A nova esquerda

Tanto Catarina Martins como Marine Le Pen querem referendar a Europa. Na verdade, tanto uma como outra são contra a União Europeia. Ao sê-lo, as duas pretendem que se fechem as fronteiras, porque, apesar de não o dizer expressamente, é esse o resultado do discurso do BE contra os negócios e os lucros. É certo que Marine Le Pen é nacionalista e xenófoba e, nesse campo, Catarina Martins se mostra mais generosa. Mas isso é porque em Portugal a imigração não indigna ninguém, não é um mercado eleitoral a explorar, já que são poucos os que querem vir para cá trabalhar.

Uma boa peça jornalística seria apurar quantas vezes os pontos de vista (não me refiro às votações) do BE e da FN se encontraram no Parlamento Europeu.

Como é que se reforma a União sem o Reino Unido?

Eu percebo as críticas feitas à União Europeia: que é demasiado centralizadora, que é burocrática e excessivamente regulamentadora; que não é democrática, que usa e abusa da intimidação para levar a água o seu moinho. Eu também alinho nestas críticas e gostava que a União fosse mais um mercado livre e menos uma entidade política.

O problema é que não vejo como se liberaliza a União Europeia sem o Reino Unido. Se a União não mudou para manter o Reino Unido, porque o fará agora?

A Europa pode vir a ser reformada, embora não creia que no sentido pretendido pelos Britânicos. A partir de agora, ou se centraliza ainda mais (com a Alemanha a estabelecer as regras) ou se dá mais espaço aos governos despesistas e será mais difícil manter uma moeda forte como o euro.

O Brexit e os jovens

Em Abril escrevi no ‘i’ que o referendo no Reino Unido revelava uma divisão geracional. Chamei ao artigo ‘egoísmo geracional’. Infelizmente, os jovens já não são suficientes para fazer a história.

Egoísmo geracional

As sondagens sobre o Brexit estão a causar surpresa, não tanto pelo resultado final em si, mas pelo que revelam. E o que mostram é que, se a maioria dos jovens entre os 18 e os 29 anos é favorável à continuação na União Europeia (UE), a maioria dos cidadãos com mais de 60 anos votará pela saída.

O Reino Unido (RU) anda a discutir o porquê desta divisão. E as razões vão desde a natural tendência para os mais velhos desconfiarem do que vem de fora e se tornarem nostálgicos do passado, preferindo um regresso ao país que conheceram outrora, até ao egoísmo dos que já viveram os benefícios da UE e agora nada têm a perder com a saída.
Abi Wilkinson é uma jovem colunista do “Telegraph” e sobre este assunto escreveu que ela e a sua geração já têm demasiadas dificuldades em encontrar trabalho para verem o cenário piorar ainda mais. Estes jovens não querem sofrer as consequências de uma decisão determinada meramente pelos receios vindos dos que já tiveram o proveito mas que, agora que saem do mundo do trabalho, já não querem saber.

Este assunto é muito importante porque revela, além de um egoísmo geracional latente, uma outra realidade: muitos dos mais idosos que querem o RU fora da UE com certeza que estão dispostos a ajudar os seus filhos e netos. Uma discrepância considerável que nos diz que, por muito que vejamos um país como um todo, a solidariedade, a reciprocidade existe mais entre os que são próximos. “There is no such thing as society”, já dizia aquela grande senhora.

Brexit e o extremismo

O Brexit não é apenas a desculpa que Costa precisava para explicar o fracasso da sua governação. O PS já não é europeísta e o Brexit é uma excelente oportunidade para, com o Podemos e também com a Frente Nacional (todos os aliados contam), mudar a Europa.

O Brexit e a Alemanha

O único Estado que servia de contrapeso à Alemanha saiu da União Europeia. Não deixa de ser irónico que o abanão que a União precisava atire a Europa para o colo da Alemanha. A começar pelo centro financeiro que pode passar de Londres para Frankfurt.

