Os amores abstractos do benfeitor moderno

A época em que vivemos está muito marcada por um disfuncional amor às causas distantes (diferente de causas grandiosas), aos compromissos globais, aos objectivos inalcançáveis, às promessas utópicas e, consequentemente, está muito exposta a repressões também globais impostas por lideranças distantes que nada significam para cada um de nós. Esta viciosa tendência para o global é usada sobretudo por dois motivos: porque quem detém o poder realiza alterações jurídico-legais, propositadamente para incutir mudanças estruturais e mudanças simbólicas e para dirigir a opinião pública; e porque, entre o comum dos mortais, essa tendência para o global serve para colmatar a falta de acção, de vocação, ou de coragem face às necessidades e responsabilidades nas instâncias mais baixas de actuação cívica e política.

Na primeira situação, há inclinação para o global porque se tem poder para isso e não há oposição que faça frente, já que a maior parte da sociedade é naturalmente anestesiada e conivente, – e sem meios de reacção, mesmo que exista vontade de empreender alguma reacção entre aqueles que têm capacidade crítica perante o caos. Quanto ao segundo caso, a preferência por preocupações globais explica-se, em parte, porque as qualidades e as competências práticas que são imprescindíveis na sustentação de pequenas comunidades, passam a ser supérfluas no contexto da superorganização atomizante. Assim, aquelas inclinações e aptidões naturais muito úteis na resolução de problemas correntes do dia-a-dia, são destreinadas e alienadas para o nível das meras qualidades abstractas quando deixam de ser necessárias.

A concentração das atenções naquilo que é genérico e distante alastra um pouco por todos as áreas, mas eu apresento quatro exemplos elucidativos que, de alguma forma, se relacionam: 1) a multiplicação legislativa decorrente da “acção afirmativa” incentivada a grande escala no combate às desigualdades, e de que é mais recente exemplo a decisão do Supremo Tribunal dos EUA que impõe a todos os Estados a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo; 2) a utilização da censura uniforme a nível internacional; 3) o acolhimento acrítico de vagas incessantes de imigração chegada à Europa; 4) e as preocupações ambientais, que voltam a ganhar mediatismo devido à recente encíclica do Papa Francisco.

1) Relativamente à permanente acção política de combate às desigualdades, é óbvio que esta transformação de caprichos de uma ínfima parte da população em temas de centralidade no debate público só é possível quando há um grande desfasamento entre os decisores políticos e as preocupações da generalidade dos governados. Em primeiro lugar, é graças a esse desfasamento que as lideranças políticas são facilmente captadas por grupos minoritários empenhados em fazer avançar as suas agendas políticas, mesmo que isso implique prejuízo da estrutura cultural em que estão inseridos. Em segundo lugar, a permeabilidade da sociedade é maior quando estas mudanças legais, de impacto prático e simbólico, se mantêm na esfera da bondade abstracta e quando poucos estão interessados em ir verificar as verdadeiras intenções de quem moveu as referidas decisões – por exemplo, raramente alguém se irá interessar em verificar, depois de o trabalho estar feito, a relevância dessas “conquistas” legais no dia-a-dia de quem tanto as defendeu. A novidade norte-americana gerou um rápido efeito de contágio acéfalo nas redes sociais e, mais uma vez, a exteriorização de apoio público ao activismo LGBT proporcionou uma sensação de conforto colectivo e de missão caritativa socialmente louvável e exibível.

2) Mas não é somente a acção política que beneficia deste distanciamento entre quem manda e quem obedece. As transformações legais que têm sido promovidas não estariam garantidamente protegidas de ameaças se não se fizesse uso de uma das ferramentas mais velhinhas e importantes para o fenómeno do poder: a censura. A inevitável presença da censura na sociedade faz-se sentir na política, na academia, no entretenimento, na religião e em todos os espaços que se revelem importantes para a legitimação da ordem social dominante. Por muito que custe admitir aos crentes no debate puramente racional e equilibrado – em que, supostamente, os intervenientes começam a debater de pontos de partida neutros e com total receptividade a argumentos racionais, rumo à descoberta da verdade – a realidade não corrobora esta visão optimista porque não é dessa forma que a larga percentagem da população funciona e pensa (e todos observamos isso). A opinião pública é sempre dirigida, por pouco simpático que seja admiti-lo. Quanto mais numerosa for a turba numa democracia em que todas as opiniões são valorizadas por igual, mais estúpida (e menos consciente dessa estupidez) ela se torna.

Posto isto, o recurso à censura não é motivo de espanto ou de reprovação – ainda que seja divertido confrontar os donos da falsa tolerância cosmopolita com esta ironia incontornável. O problema é que a censura com que nos deparamos agora é sobretudo uma censura internacional ao serviço de indivíduos que não têm apenas o interesse legítimo de proteger os organismos colectivos que integram, mas que têm, para além disso, interesse em domar a acção e prejudicar os interesses internos de outras nações. E, claro, como em tudo o que se decide a nível global, as pessoas estão muito mais indefesas diante deste tipo de censura que em nada as beneficia, mas a que não conseguem fazer frente. Veja-se a indiferença generalizada em relação à reivindicação sionista que exige uma censura (ainda mais?) internacional a todo e qualquer discurso anti-semita manifesto na internet.  O problema, mais uma vez, prende-se com este substituição da importância da censura de proximidade por uma indiferença perante censura que é estranha às nossas particularidades. Nos países ocidentais, qualquer censura assumida está fora de questão se partir de lideranças políticas nacionais (e a mesma resistência é cada vez mais sentida até no domínio religioso que persegue os mesmos anseios de democratização e de resistência às hierarquias), mas as mesmas pessoas aceitam doutrinamento e punição quando desrespeitam a dogmática das democracias liberais. Ou seja, a censura é bem tolerada enquanto instrumento de legitimação da presente ordem progressista a grande escala (combate aos denominados “discursos de ódio” sexistas, racistas, homofóbicos, xenófobos, etc), mas já não é compreendida como meio de defesa de um corpo contra as inclinações que são prejudiciais para o todo e em favor da vitalidade a longo prazo. Pior ainda, a censura é cada vez menos uma ferramenta de utilidade para a saúde da “pólis”, que vise evitar o alastramento de “cancros”, e cada vez mais uma ferramenta que invade e aniquila completamente as acções e pensamentos privados.

3) Outra área em que se perde a vitalidade e sabedoria local por excesso de benevolência e tolerância é a da política de imigração. É por nos conhecermos cada vez menos que ficamos susceptíveis a qualquer imposição que leve o carimbo de consentimento das lideranças políticas europeias, muitas vezes sem pressentirmos o real impacto que determinadas decisões vão provocar no amanhã. Das lideranças políticas europeias ao Papa, quase todos parecem ignorar que os homens não estão vocacionados para um altruísmo indiscriminado, à prova de bala e, tantas vezes, suicidário. As sociedades ocidentais são agora caracterizadas pela falta de empatia nas interacções sociais, desconfiança, hedonismo, objectivos de curto prazo, elogio à mediocridade, pouca predisposição para a cooperação, fraca estima pelos recursos e pelo próximo, e fraude endémica. É caricato que, em vez de se procurar curar estas degenerações, se incentive a maior fragmentação social, a violência e o maior peso na balança de dependentes da providência estatal, promovendo uma caridade inesgotável e jogando com argumentos que vão completamente ao arrepio do que seria aceitável no seio de um pequeno grupo com uma palavra a dizer e que não estivesse sujeito a simples caprichos universalistas inconsequentes, falsas remendos para a necessidade de rejuvenescimento na Europa ou a irresponsáveis incentivos à recepção de mão-de-obra barata.

Com recurso a exageros, por vezes, é mais fácil perceber o que está em jogo. Citando Konrad Lorenz (em O Homem Ameaçado): “Um homem normal segue estes Mandamentos por inclinação natural, sempre que se trate de uma relação com os seus amigos pessoais. Ninguém rouba ou mente a um amigo, muito menos alguém desejará a sua mulher e menos ainda ousará matá-lo. Os Dez Mandamentos só começam a perder a sua eficácia fundamental através do crescente anonimato da sociedade humana. (…) Num grupo de pessoas amigas, cada um seguirá com relativa fidelidade os Dez Mandamentos. Será até capaz de se expor a grandes perigos para salvar um amigo de uma má situação, a custo da própria vida. Um sociólogo americano calculou que o número ideal para um grupo, unido por laços de profunda amizade, é o onze. (…) O homem, mais do que perverso desde a sua juventude, é sim suficientemente bom para uma sociedade de onze pessoas, mas não “bastante bom” para se inserir numa sociedade de massas, como membro anónimo e pessoalmente desconhecido, do mesmo modo que se integraria no pequeno grupo como indivíduo que todos conhecem e estimam.”

Não se trata aqui, obviamente, de colaborarmos apenas dentro de grupos com pouco mais de onze elementos, embora isso seja adequado no desporto ou em pequenas conspirações e tertúlias. Trata-se antes de perceber a tendência e os limites da empatia e da confiança entre indivíduos e de não os forçar em demasia. Esquecemos os compromissos e sacrifícios que seria conveniente encetarmos a nível de proximidade porque não nos conhecemos, não precisamos de nos conhecer e não saberíamos muito bem o que fazer se nos viéssemos a conhecer. Contudo, a maior agravante neste estado de coisas é a atitude humanitarista que nega a própria identidade e que se predispõe a receber todos os que lhe batem à porta, ostentando uma reacção débil e efeminizada, e acumulando um potencial de conflitos na própria “casa”. Dentro de casa é que é tudo mais rotineiro, mais repetitivo, e é dentro de casa que os indivíduos são mais espontâneos e autênticos. É lá que os limites da paciência, a generosidade, o sentido de humor, as aptidões e as fraquezas se dão a conhecer totalmente. A casa é sagrada e não há espaço para constantes incursões de estranhos que quebrem hábitos e laços.

4) Por último, e porque já referi a “higiene” no campo das ideias, aplicada por via da censura, falta referir as preocupações ambientais propriamente ditas. Uma defesa da fraternidade ecológica universal, é uma possível síntese da encíclica “Laudato Si”. Neste último exemplo, não ponho em caso a legitimidade das preocupações ambientais, nem a importância de cada um se sentir responsável por estimar o meio envolvente, e nem desvalorizo a sabedoria de muitos dos pontos levantados ao longo do documento. Chamo a atenção apenas os alvos que procura criticar, a pertinência do tema, o âmbito da preocupação e o que propõe como salvação. Não falta por aí quem, sob pretexto de querer salvar o planeta, queira forçar novos modelos de desenvolvimento como forma de autoflagelação por pertencer a um espaço civilizacional excessivamente avançado e produtivo. Este encorajamento papal vem reforçar essas posições e está sempre subjacente a necessidade de distribuição, como no caso em que se refere a uma “dívida ecológica” do Norte em relação ao Sul.

Depois, é verdade que o Papa Francisco salienta que os centros de poder não têm contacto directo com os problemas mas, por outro lado, apela a uma consciencialização demasiado global sem horizonte de exequibilidade e que peca por atribuir demasiada bondade ao ser humano, vendo-o quase como bom selvagem em que a perversidade só irrompe quando é exposto à tecnologia e à finança. Em resumo, ficamos com simples tentativas de persuasão genérica que não logram qualquer resultado entre aqueles que nunca nutriram o mínimo de apego e respeito pelo meio em que vivem e que transformam. O âmbito da preocupação é outro ponto crítico; “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”; e “a interdependência obriga-nos a pensar num único mundo, num projecto comum.” Mais uma vez, note-se o preocupante nível de abstracção e de ambição a que chegamos, quando se pretende sensibilizar milhões de pessoas para um tema relativamente superficial e acessório, que consegue ser, contudo, um bom escape de conversa para aqueles que não queiram ferir susceptibilidade, abordando temas actuais como os três que exemplifiquei anteriormente.

É no conforto das causas globais e na bondade desligada da utilidade social e da consciência de uma moralidade colectiva, validada pelo tempo e pela resistência face às ameaças externas e internas, que se refugia todo o cobarde que ama o mundo sem amar, preferencialmente, aqueles que lhe são mais próximos. É nesta ambiente de cobardia social que as grandes decisões políticas são perpetradas, sem que haja energia para contraditório.

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166º Podcast Mises Brasil – Daniela Sofia Silva

Foi com muito gosto que aceitei o convite do Bruno Garschagen para participar no podcast desta semana, alusivo ao tema “secessão e federalismo”.

Aqui fica o link.

Alguns dos principais nomes da Escola Austríaca abordaram teoricamente o tema da secessão, de Ludwig von Mises passando por Murray Rothbard até chegar a Hans-Hermann Hoppe.

Para tratar desse assunto de uma perspectiva Austríaca e acadêmica, o Podcast do Instituto Mises foi conversar com a portuguesa Daniela Sofia Silva, mestre em Governação, Competitividade e Políticas Públicas, que escreveu em coautoria com o professor André Azevedo Alves o artigo “Secessão e federalismo na perspectiva da Escola Austríaca”, publicado no segundo número da revista MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia. Ela também é autora de uma dissertação de mestrado sobre o assunto elaborada sob orientação dos professores André Azevedo Alves, membro do conselho editorial, e José Manuel Moreira, editor-adjunto da revista MISES.

Neste podcast, Daniela explica as concepções de secessão e de federalismo segundo a Escola Austríaca e aponta as características teóricas de cada um. Também analisa os pontos positivos da secessão, de acordo com os seus defensores, e as eventuais consequências práticas.

Daniela também apontou o problema gerado quando se tenta impor condições à secessão que acabam por descaracterizá-la e comentou se é possível ou não a separação resultar numa maior concentração em esferas menores de poder em vez de intensificar a liberdade que teoricamente a secessão promoveria.

Votar de joelhos em situações extremas

O último Domingo, dia 22 de Março, trouxe-nos mais dois bons pretextos – a 1ª volta das eleições locais em França e as eleições autonómicas na Andaluzia – para reflectirmos sobre um facto incontornável para o futuro da política, nacional e supranacional, no espaço europeu. Sejamos ou não parte interessada na manutenção do actual sistema ou na sua eventual derrocada, encontremos ou não representantividade em algum partido, do sistema ou anti-sistema, é impossível ignorar ou negar que o centrão político está a esvaziar-se e a despertar indignação nas urnas, em diferentes graus e por meio de diferentes forças políticas (e sublinho “diferentes”). O maior drama dos partidos de centro é a sua incapacidade de renovação e de apresentação de temas mobilizadores; e é logo aqui que encontramos a primeira diferença entre partidos de extrema-direita e partidos de extrema-esquerda, e sobre a qual me alongarei mais à frente: os partidos de esquerda esgotaram as bandeiras que podem usar, quando comparando com o espaço de manobra gozado pela direita.

