É para fazer agora o ar de surpreendido?

Hoje é o dia de fazer de conta que estamos surpreendidos pelo CDS ser socialista? A sério, ainda não tinha dado para ver pelos ministros do CDS? Ainda havia quem não tivesse percebido depois das ridículas “tentativas” dos ministérios do CDS baixarem a despesa? Já nos esquecemos que não é a primeira vez que o CDS é responsável por um aumento de impostos nesta legislatura? Ou estamos só a fazer de conta que no sistema eleitoral português nos surpreende o facto de os deputados respeitarem mais a liderança partidária do que os eleitores?

E amanhã vamos fazer de conta que estamos surpreendidos com os números da abstenção ou simplesmente com o facto de ninguém mexer uma palha quando os cortes chegarem a meia duzia de malucos que decidem fazer um golpe de estado?

Sobre os milagrosos 10% de IRC que vão transformar a economia portuguesa

Quando primeiro apareceu esta ideia de baixar o IRC para 10% foi anunciado como uma “taxa irlandesa” – provavelmente por  tipos que da Irlanda nem a página da Wikipedia conhecem visto que a única semelhança com a ilha verde é mesmo o número 10.

Em Portugal obviamente nunca poderia ser feita uma coisa tão simples como baixar impostos, não… isso qualquer um podia fazer. Um bom socialista tem que encher a proposta de lei com “ifs and what ifs” até conseguir transformar uma boa ideia numa aberração legislativa abaixo de inútil para que esta possa vir a causar mais problemas que soluções. A ideia deve ser depois fazer nova legislação para resolver os novos problemas dando a ideia que o Estado é uma coisa de gente muito ocupada e inteligente.

Mas voltando ao dito anuncio, começaram por dizer que os 10% eram só para investidores estrangeiros. Alguém lhes deve ter explicado que os investidores portugueses também são filhos de gente e avançaram então agora para a nova ideia que os 10% vão ser apenas para “novos” investidores. Os que cá estão podem fechar as portas que o Estado acha que não valem um corno. E o problema é só este, se  isto por acaso funcionasse (que não vai ser o caso mas já lá vamos) uma nova empresa que consegue roubar clientes à concorrência apenas porque dispões de um beneficio fiscal não é nenhum exercício de destruição criativa. Isto é a manápula gigante do Estado a interferir no livre mercado arriscando-se a levar à falência empresas que até poderiam estar melhor posicionadas para satisfazer as necessidades dos consumidores do que estas novas que entram com novo IRC. Ficamos pior.

O segundo ponto, e talvez o mais importante, é a forma socialista como este governo vê a economia. Como se o Estado tivesse ao seu dispôr uma máquina complexa e bastasse baixar uma alavanca chamada “IRC” para de repente o investimento começar a surgir do nada. Obviamente uma carga fiscal mais baixa é importante para atrair investimento, mas a principal diferença entre a Irlanda e Portugal é que na ilha é normal o IRC ser baixo. Em Portugal vai ser uma excepção. Quando a troika chegou à Irlanda vinham com ideias de subir o IRC para pagar a conta, o governo local bateu o pé, houve reuniões e reuniões mas o IRC ficou inalterado. E a diferença, mais do que o número que vem na taxa, que é  importante para quem está a investir é esta: de um lado está um país que lutou com a troika para manter o IRC baixo, do outro está um país que vai abrir um regime de excepção que provavelmente acabará assim que mudar o governo ou até antes disso se a troika mandar um espirro ou o próprio governo falhar as suas metas do défice. Quando alguém pensa em investir uns milhões em novos escritórios ou fábricas, qual é o país que escolhem? É que os impostos não são uma alavanca que se sobe e desce conforme queremos que as marionetes contribuintes façam aquilo que o Estado pretende. Os impostos não são apenas uma taxa, a estabilidade da política fiscal é tão importante quanto o número. E mais uma vez, de um lado temos um país que cortou na despesa para evitar subir os impostos e no outro temos um país que a cada oportunidade sobe mais impostos porque é incapaz de cortar na despesa.

