Não querer saber é lixado

Constança Cunha e Sá disse ontem na TVI 24 que os indicadores económicos mostram que as coisas correm bem ao governo: há crescimento, há criação de emprego (a maior criação de emprego da Europa, em Março), o défice é o mais baixo da democracia e etc. Há apenas um pormenor que Constança Cunha e Sá esqueceu: é que a dívida pública continua a crescer.

Apesar do que se passou nos últimos anos muitos comentadores ainda não compreenderam que, se com crescimento económico e criação de emprego, a dívida sobe é porque o país não está mais rico, mas mais pobre.

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A demagogia não tem ideologia

Em 2010 o governo de então apresentou um plano de expansão do metro de Lisboa. Passava para o dobro das estações. Viu-se. Agora, no CDS, que estiveram no governo anterior e deveriam saber melhor que ninguém a situação real do país, querem contruir 20 estações de metro. Eu também queria. Seria óptimo. O problema é pagar. Ou melhor: o problema é que o benefício das ditas estações não compensam os sacrifícios que teremos de fazer para as pagar. Mas se calhar sou eu que estou enganado e até compensam. Se calhar há quem consiga uns votos, uns cargos ou, se nem isso, fique bem na fotografia. Depois? Depois, logo se vê que ninguém se lembra.

Macron em 2016, no jornal i

A minha crónica no ‘i’ de 5 de Maio de 2016.

O jogo político francês

Tenho um gosto muito especial em acompanhar a política francesa apesar desta suscitar pouco interesse em Portugal. O que é pena. Não só porque o nosso sistema político é relativamente próximo do francês mas também porque a própria cultura política é semelhante. Principalmente à esquerda.

Na semana passada tiveram lugar violentos confrontos contra a lei El Khomri que flexibiliza a lei do trabalho com vista a facilitar a contratação de trabalhadores. A ministra do Trabalho, Myriam El Khomri, tem tentado, a par com o ministro da Economia, Emmanuel Macron, fazer a ponte entre a ideologia de esquerda e criação de emprego.

A esquerda francesa encontra-se numa verdadeira encruzilhada. Um verdadeiro labirinto  cuja principal vítima tem sido o próprio François Hollande. Este tem tentado juntar as pontas cada vez mais distantes que fracturam o PSF e garantir condições que lhe permitam a reeleição em 2017. Além disso, tem tentado utilizar as novas estrelas do PSF, esperando que estas também se extingam perante a realidade económica. Foi assim com Montebourg, Hamon, Peillon, que se afastaram, e também com Valls e o fenómeno que é Emmanuel Macron.

Mas até para um presidente francês a habilidade política tem limites. É que Macron, criou em Abril o movimento “En marche”, que muitos vêem como uma plataforma para a sua candidatura presidencial. As últimas sondagens são prometedoras e o futuro nos dirá se o verdadeiro legado de Hollande não será alguém capaz de virar o jogo contra ele.

A França é a frente de batalha

Já me perguntaram por que razão ligo tanto à França se sou mais anglófilo que francófilo, o que se deve, e muito, à minha instrução primária. A explicação é simples: além da geração dos nossos pais e avós ser (e ter sido) mais próxima da França que nós, o que sempre nos influencia, há outro aspecto que não se pode descurar e que muitos esquecem.

Aquilo a que estamos a assistir é uma guerra ideológica cuja frente de batalha é a França. As ideias até podem ser (e nem sempre são) de origem anglo-saxónica, mas é nas cidades e nos campos franceses que as batalhas se travam. De uma forma forçada podemos comparar o que se passa com o que aconteceu na segunda guerra mundial quando os soldados eram maioritariamente ingleses e norte-americanos (e nem sempre foram), mas recuperar a França era crucial. O que sucedeu ontem foi precisamente isso: uma pequena batalha que foi ganha. Outras virão. Todos os dias durante os próximos cinco anos serão cruciais porque se Macron não for bem-sucedido os extremos (sejam de direita ou de esquerda) regressam e não se contentarão com segundo lugar.

Analisar a França com base em preconceitos, porque é atrasada, porque são convencidos, e porque isto e aquilo, como se nós Portugueses estivéssemos na vanguarda da discussão política, é um erro que esquece que a França, quer se queira quer não, é o centro da Europa.

O novo senhor da França

Algumas notas sobre as eleições francesas (as presidenciais e as legislativas de Junho):

Estas eleições presidenciais francesas ditaram o fim dos partidos criados por Charles de Gaulle e François Mitterrand.

Tal qual aqueles dois ex-presidentes, Emmanuel Macron pretende governar a França com uma nova maioria política. Vencidas as presidenciais, Macron precisa agora de ganhar as legislativas. Para tal, o novo partido do novo presidente, que há meses que está no terreno a escolher candidatos a deputados, começou a aceitar o apoio dos últimos ilustres que restam das forças partidárias que compunham a antiga maioria. Manuel Valls já se mostrou disponível e Macron já respondeu que será bem vindo, caso abandone o PS.

Macron quer dominar. Assim, quem se quiser juntar a ele tem de deixar o passado.

A estratégia é mais fácil com o PS porque o partido socialista acabou. Dividido entre os centristas, como Valls, e os mais radicais, como Hamon e Montebourg, o PS francês auto-liquidou-se. Restam apenas os despojos que, ou vão para o campo de Macron, ou restarão num pequeno partido, sem rumo e sem sentido.

Quanto aos Republicanos, à dita direita gaullista, a questão é mais complicada. É que há duas direitas dentro desta família política: uma, que podemos apelidar de social-liberal – é liberal nos costumes e não tão liberal na economia – e outra conservadora-liberal – é conservadora nos costumes, mais que a FN, e liberal na economia, mais que Macron. A primeira votou maioriatariamente Juppé e a segunda Fillon. Houve uma facção que votou Sarkozy, mas essa fê-lo, não pelo seu projecto político, que não existia, mas pela pessoa, Sarkozy, que entretanto deixou a política activa.

Emmnauel Macron vai querer dividir esta direita até às legislativas. Para isso, está a tentar convencer os juppeístas para que se juntem a ele, transferindo-se para o seu movimento, ou simplesmente aceitando o seu projecto. Esta facção social-liberal dos Republicanos é mais próxima de Macron e, por isso, sente menos dificuldade em aderir ao novo projecto político que esta noite ganhou o Eliseu. Para esta direita é muito importante que ser parte integrante no sucesso de Macron sob pena de a FN conquistar o poder em 2022.

