Rebenta a bolha

rebenta-a-bolha Ao que parece, Portugal emitiu títulos de dívida pública – ou seja, pediu dinheiro emprestado – por um prazo de seis e doze meses a juros negativos. Tendo em conta que isto sucede poucas semanas depois de ter sido obrigado a aceitar juros de 4% por empréstimos com o prazo de dez anos, só se pode chegar a uma conclusão: a política do BCE está a criar uma bolha no mercado dos títulos de dívida, mas toda a gente espera que, a médio ou longo prazo, ela acabe por rebentar, e ninguém confia na capacidade do Estado português saldar as suas dívidas quando tal acontecer.

Kompromat (2)

Como é óbvio, não é necessário que a informação com que os serviços secretos russos pretenderão comprometer Donald Trump seja verdadeira. É perfeitamente plausível que seja uma fabricação, e até que a sua divulgação seja uma extraordinária operação de desinformação destinada a descredibilizar o processo democrático americano e a instalar o caos (uma prática e um objectivo sobejamente conhecidos dos serviços secretos russos e do Kremlin). Seja verdade, seja uma fabricação, tudo isto é suficientemente grave e perigoso -para os EUA, para a NATO, enfim, para todos nós.

Kompromat

Talvez fosse por isto que Donald Trump achava que não precisava dos briefings dos serviços secretos – já sabia o seu conteúdo, através do FSB.

“Classified documents presented last week to President Obama and President-elect Trump included allegations that Russian operatives claim to have compromising personal and financial information about Mr. Trump, multiple US officials with direct knowledge of the briefings tell CNN.

The classified briefings last week were presented by four of the senior-most US intelligence chiefs — Director of National Intelligence James Clapper, FBI Director James Comey, CIA Director John Brennan, and NSA Director Admiral Mike Rogers.

One reason the nation’s intelligence chiefs took the extraordinary step of including the synopsis in the briefing documents was to make the President-elect aware that such allegations involving him are circulating among intelligence agencies, senior members of Congress and other government officials in Washington, multiple sources tell CNN.

These senior intelligence officials also included the synopsis to demonstrate that Russia had compiled information potentially harmful to both political parties, but only released information damaging to Hillary Clinton and Democrats. This synopsis was not an official part of the report from the intelligence community case about Russian hacks, but some officials said it augmented the evidence that Moscow intended to harm Clinton’s candidacy and help Trump’s, several officials with knowledge of the briefings tell CNN.

The two-page synopsis also included allegations that there was a continuing exchange of information during the campaign between Trump surrogates and intermediaries for the Russian government, according to two national security officials.

Sources tell CNN that these same allegations about communications between the Trump campaign and the Russians, mentioned in classified briefings for congressional leaders last year, prompted then-Senate Democratic Leader Harry Reid to send a letter to FBI Director Comey in October, in which he wrote, “It has become clear that you possess explosive information about close ties and coordination between Donald Trump, his top advisors, and the Russian government — a foreign interest openly hostile to the United States.”

“Fake news”

Corre aí pela internet um rumor de que Diogo Freitas do Amaral não estará presente nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, por ter sido sujeito a uma cirurgia à coluna. Trata-se obviamente de mais um caso das “fake news” que agora proliferam nas “redes sociais”, pois essa é uma parte da anatomia humana que, ao longo da sua carreira, Freitas do Amaral sempre deu provas de dispensar por completo.

Sócrates sobre Soares

socrates-soares Neste momento, à porta do Mosteiro dos Jerónimos, José Sócrates está a falar de Soares. O conteúdo da intervenção merece ser transcrito (e traduzido do socratês para a língua portuguesa): “Eu sou extraordinário. De longe o melhor homem que já existiu. Sou, indiscutivelmente, o melhor. Vejam o meu carisma. Imenso. Extraordinário. O mundo está contra mim, mas eu resisto, porque sou o melhor. Não há ninguém como eu. Veja, veja o quão inteligente eu sou. E carismático? Já lhe falei no meu carisma? Até escrevi um livro sobre isso. Falo de Mandela, Luther King, Soares, Lula, tudo homens extraordinários, mas acima de tudo pessoas que apenas mostram o quão brilhante eu sou, mais até do que eles. Por causa do meu carisma, que é imenso. Sou, afinal, um animal feroz. Extraordinário. E cheio de carisma. Já lhe falei no meu carisma? Isso é que realmente importa, o meu imenso carisma. Sou extraordinário. O melhor. Muito obrigado.”

Inglês técnico

José Miguel Júdice, prova andante de que em Portugal a mediocridade compensa e bem, acaba de dizer na TVI24 que Angela Merkel “é uma survival“.

Marcelo e “fake news”

marcelo-george-michael Corre aí pelos “twitters e facebooks” (como diria o dr. Paulo Futre) um suposto comunicado de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da nossa desgraçada República, a lamentar oficialmente a morte de George Michael. Nos tempos que correm, uma pessoa até duvida que não seja mais um caso de “fake news” que se tornou viral e em que toda a gente acredita. Mas, tratando-se de Marcelo, ninguém pode dizer que a veracidade da coisa não seja plausível. E que seja tão plausível uma declaração de Marcelo ser tomada como autêntica como ser um caso de “fake news” diz muito acerca do Presidente da República e da sua credibilidade.

