Um homem sem vergonha

Em Tires, um trágico acidente com uma avioneta terá causado a morte a várias pessoas. Marcelo Rebelo de Sousa, incapaz de deixar uma equipa de reportagem televisiva em paz, foi ao local com a mesma pressa com que logo o abandonou. É preciso não ter vergonha na cara para fazer de uma tragédia uma “oportunidade” de propaganda do “culto de personalidade” que “o prof. Marcelo” tanto se esforça por construir, sem sequer olhar aos limites da decência.

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Viver acima das possibilidades

Segundo a OCDE, entre impostos propriamente ditos e os impostos-por-outro-nome que em PortSoc são traduzidos por “contribuições”, cada português deixa ao Estado, em média, 41,5% dos seus rendimentos. Nos últimos anos, tornou-se habitual dizer que “os portugueses vivem acima das suas possibilidades”. O que a OCDE nos está a dizer é que, acima de tudo, é o Estado que vive acima das possibilidades que os portugueses têm de o pagar.

Bênção e maldição

(o meu artigo de hoje no Económico)

Votada à estranha impotência a que o apoio do seu partido ao “Governo da iniciativa do PS” sem que a ele pertença a vai condenado, Catarina Martins tem de aproveitar todas as oportunidades possíveis para fingir que existe. Foi o que fez na semana passada, à saída de uma reunião da mesa nacional do Bloco de Esquerda, em que disse ser “urgente preparar o país para o cenário da saída do euro ou mesmo do fim do euro”. A afirmação cumpriu o objectivo para que foi feita, já que não houve órgão de comunicação social que não a tenha reproduzido como se de um novo discurso de Péricles se tratasse. Já de que tenha sido de algo sensato tenho as maiores dúvidas.

Em parte, a moeda única não trouxe boas notícias para o nosso país. Como nota Luciano Amaral num livrinho que merece ser lido, para poder aderir ao euro, os governos portugueses adoptaram uma política de valorização cambial que “penalizou” as exportações. Uma vez no euro, essa “sobrevalorização” da moeda em relação à nossa capacidade produtiva cristalizou-se definitivamente, contribuindo significativamente para nossa estagnação económica (o excessivo peso do Estado conjugado com a perene falta de capital na economia portuguesa não tiveram um papel menos importante) desde 2000. Mas o principal efeito da nossa adesão ao euro foi ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Ao nos atribuir a mesma moeda de países como a Alemanha, deu também à nossa economia (e ao nosso Estado) quase “grega” a capacidade de nos endividarmos de países mais “confiáveis” do que até ia tínhamos sido: a presunção de que partilhando a moeda com esses países Portugal estava sujeito a regras orçamentais que disciplinariam as suas finanças públicas de uma forma que o país nunca (excepto em ditadura) havia conseguido enquanto mantivera independência cambial dava aos potenciais credores a confiança de que veriam o seu dinheiro de volta, sentindo-se assim seguros para emprestar dinheiro a Portugal sem cobrar juros tão altos como antigamente. Por paradoxal que possa parecer, foi também essa inegável vantagem que teve o problema de tornar mais fácil o desvario estatal que quase nos levou à bancarrota em 2011: com o escudo, “os mercados” teriam acordado para as asneiras que por aqui estavam a ser feitas muito mais cedo, e estas teriam sido bem menores.

Mas, embora tenha dado à crise um carácter que ela não teria caso o escudo ainda fosse a moeda do nosso país, a verdade é que o euro também ajudou a que ela não fosse mais grave. Se Portugal não estivesse na moeda única, não teria sido resgatado pelos seus parceiros europeus em 2011, nem beneficiaria hoje da política do BCE que nos vai permitindo fingir que não estamos à beira do abismo. Martins fala do euro como um obstáculo ao crescimento, mas ignora a catástrofe que uma saída do euro representaria para a sociedade portuguesa: ninguém nos emprestaria dinheiro a juros suportáveis, ninguém nos resgataria da consequente bancarrota, o desemprego explodiria, e a pobreza alastrar-se-ia.

Ou talvez não ignore. Talvez o caos e o descalabro seja precisamente o que Martins e os seus correligionários desejam. Talvez esperem que deles brote um tal descontentamento popular com os principais partidos que lhes abra o caminho do poder para promoverem a sua política revolucionária e anti-democrática (sob a capa do “aprofundamento” da democracia, desfigurando-a).

Quer o BE queira “preparar” a saída euro por oportunismo ou por inconsciência, o certo é que os portugueses fariam bem em ignorar o seu conselho. A criação da moeda única e, acima de tudo, a nossa entrada nela talvez tenham sido um erro. Mas uma vez cometido, esse erro não seria anulado por se acumular com outro ainda maior, com consequências ainda mais graves. E se porventura não tivermos alternativa – se Portugal for expulso da moeda única ou se esta, pura e simplesmente, se extinguir – não haveria preparação que nos salvasse da desgraça que imediatamente se abateria sobre o nosso pobre país.

Um Presidente perigoso

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Recentemente, o Presidente da República achou por bem comentar publicamente o facto de muito boa gente achar que ele faz comentários públicos em excesso. Suspeito que não se apercebeu do carácter contraproducente da iniciativa, como aliás raramente se apercebe do que quer que seja que esteja para além da distância que o separa de um espelho.

