Da solidão na política

Theresa May é uma mulher só. Isso não é necessariamente cupla sua, às vezes vem com o cargo e as circunstâncias. “Uneasy lies the head that wears a crown” escreveu Shakespeare sobre Henrique IV, o irmão da “nossa” Filipea de Lancastre…
 
May certamente não assumiu um cargo fácil, mais a mais em circunstâncias dificílimas. Vale a pena recordar que May nem sequer seria a favor do Brexit, mantendo-se no entanto suficientemente ambígua para poder suceder a Cameron caso o Brexit ganhasse o referendo – como aconteceu. Nesse sentido escolheu de alguma maneira o seu momento para surgir na liderança de partido e governo. Igualmente da sua responsabilidade foram as eleições de 2017 que prometiam estabilidade e reforço da maioria Conservadora mas resultaram num governo sem maioria estável, apesar dum número de votos superior a muitos de Thatcher, p.ex.
Mas ainda assim a impressão que fica é que nada disso lhe dificultou o trabalho com as negociações do Brexit. É certo que possivelmente uma maioria folgada lhe permitiria descartar os deputados cépticos e levar avante a votação que hoje adiou, mas a verdade é que o acordo é simplesmente mau demais. O problema de May é que provavelmente tem a noção (ou pelo menos a convicção) que este é o acordo possível. E a assimetria de informação prejudica a percepção pública do acordo (está a ver ali em cima onde escrevi “mau demais”?) quando só quem esteve envolvido nas negociações sabe o que lhe custou.
E tem sido muito assim com a UE. Sempre que surge um processo complicado, fecham-se as portas das instituições e os líderes saem, horas, dias, ou semanas depois para trazer um texto aprovado. Quando têm de o levar a votos (seja em referendos como no caso da chamada “Constituição” europeia ou a Parlamentos mais independentes dos seus governos como o caso do inglês) a coisa tem tendência a correr mal. Mas poder-se-ia negociar de outra forma? Mais aberta, mais espelhando as divergências e as dificuldades ultrapassadas para vender também publicamente o esforço por detrás desse consenso? Não sei. Mas a Europa não pode permanentemente cozinhar textos nas suas instituições que depois quando têm de ir a jogo nos estados-membros não têm apoio.
E sei o seguinte: em todo este processo do Brexit, a UE comportou-se como um cônjuge traído que vai para o divórcio com o fel na boca e a vingança no coração. As declarações de vários responsáveis europeus, do inenarrável Guy Verhofstadt ao sr. Barnier passando pelo felizmente desaparecido Juncker, foram permanentemente duma arrogância contra uma decisão soberana dum estado-membro que a mim, europeu de nascença, me causam asco e me levam a repensar se estamos assim tão bem na “União”. Um clube como a UE tem de ter jogo de cintura justamente para acomodar as várias sensibilidades e não pode fazer birra quando há uma divergência. O acordo obtido pareceu-me aquando da sua publicação impossível de aceitar por Londres (como parece confirmar-se) e tenho poucas dúvidas que foi por imposições mesquinhas de Bruxelas. E não sei se compensa participar num clube assim.
A UE nos últimos anos tem se transformado num colosso em que as ideias luminosas de quem tem para si o monopólio do europeísmo não deixam espaço para a divergência – e não falo, claro, das políticas do Euro, claras desde a sua instituição voluntária e aliás sucessivamente aligeiradas. O fim da necessidade da unanimidade numa série de matérias, nas votações do Conselho, após o Tratado de Lisboa foi celebrada pelos eurocratas como um avanço para a Europa que agora poderia tomar decisões muito mais facilmente e sem a morosidade da unanimidade. O que a Europa se esqueceu é que velocidade não anda de mãos dadas com ponderação e uma Europa muito rápida pode desagregar-se.
A Europa precisava um bocadinho de calma. De parar para pensar e consolidar. A saída do Reino Unido, em vez de ser vista como uma afronta, deveria ser vista como um aviso. Uma Europa de paz é valiosa de mais para ser sacrificada só porque há uma sede de avançar com reformas e legislação (veja-se a censura que está para ser imposta aos criadores de conteúdos no youtube, facebook ou também aqui neste blogue só porque o lóbi dos direitos de autor consegue convencer dois ou três actores chave no processo legislativo, contra os interesses das populações) que se meteram nas cabeças de alguns burocratas. A paz, que é justamente assinalada como dos maiores resultados da integração europeia ainda que a par com o valioso contributo da NATO, não se vai perder por deixarmos mais tempo à UE para se desenvolver. Aliás, se calhar são hoje percepcionadas muitas mais ameaças à paz do que em qualquer dos últimos 30 anos (seja no Leste com a Rússia ante portas, seja no Sul com os fluxos migratatórios que bem ou mal causam apreensão, por muito que nos gabinetes governamentais não se perceba) e não se vislumbra grande acção da União nisso.
A senhora May está sozinha e se calhar não passa o ano em Downing Street, mas a verdade é que a UE está longe de sair vencedora daquilo que sempre achou ser uma batalha, quando deveria ser a construção duma relação diferente com os amigos de sempre. Quem sabe se este processo não vai acabar por deixar mais arrependidos em Bruxelas que em Londres.
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Política bem planeada é outra coisa

