Fake News

A AFP errou. Aparentemente publicaram uma notícia debaixo do título de “#BREAKING More than 100,000 children in migration-related US detention: UN” que era fake. Afinal, após clarificação pelo autor do estudo, concluiu-se que esse número dizia respeito ao total número de crianças detidas por questão relacionadas com migração em 2015 – não sei se não é novamente fake e o número se refere às detenções desde 2015. “We will delete the story”.

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A AFP é transparente com o seu erro, e isso é de aplaudir.

Pessoalmente, no entanto, preferiria uma rectificação na história original. É que abre-se aqui o flanco para teorias das conspiração que não ajudam nada ao estado de desconfiança para com os media: então o relatório era notícia se fosse debaixo da acção de Trump, mas já não vale se afinal foi nos tempos de Obama? É certo que há um valor no “BREAKING” da notícia, ou seja se os dados se referirem a uma situação actual isso pode ter valor diferente do que um relatório sobre uma situação de há 4 anos. Mas dadas as circunstâncias de se ter publicado, não seria de manter a notícia no ar, devidamente corrigida?

A imprensa está debaixo de fogo constante nos tempos que correm. Narrativas de conspiração são muito mais fáceis de construir com deslizes deste tipo.

Do transformismo

Acho que é altura de perguntar porque é que temos a legislação (desde leis laborais,  restauração, equipamentos turísticos, despachos para escolas, etc.) cheia de referências a quartos de banho ou balneários segregados para os dois sexos.
O que motivou isso nas alturas em que foram adoptadas essas normas? O que ia na cabeça dos legisladores que as produziram?
Depois pode então discutir-se se o que se quer (queria?) proteger quando se escreveu na lei que era obrigatório um escritório ter dois quartos de banho e um ginásio dois balneários, é derrogável por uma manifestação de vontade do usuário (conforme o texto deste despacho) que quer saltar para o outro balneário. E como se acomodam novas realidades que surgiram entretanto e à data não tinham consideração no processo da escrita da lei.
Mas não. Não se admite qualquer debate nem é preciso pensar nada porque tudo é decidido cegamente ao abrigo duma agenda política de transformação social porque sim, porque o presente não é suficientemente de acordo com umas visões quaisquer. Estranho que desde Platão, passando por Robespierre, Marx, Hitler Gentile (por sugestão troquei Hitler “implementador” por Gentile “pensador” pensem em Houston Chamberlain ou Rosenberg se preferirem) e outros tantos sempre correu mal: a imposição duma engenharia social vinda de “grandes” pensadores que indicam O caminho único e inabalável para um sociedade “boa”. Se pelo caminho se lixam as pessoas não é importante. Importante é que já está desenhado o futuro perfeito, o caminho ao serviço dessa utopia é secundário porque ao serviço do Bem. Pelo Bem, o radicalismo e populismo nunca são demais.

Chega de Saudade

 

Com a morte de João Gilberto morre o último dos três pioneiros da Bossanova. O papel de Gilberto é talvez o mais fácil de descartar mas, a meu ver, foi o mais fundamental e felizmente vivemos num tempo em que basta um vídeo para – conhecendo o resto da sua carreira – o comprovar.

A gravação acima é a primeira gravação do tema “Chega de Saudade”, publicado em 1958 no álbum “Canção do Amor Demais” – disco famoso talvez também por ser citado em “Carta do Tom” em que Vinicius recorda a Jobim “você ensinando pra Elizete as canções da Canção do Amor Demais”. Para Vinicius, resulta claro, foi ali que tudo começou. E supostamente já está lá tudo: o poema de Vinicius, a música de Jobim e até o próprio Gilberto no violão.

Está lá tudo, mas não está. Elizete Cardoso, não obstante o citado ensinamento por Jobim, não canta Bossa Nova como a conhecemos. Aliás, e perdoem-me a heresia, a mim esta interpretação lembra-me sempre Maria da Graça, no Pátio das Cantigas, a cantar a Camisa Amarela. Elizete ainda arrasta as palavras, não acompanha a batida que o violão quer impornotqando-se que ainda está presa ao som brasileiro dos anos 40.