Disse o Presidente que é “muito acusado de falar vezes demais”, mas que a crítica não faz sentido, porque “este é um tempo diferente” daquele em que outros presidentes tinham outro tipo de presença mediática, e agora é necessário dar resposta à “aceleração” em que vivemos e a que o nosso cérebro “se está a ajustar”. É por essa razão, e não por uma qualquer egomania, incontinência verbal ou saudades dos estúdios da TVI, que Marcelo alega estar permanentemente a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa, ou a distribuir abraços e beijinhos por toda e qualquer velhinha que tenha o azar de se cruzar com ele e uma equipa de reportagem televisiva.

Algumas almas generosas e benevolentes têm interpretado esta “estratégica mediática” do Presidente como uma tentativa de conquistar uma popularidade quase consensual e acima das habituais divisões partidárias, para que quando uma tempestade se abater sobre o país, ele a possa usar para arrumar a casa. Uns acham que ele será bem-sucedido, outros duvidam, mas todos concordam quanto à motivação de Marcelo. Sobrestimam o homem. A única motivação do Presidente é o seu desejo de adoração pública. Por isso tudo faz para que todos os seus gestos agradem ao máximo número de pessoas e desagradem o menos possível aos que se possam sentir ofendidos com o que diz ou faz. A proximidade ao Governo não se deve a um qualquer desejo de promover Costa ou afastar Passos Coelho da liderança do PSD, mas apenas ao propósito de agradar ao sentimento popular contra as “divisões partidárias”. O sermão a Centeno surgiu quando a sua gestão do “caso CGD” se tornou tóxica na opinião pública. As constantes referências a “boas notícias” que na realidade estão longe de o ser (como os juros que o país paga pelos empréstimos que contrai, ou o rating da Fitch) visam afastar da cabeça dos portugueses todo e qualquer motivo para se preocuparem com a intervenção política de Marcelo para além dos tão propalados (pelo próprio e por uma comunicação social sempre pronta a comer e a regurgitar a propaganda que lhe põe no prato) “afectos”, que não passam, no fundo, de uma afectação.

Como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe, a coisa acabará mal para Marcelo. Ele ocupa um cargo político, e em política – uma actividade em que cada escolha tem custos e, portanto, desagrada forçosamente a alguém – é impossível manter para sempre a aura imaculada que Marcelo vai tentando ostentar. Mas se tudo se ficasse pela desgraça de Marcelo, não haveria grande problema. O mal está em que o Presidente, ao se pronunciar sobre tudo, não se distancia de nada, e assim não só garante que será pessoalmente responsabilizado quando uma nova crise nos vier bater à porta, como também que arrastará consigo a credibilidade do resto do sistema político (o “caso CGD” é um bom exemplo da promiscuidade entre Belém e São Bento cultivada pelo Presidente). Claro que ninguém verterá lágrimas por este último, mas o problema está em que ninguém sabe o que vem a seguir. É por isso que Marcelo e a sua presidência são um perigo para este pobre país.

“The king stay the king”

Um vídeo a comentar a demissão do Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, Michael Flynn, oficialmente por ter discutido a remoção de sanções à Rússia com um embaixador do país, “sem autorização” ou “conhecimento” de Trump, e ter “mentido” sobre o assunto.

O primeiro Presidente dos EUA anti-americano

Numa entrevista com Bill O’Reilly, Donald Trump disse que “respeita” Vladimir Putin, embora tenha acrescentado que “respeita muita gente” e nada garante que se vá dar bem com o presidente russo. De seguida, O’Reilly perguntou-lhe como podia Trump respeitar Putin, tendo em conta que ele “matou pessoas”. Perante a pergunta, Trump respondeu que “há muitos assassinos. Nós temos muitos assassinos. Acha que o nosso país é assim tão inocente?” Ou seja, como qualquer adolescente apaixonada por um rapaz de comportamento duvidoso confrontada com carácter deste, Trump logo se apressou a defender o objecto da sua paixão, não hesitando para o efeito fazer uma equivalência moral entre o país a que preside e o regime de um criminoso brutal, que assassina regularmente os seus críticos e terá até conduzido um ataque a cidadãos do seu próprio país para, ao levar os russos a crerem que havia sido um atentado terrorista, consolidar o seu poder interno. No fundo, Trump faz aquilo que, ao longo de anos, todos os esquerdistas e simpatizantes de carniceiros fizeram, para defender os regimes mais abomináveis ou porque o seu antiamericanismo visceral para isso os empurrou: dizer que os EUA são tão moralmente condenáveis como um ditadura. Foi isso que disseram na II Guerra, foi isso que disseram na Guerra Fria, foi isso que defensores do papel fundamental dos EUA no mundo – como eu – tiveram de ouvir aquando da guerra do Iraque ou – de forma bem mais nojenta – enquanto cidadãos inocentes estavam a morrer nos atentados de 11 de Setembro. Hoje, é o próprio presidente dos EUA que, ou por dever algo a Putin ou aos seus oligarcas, ou porque pura e simplesmente tem uma profunda admiração pelo seu brutal autoritarismo, papagueia este aspecto central da propaganda com que o Kremlin justifica internamente esse mesmo autoritarismo: os EUA, a sua democracia e o seu papel no mundo não são diferentes da nossa corrupção, repressão e brutalidade. Barack Obama foi um mau presidente, e a sua política externa, em particular, foi desastrosa. Mas Donald Trump é o primeiro Presidente dos EUA antiamericano, que acredita profundamente, e repete incessantemente, os chavões que jovenzinhos do Bloco de Esquerda ou comentadores da RT têm sempre na ponta da língua. Pelos vistos, há quem tolere, e até quem goste. Não é o meu caso.