Já a facção conservadora-liberal, que se revê menos em Macron, é mais resistente. Socorrendo-se dela, e tentando colar os cacos, François Baroin aposta tudo nas legislativas. Este ex-ministro da economia de Sarkozy pretende ser primeiro-ministro, não porque Macron o deseja, mas porque, os eleitores o impuseram ao novo presidente. Até Junho vamos assistir à luta pela sobrevivência da maioria que de Gaulle criou com a V República.

Irá conseguir? Quem olhe para o que se passou no último ano não arrisca previsões, embora possa ter um pressentimento. Vamos ver.

O fim do PS

A minha crónica, ontem no ‘i’.

O fim do PS

Esta terça-feira, Manuel Valls, o ex-primeiro-ministro de François Hollande que tentou ser candidato do PS às presidenciais francesas, declarou que o Partido Socialista deve mudar. À pergunta se é o fim do PS, Valls respondeu: “Oui, je l’ai dit.”

O fim do PS. O fim do partido que Mitterrand criou à sua imagem e semelhança para o levar ao Eliseu. O fim do partido que serviu de inspiração ao PS português, fundado por Mário Soares. O fim de uma época em que uma ideologia política viveu do dinheiro fácil que, quando terminou, foi apontando como o fruto pecaminoso do neoliberalismo.

Emmanuel Macron pode vir a ser o novo senhor da França, como De Gaulle e Mitterrand o foram na sua época. Há meses que o seu movimento En Marche! está no terreno a preparar as legislativas de Junho. Macron já abriu as portas a Valls, com a condição de este sair do PS. Já Os Republicanos encaram as legislativas como uma forma de sobreviverem, formando governo. Ainda não tomou posse, mas já tudo gira à volta do homem que renega o socialismo.

Que terá um mandato duríssimo sob pena de, daqui a cinco anos, seguir o mesmo rumo de Hollande. O que não acontecerá caso o homem que mudou os partidos franceses imponha as suas políticas, como fez com a sua presença. E não tenhamos dúvidas: o que sucedeu ao PS francês, vitorioso há cinco anos, pode acontecer ao português, agora tão optimista. Quando a realidade muda não há volta a dar, por muitas benesses que dêem. Quem paga, farta-se.
E quem recebe, não havendo mais, muda-se.

Debate Macron – Le Pen

Foi o debate mais duro que assisti; que me lembro de ter assistido. Mas também nunca tivemos oportunidade de acompanhar em directo ao confronto entre ideologias tão distintas. É verdade que em Portugal existem os partidos de extrema-esquerda, como o Bloco e os comunistas com um projecto político muito semelhante ao da Frente Nacional. No entanto, infelizmente, jamais comunistas e bloquistas foram confrontados com a dureza, e com a verdade, com que Emmanuel Macron enfrentou Marine Le Pen. Como o próprio disse, são produto do sistema que desprezam. A política pura e dura está aí. Um debate tornou-se num verdadeiro combate de boxe. Não há lugar a qualquer complacência; a qualquer piedade. A vitória total é a única saída para qualquer dos lados.

O Macron português

O que diz muito sobre a renovação política em Portugal.

Debate Macron – Le Pen

É hoje o debate entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Ao contrário do que fez Jacques Chirac que, em 2002 se recusou a debater com Jean-Marie Le Pen, Macron diz que a Frente Nacional existe, é uma ameaça à França e deve ser politicamente combatida. A FN representa mais de 20% do eleitorado e este não pode ser ignorado, nem meramente ridicularizado.

Em Março escrevi para o Jornal Económico precisamente isso:

É percebendo o que Macron quer para a França que compreendemos como é que ele vai enfrentar Marine Le Pen na segunda volta. Ao contrário dos outros candidatos, Macron não diaboliza quem vota na Frente Nacional (FN). Para ele, o eleitorado da FN são os franceses esquecidos pela elite política. Agricultores, empregados de fábricas e de escritórios, de pequenas e médias empresas, pessoas que costumam votar à esquerda ou à direita, mas que desistiram de esperar por quem não tem soluções para os seus problemas e se vêem empurradas, mais pela emoção que pela razão, para o colo da extrema-direita.

Para bem da França, da UE e de todos nós esperemos que consiga e vença o debate com Marine.

Marine Le Pen é de extrema-esquerda

Como? Pois é. Longe vão os tempos em que o pai de Marine Le Pen, Jean-Marie, defendia a redução dos impostos, a eliminação das 35 horas de trabalho semanais, recusava a reforma aos 60 anos de idade e queria uma França desregulamentada, desestatizada e sem muçulmanos. Esta Frente Nacional liderada por Marine Le Pen mudou não apenas porque Marine matou politicamente o pai, mas porque a essência do discurso deste partido extremista passou da direita para a esquerda. Enquanto Jean-Marie era essencialmente racista, Marine é anti-Europa. Uma mudança que está a dar excelentes resultados à senhora Le Pen e que se deve a um homem: Florian Philippot.

Vice-presidente do partido desde 2012, conselheiro próximo de Marine Le Pen, Philippot é o grande responsável pela estratégia da Frente Nacional e também pela sua comunicação. Com ele a FN foi bem sucedida nas municipais de 2014, venceu as europeias desse ano e prepara-se para a presidência que, não espera alcançar agora, mas em 2022. Aí, sim. Nessa altura é que, nas contas de Philippot, serão elas.

Este homem todo poderoso é profundamente contrário às privatizações e fez constar no programa eleitoral de Marine Le Pen propostas como o aumento do salário mínimo nacional, a redução das tarifas de gás e electricidade em 5%, o aumento dos salários da função pública, a reindustrialização da França (muito à semelhança do que o PCP pretende em Portugal), a associação da indústria e do Estado numa cooperação que privilegie a economia real (ou o que quer que isto signifique) e a fixação da idade legal da reforma nos 60 anos, com 40 anos de quotizações.

Há outro aspecto muito importante nesta viragem à esquerda e que a grande maioria não vê: esta FN considera como principal inimiga da França, a União Europeia (UE). É Bruxelas a culpada pelos inúmeros muçulmanos a viver em França, porque foi Bruxelas que abriu as fronteiras e impôs a livre circulação de pessoas dentro da UE. A protecção dos interesses da França, já não se faz apenas, como pretendia Jean-Marie Le Pen, ostracizando as minorias étnicas e religiosas. Para Marine, tal só é possível saindo da Europa. Da mesma forma, o programa económico mencionado em cima só é possível se a França sair do euro. Um discurso muito idêntico ao de Mélenchon, que entretanto ajustou ao tempo presente a posição que tinha em 2012 relativamente aos refugiados, e daí a similitude das propostas, a mesma identidade no caminho a seguir.