Quem verdadeiramente arrancou com a Bossa Nova foi Gilberto quando decidiu, apenas meses mais tarde, emprestar a sua voz ao poema de Viniciu e à música de Jobim. Nascia então sim a Bossanova como a conhecemos.

João Gilberto morreu no passado Sábado, dia 6 de Julho de 2019. Deixa Saudade.

Da solidão na política

Theresa May é uma mulher só. Isso não é necessariamente cupla sua, às vezes vem com o cargo e as circunstâncias. “Uneasy lies the head that wears a crown” escreveu Shakespeare sobre Henrique IV, o irmão da “nossa” Filipea de Lancastre…
 
May certamente não assumiu um cargo fácil, mais a mais em circunstâncias dificílimas. Vale a pena recordar que May nem sequer seria a favor do Brexit, mantendo-se no entanto suficientemente ambígua para poder suceder a Cameron caso o Brexit ganhasse o referendo – como aconteceu. Nesse sentido escolheu de alguma maneira o seu momento para surgir na liderança de partido e governo. Igualmente da sua responsabilidade foram as eleições de 2017 que prometiam estabilidade e reforço da maioria Conservadora mas resultaram num governo sem maioria estável, apesar dum número de votos superior a muitos de Thatcher, p.ex.
Mas ainda assim a impressão que fica é que nada disso lhe dificultou o trabalho com as negociações do Brexit. É certo que possivelmente uma maioria folgada lhe permitiria descartar os deputados cépticos e levar avante a votação que hoje adiou, mas a verdade é que o acordo é simplesmente mau demais. O problema de May é que provavelmente tem a noção (ou pelo menos a convicção) que este é o acordo possível. E a assimetria de informação prejudica a percepção pública do acordo (está a ver ali em cima onde escrevi “mau demais”?) quando só quem esteve envolvido nas negociações sabe o que lhe custou.
E tem sido muito assim com a UE. Sempre que surge um processo complicado, fecham-se as portas das instituições e os líderes saem, horas, dias, ou semanas depois para trazer um texto aprovado. Quando têm de o levar a votos (seja em referendos como no caso da chamada “Constituição” europeia ou a Parlamentos mais independentes dos seus governos como o caso do inglês) a coisa tem tendência a correr mal. Mas poder-se-ia negociar de outra forma? Mais aberta, mais espelhando as divergências e as dificuldades ultrapassadas para vender também publicamente o esforço por detrás desse consenso? Não sei. Mas a Europa não pode permanentemente cozinhar textos nas suas instituições que depois quando têm de ir a jogo nos estados-membros não têm apoio.
E sei o seguinte: em todo este processo do Brexit, a UE comportou-se como um cônjuge traído que vai para o divórcio com o fel na boca e a vingança no coração. As declarações de vários responsáveis europeus, do inenarrável Guy Verhofstadt ao sr. Barnier passando pelo felizmente desaparecido Juncker, foram permanentemente duma arrogância contra uma decisão soberana dum estado-membro que a mim, europeu de nascença, me causam asco e me levam a repensar se estamos assim tão bem na “União”. Um clube como a UE tem de ter jogo de cintura justamente para acomodar as várias sensibilidades e não pode fazer birra quando há uma divergência. O acordo obtido pareceu-me aquando da sua publicação impossível de aceitar por Londres (como parece confirmar-se) e tenho poucas dúvidas que foi por imposições mesquinhas de Bruxelas. E não sei se compensa participar num clube assim.
A UE nos últimos anos tem se transformado num colosso em que as ideias luminosas de quem tem para si o monopólio do europeísmo não deixam espaço para a divergência – e não falo, claro, das políticas do Euro, claras desde a sua instituição voluntária e aliás sucessivamente aligeiradas. O fim da necessidade da unanimidade numa série de matérias, nas votações do Conselho, após o Tratado de Lisboa foi celebrada pelos eurocratas como um avanço para a Europa que agora poderia tomar decisões muito mais facilmente e sem a morosidade da unanimidade. O que a Europa se esqueceu é que velocidade não anda de mãos dadas com ponderação e uma Europa muito rápida pode desagregar-se.
A Europa precisava um bocadinho de calma. De parar para pensar e consolidar. A saída do Reino Unido, em vez de ser vista como uma afronta, deveria ser vista como um aviso. Uma Europa de paz é valiosa de mais para ser sacrificada só porque há uma sede de avançar com reformas e legislação (veja-se a censura que está para ser imposta aos criadores de conteúdos no youtube, facebook ou também aqui neste blogue só porque o lóbi dos direitos de autor consegue convencer dois ou três actores chave no processo legislativo, contra os interesses das populações) que se meteram nas cabeças de alguns burocratas. A paz, que é justamente assinalada como dos maiores resultados da integração europeia ainda que a par com o valioso contributo da NATO, não se vai perder por deixarmos mais tempo à UE para se desenvolver. Aliás, se calhar são hoje percepcionadas muitas mais ameaças à paz do que em qualquer dos últimos 30 anos (seja no Leste com a Rússia ante portas, seja no Sul com os fluxos migratatórios que bem ou mal causam apreensão, por muito que nos gabinetes governamentais não se perceba) e não se vislumbra grande acção da União nisso.
A senhora May está sozinha e se calhar não passa o ano em Downing Street, mas a verdade é que a UE está longe de sair vencedora daquilo que sempre achou ser uma batalha, quando deveria ser a construção duma relação diferente com os amigos de sempre. Quem sabe se este processo não vai acabar por deixar mais arrependidos em Bruxelas que em Londres.

