Fome de Poder

Em quarenta e oito horas desfez-se a ilusão de responsabilidade do Partido Socialista. Ainda atordoados pela perda de um domínio do qual já se julgavam proprietários, e sem a paciência necessária para um jogo que até pode correr mal e privá-los, a médio prazo, do único meio de subsistência que conhecem, os actuais manobradores do barco do Rato deram uma guinada no sentido de águas revoltas. A brincadeira, com elevado potencial autofágico, deve estar aí para durar, mas entretanto ficamos esclarecidos: o PS de Costa é um clube de oportunistas com fome de poder. Nada de novo, dirão. A diferença está nas competências. Tradicionalmente, e para desgraça do tesouro público, o PS é um partido eficaz, uma máquina bem calibrada que, em quarenta anos, teve mais sucessos eleitorais do que aqueles que o país e a economia podiam suportar. Hoje, os socialistas são dirigidos por um bando de trapalhões. O país, apesar dos riscos, agradece tanta falta de jeito.

Segurança

A tese do suicídio, na queda do avião da GermanWings, vai ganhando consistência e, a confirmar-se, a seguinte conclusão é inevitável: um mecanismo de segurança, implementado após os atentados de 11 de Setembro de 2001, frustrou qualquer tentativa de impedir o desastre. Há sempre gente disposta a trocar qualquer coisa por segurança, até a liberdade e a dignidade, e os voos comerciais são o laboratório perfeito para se estudar até que ponto os seres humanos aceitam submeter-se a todo o tipo de procedimentos invasivos quando aliciados pelo logro securitário. Não será este um caso claro de violação da liberdade individual, mas fica a lição: não há almoços grátis.

52-15

Roma

Antes da limpeza imposta pelo inquisitorial Pio V, o deboche reinava nos aposentos clericais de Roma. De acordo com o crítico literário e escritor Giuseppe Prezzolini (1882-1982), a Roma dos séculos XV e XVI era uma cidade de pederastas, rufias, glutões, santos e falsários, e nem os papas e os cardeais, rodeados de filhos e concubinas, escapavam ao regabofe. Júlio III fazia-se servir todos os dias um peru recheado e bolachas de Gaeta, que se diz serem afrodisíacas. Paulo II não passava sem as gambas e os enchidos de porco, e adorava melões; tanto que, numa noite, enfardou dois, inteiros, e no dia seguinte morreu de uma apoplexia (dizem as más-línguas que por ocasião do treco se deleitava em actos íntimos com um pajem). E o próprio Pio V, tão pio, não dispensava, de quando em vez e entre fogueiras, umas bolachinhas com caviar negro de Alexandria. Os latinos inventaram a Igreja Católica Apostólica Romana, e não o contrário. É tão evidente que a lógica e a História nem precisam de ser convocadas para o confirmar.

Cartas para Moscovo

Alexander Rodchenko, pintor, fotógrafo, desenhador e activista da causa bolchevique, chegou a Paris no dia 23 de Março de 1925. Ficou três meses. Viajou para montar algumas das exposições e pavilhões preparados pela União Soviética para a exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Aproveitando o embalo, tentou estabelecer contactos com a comunidade artística e na bagagem levava quase trezentas obras suas. Visitou Léger, mas com Picasso ficou-se pelas intenções. Mergulhou no Sena, viu os Dez Mandamentos de DeMille, foi ao circo, bebeu Chablis. E escreveu quase diariamente a Varvara Stepánova, amante e futura mulher.

Nas cartas, Rodchenko descreve um Ocidente decadente e compara-o com a grandeza da pátria em construção. E fala das compras que fez no dia anterior. Critica o consumismo e o capitalismo de uma sociedade tecnológica. E conta que comprou duas camisolas, uma máquina fotográfica e um tripé. Espanta-se, porque ali “todos trabalham e as coisas correm bem”, para logo redimir-se “para quê?”, “onde querem chegar?”. E vão mais duas câmaras e quinze rolos de película. Deixa-se deslumbrar pela oferta e pelos preços de Paris mas logo encontra na mulher-objecto e no bidet motivos para soltar a verve revolucionária. E troca a vestimenta operária pelo fato que comprou de manhã. Volta à carga contra o capitalismo mas é com insucesso que tenta refrear o impulso gastador (“aqui há milhões de coisas, apetece comprar tudo”) e esconder o fascínio pelo esplendor técnico que o rodeia nos dias parisienses. E compra um casaco de peles para Stepánova.

No dia 18 de Junho de 1925, depois de longas negociações com a alfândega e com as autoridades da URSS, deixa Paris, carregado com: várias máquinas fotográficas e respectivos acessórios, máquinas de filmar, roupa, muita roupa, para ele e para a mulher, perfumes, cachimbos, um gramofone e discos. Ao subir para o comboio ainda deve ter soltado mentalmente mais dois ou três impropérios contra o capitalismo. Mas a natureza humana é traidora, inimiga do proletariado e a primeira obreira da contra-revolução. Depois de Paris, o empenho de Rodchenko na invenção do homem novo nunca mais foi o mesmo.

Janáček

Estou a pensar na última década da sua vida: o seu país independente, a sua música finalmente aplaudida, ele próprio amado por uma mulher jovem; as suas obras tornam-se cada vez mais audaciosas, livres, alegres. Velhice picassiana. No Verão de 1928, a bem-amada na companhia dos filhos vai vê-lo à sua casinha de campo. Os filhos perdem-se na floresta, ele vai à procura deles, corre por todos os lados, apanha calor e frio, fica com uma pneumonia, é levado para o hospital e, alguns dias mais tarde, morre.

Milan Kundera, Os Testamentos Traídos

e assim vai o mundo

Snowden, o homem do momento, anda em em trânsito entre a Rússia, Cuba e Equador, lugares pouco recomendáveis para jornalistas ou mesmo para quem gosta de dizer o que lhe vai na alma. A definir todos os seus cuidadosos passos está Baltasar Garzón, célebre juiz que, recorde-se, foi suspenso das suas funções por ter ordenado escutas ilegais às conversas entre um grupo de suspeitos em prisão preventiva e os seus advogados. Snowden, parece, está em luta pela liberdade de expressão e pelo direito à privacidade.