Cartas para Moscovo

Alexander Rodchenko, pintor, fotógrafo, desenhador e activista da causa bolchevique, chegou a Paris no dia 23 de Março de 1925. Ficou três meses. Viajou para montar algumas das exposições e pavilhões preparados pela União Soviética para a exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Aproveitando o embalo, tentou estabelecer contactos com a comunidade artística e na bagagem levava quase trezentas obras suas. Visitou Léger, mas com Picasso ficou-se pelas intenções. Mergulhou no Sena, viu os Dez Mandamentos de DeMille, foi ao circo, bebeu Chablis. E escreveu quase diariamente a Varvara Stepánova, amante e futura mulher.

Nas cartas, Rodchenko descreve um Ocidente decadente e compara-o com a grandeza da pátria em construção. E fala das compras que fez no dia anterior. Critica o consumismo e o capitalismo de uma sociedade tecnológica. E conta que comprou duas camisolas, uma máquina fotográfica e um tripé. Espanta-se, porque ali “todos trabalham e as coisas correm bem”, para logo redimir-se “para quê?”, “onde querem chegar?”. E vão mais duas câmaras e quinze rolos de película. Deixa-se deslumbrar pela oferta e pelos preços de Paris mas logo encontra na mulher-objecto e no bidet motivos para soltar a verve revolucionária. E troca a vestimenta operária pelo fato que comprou de manhã. Volta à carga contra o capitalismo mas é com insucesso que tenta refrear o impulso gastador (“aqui há milhões de coisas, apetece comprar tudo”) e esconder o fascínio pelo esplendor técnico que o rodeia nos dias parisienses. E compra um casaco de peles para Stepánova.

No dia 18 de Junho de 1925, depois de longas negociações com a alfândega e com as autoridades da URSS, deixa Paris, carregado com: várias máquinas fotográficas e respectivos acessórios, máquinas de filmar, roupa, muita roupa, para ele e para a mulher, perfumes, cachimbos, um gramofone e discos. Ao subir para o comboio ainda deve ter soltado mentalmente mais dois ou três impropérios contra o capitalismo. Mas a natureza humana é traidora, inimiga do proletariado e a primeira obreira da contra-revolução. Depois de Paris, o empenho de Rodchenko na invenção do homem novo nunca mais foi o mesmo.

Janáček

Estou a pensar na última década da sua vida: o seu país independente, a sua música finalmente aplaudida, ele próprio amado por uma mulher jovem; as suas obras tornam-se cada vez mais audaciosas, livres, alegres. Velhice picassiana. No Verão de 1928, a bem-amada na companhia dos filhos vai vê-lo à sua casinha de campo. Os filhos perdem-se na floresta, ele vai à procura deles, corre por todos os lados, apanha calor e frio, fica com uma pneumonia, é levado para o hospital e, alguns dias mais tarde, morre.

Milan Kundera, Os Testamentos Traídos

e assim vai o mundo

Snowden, o homem do momento, anda em em trânsito entre a Rússia, Cuba e Equador, lugares pouco recomendáveis para jornalistas ou mesmo para quem gosta de dizer o que lhe vai na alma. A definir todos os seus cuidadosos passos está Baltasar Garzón, célebre juiz que, recorde-se, foi suspenso das suas funções por ter ordenado escutas ilegais às conversas entre um grupo de suspeitos em prisão preventiva e os seus advogados. Snowden, parece, está em luta pela liberdade de expressão e pelo direito à privacidade.

Liberal, também.

O fascismo mussoliniano, o original, o genuíno, ao qual se convencionou chamar “direita”, era profundamente revolucionário e aspirava a virar a sociedade italiana do avesso. Até os hábitos alimentares dos italianos, magnífica herança de uma cultura gastronómica secular e moldada por meio mundo, foram um alvo a abater pelos sequazes do duce. Tudo em nome da ordem e da hierarquia. Tradição? Só quando servia os interesses do grupelho emergente.

A ezker abertzalea (esquerda nacionalista radical basca), ninho da ETA, carrega hoje o facho ateado por Sabino Arana, carlista, fundador do nacionalismo basco, autor de lendárias frases étnico-nacionalistas (acho que é assim que se diz na linguagem politicamente correcta do movimento anti politicamente correcto) sobre os castelhanos: Gran número de ellos parece testimonio irrecusable de la teoría de Darwin, pues mas que hombres semejan simios poco menos bestias que el gorila: no busquéis en sus rostros la expresión de la inteligencia humana ni de virtud alguna; su mirada solo revela idiotismo y brutalidad; La fisonomía del bizkaino es inteligente y noble; la del español inexpresiva y adusta. El bizkaino es nervudo y ágil; el español es flojo y torpe.

A História normalmente é ingrata com esquematizações, certezas absolutas e toques de bandeira anti-dissidência. Por isso, estou com o Miguel. Liberal, sim. De direita? Talvez.

