A cor do género (e da génera)

O tetracromatismo é uma variação genética em relação ao comum tricromatismo que se caracteriza por um quarto canal de recepção de cores (a maioria dos humanos tem apenas três). Um tetracromata vê um espectro mais amplo, ampliado até às radiações ultravioletas de maior comprimento de onda, e tem uma melhor aptidão na diferenciação das cores, uma paleta mais rica, mais refinada, entre o violeta e o vermelho. Sabe-se ainda que a condição ocorre com mais frequência nas mulheres do que nos homens.

Semelhantes considerações biológicas têm sido feitas para explicar o desvio feminino para o rosa dentro da preferência global dos humanos pelo azul. Os progressistas, porém, empenhados na cruzada contra os estereótipos, o épimiles e a organização espacial das lojas de brinquedos, fazem orelhas moucas à ciência e negam os dados, refugiando-se no «condicionamento cultural», a Trindade da nova religião. O seu amor pela genética e pelo darwinismo esgota-se no potencial para irritar os criacionistas. Para lá disso, tudo aquilo que ameaçar o edifício ideológico que construíram para controlar e prescrever a vida dos outros é devidamente assinalado com o rótulo de heresia.

Traição

A frase, atribuída a Samuel Johnson, é por demais conhecida: «O patriotismo é o último refúgio de um canalha.» A de Raymond Aron, talvez seja menos, mas complementa a de Johnson como de um corolário se tratasse: «A traição será o último refúgio da liberdade.» Ora, quando um bando de canalhas lida com a pátria como se esta fosse um hospedeiro de parasitas e comensais, arruinando-a para um alimentar um projecto de poder, a «traição», mais do que um refúgio, é uma obrigação.

PVEC (Processo de Venezuelização em Curso)

Já se sabe: António Costa não é mais do que um finório que faz pela vida. É trágico que faça pela vida às custas dos outros, mas é a natureza destas criaturas: encostam-se sempre ao primeiro manancial que encontram, e se o manancial for o Estado, melhor, pois é aparentemente inesgotável (“o dinheiro aparece sempre”, já dizia Mário Soares, o membro mais eficiente desta classe de parasitas). O mistério insondável, aqui, é haver tanta gente a amparar-lhes os golpes, seja com votos, seja com uma cegueira temporária às mentiras, manipulações e trapalhadas. É uma espécie de psicose colectiva, incurável, mesmo com terapias de choque como bancarrotas, proto-censura, ou envelopes com vinho.

Heliogábalo

O imperador Heliogábalo chegou ao poder com as manobras traiçoeiras da sua avó Júlia Mesa. Partidário de causas fracturantes, levava uma vida dissoluta (repugnante, mesmo, dizem alguns historiadores) e prostituía-se no palácio imperial. Para comprar fidelidade e admiração, Heliogábalo dava banquetes e, aos guisados de lentilhas que costumava servir, juntava pedras preciosas. Quando há dinheiro, é fácil arregimentar sabujos. Quando não há dinheiro, não há palhaços. Nessas ocasiões, compramos pipocas e assistimos, divertidos, à desilusão daqueles que julgavam poder comer fartamente na mesa do «império».

A obstinação de um perdedor

Quando pensávamos que o regime, consumadas três falências e a eleição e reeleição (e prisão) de um sociopata, já tinha descido ao nível mais rasteirinho ─ vulgo «bater no fundo» ─, eis que surge um parasita bem agarrado ao hospedeiro para nos tirar as ilusões. Fica a lição: não menosprezar a perseverança de um animal derrotado, ferido e sem opções de carreira (não se arranja nada na Mota-Engil, ou afim, para prover a criatura de um sustento?). Mesmo quando, após sufrágio, lhe foi indicado o sentido da saída. E pela porta pequena.