Brexit e os países nórdicos

Há muita gente à esquerda que está satisfeita com o Brexit. A Europa precisava de um abanão e vai tê-lo. Sem dúvida. Só que este abanão não nos vai trazer mais dinheiro. Muito pelo contrário. É que os países nórdicos podem também querer sair, e aí é que vai ser o ai Jesus.

Brexit e Bruxelas

O Reino Unido não votou contra austeridade na Europa. Costa e restante esquerda podem tirar os cavalinhos da chuva no que a isso diz respeito. Os Britânicos votaram maioritariamente contra o excesso de regulamentação vinda de Bruxelas (que a esquerda lusitana considera não ser suficiente) e contra a imigração (um assunto que não aquece nem arrefece Portugal).

O Brexit e a desilusão da esquerda

O meu comentário sobre o Brexit no Diário Económico.

Na sua larga maioria a esquerda em Portugal anseia pelo ‘Brexit’ para que a Europa se reforme. No entanto, a acontecer, o ‘Brexit’ será por razões totalmente opostas às defendidas pela esquerda. O ‘Brexit’ tem dois tipos de apoiantes: os que são a favor do mercado livre, criticam a burocracia de Bruxelas e querem menos regulamentação laboral e os que são contra a imigração.

Ora, a esquerda portuguesa tem sido contra a desregulamentação laboral que Bruxelas impôs nos últimos 5 anos e é a favor, ainda, da imigração, até porque são poucos os que imigram para Portugal, não sendo essa questão um mercado eleitoral interessante para a esquerda. Desta forma, e qualquer que seja o resultado, a esquerda vai ter uma desilusão amanhã. A próxima etapa será a Espanha.

A esperança de Costa e a espera de Marcelo

Escrevi no mês passado sobre os riscos que o Brexit e as eleições em Espanha comportam para a União Europeia. Uma coisa me parece certa: Costa e os que apoiam o seu governo devem estar a esfregar as mãos de contentamento à espera de um desastre europeu. Por outro lado, enquanto Costa conta com o fracasso da Europa, Marcelo aguarda pelo fracasso de Costa. Objectivo: ser o nosso de Gaulle. Um de Gaulle à portuguesa, porque sem programa, pelo menos que o país tenha sufragado. O equilíbrio do nosso sistema semi-presidencial em que o poder do primeiro-ministro predomina sobre o do presidente, e que foi conseguido por Sá Carneiro, pode estar a chegar ao fim, com Marcelo a exercer o poder à semelhança do que se faz em França. Entretanto, no meio de tanta incerteza os resultados podem ser contrários às expectativas criadas. É nestas alturas que ficar quieto e respirar fundo parece ser a melhor atitude das pessoas razoáveis.

O ‘Brexit’ e a Europa

Paris já disse que se o Reino Unido sair da UE acaba-se o acesso ao mercado comum. Como é que um país doente como a França se vai aguentar na Europa sem o Reino Unido? A minha crónica hoje no Diário Económico.

O ‘Brexit’ e a Europa

O Reino Unido vota amanhã a sua permanência na União Europeia. O governo britânico alertou várias vezes para os prejuízos económicos caso a opção seja sair. As instituições europeias, e até Obama, repetiram-no vezes sem conta: as grandes empresas sairão de Londres, o investimento estrangeiro cairá e o Reino Unido levará anos para recuperar o que pode perder numa noite. Nas últimas semanas o aviso tornou-se ameaça e o efeito pode ser contrário ao pretendido. Afinal, estamos a falar dos britânicos que não gostam de ser ameaçados. Mas e a Europa?

A Europa pode perder muito mais do que o Reino Unido. É a história que nos diz. Nos mostra quando olhamos para o passado e deparamos com o caótico autoritarismo que grassou pela Europa fora quando a Inglaterra ou, num sentido mais alargado, o Reino Unido se afastou do Velho Continente, deixando-o à deriva com uma das suas maiores nações doente.

Como já referi numa outra crónica para este jornal a 25 de Maio último, as ondas de choque provadas pelo ‘Brexit’, com a ajuda de um bom resultado da coligação Unidos Podemos, já este domingo em Espanha, darão força aos governos dos países com contas públicas mais deficitárias nas suas negociações com Bruxelas. Qualquer cedência nessa matéria enfraquecerá o euro que é o maior sustentáculo da União. Pior que isso: dará força aos governos despesistas, facilitando a vida à classe política que favorece interesses à custa dos cidadãos.