GetimageasJpegPoderemos reconhecer que, frequentemente, as campanhas políticas anti-sistema enveredam pela vitimização fácil e pela sobrevalorização exclusivista da missão mítica da sua nação, em aberta hostilidade em relação ao exterior. É uma estratégia, admito eu, pouco sensanta e que revela sofreguidão pela ambição de explorar ao máximo as frustrações prolongadas do eleitorado, especialmente em contexto de crise económica. Parte-se de verdadeiros problemas, até com justificada indignação, mas pode ocorrer que “pior seja a emenda do que o soneto”, neste caso por se incorrer no risco de alienação de amizades com nações vizinhas, minando a cooperação económica e o trilho cultural comum. Não precisamos de reduzir a escolha a duas opções: o projecto imperfeito ou a sua total aniquilação. Reconhecida esta insensatez visível em alguns partidos dos “extremos” (designação que serve os propósitos do discurso oficial de quem se quer perpetuar no poder, como já referi noutra ocasião), repare-se agora, sem surpresa, como a mesma estratégia de vitimização fácil contra um inimigo externo é igualmente usada pelos próprios partidos do mainstream e seus lacaios que vão instruindo a opinião pública. Mesmo que o desgaste destes partidos seja óbvio aos olhos de todos – a começar pelos próprios –, a existência de partidos com um discurso de ruptura acaba por ser um oportuno autogolo oferecido de bandeja aos que não se dispõem a admitir incompetência própria nas fragilidades institucionais, promiscuidade inerente ao crony-capitalism, e degenerações burocráticas que têm afectado directamente a vida dos cidadãos que só são solicitados para verem acrescida a carga fiscal.

Usar o medo contra estes extremos pode ter sido uma ajuda decisiva para que o esvaziamento do centro não tenha sido assim tão expressivo como seria de esperar. Por enquanto, não houve sismo mas parece que entrou um fantasma na sala e que deitou algumas molduras abaixo. A democracia é um jogo em que, geralmente, ganha quem estiver disposto a rebolar na lama. E é com esse entendimento que temos de partir para qualquer análise de um processo eleitoral, para que não haja tanta espanto quando nos deparamos com as mais inverossímeis coligações e as mais desenvergonhadas contradições programáticas.

Dizia eu que existe uma primeira diferença fundamental que separa partidos de extrema-esquerda e partidos de extrema-direita: a maior variedade de temas mobilizadores que dá vantagem à direita, uma vez que já se constatou a rapidez com que caem por terra os encantos messiânicos de um Syriza. É bastante óbvio que as diferenças existem e não são diferenças acessórias. Sou levada a abordar o assunto a partir daí porque me parece importante contrariar a tendência de simplificar novos fenómenos complexos, afirmando que os novos partidos “são farinha do mesmo saco”, indistintos de todo. Não falta por aí quem queira refugiar-se constantemente na “teoria da ferradura” como explicação para tudo o que se passa nas democracias ocidentais nos nossos dias.

Cada um de nós preocupa-se mais com umas questões do que com outras e as preocupações pessoais acabam por ficar espelhadas na forma como todos, mesmo involuntariamente, nos inclinamos a construir uma visão totalizante da realidade. Assim sendo, não podemos esperar que todo o eleitorado encare os partidos da mesma forma. Se determinado observador se posiciona num ponto de regular defesa do liberalismo económico acima de tudo, é natural que uma FN e um Syriza sejam olhados como iguais e mereçam igual repúdio. Para um observador que privilegie a defesa de valores morais tradicionais, o caso muda de figura porque poderá ver-se a votar num partido que revele preocupação pelas políticas da família e que se oponha à agenda progressista, independentemente da política económica preconizada pelo mesmo partido. Depois existirão aqueles cujo eurocepticismo é de tal forma impetuoso, urgente e inegociável que tanto poderiam votar num PCP, numa FN, num UKIP, num Syriza ou num PNR, desde que houvesse alguma forma de mostrar cartão vermelho às políticas europeias. Num último exemplo, imaginemos a diferença decisiva que existe entre estarmos a julgar programas políticos sujeitos a sufrágio num país que não é o nosso ou estar a votar numas eleições departamentais que poderão fazer toda a diferença no ambiente à porta de casa.

Aplicando ao que acredito ter-se verificado nesta 1ª volta em França, recupero o que já escrevi há umas semanas:

As omissões podem ter consequências mais determinantes em política do que aquilo que efectivamente é feito ou dito. É também aqui que o radicalismo vai absorver parte da sua força: no silêncio dos partidos de centro a respeito de problemas que os cidadãos, no terreno, já detectaram há muito tempo – refira-se que os cidadãos, regra geral, não estarão igualmente sensíveis em todos os domínios, pelo que é natural manifestarem rápida e fiel compreensão em assuntos que lhes são caros no dia-a-dia, como por exemplo em matéria de segurança, enquanto, por outro lado, aceitam passivamente o acesso a crédito fácil ou promessas de regalias suportadas à custa dos seus concidadãos.

Ou seja, quando o que está em causa é a questão da insegurança e o sentimento de negligência ou mesmo de “traição” (como Marine Le Pen lhe chama objectivamente quando atribui culpas aos partidos que se têm alternado no poder, a começar por Sarkozy que fez da imigração uma bandeira nas eleições presidenciais de 2007) a respeito dos conflitos étnicos e religiosos que perturbam a ordem pública, é de esperar que as pessoas dêem mais atenção a estes tópicos do programa em detrimento das propostas de política económica ou de política externa. Da mesma forma que o nosso voto pode variar muito consoante estejamos a votar em eleições autárquicas, presidenciais, legislativas ou europeias.

Nicolas-Sarkozy-and-Fran--004Sem estender a análise a outros partidos que vão ganhando protagonismo, vejamos por que razão a Frente Nacional e o Podemos não podem ser alinhados levianamente. O Podemos teve um resultado medíocre se pensarmos que o contexto económico e o mediatismo lhe eram muito favoráveis e que não seria difícil absorver eleitorado tipicamente de esquerda. Ou seja, se os partidos do sistema sofreram alguns arranhões neste Domingo, não parece que tenha sido por força de propostas de política económica de extrema-esquerda e muito menos por alastramento do fenómeno Syriza – é manifestamente exagerado detectar qualquer sinal de vitória e de revolução em curso, a menos que se passe muito tempo em frente ao ecrã.

Posto isto, e admitindo que existem semelhanças formais, a nível de comunicação política, e semelhanças de conteúdo que passam pela oposição à globalização, pelo eurocepticismo e pelo reforçado intervencionismo na economia em áreas consideradas vitais para o bem-estar dos cidadãos (saúde, educação, transportes, serviços bancários e energia), devemos perguntar se é razoável acreditar que um eleitor mediano, um eleitor desiludido com Hollande ou até um eleitor de extrema-esquerda teria inclinação para votar em Le Pen como alternativa socialista e se é mesmo o domínio económico que está a determinar mudanças nos resultados eleitorais. Os eleitores que possam ter fugido da UMP para votar em Le Pen, decerto não o fizeram tendo em vista nacionalizações parciais e proteccionismo, mas sim temas polémicos que já não confiam a Sarkozy. E os eleitores que possam ter deixado de votar em Hollande para votar em Le Pen, não o terão feito com esperança de que esta tenha maior habilidade para dar um novo fulgor às políticas socialistas, porque tal deslocamento do voto seria o mesmo que escolher ir comer sopa ao McDonald’s. Se estivermos lá e quisermos mesmo uma sopa, ela está disponível, mas não é sopa que nos incentiva a ir ao McDonald’s. A mobilização que possa vir de antigos eleitores do PS é feita, provavelmente, na base do eurocepticismo e de questões culturais prementes. E se alguém acredita que o centrão político está a sofrer ameaças pela suposta vontade geral em favor da radicalização de esquerda e de exigências distributivas, como se explica que o Podemos tenha sido tão insignificante e que o PSOE tenha saído ileso?

A FN não é o Podemos e, ainda que possamos identificar um apelo similar a um colectivismo fraterno anti-austeritário e a um patriotismo que poderá, ou não, descambar em reforço do Estado burocrático centralizado e racionalizado na base da aversão ao exterior, é preciso notar que o eixo emblemático da FN não é a política económica e a mistura de economia socialista com posições tradicionalmente de direita, acaba por servir de bengala num partido que reúne sensibilidades diversas e a que já basta ter de arriscar-se muito mais quando dá a cara por temas polémicos como o combate à islamização e a deportação de imigrantes ilegais.

No meio de todos estes desenvolvimentos, uma coisa fica em evidência. Existe um clara incoerência entre aquilo que se entende por democracia, na teoria e na prática, e aquilo que as elites regularmente vencedoras estão dispostas a reconhecer como legitimado pelas mesmas regras que lhes garantiram os cargos, tantas e tantas vezes. Tendo em conta que uma parte da indignação do eleitorado deve-se à percepção do défice democrático de que a UE não se livra tão depressa, era aconselhável tomar mais atenção a esse vício tão feio que consiste em estigmatizar uma parte do eleitorado, caricaturá-lo, analisá-lo com condescendência arrogante e ignorar as suas motivações, enjeitando o montinho de boletins de voto que não agrada tanto.

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Feminism as Group Strategy

Feminism as group strategy, Charles Jansen.

So far feminism can be defined by two essential aspects: a philosophy, mostly rooted in Marxism and postmodernism; and a group strategy. Both aspects are intertwined, which makes feminism difficult to explain in a plain, analytic, non-manipulative way. The sentence “feminism is the radical idea that women are human beings” doesn’t explain anything but mostly shocks the hearer and compels him to believe in key assumptions that remain implicit. Feminist philosophy is never explained in a systematic way. When one of its parts is explained, the explanation usually takes for granted the other key assumptions, which means that feminism ultimately rests on a logical circle. However, this logical defect doesn’t prevent it from being extremely efficient at stirring up resentment against men, especially Whites. A regular girl who starts absorbing feminist philosophy starts to perceive many masculine acts as morally wrong, going so far as equating unwanted male attention to rape and battery. By creating perceptions of “oppression” or undeserved “male privilege” or “White privilege,” feminist philosophy creates resentment; by upholding so-called “equality” and “progress”, it gives an aim, a telos, as well as a strong motivation to act against the perceived injustices.

While the feminist worldview may appear silly and forced, particularly since it uses sophistry and groundless accusations to discard evidence-based science, it has grown up with incredible success, to the point of determining–along with other anti-White stuff–what deserves respect or scorn. Asking for “tolerance,” then pretending to care about “justice” and finally shutting up any different voice by calling to “consensus”–i.e. think and talk within our framework or go die while we make history–such is the infamous pattern that leads to our present-day situation.

On one hand, feminism is serious because of its domination in the academics and the mainstream media. It is serious because mastering public respectability implies influence over a huge crowd. As Gamergate has shown, serious feminists organize to steer the media and organize fluxes of money even in fields like gaming that were previously safe. In academia, it will become harder and harder to simply be a White guy. “Affirmative action” policies will get you more and more excluded from public events while your decent teachers will have to kneel to feminist networks. One can recognize a mortal enemy in the person or group who says “change” or “progress” to mean our dispossession. The harder to swallow part is when you evolve within an academic environment: money here is limited, you are depending on the system, and while the cake is shrinking, the larger parts go to influence networks.

Manifesto dos 74 Redux – não generalizem porque Ninguém tem culpa

Todas as cartas de amor são ridículas, já dizia Fernando Pessoa. Não sabemos se a aproximação ao dia de S. Valentim terá tido alguma influência mas o que é certo é que houve quem se sentisse motivado a subscrever uma carta muito ridícula que, ao contrário das cartas de amor, conta com a agravante de não ser destinada à leitura privada.

Manifestando sempre grande temor e estima pelos ilustres/personalidades/vedetas/celebridades dos consensos de sempre, os meios de comunicação despacharam-se a noticiar que Passos Coelho não iria responder à “carta dos 32”. Lamentável, que arrogância, tão snob! E, de facto, não é suposto responder a uma coisa dessas por vários motivos. O motivo mais básico é o de tal elemento não ter qualquer relevância institucional. Assim sendo, dar alguma atenção mediática à carta contribuiria para conferir-lhe importância que ela não tem, criando maior confusão relativamente às impressões que os cidadãos criam quando procuram entender o regime com que lida e o peso de influência dos vários instrumentos que existem à sua disposição. Mas esta pretensão de confundir a opinião pública não é nova e sempre foi apanágio de quem procura sobrevalorizar o poder das manifestações em detrimento do resultado das urnas (não obstante todos os defeitos que possamos apontar ao processo), chantagear a acção governativa por meio de manifestos de elites, ou atribuir legitimidade a um governo estrangeiro como verdadeiro representante dos portugueses ao mesmo tempo que dá desprezo ao governo nacional – essa espinha atravessada na garganta durante toda a legislatura.

Em segundo lugar, por uma questão de honestidade e de boa educação, não deve ser dada resposta a uma carta que não se dirige a Passos Coelho mas sim ao povo português em geral. Lá porque a saudação identifica formalmente o PM, isso não significa que seja genuinamente dirigida a ele. Este género de cartas são pequenos mimos com que os meios de comunicação são brindados de vez em quando, pois o objectivo é encabeçar e dirigir a agenda política, ocupar espaço de oposição nos momentos mais oportunos (enquanto o Syriza ainda tem brilho) e minar a credibilidade de Passos Coelho entre a opinião pública. A presente carta está para o povo português como as discussões na Casa dos Segredos estão para os pobres telespectadores; simples encenação para entreter e matar tempo. E não há dúvida de que era urgente ocupar espaço político com esta banalidade de forma a disfarçar um pouco o ressabiamento e perplexidade da oposição perante a falta da “espiral recessiva”.

Em terceiro lugar, é sensato não dar resposta porque não existe forma de responder a uma carta vaga e pateta – “abordagem robusta”, “soluções realistas e de efeito imediato”, “democracia inclusiva” e outras vacuidades sonantes – sem ser de forma vaga e pateta. Posto isto, é natural que o PM não se pronuncie, ou não se alongue, sobre este assunto no próximo debate quinzenal (embora seja livre de o fazer) porque a táctica deste enxame de abelhas que entrou em fúria com a vitória do Syriza é a táctica, já demasiado batida, de lançar a batata quente para o lado de quem está a ser desafiado.

O mais engraçado numa carta tão curta e tão superficial – característica essencial em qualquer consenso despojado de convicções e de propostas – é conseguirmos encontrar incoerência nas entrelinhas.

