Caro Pedro Santana Lopes

A crónica de hoje no i é um risco que corro. Não faz mal, apeteceu-me. Infelizmente, o mais certo é que não valha a pena. Não valha a pena que Pedro Santana Lopes a leia, não valha a pena que se candidate a líder do PSD, nem que tente ser primeiro-ministro. O mais certo é que nem tenha valido a pena escrever esta crónica.

Caro Pedro Santana Lopes,

Ao que tudo indica o senhor será o futuro líder do PSD, o partido com mais deputados no Parlamento. Além de sobejamente conhecido o senhor tem dado mostras de conhecer bem a natureza do país que quer governar, natureza essa na qual também se revê. A razão desta minha crónica em forma de carta aberta si dirigida é, pois, outra. Prende-se em saber se está preparado para ser diferente de Guterres, Durão Barroso, Sócrates e Costa.

Portugal encontra-se numa encruzilhada porque tem uma dívida colossal, cuja resolução obriga a um enorme esforço e sacrifício, a que se soma uma maioria de esquerda social-comunista que capturou o Estado e impede qualquer alternativa que não seja o caos que, historicamente, boa parte dessa esquerda deseja. Veja-se, a título de exemplo, o que sucede no Hospital de Faro, conforme denúncia dos enfermeiros que lá trabalham: situações indignas para qualquer doente num país europeu, num país como Portugal em que os cuidados de saúde são a pedra basilar do Estado social que construímos.

Situações como esta, a par de escolas sem aquecimento ou papel higiénico, acontecem porque o governo social-comunista de António Costa usa os dinheiros públicos para pagar a sua base eleitoral de apoio em detrimento, quando necessário, dos cuidados sociais, esses sim, uma função a que, constitucionalmente, o Estado se encontra obrigado. O fim último do Estado não é pagar salários, mas prestar serviços sociais. Goste-se ou não é o que está na Constituição.

A situação das finanças públicas é tão calamitosa que, para se manter no poder, a esquerda social-comunista pretere os que precisam em benefício dos que a apoiam. Nesta matéria o PS aprendeu com os melhores ou não fosse o comunismo pródigo neste tipo de estratégia para segurar o poder.

Caro Pedro Santana Lopes, se quiser ser primeiro-ministro não lhes restam muitas alternativas: ou reduz a dívida ou empobrecemos; ou temos um governo PSD/CDS ou a dita maioria de esquerda refém do PCP e do BE. O clima de urgência é semelhante ao do tempo de Sá Carneiro. Do tempo daquele homem que o senhor diz tanto admirar.

Pergunto-lhe directamente, caro Pedro Santana Lopes: está em condições para derrotar o PCP e o BE? Está em condições para governar sem endividar o país? Consegue convencer os eleitores a não se conformarem a trabalhar no Estado ou nas grandes empresas que beneficiam das ligações políticas? Tem condições para separar o Estado dos negócios? Tem condições para quebrar com a oligarquia? Consegue romper com os aristocratas? Quer respeitar uma Justiça soberana e independente? Está preparado para ser um novo Sá Carneiro ou quer só ser mais um na lista de cima?

Não basta responder que sim. Precisa de se convencer do seguinte: que se estiver, não vai ter vida fácil; se o fizer vai ter todos contra si, principalmente essa esquerda que vive do sistema que critica. Mas se não estiver disposto a isso, disposto a marcar a diferença, não vale a pena. Não vale a pena ler esta crónica nem candidatar-se, menos ainda governar o país.

Viver sem dívida: um salto civilizacional

Já me disseram que sou um chato por estar sempre a falar da dívida pública. A tertúlia no Grémio Literário com Maria de Fátima Bonifácio e Rui Ramos é sobre isso (falarei sobre isso noutra oportunidade, mas podem já tomar nota: 26 de Janeiro, às 19.30). Faço-o porque este é o assunto mais premente dos nossos dias.

Se uma pessoa tem dívidas e morre, os seus herdeiros (filhos, netos incluídos) podem renunciar à herança. Até podia estar em causa um grande património, mas se a dívida for colossal e anular esse património têm sempre escapatória.

Com o Estado isso não sucede. Se o Estado (nós) vive com dívidas, os nossos filhos e netos não podem renunciar a ela, não podem renunciar à sua herança. Ficam de mãos e pés atados. Viver com dívida é uma ofensa e meter na cabeça que o Estado não se pode endividar como se não houvesse amanhã é um salto civilizacional que o país, no seu todo, tem de dar. Se não o fizer, a única forma dos nossos filhos e netos terão de escapar ao que lhes deixamos é ir embora. Isso será injusto para eles e significará o fim do país.

Se quiserem podemos pôr o assunto nos termos das questões ambientais.

A política tramou-nos

2017 foi o ano da crise dos partidos e da popularidade esmagadora de Marcelo. A minha crónica no i desta semana é sobre os riscos da personalização do poder.

