Um super-herói português

Um infindável conjunto de “bota-abaixistas” e “velhos do Restelo” insistem em negar a realidade, recusando-se a reconhecer os imensos méritos do Governo liderado pelo excelso António Costa e interminável valor dos seus ministros, bem como os extraordinários feitos que todos têm alcançado e alcançarão. Veja-se, por exemplo, o Ministro Vieira da Silva, que para além de ter colocado a filha no governo apesar da inépcia que qualquer um que tenha tido o azar de a ouvir ou ler não poderá evitar nela descortinar, não só já conseguiu a sustentabilidade da Segurança Social “para os próximos 50 anos” nos tempos de José Sócrates (aquele abraço), como aparentemente se prepara para o fazer novamente, quando nem sequer metade desse tempo passou. Gente desta não se encontra em todo o lado.

É assim que os demagogos e os oportunistas ganham

Vejo muita gente entusiasmadíssima com a habilidade que Rui Moreira incessantemente demonstra para manipular tudo e todos e “passar uma imagem” de independente que não faz favores a partidos. Ou seja, vejo muita gente a admirar Rui Moreira pela sua capacidade de lhes mentir descaradamente. Depois, quando forem os que hoje ele namora a serem enganados ou chutados para longe, será tarde para se queixarem.

Um homem sem vergonha

Em Tires, um trágico acidente com uma avioneta terá causado a morte a várias pessoas. Marcelo Rebelo de Sousa, incapaz de deixar uma equipa de reportagem televisiva em paz, foi ao local com a mesma pressa com que logo o abandonou. É preciso não ter vergonha na cara para fazer de uma tragédia uma “oportunidade” de propaganda do “culto de personalidade” que “o prof. Marcelo” tanto se esforça por construir, sem sequer olhar aos limites da decência.

Viver acima das possibilidades

Segundo a OCDE, entre impostos propriamente ditos e os impostos-por-outro-nome que em PortSoc são traduzidos por “contribuições”, cada português deixa ao Estado, em média, 41,5% dos seus rendimentos. Nos últimos anos, tornou-se habitual dizer que “os portugueses vivem acima das suas possibilidades”. O que a OCDE nos está a dizer é que, acima de tudo, é o Estado que vive acima das possibilidades que os portugueses têm de o pagar.

Bênção e maldição

(o meu artigo de hoje no Económico)

Votada à estranha impotência a que o apoio do seu partido ao “Governo da iniciativa do PS” sem que a ele pertença a vai condenado, Catarina Martins tem de aproveitar todas as oportunidades possíveis para fingir que existe. Foi o que fez na semana passada, à saída de uma reunião da mesa nacional do Bloco de Esquerda, em que disse ser “urgente preparar o país para o cenário da saída do euro ou mesmo do fim do euro”. A afirmação cumpriu o objectivo para que foi feita, já que não houve órgão de comunicação social que não a tenha reproduzido como se de um novo discurso de Péricles se tratasse. Já de que tenha sido de algo sensato tenho as maiores dúvidas.

Em parte, a moeda única não trouxe boas notícias para o nosso país. Como nota Luciano Amaral num livrinho que merece ser lido, para poder aderir ao euro, os governos portugueses adoptaram uma política de valorização cambial que “penalizou” as exportações. Uma vez no euro, essa “sobrevalorização” da moeda em relação à nossa capacidade produtiva cristalizou-se definitivamente, contribuindo significativamente para nossa estagnação económica (o excessivo peso do Estado conjugado com a perene falta de capital na economia portuguesa não tiveram um papel menos importante) desde 2000. Mas o principal efeito da nossa adesão ao euro foi ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Ao nos atribuir a mesma moeda de países como a Alemanha, deu também à nossa economia (e ao nosso Estado) quase “grega” a capacidade de nos endividarmos de países mais “confiáveis” do que até ia tínhamos sido: a presunção de que partilhando a moeda com esses países Portugal estava sujeito a regras orçamentais que disciplinariam as suas finanças públicas de uma forma que o país nunca (excepto em ditadura) havia conseguido enquanto mantivera independência cambial dava aos potenciais credores a confiança de que veriam o seu dinheiro de volta, sentindo-se assim seguros para emprestar dinheiro a Portugal sem cobrar juros tão altos como antigamente. Por paradoxal que possa parecer, foi também essa inegável vantagem que teve o problema de tornar mais fácil o desvario estatal que quase nos levou à bancarrota em 2011: com o escudo, “os mercados” teriam acordado para as asneiras que por aqui estavam a ser feitas muito mais cedo, e estas teriam sido bem menores.