Os truques da política portuguesa

centeno-truques A notícia, com estas ou outras palavras, está em todos os jornais e televisões: Mário Centeno, Ministro das Finanças e embaraço ambulante, esteve ontem na reunião do “Eurogrupo” e deixou um “recado” aos seus congéneres do Tesouro dos vários países da “zona euro”: Portugal e, acima de tudo, a sua excelsa pessoa, mostraram-lhes que estavam “muito enganados”. Aparentemente, na cabeça do senhor Ministro, o país está a ter resultados brilhantes na execução do Orçamento de Estado, com um défice baixíssimo, e tudo sem afectar o crescimento económico do país. O facto de grande parte desse “controlo” do défice ter sido conseguido através da suspensão de pagamentos a que o próprio Estado se obrigara, contraindo assim uma dívida que só pelas artes mágicas da contabilidade não é considerada como tal, ou de que esse crescimento continua a ser menor que o do endividamento, cujos juros a longo prazo continuam também eles aumentar, não ocorre a Centeno, ou, se lhe ocorre, não o incomoda. Afinal, nenhuma destas críticas passa de um conjunto de “mitos” propositadamente lançados por gente maldosa com o terrível propósito de causar danos ao país e, claro, ao Governo a que pertence (que é o que mais o preocupa).

Como qualquer pessoa minimamente inteligente – ou que não tenha optado por voluntariamente se deixar obnubilar pela sua paixão pelo que um senhor entretanto desaparecido chamou de “o tempo novo” – facilmente perceberá, todo e qualquer “recado” que Centeno tenha dado teve como destinatário imediato a imprensa portuguesa e como alvo fundamental o público português. O “recado” de Centeno não é na realidade o de que os seus parceiros do Eurogrupo haviam estado excessivamente pessimistas em relação a – ou deliberadamente a conspirar contra – Portugal, mas o de que ele, Centeno, e por interposta pessoa o Governo, “batem o pé” aos malévolos “senhores” da “Europa”, ao contrário dos ainda mais pérfidos responsáveis do anterior executivo, que tudo faziam para que “a senhora Merkel” nos castigasse ainda mais severamente do que a sua “moral protestante” a inspirava inicialmente.

O truque, claro, é velho: sair das reuniões e cimeiras da UE a alardear o esforço na “defesa” do “interesse nacional”, logo equiparado através do tom ao desembarque na Normandia, a fazer lembrar o comum português que em casa ou no café não consegue deixar de inventar um qualquer “e aí eu disse-lhe” e um “e o gajo calou-se logo” ao contar o episódio em que o patrão o destratou. A intenção, essa, é óbvia: criar na cabeça das pessoas uma realidade em que tudo está bem e qualquer notícia negativa não passa de uma invenção de interesses obscuros de potências estrangeiras com obedientes serviçais internos, contra os quais o Governo, por espírito de sacrifício e amor ao país, não se cansa de batalhar “lá fora”.

O resultado também é sempre o mesmo: durante uns tempos, a propaganda vai funcionando, talvez não tanto no propósito de fazer com que as pessoas acreditem nela, mas certamente no (principal) de as fazer não ter energia nem paciência para a contestar. Mas, com o passar do tempo e o consequente agravamento dos reais problemas do país, a ilusão propagandística dissipa-se, e os seus autores são forçados a abandonar o poder. Não antes, no entanto, de terem alimentado devidamente as suas clientelas e dependentes, assegurando assim a sobrevivência destes últimos e a sua lealdade para quando, passado algum tempo e a raiva popular contra os seus desmandos tiver sido aligeirada, precisarem de quem os alce novamente a São Bento, onde rapidamente voltarão a fazer das suas, com os mesmos resultados. Como de todos os lados do hemiciclo parlamentar, o apreço pela prática não varia – apenas a respectiva competência para a manipulação difere de bancada para bancada – os portugueses que não pertençam aos beneficiados do balancé partidário não podem senão ficar a assistir, com a garantia de que, aconteça o que acontecer, ficarão sempre pior do que estariam se vivessem num pais minimamente decente.

Padaria Portuguesa

Pessoalmente, não poderia ser mais favorável a um boicote generalizado à Padaria Portuguesa, algo que, aliás, pratico desde a primeira vez que frequentei um dos seus estabelecimentos. Não por causa das opiniões sobre o salário mínimo de um dos seus donos, mas apenas porque, apesar de estar na moda junto de gente sem bom gosto, aquilo que oferece não vale nem metade do seu preço.

O burro

(Artigo meu no Jornal Económico)

Comecei há uns dias a ler o último livro de Michael Lewis, The Undoing Project, sobre os psicólogos israelitas Daniel Kahneman e Amos Tversky, e as suas descobertas acerca dos limites a que o juízo humano está sujeito. A dada altura, Lewis conta um episódio sobre um dos professores de Kahneman, um tal de Yeshayahu Leibowitz, em que este fala de um burro posto exactamente a meio da distância que separava dois montes de feno, e que, incapaz de perceber qual dos dois está mais perto, morre de fome. Leibowitz explicava de seguida que um burro nunca se comportaria assim, e que simplesmente dirigir-se-ia para um deles e comeria quando e sempre que tivesse fome, e que só nós humanos complicaríamos decisões deste tipo. No entanto, concluía ele, “o que acontece a um país em que um burro toma decisões que deviam ser tomadas por pessoas é algo que podemos ler todos os dias nos jornais”.

