Análise ao poema de Boaventura Sousa Santos, “a ti, Fidel, quero-te mais que o mel” (2016)

Originalmente intitulado “Fidel, melhor que Pantagruel”, finalmente renomeado para “Na morte de Fidel”, este poema épico em língua Portuguesa representa o rumo da pós-modernidade na sua encarnação encarnada de cor encarnada da literatura séria lusitana posterior a 22 de Setembro de 2002 ou até, afirmo com arrojo, superior a tudo publicado e não publicado após 14 de Junho de 2001, altura em que Bel’Miró lançou o seu livro “Z: o fim inevitável do alfabeto”. Escrito em verso hiper- e subsilábico que desafia os cânones literários e neurológicos, o seu autor, Boaventura Sousa Santos, oscila deliberadamente entre a devoção sentida ao comunismo, assassínio de homossexuais e revoluções culturais à lareira e a propensão para o capitalismo suga-contribuinte que o emprega, permitindo a proliferação de discípulos que avançam a ciência em áreas tão vastas como a hegemonia do ser branco não-instruído nos clubes de xadrez não federados da Lapónia ou da divisão infinitesimal do eu fragmentado sem recurso a Super Cola 3. Tão importante obra carece de uma crítica que a enquadre, que a emoldure para a plebe inculta por desprovida de jargão científico para a compreensão da hipersensibilidade do id perante a inferioridade pluriracial do Mr. Ed. É exactamente isso que Bel’Miró se propõe a fazer. Avante!

É urgente um verso vermelho
que suspenda a animação deste desastre
pensado para durar depois do inverno

O autor chama a atenção para a problemática do verso cor-de-rosa, nunca devidamente reconhecido pela Academia de Versos Azuis. O desastre pensado para durar depois do inverno [sic] refere-se à sua própria existência como ser público e académico, que pretende manter por muitos e bons anos, haja dinheiro para mandar cantar um cego.

É urgente um verso vermelho
com todas as cores do arco iris
e o vento natural do universo

O “arco iris” [sic] refere-se à bandeira dos movimentos LGBT, posteriormente denominados LGBTIOPASDJHSKWGnPC^|DFA€‰±GGONA*?=3-RT. O autor afirma que o universo tem um vento natural, não um criado pela luxúria humana, e que é necessário um verso, uma ordem, de cor vermelha, de sangue, que assegure a naturalidade do vento universal. Sugere então o autor que se assassinem os homossexuais, como Fidel Castro, a quem o poema é dedicado.

É urgente um verso vermelho
que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação
azeite puro em manivelas de razão quente
o peso da história de novo levíssimo
a rodar sobre perguntas livres e ruínas vivas
a paisagem mudar primeiro lentamente
enquanto vão entrando vozes ainda submersas
e corpos mal refeitos da desfiguração da guerra e do comércio
das crateras e promoções

O autor propõe aqui o uso de azeite e sangue para movimentar os comboios da imaginação, como é natural. A dificuldade nos primeiros quatro versos está no significado de “comboio” que, para quem não sabe, é uma prática sexual em grupo exclusivamente masculino com a excepção da locomotiva, que não tendo que acoplar, sendo apenas acoplada, pode ser do género feminino, efectivamente, sem moralizar. Com o uso de “ruínas vivas”, o autor entra na auto-crítica introspectiva, sentindo as dores da dualidade entre os seus princípios filosóficos e a desfiguração do comércio que é alguém dar dinheiro a este homem para ele pensar. As “crateras e promoções” trazem o tema de volta para o sexo homossexual, com alusões pouco dissimuladas a esfíncteres e doenças venéreas, adquiridas gratuitamente através da vil sodomia que o autor pretende extinguir.

É urgente um verso vermelho
que desate os nós da memória e do medo
e resgate os rios da rebeldia
a palavra cristalina inabalável
inconfundível com as mordaças sonoras
à venda nos supermercados da ordem

Esta mordaz estrofe evidencia a vergonha que são as universidades portuguesas, verdadeiros supermercados da ordem onde vendedores de memória e medo vendem as mordaças sonoras que tornam o autor e outros pacientes do género em cristalinas figuras inabaláveis no seu domínio total pela opinião pública.

É urgente um verso vermelho
para anunciar barco polifónico da dignidade
pronto a navegar
os rios libertos das barragens calcinadas
dos sistemas de irrigação industrial da alma

Nesta estrofe, o autor limita-se a dizer que quer um aumento, que já não aguenta pensar pela plebe por tão poucos milhares de euros mensais.