E assim chegamos ao grande doente europeu que é a França. Uma França que perdeu o norte e que, sem o Reino Unido na Europa, ficaria entregue a si mesma, aos seus fantasmas e terrores. Os franceses sabem-no, estão confusos e no meio de um debate intelectual e político que esperam lhes mostre uma luz ao fundo do túnel.

Apesar do actual presidente ser socialista, e da Frente Nacional ser uma ameaça ao equilíbrio político da actual República, os últimos anos têm sido marcados por uma forte actividade intelectual por parte de autores que situam entre a direita francesa. Não me refiro apenas ao livro Le Suicide français, de Éric Zemmour, saído em Outubro de 2014 e que tem mais de 300 mil exemplares vendidos, mas também às intervenções de Alain Finkielkraut. Os dois são fortes críticos do Maio de 68 e da forma como esse movimento debilitou o Estado francês. Mas o mais importante é que estes autores estão a influenciar uma nova geração de intelectuais, nascidos depois de 1968, sob os efeitos desse movimento que o pretendem contrariar.

A França tem sido vista como um país irreformável, título que podia ostentar com orgulho quando de Bruxelas, ao invés de obrigações, fluía dinheiro para os países periféricos, o que se compensava através de um cuidado especial com Paris. Nesta segunda década do século, a unanimidade já era e os efeitos na paragem no tempo sentem-se nas cidades francesas. A França já não faz par com a Alemanha na Europa e uma saída do Reino Unido desequilibraria ainda mais essa discrepância.

Infelizmente o debate francês que referi em cima pode ter vindo tarde demais. Com as dificuldades financeiras, a crise dos refugiados, que os atentados islâmicos não ajudam, os tempos serão de radicalização. O êxito de Zemmour vem de ser mais mediático e legível que Finkielkraut, mas também de alertar para a decadência do Estado e a transformação da Frente Nacional num partido de esquerda que vai convencer o eleitor funcionário público que vota no partido socialista.

A tendência será, infelizmente, para uma valorização do papel do Estado com os entraves que tal política implicou no passado. Sem o Reino Unido, com a França estatizada e enfraquecida perante uma Alemanha unida à volta da sua força comercial, que foi um dos pilares para a sua unificação no século XIX, não estou a ver outra forma de a União Europeia sobreviver que não seja através de uma reforma das suas instituições. Em que sentido, é muito difícil, senão impossível, dizê-lo.

Tal como há semanas era difícil prever o ‘Brexit’, hoje é arriscado avançar com as suas consequências. Uma certeza a história nos mostra: a Europa pode perder mais que o Reino Unido.

Ainda sobre o fascismo e a extrema-esquerda

(ou como um partido de extrema-direita se torna de esquerda). Éric Zemmour, em 2013.

Impunidade

Sobre a sua sugestão, no twitter, de se despedir uma jornalista porque discorda do trabalho desta, a deputada do PS, Gabriela Canavilhas, responde que a sua comunicação foi “descontraída” e “um desabafo”. É assim, sem mais. Dentro do mesmo raciocínio, a censura à imprensa no Estado Novo era apenas uma forma “descontraída” de Salazar exercer o poder. Já não há limites para a vergonha?

No Fio da Navalha

O meu artigo ontem no ‘i’.

A importância de estar quieto

Os feriados foram um pretexto para parar. Eu fi-lo e, quando o faço, desligo total e completamente. Não há telemóvel nem computador. Descansar não é não fazer nada, mas será, com certeza, viver devagar. Num destes dias de descanso, acabei por ver a segunda parte dum jogo de futebol do campeonato da Europa. A enorme sala do hotel onde estive, mantida com a decoração dos anos 20 e 30 do século passado, estava vazia. Ao meu lado apenas um outro hóspede sentado defronte do televisor e de olhos postos no telemóvel.