Leibowitz obviamente não conhecia o que se vai lendo por estes dias nos nossos jornais, mas a sua anedota ilustraria bem a realidade portuguesa. O país enfrenta problemas seriíssimos, desde as suas dificuldades de financiamento (com os juros dos empréstimos que o Estado pede para pagar as suas despesas a subirem) à insustentabilidade a longo prazo do “Estado Social”, passando pela fragilidade do sistema bancário ou pelas agruras quotidianas que muitos dos seus cidadãos enfrentam (o desemprego, a pobreza, o endividamento privado, etc.). Enquanto isso, o que os partidos e os comentadores por eles colocados na imprensa alegremente discutem é se o Primeiro-Ministro deveria ter voltado da Índia para o funeral de Mário Soares ou quem é mais incoerente, se o PS por querer aprovar uma descida da TSU depois de ter sido contra a medida há uns anos, se o PSD e o CDS pelo inverso, ou o PCP e o BE por não aprovarem a medida que “compensava” o aumento do salário mínimo de que tanto se orgulham. O que não parece despertar a preocupação de ninguém é o futuro do país e aquilo que, se não for mudado, o tornará bem desconfortável para muitos portugueses.

Como o efabulado burro que com fome se debate sobre para que lado se virar até ao ponto em que se extingue à míngua, também os nossos partidos e seus aguadeiros mediáticos ignoram o triste destino que nos aguarda, preocupados que estão com questões sem importância. E os portugueses que não os acompanham nesta loucura, para seu azar, estão entregues a eles, e à sua disposição têm apenas a escolha entre o “mais do mesmo” do PS e suas muletas PCP e BE (o endividamento público necessário para usar o Estado como fonte de financiamento das suas vastas clientelas, os impostos altíssimos para pagar os juros desse endividamento) ou o “menos do mesmo” que no fundo é a “austeridade” de PSD e CDS (o mesmo modelo de Estado omnipresente, apenas mais frugal na hora de gastar). Aquilo que era preciso – um Estado diferente, que tivesse outro propósito que não o de ser um instrumento de compra de votos e distribuição de favores pelas respectivas clientelas partidárias que do CDS ao BE todos apreciam – não sai das fantasias de alguns pobres sonhadores, que anseiam com um país que, na realidade, não é nem será o nosso.

Donald Trump e “A Era da Desmiogarquia”

 

Um texto meu no site britânico CapX:

“Sullivan’s words might sound overly-dramatic, but there’s some validity to them. Not in the sense that America’s first orange president will become a true tyrant, but that his election does say something about the predicament of the American Republic. It is a symptom of the American democracy’s degeneration into a desmiogarchy – the government of the shackled, of those in bounds.

This degeneration has been a feature of European politics for several years now. All over the continent (Austria, Poland, Sweden, Denmark, Portugal), an increasing number of voters have transferred their support from mainstream, “centrist” parties to extremist, populist ones, or have elected not to participate in the democratic process at all. The pattern will likely be repeated in future elections in the continent, whether in Germany, Italy or most particularly in France.

At the root of this “desmiogarchization” of European democracies lies the exponential growth of the state. Since the turn of the century, across the continent, public spending has soared as a share of national income – from 51.6 per cent in 2000 to 55.9 per cent in 2012 in France; from 45.9 per cent to 49 per cent in Italy; from 41.6 per cent to 46.9 per cent in Portugal.

(…)in the end, these welfare states created a series of problems that seem difficult to overcome. They’re ineffective: they respond not to the needs of those who use them, but to the bureaucratic goals of political decision-makers. They’re unsustainable: there is an ever smaller number of workers paying for an ever-growing number of beneficiaries. And they’re unfair: because they try to provide for those who need it and those who don’t, they end up giving too much to those who don’t need it and not enough to those who do.

On the one hand, the inefficiency of these services feeds the electorate’s high – and growing – level of dissatisfaction with governments and politicians. On the other, European electorates seem pretty reluctant to give their support to any reform that might mean they would have to give up some of the things they take for granted.

The combination is lethal: most voters make their electoral choices on the basis of who they believe will be capable of keeping things as they are, but at the same time, those voters who want to keep the statist status quo intact grow unhappy with the practical results of that same statism. So voters blame the traditional governing parties for not being able to give them the statism of plenty they long for.”

O resto pode ser lido aqui.

Rebenta a bolha

rebenta-a-bolha Ao que parece, Portugal emitiu títulos de dívida pública – ou seja, pediu dinheiro emprestado – por um prazo de seis e doze meses a juros negativos. Tendo em conta que isto sucede poucas semanas depois de ter sido obrigado a aceitar juros de 4% por empréstimos com o prazo de dez anos, só se pode chegar a uma conclusão: a política do BCE está a criar uma bolha no mercado dos títulos de dívida, mas toda a gente espera que, a médio ou longo prazo, ela acabe por rebentar, e ninguém confia na capacidade do Estado português saldar as suas dívidas quando tal acontecer.

