar-se onde as luzes o alcancem permanentemente. Claro está, se as coisas começarem a correr em seu desfavor, continuará exposta num espaço de centralidade no espaço público. Todas as decisões têm um preço a pagar. Agora, apliquemos isto à democracia moderna – aquela em que nunca chegamos a conhecer com proximidade aqueles que nos representam. José Sócrates deverá ter uma eterna dívida de gratidão para com o mediatismo que deu visibilidade à sua esperteza, habilidade discursiva e ao efeito aglomerador do seu carisma entre a numerosa claque de fãs, em especial na juventude partidária, que fez despertar num dado momento político. A génese da “lufada de ar fresco” socrática remonta a anos em que eu ainda nem tinha idade para votar; ainda assim, é precisamente nessa condição inexperiente que posso testemunhar, de diferente prisma, a irracionalidade que envolve a entronização de figuras políticas em democracia, por ter visto tantos da minha geração, rendidos na defesa de um líder político que mal percebiam e ainda pouco conheciam (aqui ainda temos a atenuante da tenra idade mas há quem continue a fazer a mesma figura aos 40 anos). A democracia e a massificação de opiniões sobrevive disto; de um deslumbramento que não se apercebe da sua falta de conhecimentos e de fundamentos racionais. Assim, defende-se a ilusão de que todos gozam de autonomia, racionalidade e igual capacidade de emitir opiniões informadas, livres de paixões.

Quem precisa de sustentar esta ilusão para ser eleito, está bem ciente da forma como ela funciona. E também deveria perceber que, onde existem simpatias desregradas, também há legítimo espaço para o outro lado da moeda: ódios desregrados, tanto da parte daqueles que nunca nutriram simpatia pela figura em causa, como por aqueles que reverteram a simpatia em antipatia, ao sentirem-se desapontados ou atraiçoados.

Ninguém precisa de temer que a justiça ceda ao espectáculo porque, seguramente, isso não irá suceder. Há uma hora e um espaço para tudo. Talvez por saberem que isso não vai suceder é que insistem em confundir aquilo que é do âmbito da justiça com aquilo que é do âmbito da sociedade civil ou do âmbito do jornalismo, visto que o julgamento informal por parte dos portugueses está a deixar muitas figuras numa vivência confrangedora e desprovida de melhores argumentos. Vão ter que se habituar … aquele que vive pela espada, pela espada morrerá.

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A Igreja acolhe o pecador ou o pecado acolhe a Igreja?

Quando existe pouca vontade de discutir um assunto com seriedade e abertura, é frequente arranjar rótulos rápidos que enterrem o adversário no lamaçal. Eu destaco dois que são muito populares em dois domínios diferentes: o de “fascista” e o de “fariseu”. O rótulo de “fascista” está tão sobrecarregado e esvaziado que nem precisa de mais ridicularizações e considerações. O rótulo de “fariseu” serve um propósito semelhante e revela a mesma falta de criatividade, neste caso, de quem tenta apropriar-se do lado benevolente da falsa dicotomia entre amor (caridade) e justiça. Transpondo isto para o domínio político, corresponderia à exploração da dicotomia entre liberdade e autoridade.

Dos muitos usos que o termo “fariseu” tem tido durante séculos, a mais recente aplicação tem sido explorada em consequência da vaga de entusiasmos que tem cercado o Papa Francisco, e nomeadamente, para irmos directos ao exemplo mais recente, em consequência do ímpeto com que muitos olham para o Sínodo dos Bispos dedicado à família, depositando esperanças numa deformação da doutrina à medida das exigências e impulsos de cada um. Num contexto de grande polvorosa mediática em que as vozes que mais sobressaem são, tantas vezes, as daqueles que estão fora da Igreja e nem sequer querem entrar, chama-se “fariseu” a todo aquele que diz o óbvio: que o amor (caridade) pode ser interpretado como a roda dentada de uma engrenagem que não funciona sem a presença de outra roda dentada, a justiça.