Vistas as coisas deste prisma não é difícil compreender por que motivo Jean-Luc Mélenchon não disse, na noite eleitoral, em quem vota na segunda volta. Mélenchon sabe que o seu eleitorado se revê no programa económico de Le Pen e não o quer trair. Mais: o líder da França Insubmissa, aliança política que une vários partidos de extrema-esquerda, entre os quais o partido comunista francês, sabe que uma vitória de Marine Le Pen ditará o fim do euro, do projecto europeu, ou seja, dos alicerces que sustentam o modo de vida do continente. Com Marine virá o caos e é no caos que vingam as ideologias como as que Mélenchon propugna. O melhor para a extrema-esquerda é a vitória de um extremismo disfarçado de direita.

Um último ponto a salientar é que esta mudança na Frente Nacional não é pacífica dentro do próprio movimento. Marion Maréchal-Le Pen, sobrinha de Marine, neta de Jean-Marie, tem a mesma perspectiva do avô. Não que seja europeísta, mas porque entende que a principal ameaça à França reside, não no modelo económico seguido até agora, mas no excesso de imigrantes que, não se integrando na cultura francesa, ferem de morte a identidade da França que é necessário proteger. Ou seja, uma derrota de Marine Le Pen a 7 de Maio será, à semelhança do que está a suceder no PS e entre os Republicanos, um motivo para um ajuste de contas, que aqui será não apenas partidário, mas também familiar. Se Florian Philippot resiste e convence a FN que o seu objectivo é para daqui a 5 anos, as próximas semanas o dirão.

Macron, um fenómeno político

Passei a dar particular atenção à actuação política de Emmanuel Macron, quando este foi escolhido para suceder a Arnaud Montebourg na pasta da economia. Foi nesse cargo que o jovem ministro apresentou uma lei de liberalização da actividade económica, a conhecida Lei Macron, que tanta celeuma deu entre a esquerda. A lei foi, aliás, para parte do PS, uma das muitas traições de François Hollande que os seus camaradas não perdoaram.

Quando há um ano Macron fundou o movimento En Marche!, era difícil ignorar que o homem queria ser presidente da França. Manuel Valls e Hollande ficaram estupefactos, mas aquele ministro, o único que tinha mostrado coragem em mudar alguma coisa no meio do marasmo francês, tornara-se altamente popular. Demasiado popular para ser afrontado.

Em Agosto de 2016, Macron abandona o governo e lança-se na corrida ao Eliseu. As sondagens colocavam-no em terceiro lugar atrás de Marine Le Pen e de quem viesse a ser o candidato dos Republicanos. A partir daí foi sempre a subir, não de forma abrupta, mas consistente resistindo a tudo e a todos.

Macron não é um homem providencial. Tal coisa não existe. Mas não deixa de ser estimulante e encorajador, como foi para mim, acompanhar ao longo de todos estes meses, a carreira fulgurante de um homem vendo nele um possível vencedor ou, na pior das hipóteses, alguém que iria marcar a eleição presidencial francesa. A minha intervenção ontem na TVI 24 foi o culminar de um processo de análise, que foi sendo desenvolvido nos artigos que escrevi sobre o tema ao longo destes meses. Só por isso tenho a dizer que valeu a pena assistir ontem à vitória de Emmanuel Macron. O rei ia nu e ele foi o único que o disse em voz alta.

França: uma nova república?

Com o PS reduzido a pó e a eliminação na primeira volta do candidato da direita tradicional, a França está a assistir ao nascimento de uma nova república, com novos protagonistas principais e novas ideologias.

A derrota de Fillon, que se esperava, pode significar um novo arranjo partidário da direita. Veremos isso, nas legislativas. Por agora, depois de Hamon ter apelado ao voto em Macron, é provável que Fillon faça o mesmo. Os programas são relativamente próximos e Macron conseguiu levar para a sua candidatura alguns antigos apoiantes de Fillon, políticos e empresários próximos deste que, ao longos dos últimos anos, se cruzaram com a nova estrela da política francesa.

Presidenciais francesas na TVI24

Hoje, às 23.30, vou estar na TVI24 a comentar os resultados da primeira volta das presidenciais francesas. Até lá.

O PS está a levar a melhor em Portugal

O meu artigo no Jornal Económico.

O PS está a levar a melhor em Portugal

Em 2011 o Partido Socialista faliu o país. Narrativas à parte é um facto contra o qual não há argumentos, nem sequer verdades alternativas. E houve alertas, avisos para que o Partido Socialista não falisse Portugal, deixasse de alimentar com dívida a dívida que nos sufocava.

Veio a troika, nos termos e condições negociados pelo PS, e que PSD e CDS implementaram. A partir do momento em que tiveram a sorte de perder as eleições em 2011, os socialistas esqueceram o que fizeram, ignoraram o que acordaram com os credores e puseram-se à parte de qualquer solução para o endividamento que implicasse cortes na despesa pública. O PS sabia na altura, como sabe agora, que os principais visados desses cortes orçamentais constituíam a sua base eleitoral. A austeridade foi a salvação do Estado, mas seria o fim do PS se o Partido Socialista pactuasse com ela. E isso, os socialistas não podiam aceitar.

E não aceitaram comportando-se, entre 2011 e 2015, como bem sabemos. Entretanto, na Europa, outros partidos socialistas, que não tiveram o discernimento do português, pagaram caro a sua honradez. O PASOK desapareceu da Grécia, o PSOE está de rastos, o PSF como sabemos, o Labour entregue a um radical, na Holanda foi feito em pedaços e na Alemanha, o SPD – responsável pelas reformas que salvaram o Estado social alemão – está há mais de dez anos arredado do poder.

Mas em Portugal, não. Em Portugal, o PS é de outra lavra. Tem outra cultura. É muito mais esperto. E esperto como é salvou o socialismo português revertendo as medidas mais impopulares do anterior governo, como os cortes dos salários e das pensões, mas esqueceu todas as que, sendo indispensáveis, o PSD nunca poderia apontar o dedo ao PS.