Em 2016:

cp 2016Em 2018:

cp 2018

Completamente sozinhas

O que mais me impressionou estes dias com a divulgação do desenrolar dos vários incêndios do fim-de-semana (e ao recordar os de Junho) não foi nem a área ardida nem aliás o número de mortos.

Ambos por si só impressionam, é certo (maior área ardida de sempre e «desde que há registos, nada se compara ao que se passou em Pedrógão Grande»), mas duvido muito que seja sério tirar grandes ilações da área ardida, p.ex. Há variações muito grandes de ano para ano e é até provável que muitas vezes deixar arder uma área – sem bens nem pessoas a proteger (“fires that are sparked in remote wilderness, where they aren’t hurting anyone, should be allowed to burn“) – dum determinado incêndio seja o melhor combate possível, pelo que parece que a área ardida pode depender muito mais de factores incontroláveis do que de factores controláveis.

O que me choca e salta à vista é que entre o enorme número de mortos haja tão poucos bombeiros (um apenas, salvo erro, este ano) e tantos mortos na estrada. Não estou, evidentemente, a colocar em causa o trabalho dos bombeiros ou a insinuar qualquer tipo de problemas com a sua competência ou dedicação. Nem duvido que sempre que presentes os bombeiros estão na primeira linha de fogo apenas com uma mangueira entre si e o fogo.

Mas é uma evidência: consultadas as notícias (não sei se há estatísticas consolidadas) salta à vista que – e isto é expectável – tipicamente as mortes ocorrem muito mais do lado de quem combate e está envolvido directamente com os incêndios do que do lado dos civis. Ora este ano a situação inverte-se de forma brutal: Em mais de 100 mortos só um é bombeiro.

Este facto é central na análise que se tem de fazer da tragédia dos incêndios deste ano. E ensaiando alguns cenários possíveis para qu neste ano tenha havido tantos mortos na esmagadora maioria civis – e tantos na estrada – há um que me parece mais evidente ainda que possa estar errado. E deixa-me transtornado e assustado.

É que não me parece que tão grande discrepância face a incêndios em anos passados possa ser culpa da meteorologia, dos eucaliptos ou de factores aleatórios. A impressão que tiro desta enorme diferença face a anos passados é que este ano (aquel)as populações foram abandonadas à sua sorte –  apanhadas pelo fogo, a tentar combater o fogo ou a fugir do fogo. Aquelas mais de cem pessoas morreram porque não tiveram nenhum apoio e estavam completamente sozinhas.

Salazar e Le Pen: a luta continua

Daqui se conclui com relativa evidência: tivesse Salazar tido a “lucidez” de chamar União Nacional Trabalhista ao seu partido único e de chamar às colónias “territórios de resistência ao imperalismo” teria podido contar com Cunhal como seu fiel ministro – tudo o resto seria o Estado Novo como o conhecemos: prisão de opositores (banal desde Lenine), censura prévia na imprensa (nada mais comum no Pacto de Varsóvia) e colonialismo (URSS, alguém?).

 

Isto e mais no Expresso online.