Não sei o que fazia, mas o aparelho não parava e apenas permitia ao seu dono olhar para o jogo quando, pelo relato, percebia que algo tinha acontecido. Com sorte, via a repetição. Já todos presenciámos comportamentos semelhantes. A incapacidade de algumas pessoas se concentrarem mais de cinco minutos no quer que seja é atroz. Já nem mesmo um jogo de futebol na televisão as domina.

Não é novidade nenhuma que se vive demasiado depressa. O que quero saber é como vão sair desta armadilha as pessoas que nela caíram. As livrarias estão pejadas de livros de autoajuda para aumentar a atenção e melhorar a qualidade de vida. Quando o hotel onde estive foi feito, a vida era vivida mais lentamente porque não existiam as tecnologias de hoje. Estas são indispensáveis e, antes, as dificuldades eram muitas. Mas com a necessidade que temos de priorizar o que é importante, pergunto-me se um dia destes a maioria não olhará para trás para aprender a viver doutra forma as facilidades do presente.

A verdade costuma vir ao de cima

Em Janeiro escrevi uma crónica no ‘i’ sobre o desaparecimento de 5 proprietários de uma livraria/editora em Hong Kong. Um deles regressou esta semana a casa e contou como foi.

E agora, Catarina Martins?

“A banca é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos de banqueiros privados.” – Catarina Martins não se referia à Caixa Geral de Depósitos.

CGD, Brexit e sanções a Portugal no Económico TV

A Caixa Geral de Depósitos precisa de 4 mil milhões de euros, para se manter; Portugal pode ser punido por défice excessivo e o Brexit terá consequências gravissímas para o nosso país. Enquanto isso, Marcelo e Costa riem e tiram selfies em Paris. É verdade que o povo gosta de ser entretido (Salazar percebeu isso muito bem), mas há limites. Os meus comentários hoje às 12 horas no Económico TV.

Desbloquear a direita

Em vez de servir os cidadãos, o Estado explora-os. Ora, não foi para isso que se limitou o poder político com a liberdade dos indivíduos e a democracia. O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Desbloquear a direita

O argumento que o Governo usou para alterar as regras de matrículas nos colégios com contratos de associação com o Estado é contabilístico. Dito de outra maneira, vai ao encontro de uma das maiores preocupações da direita em Portugal: baixar a despesa pública. A jogada é brilhantemente cínica porque, ao mesmo tempo que impõe uma visão ideológica do que deve ser, no seu ponto de vista, a educação, a esquerda mais extremada justifica-se com um argumento da direita.

Façamos um ponto prévio: é indispensável que os orçamentos de Estado sejam excedentários. Mais: é imprescindível que tal se obtenha com uma redução da despesa pública para que se baixem os impostos. Estes objectivos têm de ser obtidos, não só para que haja confiança, previsibilidade na política fiscal, se invista e se criem postos de trabalho, mas também porque um Estado que exige à população elevadas contribuições para satisfação de interesses que sustentam o poder político, põe em causa a sua legitimidade política. Em vez de servir os cidadãos, o Estado explora-os. Ora, não foi para isso que se limitou o poder político com a liberdade dos indivíduos e a democracia.

Mas a direita não se pode reduzir a um discurso meramente contabilístico. Melhor: a direita só explica a redução da despesa pública com um projecto verdadeiramente libertador e que passa por reformas não superficiais do que devem ser as funções essenciais do Estado; de como deve ser organizado o Estado. De modo a que a não se limite a ser um mero cobrador das promessas da esquerda, a direita deve apresentar um discurso político muito claro em áreas muito concretas: na questão dos estivadores e do Porto de Lisboa; na saúde; na segurança social; na área laboral; na descentralização fiscal, com os municípios a assumirem a cobrança das receitas municipais e fazerem depender daí as suas despesas. E também na educação.