É por isso também do interesse de Portugal contribuir ativamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias reduzindo o peso do serviço da dívida em todos os países afetados, que tem sufocado o crescimento económico, agravando a crise da zona euro. Pela mesma razão, é ainda necessário que Portugal favoreça uma Europa que não seja identificável com um discurso punitivo mas com responsabilidade e solidariedade, que não humilhe estados-membros mas promova a convergência.

Ora, num só parágrafo, apesar de se refugiarem em eufemismos como “solução multilateral” e “solidariedade”, podemos perceber que acusam o PM de privilegiar um discurso punitivo contra os gregos (a acusação de ser lacaio de Merkel está sempre subjacente e é guardada para os espaços de opinião televisivos mais inflamados) ao mesmo tempo que apelam à única solução que conhecem, evitando sempre pronunciar o nome dos países que pagam a conta porque a Alemanha já está demasiado denegrida na narrativa e iria estragar a carta do amor ridículo dos 32. Só assim poderam ignorar a ligação que existe entre maior endividamento e maior dependência (humilhação) face a quem nos empresta. São estes os grandes defensores da soberania que temos por cá.

E aproveitando que referi espaços de opinião inflamados, é útil que conste, para memória futura, que em inícios de 2015, reconhecer publicamente a existência continuada de corrupção e nepotismo que absorvem e inutilizam qualquer altruísmo externo que se mobilize em favor das vítimas do caos, dá direito a receber o rótulo de “racista”. E é assim porque Pacheco Pereira (um dos 32) defendeu na Quadratura do Círculo de dia 13 de Fevereiro que não se podem fazer generalizações contra um povo em abstracto, pois isso é profundamente hipócrita, inaceitável e racista. Enfim, um generalização é, por natureza, injusta com as excepções, pois a sua utilidade reside na possibilidade de identificar regularidades, padrões, traços distintivos e alguma previsibilidade. Normalmente, quem se enfurece contra este tipo de operação de abstracção é quem está interessado na manutenção da confusão que não permite trazer à luz do dia certos factos.

No fundo, os 32 ilustres, quando afirmam que quem adopta um discurso punitivo contra os gregos “vai ter de engolir” essas palavras se as reclamações e gritos em negociações surtirem cedências e maior conforto para a Grécia, assemelham-se àqueles veteranos criminosos que já conhecem a rotina do bairro e que incentivam os mais novos a trocar o trabalho pelo crime. Sabem a que horas a senhora da mercearia está mais susceptível com pouca clientela, conhecem a rotina e as fraquezas dos agentes de segurança, conhecem os horários dos vizinhos, etc. Com tanta experiência acumulada no seu bairro, gabam-se de preferir aguardar pela hora e local perfeitos para o crime em vez de irem “vergar a mola” diariamente. O que se destaca na carta dos 32 não é nenhum particular altruísmo e compaixão pelos gregos mas sim a percepção e cálculo egoísta de que, se há vantagens para uns, passa a existir margem de chantagem para todos. Assim sendo, mesmo que haja consciência de que os sacríficios europeus em favor da Grécia podem continuar a “cair em saco roto” e de que são tímidas as possibilidades de virem a ser feitas reformas estruturais, a curto prazo o crime compensa e o que conta são as próximas eleições.

Passos-Coelho

O descaramento da guerra contra a federalização da Ucrânia

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É inquietante observar a concordância de tantas pessoas com o eventual fornecimento de armas a Kiev (os mais ousados e generosos acrescentarão a necessidade de fornecimento de tropas) com a mesma descontracção com que pedem uma bica. Pelos vistos, depois de repetir muitas vezes a mesma ideia, ficamos todos convencidos de que, em último recurso, prepara-se a mala com o pijamita e uma muda de roupa interior, e toca a ir combater o Urso. Em meia dúzia de dias fica o assunto arrumado, e retaliação é coisa que não existirá seguramente porque as forças do mal não poderão prevalecer contra os ventos libertadores atlantistas. É isto que pensarão aqueles que apoiam, sem pestanejar, uma intromissão da NATO no leste da Ucrânia. Os longos períodos de paz trazem consigo o tremendo risco de deixar os indivíduos inebriados dentro de uma nuvem de optimismo ilusório, incapazes de prever que pequenos actos políticos, provocações, tensões podem converter-se rapidamente em guerras totais, longas e depauperantes.

Restringidos ao diz-que-disse que é transmitido entre encontros diplomáticos e meios de comunicação, somos obrigados a deduzir alguma coisa a partir das migalhas que vão caindo da mesa de negociações, ou seja, ficamos a saber que a determinada reunião foi “constructiva” ou “difícil” ou “fracassada”, sem conhecermos a natureza dos entraves levantados e a verdadeira disposição para as negociações de cada uma das partes. A partir daqui podem cometer-se as mais diversas deturpações e injustiças por parte de quem detém o poder político e cabe-nos a nós ganhar algum discernimento, fazendo o exercício mental de nos colocarmos na pele de cada um dos líderes. Sabemos, por exemplo, que em Dezembro de 2014 os deputados ucranianos deram um passo para aconchegar a Aliança Atlântica junta da fronteira com a Rússia ao renunciarem o estatuto de “não-alinhado”. Uma prenda de Natal no sapatinho do Kremlin por parte de quem pretende ignorar a diversidade do povo que governa, e refugiar-se debaixo do chapéu da NATO, mostrando-se falta de sensibilidade histórica, geoestratégica e cultural.

Em segundo lugar, sabemos que um cenário de confrontação é o mais indesejável para todas as partes – a menos que os confrontos estejam muito longe da vista, como acontece a certos falcões com vícios de unipolaridade muito arreigados – porque consumiria tempo, dinheiro e “carne para canhão” que tanto a Europa como a Rússia não se podem dar ao luxo de esbanjar. Adicionalmente, a última coisa de que a humilde dupla Merkollande precisaria agora era de uma guerra que pusesse em evidência a sua pouco prestigiante dependência face aos EUA no domínio militar; e a sua evidente dependência energética face à Rússia, porque será no nosso quintal que se farão sentir as retaliações do Kremlin e não no outro lado do Atlântico. E, por fim, como reza a História recente da Europa, “gato escaldado, de água fria tem medo” e isso é dos melhores antídotos para a guerra.

Em terceiro lugar, é bom recordar que há cerca de um ano a solução federativa para a Ucrânia aparecia mencionada numerosas vezes mas, entretanto, tem sido estranhamente (ou não) alienada do debate político. Isto porque, ao contrário de algumas dissimulações ocidentais que só adoptam um discurso claro na hora de declarar guerra aberta a um território, Moscovo tem-se mostrado sempre defensora dessa solução. E como cabe às elites ocidentais demarcar a fronteira entre iniciativas boas e iniciativas más, indignações espontâneas e faccionismo manipulado, federações prósperas e federações instáveis, referendos democráticos e referendos despóticos, independentismos gloriosos e independentismos terroristas, é lógico que, uma vez que Putin simpatiza com a solução federal, temos aí o sinal de que só pode ser uma má solução. Uma visão muito simplória, adoptava apenas por quem acredita na sustentabilidade de um projecto político que, ao ignorar as divisões culturais do actual Estado ucraniano, pretende forçar todos os seus cidadãos a favorecer comercialmente o espaço europeu em detrimento das ligações profundas com o leste. Na sequência do favoritismo aduaneiro, segue-se invariavelmente a influência política, o alinhamento ideológico (nada aqui é neutral) e a cumplicidade/subserviência militar (no quadro da NATO). Não vale a pena ter ilusões. O respeito pelo direito à autodeterminação só vale para o Ocidente quando a mudança de um povo se propõe a obedecer aos valores que as democracias euro-atânticas promovem e aprovam.

Hostilidade com hostilidade se paga e sabemos bem qual o preço de se enveredar pelo caminho da humilhação e vingança desproporcional contra um país. A forma mais simples e rápida de humilhar um inimigo é excluindo-o de eventos internacionais (punição simbólica) e aplicando sanções económicas. Sendo, em qualquer caso, uma estratégia pouco recomendável por levar a um acirrar dos ânimos internos do país humilhado, some-se a isso a particularidade de estarmos a falar de uma potência regional. Assim, um possível discurso de vitimização e crítica ao Ocidente que possa daí advir – e que já ficou visível no discurso de Lavrov, ministro das Relações Externos, na Conferência de Segurança de Munique deste mês – está ao mesmo nível (ou até um pouco acima) da postura propagandística norte-americana com as suas alusões aos bichos-papões da Guerra-Fria e à vocação universalista dos EUA.

A escalada de violência só ganhará aceitabilidade se as justificações para a guerra se centrarem, de forma hábil e desonesta, numa discussão mútua acerca dos litros de sangue derramados pelo rival, do nível de oligarquização em redor dos seus governos, dos traços de personalidade, pecados e fraquezas de cada um. Quanto a estes tópicos, não há nada de novo debaixo do sol. Só se a discussão ficar reduzida à ridícula disputa que procure auto-legitimação com base nos erros do rival, só se a opinião pública e os líderes europeus pactuarem com isto é que a prontidão belicista surgirá como panaceia para a instabilidade que se instalou no “cordão sanitário”. Tudo isto estaria longe do horizonte se as lideranças estivessem dispostas a perceber a ténue fronteira que separa a retórica da efectiva acção política. Entre as intenções e a aplicação da vontade vai um pequeno passo e, em 2008, também na Conferência de Munique, um palco para os ressentimentos, ninguém levava a sério a hostilidade presente no discurso de Putin. A génese dos motins, indignações, separatismos é sempre nebulosa (teorização, meios de propaganda, financiamento, etc) e quem se vê prejudicado por qualquer um desse tipo de acções colectivas, encontra nesse carácter nebuloso um argumento para as descredibilizar. O facto é que, mesmo quando as origens são questionáveis e pouco inocentes, iniciativas dessa natureza só encontram eco onde há alguma correspondência com a verdade e aspirações por preencher. E as divisões leste-oeste são uma dessas pontas de verdade. Uma vez instalada a confusão, há que saber resolvê-la da melhor forma.

Se Obama e os membros do Congresso estivessem genuinamente interessados em ajudar a preservar a independência da Ucrânia, demitiam-se de qualquer envolvimento. Não colocariam a hipótese de disponibilizar armamento, somente por conta dos lindos olhos de Poroshenko, quando, depois de punirem directamente as empresas e os consumidores russos com as suas sanções arbitrárias – e que até deixaram intacta a popularidade interna de Putin – se propõem a perturbar ainda mais a vida de um povo que está saturado de confrontos indesejados. Qualquer solução pacífica tem de passar por respeitar as lealdades e diferenças, deixando o caminho livre para a cooperação com os parceiros que cada grupo bem entender e sem que exista divisão entre cidadãos de primeira e cidadãos de segunda por cegueira constitucional. Se a única forma de superar discordâncias políticas e culturais for a fragmentação em favor de uma federação, não se entende em que é que uma eventual guerra orquestrada pelos interesses dos governos envolvidos se pode assumir como receita de utilidade superior (e escusado será categorizar a opção do ponto de vista moral) para salvaguardar os interesses comerciais, sociais, culturais e linguísticos nesta vasta região, já demasiado fustigada por experimentalismos, planificações e liquidações populacionais.

Radicalismos vs Ambiguidades

O meu mais recente texto no Instituto Ludwig von Mises Portugal.

A Falência do Centrão na Era das Ambiguidades

Não é fácil perceber se a falência do centrão é uma causa ou uma consequência das posições radicais, mas parece mais plausível reunir ambos numa evolução em que são inversamente proporcionais, à medida que respondem – ou deixam de responder – aos problemas mais prementes da sociedade em determinado período. É inútil analisar, e até decidir alinhar, pelo radicalismo ou pela moderação/continuidade sem passar em vista alguns aspectos básicos referentes à democracia e algumas causas que parecem estar prestes a conduzir a uma ruptura institucional. As eleições para o Parlamento Europeu, em 2014, foram o primeiro abanão indisfarçável que fragilizou o “estado de graça” dos partidos socialistas e social-democratas, quando a insatisfação dos eleitores se materializou, com especial destaque, na ascensão do UKIP na Grã Bretanha (24 deputados), da Front National em França (23 deputados), do Podemos em Espanha (5 deputados), do Syriza na Grécia (6 deputados), do N-VA na Bélgica, para além da conquista de visibilidade política por parte de pequenos partidos nacionalistas e eurocépticos. Depois desse primeiro abanão – e para avivar a memória daqueles que pudessem achar que aqueles resultados eram fruto de uma mera rebeldia pontual –, chega-nos a vitória do partido Syriza nas eleições legislativas gregas de 2015. Muito haveria a dizer para explicar este resultado, mas não nos interessa agora abordar as especificidades dos gregos enquanto povo, discorrer sobre a ignorância racional dos eleitores, bracejar e clamar para que se ponha o país de quarentena, temendo contágios, nem saber se os eleitos são mais ou menos bons (a nível técnico, ético ou psico-afectivo). O que a vitória do Syriza e os resultados das eleições europeias de 2014 têm em comum é o esmorecimento do centrão (no caso grego, o esmorecimento do PASOK e da Nova Democracia.)

(…)

Ainda que pareça paradoxal, é uma consequência natural que a oligarquição da representatividade se conserve graças ao sufrágio universal. O desgate dos partidos passa também pela percepção de que a oligarquização se alimenta do distanciamento entre a deliberação e o eleitorado. É que a personalização da política tem beneficiado muito do recurso contínuo aos meios de comunicação para tentar criar carisma aos olhos dos indivíduos e padronizar a opinião pública, mas os meios de comunicação são mais uma das muitas armas que pode virar-se contra quem a usa. A proliferação de informação em permanente actualização e a publicação de opiniões em variadas plataformas acessíveis a qualquer indivíduo, complica a vida a qualquer líder em democracia, ajuda a minar rapidamente a credibilidade de quem fracassa/corrompe/silencia, ao mesmo tempo que disponibiliza os canais necessários para divulgar opiniões, procurar alianças e criar projectos que escapam ao espectáculo de omissões e dissimulações da partidocracia.

As omissões podem ter consequências mais determinantes em política do que aquilo que efectivamente é feito ou dito. É também aqui que o radicalismo vai absorver parte da sua força: no silêncio dos partidos de centro a respeito de problemas que os cidadãos, no terreno, já detectaram há muito tempo – refira-se que os cidadãos, regra geral, não estarão igualmente sensíveis em todos os domínios, pelo que é natural manifestarem rápida e fiel compreensão em assuntos que lhes são caros no dia-a-dia, como por exemplo em matéria de segurança, enquanto, por outro lado, aceitam passivamente o acesso a crédito fácil ou promessas de regalias suportadas à custa dos seus concidadãos. Eis algo em que dificilmente todos os partidos “radicais” dificilmente concordariam, apesar de a existência de pontos em comum induzir na tentação de os lançar para uma única categoria mal compreendida, com a mesma leviandade com que subestimam as razões destes movimentos políticos que fogem ao consenso oficial. Tendemos a subestimar os nossos inimigos até ao momento em que somos afrontados por uma humilhante derrota. Contudo, o adiar do inadiável por quem detém o poder gera crescente preocupação e sentimento de negligência nas bases, o que ajuda a explicar que se defendam soluções de ruptura em detrimento do conformismo sujeito à continuidade do status quo.