Esperanças Revolucionárias

Numa entrevista publicada no dia 11 de Julho de 1974 na revista italiana Il Mondo, o escritor, cineasta e comunista heterodoxo Pier Paolo Pasolini fez uma crítica do consumismo e debateu a tese de um novo fascismo, imposto subliminarmente pelo poder, suportado pela pequena burguesia e preservado com a ajuda da uniformização cultural e hedonismo ditados pela televisão. Nessa linha de pensamento, falou de Portugal, que à data vivia o fervor revolucionário e as incertezas da constituição de um novo regime. E, céptico, arriscou: «[É] de prever que cinco anos de “fascismo consumístico” mudarão radicalmente as coisas: começará o emburguesamento sistemático do povo português e não haverá mais espaço nem vontade para as ingénuas esperanças revolucionárias.» Como acontece frequentemente com os marxistas, Pasolini enganou-se. Passaram quarenta anos, e, a julgar pelas notícias dos últimos dias, ainda há espaço e vontade para as «ingénuas esperanças revolucionárias» (em grande parte alimentadas pelo consumismo de uma súcia privilegiada que se passeia entre o Chiado e a Bica). Dinheiro para a festa é que provavelmente já não há.

Fome de Poder

Em quarenta e oito horas desfez-se a ilusão de responsabilidade do Partido Socialista. Ainda atordoados pela perda de um domínio do qual já se julgavam proprietários, e sem a paciência necessária para um jogo que até pode correr mal e privá-los, a médio prazo, do único meio de subsistência que conhecem, os actuais manobradores do barco do Rato deram uma guinada no sentido de águas revoltas. A brincadeira, com elevado potencial autofágico, deve estar aí para durar, mas entretanto ficamos esclarecidos: o PS de Costa é um clube de oportunistas com fome de poder. Nada de novo, dirão. A diferença está nas competências. Tradicionalmente, e para desgraça do tesouro público, o PS é um partido eficaz, uma máquina bem calibrada que, em quarenta anos, teve mais sucessos eleitorais do que aqueles que o país e a economia podiam suportar. Hoje, os socialistas são dirigidos por um bando de trapalhões. O país, apesar dos riscos, agradece tanta falta de jeito.

Segurança

A tese do suicídio, na queda do avião da GermanWings, vai ganhando consistência e, a confirmar-se, a seguinte conclusão é inevitável: um mecanismo de segurança, implementado após os atentados de 11 de Setembro de 2001, frustrou qualquer tentativa de impedir o desastre. Há sempre gente disposta a trocar qualquer coisa por segurança, até a liberdade e a dignidade, e os voos comerciais são o laboratório perfeito para se estudar até que ponto os seres humanos aceitam submeter-se a todo o tipo de procedimentos invasivos quando aliciados pelo logro securitário. Não será este um caso claro de violação da liberdade individual, mas fica a lição: não há almoços grátis.

52-15

Roma

Antes da limpeza imposta pelo inquisitorial Pio V, o deboche reinava nos aposentos clericais de Roma. De acordo com o crítico literário e escritor Giuseppe Prezzolini (1882-1982), a Roma dos séculos XV e XVI era uma cidade de pederastas, rufias, glutões, santos e falsários, e nem os papas e os cardeais, rodeados de filhos e concubinas, escapavam ao regabofe. Júlio III fazia-se servir todos os dias um peru recheado e bolachas de Gaeta, que se diz serem afrodisíacas. Paulo II não passava sem as gambas e os enchidos de porco, e adorava melões; tanto que, numa noite, enfardou dois, inteiros, e no dia seguinte morreu de uma apoplexia (dizem as más-línguas que por ocasião do treco se deleitava em actos íntimos com um pajem). E o próprio Pio V, tão pio, não dispensava, de quando em vez e entre fogueiras, umas bolachinhas com caviar negro de Alexandria. Os latinos inventaram a Igreja Católica Apostólica Romana, e não o contrário. É tão evidente que a lógica e a História nem precisam de ser convocadas para o confirmar.

Cartas para Moscovo

Alexander Rodchenko, pintor, fotógrafo, desenhador e activista da causa bolchevique, chegou a Paris no dia 23 de Março de 1925. Ficou três meses. Viajou para montar algumas das exposições e pavilhões preparados pela União Soviética para a exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Aproveitando o embalo, tentou estabelecer contactos com a comunidade artística e na bagagem levava quase trezentas obras suas. Visitou Léger, mas com Picasso ficou-se pelas intenções. Mergulhou no Sena, viu os Dez Mandamentos de DeMille, foi ao circo, bebeu Chablis. E escreveu quase diariamente a Varvara Stepánova, amante e futura mulher.

