E há quem fale em “truques”

Ontem, António Costa usou a expressão “aproveitamento político” para classificar a polémica em torno do verdadeiro número de vítimas do incêndio de Pedrogão Grande. No dia seguinte, hoje, o DN destaca que o Presidente da República é contra “aproveitamento político das vítimas de Pedrogão”. Uma leitura do artigo do DN mostra, aparentemente, que Marcelo não usou a expressão. O título advém do critério editorial de destacar a interpretação de uma pequena parte da entrevista concedida pelo PR para se adaptar à “narrativa” lançada com as declarações do Primeiro Ministro na véspera. Enquanto, na verdade, o artigo do DN até cita o PR abundamentemente por forma a justificar um título como “Marcelo exige que governo apure tudo cabalmente”.

Note-se, no que toca a apuramentos cabais, que Marcelo Rebelo de Sousa fica ele próprio mal na fotografia. Foi o primeiro, logo no dia do incêndio, a concluir que foi feito o máximo possível, condicionando a priori o inquérito que necessariamente se seguiria. Que António Costa de queixe de aproveitamento político é que é realmente escabroso; quando o seu partido foi o primeiro, logo nos dias seguintes ao incêndio, a tentar passar responsabilidades para o anterior governo. Além disso, como lista José Manuel Fernandes, o nome de António Costa está inegavelmente ligado a múltiplas más decisões políticas no que toca a incêndios, protecção civil e floresta.

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Guião de thriller financeiro “O Lobo do Intendente”

  1. Afirma-se que esta coisa do Novo Banco é para vender com urgência. Se não for vendido, o melhor é fechar, resolver, liquidar, etc.
  2. Surpreendentemente (Not), ao ser confrontados com esta informação os potenciais compradores fazem ofertas baixas.
  3. Algumas vozes queixam-se que as ofertas são demasiado baixas. Dizem que se é para pagar então mais vale nacionalizar.
  4. Depois daquele negócio espectacular do Banif, isto de o contribuinte pagar para uns estrangeiros ficarem com o banco é uma coisa mal vista. O povo agita-se.
  5. Inúmeros idiotas aparecem a dizer que, se calhar, o é melhor nacionalizar. Com a memória que caracteriza os protozoários, já ninguém se lembra do BPN.
  6. Técnicos do FMI compram bilhetes para Lisboa.

Alguém dê uma garrafa de champanhe a Ana Gomes, please!

«Vai hoje a enterrar um canalha.
Morreu no dia dos Direitos Humanos. E deixou o nome: de ditador assassino e corrupto.
Durante anos viajou, na casa que levei às costas, de país para país, uma garrafa de champanhe. Para abrir no dia em que Pinochet morresse ou fosse preso.
Tive de a abrir, na falta de outra, em 1998, estava eu em Nova Iorque – para celebrar a queda de outro ditador assassino e corrupto: Suharto.
Substitui-a no mesmo dia, o patife chileno não perderia pela demora…»

(aqui)

A Fortaleza Europa

Augusto Santos Silva afirmou hoje que os valores da Europa são contrários a deportações em massa. Percebe-se. Na Europa privilegia-se o impedimento da entrada. Daí as vedações na Grécia e na Bulgária, os campos de prisioneiros na ilha de Lampedusa, e os inúmeros cadáveres no fundo do Mediterrâneo.

Torturando os números

Os grandes meios de comunicação social e as elites comentadeiras tiveram um grande choque com a vitória de Donald Trump nas eleições da passada semana. O resultado não seguiu o guião martelado até à exaustão pelos próprios, cujo viés foi o maior de sempre. Efectivamente, estamos perante uma surpresa; não tanto pela vitória de um candidato republicano, partido supostamente em vias de se tornar inelegível pela demografia, mas pela derrota dos fazedores de opinião, que não conseguiram fazê-la.

Olhando para as estatísticas, pretendeu-se criar a ideia que Trump tinha um eleitorado branco, masculino, pouco educado e revoltado; e que tal eleitorado seria sempre insuficiente para a vitória. Este maniqueísmo impediu os analistas de ver que milhões de negros, hispânicos, mulheres, diplomados e cidadãos perfeitamente pacatos também votariam nele. Ou, possivelmente, em qualquer outro republicano.

As sondagens à saída das urnas realizadas pela Edison Research ajudam a perceber o que se passou. A maior parte das notícias que têm saído a esmiuçar a votação de dia 8 usam os dados da Edison Research para tirar conclusões. Exemplos no Washington Post e no Pew Research Center.