Desprestígio do ensino vocacional: um golpe igualitário

Podem encontrar o meu artigo completo, no site do Instituto Ludwig von Mises Portugal.

O momento em que o aluno decide o seu próprio rumo escolar é um dos mais determinantes para a sua vida e não é vantajoso para ninguém que essa decisão seja tomada de forma leviana ou desinformada. Contudo, se um excesso de cautela leva a que se subestime a autonomia dos indivíduos, abre-se caminho a uma intromissão política crescente que irá transformar as salas de aulas em espaços de nivelamento na mediocridade e de escassez de criatividade, forçando os alunos a seguirem um ensino obrigatório, alargado a longo prazo, e uniforme a nível programático.

Se a ânsia de prosseguir políticas educativas racionalistas acaba por fazer vergar a vontade dos alunos e passa a invadir um espaço de influência que deveria estar reservado essencialmente ao indivíduo e à família, essa tendência política irá infantilizar a capacidade de escolha dos alunos e poderá dar azo ao estabelecimento de metas irrealistas a nível económico, político e social. Uma meta irrealista nesta matéria será, por exemplo, – e porque os objectivos vocacionais não se livram do risco de incorrer em racionalismo planificado – almejar que seja atingido um determinado número de inscrições em cursos técnico-profissionais pela modalidade de ensino dual, e não ter em conta a capacidade de absorção do tecido empresarial nacional. No caso português, recorde-se que predomina uma racionalização das políticas planificadas centralmente, o que prejudica ainda mais a persecução de objectivos educacionais que devem ser geridos de acordo com as especificidades e oportunidades regionais.

Sob a justificação de igualdade de oportunidades, sacrificam-se, muitas vezes, a liberdade e a responsabilidade; nomeadamente, a liberdade de não gastar tempo inútil (12 anos de escolaridade obrigatório, no caso português) em programas escolares generalistas quando não há intenção de prosseguimento de estudos, e a responsabilidade de, mediante as reconhecidas capacidades pessoais, verificar as possibilidades reais do mercado de trabalho. As oportunidades vão estando previstas e têm sido dados passos positivos desde os anos 80, passada a fase de extinção do ensino comercial e técnico que aconteceu a partir de Junho de 1975, pelo desejo de combate à perpetuação das desigualdades sociais. Um golpe ideológico que muito terá contribuído para desprestigiar as profissões técnicas. Este espírito revolucionário cunhado nas decisões políticas, indiferente às necessidades de mão-de-obra qualificada e de diversidade de competências, levou a que fosse tentada uma reinvenção do ensino profissional, em 1983, por José Augusto Seabra, mas que não alcançaria sucesso devido à falta de adesão dos alunos, já pendendo preferencialmente para o continuação dos estudos. Só em 1989 é que viria a arrancar a reforma do ensino secundário que, entre outros objectivos, procurava promover a multiplicação da oferta formativa profissionalizante.(5)

As palavras de Merkel, já aqui referidas, causaram escândalo porque tem vindo a persistir um problema grave de expectativas entre os licenciados. A maioria das pessoas é atingida, directa ou indirectamente, quando confrontada com esta desagradável realidade (alunos, familiares de alunos, docentes, etc.). Mais do que um problema de massificação e de mediocridade no ensino superior, sofre-se pelo problema inevitável da falta de credibilidade (naturalmente, em consequência dos dois anteriores).

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A progressiva inaptidão de um famoso ou o medo de ser linchado

Em alguns espaços informativos e de comentário político – recordo-me em particular do Prós e Contras de ontem – vai-se ouvindo falar do perigo da “justiça espectáculo”. Curiosamente, ou não, este alerta é pronunciado pelos mesmos que se referem a uma “crise da democracia”. Parece-me que há aqui um mal entendido, mas a nebulosa utilização, ou invenção, de certos conceitos também não ajuda.

Se uma pessoa preza sobretudo a privacidade e a discrição, tem interesse em escolher uma casa mais isolada, com as desvantagens que essa decisão comporta; por exemplo, a desvantagem de estar mais desamparada em caso de emergências ou o risco de ser esquecida pelos amigos no dia-a-dia. Por outro lado, se determinada pessoa privilegiar o hábito de ser o centro das atenções, exibindo-se como figura de proa ou vedeta, tenderá a situar-se onde as luzes o alcancem permanentemente. Claro está, se as coisas começarem a correr em seu desfavor, continuará exposta num espaço de centralidade no espaço público. Todas as decisões têm um preço a pagar. Agora, apliquemos isto à democracia moderna – aquela em que nunca chegamos a conhecer com proximidade aqueles que nos representam. José Sócrates deverá ter uma eterna dívida de gratidão para com o mediatismo que deu visibilidade à sua esperteza, habilidade discursiva e ao efeito aglomerador do seu carisma entre a numerosa claque de fãs, em especial na juventude partidária, que fez despertar num dado momento político. A génese da “lufada de ar fresco” socrática remonta a anos em que eu ainda nem tinha idade para votar; ainda assim, é precisamente nessa condição inexperiente que posso testemunhar, de diferente prisma, a irracionalidade que envolve a entronização de figuras políticas em democracia, por ter visto tantos da minha geração, rendidos na defesa de um líder político que mal percebiam e ainda pouco conheciam (aqui ainda temos a atenuante da tenra idade mas há quem continue a fazer a mesma figura aos 40 anos). A democracia e a massificação de opiniões sobrevive disto; de um deslumbramento que não se apercebe da sua falta de conhecimentos e de fundamentos racionais. Assim, defende-se a ilusão de que todos gozam de autonomia, racionalidade e igual capacidade de emitir opiniões informadas, livres de paixões.

Quem precisa de sustentar esta ilusão para ser eleito, está bem ciente da forma como ela funciona. E também deveria perceber que, onde existem simpatias desregradas, também há legítimo espaço para o outro lado da moeda: ódios desregrados, tanto da parte daqueles que nunca nutriram simpatia pela figura em causa, como por aqueles que reverteram a simpatia em antipatia, ao sentirem-se desapontados ou atraiçoados.

Ninguém precisa de temer que a justiça ceda ao espectáculo porque, seguramente, isso não irá suceder. Há uma hora e um espaço para tudo. Talvez por saberem que isso não vai suceder é que insistem em confundir aquilo que é do âmbito da justiça com aquilo que é do âmbito da sociedade civil ou do âmbito do jornalismo, visto que o julgamento informal por parte dos portugueses está a deixar muitas figuras numa vivência confrangedora e desprovida de melhores argumentos. Vão ter que se habituar … aquele que vive pela espada, pela espada morrerá.

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A Igreja acolhe o pecador ou o pecado acolhe a Igreja?

Quando existe pouca vontade de discutir um assunto com seriedade e abertura, é frequente arranjar rótulos rápidos que enterrem o adversário no lamaçal. Eu destaco dois que são muito populares em dois domínios diferentes: o de “fascista” e o de “fariseu”. O rótulo de “fascista” está tão sobrecarregado e esvaziado que nem precisa de mais ridicularizações e considerações. O rótulo de “fariseu” serve um propósito semelhante e revela a mesma falta de criatividade, neste caso, de quem tenta apropriar-se do lado benevolente da falsa dicotomia entre amor (caridade) e justiça. Transpondo isto para o domínio político, corresponderia à exploração da dicotomia entre liberdade e autoridade.

Dos muitos usos que o termo “fariseu” tem tido durante séculos, a mais recente aplicação tem sido explorada em consequência da vaga de entusiasmos que tem cercado o Papa Francisco, e nomeadamente, para irmos directos ao exemplo mais recente, em consequência do ímpeto com que muitos olham para o Sínodo dos Bispos dedicado à família, depositando esperanças numa deformação da doutrina à medida das exigências e impulsos de cada um. Num contexto de grande polvorosa mediática em que as vozes que mais sobressaem são, tantas vezes, as daqueles que estão fora da Igreja e nem sequer querem entrar, chama-se “fariseu” a todo aquele que diz o óbvio: que o amor (caridade) pode ser interpretado como a roda dentada de uma engrenagem que não funciona sem a presença de outra roda dentada, a justiça.

Por outras palavras, se o homem tem uma dignidade intrínseca e total liberdade para dizer “sim”, se quer dar prioridade à vivência espiritual em detrimento dos bens materiais temporários, ou seja, se escolhe a conversão, é porque crê que é ele que precisa de ajustar a sua conduta e as suas prioridades; se passa a confiar nos ensinamentos da Igreja é porque lhes reconhece superioridade, tanto pelo discernimento com que passa a interpretar a realidade, como na utilidade prática que encontra quando decide aplicá-la. Visto que cada pessoa é livre de decidir o seu destino, quer isto dizer que a porta da Igreja está incondicionalmente aberta para acolher todos aqueles que se dirigem a ela com arrependimento; não é a Igreja que deve especializar-se em segmentação de mercado com vista a atrair as pessoas através de pacotes diversificados, vergando a sua coerência doutrinal para servir as mudanças de humor e as fraquezas humanas que possam alastrar com aceitação na sociedade.

Não é curioso observar que, entre os mais intransigentes defensores do laicismo dos Estados – sempre horrorizados com a mais leve possibilidade de haver algum derrame de influência espiritual sobre as instituições públicas – podemos encontrar empenhados promotores da inclusão dos vícios políticos na esfera espiritual? Afinal, de que vale defenderem a separação entre Estado e Igreja, se aquilo que pretendem é secularizar os processos, democratizar as decisões, amolecer a doutrina e incutir na Igreja as inconstâncias tipicamente parlamentares e a confusão inerente à mutabilidade da legislação do dia-a-dia?

É fácil identificar uma certa sintonia entre desequilíbrios que caracterizam as democracias ocidentais (desequilíbrios que se geram, em parte, com a ajuda e por culpa do eleitorado) e aquilo que são as reivindicações e anseios da opinião pública ocidental face ao que se passa na Igreja Católica. Os desequilíbrios vão-se revelando das seguintes formas:

1 – Negação da culpa e desresponsabilização pessoal;
2 – Banalização da lei, associada aos amontoados legislativos, e consequente descredibilização da justiça;
3 – Indiferença, ou até aversão, à autoridade (seja ela qual for);
4 – Insaciável apelo a mudanças constantes, adaptadas às singularidades de cada momento e que sejam reflexo dos interesses dos grupos com maior influência. Multiplicação de solicitações igualitaristas;
5 – Volubilidade das leis servindo de incentivo à corrupção e dissolução moral.

Se as leis de uma Nação mudam com o vento, quem as levará a sério? Se perdem a sua razão de ser, deixando de demonstrar um padrão simples, fixo e imutável, o que é que as torna preferíveis e respeitáveis? Contudo, esta é precisamente uma das faces das democracias modernas e um dos factores a ter em conta quando observamos o aumento da criminalidade e do sentimento de impunidade. Quando à dissolução moral, podemos encontrá-la associada também à desresponsabilização pessoal e chegamos ao combustível das promessas eleitorais que exploram o atomismo social e a dependência dos cidadãos em situação de fragilidade.

Se isto faz sentido no domínio político, não será óbvio que a Igreja não tem nada a aprender com os métodos mundanos que estão na moda? Ou as “tiranias da maioria” deixam de ser aborrecidas e aturam-se bem desde que preconizem uma agenda que nos agrade? Na mesma linha de comparação, se percebemos as consequências resultantes das ideologias que levam a um esvaziamento das funções e das responsabilidades pessoais, se conseguimos ver a dependência em que se lançam todos aqueles que acreditam no nivelamento e na acção afirmativa do Estado, não conseguimos também estabelecer ligação entre, por um lado, a negação de culpa e, por outro, o desespero e a angústia de ficar aprisionado a ela por não ter existido um farol moral que encorajasse a remodelação pessoal? Por fim, é fácil prever que quanto mais a Igreja fosse beber aos apelos e métodos que a opinião pública encoraja, mais descredibilizada passaria a estar a sua própria autoridade, menos solidez teriam os seus ensinamentos e menos nítida seria a Verdade.

Neste texto da Maria João, no Observador, encontramos uma alusão à parábola do Filho Pródigo e isto leva-me ao ponto em que comecei: a dicotomia entre amor e justiça. Por sua vez, a parábola levou-me a pensar naquilo que os bons alunos costumam sentir quando o professor fica eufórico com uma boa nota de um aluno que costumava estar entalado nas negativas há imenso tempo, e que precisou de empreender um grande esforço para alcançar um aproveitamento escolar satisfatório. Obter um 4, numa escala de 1 a 5, é algo trivial para alunos sem dificuldades e que andam nos eixos em termos de concentração, presença e cumprimento de tarefas. Já para outros que, imaginemos, possam cair numa rebeldia passageira no decurso de uma fase familiar menos boa, recuperar de uma negativa é uma tarefa muito mais exigente que depende da vontade e do esforço pessoal que visa compensar o tempo perdido. Para dar outro exemplo, um professor também pode ficar mais orgulhoso por conseguir puxar um aluno que revela menos capacidades intelectuais mas que trabalha incansavelmente para as superar. Isto significa que o professor tem preferência por alunos rebeldes, desgarrados ou menos inteligentes, enquanto desvaloriza os alunos que mantêm um bom desempenho – mesmo sem grande esforço – e um comportamento exemplar? É lógico que não. Acontece que alguns professores fazem questão de gastar tempo e dedicação com aqueles alunos que demonstram ter vontade de mudar e de se superarem.

Se um professor chegar em frente à sua turma e disser que vai deixar de usar critérios de avaliação, permitindo que todos transitem de ano independentemente de qualquer avaliação; se disser que ter 5 é vaidade e que quem incentiva tal resultado está a oprimir a liberdade e a criatividade dos alunos, é fácil prever os efeitos disto. Felizmente, não é isto que acontece quando os professores se empenham tanto com os “filhos pródigos” da turma. Está ali sempre subjacente uma mudança de atitude do aluno.

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Crises de identidade própria e falsas alianças de curto prazo

O mês de Setembro é invariavelmente o mês das depressões, da preguiça no trabalho, do desnorte meteorológico e do embate com a realidade, por vezes desagradável, que não foi apagada pela breve pausa sazonal. Não vale a pena ter ilusões; todos os anos sucede-se o mesmo desânimo por não se ter descansado o suficiente, por não ter todos os biscates e bricolage em ordem, por não se terem lido todos os livros reservados para o Verão, por não se terem feito as revisões antes do novo ano lectivo, entre outros clássicos de férias mal aproveitadas.