Nas cartas, Rodchenko descreve um Ocidente decadente e compara-o com a grandeza da pátria em construção. E fala das compras que fez no dia anterior. Critica o consumismo e o capitalismo de uma sociedade tecnológica. E conta que comprou duas camisolas, uma máquina fotográfica e um tripé. Espanta-se, porque ali “todos trabalham e as coisas correm bem”, para logo redimir-se “para quê?”, “onde querem chegar?”. E vão mais duas câmaras e quinze rolos de película. Deixa-se deslumbrar pela oferta e pelos preços de Paris mas logo encontra na mulher-objecto e no bidet motivos para soltar a verve revolucionária. E troca a vestimenta operária pelo fato que comprou de manhã. Volta à carga contra o capitalismo mas é com insucesso que tenta refrear o impulso gastador (“aqui há milhões de coisas, apetece comprar tudo”) e esconder o fascínio pelo esplendor técnico que o rodeia nos dias parisienses. E compra um casaco de peles para Stepánova.

No dia 18 de Junho de 1925, depois de longas negociações com a alfândega e com as autoridades da URSS, deixa Paris, carregado com: várias máquinas fotográficas e respectivos acessórios, máquinas de filmar, roupa, muita roupa, para ele e para a mulher, perfumes, cachimbos, um gramofone e discos. Ao subir para o comboio ainda deve ter soltado mentalmente mais dois ou três impropérios contra o capitalismo. Mas a natureza humana é traidora, inimiga do proletariado e a primeira obreira da contra-revolução. Depois de Paris, o empenho de Rodchenko na invenção do homem novo nunca mais foi o mesmo.

Janáček

Estou a pensar na última década da sua vida: o seu país independente, a sua música finalmente aplaudida, ele próprio amado por uma mulher jovem; as suas obras tornam-se cada vez mais audaciosas, livres, alegres. Velhice picassiana. No Verão de 1928, a bem-amada na companhia dos filhos vai vê-lo à sua casinha de campo. Os filhos perdem-se na floresta, ele vai à procura deles, corre por todos os lados, apanha calor e frio, fica com uma pneumonia, é levado para o hospital e, alguns dias mais tarde, morre.

Milan Kundera, Os Testamentos Traídos

e assim vai o mundo

Snowden, o homem do momento, anda em em trânsito entre a Rússia, Cuba e Equador, lugares pouco recomendáveis para jornalistas ou mesmo para quem gosta de dizer o que lhe vai na alma. A definir todos os seus cuidadosos passos está Baltasar Garzón, célebre juiz que, recorde-se, foi suspenso das suas funções por ter ordenado escutas ilegais às conversas entre um grupo de suspeitos em prisão preventiva e os seus advogados. Snowden, parece, está em luta pela liberdade de expressão e pelo direito à privacidade.

Liberal, também.

O fascismo mussoliniano, o original, o genuíno, ao qual se convencionou chamar “direita”, era profundamente revolucionário e aspirava a virar a sociedade italiana do avesso. Até os hábitos alimentares dos italianos, magnífica herança de uma cultura gastronómica secular e moldada por meio mundo, foram um alvo a abater pelos sequazes do duce. Tudo em nome da ordem e da hierarquia. Tradição? Só quando servia os interesses do grupelho emergente.

A ezker abertzalea (esquerda nacionalista radical basca), ninho da ETA, carrega hoje o facho ateado por Sabino Arana, carlista, fundador do nacionalismo basco, autor de lendárias frases étnico-nacionalistas (acho que é assim que se diz na linguagem politicamente correcta do movimento anti politicamente correcto) sobre os castelhanos: Gran número de ellos parece testimonio irrecusable de la teoría de Darwin, pues mas que hombres semejan simios poco menos bestias que el gorila: no busquéis en sus rostros la expresión de la inteligencia humana ni de virtud alguna; su mirada solo revela idiotismo y brutalidad; La fisonomía del bizkaino es inteligente y noble; la del español inexpresiva y adusta. El bizkaino es nervudo y ágil; el español es flojo y torpe.

A História normalmente é ingrata com esquematizações, certezas absolutas e toques de bandeira anti-dissidência. Por isso, estou com o Miguel. Liberal, sim. De direita? Talvez.