Por outras palavras, se o homem tem uma dignidade intrínseca e total liberdade para dizer “sim”, se quer dar prioridade à vivência espiritual em detrimento dos bens materiais temporários, ou seja, se escolhe a conversão, é porque crê que é ele que precisa de ajustar a sua conduta e as suas prioridades; se passa a confiar nos ensinamentos da Igreja é porque lhes reconhece superioridade, tanto pelo discernimento com que passa a interpretar a realidade, como na utilidade prática que encontra quando decide aplicá-la. Visto que cada pessoa é livre de decidir o seu destino, quer isto dizer que a porta da Igreja está incondicionalmente aberta para acolher todos aqueles que se dirigem a ela com arrependimento; não é a Igreja que deve especializar-se em segmentação de mercado com vista a atrair as pessoas através de pacotes diversificados, vergando a sua coerência doutrinal para servir as mudanças de humor e as fraquezas humanas que possam alastrar com aceitação na sociedade.

Não é curioso observar que, entre os mais intransigentes defensores do laicismo dos Estados – sempre horrorizados com a mais leve possibilidade de haver algum derrame de influência espiritual sobre as instituições públicas – podemos encontrar empenhados promotores da inclusão dos vícios políticos na esfera espiritual? Afinal, de que vale defenderem a separação entre Estado e Igreja, se aquilo que pretendem é secularizar os processos, democratizar as decisões, amolecer a doutrina e incutir na Igreja as inconstâncias tipicamente parlamentares e a confusão inerente à mutabilidade da legislação do dia-a-dia?

É fácil identificar uma certa sintonia entre desequilíbrios que caracterizam as democracias ocidentais (desequilíbrios que se geram, em parte, com a ajuda e por culpa do eleitorado) e aquilo que são as reivindicações e anseios da opinião pública ocidental face ao que se passa na Igreja Católica. Os desequilíbrios vão-se revelando das seguintes formas:

1 – Negação da culpa e desresponsabilização pessoal;
2 – Banalização da lei, associada aos amontoados legislativos, e consequente descredibilização da justiça;
3 – Indiferença, ou até aversão, à autoridade (seja ela qual for);
4 – Insaciável apelo a mudanças constantes, adaptadas às singularidades de cada momento e que sejam reflexo dos interesses dos grupos com maior influência. Multiplicação de solicitações igualitaristas;
5 – Volubilidade das leis servindo de incentivo à corrupção e dissolução moral.

Se as leis de uma Nação mudam com o vento, quem as levará a sério? Se perdem a sua razão de ser, deixando de demonstrar um padrão simples, fixo e imutável, o que é que as torna preferíveis e respeitáveis? Contudo, esta é precisamente uma das faces das democracias modernas e um dos factores a ter em conta quando observamos o aumento da criminalidade e do sentimento de impunidade. Quando à dissolução moral, podemos encontrá-la associada também à desresponsabilização pessoal e chegamos ao combustível das promessas eleitorais que exploram o atomismo social e a dependência dos cidadãos em situação de fragilidade.

Se isto faz sentido no domínio político, não será óbvio que a Igreja não tem nada a aprender com os métodos mundanos que estão na moda? Ou as “tiranias da maioria” deixam de ser aborrecidas e aturam-se bem desde que preconizem uma agenda que nos agrade? Na mesma linha de comparação, se percebemos as consequências resultantes das ideologias que levam a um esvaziamento das funções e das responsabilidades pessoais, se conseguimos ver a dependência em que se lançam todos aqueles que acreditam no nivelamento e na acção afirmativa do Estado, não conseguimos também estabelecer ligação entre, por um lado, a negação de culpa e, por outro, o desespero e a angústia de ficar aprisionado a ela por não ter existido um farol moral que encorajasse a remodelação pessoal? Por fim, é fácil prever que quanto mais a Igreja fosse beber aos apelos e métodos que a opinião pública encoraja, mais descredibilizada passaria a estar a sua própria autoridade, menos solidez teriam os seus ensinamentos e menos nítida seria a Verdade.

Neste texto da Maria João, no Observador, encontramos uma alusão à parábola do Filho Pródigo e isto leva-me ao ponto em que comecei: a dicotomia entre amor e justiça. Por sua vez, a parábola levou-me a pensar naquilo que os bons alunos costumam sentir quando o professor fica eufórico com uma boa nota de um aluno que costumava estar entalado nas negativas há imenso tempo, e que precisou de empreender um grande esforço para alcançar um aproveitamento escolar satisfatório. Obter um 4, numa escala de 1 a 5, é algo trivial para alunos sem dificuldades e que andam nos eixos em termos de concentração, presença e cumprimento de tarefas. Já para outros que, imaginemos, possam cair numa rebeldia passageira no decurso de uma fase familiar menos boa, recuperar de uma negativa é uma tarefa muito mais exigente que depende da vontade e do esforço pessoal que visa compensar o tempo perdido. Para dar outro exemplo, um professor também pode ficar mais orgulhoso por conseguir puxar um aluno que revela menos capacidades intelectuais mas que trabalha incansavelmente para as superar. Isto significa que o professor tem preferência por alunos rebeldes, desgarrados ou menos inteligentes, enquanto desvaloriza os alunos que mantêm um bom desempenho – mesmo sem grande esforço – e um comportamento exemplar? É lógico que não. Acontece que alguns professores fazem questão de gastar tempo e dedicação com aqueles alunos que demonstram ter vontade de mudar e de se superarem.