Por fim, imaginando só por um instante que a alavanca mágica do ministério das finanças funcionava, quem é que estes novos investidores iam cá colocar a tomar conta das suas sucursais? É que com escalões de IRS do calibre que há em Portugal as competências há muito que começaram a passar a fronteira (e continuam a passar). Mais uma vez, na ilha as taxas de IRS foram apenas mexidas uma única vez desde 2008 e continua a atrair talento europeu para trabalhar e liderar as empresas aqui instaladas.

Talvez para a próxima que se queira anunciar os 10% como uma “taxa irlandesa” convenha saber que a Irlanda não é apenas IRC. Entrem num avião da Ryanair que está barato, venham falar com os empresários locais e descobrir porque é que a Irlanda é o 6º melhor país do mundo para fazer negócios. Não é apenas uma taxa, é todo um ambiente.

Quando quiserem começar a trabalhar nisso aí em Portugal avisem. Até lá deixem de fingir que estão a baixar os impostos cada vez que os sobem.

Opções (II)

Era uma vez dois países intervencionados pelo FMI.

Um andou a brincar ao 13º e 14º quarto mês com os funcionários públicos. O outro despediu-os.

Um andou a perseguir “o grande capital”. O outro manteve a taxa de IRC nos 10% e criou agora isenção de IRC para start-ups.

Um passa a vida a recorrer a receitas extraordinárias para esconder o défice. O outro decidiu aumentar as propinas escolares.

Um anunciou o maior aumento de impostos de que há memória para 2013. O outro em 2013 decidiu cortar os abonos de família e baixar subsídios a doentes, deficientes e idosos.

Um está num buraco sem fundo, o outro lá vai conseguindo ver a luz ao fundo do túnel. Segundo o FMI a Irlanda é o único país intervencionado que não está em recessão. São coisas que não acontecem por acaso, são fruto das opções politicas que se tomam e os portugueses deviam pensar profundamente que opções querem tomar para o futuro porque Pai Natal não há em lado nenhum.

Opções

Como alguns dos leitores já sabem sou mais um daqueles que recentemente optou por “votar com os pés” e ir dar uma volta para um qualquer local onde não fizessem questão de me roubar tanto. Por razões profissionais, e pela politica fiscal praticada para com as empresas (more on that later), acabei por vir parar à Irlanda um país que por enquanto me tem surpreendido pela positiva a vários níveis.

Uma das coisas que me surpreendeu foi precisamente ter de contratar um serviço de recolha de lixo. Essas coisas dos contentores do povo por aqui não existem e depois de falar com vários colegas sobre as experiências que eles tinham acabei finalmente hoje por contratar uma empresa para me fazer a recolha do lixo. Tinha quatro por onde escolher aqui na minha área cada uma com varias opções no que toca a tarifários dependendo obviamente do volume de lixo que pretendo produzir e despachar. Lá escolhi a empresa que mais se adequa às minhas necessidades e à minha carteira, com internet foi coisa para demorar uns 20 minutos porque também não há pressa.

Em Portugal dizem os iluminados que se não for o Estado a recolher o lixo é o caos e o país ficaria transformado numa lixeira a ceu aberto. Por aqui ainda não encontrei o tipico lixo (de simples sacos porque o contentor estava cheio aos colchões de cama envelhecidos) espalhado pelo passeio a que já estava habituado.

Ou seja, evita-se o lixo e os impostos o que é bastante bom. Já evitar os iluminados não tem preço.

Ainda os estados de alma

O Estado do país, é sabido, vai de mal a pior e o estado de alma dos portugueses teve uma grande viragem com as medidas anunciadas por Passos Coelho na última sexta que foram ampliadas ontem com a intervenção do Ministro das Finanças. Desde o anúncio do Primeiro Ministro a ferramenta que mais tenho usado para acompanhar o espirito dos portugueses tem sido mesmo o facebook, consigo ter acesso ao que pensam os amigos, os amigos dos amigos, os colegas, os conhecidos e até aqueles que longe do meu circulo se dedicam a escrever nas páginas públicas dos actuais membros do governo e o sentimento, genericamente falando, vai de mal a pior.