Porque a questão essencial nos contratos de associação com os colégios não é contabilística, mas ideológica. Se o que está em causa para a esquerda é o controlo da educação, para a direita é a liberdade de escolha. A liberdade dos pais escolherem a escola dos seus filhos independentemente de serem ricos ou pobres. Terem mais ou menos dinheiro. A liberdade é algo de que esta esquerda que governa o país tem a boca cheia mas de que tem medo quando se concretiza. Não é novidade nenhuma. Vimos como foi nos regimes comunistas; sabemos como é na Venezuela e em Cuba. Mas em Portugal não pode ser assim. Temos de ser mais exigentes. E é por isso que a direita tem de estar à altura dessa maior exigência.

A direita não deve punir as pessoas com os erros de governação da esquerda. O Estado está à beira da bancarrota? Muito bem. É preciso equilibrar as contas; mas baixar a despesa, não só cortando salários (o que numa situação dramática é necessário) mas com uma governação que reduza despesa, porque ao restituir a liberdade aos cidadãos, reduz os encargos do Estado. Como também do lado da receita, não taxando o capital e a poupança porque são estes que permitem investir, criar emprego e pagar melhores salários.

O país precisa urgentemente de um Estado que atribua menos subvenções, se liberte dos interesses corporativistas que o amarram, não interfira nos negócios para satisfação de alguns empresários; de um Estado que cobre menos impostos e deixe as pessoas, em liberdade, escolher o que fazer com o fruto do seu trabalho, planear o seu futuro e delinear o rumo a dar à educação dos seus filhos. Apenas com uma mudança programática será possível que o próximo governo de direita, com medidas ainda por cima posteriormente revertidas, faça muito mais que corrigir os erros da esquerda.

Hoje às 12 horas no ETV

Bruxelas admite a recapitalização da CGD se o investimento do Estado for considerado como privado. Estranho? Nem por isso, agora que as vacas voam. O governo é contra as sanções de Bruxelas a Portugal porque o anterior governo deve ter feito um bom trabalho. Isabel dos Santos na Sonangol, para controlar o BCP e comprar o Novo Banco? E por fim, as 35 horas no sector público. Porque as vacas voam e tudo se suporta e se paga. Sem dramas.

Estes são os temas para os meus comentários na Edição das 12 de hoje do Económico TV.

 

Quando a extrema-esquerda é fascista

Nuit Dedout é um movimento de extrema-esquerda que, desde finais de Março, se instalou todas as noites na Praça da República, em Paris, para protestar. A ideia é que qualquer um possa discursar em liberdade.

Alain Finkielkraut é um filósofo francês que ultimamente tem inspirado uma corrente de opinião, oriunda de intelectuais mais jovens, de direita, não liberais mas que não nutrem especial simpatia pela concepção gaullista do Estado francês

Finkielkraut decidiu, em Abril, ir à Praça de República discursar. O que não lhe foi permitido. Em vez disso, expulsaram-no do local. Mas o mais interessante é quando no segundo 39 deste filme, Finkielkraut se vira para trás e chama fascistas aos extremistas de esquerda que não o deixaram falar.

Depois de dias a ler artigos oriundos da esquerda portuguesa que, durante anos, apelidaram de fascista quem usasse pensar diferentemente, mas quando José Rodrigues dos Santos lhes pagou na mesma moeda, se enredaram em preciosismos para se defenderem, a acusação de Finkielkraut é mais que um grito: é uma lufada de ar fresco numa praça que devia ser de liberdade.

O congresso do PS e os extremismos de que depende para mudar a Europa

António Costa já afirmou que Bruxelas deve fazer tudo para manter o Reino Unido na União Europeia, mas que há limites. No fundo, o Reino Unido é desejável, mas não sem muito espaço para a concepção britânica de uma Europa de mercados livres e menor centralização política. Porque a União que este PS defende é uma Europa politicamente centralizada, embora permissiva a nível orçamental. É como que uma troca: Bruxelas existe, envia dinheiro, garante a estabilidade possível, uma moeda forte, claro está, mas deixa que a classe política que o PS considera legítima possa gastar o dinheiro dos contribuintes como bem lhe aprouver. Foi assim desde 1986. Para quê mudar?