Pub

6a00d8341d53d453ef017c37ef9c86970b-500wi

a Pequena Galeria abre ao público na quinta-feira dia 21 de Março com a exposição Salão #1 (Inauguração) apresentando obras de Ágata Xavier, António Almeida, António Júlio Duarte, Augusto Cabrita, Carlos M. Fernandes, Carlos Oliveira Cruz, Céu Guarda, Filipe Casaca, Guilherme Godinho, Jordi Burch, José Cabral, José M. Rodrigues, Mário Cravo Neto, entre outros.

a Pequena Galeria é um projecto colectivo que ocupa um pequeno espaço de exposição, informação e comercialização de arte, tendo a fotografia como interesse preponderante. Pretende ser um lugar diferente, à procura de novas fórmulas de produção e distribuição, atento às actuais condições do mercado e decidido a promover o coleccionismo.
Os seus fundadores – Carlos M. Fernandes, Guilherme Godinho, Carlos Oliveira Cruz, Alexandre Pomar, Bernardo Trindade, Luís Trindade e Ágata Xavier – associam diversas experiências e relações com a arte e a fotografia, nos campos da criação, da crítica e investigação, da edição e também nas áreas do comércio livreiro e da realização de leilões.

O nome que escolhemos recorda a história e a ambição de The Little Galleries of the Photo-Secession, a galeria fundada em 24 de Novembro de 1905 por Alfred Stieglitz e Edward Steichen.

A inauguração decorre nos dias 21 (18-21h.), 22 (18-24h.) e 23 (16-21h.) de Março.

Horário da galeria (a partir de dia 27 de Março):
Quarta – Sexta: 18:00 – 20:00
Sab: 16:00 – 20:00

Brandos costumes

Portugal, diz o povo, é um país de brandos costumes e aí está o Francisco José Viegas a reforçar a tese. Perante o assalto implacável e contínuo de um Estado policial, o ex- da Cultura ainda tem a delicadeza de “pedir”. Pois eu penso que, quando a violência do Estado ultrapassa todos limites aceites pelos mais latos conceitos de sociedade livre, a violência reactiva é legítima e não há que pedir nada a ninguém.

Baseballbat061011

A Arma de Chekhov

O Princípio da Arma de Chekhov diz que uma espingarda que aparece pendurada na parede durante o primeiro acto de uma peça de teatro deve ser usada até ao final dessa mesma peça. Em Straw Dogs (1971) Sam Peckinpah não nos mostra uma escopeta nem uma pistola, mas uma trampa para caçadores furtivos que é armada e colocada sobre a lareira de uma casa rural durante a primeira cena de (falhada) confrontação. E ali fica, em tensão. Sabemos que vai ser usada e que vai ser usada para matar. Basta esperar que os outros pontos de pressão cedam. (E que bem desenha Peckinpah este jogo cinematográfico, a arquitectura da tensão, o equilíbrio nervoso destinado a romper-se, os instintos primitivos a desfazerem a máscara humana, a ambiguidade do jogo sexual.) Temos então um homem, aparentemente pacífico, culto, que se instala com os livros e a mulher numa aldeia inglesa, e temos os habitantes dessa aldeia, sem verniz de civilização, reprimidos e violentos. O convívio, sabemo-lo desde o início, é impossível. Porque sim. Porque há mundos que não se misturam. E no final, previsível mas eloquente, o homem tranquilo explode numa orgia de violência catártica. A armadilha sobre a lareira é disparada e desfaz a cabeça de um dos agressores. Uma pessoa tem os seus limites e não há capa de civilização que resista ao cerco dos bárbaros.

Itália, 1930

Itália, 28 de Dezembro de 1930. Filippo Marinetti publica na Gazetta del Popolo de Turim o Manifesto da Cozinha Futurista. O documento pretendia ser um repositório de receitas vanguardistas, à laia de guia para o homem novo futurista. Mas o alvo do manifesto era a pasta, pilar da gastronomia italiana: riscar a pasta do mapa culinário era o objectivo principal de Marinetti, escudado por Mussolini e pelo Estado fascista. Vinha tudo embrulhado no sonho de uma sociedade moderna, regida pelos padrões (gastronómicos e não só) do norte civilizado, contra os glutões comedores de massa (A pasta opõe-se ao espírito desperto, à alma apaixonada, generosa e intuitiva dos napolitanos, dizia o manifesto a páginas tantas). No entanto, pretextos e cauções intelectuais à parte, o motivo para a cruzada contra o esparguete e os talharins foi o trigo. A ascensão do fascismo e a rotura de algumas relações diplomáticas suspendeu grande parte da importação de trigo duro e a Itália não o produzia em quantidades suficientes para alimentar uma dieta baseada na pasta. A fome ameaçou o povo e o orgulho prepotente do Duce. E então começaram as campanhas e os manifestos.