Assim, Costa não reverteu o brutal aumento de impostos de Gaspar. Como é que o PSD pode criticá-lo de não o fazer se foi o PSD que subiu os impostos? Costa cortou no investimento público; mas como é que o PSD pode criticá-lo se o PSD defendeu menos investimento público para que haja mais investimento privado? Costa reverteu as medidas que desfavoreciam o seu eleitorado e, para agradar a Bruxelas e conservar o financiamento do Estado pelo BCE, manteve aquelas relativamente às quais o PSD nada pode dizer.

Assim se salvou o PS português, mesmo que à custa do país. E se o PS tem agora um futuro luminoso à sua frente, o mesmo não pode dizer Portugal. Preso neste colete de forças de uma elite que nos governa e que salvou a pele, o país fica-se pela mediocridade de que nunca se libertou. Para que tal acontecesse seria preciso que o PSD apresentasse um programa reformador e liberal, o que não se espera. O PS levou a melhor em Portugal, o que não significa que seja o melhor para todos.

Revolução francesa

A grande maioria dos comentadores está pasmada com o que se passa nas presidenciais francesas. Na verdade, entre os quatro candidatos com possibilidades de passarem à segunda volta apenas um, François Fillon, pertence a um dos partidos tradicionais. Dos restantes três, Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen, apesar de estarem na política há muito tempo, pertencem a partidos charneira e propugnam políticas radicais, em grande parte contrárias às seguidas nas últimas décadas. Já quanto a Emmanuel Macron, apesar de estar mais dentro do sistema do que quer fazer crer, Macron tem vários padrinhos políticos fortemente posicionados na estrutura do Estado e no sector empresarial francês, não seguiu os trâmites normais do processo de ascensão política.

No entanto, para um espectador atento, nada disto é uma surpresa. Há alguns anos que a França está a passar por um profundo processo de transformação política. Em 2015 tive oportunidade de escrever precisamente sobre isso para o Diário Económico e, entretanto, muita mais água correu de baixo da ponte. Foi o livro de Éric Zemmour, ‘Le suicide français’, publicado em 2014, um sucesso de vendas e no qual o autor culpa o Estado republicano e laico pelo enfraquecimento do poder político, mas também Alain Finkielkraut, cujo livro ‘L’identité malheureuse’ tem dado que falar. Já dei conta de Finkielkraut aqui no Insurgente, aquando do seu episódio com a Nuit Dedout, quando este filósofo francês apelidou de fascista o movimento de extrema-esquerda. Finkielkraut é tão ou mais crítico que Zemmour, embora procure soluções mais razoáveis. ‘L’identité malheureuse’ aborda de um modo politicamente incorrecto a imigração e a ferida que esta provocou na identidade francesa. O capítulo sobre o laicismo é sublime na forma como defende o ensino público e na crítica ao mau uso que a hipocrisia dele fez.

Há muitos mais autores como Pascal Bruckner e a sua defesa da liberdade individual. Outro, é Michel Onfray. A forma como Onfray foi ostracizado pelas correntes políticas de esquerda é muito importante para se perceber o descalabro da esquerda moderada francesa. Há precisamente um ano, desta vez no Jornal ‘i’, referi-me a este homem que, apesar de esquerda, foi por esta banido porque, como Onfray depois explicou, está dominada pelo ódio. Onfray pôs o dedo na ferida e se dermos um pouco de atenção ao que ele escreve, percebemos Benoît Hamon, Jean-Luc Mélenchon, Arnaud Montebourg e, sim é verdade, Marine Le Pen.

Como a esquerda se pôs à margem deste debate político é de realçar que a transformação política ocorrida se fez à direita. Unicamente à direita. Esta revolução de pensamento ocorreu na direita e faz-se agora notar nas eleições presidenciais de 2017. Como? Com o descalabro do PS francês, com o discurso de Fillon, que só não vencerá devido ao caso dos empregos fictícios e com o surpreendente surgimento de Macron. Este, com um discurso relativamente moderado pode, caso vença e imponha o seu partido nas legislativas, ser o novo De Gaulle francês, que ele tanto admira. A esquerda, com o PS de Mitterrand reduzido a pó, Mélenchon com propostas de um mundo antigo e uma Marine Le Pen (sim outra vez, de esquerda, como referiu Zemmour) representa um risco sério à França e à Europa precisamente por não ter evoluído.

Macron e Fillon até podem não passar à segunda volta. Mas se tal suceder, não é porque não tenham ouvido as críticas feitas à orientação política seguida nos últimos anos. Se ficarem de fora no Domingo é porque vieram demasiado tarde. Se Marine Le Pen e Mélenchon passarem à sua segunda volta, com um programa político e económico preconceituoso e a cheirar a mofo será porque a esquerda não quis fazer parte deste debate. Se colocou à margem e, à margem, ficou parada no tempo. Como Portugal, a França está dividida: de um lado, encontram-se muitos dos que estão protegidos por leis que prejudicam os que ficaram ou querem ficar de fora do feudo; de fora do domínio dominado por um conjunto de políticos que vêem neste sistema uma forma simples de garantir votos, vencer eleições e governar com a legitimidade que dizem ser democrática.

A revolução francesa a que assistimos é prova de que um verdadeiro debate político pode mudar o cenário partidário de um país. Se vem a tempo é o que ficaremos a saber já no Domingo.

Fátima e o comunismo

A minha crónica hoje no ‘i’.

Fátima e o comunismo

Aproximam-se as comemorações do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima. Não sou um grande entusiasta de Fátima, talvez até pela comoção agitada que se associa ao local. Mas o que ali sucedeu em 1917 foi impressionante se tivermos em conta o que, nesse mesmo ano, se passaria na outra ponta do continente.

Porque Fátima está intimamente ligada à Rússia e ao comunismo. Fátima é o anúncio do fim de uma ideologia totalitária no momento em que ela toma forma. A sua mensagem serviu de foco, iluminou o espírito e deu forças a inúmeras pessoas que, querendo ser livres e viver em dignidade, tiveram de lutar contra o comunismo.

Em Portugal, durante o PREC. Ninguém instala uma ditadura comunista num país em que 10 por cento da sua população se reúnem num santuário católico situado bem no seu centro. Em Roma, onde João Paulo ii pegou na mensagem e a usou para inspirar os seus compatriotas polacos na luta contra a tirania.

A mensagem de Fátima não continha qualquer fórmula para combater o comunismo. A sua força advinha da certeza na vitória que era o fim da ditadura e a possibilidade de se poder viver num mundo melhor e mais justo. Cem anos passados, aquela ideologia terminou. Existem ainda resquícios, é certo, mas são pequenos grupos políticos incapazes de reconhecer o erro e os danos daí decorrentes.