Tal como o saber convencional dos media afirmava, Trump teve mais apoio entre homens que mulheres, entre brancos que negros ou hispânicos, entre não-diplomados que diplomados. Mas no fim do dia, a visualização dos gráficos mostra de imediato que o resultado é a continuação de uma tendência. Barack Obama teve um resultado excepcional em 2008. Conseguiu tirar da abstenção milhões de votos de pessoas que nunca haviam votado. Em 2012, conseguiu menos e, em 2016, Hillary Clinton conseguiu menos ainda.

A tendência de queda dos democratas, presumivelmente desiludidos pela presidência de Obama, pela própria Clinton, ou simplesmente desmotivados depois do interesse passageiro que as eleições de 2008 proporcionaram, deveria ter levado a uma vitória ainda maior dos republicanos. O facto de isto não ter ocorido é que é a coisa interessante que se retira dos números.

A vitória republicana não foi maior pelo único efeito gritante contra-tendência que se verifica na sondagem da Edison Research: Mais mulheres votaram democrata em 2016 que em 2012. Se as mulheres tivessem seguido o ciclo político de forma igual aos homens, Trump teria tido uma vitória tão esmagadora como Obama sobre McCain. É possível que este efeito no eleitorado feminino resulte de Clinton ser mulher. Ou que a estratégia democrata de enfocar a propaganda nas alegações de assédio sexual sobre Trump tenha assustado o eleitorado feminino. Ou que as duas coisas tenham tido influência.

Independentemente das causas, a verdade é que este “efeito feminino” tem grande valor explicativo na evolução da demografia dos eleitorados republicano e democrata. Sendo certo que negros e hispânicos votam mais democrata que republicano, fizeram-no menos em 2016 que no passado. Já o aumento da votação democrata entre diplomados deve-se quase exclusivamente ao aumento da proporção de mulheres que assim votaram. Não é portanto uma verdade inquestionável que o eleitorado de Clinton seja mais educado que o de Trump* (embora até possa ser, marginalmente). Ele é, acima de tudo, mais feminino**.

* A título de exemplo: A proporção de negros licenciados a votar Trump é muito maior que a proporção de negros não licenciados que o faz.
** Dentro do eleitorado feminino há um efeito curioso: Mulheres casadas votam em Trump e Clinton de forma quase igual (49-47). É entre mulheres solteiras que a diferença se nota (62-33). É possível que esta diferença ajude a explicar parte da vantagem de Clinton no segmento jovem (18-29), se assumirmos que a proporção de mulheres solteiras é maior neste grupo etário.

Uma câmara inimiga dos seus munícipes

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Na Rua de Sapadores, a Polícia Municipal começou nos últimos dias uma série de raides de bloqueio de viaturas estacionadas no separador central. Como pode ser observado na foto acima, o separador central é igual a tantos outros onde desde sempre foi possível estacionar em Lisboa. Durante décadas, coberto de terra e arborizado. Desde há cerca de um ano, pavimentado, com recortes para as árvores. Toda a zona das Avenidas Novas tem separadores idênticos, onde é possível estacionar. O mesmo se aplica a inúmeras outras vias na cidade. Sendo a Graça um bairro bastante antigo da cidade, há moradores que estacionam habitualmente os seus carros ali há 50 ou 60 anos.

Há alguns dias, contudo, apareceu de manhã cedo a Polícia Municipal para rebocar as viaturas estacionadas no separador e bloquear as que não foi possível rebocar. Durante todo o dia, a carrinha da Polícia Munical ficou na vizinhança (estacionada onde estavam anteriormente as viaturas rebocadas, claro) a cobrar as multas e taxas de desbloqueio, para desespero e protesto dos moradores que perguntavam aos agentes onde poderiam estacionar, tendo em conta a dificuldade natural da zona, ainda para mais reforçada pelas inúmeras obras que cortaram quase totalmente as vias principais à volta. Muitos argumentaram com a óbvia questão de que a alteração a décadas de prática de estacionamento no local não podia ser assim revertida de um momento para outro sem aviso e sem sinalização.

A resposta da Polícia Municipal é impressionante. Foram ordens da Câmara Municipal de Lisboa, pois o separador central é uma “zona pedonal”. Se antes não multaram o estacionamento ali foi apenas por tolerância e boa vontade. Convenientemente, à entrada da rua vê-se a sinalização do futuro parque da EMEL, onde os residentes poderão estacionar mediante o pagamento de uma mensalidade.

Neoliberalismo a desmantelar SNS

As reclamações contra os hospitais e centros de saúde subiram 63%.