Portugal, 28 de Dezembro de 2012. Um secretário de Estado diz, sem um traço de vergonha na cara, que é fundamental controlar os hábitos privados dos portugueses e que essa será a grande missão do Ministério da Saúde no ano que agora começa. Comida e vícios estarão assim sob a estrita vigilância dos queridos líderes. A razão é prosaica (e pelo menos não se esconde por detrás de manifestos intelectuais): salvar o Serviço Nacional de Saúde. Dois países, dois séculos, as mesmas personagens.

SANYO DIGITAL CAMERATurim, 2011

O país no Youtube

Depois das figuras do “engenheiro” a vender computadores e a falar um “idioma” vagamente aparentada com o castelhano dos subúrbios de Jaén, depois do vídeo para finlandês ver, depois das cartas patéticas endereçadas ao primeiro-ministro e ao presidente por cidadãos egocêntricos e infantis, depois de tantos e tantos episódios de luso-piroseira pensei que podia ver, sem medo, o vídeo de que tanto falam. Estava enganado. E agora vou à farmácia comprar Xanax.

A força do destino

A Bélgica nasceu depois de uma récita de La muette de Portici e a Itália foi inventada ao ritmo das obras de Verdi. Duvido que a ópera venha ter o mesmo papel neste período de redefinição de fronteiras que se avizinha (a Escócia, a Bélgica outra vez, a Espanha, e sabe-se lá que mais), mas foi no Liceo de Barcelona, na passada segunda-feira, que senti pela primeira vez a presença daquilo que chamam Catalunha, ou nação catalã. Enquanto o castelhano continua a ser a língua franca nas ruas de Barcelona, enquanto o flamenco continua ser utilizado como chamariz para os turistas (sempre com a Carmen Amaya e o Sorromostro como alegação final), enquanto se picam callos, bravas e cecina nas tabernas do Gótico e do Born, enquanto isso, ali, entre as elites, onde corre o puro (?) sangue catalão, a semente da revolução há muito que floresceu. O traço sardónico foi dado pelas bandeiras de Espanha e Itália, desfraldadas e agitadas no final do terceiro acto de “La Forza del Destino” de Verdi. Mas a cereja veio da Suécia e foi hoje posta no topo do bolo.

(Quanto à qualidade da récita, este é um bom resumo: quando começou o quarto acto eu já estava no Cal Pepe a comer pescaíto frito e a admirar a coreografia dos sete camareros que se moviam por trás do balcão. Foi a produção de abertura de temporada, note-se. A decadência dos grandes teatros ibéricos, causada pela falta de dinheiro mas também pela inépcia dos directores, é já um facto inquestionável (São Carlos, Real, Liceo). Deve ser a força do destino. A Europa como a conhecemos nasceu nas casas de ópera e agora morre nas casas de ópera. O cenário é trágico, divertido, perigoso. Mas justo.)

O gene

Concorde-se ou não, é sempre com agrado e interesse que se lêem as observações do Pedro Arroja sobre o espaço cultural em que estamos inseridos, em contraponto (e em confronto) com outras culturas próximas. Mas continuo a achar que em tal análise das culturas católicas falta um factor essencial: o factor (ou herança) árabe. Não tenho qualquer evidência científica para apresentar em defesa desta tese. É apenas uma convicção que foi crescendo a partir de alguns factos circunstanciais (para além da História): ser nativo de um país do sul da Europa, viver há anos na cidade que foi o último reduto árabe da península ibérica e ter um conhecimento razoável do Mediterrâneo latino e eslavo (e algumas experiências do outro lado do lago). Vale o que vale. Mas vale o suficiente para estar convencido de que vamos continuar a disparar ao lado do tema central enquanto insistirmos em ignorar este termo da equação. Para que serve acertar no alvo? Talvez para nada. Ou talvez para se chegar à conclusão definitiva de que o “projecto europeu”, tal como tem sido desenhado nas últimas duas décadas, está condenado ao fracasso, e que esse fracasso pode condenar-nos ao jugo da tirania. É que o pilar onde se sustenta o paleio unionista — a matriz cristã da Europa — é uma farsa, e não é porque uns são protestantes e outros católicos. A clivagem é mais profunda.