É urgente um verso vermelho
uma luz manual portátil que vá connosco
sem esperar a que virá no fundo do túnel se vier
porque a cegueira da viagem é sempre mais perigosa
que a da chegada
talvez só entrega
talvez só paragem

Aqui, o autor exige desenvolvimento tecnológico, uma espécie de laser que lhe apontem aos olhos para que perca a cegueira da viagem e atinja rapidamente a plenitude da entrega na paragem, eufemismo para a morte. O autor desafia o leitor a que o mate, sabendo que não o fará, para que atingisse a luz ao fundo do túnel, evidenciando, como Fidel Castro, que a vida humana só tem significado quando a plenitude fraterna não é perturbada por dissidências desnecessárias.

É urgente um verso vermelho
que trace um território inacessível
aos vendedores de mobílias espirituais
e turismo de acomodação

O autor quer enjaular-se num território inacessível para vendedores de coisas que considera indignas, como a estabilidade espiritual e o conforto, o que é bonito e aconselhável, haja um médico que o leia.

É urgente um verso vermelho
vinho de bom ano para acompanhar
sonhos sãos e saborosos
preparados em brasas de raiva e a brisa da alegria

Aqui, o apelo à bebedeira mas de vinho não capitalista, aquele que é feito com brasas de raiva e brisa de alegria. Uma alegoria para explicar que não é necessário álcool para alguém, como o autor, pareça bêbado.

É urgente um verso vermelho
sem solenidades nem códigos especiais
para devolver as cores ao mundo
e as deixar combinar com a criatividade própria dos vendavais

A coda, o fim, o “fui ver era o Otávio”, a conclusão obviamente revolucionária para que, se o leitor achar que o autor é um parasita, entre por lá dentro e ocupe a universidade com a criatividade própria dos vendavais, colorida e solene, sem códigos especiais, como os dez mandamentos ou qualquer outra súmula da moralidade humana. É uma versão moderna de um “Rape Me” do grunge, finalmente substituída pela beleza contemplativa da estupidez dos Übermensch.

RIP, Pedro Panão

Pedro Rabolho Panão tinha o bigode mais aparatoso de Pereiró. Amiúde, homens brancos não instruídos do bairro diziam, com esgar mono-dental, que Rabolho Panão tinha pêlo na benta. Só quem se envergonha das humildes origens da Invicta diz os vês em revolta pelo acordo ortográfico não escrito das gentes do norte. Rabolho Panão comia tudo que viesse à rede, fosse carne, fosse peixe, fosse a gorda da Dionísia, a que lhe jurou eterna fidelidade como se a caridade de alma menos enobrecida pela obrigação biológica de propagação dos genes Panões estivesse ao seu dispor.

Aos Sábados, Rabolho Panão frequentava um antro de droga daqueles que floresciam entre as camadas altas da sociedade americana nos anos oitenta, os que caíram em desuso no mundo ocidental em prol da solidão humana que uma mais-que-certa paragem cardíaca exige. Havia sempre pó e pilas à descrição, com gentes dos partidos e as suas putas de ocasião com pretensões a matrimónios de subsistência.

Um dia, Rabolho Panão decidiu que não mais queria ser homossexual. Caiu o Carmo e a Trindade, os velhos conventos do Bairro Alto substituídos pelas ligas de defesa da apalpação de cantores que correm, efectivamente, sem moralizar. Grabbing by the pussy é fisicamente difícil se o grelo não é enrijecido ao ponto de causar dúvidas de género aos inexperientes: grabbing by the cock é que é ética e moralmente aceite, inclusivamente pela lei da elasticidade expansiva das molas.

Rejeitado pelos amigos que sempre enalteceram sensações olfativas envolvendo dois dedos, pelas vampes mugueiras que capturam peixe que só serve de isco para pesca graúda, pela comunicação social dos coros grândoladeiros e pela Ordem dos Psicólogos, que – valha-nos Deus – bem precisa de uma consulta, Pedro desapareceu no esquecimento virtuoso da esclerose basal de intelectualidade lusitana.

Morreu há três semanas. Alguém terá que contar a sua história. Na lápide só diz que “Pedro Panão morreu em vão – passou de verdadeiro à vil ilusão”.