Os desafios de hoje são outros. Mas, tal como no passado, sabemos que mantendo a esperança e acreditando nos valores que nos devem reger, a liberdade virá sempre ao de cima.

A último sopro de Mélenchon?

As últimas sondagens revelam uma tendência crescente de Jean-Luc Mélenchon na corrida às presidenciais francesas. Este esquerdista radical, que Benoît Hamon quis que desistisse a seu favor, aproxima-se dos 20% dos votos que, com a ligeira descida de Macron e Le Pen, lhe permite sonhar com a segunda volta.

Depois de bem sucedido nos debates, Mélenchon é ainda uma estrela nas redes sociais batendo Macron, que não tem a seu favor uma organização partidária devidamente organizada. Além disso, tem o eleitorado de Hamon que se pode esvaziar a seu favor. As eleições aproximam-se e ainda tudo pode acontecer.

Marques Mendes é Portugal no seu melhor

A minha crónica de hoje no ‘i’.

Marques Mendes é Portugal no seu melhor

Luís Marques Mendes foi deputado, secretário de Estado, ministro e líder do PSD. É agora conselheiro de Estado e comentador televisivo. E é na televisão que surpreende. Na verdade, se seria de esperar que comentasse notícias transmitidas por jornalistas, assistimos precisamente ao contrário, com Marques Mendes a passar informações que depois os jornalistas investigam.

O último caso tem sido sobre o Novo Banco. Atenção que não considero que Marques Mendes proceda mal. É o seu papel e fá-lo o melhor que pode. O problema é os jornalistas colocarem-se nesta posição e, pior que isso, a forma como o país lida com o fenómeno.

Nos últimos anos tenho ouvido inúmeras críticas aos grandes escritórios de advogados e à sua influência nos grandes negócios do país. Ora, trabalhando Marques Mendes num desses grandes escritórios, e sendo um dos homens mais influentes do país, seria de esperar tudo menos, não quero usar subserviência, mas propensão para se ouvir este ex-político.

Se, ao contrário de um comentador, Marques Mendes usa a informação que detém para obter mais influência, parece-me evidente que, como aliás sucede entre os que mais se zangam, a indignação dos portugueses é falsa. No fundo, a maioria prefere saber o que se passa, mesmo que para isso pactue com aquilo que despreza. A forma como lida com Marques Mendes, à semelhança do que sucedeu com Marcelo, mostra bem que o desnorte que nos mina não se limita às elites.

Uma Europa a duas velocidades

Uma Europa a duas velocidades é importante para a Europa e bom para Portugal. Com o Brexit, e ficando Portugal para trás na integração europeia, permitiria ainda uma aproximação ao nosso aliado tradicional, que é a Inglaterra. O meu artigo no Jornal Económico.

Uma Europa a duas velocidades

Foi no fim do mandato, numa cimeira em Versalhes, que François Hollande decidiu ser presidente da França. No dia 6 deste mês, Hollande recebeu os líderes da Alemanha, Itália e Espanha e disse-lhes que, ou a Europa corre a duas velocidades ou explode. As simple as that. Aquele presidente socialista que, em nome dos fracos, ia fazer frente a Merkel, acabou por afirmar, ao lado da chanceler alemã, o que ela nunca ousou dizer.

E fez bem, há que o reconhecer. Tivesse Hollande sido nos últimos cinco anos o que foi naquela segunda-feira, em Versalhes, e as nossas vidas seriam diferentes para melhor. Como é que um português pode dizer uma coisa destas? Como é que um português pode aceitar uma Europa a duas velocidades sabendo que, à partida, Portugal não estará no pelotão da frente? A resposta é simples e passa por uma pergunta.

 Preferimos uma Europa a duas velocidades, em que os países mais fortes se unam e se protejam, ou uma Europa desunida e em conflito permanente? Quem olhe para a História do nosso continente não terá dúvidas que a primeira opção é a preferível. E quem dê atenção ao que está a acontecer nos últimos anos na Europa reconhece que a união forçada dos diferentes países é uma das causas para a tensão permanente e para o conflito entre as nações europeias.

Em destaque está o euro. A união monetária, quando foi pensada, devia incluir os países europeus em condições de suportar uma moeda forte. Foi por isso que se estabeleceram limites ao endividamento público e aos défices orçamentais. Por muito que nos custe admitir, sabemos hoje que Portugal não devia ter aderido à moeda única europeia. Na altura, a classe política apresentou a adesão como um feito, mas é essa mesma classe política que hoje, porque o euro lhe tira margem para governar sem escrutínio, que em surdina o lamenta, culpando-se não a si por ter falhado, mas à Alemanha por ter sido exigente.

Sabemos que tanto a imigração como as questões da defesa e da segurança se resolvem, num mundo globalizado, com união e acordos entre os países. Ora, tal só é possível se as ainda potências europeias tiverem margem para o fazer. O que só terão se os países periféricos, e dependentes da solidariedade dos europeus, os deixarem deixando-se de lamentar e de travar qualquer passo mais que outros entendam como crucial.

Fala-se em reformar a UE e, em Portugal, ouvimos dizer que é preciso corrigir erros. Ora, um dos erros foi o excessivo alargamento do projecto europeu porque era politicamente incorrecto uma Europa a duas velocidades. Já não é. Já não pode ser. A Europa precisa de um rumo para enfrentar a Rússia, a Turquia, a China e o mundo árabe. Para tal, França e Alemanha, e outros, devem entender-se. Para nosso bem.

Sobre a cegueira

Fechamos os olhos e perdemos. O meu artigo no ‘i’.

Gostamos de nos enganar

Numa entrevista a um jornal alemão, o presidente do Eurogrupo, o socialista Jeroen Dijsselbloem disse: “Tornamo-nos previsíveis quando nos comportamos de forma consequente e o pacto no seio da zona euro baseia-se na confiança.

Na crise do euro, os países do norte mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância. Porém, quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu”.

Em Portugal foi a indignação geral porque, bem aproveitadas, as palavras de Dijsselbloem são um pretexto para o descredibilizar. Não demitir, pois a derrota do Partido do Trabalho a que pertence o afastará do futuro governo holandês e, por consequência, do Eurogrupo. Descredibilizar Dijsselbloem é, pois, ridicularizar qualquer outro que exija responsabilidade fiscal.