Se um professor chegar em frente à sua turma e disser que vai deixar de usar critérios de avaliação, permitindo que todos transitem de ano independentemente de qualquer avaliação; se disser que ter 5 é vaidade e que quem incentiva tal resultado está a oprimir a liberdade e a criatividade dos alunos, é fácil prever os efeitos disto. Felizmente, não é isto que acontece quando os professores se empenham tanto com os “filhos pródigos” da turma. Está ali sempre subjacente uma mudança de atitude do aluno.

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Crises de identidade própria e falsas alianças de curto prazo

O mês de Setembro é invariavelmente o mês das depressões, da preguiça no trabalho, do desnorte meteorológico e do embate com a realidade, por vezes desagradável, que não foi apagada pela breve pausa sazonal. Não vale a pena ter ilusões; todos os anos sucede-se o mesmo desânimo por não se ter descansado o suficiente, por não ter todos os biscates e bricolage em ordem, por não se terem lido todos os livros reservados para o Verão, por não se terem feito as revisões antes do novo ano lectivo, entre outros clássicos de férias mal aproveitadas.

Mas as férias de Verão também podem servir para pensar no que se fez ou deixou de fazer ao longo do ano, podendo propiciar uma reflexão sobre os feitos, ou a falta destes, dos governos dos últimos 40 anos. E não há dúvida de que se existem pessoas que nos ajudam a lembrar que Setembro é o mês depressivo – aquela pausa existencial em que pensamos sobre a nossa inutilidade ou sobre a estupidez humana em geral – essas pessoas são António José Seguro e António Costa. Esta minha prosa vai ser longa mas, para alívio dos leitores, informo já que não será dedicada às duas individualidades mencionadas. Para além de longa, também poderá soar um tanto ou quanto arrogante, pelo que confesso também não estar imune ao problema que vou apontar e passar a explicar. E que problema é esse? Entre as muitas coisas penosas que se podem apontar à democracia portuguesa, vou referir-me aqui ao problema das alianças frágeis que são assentes nos problemas/inimigos que se combatem em comum. Dito desta forma, parecerá um problema demasiado genérico mas é mesmo essa a minha intenção. Por eu considerar que este problema se alastra aos mais diversos domínios, é que o aponto como um dos maiores entraves ao desenvolvimento, sobretudo político e intelectual, no nosso país.

Comecemos por algo muito óbvio e que nos toca a todos. A perpetuação e a força dos esquemas rentistas que dominam a política e economia portuguesas, só são possíveis graças ao prevalecente princípio que norteia esta oligarquia inabalável: o amigo do teu amigo, meu amigo é (ver exemplo da Sociedade Portuguesa de Autores que aplaude um governo de PSD e CDS quando as decisões lhe são favoráveis). Por outro lado, deve haver algum princípio prejudicial que contribui para enfraquecer a posição, já de si desfavorável, ocupada por todos aqueles que não usufruem deste domínio e manipulação públicos. A debilidade da sociedade civil e de potenciais elites de oposição – e sim, estou a pensar na Direita – explica-se, em grande medida, por um péssimo princípio que só conduz ao marasmo e à cobardia a longo prazo: o inimigo do meu inimigo, meu amigo é. Aceitamos estar sentados na roda de qualquer grupo que afirma combater algo que também queremos combater, mas nem nos incomodamos em tentar perceber primeiro quais são os ideais (se é que os tem) desses aliados. Muitos conseguem repetir frases já incontestadas, tais como “o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros”, mas quantos destes estarão dispostos a perceber que a amizade que mantenho com o inimigo do meu inimigo dura até deixar de existir este inimigo comum? Não digo que não seja necessário, em certos momentos críticos, ceder em alianças temporárias com o propósito de combater um mal maior. O que torna tudo perigoso é deixar-se ficar inebriado ou conformado com esta cedência que pode implicar falta de programa próprio e de inibição da identidade própria; aqui estará parte da explicação para a mais que notória ausência de heterogeneidade de ideias e de atitudes características de quem tem governado.