Mas as férias de Verão também podem servir para pensar no que se fez ou deixou de fazer ao longo do ano, podendo propiciar uma reflexão sobre os feitos, ou a falta destes, dos governos dos últimos 40 anos. E não há dúvida de que se existem pessoas que nos ajudam a lembrar que Setembro é o mês depressivo – aquela pausa existencial em que pensamos sobre a nossa inutilidade ou sobre a estupidez humana em geral – essas pessoas são António José Seguro e António Costa. Esta minha prosa vai ser longa mas, para alívio dos leitores, informo já que não será dedicada às duas individualidades mencionadas. Para além de longa, também poderá soar um tanto ou quanto arrogante, pelo que confesso também não estar imune ao problema que vou apontar e passar a explicar. E que problema é esse? Entre as muitas coisas penosas que se podem apontar à democracia portuguesa, vou referir-me aqui ao problema das alianças frágeis que são assentes nos problemas/inimigos que se combatem em comum. Dito desta forma, parecerá um problema demasiado genérico mas é mesmo essa a minha intenção. Por eu considerar que este problema se alastra aos mais diversos domínios, é que o aponto como um dos maiores entraves ao desenvolvimento, sobretudo político e intelectual, no nosso país.

Comecemos por algo muito óbvio e que nos toca a todos. A perpetuação e a força dos esquemas rentistas que dominam a política e economia portuguesas, só são possíveis graças ao prevalecente princípio que norteia esta oligarquia inabalável: o amigo do teu amigo, meu amigo é (ver exemplo da Sociedade Portuguesa de Autores que aplaude um governo de PSD e CDS quando as decisões lhe são favoráveis). Por outro lado, deve haver algum princípio prejudicial que contribui para enfraquecer a posição, já de si desfavorável, ocupada por todos aqueles que não usufruem deste domínio e manipulação públicos. A debilidade da sociedade civil e de potenciais elites de oposição – e sim, estou a pensar na Direita – explica-se, em grande medida, por um péssimo princípio que só conduz ao marasmo e à cobardia a longo prazo: o inimigo do meu inimigo, meu amigo é. Aceitamos estar sentados na roda de qualquer grupo que afirma combater algo que também queremos combater, mas nem nos incomodamos em tentar perceber primeiro quais são os ideais (se é que os tem) desses aliados. Muitos conseguem repetir frases já incontestadas, tais como “o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros”, mas quantos destes estarão dispostos a perceber que a amizade que mantenho com o inimigo do meu inimigo dura até deixar de existir este inimigo comum? Não digo que não seja necessário, em certos momentos críticos, ceder em alianças temporárias com o propósito de combater um mal maior. O que torna tudo perigoso é deixar-se ficar inebriado ou conformado com esta cedência que pode implicar falta de programa próprio e de inibição da identidade própria; aqui estará parte da explicação para a mais que notória ausência de heterogeneidade de ideias e de atitudes características de quem tem governado.

É ilusório confiarmos que alguém pode ser nosso aliado simplesmente porque, por exemplo, também se indigna com o desmazelo municipal relativamente à conservação dos arbustos do Jardim da Praça do Império ou, noutro exemplo consensual, também concorda em punir “jovens” que perturbam a ordem pública em encontros como aquele que decorreu, no passado mês de Agosto, no centro comercial Vasco da Gama. E é ilusório confiar porque, ainda que possa haver coincidência de ideais quando se criticam temas deste género, as alianças de longo prazo não podem ficar limitadas ao comentário de episódios pontuais, de fácil repúdio, sem uma coerente doutrina de fundo e uma identidade distinta que se assuma publicamente. Não é confiável manter a confortável postura de dizermos ao que nos opomos, em vez de admitirmos o que nos move. Pegando nos mesmos dois exemplos: entre aqueles que defenderam a conservação dos tais arbustos, alguns estariam movidos pela sempre apetecível (e saudável) vontade de embirrar com António Costa, enquanto outros estariam movidos por patriotismo que costumam inculcar aos mais variados temas. Quanto ao incidente que decorreu no Vasco da Gama, existirão pessoas que encontram aqui mais uma razão para discutir problemas de imigração e de integração, enquanto outras reagem sem qualquer formulação de ideias mas com natural indignação.

Existem demasiadas pessoas a dizerem para onde não querem ir e a omitirem o destino que têm em vista. Não se soluciona a irrelevância europeia no palco internacional através da repetição exaustiva da lista de defeitos e ameaças da actual sanguessuga legislativa e fiscal; é preciso que cada um verbalize se defende, por exemplo, uma federação de Estados, orquestrada a partir do centro, ou um revigoramento das nações, compatível com uma desejável cooperação económica e comercial.

Aquela atitude (identidade por oposição) é um erro básico suficiente para ser-se humilhado, imaginemos, frente aos investidores do programa “Lago dos Tubarões”. Um empresário tem de definir com rigor para onde quer ir; se sabe que quer comercializar sabonetes, não pode tentar conquistar investimento de alguém, começando por dizer o que não quer fazer. Exemplificando o que acontece no domínio dos negócios, é fácil compreender a rapidez com que se seria esmagado ao escolher o caminho inconcebível de criar uma visão e uma missão que estivessem alicerçadas numa enumeração daquilo que não se quer fazer/criar/comercializar (aspiradores, brincos, batatas fritas, viagens, etc, etc, etc…). Infelizmente, no domínio das ideias parece não existir percepção tão imediata dos danos causados por essa atitude, daí que ela seja tão perpetuada.

Um corpo oco acaba por ceder à pressão exercida pelos outros. E, ao mesmo tempo em que se perdem de vista os ideais de referência, também se dá uma descida dos padrões de exigência na hora de distinguir o certo do errado. Nomeadamente, basta que alguém critique a elevada carga fiscal para se tornar em modelo máximo das virtudes. Nas palavras de Chesterton: “A única maneira de discutir o mal social, é obter primeiramente o ideal social. Todos vemos a loucura nacional. Mas o que é a sanidade nacional?” Voltando à ideia inicial das ilusórias alianças firmadas com o inimigo do nosso inimigo, parece-me útil lembrar que o actual governo de coligação ainda não teve tempo de empreender mudança alguma no que toca aos facilitismos no acesso ao aborto. Talvez porque a gestão das maiorias democráticas não é compatível com a existência de “coluna vertebral” e com a afirmação de princípios inabaláveis ao longo do tempo.

O problema das uniões sustentadas à conta de oposição a um inimigo comum é que se esgota com o desaparecimento deste. Quem insiste em fazer isto, – admita-se que todos nós, mais ou menos vezes, caímos nesta tentação – procura fugir aos seus próprios fantasmas, procura explorar formas de aceitação social ao construir pontes mas, sobretudo, procura esconder a alternativa em que acredita (ou partes mais problemáticas desta) de forma a não ser penalizado social e/ou profissionalmente. Não é só entre partidos políticos que se verificam estranhas cedências e alianças mantidas à conta de programas constituídos por slogans e palavras seguramente ambíguas. Também grande parte das crónicas de jornal são aquilo que a elite dominante quer que elas sejam: subsiste-se numa agenda de negação e de vazio. É tão fácil como começar a falar sobre o estado do tempo num elevador ou como dizer mal de alguém com as vizinhas; as vizinhas maldizentes detestariam-se mutuamente caso não existissem “podres alheios” a justificar muita conversa barata de conveniência.

Através de “identidades por oposição” (expressão inventada por mim às três pancadas) logra-se de uma ampla rede de contactos que podem simpatizar, conviver ou delegar-nos para a esfera da indiferença concedida aos irrelevantes, inofensivos ou banais. Contudo, há um enorme preço a pagar. Pode cair-se no risco de ceder à hipocrisia ou à omissão da verdade para gerir a larga audiência de contactos. Se a situação passa a gerar desconforto pessoal, fica-se sozinho entre a multidão de falsos aliados.

Para tentar facilitar o entendimento daquilo que tratei até aqui, vou terminar com uma tentativa esquemática que começa no ponto em que identifico este conformismo de identidades até ao ponto em que esse conformismo é esmagado pela sua própria inviabilidade:

Num primeiro momento, as ideias agregadoras são imprecisas e vagas, bastando encontrar consensos com base naquilo que se considera estar errado e a funcionar mal.

Num segundo momento já se poderá pressentir risco de cismas e desagregação face à possível extinção do ódio de estimação; vai deixando de se justificar a oposição a um inimigo comum que, enfim, desaparece…

Depois disto, ocorre a quebra do cimento que unia um grupo muito diverso. É o momento por excelência em que “se zangam as comadres e se sabem as verdades”.

Num quarto momento, todos enfrentam a desagregação e o desgaste de ideias. Abraçam-se confianças de base e há busca desesperada por ideais autênticos e crenças fortes. É a fase de reafirmação e de valorização em reacção ao vazio e aos fracassos anteriores.

Num quinto momento, já se poderão identificar unidades fortes e distintas com capacidade de defender as ideias que os fazem subsistir. A sociedade já não deixa esmorecer os valores que garantiram a sua revitalização.

Colocando a hipótese disto ser um ciclo inevitável, passado o fervor que valoriza as razões de saúde e consolidação da “pólis”, poderá haver uma banalização ou descuramento dos ideais numa tentativa de fuga a debates e conflitos desnecessários. À medida que se negligencia a prioridade dos ideais como bússola da sociedade e da política, voltará a ganhar espaço a cobardia da indiferenciação e o conformismo que se satisfaz com a crítica vazia, com a maledicência, propiciando a gradual vitória do Império do Nada. A minha esperança para Outubro de 2015 – e, até lá, teremos muitos oportunidades de sublinhar por que é que os vários partidos políticos estão na fase se esgotamento e de falta de identidade própria – é que haja uma desagregação fatal que ponha estas fraquezas em evidência. Por estas e por outras é que, no meu modesto entender, será estúpido ver pessoas inteligentes a fazerem campanha por Passos Coelho em oposição a qualquer um dos Antónios.

Ovelhas

Fica 15 dias à experiência ou segue para reparação

Algumas pessoas teimam em achar que as “barriga de aluguer” não acarretam grandes problemas e complexidades. Depois existem as outras pessoas sensatas que não ficam surpreendidas quando estas notícias aparecem. São as tristes cenas da sociedade do descartável. Destaco a situação em que ficou a mãe da criança depois de se ter visto envolvida nestes negócios por força das circunstâncias materiais adversas. Tendo em conta as actuais prioridades femininas no ocidente, creio que não existirá por aí nenhuma alminha ingénua a acreditar que são as mulheres da classe média ou alta que vão engrossar estas fileiras. 

Australian couple abandon surrogate twin with Down’s syndrome – but keep his sister

A Thai surrogate mother has received donations from across the world to provide medical treatment for her six-month-old boy, after an Australian couple refused to take the baby on learning he had Down syndrome.
Pattharamon Janbua, 21, was left to care for her critically ill son after the Australian couple who could not have a baby paid her about £6,400 to be a surrogate mother.
The son, named Gammy, was separated from his twin sister, who is healthy and was taken by the Australians.

“The agent told me: ‘We are going to make a glass tube baby,’ but I didn’t understand. My husband agreed because we didn’t have money to pay our debt and I didn’t need to have sex with another man.”

“Os nacionalistas das causas alheias”

Por Miguel Castelo Branco no blogue Combustões:

As últimas semanas tornaram notória a existência entre nós de um ardoroso nacionalismo de novo tipo: o nacionalismo das causas alheias. Exaltar Portugal, defender o seu ser e destinação, a sua liberdade, auto-determinação e independência é crime. Contudo, pelo que me apercebo – à esquerda, à direita e ao centro – é lícito, conveniente e angariador de bom nome terçar armas por outros. Pelo que também me é dado ver, há entre nós mais nacionalistas israelitas que patriotas portugueses, mais fedayin palestinos que lutadores por Portugal, mais estrénuos batalhadores pela União Europeia que orgulhosos portugueses. Eu compreendo que em tempos de crise muitos andem em busca de poiso, tudo fazendo para merecer umas migalhas caídas da mesa dos banqueteadores das causas milionárias. É tudo uma questão de bandeiras e de estipêndio. Curioso que no meio de tanta algazarra não me tenha apercebido de “luso-nacionalistas Curdos”, de “luso-nacionalistas Rohingya”, de “luso-nacionalistas malianos” ou de “luso-nacionalistas Caxemires”. Pois, não pinga nada dessas pobres causas. Defender Portugal acarreta problemas. É politicamente sensível. Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias insurgindo-se contra o tratamento de Estado-vassalo concedido pela UE a Portugal ? Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias rebelando-se contra os comissários europeus que aqui são recebidos com grinaldas, com o pão e o sal concedido aos governadores de uma província imperial ? Assim vai o povo português, frivolizado, confuso, tele-dirigido e indigno rumo à escravatura. Caladinhos, amedrontados, respeitadores do chicote, salivadores pela cenoura; assim fiquem, ardorosos portugueses, pois nada se espera de vós. Pois é, lá está o Miguel a dizer “coisas daquelas que tornam impossível metê-lo em qualquer grupo”.

Sinais dos tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as finalidades do património edificado. Se desejamos reunir indícios que nos ajudem a identificar as prioridades e valores de determinado grupo de pessoas num dado momento, é um bom começo conhecermos o destino dos seus maiores investimentos e sacrifícios. E porque não vale a pena voltar a inventar a roda, recorde-se que já as Escrituras diziam: “onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Da mesma forma, aprende-se muito ao observar em que é que um grupo não está minimamente disposto a perder dinheiro e tempo.

Compreende-se que em alguns países, como é o caso da Holanda, esteja na berra converter igrejas em museus, bares, bibliotecas… Compreende-se porque manifestações de beleza intemporal e arquitectura sublime e durável são raras nos tempos que correm e torna-se muito apetecível ir buscar essas obras ao passado espiritualmente fecundo em que foram criadas. Nem tudo é mau nestas sociedades desnorteadas; salva-se o bom gosto de quem escolhe estes espaços.

Mas enquanto os europeus continuam entretidos com o próprio umbigo, orgulhosos do pouco que são e envergonhados de tudo o que já existiu antes deles, insistem em brincar ao laicismo, ao pluralismo e à vontade da maioria, há quem revele quanto está disposto a pagar para erguer um bastião de espiritualidade na Europa. Conversão de património, mais uma vez. Obviamente, não estamos a falar de cristãos (a menos que Edir Macedo estivesse interessado em construir um templo a Mamon nas nossas terras). Ainda não chegou o dia em que venderemos o Mosteiro dos Jerónimos à Isabel dos Santos ou o Estádio de Leiria a um barão do petróleo mas, por agora, vamos tomando conhecimento que o emir do Qatar, Tamim Zani, tenciona que a praça de touros Monumental, em Barcelona, seja transformada numa Mesquita com um minarete de 300 metros e com capacidade para cerca de 40 mil pessoas. Fortes convicções justificam grandes espaços e grandes investimentos.