Kompromat (2)

Como é óbvio, não é necessário que a informação com que os serviços secretos russos pretenderão comprometer Donald Trump seja verdadeira. É perfeitamente plausível que seja uma fabricação, e até que a sua divulgação seja uma extraordinária operação de desinformação destinada a descredibilizar o processo democrático americano e a instalar o caos (uma prática e um objectivo sobejamente conhecidos dos serviços secretos russos e do Kremlin). Seja verdade, seja uma fabricação, tudo isto é suficientemente grave e perigoso -para os EUA, para a NATO, enfim, para todos nós.

Kompromat

Talvez fosse por isto que Donald Trump achava que não precisava dos briefings dos serviços secretos – já sabia o seu conteúdo, através do FSB.

“Classified documents presented last week to President Obama and President-elect Trump included allegations that Russian operatives claim to have compromising personal and financial information about Mr. Trump, multiple US officials with direct knowledge of the briefings tell CNN.

The classified briefings last week were presented by four of the senior-most US intelligence chiefs — Director of National Intelligence James Clapper, FBI Director James Comey, CIA Director John Brennan, and NSA Director Admiral Mike Rogers.

One reason the nation’s intelligence chiefs took the extraordinary step of including the synopsis in the briefing documents was to make the President-elect aware that such allegations involving him are circulating among intelligence agencies, senior members of Congress and other government officials in Washington, multiple sources tell CNN.

These senior intelligence officials also included the synopsis to demonstrate that Russia had compiled information potentially harmful to both political parties, but only released information damaging to Hillary Clinton and Democrats. This synopsis was not an official part of the report from the intelligence community case about Russian hacks, but some officials said it augmented the evidence that Moscow intended to harm Clinton’s candidacy and help Trump’s, several officials with knowledge of the briefings tell CNN.

The two-page synopsis also included allegations that there was a continuing exchange of information during the campaign between Trump surrogates and intermediaries for the Russian government, according to two national security officials.

Sources tell CNN that these same allegations about communications between the Trump campaign and the Russians, mentioned in classified briefings for congressional leaders last year, prompted then-Senate Democratic Leader Harry Reid to send a letter to FBI Director Comey in October, in which he wrote, “It has become clear that you possess explosive information about close ties and coordination between Donald Trump, his top advisors, and the Russian government — a foreign interest openly hostile to the United States.”

“Fake news”

Corre aí pela internet um rumor de que Diogo Freitas do Amaral não estará presente nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, por ter sido sujeito a uma cirurgia à coluna. Trata-se obviamente de mais um caso das “fake news” que agora proliferam nas “redes sociais”, pois essa é uma parte da anatomia humana que, ao longo da sua carreira, Freitas do Amaral sempre deu provas de dispensar por completo.

Sócrates sobre Soares

socrates-soares Neste momento, à porta do Mosteiro dos Jerónimos, José Sócrates está a falar de Soares. O conteúdo da intervenção merece ser transcrito (e traduzido do socratês para a língua portuguesa): “Eu sou extraordinário. De longe o melhor homem que já existiu. Sou, indiscutivelmente, o melhor. Vejam o meu carisma. Imenso. Extraordinário. O mundo está contra mim, mas eu resisto, porque sou o melhor. Não há ninguém como eu. Veja, veja o quão inteligente eu sou. E carismático? Já lhe falei no meu carisma? Até escrevi um livro sobre isso. Falo de Mandela, Luther King, Soares, Lula, tudo homens extraordinários, mas acima de tudo pessoas que apenas mostram o quão brilhante eu sou, mais até do que eles. Por causa do meu carisma, que é imenso. Sou, afinal, um animal feroz. Extraordinário. E cheio de carisma. Já lhe falei no meu carisma? Isso é que realmente importa, o meu imenso carisma. Sou extraordinário. O melhor. Muito obrigado.”

Inglês técnico

José Miguel Júdice, prova andante de que em Portugal a mediocridade compensa e bem, acaba de dizer na TVI24 que Angela Merkel “é uma survival“.

Marcelo e “fake news”

marcelo-george-michael Corre aí pelos “twitters e facebooks” (como diria o dr. Paulo Futre) um suposto comunicado de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da nossa desgraçada República, a lamentar oficialmente a morte de George Michael. Nos tempos que correm, uma pessoa até duvida que não seja mais um caso de “fake news” que se tornou viral e em que toda a gente acredita. Mas, tratando-se de Marcelo, ninguém pode dizer que a veracidade da coisa não seja plausível. E que seja tão plausível uma declaração de Marcelo ser tomada como autêntica como ser um caso de “fake news” diz muito acerca do Presidente da República e da sua credibilidade.

O mundo de Putin

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Há dias, o Económico pedia aos seus leitores que votassem em quem julgavam ter sido a principal figura de 2016. A tentação de escolher Donald Trump talvez seja grande, mas a única resposta decente é Vladimir Putin. Não por o autocrata russo merecer mais louvores que o primeiro presidente laranja dos EUA, mas por quase tudo o que aconteceu em 2016, da Síria ao próprio Trump, ter tido o seu dedo metido ao barulho. Mas, ao contrário do que a forma como Putin era apresentada como escolha nessa votação parece sugerir, essa quase omnipresença do líder russo no lodaçal internacional não se deve a um “grande poder” de uma Rússia em “expansão”. Pelo contrário: é um produto de tanto a Rússia como o regime de Putin serem extremamente frágeis.