É ilusório confiarmos que alguém pode ser nosso aliado simplesmente porque, por exemplo, também se indigna com o desmazelo municipal relativamente à conservação dos arbustos do Jardim da Praça do Império ou, noutro exemplo consensual, também concorda em punir “jovens” que perturbam a ordem pública em encontros como aquele que decorreu, no passado mês de Agosto, no centro comercial Vasco da Gama. E é ilusório confiar porque, ainda que possa haver coincidência de ideais quando se criticam temas deste género, as alianças de longo prazo não podem ficar limitadas ao comentário de episódios pontuais, de fácil repúdio, sem uma coerente doutrina de fundo e uma identidade distinta que se assuma publicamente. Não é confiável manter a confortável postura de dizermos ao que nos opomos, em vez de admitirmos o que nos move. Pegando nos mesmos dois exemplos: entre aqueles que defenderam a conservação dos tais arbustos, alguns estariam movidos pela sempre apetecível (e saudável) vontade de embirrar com António Costa, enquanto outros estariam movidos por patriotismo que costumam inculcar aos mais variados temas. Quanto ao incidente que decorreu no Vasco da Gama, existirão pessoas que encontram aqui mais uma razão para discutir problemas de imigração e de integração, enquanto outras reagem sem qualquer formulação de ideias mas com natural indignação.

Existem demasiadas pessoas a dizerem para onde não querem ir e a omitirem o destino que têm em vista. Não se soluciona a irrelevância europeia no palco internacional através da repetição exaustiva da lista de defeitos e ameaças da actual sanguessuga legislativa e fiscal; é preciso que cada um verbalize se defende, por exemplo, uma federação de Estados, orquestrada a partir do centro, ou um revigoramento das nações, compatível com uma desejável cooperação económica e comercial.

Aquela atitude (identidade por oposição) é um erro básico suficiente para ser-se humilhado, imaginemos, frente aos investidores do programa “Lago dos Tubarões”. Um empresário tem de definir com rigor para onde quer ir; se sabe que quer comercializar sabonetes, não pode tentar conquistar investimento de alguém, começando por dizer o que não quer fazer. Exemplificando o que acontece no domínio dos negócios, é fácil compreender a rapidez com que se seria esmagado ao escolher o caminho inconcebível de criar uma visão e uma missão que estivessem alicerçadas numa enumeração daquilo que não se quer fazer/criar/comercializar (aspiradores, brincos, batatas fritas, viagens, etc, etc, etc…). Infelizmente, no domínio das ideias parece não existir percepção tão imediata dos danos causados por essa atitude, daí que ela seja tão perpetuada.

Um corpo oco acaba por ceder à pressão exercida pelos outros. E, ao mesmo tempo em que se perdem de vista os ideais de referência, também se dá uma descida dos padrões de exigência na hora de distinguir o certo do errado. Nomeadamente, basta que alguém critique a elevada carga fiscal para se tornar em modelo máximo das virtudes. Nas palavras de Chesterton: “A única maneira de discutir o mal social, é obter primeiramente o ideal social. Todos vemos a loucura nacional. Mas o que é a sanidade nacional?” Voltando à ideia inicial das ilusórias alianças firmadas com o inimigo do nosso inimigo, parece-me útil lembrar que o actual governo de coligação ainda não teve tempo de empreender mudança alguma no que toca aos facilitismos no acesso ao aborto. Talvez porque a gestão das maiorias democráticas não é compatível com a existência de “coluna vertebral” e com a afirmação de princípios inabaláveis ao longo do tempo.