O mundo de Putin

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Há dias, o Económico pedia aos seus leitores que votassem em quem julgavam ter sido a principal figura de 2016. A tentação de escolher Donald Trump talvez seja grande, mas a única resposta decente é Vladimir Putin. Não por o autocrata russo merecer mais louvores que o primeiro presidente laranja dos EUA, mas por quase tudo o que aconteceu em 2016, da Síria ao próprio Trump, ter tido o seu dedo metido ao barulho. Mas, ao contrário do que a forma como Putin era apresentada como escolha nessa votação parece sugerir, essa quase omnipresença do líder russo no lodaçal internacional não se deve a um “grande poder” de uma Rússia em “expansão”. Pelo contrário: é um produto de tanto a Rússia como o regime de Putin serem extremamente frágeis.

A economia russa está em recessão há dois anos. A moeda perde força à medida que Putin manda imprimir cada vez mais dinheiro para tentar esconder o facto de que ele vale cada vez menos. Os preços dos bens disparam em resultado desse truque, e o desemprego segue o mesmo caminho. Se a isto juntarmos a profunda crise demográfica do país, e a esta fraqueza conjuntural a fragilidade e sentimento de ameaça históricos do país – sendo um país periférico, geograficamente distante do coração do continente europeu, com a maior massa continental do mundo (o que o torna difícil de defender) e com uma população com uma enorme variedade étnica (o que, juntamente com a dimensão territorial, o torna difícil de governar) – rapidamente se compreende que a Rússia, hoje como no passado, não consegue fugir a um modelo de governo autocrático e, especialmente, externamente agressivo.

Em primeiro lugar, o nacionalismo da população russa torna-a presa fácil da exploração que Putin faz da sua política externa agressiva como arma de propaganda interna, conseguido assim obter o apoio que o desastre económico a que tem presidido não lhe permitiria obter. Em segundo lugar, como depende consideravelmente das receitas do sector energético para se enriquecer a si própria e para subornar o maior número de gente possível (na Rússia e no estrangeiro), a máfia putinista depende da obtenção e manutenção do controlo de regiões estratégicas para o sucesso desse sector e de empresas do sector noutros países, para neles exercer “influência”. E finalmente, Putin percebe que quantas mais crises internacionais criar ou ajudar a agravar, ou quanto maior for o conflito político interno no seio dos países seus rivais, mais dificuldades lhes cria, ao dividir as suas alianças ou ao fragilizar o seu apoio político e estabilidade internos. Por isso patrocina partidos em vários países europeus, divulga (na Ucrânia, Eslováquia, Polónia ou EUA) escutas secretas de políticos e emails extraídos de “hacks” aos partidos, e, com a Russia Today, a Sputnik News e a “quinta de trolls” do regime, inunda o espaço mediático de teorias da conspiração num bem sucedido esforço de descredibilizar toda e qualquer fonte de informação.

2017 não será diferente. Na Síria, tudo ficará na mesma. Em França, qualquer um dos principais candidatos presidenciais está em sintonia com os interesses russos. Nos EUA, Putin terá um admirador na Casa Branca e uma série de gente com ligações ao seu país (e negócios) na sua equipa. E, a caminho das eleições alemãs em Outubro, não faltarão “incidentes” como os que marcaram as americanas de Novembro. Vivemos em 2016 (e viveremos em 2017) no mundo de Putin: um mundo onde impera a força bruta, a manipulação e a corrupção. Não é, nem será, um sítio agradável para se viver.

Guterres

Tenho para com a tomada de posse de António Guterres como Secretário-Geral da ONU a mesma atitude que Ferro Rodrigues um dia disse ter para com o segredo de justiça. E acho que não me engano se disser que o resto do mundo me acompanha.

O problema italiano

A Itália, em certo sentido, não existe. É, como país, uma invenção mais ou menos recente: sendo uma região altamente montanhosa, o relativo isolamento das diferentes povoações que daí resultava (evidente, ainda hoje, nas diferenças entre o italiano que se fala em cada uma delas) favorecia não só a sua fragmentação política (os habitantes de Turim não se viam como conterrâneos dos habitantes de Veneza, muito menos dos de Nápoles) como a tornava particularmente vulnerável a invasões estrangeiras, enquanto a riqueza do norte da Península (abençoada com um solo rico e rios navegáveis que facilitavam o comércio) e a localização no centro do Mediterrâneo a tornavam apetecível aos reinos (e Impérios) da vizinhança. Afinal, o Império Romano caíra assim, com invasões dos povos germânicos a norte, e desde então, a divisão da península em vários reinos pequenos e fracos foi sempre vista como a razão para as constantes invasões e ocupações que, de Norte a Sul, marcaram os séculos seguintes.