A economia russa está em recessão há dois anos. A moeda perde força à medida que Putin manda imprimir cada vez mais dinheiro para tentar esconder o facto de que ele vale cada vez menos. Os preços dos bens disparam em resultado desse truque, e o desemprego segue o mesmo caminho. Se a isto juntarmos a profunda crise demográfica do país, e a esta fraqueza conjuntural a fragilidade e sentimento de ameaça históricos do país – sendo um país periférico, geograficamente distante do coração do continente europeu, com a maior massa continental do mundo (o que o torna difícil de defender) e com uma população com uma enorme variedade étnica (o que, juntamente com a dimensão territorial, o torna difícil de governar) – rapidamente se compreende que a Rússia, hoje como no passado, não consegue fugir a um modelo de governo autocrático e, especialmente, externamente agressivo.

Em primeiro lugar, o nacionalismo da população russa torna-a presa fácil da exploração que Putin faz da sua política externa agressiva como arma de propaganda interna, conseguido assim obter o apoio que o desastre económico a que tem presidido não lhe permitiria obter. Em segundo lugar, como depende consideravelmente das receitas do sector energético para se enriquecer a si própria e para subornar o maior número de gente possível (na Rússia e no estrangeiro), a máfia putinista depende da obtenção e manutenção do controlo de regiões estratégicas para o sucesso desse sector e de empresas do sector noutros países, para neles exercer “influência”. E finalmente, Putin percebe que quantas mais crises internacionais criar ou ajudar a agravar, ou quanto maior for o conflito político interno no seio dos países seus rivais, mais dificuldades lhes cria, ao dividir as suas alianças ou ao fragilizar o seu apoio político e estabilidade internos. Por isso patrocina partidos em vários países europeus, divulga (na Ucrânia, Eslováquia, Polónia ou EUA) escutas secretas de políticos e emails extraídos de “hacks” aos partidos, e, com a Russia Today, a Sputnik News e a “quinta de trolls” do regime, inunda o espaço mediático de teorias da conspiração num bem sucedido esforço de descredibilizar toda e qualquer fonte de informação.

2017 não será diferente. Na Síria, tudo ficará na mesma. Em França, qualquer um dos principais candidatos presidenciais está em sintonia com os interesses russos. Nos EUA, Putin terá um admirador na Casa Branca e uma série de gente com ligações ao seu país (e negócios) na sua equipa. E, a caminho das eleições alemãs em Outubro, não faltarão “incidentes” como os que marcaram as americanas de Novembro. Vivemos em 2016 (e viveremos em 2017) no mundo de Putin: um mundo onde impera a força bruta, a manipulação e a corrupção. Não é, nem será, um sítio agradável para se viver.

Guterres

Tenho para com a tomada de posse de António Guterres como Secretário-Geral da ONU a mesma atitude que Ferro Rodrigues um dia disse ter para com o segredo de justiça. E acho que não me engano se disser que o resto do mundo me acompanha.

O problema italiano

A Itália, em certo sentido, não existe. É, como país, uma invenção mais ou menos recente: sendo uma região altamente montanhosa, o relativo isolamento das diferentes povoações que daí resultava (evidente, ainda hoje, nas diferenças entre o italiano que se fala em cada uma delas) favorecia não só a sua fragmentação política (os habitantes de Turim não se viam como conterrâneos dos habitantes de Veneza, muito menos dos de Nápoles) como a tornava particularmente vulnerável a invasões estrangeiras, enquanto a riqueza do norte da Península (abençoada com um solo rico e rios navegáveis que facilitavam o comércio) e a localização no centro do Mediterrâneo a tornavam apetecível aos reinos (e Impérios) da vizinhança. Afinal, o Império Romano caíra assim, com invasões dos povos germânicos a norte, e desde então, a divisão da península em vários reinos pequenos e fracos foi sempre vista como a razão para as constantes invasões e ocupações que, de Norte a Sul, marcaram os séculos seguintes.

No final do século XIX, os governantes do principado do Piemonte conseguiram finalmente unificar sob o seu domínio estas várias províncias, mas como se queixaria o Marquês de Azeglio, se “a Itália estava feita, restava ainda fazer os italianos”: as várias gentes destas várias terras não se viam como partes iguais de um mesmo povo – o cineasta “italo-americano” Martin Scorsese conta que, na sua rua em “Little Italy”, as pessoas do seu prédio, todas originárias da mesma vila siciliana, não falavam com as do prédio da frente, por serem de uma outra vila – e o Estado central era inevitavelmente visto como um poder ilegítimo e estrangeiro por cada um deles. A história repleta de revoltas, pequenas guerras civis e terrorismo que se seguiu era assim particamente uma inevitabilidade, e a única forma que o poder político encontrou de pacificar a propensão de províncias e grupos políticos para a insurreição era tentar comprá-las com rendas: desde os Católicos que resistiram à unificação (por ter posto em causa a independência dos Estados papais) aos partidos regionais independentistas como a Liga Norte dos nossos dias, passando pelos socialistas do século passado e pelos vários grupos de interesse que, ao longo da história italiana foram ganhando força suficiente para reclamarem um lugar à mesa do Orçamento (sindicatos, associações patronais, trabalhadores agrícolas, donos de terras, etc.) todos foram “integrados” no sistema, através da partilha da riqueza que este ia conseguindo extrair ao resto da sociedade.