Ao sul (4)

Arquestrato de Siracusa (século IV a.C), siciliano de origem grega, pioneiro da gastronomia e da crítica gastronómica, não gostava do excesso de ingredientes na comida. Preferia uma cozinha sem condimentos supérfluos, sem molhos, sem gorduras. Deixou um recado,

Importuno y demasiado

es para mi el aderezo

de mucho queso, mucho aceite y mucho sebo

como si a gatos se pusiera mesa,

e a gastronomia siciliana, atenta, manteve-se fiel aos seus ensinamentos: os ingredientes justos, a simplicidade, a gordura (azeite, quase sempre) no seu ponto correcto, o protagonismo dos produtos da terra e do mar, frescos, deliciosos, deslumbrantes, no mercado e na mesa. Uma cozinha superlativa, das melhores que encontramos neste mundo vasto e sortido. Uma cozinha que foi acumulando saberes e sabores de colonizadores, conquistadores e conquistados, desde os sículos, sicanos e elímios, primeiros habitantes da ilha, até aos espanhóis, que levaram o Novo Mundo para a Sicília (a América da Antiguidade, como tão bem a definiu Lampedusa), passando por gregos, romanos, normandos e, principalmente, pelos árabes, que deixaram a marca mais forte, não só na comida, mas também no sangue, nos costumes e no estilo de vida urbano dos sicilianos. É por isso que os anúncios do fim da História étnico são sempre tão divertidos.

Ao sul (3)

O transporte por camioneta na Sicília funciona surpreendentemente bem. Vou da Catânia a Taormina, de Taormina a Messina, de Messina a Palermo, depois para Sciacca, regresso a Palermo, e outra vez para a Catânia. Não há um único atraso e os preços são justos. Cada trajecto é explorado por uma empresa diferente.

Os comboios são da responsabilidade da Ferrovie dello Stato Italiane  (a única excepção é uma linha que dá a volta ao Etna). Não uso. Na preparação da viagem leio sempre o mesmo comentário: as ligações ferroviárias não são fiáveis e são mais caras do que as viagens em camioneta (exemplo: Catânia-Palermo, 15 euros em camioneta, 25 no comboio inter-cidades). Em Espanha sigo a mesma política: só vou pela Renfe, empresa pública que gere a rede de comboios, quando não tenho outra opção (usei os comboios duas vezes em Espanha e, numa delas, um atraso épico quase me custava um voo).

Entretanto, em Lisboa, uma senhora, que dizem ser ministra mas que numa sociedade livre não estaria nem no refugo da hierarquia governativa, afirma, sem se rir, que “está por provar que o sector privado, ao contrário do que se diz muitas vezes, tenha maior eficiência que o sector público“. É isso mesmo.

Ao sul (2)

N’O Leopardo, a páginas tantas, Lampedusa descreve o príncipe de Salina, Don Fabrizio, como um homem, aos olhos de Don Calogero, com “uma certa energia propensa à abstracção, uma predisposição para moldar a sua vida com o que dele saísse e não com o que podia arrancar aos outros”. Em contraste, Don Calogero, o príncipe da nova ordem, recém-chegado aos prazeres da riqueza material, é desenhado como um ser emocional, rude, e talhado por centenas de gerações de comerciantes mediterrânicos. Na Palermo de 1860 confrontavam-se as duas Europas e a de Calogero já levava vantagem sobre um Leopardo resignado. Nesta ilha euro-africana açoitada pelo sol e adubada pelo Etna, onde o sangue árabe corre nas veias dos seus lânguidos habitantes — sangue herdado dos sarracenos que, privados do poder com a chegada dos Normandos, fizeram governos-sombra e chamaram manfa à Sicília perdida (manfa, lugar de exílio, possível embrião de uma famosa e sinistra palavra siciliana) —, não podia haver outro vencedor. Para selar a vitória, Calogero deu filha e generoso dote, aprendeu a comportar-se à mesa, e entrou no clube em declínio. Mas agora o espelho grotesco de Don Fabrizio, arruinado, pede esmola ao Leopardo. Ou exige, mesmo. Seria melhor que seguisse o exemplo do seu santo homónimo, padroeiro de Agrigento, que viveu numa gruta, alimentando-se exclusivamente do leite dos veados selvagens do Monte Cronio.