Usando a tal rede social tenho visto um pouco de tudo, desde o insulto ligeiro (que até será merecido vista a forma como os governantes nos insultam a inteligência todos os dias) aos apelos à violência passando por ameaças veladas de revolução ou até o simples activismo de sofá com frases como “Portugal está de luto”… o que tem a sua verdade. Pelo menos o sonho socialista morreu.

E o meu próprio estado de alma? É um misto de tristeza com um de justiça cumprida, afinal de contas o país não tem nada mais do que aquilo que merece.

Eu vejo os protestos contra a TSU mas vejo muito poucos a queixar-se que ela subiu para 36%. Só vejo choramingas a queixarem-se da repartição mais igual que há agora entre empregado e empregador e eu, meus amigos, tenho pouca paciência para isto. Eu não vi esta gente preocupada com a TSU quando “o grande capital” andava a pagar 23,75% de TSU do bolso deles asfixiando as empresas que lutaram para construir para encher os bolsos do Estado. Mais, vi alguns destes que agora reclamam os 18% de descontos a pedir (com sucesso) uma taxa especial para os ricos que a classe política teve o mau gosto de chamar “taxa de solidariedade”. Temos um país que, a pedido dos portugueses, tem uma taxa de IRS de 46%… e os meninos queixam-se de uma TSU de 18% ? Cry me a river. Diz o povo que “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão” e por esse prisma a pena de PPC deve ser mais leve do que muitos julgam.

Estamos a falar de um país que elegeu o penultimo Primeiro Ministro com base num programa de governo que prometia o TGV entre outras loucuras financeiras. Isto não é brincadeira nem é passado longinquo. Isto aconteceu em Portugal apenas há 3 anos. Um país completamente alheado da realidade que o rodeava e por vontade própria, estas coisas não aconteceram sozinhas nem sem aviso prévio. Não há espelhos em casa dos portugueses? Mas nessa altura quem pagava a conta era os ricos, portanto estava tudo bem. Passam a vida a gritar contra “o grande capital” e agora admiram-se que não há capital para investir no país? Que as empresas fecham em vez de abrir? E querem resolver isso como? Com uma manif anti-troika? Mas anda tudo bêbado? Acham que sem a troika o dinheiro cai do céu?

Anda um clueless na televisão a dizer que estas medidas são a favor do capital (que vai levar com outros impostos e vai perder clientes) sem a mínima noção do que está a dizer e há um português que se lembra de abrir uma página de apoio para elevar este odio às empresas, de que o país precisa como de pão para a boca, a Primeiro Ministro? Estamos a falar da mesma pessoa que praticamente gozava o Medina Carreira quando este o avisava que o país estava falido. Perdeu tudo a cabeça?

Não, eu não consigo ter pena pena de Portugal. Fico triste por ver estes episódios mas pena não consigo ter. Um dia perguntaram a Francisco D’Anconia o que aconteceria ao mundo se continuasse na mesma trajectória de sempre e ele respondeu “Nada mais nem nada menos do que aquilo que o mundo merece”. E é esse o meu estado de alma, fiquem com o vosso que este país não tem emenda.

A moralidade do Capitalismo

Quanto mais perto estamos do fundo mais fácil é perceber que o nosso principal problema não é económico mas moral. Foi a rejeição da moralidade (do que é correcto fazer e porquê) que nos conduziu à situação actual. O recente roubo anunciado por Passos Coelho é apenas mais um degrau descido no caminho nem diria para a imoralidade mas para a amoralidade. Na Grécia as coisas vão já mais avançadas como podemos ver nesta sondagem que coloca Comunistas e Nazistas, passe o pleonasmo, com 42% do total dos votos mostrando a velocidade com que a decadência moral está a atingir a Europa.

Se queremos recuperar a nossa prosperidade temos antes que tudo de recuperar os nossos valores. Porque o Capitalismo não é apenas o melhor sistema económico, é também o correcto.