Leia-se este artigo de Porfírio Silva, defendendo uma geringonça para a Europa. Ou ouça-se Pacheco Pereira dizendo no Congresso do PS que é necessário rasgar o Tratado Orçamental sob pena de os partidos socialistas e sociais-democratas, bem como o projecto europeu desaparecerem. É óbvio que com o euro o socialismo devia ter mudado, mas não mudou. O socialismo devia ter deixado de encarar a governação como um mero meio de distribuição de dividendos, mas não o fez. Ora, para Pacheco Pereira, e para o PS, o que é que está mal? A Europa que criou uma moeda forte que dá estabilidade de preços e, se em aproveitada, empregos, ou o socialismo que não se adaptou aos novos tempos? Infelizmente já conhecíamos a reposta.

O problema do PS é que não está refém do extremismo político apenas em Portugal. Para mudar a União, o PS precisa de contar com um bom resultado do Podemos em Espanha. Precisa de contar com a colaboração do Syriza e da extrema-direita grega; conta com bom resultado do movimento 5 estrelas em Roma; necessita de uma vitória de Marine Le Pen, em França. O PS está refém do extremismo em toda a Europa, seja este de esquerda ou de direita.

Não se adaptando, o socialismo precisa de destruir. E para destruir, urge unir-se não apenas aos comunistas do PCP e do BE. Costa terá de fazer uma frente comum com outros extremismos europeus. O socialismo é uma corrente político-ideológica muito ampla; já deu para tudo. Assim, o que o governo de António Costa andar a defender na Europa nos tempos mais próximas até pode ser socialismo. Mas não será, de certeza, aquilo que foi, noutros tempos, o PS.

O Brexit pode salvar a geringonça

Com o alerta da UTAO, a realidade começa a abater-se sobre a geringonça. Mas real é também o risco do Reino Unido sair da União Europeia e as consequências que daí advirão para Bruxelas e as suas relações directas com países como a Grécia e Portugal.

É que o Brexit pode ser pior para a Europa que para o Reino Unido, mas excelente para a esquerda que sustenta a geringonça.

No Fio da Navalha

A minha crónica de hoje no ‘i’.

A ansiedade de Marcelo

O livro de Maria João Avillez “Francisco Sá Carneiro: Solidão e Poder”, que se distingue das outras obras sobre o fundador do PSD por ter sido escrito ainda nem um ano depois de Camarate, descreve um episódio muito interessante passado com Marcelo Rebelo de Sousa.

Em finais de maio de 1975, em plena recuperação da operação realizada em Londres, Sá Carneiro vem secretamente a Lisboa para o conselho nacional do PSD. De acordo com a autora, fica em casa de Rui Machete. Ainda cansado, Sá Carneiro deita-se cedo. De repente ouve um burburinho vindo da sala. Alguém abre a porta e é Marcelo Rebelo de Sousa, azougado e lépido, que entra pela casa dos Machete como um furacão. Ouviu que Sá Carneiro está em Portugal, mas não sabe se é verdade. Ninguém se descose e Marcelo sai de orelha murcha. Conta-se que Sá Carneiro se riu perante a dúvida ansiosa de Marcelo.

Este episódio é revelador da personalidade do Presidente da República. Não interessa aqui apreciá-la, se boa ou má. Apenas constatar que assim é: ansioso. E goste-se ou não, o seu mandato será, está a ser marcado por essa particularidade. Foi a rapidez com que aceitou a demissão do chefe de Estado- -Maior do Exército, no seguimento da discriminação dos alunos homossexuais no Colégio Militar. Foram as afirmações dúbias sobre a duração da presente legislatura. Marcelo fala demais, mexe-se demais. Diz-se um Presidente hiperactivo. Eu, que nunca fui cavaquista, preferia os silêncios de Cavaco, que não comprometiam, mas punham o dedo na ferida.

Boas notícias para a geringonça

Uma saída do Reino Unido da União Europeia retira força à Comissão para impor um combate firme ao défice das contas públicas. Na Grécia, como em Portugal. O referendo no Reino Unido, mais as eleições em Espanha, três dias depois, podem mudar o rumo dos acontecimentos na Europa. Mais que apresentar boas contas, Costa, Jerónimo e Catarina Martins esperam pelo fim de Junho.