O problema das uniões sustentadas à conta de oposição a um inimigo comum é que se esgota com o desaparecimento deste. Quem insiste em fazer isto, – admita-se que todos nós, mais ou menos vezes, caímos nesta tentação – procura fugir aos seus próprios fantasmas, procura explorar formas de aceitação social ao construir pontes mas, sobretudo, procura esconder a alternativa em que acredita (ou partes mais problemáticas desta) de forma a não ser penalizado social e/ou profissionalmente. Não é só entre partidos políticos que se verificam estranhas cedências e alianças mantidas à conta de programas constituídos por slogans e palavras seguramente ambíguas. Também grande parte das crónicas de jornal são aquilo que a elite dominante quer que elas sejam: subsiste-se numa agenda de negação e de vazio. É tão fácil como começar a falar sobre o estado do tempo num elevador ou como dizer mal de alguém com as vizinhas; as vizinhas maldizentes detestariam-se mutuamente caso não existissem “podres alheios” a justificar muita conversa barata de conveniência.

Através de “identidades por oposição” (expressão inventada por mim às três pancadas) logra-se de uma ampla rede de contactos que podem simpatizar, conviver ou delegar-nos para a esfera da indiferença concedida aos irrelevantes, inofensivos ou banais. Contudo, há um enorme preço a pagar. Pode cair-se no risco de ceder à hipocrisia ou à omissão da verdade para gerir a larga audiência de contactos. Se a situação passa a gerar desconforto pessoal, fica-se sozinho entre a multidão de falsos aliados.

Para tentar facilitar o entendimento daquilo que tratei até aqui, vou terminar com uma tentativa esquemática que começa no ponto em que identifico este conformismo de identidades até ao ponto em que esse conformismo é esmagado pela sua própria inviabilidade:

Num primeiro momento, as ideias agregadoras são imprecisas e vagas, bastando encontrar consensos com base naquilo que se considera estar errado e a funcionar mal.

Num segundo momento já se poderá pressentir risco de cismas e desagregação face à possível extinção do ódio de estimação; vai deixando de se justificar a oposição a um inimigo comum que, enfim, desaparece…

Depois disto, ocorre a quebra do cimento que unia um grupo muito diverso. É o momento por excelência em que “se zangam as comadres e se sabem as verdades”.

Num quarto momento, todos enfrentam a desagregação e o desgaste de ideias. Abraçam-se confianças de base e há busca desesperada por ideais autênticos e crenças fortes. É a fase de reafirmação e de valorização em reacção ao vazio e aos fracassos anteriores.

Num quinto momento, já se poderão identificar unidades fortes e distintas com capacidade de defender as ideias que os fazem subsistir. A sociedade já não deixa esmorecer os valores que garantiram a sua revitalização.

Colocando a hipótese disto ser um ciclo inevitável, passado o fervor que valoriza as razões de saúde e consolidação da “pólis”, poderá haver uma banalização ou descuramento dos ideais numa tentativa de fuga a debates e conflitos desnecessários. À medida que se negligencia a prioridade dos ideais como bússola da sociedade e da política, voltará a ganhar espaço a cobardia da indiferenciação e o conformismo que se satisfaz com a crítica vazia, com a maledicência, propiciando a gradual vitória do Império do Nada. A minha esperança para Outubro de 2015 – e, até lá, teremos muitos oportunidades de sublinhar por que é que os vários partidos políticos estão na fase se esgotamento e de falta de identidade própria – é que haja uma desagregação fatal que ponha estas fraquezas em evidência. Por estas e por outras é que, no meu modesto entender, será estúpido ver pessoas inteligentes a fazerem campanha por Passos Coelho em oposição a qualquer um dos Antónios.

Ovelhas

Fica 15 dias à experiência ou segue para reparação

Algumas pessoas teimam em achar que as “barriga de aluguer” não acarretam grandes problemas e complexidades. Depois existem as outras pessoas sensatas que não ficam surpreendidas quando estas notícias aparecem. São as tristes cenas da sociedade do descartável. Destaco a situação em que ficou a mãe da criança depois de se ter visto envolvida nestes negócios por força das circunstâncias materiais adversas. Tendo em conta as actuais prioridades femininas no ocidente, creio que não existirá por aí nenhuma alminha ingénua a acreditar que são as mulheres da classe média ou alta que vão engrossar estas fileiras. 

Australian couple abandon surrogate twin with Down’s syndrome – but keep his sister

A Thai surrogate mother has received donations from across the world to provide medical treatment for her six-month-old boy, after an Australian couple refused to take the baby on learning he had Down syndrome.
Pattharamon Janbua, 21, was left to care for her critically ill son after the Australian couple who could not have a baby paid her about £6,400 to be a surrogate mother.
The son, named Gammy, was separated from his twin sister, who is healthy and was taken by the Australians.