Portugal está no euro, mas sem assumir responsabilidades. É triste reconhecê-lo, mas é assim e a nossa classe política, desejosa para livremente comprar votos com o nosso dinheiro, não dá o exemplo. Sejamos sinceros por um momento: foi por mero egoísmo que o país falhou o desafio do euro. Quis viver melhor, mas sem o esforço que essa melhoria implicava. O falhanço foi nosso. Podemos bater à vontade em Dijsselbloem, que até estudou numa escola católica, mas o maior cego não deixa de ser aquele que não quer ver.

As autárquicas não são um plebiscito

O meu artigo no ‘i’. Relativamente às escolhas do PSD para as autárquicas discordo do que o meu amigo Alexandre Homem Cristo escreveu segunda-feira no Observador. O governo quer que as autárquicas substituam as legislativas, legitimando-o e forçando a demissão de Passos Coelho, que venceu as eleições.

O PSD não pode ser usado neste esquema. Nas autárquicas elegem-se autarcas. Os governos são votados nas legislativas.

As autárquicas não são um plebiscito

O mundo político anda numa polvorosa porque o PSD escolheu uma desconhecida do aparelho partidário, Teresa Leal Coelho, como candidata à câmara de Lisboa. De acordo com os analistas esta escolha, a que se junta a do Porto, ditará o fim da carreira política de Passos Coelho.

As eleições autárquicas estão a ser apresentadas como um plebicisto ao governo da Geringonça que não foi sufragado nas legislativas. É verdade que o governo tem sustentação parlamentar, mas também não deixa de ser verdadeiro que tal não foi o proposto aos portugueses quando estes votaram. A esquerda sabe que defraudou a vontade do eleitorado e, com essa ferida que não confessa mas que mói, vê nas autárquicas a oportunidade para legitimar este governo.

A governação da Geringonça teve esta linha de rumo. Sucede que as autárquicas não são um plebiscito e, apesar dos tiques da Geringonça, ainda não vivemos numa democracia populista. Todo o cenário político, desde a política governamental à discrepação presidencial, passando pela forma como Medina – o presidente não eleito de Lisboa – geriu a cidade, está ser preparado para uma vitória que limpe as legislativas.

É por este motivo que não embarco nas críticas a Passos Coelho. O PSD não pode ser usado neste jogo próprio de uma democracia populista. Os governos devem sair das legislativas, como o presidente das presidenciais e os autarcas das autárquicas. É tendo em conta este cenário que é perfeitamente legítimo que o PSD reduza as eleições de Setembro àquilo que são.

A Europa acordou?

A minha crónica no i sobre o politicamente correcto na Europa e a reacção holandesa à intrusão astuta da Turquia. Parece que ainda não é demasiado tarde.

A Europa acordou?

A Holanda proibiu o ministro dos Negócios Estrangeiros turco de fazer campanha a favor do sim no referendo sobre um regime presidencialista na Turquia. A cidade alemã de Gaggenau fez o mesmo ao ministro da Justiça turco, e o ministro do Interior alemão afirmou, entretanto, que uma campanha eleitoral turca não tem de ser feita na Alemanha.

É caso para dizer que, finalmente, os países europeus acordaram. Quando membros de um governo estrangeiro fazem campanha eleitoral no nosso país estamos perante uma extensão inaceitável desse país dentro do nosso. É uma violação das regras mais elementares da soberania e ainda bem que Holanda e Alemanha foram firmes neste ponto.

Nada disto tem que ver com refugiados ou com a imigração. Sou favorável à imigração, com a qual ganham todos: imigrantes, países de origem e países receptores. Nestes últimos, o enriquecimento que as novas pessoas trazem consigo, com outra forma de encarar os problemas e de os resolver, a que se soma a vontade férrea para trabalhar, é uma mais-valia indesmentível.

No entanto, além de imigração pressupor integração, não é disto que se trata aqui. Da mesma forma que não imaginamos o presidente dos EUA a fazer um périplo pela Europa apelando ao voto nas eleições norte-americanas, ou o presidente francês a proceder da mesma forma na Alemanha ou no Reino Unido, não se compreende por que motivo deveriam os países europeus agir diferentemente para com a Turquia. À hora em que estas linhas são lidas saberemos se não foi demasiado tarde.

A novidade Macron

Sem querer estar a fazer o elogio de Emmanuel Macron, que se pode revelar mais um fiasco à francesa, é preciso que se entenda como é que este homem, que foi secretário-geral adjunto de Hollande, ministro da economia de Valls, conseguiu destronar um presidente, afastar um primeiro-ministro e estar tão perto de se tornar o próximo presidente da França. O meu artigo de hoje no Jornal Económico.

A novidade Macron

Em Novembro, neste espaço, tive oportunidade de referir a importância da candidatura de Emmanuel Macron à presidência da França, mencionando que uma boa prestação deste candidato seria crucial para todos. Macron apresentou há dias as suas políticas com um corte na despesa pública de 60 mil milhões de euros, acompanhado de um investimento público próximo dos 50 mil milhões. O que tira de um lado, põe do outro.

A grande alteração que Macron preconiza, e quem leia o seu livro “Révolution” facilmente o compreende, é uma outra forma de colocar os problemas e, inevitavelmente, de os resolver. O líder do movimento En Marche quer melhores políticas sociais, melhor educação pública e apoio aos desempregados. Sucede que estas medidas que o colocam à esquerda prevê Macron levá-las à prática com mais descentralização, dando maior autonomia aos municípios e às escolas, e permitindo que a legislação laboral se cinja aos direitos essenciais, passando as empresas a regular as relações contratuais com os seus empregados.

Para Macron a divisão já não se faz entre trabalhadores e patrões, mas entre um país que quer avançar e outro que estagnou. Para superar o impasse propõe não regulamentar ou controlar, mas permitir que as pessoas possam encontrar as soluções apropriadas ao seu caso concreto e não serem punidas por isso. Esta é a mudança que Macron preconiza e qualquer semelhança com a esquerda portuguesa é ilusória. Com a sua nova perspectiva laboral, Macron quer um Estado que não privilegie os funcionários públicos e os que trabalham nas grandes empresas em detrimento dos que estão nas médias e pequenas empresas, cuja realidade é, a maioria das vezes, desconhecida por quem está na política.

É percebendo o que Macron quer para a França que compreendemos como é que ele vai enfrentar Marine Le Pen na segunda volta. Ao contrário dos outros candidatos, Macron não  diaboliza quem vota na Frente Nacional (FN). Para ele, o eleitorado da FN são os franceses esquecidos pela elite política. Agricultores, empregados de fábricas e de escritórios, de pequenas e médias empresas, pessoas que costumam votar à esquerda ou à direita, mas que desistiram de esperar por quem não tem soluções para os seus problemas e se vêem empurradas, mais pela emoção que pela razão, para o colo da extrema-direita.