Não é a esquerda que quer mudar a Europa por dentro?

No país dos sovietes

Os contratos de associação dos colégios e a vontade da 5 de Outubro controlar o ensino e os professores; a greve dos estivadores e o controlo que os sindicatos, nas mãos do PCP, não querem perder. Entretanto, Marcelo visitou Berlim e diz-nos que Merkel nos compreende. Os meus comentários hoje, às 12 horas, no Económico TV. Afinal, também compreendo o que se está a passar.

A técnica da conversa de surdos

O governo tem dito que não devem ser aplicadas sanções a Portugal porque o défice de 2015 só não foi 3% do PIB, devido ao BANIF.

O Presidente do Eurogrupo tem dito que poderão ser aplicadas sanções devido à actual situação do país, ou seja, porque o governo não mostra vontade firme no combate ao défice.

O governo volta à carga dizendo que não devem ser aplicadas sanções a Portugal porque o défice de 2015 só não foi 3% do PIB, devido ao BANIF.

O Presidente do Eurogrupo já repetiu vezes sem conta que poderão ser aplicadas sanções devido à actual situação do país, ou seja, porque o governo não mostra vontade firme no combate ao défice.

Entretanto, Marcelo vai à Alemanha defender que não devem ser aplicar sanções a Portugal porque o défice de 2015 só não foi 3% do PIB, devido ao BANIF.

Esta técnica de não ouvir o que o outro lado diz, porque não lhe interessa é, infelizmente, muito usada. Volta não volta deparo-me com ela quando, enquanto advogado, faço negociações. É irritante à brava e se Schäuble for tão persistente quanto eu a ida de Marcelo a Berlim foi mais um episódio de uma conversa de surdos que vai ter alguma graça acompanhar.

No Fio da Navalha

A Caixa Geral de Depósitos precisa de 4 mil milhões de euros. Vindos de quem? Do contribuinte, claro. Ou não fosse o banco público. À semelhança do que aconteceu com os bancos privados, os lucros da CGD escondiam uma enorme factura. E por muito que nos digam o contrário, os prejuízos da CGD são públicos, mas os lucros foram privados. Foram utilizados num modelo político de desenvolvimento no mínimo questionável. O meu artigo ontem no ‘i’.

Os donos disto tudo

Sabia que, desde 2008, o Estado já injetou na Caixa Geral de Depósitos (CGD) cerca de 2700 milhões de euros? Que, em 2012, ainda recebeu mais 900 milhões de euros? Que, ao contrário dos outros bancos, ainda não reembolsou esse valor, o que nos custa 100 milhões por ano? Sabia que a CGD precisa de mais 4 mil milhões de euros? Sabe quanto custou o Novo Banco? 3,9 mil milhões.

Sabia que, em 2010, a CGD teve um lucro de 250 milhões? Que em 2009, registou um lucro de 469 milhões, o que foi uma quebra de 46% relativamente a 2008? A esquerda tem dito que, quando os bancos são públicos, os lucros são de todos. Sabia? Então onde está esse dinheiro? Eu não recebi. O leitor recebeu? Pois.

A banca pública é tanto nossa como os palácios que são propriedade do Estado: são de todos, mas só alguns lá podem entrar. Quanto aos bancos do Estado, os lucros são de todos, mas só alguns têm acesso a estes, às linhas de investimento público. O PCP e BE andam ansiosos por nacionalizar os bancos, o que dentro do PS também se discute, como se isso resolvesse os problemas de má gestão e pusesse termo às ligações perigosas entre os poderes político e económico.

Sabe qual é a justificação para tudo isto? Que a CGD é o pilar estrutural do capital financeiro em Portugal. O habitual. Porque, como habitualmente, há os que pagam para que o banco público seja o pilar que estrutura uma economia dependente dos poderes político e económico que, como em qualquer sociedade socialista que se preze, são os donos disto tudo.

Vamos espreitar o abismo?

O meu artigo no Diário Económico.

Vamos espreitar o abismo?