“The agent told me: ‘We are going to make a glass tube baby,’ but I didn’t understand. My husband agreed because we didn’t have money to pay our debt and I didn’t need to have sex with another man.”

“Os nacionalistas das causas alheias”

Por Miguel Castelo Branco no blogue Combustões:

As últimas semanas tornaram notória a existência entre nós de um ardoroso nacionalismo de novo tipo: o nacionalismo das causas alheias. Exaltar Portugal, defender o seu ser e destinação, a sua liberdade, auto-determinação e independência é crime. Contudo, pelo que me apercebo – à esquerda, à direita e ao centro – é lícito, conveniente e angariador de bom nome terçar armas por outros. Pelo que também me é dado ver, há entre nós mais nacionalistas israelitas que patriotas portugueses, mais fedayin palestinos que lutadores por Portugal, mais estrénuos batalhadores pela União Europeia que orgulhosos portugueses. Eu compreendo que em tempos de crise muitos andem em busca de poiso, tudo fazendo para merecer umas migalhas caídas da mesa dos banqueteadores das causas milionárias. É tudo uma questão de bandeiras e de estipêndio. Curioso que no meio de tanta algazarra não me tenha apercebido de “luso-nacionalistas Curdos”, de “luso-nacionalistas Rohingya”, de “luso-nacionalistas malianos” ou de “luso-nacionalistas Caxemires”. Pois, não pinga nada dessas pobres causas. Defender Portugal acarreta problemas. É politicamente sensível. Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias insurgindo-se contra o tratamento de Estado-vassalo concedido pela UE a Portugal ? Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias rebelando-se contra os comissários europeus que aqui são recebidos com grinaldas, com o pão e o sal concedido aos governadores de uma província imperial ? Assim vai o povo português, frivolizado, confuso, tele-dirigido e indigno rumo à escravatura. Caladinhos, amedrontados, respeitadores do chicote, salivadores pela cenoura; assim fiquem, ardorosos portugueses, pois nada se espera de vós. Pois é, lá está o Miguel a dizer “coisas daquelas que tornam impossível metê-lo em qualquer grupo”.

Sinais dos tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as finalidades do património edificado. Se desejamos reunir indícios que nos ajudem a identificar as prioridades e valores de determinado grupo de pessoas num dado momento, é um bom começo conhecermos o destino dos seus maiores investimentos e sacrifícios. E porque não vale a pena voltar a inventar a roda, recorde-se que já as Escrituras diziam: “onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Da mesma forma, aprende-se muito ao observar em que é que um grupo não está minimamente disposto a perder dinheiro e tempo.

Compreende-se que em alguns países, como é o caso da Holanda, esteja na berra converter igrejas em museus, bares, bibliotecas… Compreende-se porque manifestações de beleza intemporal e arquitectura sublime e durável são raras nos tempos que correm e torna-se muito apetecível ir buscar essas obras ao passado espiritualmente fecundo em que foram criadas. Nem tudo é mau nestas sociedades desnorteadas; salva-se o bom gosto de quem escolhe estes espaços.

Mas enquanto os europeus continuam entretidos com o próprio umbigo, orgulhosos do pouco que são e envergonhados de tudo o que já existiu antes deles, insistem em brincar ao laicismo, ao pluralismo e à vontade da maioria, há quem revele quanto está disposto a pagar para erguer um bastião de espiritualidade na Europa. Conversão de património, mais uma vez. Obviamente, não estamos a falar de cristãos (a menos que Edir Macedo estivesse interessado em construir um templo a Mamon nas nossas terras). Ainda não chegou o dia em que venderemos o Mosteiro dos Jerónimos à Isabel dos Santos ou o Estádio de Leiria a um barão do petróleo mas, por agora, vamos tomando conhecimento que o emir do Qatar, Tamim Zani, tenciona que a praça de touros Monumental, em Barcelona, seja transformada numa Mesquita com um minarete de 300 metros e com capacidade para cerca de 40 mil pessoas. Fortes convicções justificam grandes espaços e grandes investimentos.

As igrejas convertidas em espaços de lazer e a antiga praça de touros de Barcelona têm algo em comum (para além de serem elementos vinculados às tradições locais que atravessam gerações): a inactividade. É preocupante que os europeus demonstrem tamanha indiferença – quando não é orgulho – à medida que perdem vantagem no domínio da religião e das tradições. Como se pode ver, se os europeus não querem, há quem queira.

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