Liberal quando dá espaço a que os franceses resolvam os seus problemas, de esquerda quando mantém as políticas sociais, Macron mostra um novo discurso a esse eleitorado desiludido. Mas há riscos. Um vem da sua inexperiência, o que o torna uma incógnita. Outro quando, em Maio, Hamon e Mélenchon decidirem quem apoiam na segunda volta. É que tanto um como o outro estão mais próximos de Le Pen que de Macron.

Sinais de perigo

Porque os sinais de perigo são cada vez em maior número. O meu artigo no ‘i’.

Sinais de perigo

Quando o país discutia o triângulo das Bermudas que é a CGD, a esquerda inventou uma polémica sobre algo já conhecido há meses e desviou as atenções para as offshores. Se o neoliberalismo é chavão dos que fogem para denegrir quem debate, os paraísos fiscais são o novo filão para, com ignorância e demagogia, mudar de assunto.

Sobre as offshores, a esquerda não explica por que razão é que a CGD tem uma sucursal nas ilhas Caimão (https://www.cgd.pt/English/Contacts/International-Network/Pages/Cayman-Islands.aspx); que, se sai dinheiro para offshores, também entra dinheiro vindo de offshores; e que estas são importantes nos negócios internacionais, o que talvez leve a que o banco público, que a esquerda – e boa parte da direita – tanto preza, tenha a dita sucursal num paraíso fiscal.

A informação é poder. E estar informado é estar protegido. Protegidos contra a má-fé, a mentira, a demagogia e o populismo. Não esqueçamos que foi aproveitando-se da falta de conhecimento sobre as questões mais importantes que ideologias totalitárias, como o nazismo e o comunismo, imperaram. Fomentando o ódio que nasce da ignorância.

A demagogia dos partidos extremistas portugueses, de que este PS – que ainda não tirou as ilações da sua derrota eleitoral – se aproveita, é preocupante. E quando as offshores cumpriram o seu papel de desviar as atenções, eis que surge o ataque ao Conselho de Finanças Públicas por não subscrever a narrativa dominante. No meio de tantos perigos, estar alerta tornou-se um dever.

Um Carnaval português

O Carnaval acabou, mas a festa continua. O meu artigo no ‘i’.

Um Carnaval português

Findo o Carnaval, há quem não largue a máscara que usa o ano inteiro. Durante 12 meses, o Presidente da República faz de comentador. Na televisão, enquanto lhe engraxam os sapatos ou à porta de um café. Até à saída da praia. Qualquer lugar serve para que o Presidente do nosso Estado se esqueça do papel que o mandato que exerce o obriga a desempenhar.

Se para ganhar popularidade ou por mera fatuidade e insensatez, não sabemos. Até porque são tantos os mascarados que nos baralhamos. António Costa, por exemplo, que escolheu ser primeiro-ministro – é o primeiro a consegui-lo depois de perder as eleições -, tem um ministro das Finanças que disfarça défices.

Centeno terá conseguido um défice de 2,1% do PIB em 2016. Para tal atirou para 2017 o dinheiro que vamos dar à CGD; comprimiu o investimento público à custa dos hospitais e das escolas, com algumas a fechar por falta de manutenção. O investimento público está abaixo do prometido pelo governo, ao mesmo tempo que a despesa com pessoal, digo eleitores, cresceu. Entretanto, o grande aumento de impostos não foi revertido.

Normalmente diríamos que o défice conseguido em 2016, o mais baixo da democracia, é uma mentira. Mas como não estamos numa legislatura normal, concluímos ser um ininterrupto Carnaval. Com o PCP e o BE a fazerem-se de amigos do povo temos, qual cereja em cima deste Entrudo, Francisco Louçã vestido de capitalista com um lugar no órgão consultivo do Banco de Portugal. O sambódromo do Rio de Janeiro, ao pé disto, é uma brincadeira.

Portugal: offshore mas só para alguns

Escrevi no ‘i’ sobre offshores em Abril do ano passado e volto novamente ao assunto agora que, uma vez mais, andamos todos indignados e esquecemo-nos que Portugal é uma verdadeira offshore para estrangeiros que venham viver para cá e até para portugueses que, uma vez tenham estado os últimos 5 anos a residir fiscalmente no estrangeiro, podem voltar e pagar muito menos impostos que os seus compatriotas.

Como é que se aceita que portugueses sejam tratados de forma diferenciada pelo fisco? Que Portugal é este que discrimina cidadãos? Onde é que estão o PCP e o BE que tanto criticaram o regime do residente não habitual para agora se esquecerem do assunto?

É impressionante como os paraísos fiscais servem para desviar atenções enganando quem não se importa de ser enganado.

O retorno de Deus

Será que a Europa vai reagir ao islamismo retornando a Deus? O meu artigo no ‘i’.

O retorno de Deus

“Le retour du religieux (…) je le savais pour ma part inéluctable dès l’âge de quinze ans.” “Soumission”, Michel Houellebecq, p. 267.

Esta frase é proferida pelo director da Universidade de Sorbonne, um belga convertido ao islamismo numa França, em 2022, com um presidente muçulmano. Em “Soumission”, Michel Houellebecq retrata a escolha que uma França adormecida se vê forçada a fazer entre uma Frente Nacional radicalizada e um partido islâmico moderado.

Como todas as histórias futuristas, esta parece fantasticamente implausível para ser possível. Mas, se Houellebecq não quis descrever avanços tecnológicos que não antevê – a forma de comunicar é hoje mais evoluída que a do livro –, acerta num ponto que deixa qualquer um de sobreaviso: os partidos tradicionais estão em crise e, na vida real, já em 2017, podem não ir à segunda volta das presidenciais.

Quem nos conta o que se passa é François, um académico estudioso de Joris-Karl Huysmans, escritor francês do século XIX, expoente maior do decadentismo e que se converteu ao catolicismo. François é um francês deste século, sem ligações nem ao país nem a ninguém, que se interroga perante a submissão inevitável que os homens terão de aceitar para se elevarem acima do que são.

“Soumission” não é apenas o adivinhar da falência política de um regime, mas a indicação de um caminho: a crença em algo mais forte que nós para que sejamos mais que uma decadência adormecida. Assim, ou Houellebecq, que disse já não ser ateu, se engana, ou a reação europeia será religiosa.

