O país no Youtube

Depois das figuras do “engenheiro” a vender computadores e a falar um “idioma” vagamente aparentada com o castelhano dos subúrbios de Jaén, depois do vídeo para finlandês ver, depois das cartas patéticas endereçadas ao primeiro-ministro e ao presidente por cidadãos egocêntricos e infantis, depois de tantos e tantos episódios de luso-piroseira pensei que podia ver, sem medo, o vídeo de que tanto falam. Estava enganado. E agora vou à farmácia comprar Xanax.

A força do destino

A Bélgica nasceu depois de uma récita de La muette de Portici e a Itália foi inventada ao ritmo das obras de Verdi. Duvido que a ópera venha ter o mesmo papel neste período de redefinição de fronteiras que se avizinha (a Escócia, a Bélgica outra vez, a Espanha, e sabe-se lá que mais), mas foi no Liceo de Barcelona, na passada segunda-feira, que senti pela primeira vez a presença daquilo que chamam Catalunha, ou nação catalã. Enquanto o castelhano continua a ser a língua franca nas ruas de Barcelona, enquanto o flamenco continua ser utilizado como chamariz para os turistas (sempre com a Carmen Amaya e o Sorromostro como alegação final), enquanto se picam callos, bravas e cecina nas tabernas do Gótico e do Born, enquanto isso, ali, entre as elites, onde corre o puro (?) sangue catalão, a semente da revolução há muito que floresceu. O traço sardónico foi dado pelas bandeiras de Espanha e Itália, desfraldadas e agitadas no final do terceiro acto de “La Forza del Destino” de Verdi. Mas a cereja veio da Suécia e foi hoje posta no topo do bolo.

(Quanto à qualidade da récita, este é um bom resumo: quando começou o quarto acto eu já estava no Cal Pepe a comer pescaíto frito e a admirar a coreografia dos sete camareros que se moviam por trás do balcão. Foi a produção de abertura de temporada, note-se. A decadência dos grandes teatros ibéricos, causada pela falta de dinheiro mas também pela inépcia dos directores, é já um facto inquestionável (São Carlos, Real, Liceo). Deve ser a força do destino. A Europa como a conhecemos nasceu nas casas de ópera e agora morre nas casas de ópera. O cenário é trágico, divertido, perigoso. Mas justo.)

O gene

Concorde-se ou não, é sempre com agrado e interesse que se lêem as observações do Pedro Arroja sobre o espaço cultural em que estamos inseridos, em contraponto (e em confronto) com outras culturas próximas. Mas continuo a achar que em tal análise das culturas católicas falta um factor essencial: o factor (ou herança) árabe. Não tenho qualquer evidência científica para apresentar em defesa desta tese. É apenas uma convicção que foi crescendo a partir de alguns factos circunstanciais (para além da História): ser nativo de um país do sul da Europa, viver há anos na cidade que foi o último reduto árabe da península ibérica e ter um conhecimento razoável do Mediterrâneo latino e eslavo (e algumas experiências do outro lado do lago). Vale o que vale. Mas vale o suficiente para estar convencido de que vamos continuar a disparar ao lado do tema central enquanto insistirmos em ignorar este termo da equação. Para que serve acertar no alvo? Talvez para nada. Ou talvez para se chegar à conclusão definitiva de que o “projecto europeu”, tal como tem sido desenhado nas últimas duas décadas, está condenado ao fracasso, e que esse fracasso pode condenar-nos ao jugo da tirania. É que o pilar onde se sustenta o paleio unionista — a matriz cristã da Europa — é uma farsa, e não é porque uns são protestantes e outros católicos. A clivagem é mais profunda.

