A cor do género (e da génera)

O tetracromatismo é uma variação genética em relação ao comum tricromatismo que se caracteriza por um quarto canal de recepção de cores (a maioria dos humanos tem apenas três). Um tetracromata vê um espectro mais amplo, ampliado até às radiações ultravioletas de maior comprimento de onda, e tem uma melhor aptidão na diferenciação das cores, uma paleta mais rica, mais refinada, entre o violeta e o vermelho. Sabe-se ainda que a condição ocorre com mais frequência nas mulheres do que nos homens.

Semelhantes considerações biológicas têm sido feitas para explicar o desvio feminino para o rosa dentro da preferência global dos humanos pelo azul. Os progressistas, porém, empenhados na cruzada contra os estereótipos, o épimiles e a organização espacial das lojas de brinquedos, fazem orelhas moucas à ciência e negam os dados, refugiando-se no «condicionamento cultural», a Trindade da nova religião. O seu amor pela genética e pelo darwinismo esgota-se no potencial para irritar os criacionistas. Para lá disso, tudo aquilo que ameaçar o edifício ideológico que construíram para controlar e prescrever a vida dos outros é devidamente assinalado com o rótulo de heresia.

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Traição

A frase, atribuída a Samuel Johnson, é por demais conhecida: «O patriotismo é o último refúgio de um canalha.» A de Raymond Aron, talvez seja menos, mas complementa a de Johnson como de um corolário se tratasse: «A traição será o último refúgio da liberdade.» Ora, quando um bando de canalhas lida com a pátria como se esta fosse um hospedeiro de parasitas e comensais, arruinando-a para um alimentar um projecto de poder, a «traição», mais do que um refúgio, é uma obrigação.

PVEC (Processo de Venezuelização em Curso)

Já se sabe: António Costa não é mais do que um finório que faz pela vida. É trágico que faça pela vida às custas dos outros, mas é a natureza destas criaturas: encostam-se sempre ao primeiro manancial que encontram, e se o manancial for o Estado, melhor, pois é aparentemente inesgotável (“o dinheiro aparece sempre”, já dizia Mário Soares, o membro mais eficiente desta classe de parasitas). O mistério insondável, aqui, é haver tanta gente a amparar-lhes os golpes, seja com votos, seja com uma cegueira temporária às mentiras, manipulações e trapalhadas. É uma espécie de psicose colectiva, incurável, mesmo com terapias de choque como bancarrotas, proto-censura, ou envelopes com vinho.

Heliogábalo

O imperador Heliogábalo chegou ao poder com as manobras traiçoeiras da sua avó Júlia Mesa. Partidário de causas fracturantes, levava uma vida dissoluta (repugnante, mesmo, dizem alguns historiadores) e prostituía-se no palácio imperial. Para comprar fidelidade e admiração, Heliogábalo dava banquetes e, aos guisados de lentilhas que costumava servir, juntava pedras preciosas. Quando há dinheiro, é fácil arregimentar sabujos. Quando não há dinheiro, não há palhaços. Nessas ocasiões, compramos pipocas e assistimos, divertidos, à desilusão daqueles que julgavam poder comer fartamente na mesa do «império».

Interlúdio Cultural

A obstinação de um perdedor

Quando pensávamos que o regime, consumadas três falências e a eleição e reeleição (e prisão) de um sociopata, já tinha descido ao nível mais rasteirinho ─ vulgo «bater no fundo» ─, eis que surge um parasita bem agarrado ao hospedeiro para nos tirar as ilusões. Fica a lição: não menosprezar a perseverança de um animal derrotado, ferido e sem opções de carreira (não se arranja nada na Mota-Engil, ou afim, para prover a criatura de um sustento?). Mesmo quando, após sufrágio, lhe foi indicado o sentido da saída. E pela porta pequena.

Esperanças Revolucionárias

Numa entrevista publicada no dia 11 de Julho de 1974 na revista italiana Il Mondo, o escritor, cineasta e comunista heterodoxo Pier Paolo Pasolini fez uma crítica do consumismo e debateu a tese de um novo fascismo, imposto subliminarmente pelo poder, suportado pela pequena burguesia e preservado com a ajuda da uniformização cultural e hedonismo ditados pela televisão. Nessa linha de pensamento, falou de Portugal, que à data vivia o fervor revolucionário e as incertezas da constituição de um novo regime. E, céptico, arriscou: «[É] de prever que cinco anos de “fascismo consumístico” mudarão radicalmente as coisas: começará o emburguesamento sistemático do povo português e não haverá mais espaço nem vontade para as ingénuas esperanças revolucionárias.» Como acontece frequentemente com os marxistas, Pasolini enganou-se. Passaram quarenta anos, e, a julgar pelas notícias dos últimos dias, ainda há espaço e vontade para as «ingénuas esperanças revolucionárias» (em grande parte alimentadas pelo consumismo de uma súcia privilegiada que se passeia entre o Chiado e a Bica). Dinheiro para a festa é que provavelmente já não há.