Alianças que não se desfazem

I have an anouncement to make to the House arising out of the Treaty signed between this country and Portugal in the year 1373 between His Majesty King Edward III and King Ferdinand and Queen Eleanor of Portugal. This Treaty was reinforced in various forms by Treaties of 1386, 1643, 1654, 1660, 1661, 1703 and 1815 and in a secret declaration of 1899. In more modern times, the validity of the old Treaties was recognised in the Treaties of Arbitration concluded with Portugal in 1904 and 1914. Article I of the Treaty of 1373 runs as follows: “In the first place we settle and covenant that there shall be from this day forward … true, faithful, constant, mutual and perpetual friendships, unions, alliances and needs of sincere affection and that as true and faithful friends we shall henceforth, reciprocally, be friends to friends and enemies to enemies, and shall assist, maintain and uphold each other mutually, by sea and by land, against all men that may live or die.” This engagement has lasted now for over 600 years and is without parallel in world history. I have now to announce its latest application. At the outset of the war the Portuguese Government, in full agreement with His Majesty’s Government in the United Kingdom, adopted a policy of neutrality with a view to preventing the war spreading into the Iberian Peninsula. The Portuguese Government have repeatedly stated, most recently in Dr. Salazar’s speech of 27th April, that the above policy is in no way inconsistent with the Anglo-Portuguese Alliance which was re-affirmed by the Portuguese Government in the early days of the war.

His Majesty’s Government in the United Kingdom, basing themselves upon this ancient Alliance, have now requested the Portuguese Government to accord them certain facilities in the Azores which will enable better protection to be provided for merchant shipping in the Atlantic. The Portuguese Government have agreed to grant this request, and arrangements, which enter into force immediately, have been concluded between the two Governments regarding (1) the conditions governing the use of the above facilities by His Majesty’s Government in the United Kingdom and (2) British assistance in furnishing essential material and supplies to the Portuguese armed forces and the maintenance of the Portuguese national economy. The Agreement concerning the use of facilities in the Azores is of a temporary nature only, and in no way prejudices the maintenance of Portuguese sovereignty over Portuguese territory. All British Forces will be withdrawn from the Azores at the end of hostilities. Nothing in this Agreement affects the continued desire of the Portuguese Government, with which His Majesty’s Government have declared themselves in full sympathy, to continue their policy of neutrality on the European mainland and thus maintain a zone of peace in the Iberian Peninsula.

In the view of His Majesty’s Government, this Agreement should give new life and vigour to the Alliance which has so long existed between the United Kingdom and Portugal to their mutual advantage. It not only confirms and strengthens the political guarantees resulting from the Treaties of Alliance, but also affords a new proof of Anglo-Portuguese friendship and provides an additional guarantee for the development of this friendship in the future. On the conclusion of these negotiations my right hon. friend the Foreign Secretary, who has, I think, conducted them with the very greatest skill and patience, has exchanged most cordial messages with the Portuguese President of the Council. In his message, my right hon. friend affirmed his conviction that the facilites now granted by the Portuguese Government would greatly contribute to the effective defence of our shipping and thus prove an important factor in shortening the war. He added that the Agreement would give fresh vitality to the ancient Alliance and enhance the close and friendly relations which have so long subsisted between Portugal and Great Britain. In replying to this message, Dr. Salazar stated that he shared the hope that the facilities granted by Portugal to her Ally would help to bring about greater safety for shipping in the Atlantic and that he trusted that this new proof of Portugal’s loyalty to her traditions would fortify the secular Alliance and serve to draw still closer the bonds of friendship between the two peoples.

I take this opportunity of placing on record the appreciation by His Majesty’s Government, which I have no doubt is shared by Parliament and the British nation, of the attitude of the Portuguese Government, whose loyalty to their British Ally never wavered in the darkest hours of the war.

Churchill nos Commons, Outubro de 1943

Não faltarão em 2017, e daqui em diante, oportunidades para continuar a trilhar estes caminhos conjuntos. Godspeed!

Teoria da Conspiração 

Eu se fosse de teorias da conspiração esquerdolas (“direita dos interesses” e outros mimos do ataque pessoal) questionava porque raio os mesmos que travam o controlo parlamentar sobre a Caixa e aplaudem a sua transformação num banco privado de facto (infelizmente pagando nós a factura na mesma) são os mesmos que querem o Novo Banco público. 
Mas, enfim, sou só um fixola. 

Do maravilhoso mundo da regulamentação

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De: “This is what you get when a local law requires one of our breweries to serve food.” (mais exemplos na thread original)