As igrejas convertidas em espaços de lazer e a antiga praça de touros de Barcelona têm algo em comum (para além de serem elementos vinculados às tradições locais que atravessam gerações): a inactividade. É preocupante que os europeus demonstrem tamanha indiferença – quando não é orgulho – à medida que perdem vantagem no domínio da religião e das tradições. Como se pode ver, se os europeus não querem, há quem queira.

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Sociedade civil subterrânea

Por muitas que sejam as fragilidades apontadas pelos críticos à velha dicotomia esquerda/direita, a sua utilidade rotineira continua a parecer imbatível nas nossas mais elementares reflexões diárias. Ainda assim, perante problemas contemporâneos mais intrincados que nos deixam com a sensação de ter as lentes embaciadas, nada nos impede de procurar inovar de uma forma mais informal para encontrar alguma ordem no meio do caos. E eis que a inspiração pode surgir, de forma bastante improvável e inesperada, através de um filme – e por falar em sociedade subterrânea… não, a inspiração não vem do Matrix. Mesmo correndo o risco de não ser levada a sério, que tal dividirmos a realidade social e política entre a “dominante/visível” e a “subterrânea”? Duas “classes”, digamos assim, que existem em simultâneo, embora só nos apercebamos da existência da primeira.

A realidade dominante/visível associo-a àquela que é totalmente orquestrada por determinada liderança política monopolista com a finalidade de realizar os respectivos objectivos, reeducar e arrebanhar culturalmente os súbditos (por vezes, redesenhando a própria ordem social) e, de um modo geral, recorrer às mais infames estratégias que lhe possibilitem conservar o domínio para continuar a alimentar toda a rede de interesses que daí vai tirando proveitos pessoais. A realidade subterrânea seria a realidade “bárbara”, não num sentido depreciativo, mas por ser uma realidade que é hostilizada, ou escondida e desvalorizada, por aqueles que detém o poder. De uma forma mais simples, podemos dizer que a primeira é uma realidade que conta com os holofotes e a segunda é uma realidade que acaba por ser esquecida mesmo que, na prática, represente a tendência maioritária de um dado grupo populacional.
Para quem quiser perceber melhor a ideia, a fonte de inspiração foi o Demolition Man (1993). 

É inevitável que estes filmes de ficção científica nos despertem entusiasmo e intensa vontade de metralhar os outros com as nossas próprias analogias feitas com factos do presente, mas não vos vou maçar com reflexões acerca da impossibilidade de John Spartan comprar um hambúrguer na sociedade higienizada e entediante de 2032, ou da emissão de multas por abusos verbais, ou ainda do total desarmamento da sociedade e das forças de segurança (desvirilizadas ao máximo). Teria a sua graça mas seria demasiado previsível. A actualidade está repleta de exemplos em que, aplicando aquela simples divisão, podemos passar a vislumbrar um novo sentido de interpretação da realidade onde antes só víamos confusão. Vamos atentar em dois breves exemplos.

Recuemos até às últimas eleições europeias e pensemos em como foi penoso ter de assistir, mais uma vez, a tantas demonstrações de inaptidão e de disfuncionalidade da parte de candidatos, comentadores e demais constituintes da realidade “dominante/visível”. Apesar dos elevados níveis de abstenção, dos vários sinais de eurocepticismo, e por mais flagrante que seja a inadequação das instituições europeias, a verdade é que nunca existem holofotes apontados para os indivíduos que compõem a realidade “subterrânea”, habilmente ignorada pela elite que prefere continuar a renegá-los para a clandestinidade como gente primitiva que não consegue assimilar a superioridade do projecto perfeito para um futuro brilhante. A meu ver, a complexidade dos desafios europeus é um bom exemplo de como pode ser relevante perceber a tensão existente entre a dominância de uma certa elite e as atitudes da sociedade civil subterrânea, em vez de reduzirmos as tensões à oposição entre esquerda e direita. Sobretudo quando sabemos que não será complicado encontrar alguns pontos de concordância entre representantes da esquerda e da direita, fazendo frente a imposições e intromissões europeias.

O segundo exemplo passa-se na nossa pátria amada e é um dos assuntos que vai continuar a fazer correr muita tinta: António Costa. O mediatismo que envolve este líder ávido de protagonismo e ansioso por ser investido de autoridade a nível nacional, demonstra claramente a desfasamento entre aquilo que são as orquestrações partidárias, orientadas sempre centralmente, e aquilo que é a realidade dos portugueses. Se já é complicado, para um lisboeta, apontar feitos notáveis que distingam este senhor, imagine-se o desapego dos restantes portugueses por esse país fora. Se as marchas populares puderem ser incluídas na realidade “dominante/visível”, eu posiciono-me orgulhosamente na realidade subterrânea. Ainda assim, aquilo é que o país se arrisca a ter de gramar nos próximos anos. Como se não bastasse termos acostumar ao marasmo total no que toca a progressos no domínio da devolução de poder ao longo do território, abre-se agora esta possibilidade de coroarmos a realidade “dominante/visível” com aquele que é o mais perfeito exemplo de mascote partidária, concebido e popularizado por Lisboa e para Lisboa. É bem possível que a realidade subterrânea se esteja perfeitamente a borrifar para a figura banal que António Costa representa. Em caso de avançar, só uma contínua campanha de lavagem cerebral ao longo de vários meses poderá atenuar essa falta de correspondência entre as duas realidades.

No filme Demolition Man o líder político mentia e ignorava a realidade subterrânea, contrariando as vontades e inclinações naturais das pessoas; não sei se a comparação é muito forçada, mas sou levada a crer que em Portugal e na UE também funciona assim.

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A mentalidade que mata…

A respeito deste assunto, leia-se o texto do Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada no jornal i:

Estes novos indignados, que parecem ser muito zelosos no que entendem ser a justiça social, esquecem o mandamento maior: a caridade. Em nome dos pobrezinhos, ofendem a honestidade, a rectidão e a competência de alguém que, entre outros méritos, tem o de ser um dos maiores empregadores do nosso país. É muito bonito dar esmolas aos pobrezinhos, sobretudo se as câmaras da televisão imortalizarem o caritativo gesto do gestor bonzinho, mas é muito mais importante dar trabalho a milhares de mulheres e de homens. Quem tenha feito mais e melhor, que atire a primeira pedra. 

Quando Maria, a irmã de Lázaro, ungiu os pés do Senhor com um perfume “colossal”, houve quem se indignasse: Judas Iscariotes. O evangelista João explica a razão do seu protesto: “não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão”.

A reflectir (2)

Senator: The war’s over. Our side won the war. Now we must busy ourselves winning the peace. And Fletcher, there’s an old saying: To the victors belong the spoils.

Fletcher: There’s another old saying, Senator: Don’t piss down my back and tell me it’s raining.

* The Outlaw Josey Wales (1976)

pianddsnj

Mais um Domingo silencioso e cinzento

O fenómeno que ocorrerá no próximo Domingo é tão surreal e absurdo que, embora possa parecer inútil e penoso falar acerca dele, é imperdoável não o tentar fazer. No dia 25 de Maio, alguns portugueses sairão de casa com o propósito de atribuir votos, concentrando-os em torno de duas ou três candidaturas frívolas e indistinguíveis entre si, com base em nenhum debate de ideias para a Europa – que, por sua vez, também não existem, ou talvez não se revelem à descarada – protagonizado por figuras políticas híbridas e insossas, como manda a liberal-democracia, figuras estas que não nos representam efectivamente mas que ambicionam somente distribuir-se pelos 21 lugares, materialmente afortunados, mas politicamente insignificantes para os destinos da nação.

O surreal e absurdo não é a previsível abstenção, mas sim o ainda considerável número de eleitores que se sente motivado a votar nas actuais circunstâncias. Considerando os níveis de abstenção, perto de uns abençoados 70%, é tentador acreditar que as eleições europeias, grosso modo, contam sobretudo com a participação dos assíduos filiados que vão participando nas tímidas patuscadas regionais e que seriam assombrados por um pesado sentimento de culpa se não acorressem às urnas para cumprir os preceitos desta manobra de entretenimento colectivo e de débil legitimação.

O que interessa sublinhar nesta campanha não é ausência de debates entre os candidatos partidos nos meios de comunicação. O que salta à vista é que a pobreza de ideias que varrem os programas dos principais partidos não justificaria a realização de debates, já que os candidatos ficariam expostos ao ridículo das concordâncias moldadas além-fronteiras, quando questionados relativamente a assuntos europeus, e ao ridículo da intriga quando procurassem ocupar o tempo de antena com falsos antagonismos engendrados pela agenda político-partidária nacional. Silenciar qualquer réstia de esperança num confronto de ideias é a forma mais confortável de livrar os partidos do arco da governação desse tormento que seria ter de enfrentar partidos pequenos com algumas ideias palpáveis que tocam em pontos sensíveis. É mais simples seguir a via de mostrar actividade, mobilizando as claques partidárias para arraiais de pouca adesão popular e de muita encenação popularucha, do que deixar os candidatos “entre a espada e a parede” em matérias como política monetária, imigração, referendos, harmonização fiscal, “inverno demográfico”, segurança interna e segurança externa, etc.

Enquanto os mais votados, em Portugal, dispensam a tarefa maçadora de se posicionarem claramente em relação a estes e outros assuntos, os irremediavelmente enjeitados, condenados à irrelevância gráfica na noite eleitoral, esforçam-se por criar uma imagem demarcada na defesa de causas concretas. Ainda assim, é um esforço em vão; é como tentar consertar um candeeiro avariado numa localidade sem acesso a rede eléctrica. Se queremos mais uma prova de que aqueles que vão a votos no Domingo não conseguem fazer da Europa nada mais do que uma simples central distribuidora de fundos, indutora de dependências e de vícios, basta ler a propaganda eleitoral que nos invade a caixa do correio. Neste caso, atente-se num folheto da coligação Aliança Portugal: “Alguns tentam fazer esquecer que as creches, os lares, os hospitais, as escolas, as bolsas de estudo, a formação profissional, as estradas, o saneamento e até a água que bebemos, têm na sua grande maioria, financiamento de fundos europeus. Também por isso precisamos de estar na Europa, por Portugal.”

Agradeço o esforço de enumeração saloia de tantas conquistas, certamente inspirados pela “Life of Brian” dos Monty Python. Generalidades repetidas como uma espécie de chantagem que pretende deixar qualquer eurocéptico consciencializado da sua ingratidão e imaturidade por revelar tão ousada resistência e fraca empatia para com o Império-Benevolente-dos-Almoços-Grátis. Esta publicidade enganadora que acena com recompensas, reflecte bem quão oca é a ideia da Europa destes senhores.

Um processo de integração internacional pressupõe alguma transferência de lealdade de um centro de poder para outro, o que, por sua vez, pressupõe existência de interacção entre as unidades cooperantes. Ora, aquilo que se verifica é uma confiança excessiva na força das vantagens económicas que tenta construir algo desprovido de uma matriz civilizacional comum, agregadora dos naturais particularismos nacionais. Como afirma Nye, a propósito da necessidade de um sentido de identidade enquanto força de apoio à integração regional: “Quanto mais forte for o sentimento de permanência e maior o apelo à identidade, menor será a disposição dos grupos de oposição de atacar, frontalmente, um determinado mecanismo de integração.” (Nye, 1971, p. 73) Para tristeza daqueles burocratas que se lamentam por ainda não terem encontrado a receita para o sucesso, a autêntica confiança dos povos europeus não é coisa que se decrete. Não se enfrenta com a mesma leviandade com que se regulam autoclismos, rótulos de alimentos ou com que se fabricam frágeis estabilidades sociais de subúrbio ou ilusórios igualitarismos de “género”. A lealdade conquista-se e alimenta-se não só de necessidades comuns como também de elementos culturais e religiosos agregadores.

Este trilho em que a Europa avança não é apelativo para o comum dos mortais europeus, não só pela propensão federal que se afigura e pelo carácter nebuloso e labiríntico dos processos. Não é apelativo porque tornou-nos num continente órfão de lealdades de longo prazo, dominado por uma atitude de “nothing to kill or die for, and no religion too”, transformando-nos em bobo da corte no palco internacional. Somos uma Europa subserviente, receptiva à mutilação da sua identidade para servir silenciosamente as exigências daqueles que a sujeitam a uma transfiguração que vai aumentando o desfasamento entre a legislação e aquilo que são os hábitos e expectativas dos povos europeus. Sem esquecer que a dissolução das fronteiras nacionais tem desafiado a especificidade de cada um dos seus membros em lugar de se limitar a potenciar a profícua aproximação dos cidadãos europeus e a abertura e cooperação económica.

A abstenção é uma opção bastante racional e compreensível, considerando, por exemplo, as barreiras inultrapassáveis entre os europeus e o processo decisório, a frieza com que os eleitos se empenham em apunhalar, dia após dia, a herança cultural europeia, e o obscurantismo que vai edificando uma Babel cercada por intenso e permanente lobbying imbatível. Apesar de a abstenção ser, por si só, um importante sinal de apatia e indiferença geradas por todo este processo democrático grotesco, julgo que seria menos inútil (não consigo dizer «útil”) optarmos por enviar sinais mais expressivos que não se prestem a ser objecto de interpretações dúbias e aproveitamentos ideológicos ou didácticos, em tom tutorial, por parte dos comentadores habituais. Sinais mais expressivos passam por votar em partidos que vão no sentido da reacção ao que a União Europeia tem vindo a promover.

pianddsnj

Pensamento único e medo da descompressão

Passaram somente dois dias e parece que alguns portugueses já estão a sofrer com a potencial “descompressão” no domínio da comunicação social. Os típicos papagaios apáticos que descarregam opiniões a partir de títulos e subtítulos desonestos e que partilham rotineiramente as mais batidas crónicas incoerentes, sustentadas pelos jornais do costume, são os mesmos a cuspir para cima do trabalho daqueles que tentam destoar da mediocridade. Subitamente, muitos se interessarão por passar a pente fino os títulos, os entrevistados, o mérito dos colunistas ou as escolhas editoriais em geral.

Sentido de humor selectivo

Ponham pimenta na língua para não serem forçados a ‘abrir os cordões à bolsa’. Na era dos insólitos, há sempre quem descubra formas rápidas de enriquecer.