Completamente sozinhas

O que mais me impressionou estes dias com a divulgação do desenrolar dos vários incêndios do fim-de-semana (e ao recordar os de Junho) não foi nem a área ardida nem aliás o número de mortos.

Ambos por si só impressionam, é certo (maior área ardida de sempre e «desde que há registos, nada se compara ao que se passou em Pedrógão Grande»), mas duvido muito que seja sério tirar grandes ilações da área ardida, p.ex. Há variações muito grandes de ano para ano e é até provável que muitas vezes deixar arder uma área – sem bens nem pessoas a proteger (“fires that are sparked in remote wilderness, where they aren’t hurting anyone, should be allowed to burn“) – dum determinado incêndio seja o melhor combate possível, pelo que parece que a área ardida pode depender muito mais de factores incontroláveis do que de factores controláveis.

O que me choca e salta à vista é que entre o enorme número de mortos haja tão poucos bombeiros (um apenas, salvo erro, este ano) e tantos mortos na estrada. Não estou, evidentemente, a colocar em causa o trabalho dos bombeiros ou a insinuar qualquer tipo de problemas com a sua competência ou dedicação. Nem duvido que sempre que presentes os bombeiros estão na primeira linha de fogo apenas com uma mangueira entre si e o fogo.

Mas é uma evidência: consultadas as notícias (não sei se há estatísticas consolidadas) salta à vista que – e isto é expectável – tipicamente as mortes ocorrem muito mais do lado de quem combate e está envolvido directamente com os incêndios do que do lado dos civis. Ora este ano a situação inverte-se de forma brutal: Em mais de 100 mortos só um é bombeiro.

Este facto é central na análise que se tem de fazer da tragédia dos incêndios deste ano. E ensaiando alguns cenários possíveis para qu neste ano tenha havido tantos mortos na esmagadora maioria civis – e tantos na estrada – há um que me parece mais evidente ainda que possa estar errado. E deixa-me transtornado e assustado.

É que não me parece que tão grande discrepância face a incêndios em anos passados possa ser culpa da meteorologia, dos eucaliptos ou de factores aleatórios. A impressão que tiro desta enorme diferença face a anos passados é que este ano (aquel)as populações foram abandonadas à sua sorte –  apanhadas pelo fogo, a tentar combater o fogo ou a fugir do fogo. Aquelas mais de cem pessoas morreram porque não tiveram nenhum apoio e estavam completamente sozinhas.

Salazar e Le Pen: a luta continua

Daqui se conclui com relativa evidência: tivesse Salazar tido a “lucidez” de chamar União Nacional Trabalhista ao seu partido único e de chamar às colónias “territórios de resistência ao imperalismo” teria podido contar com Cunhal como seu fiel ministro – tudo o resto seria o Estado Novo como o conhecemos: prisão de opositores (banal desde Lenine), censura prévia na imprensa (nada mais comum no Pacto de Varsóvia) e colonialismo (URSS, alguém?).

 

Isto e mais no Expresso online.