Se esta estratégia de partilhar entre as várias forças políticas e seus clientes os despojos do Tesouro conseguiu evitar a “desunificação”, não conseguiu evitar uma série de problemas. Criou, em primeiro lugar, uma série de ressentimentos mútuos que ainda hoje alimentam a política italiana: o Sul pobre (com o solo bem menos fértil que no Norte, as províncias do Sul de Itália nunca conseguiram gerar a riqueza dos seus vizinhos, nem ter o capital suficiente para se industrializarem quando eles se industrializaram) foi sempre economicamente atrasado em relação ao Norte, ficando na sua dependência económica; enquanto o Norte se ressentia (e ressente-se: a Liga Norte nasce e vive disto) de “pagar” a “preguiça” do Sul (parece-vos familiar?), as províncias do Sul abominava as imposições nortenhas (Cavour, o grande obreiro da unificação, achava que o atraso sulista se devia à falta de instituições semelhantes às do Piemonte, e tratou de as impor no Sul. Obviamente, não resolveu nada e apenas conseguiu a hostilidade local). Em segundo lugar, criou uma fonte de perenes problemas orçamentais e de sustentabilidade das finanças públicas, tão ou mais graves hoje do que o foram no final do século XIX: a necessidade de fazer chover dinheiro público em cima dos partidos, dos governos regionais, das autoridades municipais, e das suas várias e respectivas clientelas faz com que o Estado italiano tenha sempre que gastar mais do que aquilo que consegue cobrar em impostos, problema que só se irá agravar à medida que a população continuar a envelhecer e a recolher pensões. Em terceiro lugar, criou uma sociedade profundamente desigual e à beira do colapso, em que quem tem a sorte de estar dentro do sistema se pode sentir relativamente seguro, mas quem esteja fora dele (trabalhadores não sindicalizados, desempregados, os mais jovens) fica à margem e sem grande futuro. E, por último, criou um quadro institucional necessariamente frágil, que, tendo como principal propósito equilibrar de forma mais ou menos equitativa as várias e concorrentes reclamações dos grupos integrantes do sistema, não pode nem quer enfrentar os seus problemas: a quantidade inacreditável de governos que Itália teve e deixou cair desde o final da II Guerra Mundial nasce daqui, como nascera daqui a fragilidade dos Governos que se seguiram à unificação. O fascismo de Mussolini foi, entre outras coisas, uma tentativa de, com “mão forte”, sair deste impasse, como o foram também – de forma mais democrática – as propostas de reforma constitucional de Matteo Renzi ontem derrotadas.

Renzi achava com razão que com o sistema de governo actual – com bloqueios constantes no parlamento, no Senado e nos governos regionais – a Itália não conseguiria nunca fazer as reformas que precisa fazer. Não percebeu, no entanto, que a Itália não faz as reformas que precisa fazer porque a sociedade não as quer, e que é por não as querer fazer que tem o sistema que tem. Não percebeu, por exemplo, que ao procurar introduzir um sistema que praticamente garantia uma maioria absoluta no parlamento a quem quer que conseguisse ser o partido mais votado em futuras eleições, com o Senado mais fraco e amestrado e com governos regionais sem meios para servir de obstáculo ao Governo, estava a dizer ao sistema político italiano que quem perdesse cada futura eleição correria o risco de ficar excluído do festim orçamental. Ou seja, estava a pôr em causa o principal alicerce da política italiana desde a unificação.

Imaginemos que o “Sim” tinha ganho e Renzi conseguia ver aprovadas as suas reformas constitucionais e (o que não seria garantido) ganhar as eleições legislativas seguintes (em 2018 como planeado, ou antecipadas para 2017). Se promovesse uma série de reformas “liberalizantes” que destruíssem grande parte das protecções de que gozam aqueles que são parte integrante do sistema, abrindo oportunidades aos excluídos, Renzi enfrentaria necessariamente uma enorme oposição de várias “forças” mais ou menos “vivas” do país, que não teriam outra alternativa que não lutar até à (figurativa)morte contra a perda daquilo que as alimenta. O descontentamento de quem dependia do estado de coisas liquidado seria brutal, e daria certamente a vitória em próximas eleições ao populista Cinco Estrelas, e muito provavelmente ao crescimento (também brutal) da independentista Liga Norte. À medida que as “soluções fáceis” do Cinco Estrelas se provassem não serem soluções nenhumas, a instabilidade política cresceria ainda mais, principalmente tendo em conta que as novas regras constitucionais lhe dariam um poder imenso quase sem obstáculos, que incentivaria o combate desesperado das outras forças políticas, sempre sob a ameaça da exclusão da partilha rentista. A degradação do ambiente político prosseguiria, provavelmente com a Liga Norte a conseguir explorar e aproveitar-se do ressentimento do Norte rico com a barafunda generalizada, conseguindo talvez reduzir drasticamente as transferências das zonas ricas que representa para o Sul pobre, que se revoltaria com o abandono a que seria votado, ateando a fogueira do conflito regional e levando mais tarde ou mais cedo a um referendo independentista no Norte e à desintegração da unidade política do país. E se porventura Renzi, uma vez eleito, recuasse nas suas proclamadas intenções reformistas uma vez batendo no muro imobilista dos interesses instalados, teria de viver com as consequências da manutenção desse estado de coisas, desde a degradação das finanças públicas à das condições de vida de grande da população, levando ao crescimento do descontentamento com a sua governação, ao crescimento do Cinco Estrelas e sua provável subida ao governo seguida de nova desilusão e crescente instabilidade, e ao crescimento da Liga Norte e consequente deflagração dos conflitos regionais e possível desintegração do país enquanto tal.