BBC faces £1MILLION racism lawsuit over Jeremy Clarkson’s ‘slope’ quip on Top Gear Burma special

An actress is suing the BBC for up to £1million after Top Gear host Jeremy Clarkson allegedly made a racist remark during the series finale of the show.

Indian-born Somi Guha, 36, has instructed lawyers after Clarkson used the word ‘slope‘ – a derogatory term for people of Asian descent – in the Top Gear Burma special.

(…)

In the series finale, the three hosts – Richard Hammond, James May and Jeremy Clarkson – are tasked with building a bridge over the River Kwai in Thailand.

After completion, Clarkson, 53, said: ‘That is a proud moment, but there’s a slope on it’, as a man walked towards him on a makeshift bridge.

Co-presenter Richard Hammond, 44, replied: ‘You’re right, it’s definitely higher on that side.’

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Fornalhas

Há uns meses atrás, enquanto lia um livro de Michael Sandel, cruzei-me pela primeira vez com uma referência ao filme Gattaca, de 1997. Por ignorância ou falta de atenção, desconhecia a existência desse filme de ficção científica que nos transporta para um futuro em que a sobrevivência é inescapável à omnipresente manipulação genética desde o momento da fecundação. Uma realidade em que qualquer contrato depende de um prévio controlo de qualidade e de um acesso rápido computorizado ao cadastro genético de cada um. Uma rotina em que todos os passos são acompanhados por triagens à urina, ao sangue, aos cabelos e a qualquer vestígio de ADN deixado no lugar errado à hora errada.

Não são elementos invulgares em filmes deste género mas uma das cenas mais fortes que o traz à minha memória é a cena final. A cena de um suicídio dentro de uma fornalha. Dentro da fornalha ardia um ex-atleta com um perfil genético invejável que tinha vendido a sua identidade, depois de sofrer um acidente de automóvel que o deixara paraplégico e inutilizado, a um outro jovem que via os seus ambiciosos planos serem frustrados por carregar consigo um perfil pouco favorável, resultante de uma concepção natural.

O filme revela sobretudo a luta permanente contra a lei e a insubordinação e fuga a que ficam obrigados todos aqueles que optam pelo amor natural, numa sociedade que descartava os indivíduos menos aptos, ‘carimbados’ à nascença com a previsão da sua longevidade e a propensão para as várias doenças. Revela também a ingrata condição em que fica um homem incapacitado por acidente, reduzido a fornecedor de material genético até ao dia em que, cumprida a sua missão de ajudar o amigo, enche os frigoríficos com reservas de urina e sangue e se lança sozinho para dentro de uma fornalha. Entretanto, já estraguei a surpresa ao que estiverem interessados em ver o filme.

Vem isto a propósito de uma das notícias mais perturbadoras que li nos últimos tempos em matéria de aborto – e até vou lendo bastantes – vinda do Reino Unido e já aqui referida pelo André. A notícia da incineração de milhares de bebés abortados para aproveitamento energético que é canalizado para o aquecimento nos hospitais, naquilo que chega cruamente designado de “reciclagem eficiente”. Os contornos deste acto grotesco podem despertar algumas incertezas entre aqueles que, recusando-se a reconhecer dignidade humana nas primeiras semanas após a concepção, também não conseguem admitir que, por exclusão de partes, tratam como lixo hospitalar a individualidade de milhares de vidas que ficaram por nascer.

Igualmente, a essas pessoas, e a todas aquelas mais frontais e seguras de si, não chocará a ideia de as mulheres que abortaram não saberem o fim que foi dado ao “material fetal”, como tão convenientemente lhe chamam. Afinal, também essa “reciclagem eficiente” decorre de todo um processo administrativo e impessoal em que se cumprem ordens e se perseguem objectivos eficientes, sem olhar a meios e sem influenciar a decisão da mulher. Longe da vista, longe do coração. Aquele personagem do filme Gattaca pôs fim à vida numa sociedade que não lhe dava espaço respeitável, nem dignidade… Creio que ficou claro onde quis chegar. Com a subtil diferença de aquele homem ter agido por vontade própria.

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“O Hospital de Moloque”

Por Jairo Filipe, no blogue Prometheo Liberto:

«Disse então Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.»

Pode haver maior ultraje, sacrilégio e profanação do que matar crianças dentro das barrigas das mães, num local chamado “de Santa Maria” ?

«Temos perto de três mil partos anuais. Sendo o número de abortos estimado em um quinto do de partos, dá um máximo de 750 por ano para toda a população que este hospital cobre. Espera-se que dois terços das mulheres passem pelo centro de saúde, prevendo-se que a maioria das IVG ocorram até às oito semanas, resolvendo-se com comprimidos. E muitas mulheres preferirão o privado. Contamos ter aqui três a quatro IVG por semana, pouco mais de 200 por ano »

[Retirado de uma notícia dos planos dos sacrifícios humanos a executar nesse local, de 2007.]

Seria fácil teorizar aqui que este “detalhe” da cultura abortófila portuguesa, no mínimo, diverte as elites satânicas que nos governam. Muito provavelmente, diverte. Mas pior do que isso é a apatia dos ofendidos que não se ofendem. O catolicismo ainda existe em Portugal? « Santa Maria » ainda significa algo para os católicos e para a hierarquia da dita “igreja católica portuguesa”? Não parece.

Poderão responder alguns dizendo que este hospital pertence ao Estado. O problema é que, para além das vidas humanas inocentes que por lá são deitadas ao esgoto, a religião Católica também não pertence ao Estado. O dito “estado laico” não tem o direito de matar crianças em nome de Santa Maria, venerada pelos Católicos como Mãe de Deus. Mas é isso mesmo que faz, um sacrilégio demoníaco, quando oferece e pratica serviços de “interrupção” infanticida da vida humana num Hospital com esse nome e imagem, sagrados.

Esta situação é uma das maiores aberrações que se poderia sequer imaginar. Não basta apenas um serviço nacional de matança dos filhos dos portugueses; alguns desses homicídios intra-uterinos também têm de ser feitos no Hospital de…Santa Maria.

Há tempos, mostraram-me e pediram-me para denunciar como ofensa religiosa uma publicação no facebook que têm por título “Virgin Mary should´ve aborted”. [A Virgem Maria deveria ter abortado].

É estranho saber que alguém, algures, tem essas ideias e dá-se ao trabalho de as defender em público? Pois bem, em Portugal, a teoria dá lugar à prática:

-Feticídio selectivo e redução embrionária: a experiência do Hospital de Santa Maria.
[ http://www.fspog.com/fotos/editor2/1_ficheiro_604.pdf ]

Texto completo aqui.

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Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão (2)

Procurando ser breve (piada), vou responder à Maria João para que não persistam mais equívocos a respeito das ideias que tentei transmitir aqui.

Em primeiro lugar, reconheço que me estiquei bastante face aos pontos levantados no texto da minha camarada e ela tem razões para achar que houve aqui um aproveitamento injusto. Porém, como me pareceu ter ficado evidente, o meu texto não pretende conotar a posição da Maria João com todos os problemas que abordei. A posição que defendeu funcionou, isso sim, como um ponto de partida e alonguei a minha resposta devido ao notório e indisfarçável entusiasmo pessoal pelo tema.

O meu exemplo da depreciação que é feita em relação às famílias numerosas foi uma forma de sublinhar a existência dessa mentalidade bem enraizada de cultura de filho único, como a temos vindo a designar. É que, contrariamente à Maria João, eu acho saudável a punição social que tem um papel instrutivo quando combate comportamentos perniciosos para a comunidade. Nas situações que o Estado acondiciona, assistimos a uma completa inversão dessa punição social, em desfavor da própria sociedade e não podemos continuar a acreditar na tão badalada neutralidade. É falso que uma sociedade possa coexistir sem um mínimo de punições sociais que incitem à sua adaptação e preservação. É irrealista conceber o contrário.

Coisas tão elementares e permanentes como a motivação para fidelizar compromissos matrimoniais, ter filhos e saber superar as incertezas com vínculos de longo prazo, acautelar a condição dos mais velhos e sentir a obrigação pessoal de lograr uma melhoria de rendimentos em favor da segurança da própria família, só podem perder prestígio e respeito quando os governos afagam a condição daqueles que adiam descontraidamente as suas obrigações. Eu disse que a família não é uma ilha e volto a repetir. As decisões que são tomadas entre quatro paredes têm um impacto determinante na vida de cada um, na prosperidade económica e no bem-estar social e espiritual de uma nação e esta consciência só se perdeu (numa sociedade que se escandaliza com papéis deitados ao chão, enquanto remete assuntos sociais graves para o foro privado, como acontece com o aborto) porque o cidadão deixou de depender das redes de confiança na sua proximidade e passou a lidar somente com a grande central, cumprindo as suas obrigações administrativas e voltando à sua vidinha no final do dia.

A questão da natalidade é apenas uma ponta do icebergue e não se resume a uma oposição entre salvar o país ou fazer filhos por gosto. A história não foi feita por pessoas que decidiram fazer filhos por gosto pessoal (também gostam e ajuda muito ser uma tarefa agradável). Esta visão restrita é mais um reflexo do sentimentalismo que invadiu as interacções humanas, despojando-as da sua componente funcional. Ter filhos é salvar a família, e é salvar a comunidade. E é também salvar a nação. Por que não? Citando um autor que muito aprecio e que explica estas transformações melhor do que ninguém: historically the family’s importance has come from the fact of intimate social cohesion united with institutional significance in society, not from its sex or blood relationships. (Robert Nisbet, 1953, P.53)

Em parte alguma do meu texto se pode achar que estou a sugerir incrementos artificiais para inverter as tendências demográficas que se têm acentuado, sobretudo, a partir da segunda metade do século XX (Europa e EUA). A começar pelo título, percebe-se logo ao que venho e frisei insistentemente o conflito entre a família e o Estado porque, a meu ver, a deterioração da família tem germinado essencialmente devido à expansão dos tentáculos do Estado, num falseamento de garantias de curto prazo e numa gradual troca de papéis funcionais. O Estado, por sua vez, cresce, abastece-se e domina por absorver as funções que eram inerentes à família num processo que eu gosto de associar à “pescadinha de rabo na boca”. Não se percebe ao certo de onde partiram os primeiros incentivos, neste relacionamento contínuo entre inseguranças individuais e aproveitamento eleitoralista, mas fica claro que a desresponsabilização pessoal, aliada a um estranho individualismo exacerbado, e a maximização da força estatal se reforçam mutuamente.

A Maria João mostra-se preocupada com esta minha frase: “Se continuar a persistir uma cultura de desresponsabilização pessoal perante as tendências demográficas que têm avançado no terreno…”. Julgo quase redundante esclarecer este ponto mas se ele dá azo a uma fácil deturpação, é bom que fique claro o que pretendia dizer com isto. Não raras vezes, os defensores de incentivos à natalidade espremem toda a sua criatividade para conseguir encontrar fórmulas mágicas para dar a volta ao problema. Geralmente, descamba-se no apelo ao investimento do Estado em cheques para fraldinhas, ajudas na conta da electricidade e toda a sorte de subsídios variados que, muitas vezes, nem chegam a sair do papel. Lembram-se de eu ter falado em “fraude endémica” e em “incentivos perniciosos”? Pois bem, se há alguma coisa que o Estado deve fazer urgentemente, é sair da frente das famílias, abrindo caminho a um maior desafogo para que não sejam penalizadas à medida que têm filhos na medida das suas expectativas.

Para quem me vai conhecendo, torna-se fácil ler-me nas entrelinhas. Assim sendo, a Maria João não tem razões para temer por mim, nem acho honesto sugerir-se que a minha visão pode cair em “ideologias pouco recomendáveis” por uma frase tão simples como aquela. Eu refiro-me a uma “cultura de desresponsabilização” e essa tal cultura de desresponsabilização só encontra espaço de disseminação quando as pessoas deixam de enfrentar as adversidades e impulsos reais da sua condição, passando a viver numa bolha de garantias igualitaristas passíveis de serem usufruídas em perfeito anonimato. Daí a propagação de famílias unipessoais e de famílias monoparentais no ocidente nas últimas décadas. Se o Estado não tivesse aniquilado e tomado o lugar da maioria das autoridades tradicionais da comunidade, o conceito de responsabilidade não seria erroneamente associado ao medo e ao capataz num falso dilema entre aquilo que se faz por gosto e aquilo que se faz para obedecer a imposições políticas.

Por fim, – e percebendo que me alonguei novamente, estando por isso disposta a desafiar a Maria João para uma luta na lama caso ela queira continuar esta discussão – remato com uma citação que também resume bem o espírito daquilo que procurei expressar:

Um homem honesto apaixona-se por uma mulher honesta; ele quer, por isso, casar-se com ela, ser o pai dos seus filhos, e ser a segurança da família. Todos os sistemas de governo devem ser testados no sentido de se saber se ele pode conseguir este objectivo. Se um determinado sistema – seja feudal, servil, ou bárbaro – lhe dá, de facto, a possibilidade da sua porção de terra para que ele a possa trabalhar, então esse sistema transporta em si próprio a essência da liberdade e da justiça. Se qualquer sistema – republicano, mercantil, ou eugenista – lhe dá um salário tão pequeno que ele não consiga o seu objectivo, então transporta consigo a essência de uma tirania eterna e vergonha. (G. K. Chesterton, “Illustrated London News”, Março de 1911.)

Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão

Para recordar que no Insurgente há sempre espaço para as divergências, não resisto a discordar daquilo que a Maria João argumentou neste texto. Quando o assunto é a evolução da natalidade e a transformação da estrutura familiar, aparece sempre quem comece por perguntar se já fomos mães/pais e se a nossa prole é muito ou pouco numerosa. Asseguro-vos da minha parte (embora não tenha problema em responder à pergunta) que a experiência pessoal em certos assuntos é completamente acessória e irrelevante para o caso e, se existe desafio urgente que deveria motivar um esforço de compreensão e de distanciamento pessoal, esse desafio é o da baixa taxa de natalidade. A Maria João reconhece que estamos perante um problema do país – seria estranho se não houvesse consenso nessa constatação. Contudo, começa logo por dizer que ninguém deve fazer juízos de valor relativamente às opções de cada um.

Não sei até que ponto as famílias numerosas não serão o principal alvo da maioria dos juízos de valor no dia-a-dia. Quando determinada família tem muitos filhos, é fácil associar-lhe rótulos pejorativos: “aqueles devem dormir em paletes lá em casa”; “olha, mais um casal de beatos que não sabe o que são contraceptivos”; “já anda prenha outra vez, vai fazer concorrência com a Parmalat … parecem coelhos”; “lá vem outro, para começar a trabalhar para a casa”.

