Origens de uma cultura moribunda (1)

No dia 14 de Junho de 827 os árabes desembarcam em Mazara del Vallo e ocuparam a Sicília. Palermo foi declarada zona franca e ali se estabeleceu o emir. Em 1060 os normandos invadiram a ilha, entraram em Palermo e desafiaram o domínio árabe, que viria a cair definitivamente em 1072. Depois? Depois foi como Jakob Job descreve em Sicile, um elegante foto-livro e guia turístico-cultural, publicado em 1971 pelas Editions Silva Zurich: Encore de nous jours, Palerme est une ville de caractére arabo-normand; même ses plus beaux bâtiments baroques ne parviennent pas à chasser cette impression. La cathédrale, le palais royal, San Giovanni degli Eremiti, la Martorana, San Catalado, quelques villes arabes devant la ville component le visage de cette dérniere.

Europa

– Sim – disse Gertrude. – A sua mãe converteu-se ao catolicismo e casou-se na Europa.
– Estou a ver que sabe alguma coisa – disse o jovem. – Ela casou-se e morreu. A família do meu tio não gostou do homem com quem ela casou; chamavam-lhe estrangeiro, mas não era estrangeiro. O meu pobre pai nasceu na Sicília, mas os pais dele eram americanos.
– Na Sicília? – murmurou Gertrude.
– É verdade – retorquiu Felix Young – que passaram a vida na Europa. Mas eram patriotas sinceros. Tal como nós.
– Portanto o primo é siciliano – disse Gertrude.
– Siciliano, não! Vejamos. Eu nasci num lugarzinho – um lindo lugarzinho – em França. E a minha irmã nasceu em Viena.
– Então é francês – disse Gertrude.
– Longe vá o agouro! – exclamou o jovem.
Os olhos de Gertrude quase não o largavam.
Felix desatou de novo a rir. – Mas se lhe agrada, não me importo de ser francês.
– Mas em parte é estrangeiro – disse Gertrude.
– Sim, em parte, sou; julgo que sou. Mas em que consiste essa parte? Creio que nunca tivemos oportunidade de resolver a questão. Deve saber que há gente assim. Gente que não podia dizer nada de concreto acerca de qual é o seu país, a sua religião ou a sua profissão.

Henry James, Os Europeus

Exílio e morte

Reconheçam: é difícil viver com gente capaz de vos mandar para o exílio e para a morte, é difícil torná-los nossos íntimos, é difícil amá-los.

Milan Kundera, A Brincadeira

A despersonalização é o primeiro golpe infligido pelo comunismo a uma população imprevidente. Começa aí, na identidade individual, nos laços sociais e naturais, na solidariedade voluntária e na própria condição humana. São esses os alvos aos quais os comunistas apontam como se de barro moldável se tratasse.  Logo descobrem que é pedra maciça, mas já não interessa: picam e picam até não sobrar mais do que a poeira e os escombros humanos, e os fantasmas que deambulam por cidades pós-apocalípticas com medo, raiva e angústia. E é quando os homens se metamorfoseiam em animais perigosos, quando vivem num clima de guerra permanente, seja surdo ou aberto, seja literalmente sangrento ou apenas psicologicamente devastador, é nessa altura, dizia, que o comunismo e outras doutrinas totalitárias atingem o seu esplendor, o acme ilusório que anuncia já o estertor e as ruínas. Sánchez Gordillo, impotente com a sua insignificante Marinaleda, anda há trinta anos a minar uma sociedade e a semear a sua utopia totalitarista pelos campos da Andaluzia, usando a força e a intimidação como armas “políticas”. Se for tratado com a condescendência que na Europa é reservada para estes pulhas com máscara de patusco, vai conseguir.

Aqui somos todos assim

Sicília, Abril de 1787. Johann W. Goethe estava numa rua central de Palermo (imunda, coberta de lixo), falando com um lojista da cidade, quando viu dois homens bem vestidos, com bandejas de prata na mão, pedindo dinheiro a quem passava. Intrigado com a cena que decorria sob o seu olhar de estrangeiro, Goethe perguntou ao comerciante pelo seu significado. O homem respondeu-lhe apontando para uma figura vestida como um cortesão que caminhava atrás dos dois criados com um porte digno e tranquilo. É o príncipe de Palagónia, disse, e está aqui, como em outras ocasiões, a pedir dinheiro ao povo para o resgate de sicilianos que foram capturados e feitos escravos pelos berberes. Goethe, que três dias antes havia visitado a villa Palagónia, mostrou-se perplexo. Como é que alguém que gastou uma fortuna nas loucuras grotescas da villa se atrevia agora a mendigar para sustentar aquela que devia ser uma função primária dos senhores da ilha!? Aqui somos todos assim, disse resignado o comerciante de Palermo, pagamos as nossas loucuras, mas as nossas “virtudes” têm que ser os outros a custear.