A derrota de Renzi no referendo de ontem e a sua consequente demissão lançam a Itália numa profunda incerteza. O que não deve ser menosprezado, e em parte talvez explique o resultado, é que o resultado inverso produziria o mesmo efeito, porque não é o sistema político italiano que torna a sociedade italiana como ela é: é o facto de a Itália ser o que é que faz com que o seu sistema político seja como é. Renzi não percebeu que as reformas constitucionais que quis introduzir eram, não uma solução para o que quer que fosse, mas apenas um sintoma dos sérios problemas que a Itália enfrentou, enfrenta, e enfrentará.

Sobre o referendo em Itália

As más notícias são que, com a vitória do “Não” às reformas constitucionais de Renzi, o actual governo pode cair e, nas próximas eleições, o populista e anti-euro Cinco Estrelas pode chegar ao poder (para não falar de que a partir de amanhã, os bancos italianos enfrentarão dias difíceis. As boas notícias são que, com a vitória do “Não” às reformas constitucionais de Renzi, um futuro governo do populista e anti-euro Cinco Estrelas não terá tanto poder como Renzi queria que os governos passassem a ter.

Coisas que o jornalismo português podia investigar

portugal-russia O Ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva deu recentemente uma entrevista à agência noticiosa russa TASS, em que afirmou que o Estado português considera a Rússia “um parceiro chave da União Europeia”, e teceu grandes loas às boas relações que os dois países vão mantendo, esperando até que um novo acordo em torno de “cooperação técnica e económica” seja concluído em breve, de forma a “promover e fortalecer as nossas trocas”. As declarações não têm nada de extraordinário, mas apenas a habitual colecção de palavras bonitas que se dizem neste tipo de ocasiões. Mas ao lê-las, não pude deixar de pensar numa coisa: sabendo-se das dificuldades financeiras que o PS atravessava, da apetência que o regime russo tem para intervir na política interna de estados europeus (e não só), inclusive através do financiamento mais ou menos directo de partidos (como, por exemplo, a Frente Nacional), e da posição simpática que o actual Governo tem em relação ao fim da aplicação de sanções à Rússia como penalização pela invasão da Crimeia, talvez não fosse má ideia que o jornalismo português se dedicasse a procurar saber se a Rússia também interfere na política portuguesa, e se o PS (ou outro partido qualquer) beneficia dessa interferência.

Pedro, Trump e o lobo

trump-triumphant O André e consequentemente o por ele citado Daniel Hannan têm razão ao notarem como a “esquerda” europeia tem o triste hábito de apelidar de “fascista” para baixo todo e qualquer presidente (ou candidato a presidente) Republicano (e por vezes Democrata) dos EUA. De facto, ao tratarem gente fundamentalmente decente (por muito que se possa, evidentemente, discordar deles) como Reagan, Romney ou Bush como uma espécie de “novo Hitler” é, para além de simplesmente absurdo, retirar a palavras como “fascista”, “nazi” ou “autoritário” qualquer validade, incluindo – e especialmente – para quando estas devam mesmo ser aplicadas. No fundo, é o princípio “Pedro e o lobo”: de tantas vezes se grita “fascista”, que quando um aparecer, o aviso será olimpicamente ignorado.

Obviamente, Trump não é Hitler, por muito que alguns dos seus apoiantes sejam também admiradores do fundador da outra “escola austríaca”. Mas não é preciso ser Hitler para ser um racista corrupto sem qualquer apreço pelas normas de uma sociedade democrática decente, e cuja visão do mundo e do papel da América nele coincide com os interesses do chefe de um estado corrupto e autoritário que representa uma ameaça à segurança dos seus vizinhos. E o que seria realmente importante perceber é que estar a discutir se o homem é Hitler ou não é pura e simplesmente contribuir para que não se discuta como e quão realmente mau ele efectivamente é; e o problema daquilo para que Hannan alerta é precisamente o de contribuir para que, quando alguém realmente mau e perigoso aparece mesmo, se perca a capacidade de o criticar e de alertar para o quão mau e perigoso ele é. Que outros tenham cometido o erro de gastar o significado e a validade de certas palavras em todo e qualquer um com quem não concordavam, é um erro deles, cujas consequências todos nós pagaremos de uma forma ou de outra. Que agora nós deixemos de usar algumas dessas palavras quando elas devem ser usadas, só porque outros as usaram indevidamente no passado, é outro erro, que não devemos cometer e pelo qual pagaremos um preço bem mais caro se de facto o cometermos.

A sociedade fechada e os seus amigos

Pelo andar da carruagem, temo que no futuro, o debate político se vá travar entre a “esquerda” e a “direita” anti-globalização e anti-liberdade, formas alternadas de iliberalismo, cuja única diferença estará em quais os grupos que beneficiarão da corrupção e abuso de poder, e quais serão prejudicados.

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putin-usa