A geringonça e o fim da Europa

Passos conta com o risco financeiro para tramar Costa, mas Costa conta com o risco europeu para tramar Passos (e Marcelo). Quem é que vai ganhar? O meu artigo no Jornal Económico.

A geringonça e o fim da Europa

É cada vez mais evidente que o Governo não tem agenda: satisfeitos os interesses que a sustentam, pouco mais há a fazer que não seja esperar. Passos Coelho viu aqui uma oportunidade quando afirma que 2017 é o ano dos riscos financeiros. E se o líder do PSD vê confirmadas a suas projecções nos juros da dívida portuguesa que atingem valores preocupantes, tem também razão num ponto: os cidadãos que pagam os interesses protegidos pela geringonça não aguentam muito mais. O país perdeu a capacidade de se financiar lá fora conseguida no período da troika. Mas há um senão; um problema com que Passos parece não contar, mas que Costa espera seja a sua salvação.

E esse problema, que para Costa é um trunfo, é a desintegração da UE. Todos o sabemos, e Costa melhor que nós, que o calendário eleitoral europeu favorece o actual Governo: eleições na Holanda em Março, em França em Abril/Maio, ambas com a extrema-direita à frente nas sondagens, e na Alemanha, em Setembro, com o risco de a extrema-direita impor uma derrota a Merkel.

Para que a Europa sobreviva é preciso que Macron vença em França e Merkel ganhe na Alemanha. Se um deles falhar, a UE corre o sério risco de desaparecer. É isto: o projecto europeu está por um fio e depende de duas pessoas, uma das quais, apesar de pejados de méritos, é um desconhecido com pouca prática política.

O politicamente correcto, que impediu o debate político sério, amordaçou a Europa a soluções não questionadas e que agora, sem discussão séria, de forma dolorosa, são postas em causa por populistas de esquerda e de direita. Não houve seriedade nas questões religiosas, na imigração, no emprego, na protecção social concedida a quem não merecia e nada fez pela comunidade, nas políticas laborais, apesar do trabalho ter mudado radicalmente nos últimos 15 anos. Proibindo-se a discussão com medo de se afrontar, de se ofender, quem quer que fosse, criou-se uma panela de pressão que pode rebentar este ano.

E se Passos espera que os ventos soprem a seu favor, Costa, o BE e o PCP vêem no sucesso eleitoral do extremismo a sua tábua de salvação. O fim do euro, que acontecerá caso Marine Le Pen vença em França, o regresso tão desejado do escudo, que trará inflação, reduzirá salários, aumentará a pobreza, trará aflição para muitos. Mas servirá também de pretexto. As causas facilmente se apontarão ao estrangeiro. Seremos pobres, estaremos aflitos, não em virtude do Governo da geringonça mas por responsabilidade da Europa que se auto-liquidou. É desta forma que Tsipras sobreviverá na Grécia, Costa em Portugal e Rajoy pode cair em Espanha. O caos será amigo de um populismo de tal forma demagógico que o que vimos até agora é uma brincadeira de crianças.

O regresso às origens nos EUA

Com Trump, vamos dar graças à democracia que passa pela separação dos poderes. Com Trump, ainda bem que há Congresso e tribunais. O meu artigo no ‘i’.

O regresso às origens nos EUA

Com Trump na presidência, são muitos os que esperam que o congresso e os tribunais equilibrem a influência do presidente norte-americano. E esperam bem, porque Trump defende políticas desastrosas, como o proteccionismo, que boa parte da esquerda entre nós também advoga.

Infelizmente, não tem sido sempre assim. Nos últimos anos, os presidentes têm sido vistos como seres iluminados que deviam vencer a cegueira dos congressistas para que os EUA evoluíssem. Com Obama, esta tendência chegou mesmo a assumir contornos graves, com o presidente a ser encarado como um novo Messias libertador contra os poderes instalados em Washington. Um pouco como Trump, mas com mais souplesse.

A centralização do poder na pessoa do presidente foi um processo longo, com Andrew Jackson, Lincoln, Teddy Roosevelt, Wilson e FDR a darem o mote. E se antes eram poucos os que, na senda de George Washington, não repetiam o mandato, no pós-guerra só se ficaram por quatro anos os que ou morreram ou foram desastrosos.

Com Trump podemos assistir ao reconhecimento, por parte da população, de como a separação de poderes é importante; que um Congresso forte que reprime decisões não é uma falha da democracia, mas a sua força; e que os tribunais devem exercer devidamente as suas funções. Quem sabe não assistimos a um regresso às origens do sistema norte-americano. Recordar como é importante desconfiar do homem providencial, e restringir, na medida do possível, os poderes do presidente, pode vir a ser o legado de Trump.

O homem que não tinha ideais

Sim. Gente Independente, de Halldór Laxness. Outra vez.
Porque para se ser independente é também preciso não ter ideais. O meu artigo no ‘i’.

O homem que não tinha ideais

Volto esta semana ao livro “Gente Independente”, de Halldór Laxness (Cavalo de Ferro). Tudo nele se centra no desejo de Bjartur das Casas de Verão ser independente. A semana passada referi a importância de não ter dívidas, o que se consegue com obstinação e resiliência.

E como não é fácil ser-se independente, o processo também não é simples. Para não se ter dívidas e se ser independente, é preciso também não ter ideais. Sendo o ideal a reunião de todas as perfeições, o que é impossível, um homem independente não tem ideais. Quem procura a independência visa apenas vencer-se a si mesmo e não os demais; nem sequer pretende controlar ou mudar a natureza, que qualquer pessoa sensata ama por ser implacável como é.

Quem tem ideais não se foca em si, mas no outro. Quer mudar não ele próprio, mas o outro. O mundo, a sociedade, o que seja. É egocêntrico e arrogante. E, naturalmente, não aceita a independência.

Neste livro, todos opinam sobre a vida de Bjartur, que não propõe nada a ninguém. É com a melhor das intenções que o querem ajudar para depois o aprisionar. Para isso, a melhor arma é o ficar a dever. Dinheiro ou favores. Algo. E quando, depois da falsa prosperidade que invade a Islândia no decorrer da guerra 1914-18, a dívida destrói o que nos ombros desta foi construído, é à porta dos independentes que vão bater. A apropriação do que é dos outros torna-se lei. As massas que usufruíram das liberdades libertam-se então para destruir a independência de quem não se deslumbra com ideais.