Somos todos assim, nesta faixa soalheira. De Lisboa a Atenas, passando por uma Sicília que, em 2012, está a beira do colapso. E andamos pela rua com pose de cortesão, armados com uma putativa superioridade moral que nos permite pedir dinheiro descaradamente como se a ele tivéssemos direito por decreto divino. Tudo isto depois de gastar quantidades obscenas de euros nos vícios privados de alguns e nas obras palagónicas para “todos”.

Palermices de Verão

Na hora da morte de Chavela Vargas o Público oferece-nos um texto superficial e mal-amanhado. No meio de algumas banalidades copiadas dos comunicados de imprensa ou do El País (fonte favorita do novo Público progressista), a autora da “notícia” diz-nos que Vargas foi amiga de Federíco García Lorca, poeta andaluz morto em 1936, quando a cantora ainda era uma desconhecida com 17 anos que saltava da Costa Rica para o México em busca de dignidade e de uma vida melhor. O jornal há muito que se deixou levar por uma dinâmica confrangedora e estes detalhes já não surpreendem. Mas os patrões ainda vão a tempo de salvar o investimento. Comecem por contratar jornalistas, por exemplo. Ou, pelo menos, pessoas que se interessem minimamente pelos assuntos que relatam.

Degradante

Não sei o que é pior, se é a pelintrice recorrente de quem devia estar ao serviço dos cidadãos e não a tomá-los por parvos, se é a sabujice de quem põe a coluna vertebral no prego para defender o que é indefensável. Mas de uma coisa tenho quase a certeza: este número de cabaré decadente vai acabar muito mal.

Fazer

Enquanto uns se queixam e choram, enquanto outros, em jeito de claque, garantem que não pode haver criação artística sem a intervenção do Estado, enquanto isso,  há quem trabalhe. Onze dias de rodagem, um orçamento “ridículo” e facilmente recuperável e uma distribuição que rompe com os esquemas tradicionais. Ah, e também ganha prémios em festivais.

Já agora, e a propósito, vale a pena ler este texto do Alexandre Pomar: contra-manifesto.

…grande parte dos manifestos que por aí circulam, e também das considerações autorais sobre o panorama cultural, são enganadores ou fraudulentos ao angariarem os seus apoiantes e admiradores através de uma ilusória promessa de destinos artísticos para todos graças à subsidiação universal

Ponto crítico

Imaginemos uma praia. Sentados numa toalha, ao sol, agarramos com a manápula um punhado de areia e, lentamente, como se de uma ampulheta se tratasse, deixamos cair essa areia sobre um mesmo ponto da toalha. Uma pilha de areia forma-se e cresce. No início, não vamos notar muita actividade na superfície, mas, à medida que a inclinação do monte aumenta, começamos a ver deslizamentos locais de areia que, por vezes, deixam de ser locais e propagam-se globalmente. Há avalanchas pequenas e avalanchas catastróficas. Há de todos os tamanhos. E se a nossa pilha de areia fosse um modelo ideal teríamos uma distribuição da intensidade de avalanchas de  acordo com a frequência semelhante à observada quando medimos a intensidade e a frequência de terramotos numa determinada área geográfica ou a quantidade de cidades com determinado número de habitantes. Chama-se a essa distribuição uma lei de potências.

Por que razão há esta distribuição de eventos, sem nenhum padrão dimensional típico e a acontecer em todas as escalas, na nossa pilha de areia e em muitos outros fenómenos naturais (e sociais)? Porque o sistema (auto)organiza-se num estado crítico, no qual qualquer perturbação pode ter consequências de amplitude imprevisível. E sublinhemos: imprevisível.

Este é um dos dois conceitos-chave para uma teoria dos sistemas complexos. O outro, não só é tão obscuro para o cidadão comum como o conceito de auto-organização crítica, como também tem muito má imprensa. Falamos de emergência. É a mão invisível de Adam Smith. É a cataláxia de Hayek. São os bichos-papões de uma sociedade que não entende nem quer entender os fenómenos que a rodeiam ou nos quais essa mesma sociedade está envolvida.

Enquanto estes conceitos não forem bem compreendidos e aceites pela maioria das pessoas vamos ter que enfrentar dois problemas calamitosos. Em primeiro lugar, viveremos como semiescravos, à mercê do Estado e daquilo que o Estado entende fazer com o dinheiro dos cidadãos, porque os governantes (e a maioria das pessoas) acreditam que pode prever as consequências globais das suas acções locais. Acções que, quase se sempre, se resumem a gastar, ainda que falaciosamente disfarçadas com aquilo que se convencionou designar como “estimular”.

Em segundo lugar, sofreremos muito mais com as inevitáveis hecatombes económicas porque os governos acham que podem construir diques de contenção para evitar avalanchas de areia de dimensões catastróficas. Não podem. Só podem prolongar a agonia, sacrificando, no processo, as vidas e os sonhos de algumas pessoas em favor dos caprichos e dos “direitos adquiridos” de outras.

Quando percebermos estes dois conceitos seremos um pouco mais livres. E saberemos também que o vendedor de sonhos que ali está, que nos acena com estímulos económicos salvadores, ou é um mentiroso ou é um homem muito ingénuo.