Ao sul

Chamam-lhe o celeiro de Itália. A terra, vulcânica e generosa, oferece um extenso catálogo de produtos agrícolas, desde os mui celebrados citrinos, produto base da agricultura da Sicília (62% da produção italiana está na Sicília), aos pistácios, usados, como um toque de graça oriental, na assombrosa gastronomia siciliana. O mar, não tendo a riqueza do Atlântico, também não é avaro. O clima só peca por ser excessivamente quente no Verão e o turismo responde em massa a um sol ubíquo que convida à indolência. Então, por que razão é a Sicília tão pobre? Não vou avançar sentenças finais. Mas os 26000 guardas-florestais, número lançado recentemente pelo NY Times, talvez sejam um princípio de explicação plausível, tal como os jardineiros sem jardim da Grécia e todos os empregos nacionalizados de Portugal e de Espanha que mais tarde ou mais cedo serão alvo da atenção internacional. E se este exército de guardas já parece absurdo para uma ilha do tamanho do Alentejo, com mais surpresa o vemos se conhecermos a paisagem da ilha. Goethe já o havia notado há cerca de 230 anos, quando cruzou o território, desde Palermo até Messina, e quem chega à Catânia num avião pode confirmar (pelo menos no lado oriental da ilha): grande parte da Sicília foi desflorestada para a agricultura. Se um cenário com 26000 guardas-florestais é trágico, um cenário com 26000 guardas-florestais e sem árvores já é do domínio da comédia. Juntemos-lhe um universo mediterrânico a apontar o dedo e a responsabilizar Merkel, o neoliberalismo, e o conde Drácula pela decadência da sua dolce vita, e temos aquilo a que se chama uma bela palhaçada.

Uma sociedade pacífica, solidária, ecológica, reciclável e sustentável*

(…) La discusión que sigue tras el silencio -ha durado cinco segundos de reloj- es estupenda. Tengo la transcripción literal, pero la soslayo por larga. Resumiré consignando que una madre sugiere comprar espaditas de plástico en el chino de la esquina, pero otras se oponen. «No, que luego se pegan con ellas», dice una. «Hagámoslas entonces de cartón -responde otra-, en plan atrezzo». Pero surgen discrepancias. «Me niego a que los niños vayan armados», dice alguien. Un padre allí presente propone recortar pistolas de cartulina y que las lleven en la faja, pero otro se manifiesta en contra de cualquier arma de fuego, real o figurada. «De todas formas -interviene una madre-, un pirata sin espada no es un pirata». Otro silencio perplejo. Al fin, un padre sugiere que en vez de espadas los niños lleven catalejos. Podrían hacerse con tubos de papel higiénico, propone. «Entonces los niños irán disfrazados de marinos, no de piratas», apunta alguien. «O de astrónomos», tercia otro padre, guasón, al que dos o tres miran mal y alguien llama fascista por lo bajini. (…)

Arturo Pérez-Reverte

*Tradução: uma sociedade “amariconada”.

Quem manda?

“Mas afinal quem manda em Portugal?, o poder ou a justiça?”. Ouvi esta frase agora mesmo, num noticiário da televisão portuguesa. O autor é um “histórico socialista” (vénia), e o seu nome Souto de Moura, se a memória de curto prazo não me atraiçoa. O “histórico” proferiu estas lindas palavras numa manifestação contra uma decisão de um tribunal que desautoriza a sentença autoritária, sem barra, apoiada, parece, pelo mesmo Souto de Moura, que proíbe as corridas de touros em Viana do Castelo desde há alguns anos. No entanto, independentemente do contexto, este “quem manda” do sr. Moura é o retrato de um regime. Um regime incompatível com o conceito de liberdade e sufocado por uma linhagem de auto-proclamados e medíocres “chefes”.