Ao sul (4)

Arquestrato de Siracusa (século IV a.C), siciliano de origem grega, pioneiro da gastronomia e da crítica gastronómica, não gostava do excesso de ingredientes na comida. Preferia uma cozinha sem condimentos supérfluos, sem molhos, sem gorduras. Deixou um recado,

Importuno y demasiado

es para mi el aderezo

de mucho queso, mucho aceite y mucho sebo

como si a gatos se pusiera mesa,

e a gastronomia siciliana, atenta, manteve-se fiel aos seus ensinamentos: os ingredientes justos, a simplicidade, a gordura (azeite, quase sempre) no seu ponto correcto, o protagonismo dos produtos da terra e do mar, frescos, deliciosos, deslumbrantes, no mercado e na mesa. Uma cozinha superlativa, das melhores que encontramos neste mundo vasto e sortido. Uma cozinha que foi acumulando saberes e sabores de colonizadores, conquistadores e conquistados, desde os sículos, sicanos e elímios, primeiros habitantes da ilha, até aos espanhóis, que levaram o Novo Mundo para a Sicília (a América da Antiguidade, como tão bem a definiu Lampedusa), passando por gregos, romanos, normandos e, principalmente, pelos árabes, que deixaram a marca mais forte, não só na comida, mas também no sangue, nos costumes e no estilo de vida urbano dos sicilianos. É por isso que os anúncios do fim da História étnico são sempre tão divertidos.

Ao sul (3)

O transporte por camioneta na Sicília funciona surpreendentemente bem. Vou da Catânia a Taormina, de Taormina a Messina, de Messina a Palermo, depois para Sciacca, regresso a Palermo, e outra vez para a Catânia. Não há um único atraso e os preços são justos. Cada trajecto é explorado por uma empresa diferente.

Os comboios são da responsabilidade da Ferrovie dello Stato Italiane  (a única excepção é uma linha que dá a volta ao Etna). Não uso. Na preparação da viagem leio sempre o mesmo comentário: as ligações ferroviárias não são fiáveis e são mais caras do que as viagens em camioneta (exemplo: Catânia-Palermo, 15 euros em camioneta, 25 no comboio inter-cidades). Em Espanha sigo a mesma política: só vou pela Renfe, empresa pública que gere a rede de comboios, quando não tenho outra opção (usei os comboios duas vezes em Espanha e, numa delas, um atraso épico quase me custava um voo).

Entretanto, em Lisboa, uma senhora, que dizem ser ministra mas que numa sociedade livre não estaria nem no refugo da hierarquia governativa, afirma, sem se rir, que “está por provar que o sector privado, ao contrário do que se diz muitas vezes, tenha maior eficiência que o sector público“. É isso mesmo.

Ao sul (2)

N’O Leopardo, a páginas tantas, Lampedusa descreve o príncipe de Salina, Don Fabrizio, como um homem, aos olhos de Don Calogero, com “uma certa energia propensa à abstracção, uma predisposição para moldar a sua vida com o que dele saísse e não com o que podia arrancar aos outros”. Em contraste, Don Calogero, o príncipe da nova ordem, recém-chegado aos prazeres da riqueza material, é desenhado como um ser emocional, rude, e talhado por centenas de gerações de comerciantes mediterrânicos. Na Palermo de 1860 confrontavam-se as duas Europas e a de Calogero já levava vantagem sobre um Leopardo resignado. Nesta ilha euro-africana açoitada pelo sol e adubada pelo Etna, onde o sangue árabe corre nas veias dos seus lânguidos habitantes — sangue herdado dos sarracenos que, privados do poder com a chegada dos Normandos, fizeram governos-sombra e chamaram manfa à Sicília perdida (manfa, lugar de exílio, possível embrião de uma famosa e sinistra palavra siciliana) —, não podia haver outro vencedor. Para selar a vitória, Calogero deu filha e generoso dote, aprendeu a comportar-se à mesa, e entrou no clube em declínio. Mas agora o espelho grotesco de Don Fabrizio, arruinado, pede esmola ao Leopardo. Ou exige, mesmo. Seria melhor que seguisse o exemplo do seu santo homónimo, padroeiro de Agrigento, que viveu numa gruta, alimentando-se exclusivamente do leite dos veados selvagens do Monte Cronio.