A política tramou-nos

Um dos factos mais interessantes de 2017 foi a importância que a esquerda social-comunista que governa o país passou a dar à economia. Durante o período da troika, PS, PCP e BE só queriam saber da política. Da política que tinha de mandar na economia, lembram-se? Agora, quando politicamente o Estado falhou aos cidadãos (incêndios e degradação dos serviços públicos), a esquerda agarra-se aos ainda positivos resultados económicos.

O consolo com a eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo é um sinal disso mesmo. Apesar de a presidência do Eurogrupo perder relevância com a criação da figura ministro das Finanças para a zona euro, o mais irónico é que a política continua. O discurso de Ano Novo de Marcelo é mais um sinal disso mesmo.

Devidamente traduzida, a frase “se o ano tivesse terminado a 16 de junho, podíamos falar de um ano singular constituído de vitórias” recorda-nos que a vida não é só economia. Também há política. E que nesse campo, o governo, a maioria de esquerda que o sustenta, falharam.

E, pior que isso, a frase chama a atenção para um facto que um Presidente de afectos por vezes faz esquecer: Marcelo é um político. E como político que é sabe muito bem que o regime está nas suas mãos. Marcelo, que se colou aos sucessos económicos de curto prazo do governo, não esquece que o Estado depende dos credores. Com o episódio do financiamento a desacreditar os partidos, com o PSD a colar-se a Marcelo, o processo de personalização do regime está em marcha, o que é negativo numa democracia liberal. Politicamente falando, estamos tramados.

Os alemães ficaram espertos

Se o verdadeiro esperto é aquele que conta com a esperteza dos outros, então podemos concluir que os alemães foram espertos em escolher Mário Centeno para presidente do Eurogrupo. A minha crónica no i.

Os alemães ficaram espertos

Até há uns dias, o presidente do Eurogrupo era uma pessoa horrível. Esse socialista, ministro das Finanças de um pequeno país europeu (outrora potência comercial), não passava de um pau-mandado de Wolfgang Schäuble, o ainda ministro das Finanças alemão. O nome de Jeroen Dijsselbloem, o dito, pronunciava-se de uma maneira ainda mais horrível que a pessoa: ye-rohn dai-sell-bloom.

Já Mário Centeno, não. Este socialista, ministro das Finanças de um pequeno país europeu (outrora potência comercial), eleito presidente do Eurogrupo, é um génio que mudou o próprio Eurogrupo. E, o que é mais impressionante, convenceu o próprio Schäuble, o tal ainda ministro das Finanças alemão, outra pessoa horrível, mais culpado ainda que José Sócrates pela bancarrota de Portugal, a mudar de rumo. É que, bem vistas as coisas, não só Schäuble comparou Centeno a Ronaldo e o escolheu para presidente do Eurogrupo como ainda vai deixar de ser ministro das Finanças. Com Centeno, ou Ronaldo, e um Mourinho no Eurogrupo, compreende-se que Tsipras tenha ficado satisfeito. Tudo mudou.

Para que tudo fique na mesma. Aquela frase, daquele Don Fabrizio, daquele livro “O Leopardo”, daquele italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, assenta aqui que nem uma luva. A mestria do aristocrata italiano que conduz a família pelos tortuosos caminhos da decadência é, essa sim, igual à dos mestres da política portuguesa. Porque, se Portugal tem grandes políticos, entendendo por grande político aquele que domina a arte de algo mudar para que tudo fique igual, esses são Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Atrevo-me até a escrever algo que jamais julguei ser possível: Portas, ao pé deles, é um aprendiz.

É que o Eurogrupo não mudou, a política monetária do euro não mudou e, pior que isso, com Macron e a ajuda daquele outro socialista de nome Martin Schulz, ainda vai ficar pior. Na verdade, estou bastante curioso para ver o que é que Costa, Catarina e Jerónimo vão mudar no discurso que Centeno vai adoptar, e que trata da criação do ministro das Finanças europeu e do orçamento europeu, cujos fundos apenas beneficiam os bons alunos, para que tudo fique igual.

Estou curioso porque é interessante ver como é que profissionais da mudança enganam um povo. É certo que é um povo fácil de levar. É um povo que não gosta que lhe digam o que deve fazer; disso, não gostamos. Agora, com um elogio gratuito acompanhado de umas migalhas, e a boa e velha palmadinha nas costas, com isso, a gente já lá vai. Os alemães aprenderam e ficaram espertos à portuguesa. Somos tão felizes.

O PSD que não se iluda com o PS

O PSD acha que, com Santana Lopes ou com Rui Rio, pode trazer o PS para centro, mas está enganado. A minha crónica no Jornal Económico.

O PSD que não se iluda com o PS

É provável que a nova liderança do PSD tente alterar os equilíbrios até aqui existentes. Rio quer um PSD mais ao centro, e Santana Lopes, apesar de se dizer de direita, quer colaborar com os socialistas. A intenção é pressionar o PS, forçando-o a quebrar com o PCP e o BE. Com um PS desgastado, o PSD teria espaço para se apresentar como uma alternativa de governo.

