RIP, Pedro Panão

Pedro Rabolho Panão tinha o bigode mais aparatoso de Pereiró. Amiúde, homens brancos não instruídos do bairro diziam, com esgar mono-dental, que Rabolho Panão tinha pêlo na benta. Só quem se envergonha das humildes origens da Invicta diz os vês em revolta pelo acordo ortográfico não escrito das gentes do norte. Rabolho Panão comia tudo que viesse à rede, fosse carne, fosse peixe, fosse a gorda da Dionísia, a que lhe jurou eterna fidelidade como se a caridade de alma menos enobrecida pela obrigação biológica de propagação dos genes Panões estivesse ao seu dispor.

Aos Sábados, Rabolho Panão frequentava um antro de droga daqueles que floresciam entre as camadas altas da sociedade americana nos anos oitenta, os que caíram em desuso no mundo ocidental em prol da solidão humana que uma mais-que-certa paragem cardíaca exige. Havia sempre pó e pilas à descrição, com gentes dos partidos e as suas putas de ocasião com pretensões a matrimónios de subsistência.

Um dia, Rabolho Panão decidiu que não mais queria ser homossexual. Caiu o Carmo e a Trindade, os velhos conventos do Bairro Alto substituídos pelas ligas de defesa da apalpação de cantores que correm, efectivamente, sem moralizar. Grabbing by the pussy é fisicamente difícil se o grelo não é enrijecido ao ponto de causar dúvidas de género aos inexperientes: grabbing by the cock é que é ética e moralmente aceite, inclusivamente pela lei da elasticidade expansiva das molas.

Rejeitado pelos amigos que sempre enalteceram sensações olfativas envolvendo dois dedos, pelas vampes mugueiras que capturam peixe que só serve de isco para pesca graúda, pela comunicação social dos coros grândoladeiros e pela Ordem dos Psicólogos, que – valha-nos Deus – bem precisa de uma consulta, Pedro desapareceu no esquecimento virtuoso da esclerose basal de intelectualidade lusitana.

Morreu há três semanas. Alguém terá que contar a sua história. Na lápide só diz que “Pedro Panão morreu em vão – passou de verdadeiro à vil ilusão”.

Carta de um leitor: “Como António Costa não sai, saio eu”

Publico, tal como a recebi, uma carta de importante membro do PS desiludido com a direcção do partido, para que a imprensa possa publicar amanhã, como costuma fazer nestas circunstâncias. Obrigado.

Como António Costa não sai, saio eu

Tomei a decisão de me filiar no Partido Socialista a 28 de Fevereiro de 1982. Desempenhei funções de terceiro vogal (suplente) no 6º congresso da distrital de Beja, fui membro da associação de pais de uma escola primária e desempenhei funções de assessoria na candidatura do doutor Adalberto Gervásio à junta de freguesia de São Bento de Ana Loura, eleições que este viria a perder para a direita mais conservadora de sempre a gerir as remissões de campas no cemitério da aldeia. Em 1990, tive oportunidade de desejar boa sorte ao engenheiro Guterres na estação de serviço da Mealhada para as legislativas que viriam a derrubar o regime cavaquista e passei na Marinha Grande uns meses antes de o doutor Soares fazer história na zona com a sua candidatura à Presidência da República.

O meu socialismo é o de Pol Pot, o de Enver Hoxha, o do Grande Nicolae Ceausescu, não esta aberração em que se tornou o Partido Socialista, com a malfadada Geringonça, a tentar manter a revolução sob paninhos quentes enquanto chupa na teta do neoliberalismo mais atroz. A história do partido, com o doutor Mário Soares, homem com visão que, fingindo meter o socialismo na gaveta, abriu caminho ao afastamento dos comunistas de meia tigela que detêm propriedade e vegetam no PCP rumo à verdadeira comunhão entre os homens de boa fé, como o engenheiro Sócrates. É, para mim, doloroso ver toda esta perseguição ao engenheiro Sócrates por parte dos fascistas enquanto António Costa, o pior líder socialista de sempre, se limita a entregar a responsabilidade da revolução às megeras do Bloco de Esquerda, esse partido burguês de betos e betas do teatro que até deu à luz um Rui Tavares no Parlamento Europeu.

Se António Costa não sai, dando lugar a um líder sério e na linha do designo histórico do Partido Socialista, como a Fernanda Câncio ou o João Galamba, então saio eu. Este já não é o partido que me motivou e me deu força a partir os dentes do opressor. Este é um partido que brada frases inflamadas de progresso enquanto afaga os vícios do heteropatriarcado e manifesta indiferença social ao bem estar dos seus. Foram 34 anos e múltiplas funções exercidas, como a de assessor do sub-secretário do chefe de gabinete da delegação regional da direcção distrital do partido. EU NÃO DIGO HOJE, AMANHA E SEMPRE ao facto de o meu partido patrocinar páginas do Facebook que pretendem pressionar a imprensa a enaltecer a Geringonça. Eu continuarei socialista, como sempre, agora independente, a defender o interesse da minha terra e do meu país, através da nacionalização de toda a banca, continuando a lutar pela separação entre a política e os negócios, pela moralização da vida política e pública e pela libertação do preso político José Sócrates.

Pedro Manuel Silva

Salvaram o Jorge!

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Jorge é franzino, aparentando estar doente mesmo nos raros períodos sem pieira ou alergia a algo que existe além do conhecimento médico actual. Católico por filiação, sente que a sua verdadeira afinidade sócio-cultural é com os seres chocados no Pokemon Go. Jorge, sem perspectivas em Portugal como cantor de ópera, o seu único talento natural e alívio para os sons irritantes que emanam do nariz, decide inscrever-se no curso para comandos. Azeredo Lopes, homem com capacidade inata para fazer sempre o contrário do que é apropriado, manda fechar o curso para comandos, “temporariamente”, até que possa perceber que o melhor a fazer é reverter silenciosamente a decisão anterior.

Jorge não entrou no curso de comandos esta semana. Dificilmente entrará na próxima ou noutra qualquer da sua nasalada vida. Porém, Jorge pode ficar feliz por saber que o ministro se preocupa com ele. E, ainda bem que assim é: sem Azeredo Lopes, lá teriam que rejeitar Jorge no curso de comandos. Assim, com Azeredo, pode evitar-se o trauma para o pequenino Jorge. “Não entras tu nem entra ninguém”.

Seria útil ter alguém para nos proteger dos Azeredos Lopes. Agora, só não serão os novos comandos a fazê-lo.