Mas, embora tenha dado à crise um carácter que ela não teria caso o escudo ainda fosse a moeda do nosso país, a verdade é que o euro também ajudou a que ela não fosse mais grave. Se Portugal não estivesse na moeda única, não teria sido resgatado pelos seus parceiros europeus em 2011, nem beneficiaria hoje da política do BCE que nos vai permitindo fingir que não estamos à beira do abismo. Martins fala do euro como um obstáculo ao crescimento, mas ignora a catástrofe que uma saída do euro representaria para a sociedade portuguesa: ninguém nos emprestaria dinheiro a juros suportáveis, ninguém nos resgataria da consequente bancarrota, o desemprego explodiria, e a pobreza alastrar-se-ia.

Ou talvez não ignore. Talvez o caos e o descalabro seja precisamente o que Martins e os seus correligionários desejam. Talvez esperem que deles brote um tal descontentamento popular com os principais partidos que lhes abra o caminho do poder para promoverem a sua política revolucionária e anti-democrática (sob a capa do “aprofundamento” da democracia, desfigurando-a).

Quer o BE queira “preparar” a saída euro por oportunismo ou por inconsciência, o certo é que os portugueses fariam bem em ignorar o seu conselho. A criação da moeda única e, acima de tudo, a nossa entrada nela talvez tenham sido um erro. Mas uma vez cometido, esse erro não seria anulado por se acumular com outro ainda maior, com consequências ainda mais graves. E se porventura não tivermos alternativa – se Portugal for expulso da moeda única ou se esta, pura e simplesmente, se extinguir – não haveria preparação que nos salvasse da desgraça que imediatamente se abateria sobre o nosso pobre país.

Um Presidente perigoso

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Recentemente, o Presidente da República achou por bem comentar publicamente o facto de muito boa gente achar que ele faz comentários públicos em excesso. Suspeito que não se apercebeu do carácter contraproducente da iniciativa, como aliás raramente se apercebe do que quer que seja que esteja para além da distância que o separa de um espelho.

Disse o Presidente que é “muito acusado de falar vezes demais”, mas que a crítica não faz sentido, porque “este é um tempo diferente” daquele em que outros presidentes tinham outro tipo de presença mediática, e agora é necessário dar resposta à “aceleração” em que vivemos e a que o nosso cérebro “se está a ajustar”. É por essa razão, e não por uma qualquer egomania, incontinência verbal ou saudades dos estúdios da TVI, que Marcelo alega estar permanentemente a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa, ou a distribuir abraços e beijinhos por toda e qualquer velhinha que tenha o azar de se cruzar com ele e uma equipa de reportagem televisiva.

Algumas almas generosas e benevolentes têm interpretado esta “estratégica mediática” do Presidente como uma tentativa de conquistar uma popularidade quase consensual e acima das habituais divisões partidárias, para que quando uma tempestade se abater sobre o país, ele a possa usar para arrumar a casa. Uns acham que ele será bem-sucedido, outros duvidam, mas todos concordam quanto à motivação de Marcelo. Sobrestimam o homem. A única motivação do Presidente é o seu desejo de adoração pública. Por isso tudo faz para que todos os seus gestos agradem ao máximo número de pessoas e desagradem o menos possível aos que se possam sentir ofendidos com o que diz ou faz. A proximidade ao Governo não se deve a um qualquer desejo de promover Costa ou afastar Passos Coelho da liderança do PSD, mas apenas ao propósito de agradar ao sentimento popular contra as “divisões partidárias”. O sermão a Centeno surgiu quando a sua gestão do “caso CGD” se tornou tóxica na opinião pública. As constantes referências a “boas notícias” que na realidade estão longe de o ser (como os juros que o país paga pelos empréstimos que contrai, ou o rating da Fitch) visam afastar da cabeça dos portugueses todo e qualquer motivo para se preocuparem com a intervenção política de Marcelo para além dos tão propalados (pelo próprio e por uma comunicação social sempre pronta a comer e a regurgitar a propaganda que lhe põe no prato) “afectos”, que não passam, no fundo, de uma afectação.

Como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe, a coisa acabará mal para Marcelo. Ele ocupa um cargo político, e em política – uma actividade em que cada escolha tem custos e, portanto, desagrada forçosamente a alguém – é impossível manter para sempre a aura imaculada que Marcelo vai tentando ostentar. Mas se tudo se ficasse pela desgraça de Marcelo, não haveria grande problema. O mal está em que o Presidente, ao se pronunciar sobre tudo, não se distancia de nada, e assim não só garante que será pessoalmente responsabilizado quando uma nova crise nos vier bater à porta, como também que arrastará consigo a credibilidade do resto do sistema político (o “caso CGD” é um bom exemplo da promiscuidade entre Belém e São Bento cultivada pelo Presidente). Claro que ninguém verterá lágrimas por este último, mas o problema está em que ninguém sabe o que vem a seguir. É por isso que Marcelo e a sua presidência são um perigo para este pobre país.