Sucede que todas as estratégias têm um senão e nesta, o pormenor que pode estragar as contas é a realidade. Do país, da Europa e do mundo. Quando ouço, por exemplo, Santana Lopes sinto-me nos anos 80. Não é apenas a constante referência ao PPD/PSD, mas o achar que o PS regressa ao centro político como se este PS fosse o mesmo que em 1983-85 governou com o PSD. Ora, o PS de Costa não é o PS de Soares. E não é porque nem Portugal, nem a Europa, nem o mundo de hoje são os mesmos.

Portugal não é mesmo porque o montante da dívida, pública e privada, não o permite. A Europa não é a mesma porque a URSS já não existe, a UE alargou-se para leste, e encontra-se hoje num nível em que a sua falta de flexibilidade pressupõe que Portugal estivesse melhor preparado para a moeda única, que criou imensas oportunidades que os nossos governos destruíram. O mundo está diferente, com os EUA afastados da UE e mais preocupados com a China.

O que os candidatos à liderança do PSD parece ainda não terem percebido é que o PS também mudou. E muito. Este PS não se aproximou do PCP e do BE por questões meramente estratégicas; a aliança entre os três partidos de esquerda é mais ideológica que oportunista. Resulta da defesa dos mesmos interesses perante um Portugal, uma UE e um mundo muito diferentes. Perante as mudanças ocorridas, o PS, que viu o que sucedeu aos partidos socialistas europeus, percebeu que para sobreviver tem de se radicalizar na defesa de um sistema democrático eleitoralmente estatizado.

O país desenvolveu-se com um Estado que dá emprego, apoia empresas de empresários amigos e politicamente próximos. Como nem todos se chamam Belmiro de Azevedo, muitos se vendem por um baixo preço. Ou alto, como aconteceu com Ricardo Salgado. Este PS sabe que não pode trair o seu eleitorado que vive por conta deste sistema. Se o fizer, desaparece. Assim, percebem-se melhor os últimos orçamentos, com impostos altos, cativações, mas ordenados e pensões por inteiro. E agora, até com algum investimento público devidamente escolhido, devidamente direccionado.

Se o PS vier para o centro, acaba. Foi ao percebê-lo que Costa engendrou a coligação social-comunista que sustenta o seu governo. O PSD deve perceber que o estado da economia portuguesa destruiu a esquerda moderada e pouco mais há a fazer.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Terá Marcelo pena de nós por não passarmos da cepa torta? A minha crónica hoje no i.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Na semana passada escrevi sobre como Marcelo mudou desde o princípio do seu mandato presidencial. Hoje faço-o sobre como essa mudança prova o quanto Portugal se mantém igual. É cada vez mais certo que o crescimento económico que temos presenciado está a ser distribuído através de favores que visam a manutenção do PS no governo, a satisfação dos interesses dos sindicatos do PCP e a agenda do BE.

Tal como no passado, a conjuntura internacionalmente favorável que vivemos não está a ser aproveitada para reformar o Estado e libertar a economia. O país vai pagar muito caro cada dia que passa com o atual governo. Marcelo já o percebeu e age em conformidade. Nas últimas semanas tem consolado as vítimas dos incêndio, da mesma forma que, dentro de algum tempo, consolará as vítimas das atuais políticas.

Marcelo é hoje mais um consolador da nossa tragédia que um político. Cada abraço de conforto que dá, cada palavra de força que profere vai nesse sentido: consolar um país cujo fado é sofrer. É muito interessante ver como, enquanto Cavaco, apesar de todas as suas idiossincrasias, apelava ao esforço e à vontade para se superarem as dificuldades, Marcelo se contenta em consolar os pobres porque serão sempre pobres.

Ao vê-lo no seu afã por estar com os que sofrem, este novo Marcelo que nos surge triste, contristado, com pena dos portugueses, faz-me crer o quanto ele finalmente compreendeu o sacrifício imenso que é viver aqui, de forma pequena. Sem horizontes, sem esperança, sem saída.

Afinal

Afinal as hipóteses do Porto eram limitadas; afinal, as melhorias na economia europeia vão trazer taxas de juros mais elevadas, o que não nos ajuda nada. Afinal, o governo cede nos professores porque está preso pelas clientelas do PCP e do BE; afinal, o PCP não derrubou o muro; afinal, a dívida pública é ainda mais colossal do que era em 2011. São muitos os afinais. Porque, afinal os tempos felizes que vivemos foram ao género dos tempos felizes de outrora em que o país, apesar de pobre, se dizia único, com um povo simpático e acolhedor. Afinal isto está tudo igual e somos governados pela mesma mentalidade que governou o país naqueles 40 anos que alguns de nós desejávamos longínquos. Mas não são. Perseguem-nos, porque afinal tudo se resume a muito pouco.