Ao sul

Chamam-lhe o celeiro de Itália. A terra, vulcânica e generosa, oferece um extenso catálogo de produtos agrícolas, desde os mui celebrados citrinos, produto base da agricultura da Sicília (62% da produção italiana está na Sicília), aos pistácios, usados, como um toque de graça oriental, na assombrosa gastronomia siciliana. O mar, não tendo a riqueza do Atlântico, também não é avaro. O clima só peca por ser excessivamente quente no Verão e o turismo responde em massa a um sol ubíquo que convida à indolência. Então, por que razão é a Sicília tão pobre? Não vou avançar sentenças finais. Mas os 26000 guardas-florestais, número lançado recentemente pelo NY Times, talvez sejam um princípio de explicação plausível, tal como os jardineiros sem jardim da Grécia e todos os empregos nacionalizados de Portugal e de Espanha que mais tarde ou mais cedo serão alvo da atenção internacional. E se este exército de guardas já parece absurdo para uma ilha do tamanho do Alentejo, com mais surpresa o vemos se conhecermos a paisagem da ilha. Goethe já o havia notado há cerca de 230 anos, quando cruzou o território, desde Palermo até Messina, e quem chega à Catânia num avião pode confirmar (pelo menos no lado oriental da ilha): grande parte da Sicília foi desflorestada para a agricultura. Se um cenário com 26000 guardas-florestais é trágico, um cenário com 26000 guardas-florestais e sem árvores já é do domínio da comédia. Juntemos-lhe um universo mediterrânico a apontar o dedo e a responsabilizar Merkel, o neoliberalismo, e o conde Drácula pela decadência da sua dolce vita, e temos aquilo a que se chama uma bela palhaçada.

Uma sociedade pacífica, solidária, ecológica, reciclável e sustentável*

(…) La discusión que sigue tras el silencio -ha durado cinco segundos de reloj- es estupenda. Tengo la transcripción literal, pero la soslayo por larga. Resumiré consignando que una madre sugiere comprar espaditas de plástico en el chino de la esquina, pero otras se oponen. «No, que luego se pegan con ellas», dice una. «Hagámoslas entonces de cartón -responde otra-, en plan atrezzo». Pero surgen discrepancias. «Me niego a que los niños vayan armados», dice alguien. Un padre allí presente propone recortar pistolas de cartulina y que las lleven en la faja, pero otro se manifiesta en contra de cualquier arma de fuego, real o figurada. «De todas formas -interviene una madre-, un pirata sin espada no es un pirata». Otro silencio perplejo. Al fin, un padre sugiere que en vez de espadas los niños lleven catalejos. Podrían hacerse con tubos de papel higiénico, propone. «Entonces los niños irán disfrazados de marinos, no de piratas», apunta alguien. «O de astrónomos», tercia otro padre, guasón, al que dos o tres miran mal y alguien llama fascista por lo bajini. (…)

Arturo Pérez-Reverte

*Tradução: uma sociedade “amariconada”.

Quem manda?

“Mas afinal quem manda em Portugal?, o poder ou a justiça?”. Ouvi esta frase agora mesmo, num noticiário da televisão portuguesa. O autor é um “histórico socialista” (vénia), e o seu nome Souto de Moura, se a memória de curto prazo não me atraiçoa. O “histórico” proferiu estas lindas palavras numa manifestação contra uma decisão de um tribunal que desautoriza a sentença autoritária, sem barra, apoiada, parece, pelo mesmo Souto de Moura, que proíbe as corridas de touros em Viana do Castelo desde há alguns anos. No entanto, independentemente do contexto, este “quem manda” do sr. Moura é o retrato de um regime. Um regime incompatível com o conceito de liberdade e sufocado por uma linhagem de auto-proclamados e medíocres “chefes”.