O leitor já olhou para o calendário eleitoral previsto por esse mundo fora? Se ainda não o fez, devia. António Costa já, e começou a fazer contas. Ora, vejamos: a 23 de Junho temos o referendo no Reino Unido sobre o Brexit e três dias depois há eleições em Espanha; em Novembro, no dia 8, a votação do futuro presidente dos EUA e, em Abril e Maio do próximo ano, as eleições presidenciais francesas.

Tenho-me dado ao trabalho de acompanhar estas últimas através da imprensa francesa e foi quando me deparei com as sondagens que dão preferência a Alain Juppé, numa segunda volta com Marine Le Pen, que dei conta do calendário que descrevi em cima. É que o que acontecer até Maio de 2017 pode mudar tudo. E é com essa mudança que António Costa e Catarina Martins contam.

Comecemos pelo princípio: na Espanha, o Podemos, que estava em queda nas sondagens, surpreendeu com uma aliança com os comunistas da Esquerda Unida e luta agora pelo segundo lugar, à frente do PSOE e logo atrás do PP. Se tal acontecer, ou a instabilidade continua, mas com uma extrema-esquerda ainda mais forte, ou Mariano Rajoy consegue governar com o PSOE e os Ciudadanos, deixando os comunistas confortavelmente sozinhos na oposição.

Três dias depois, o Brexit. Numa crónica há dias no L’Express, o economista francês Jacques Attali dizia com alguma graça que se o Reino Unido saísse da UE era porque o projecto europeu lhes causava tanta repulsa que preferiam o suicídio. Mas Attali, como continental que é, esquece que o Brexit também será fatal para a União. As ondas de choque darão força à Grécia e retirarão estímulo às instituições europeias. Se a Espanha tiver mergulhado na instabilidade e com a Itália a ver de onde sopra o vento, o Verão será terrivelmente instável.

No Outono teremos outro teste. Trump ou Hillary, ou sabe lá Deus se não mesmo Sanders. Os dois homens são proteccionistas e contra os acordos de parceria transatlântica e trans-pacífico que Obama tem andado a negociar. Uma possível hostilidade vinda de Washington pode ser mais uma machadada na união da Europa. O leitor recorda-se do que foi a invasão do Iraque em 2003? Agora imagine o que será um presidente norte-americano determinantemente provocador e com tendência para o absurdo?

E enquanto estas tempestades se desenrolam, a UE discute o terceiro resgate à Grécia, impõe medidas suplementares a Portugal, fecha os olhos a Itália e leva as mãos à cabeça quando olha para Espanha. Sem esquecer Putin a erguer-se sobre a Ucrânia, o terrorismo a matar nas ruas e cafés da Europa e os refugiados a baterem à porta, recordando-nos algo que pensávamos ter deixado para trás há 70 anos.

É neste ambiente que chegamos a Abril de 2017. Não sabemos ainda se a direita apresentará Juppé, Sarkozy ou mesmo Bruno Le Maire. Mas o certo é que também não sabemos como será a atmosfera política francesa nessa altura. Melhor: não conseguimos antever as consequências que os possíveis acontecimentos descritos em cima poderão originar. Talvez tudo fique na mesma, ou talvez não. Se calhar, dá-se um extremar de posições e Marine Le Pen, muito mais cautelosa que o seu pai, consegue vencer.

Iglesias em Espanha, Le Pen em França, o Reino Unido fora da União e Trump (ou Sanders) na Casa Branca. O leitor espreitou o abismo e tremeu? Ainda bem. Significa que ainda tem um tino de discernimento, o que vai rareando nos tempos que correm. É que António Costa e Catarina Martins fizeram o mesmo mas, em vez de tremerem, viram a sua chance.

Infelizmente para o país, a sustentação deste Governo depende de uma catástrofe europeia. Essa será a única forma das forças de esquerda vencerem o braço-de-ferro com as instituições europeias. Dobrando a Europa, a extrema-esquerda e a extrema-direita, cada uma a partir do seu país, mas juntas na Grécia, colocarão em marcha o destino de um mundo novo. À esquerda resta-lhe aguentar até lá. O sucesso político de António Costa será a nossa desgraça.