Isto para dizer que os tais “juízos de valor” não surgem por acaso (e não são inocentes), assim como não é por acaso que o paradigma vigente de preferência por ter filho único é acomodado por toda uma cultura que enfatiza os custos dos filhos “à peça”, promovendo uma concepção de felicidade dependente do mimo em regime de exclusividade e da competição pela vanguarda material entre amiguinhos. É isso que o Henrique Raposo aborda aqui e, desta vez, eu nem vejo por onde será possível discordar: A obsessão em cobrir o primeiro filho com mirra e ouro está a matar-nos, literal e metaforicamente falando. Se não anularmos esta cultura de filho único, se não arrebitarmos a curva da natalidade, o nosso futuro será negro e a falta de dinheiro para reformas até nem será o problema principal.

Nestes moldes que predominam na actualidade, torna-se muito complicado para algumas pessoas compreender a divisão de recursos, de tarefas e de responsabilidade que caracteriza a dinâmica familiar e reconhecer que certos custos vão sendo amenizados conforme o número de filhos vai aumentando. Não sou eu que digo; no longo e interessante artigo “Why having big families is good for you (and cheaper)”, podem ler o testemunho de um casal que teve seis filhos e que garante não se ter arrependendido. E uma família, para além das virtudes orgânicas internas, não é uma ilha pois todos ganham com esta estabilidade, segurança, solidez da responsabilidade paternal de longo prazo, propensão maior para a poupança, etc. E para os ambientalistas ferrenhos fica o recado: até o planeta agradece! Já imaginaram os custos do vosso nível de vida se os elementos da vossa família vivessem em casas separadas? Se continuar a persistir uma cultura de desresponsabilização pessoal perante as tendências demográficas que têm avançado no terreno, no nosso futuro vão predominar as aglomerações urbanas habitadas por uma população idosa envolta do seu aquecimento central – comprado ainda no tempo em que ser uma família unipessoal era um orgulho – solitários, sem pensão, sem poupanças, a merecer tão pouca solidariedade dos filhos como a que lhes concederam na infância, e a gozar de uma longevidade alargada diante de uma programação variada que vai ambientar tantas mortes anónimas no silêncio dos apartamentos. Estou a pintar o quadro com um tom demasiado negro? Se não existir uma mudança de atitude, duvido que o meu tom seja exagerado. Naturalmente, os problemas demográficos não se resolvem por decreto. A própria sociedade será forçada a bater na parede e a repensar os esquemas em que resolve os problemas mais elementares da sua vida.

Voltando ao texto da Maria João: regresso às condições financeiras das famílias, num país onde o ordenado médio não chega a mil euros. Neste contexto, parece-me um exercício de diletantismo olhar para qualquer causa da baixa natalidade que não a fragilidade económica das famílias.

Se é um exercício de diletantismo ir para além das razões financeiras, aqui me assumo uma diletante por perder algum do meu tempo a olhar para estas tendências de uma forma alargada, no tempo e no espaço, achando ser evidente que esta fragmentação da família anda a par da multiplicação de incentivos perniciosos que partem do Estado e que favorecem a perpetuação de situações de dependência e fraude endémica. Se não fossem transformações amplas e graves, não mereceriam até a atenção das projecções da OCDE.

A inquietação com a baixa taxa de natalidade não é uma mera preocupação estatística, enfatizada por gente retrógrada, pessimista e inconformada com o espírito dos tempos. As estatísticas são somente um pequeno reflexo dos fenómenos sociais maiores que têm encaminhado a sociedade para um abismo em que o único a lucrar é o Estado centralizador que encontra oportunidade de ouro para amparar todas as gerações, desde o bebé ao avô, com pacotes específicos para todas as inseguranças e fragilidades que se multiplicam.

Por fim, deixo um vídeo que não é sobre a realidade portuguesa mas anda lá perto.

“Quem cabritos vende e cabras não tem…

…de algum lado vem”.

A propósito de coisas invisíveis: Quem suporta o preço da “qualidade business”, dos descontos da CP e do laxismo das greves é que é um mistério, não é? 

Para o serviço que inaugura em abril, a Ryanair está a vender bilhetes a um preço promocional de 19,99 euros, para uma viagem que demora 45 minutos. Já a CP vende os seus bilhetes de Alfa Pendular a 30 euros, por um percurso que demora 2h43 minutos.
Mas a perda de clientes levou a que, no final do verão passado, a ferrovia lançasse uma campanha para captar a atenção dos que fazem este trajecto. A CP faz, assim, um desconto de 40%, que leva a uma descida dos preços destes bilhetes para 18,5 euros, uma fasquia abaixo da colocada agora pela Ryanair.
Com a entrada da companhia aérea neste percurso, a empresa nacional aproveitou para reforçar a campanha que já tinha lançado: o novo slogan chama-se ‘Qualidade Business, preços Ryanair’ e já está a circular por vários meios.

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A irrelevância de certos caprichos deliberativos

The natural constitution of a nation is always anterior to its written constitution and can dispense with it. There has never been and can never be a written constitution made all at once, particularly by an assembly, and the very fact that it is written all at once proves it false and impractical. Every constitution is properly speaking a creation in the full meaning of the word, and all creation is beyond men’s powers. A written law is only the declaration of an anterior and unwritten law. Man cannot bestow rights on himself; he can only defend those which have been granted to him by a superior power; and these rights are good customs, good because they are not written and because no beginning or author can be assigned to them…

Study on Sovereignty, Joseph de Maistre

A Coacção

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Foi puxado para cima da mesa um daqueles temas irresistíveis que fazem vibrar plateias e que incitam todas as pessoas a darem a sua sentença – inclusive aquelas que se fazem de rogadas por ser uma chatice ver a populaça entretida em torno de um mesmo assunto mas, já que estamos com a mão na massa, queriam também deixar uma palavrinha… não é? Eu não me faço de rogada e não prometo ser breve.

De pouco nos serve perder tempo com o acessório, analisando manobras da agenda política do partido A, B ou C, visto que a astúcia de dominar a agenda política não deve ser vista como um comportamento de excepção escandaloso, mas sim como o padrão inerente à actividade diária daqueles. Bastava perceber isto para que as acusações que são agora concentradas em torno do PSD se voltassem para a génese de todo este alarido muito democrático.

Voltando a atenção para o essencial e fazendo um breve apanhado geral daquilo que tem vindo a ser dito, predominam algumas das seguintes ideias:
1 – A impossibilidade de ser coadoptada pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo, deixa a criança sempre em pior situação porque não existem outras alternativas; 2 – Muitos casais heterossexuais também cometem erros e não são exemplo para ninguém, portanto, ninguém é perfeito (sim, isto é usado como argumento); 3 – A referida impossibilidade legal é uma violação a um direito fundamental de uma minoria porque é um atentado à igualdade; 4 – A coadopção não é bem exactamente o mesmo que a plena adopção por casais do mesmo sexo mas, hey, quem se opõe a esta mudança ligeira está a fazê-lo por simples ódio à vida privada dos homossexuais; 5 – A maioria dos estudos confirma que crescer numa família com pais heterossexuais ou homossexuais é indiferente para a criança (esta é das minhas preferidas, sobretudo porque já sabemos que quando um estudo é oriundo de uma instituição católica, será altamente enviesado, mas em todos os restantes casos estaremos perante a mais rigorosa e imparcial apuração científica).

Não nos alonguemos mais. Estas são apenas algumas das muitas ideias que têm vindo a ser papagueadas num país que ficou em ebulição ao vislumbrar-se a possibilidade de referendar o assunto. Começo já por dizer que até simpatizo bastante com os referendos, pois revelam ser uma forma menos problemática de chegar a consensos quanto a questões bicudas e são uma solução ideal (até ver) para as tomadas de decisão a nível local. Para que esse instrumento funcione decentemente, é essencial: que os eleitores estejam familiarizados com a sua utilização; que ele seja aplicado a uma escala humana; e convém que ele não seja usado de forma indiscriminada, num ambiente dominado pela desinformação e improviso – e pelas emoções, quando se tratem de matérias de consciência. Olhando à actual habilidade cívica de muitos portugueses, ao enquadramento administrativo e político do território e à histeria que varre a opinião pública, começando nas academias e indo até aos meios de comunicação, confesso que dá alguma vontade de rir confiar em referendos nestas condições.

Mas recentrando a atenção nas tais ideias dominantes que enumerei. Esta mudança legislativa não é apenas uma forma de acautelar situações que já existem. Esta mudança vai coagir a criança a ficar vinculada, desnecessariamente, a uma relação entre dois homens ou duas mulheres, por mero capricho destes, correndo mesmo o risco de esse vínculo durar mais tempo do que a relação entre estes indivíduos. Ninguém irá perguntar à criança o que ela prefere, pois será vista como mera mercadoria sem direito de decidir o que ficará associado à sua identidade. Rapidamente alguém dirá: mas os pais heterossexuais também de divorciam. Claro, e sabemos que as situação legais que daí derivam não são tão complexas (nem humilhantes?). É de sublinhar a simplicidade leviana com que se ignoram as complicações legais que podem derivar dessa adopção. A única coisa que importa para a agenda LGBT não é que a criança receba um acompanhamento sério até ser maior de idade, mas sim que seja imposta uma descaracterização da família, ao exigir vínculos permanentes para enquadrar o seu caso tão especial. Evocam um ilusório direito à igualdade de acesso à criança como se a adopção se tratasse de uma aquisição comercial ou um de uma resolução de Ano Novo. Como se não bastasse, discutem isto pintando como pano de fundo um cenário em que se inflaccionam as fragilidades dos casais heterossexuais, enquanto as relações entre pessoas do mesmo sexo são associados a um permanente tempo de mel e cumplicidade mútua.

Quanto à ideia de que não há diferença nenhum no ambiente que é gerado em famílias diferentes, seria engraçado conhecer os estudos concretos, quem os financiou, quando, e a serviço de quem. Mas o povo português revela uma especial reverência irracional a qualquer recomendação, publicidade ou opinião orientadora que venha acompanhada de uma oca, mas apelativa, alusão a coisas como: “todos os estudos comprovam”, “cientificamente testado” ou “uma universidade do North Oklamama concluiu que…”. Previsivelmente, esta reverência tacanha reflecte-se num comportamento agregado facilmente influenciável, tanto na compra de um detergente que garante que todas as marcas de máquinas testaram a sua eficácia anticalcário, como no momento de assumir a posição pessoal num debate sobre aborto ou adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo, emparelhadas sob a égide do tal contrato civil moderno (porque “casal” é outra coisa e isso aprende-se na escola primária). Talvez por se difundir esta dependência obsessiva face aos testes e às autoridades que carimbam uma determinada conclusão, talvez por isto se tenha vindo a perder a sensibilidade para compreender as coisas mais elementares da realidade. Confiar que um rio não vai passar a correr em direcção à fonte, caso isso seja decretado pela lei de um dia para o outro. A intransigência nos princípios, por parte dos mais conservadores, é incompreendida num contexto em que, se a igualdade não é dada pela natureza, contorna-se de imediato por ilusionismo legislativo.

Os casos abrangidos por esta mudança serão ínfimos. As concepções da sociedade derivadas desta mudança serão amplas. Considerando a falta de apetência natural para a paternidade e maternidade por parte de homossexuais, dificilmente alguém acreditará que virá aí um surto impetuoso de processos de adopção enquadrados na situação em causa.

Não deixa de ser interessante esta ironia de ver muitos dos mais acérrimos e desenraizados defensores do descompromisso pessoal para com os valores da família – o matrimónio, a solidariedade entre gerações, a importância da natalidade de um modo geral, a presença do instinto maternal e paternal e a defesa da vida desde a concepção até à morte – serem os primeiros a apelar às emoções e às virtudes das famílias, atenção, diferentes (como se a família estivesse em constante metamorfose diversificada ao gosto do freguês) enquanto núcleo da felicidade, preferível às instituições estatais (haja alguma vez em que se reconheça o efeito pernicioso do Estado).

Para destoar de grande parte daquilo que tem vindo a ser dito sobre este assunto, manifesto desde já o meu pessimismo quanto ao recurso a um referendo (e não o faço enunciando apenas justificações de natureza orçamental, como alguma cobardia partidária resolveu fazer, atirando areia para os olhos dos eleitores e fugindo com o rabo à seringa). Desde logo, pela matéria a que será aplicado, caso avance, fica evidente que reinará a desinformação e a manipulação emocional, numa luta do “bem” contra o “mal”, já previamente posicionada, delegando à direita o papel de inimiga das “vítimas”. É importante não esquecer este ponto: a maioria das invenções legislativas apoia-se num discurso de benevolência que promete empenhar-se na melhoria das condições de “vítimas”. Até ao final, – prevendo já que se faça ouvir, por exemplo, a voz do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos – prevalecerá o argumento de que a nova lei está a proteger um grupo determinado de vítimas porque sabe que um lar diferente é o melhor para aquelas crianças.

Em primeiro lugar, é ingénuo confiar na sabedoria de um colectivo inorgânico de eleitores atomizados, mentalmente doutrinados ao sabor dos desvarios inculcados no seio destas instituições, ou durante os intervalos informais, numa sociedade educada para a auto-censura democrática. Em segundo lugar, a defesa de um referendo é uma estratégia pouco inteligente que deve ser evitada por quem quiser acautelar a integridade da sua coerência a longo prazo. Cantar louvores à democracia somente quando o resultado vem em nosso favor é um momento ridículo de tensão que humilha tanto quando sucede à esquerda como à direita.

Defender afincadamente a suprema infalibilidade da democracia vai obrigar, mais cedo ou mais tarde, a que se admita uma conformação desconfortável com legalidades grotescas como aquela que enfrentamos face ao aborto. E esta fatalidade é mais do que previsível, quando estamos fartos de saber que as forças de pressões progressistas conseguem dominar todo o sistema e lançar os dados as vezes que forem necessárias até fazer vingar o resultado que lhes é mais prazeroso. Os avanços são graduais e imperceptíveis, mas os efeitos serão drásticos.

Para terminar, recupero algo que escrevi em outra ocasião, a propósito da abolição do casamento civil:

A génese do problema está nos moldes igualitaristas em que o despotismo estatal forja as relações entre os indivíduos, aniquilando a ordem natural e promovendo condições que nunca, ou muito dificilmente, seriam atingidas pelo livre consentimento nas esferas tradicionais a que ficariam todos sujeitos. A fantasia que sustenta igual acesso ao matrimónio de heterossexuais e homossexuais só encontra um eco fácil neste enquadramento de igualdade formal consagrada na Constituição. Como será de fácil ilacção, não existe fronteira inultrapassável e o alargamento de “direitos” depende somente das vontades particulares, mediante as suas condições, desejos e, quiçá, criatividade.