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a Pequena Galeria abre ao público na quinta-feira dia 21 de Março com a exposição Salão #1 (Inauguração) apresentando obras de Ágata Xavier, António Almeida, António Júlio Duarte, Augusto Cabrita, Carlos M. Fernandes, Carlos Oliveira Cruz, Céu Guarda, Filipe Casaca, Guilherme Godinho, Jordi Burch, José Cabral, José M. Rodrigues, Mário Cravo Neto, entre outros.

a Pequena Galeria é um projecto colectivo que ocupa um pequeno espaço de exposição, informação e comercialização de arte, tendo a fotografia como interesse preponderante. Pretende ser um lugar diferente, à procura de novas fórmulas de produção e distribuição, atento às actuais condições do mercado e decidido a promover o coleccionismo.
Os seus fundadores – Carlos M. Fernandes, Guilherme Godinho, Carlos Oliveira Cruz, Alexandre Pomar, Bernardo Trindade, Luís Trindade e Ágata Xavier – associam diversas experiências e relações com a arte e a fotografia, nos campos da criação, da crítica e investigação, da edição e também nas áreas do comércio livreiro e da realização de leilões.

O nome que escolhemos recorda a história e a ambição de The Little Galleries of the Photo-Secession, a galeria fundada em 24 de Novembro de 1905 por Alfred Stieglitz e Edward Steichen.

A inauguração decorre nos dias 21 (18-21h.), 22 (18-24h.) e 23 (16-21h.) de Março.

Horário da galeria (a partir de dia 27 de Março):
Quarta – Sexta: 18:00 – 20:00
Sab: 16:00 – 20:00

Brandos costumes

Portugal, diz o povo, é um país de brandos costumes e aí está o Francisco José Viegas a reforçar a tese. Perante o assalto implacável e contínuo de um Estado policial, o ex- da Cultura ainda tem a delicadeza de “pedir”. Pois eu penso que, quando a violência do Estado ultrapassa todos limites aceites pelos mais latos conceitos de sociedade livre, a violência reactiva é legítima e não há que pedir nada a ninguém.

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A Arma de Chekhov

O Princípio da Arma de Chekhov diz que uma espingarda que aparece pendurada na parede durante o primeiro acto de uma peça de teatro deve ser usada até ao final dessa mesma peça. Em Straw Dogs (1971) Sam Peckinpah não nos mostra uma escopeta nem uma pistola, mas uma trampa para caçadores furtivos que é armada e colocada sobre a lareira de uma casa rural durante a primeira cena de (falhada) confrontação. E ali fica, em tensão. Sabemos que vai ser usada e que vai ser usada para matar. Basta esperar que os outros pontos de pressão cedam. (E que bem desenha Peckinpah este jogo cinematográfico, a arquitectura da tensão, o equilíbrio nervoso destinado a romper-se, os instintos primitivos a desfazerem a máscara humana, a ambiguidade do jogo sexual.) Temos então um homem, aparentemente pacífico, culto, que se instala com os livros e a mulher numa aldeia inglesa, e temos os habitantes dessa aldeia, sem verniz de civilização, reprimidos e violentos. O convívio, sabemo-lo desde o início, é impossível. Porque sim. Porque há mundos que não se misturam. E no final, previsível mas eloquente, o homem tranquilo explode numa orgia de violência catártica. A armadilha sobre a lareira é disparada e desfaz a cabeça de um dos agressores. Uma pessoa tem os seus limites e não há capa de civilização que resista ao cerco dos bárbaros.

Itália, 1930

Itália, 28 de Dezembro de 1930. Filippo Marinetti publica na Gazetta del Popolo de Turim o Manifesto da Cozinha Futurista. O documento pretendia ser um repositório de receitas vanguardistas, à laia de guia para o homem novo futurista. Mas o alvo do manifesto era a pasta, pilar da gastronomia italiana: riscar a pasta do mapa culinário era o objectivo principal de Marinetti, escudado por Mussolini e pelo Estado fascista. Vinha tudo embrulhado no sonho de uma sociedade moderna, regida pelos padrões (gastronómicos e não só) do norte civilizado, contra os glutões comedores de massa (A pasta opõe-se ao espírito desperto, à alma apaixonada, generosa e intuitiva dos napolitanos, dizia o manifesto a páginas tantas). No entanto, pretextos e cauções intelectuais à parte, o motivo para a cruzada contra o esparguete e os talharins foi o trigo. A ascensão do fascismo e a rotura de algumas relações diplomáticas suspendeu grande parte da importação de trigo duro e a Itália não o produzia em quantidades suficientes para alimentar uma dieta baseada na pasta. A fome ameaçou o povo e o orgulho prepotente do Duce. E então começaram as campanhas e os manifestos.

Portugal, 28 de Dezembro de 2012. Um secretário de Estado diz, sem um traço de vergonha na cara, que é fundamental controlar os hábitos privados dos portugueses e que essa será a grande missão do Ministério da Saúde no ano que agora começa. Comida e vícios estarão assim sob a estrita vigilância dos queridos líderes. A razão é prosaica (e pelo menos não se esconde por detrás de manifestos intelectuais): salvar o Serviço Nacional de Saúde. Dois países, dois séculos, as mesmas personagens.

SANYO DIGITAL CAMERATurim, 2011