No final do século XIX, os governantes do principado do Piemonte conseguiram finalmente unificar sob o seu domínio estas várias províncias, mas como se queixaria o Marquês de Azeglio, se “a Itália estava feita, restava ainda fazer os italianos”: as várias gentes destas várias terras não se viam como partes iguais de um mesmo povo – o cineasta “italo-americano” Martin Scorsese conta que, na sua rua em “Little Italy”, as pessoas do seu prédio, todas originárias da mesma vila siciliana, não falavam com as do prédio da frente, por serem de uma outra vila – e o Estado central era inevitavelmente visto como um poder ilegítimo e estrangeiro por cada um deles. A história repleta de revoltas, pequenas guerras civis e terrorismo que se seguiu era assim particamente uma inevitabilidade, e a única forma que o poder político encontrou de pacificar a propensão de províncias e grupos políticos para a insurreição era tentar comprá-las com rendas: desde os Católicos que resistiram à unificação (por ter posto em causa a independência dos Estados papais) aos partidos regionais independentistas como a Liga Norte dos nossos dias, passando pelos socialistas do século passado e pelos vários grupos de interesse que, ao longo da história italiana foram ganhando força suficiente para reclamarem um lugar à mesa do Orçamento (sindicatos, associações patronais, trabalhadores agrícolas, donos de terras, etc.) todos foram “integrados” no sistema, através da partilha da riqueza que este ia conseguindo extrair ao resto da sociedade.

Se esta estratégia de partilhar entre as várias forças políticas e seus clientes os despojos do Tesouro conseguiu evitar a “desunificação”, não conseguiu evitar uma série de problemas. Criou, em primeiro lugar, uma série de ressentimentos mútuos que ainda hoje alimentam a política italiana: o Sul pobre (com o solo bem menos fértil que no Norte, as províncias do Sul de Itália nunca conseguiram gerar a riqueza dos seus vizinhos, nem ter o capital suficiente para se industrializarem quando eles se industrializaram) foi sempre economicamente atrasado em relação ao Norte, ficando na sua dependência económica; enquanto o Norte se ressentia (e ressente-se: a Liga Norte nasce e vive disto) de “pagar” a “preguiça” do Sul (parece-vos familiar?), as províncias do Sul abominava as imposições nortenhas (Cavour, o grande obreiro da unificação, achava que o atraso sulista se devia à falta de instituições semelhantes às do Piemonte, e tratou de as impor no Sul. Obviamente, não resolveu nada e apenas conseguiu a hostilidade local). Em segundo lugar, criou uma fonte de perenes problemas orçamentais e de sustentabilidade das finanças públicas, tão ou mais graves hoje do que o foram no final do século XIX: a necessidade de fazer chover dinheiro público em cima dos partidos, dos governos regionais, das autoridades municipais, e das suas várias e respectivas clientelas faz com que o Estado italiano tenha sempre que gastar mais do que aquilo que consegue cobrar em impostos, problema que só se irá agravar à medida que a população continuar a envelhecer e a recolher pensões. Em terceiro lugar, criou uma sociedade profundamente desigual e à beira do colapso, em que quem tem a sorte de estar dentro do sistema se pode sentir relativamente seguro, mas quem esteja fora dele (trabalhadores não sindicalizados, desempregados, os mais jovens) fica à margem e sem grande futuro. E, por último, criou um quadro institucional necessariamente frágil, que, tendo como principal propósito equilibrar de forma mais ou menos equitativa as várias e concorrentes reclamações dos grupos integrantes do sistema, não pode nem quer enfrentar os seus problemas: a quantidade inacreditável de governos que Itália teve e deixou cair desde o final da II Guerra Mundial nasce daqui, como nascera daqui a fragilidade dos Governos que se seguiram à unificação. O fascismo de Mussolini foi, entre outras coisas, uma tentativa de, com “mão forte”, sair deste impasse, como o foram também – de forma mais democrática – as propostas de reforma constitucional de Matteo Renzi ontem derrotadas.

Renzi achava com razão que com o sistema de governo actual – com bloqueios constantes no parlamento, no Senado e nos governos regionais – a Itália não conseguiria nunca fazer as reformas que precisa fazer. Não percebeu, no entanto, que a Itália não faz as reformas que precisa fazer porque a sociedade não as quer, e que é por não as querer fazer que tem o sistema que tem. Não percebeu, por exemplo, que ao procurar introduzir um sistema que praticamente garantia uma maioria absoluta no parlamento a quem quer que conseguisse ser o partido mais votado em futuras eleições, com o Senado mais fraco e amestrado e com governos regionais sem meios para servir de obstáculo ao Governo, estava a dizer ao sistema político italiano que quem perdesse cada futura eleição correria o risco de ficar excluído do festim orçamental. Ou seja, estava a pôr em causa o principal alicerce da política italiana desde a unificação.

Imaginemos que o “Sim” tinha ganho e Renzi conseguia ver aprovadas as suas reformas constitucionais e (o que não seria garantido) ganhar as eleições legislativas seguintes (em 2018 como planeado, ou antecipadas para 2017). Se promovesse uma série de reformas “liberalizantes” que destruíssem grande parte das protecções de que gozam aqueles que são parte integrante do sistema, abrindo oportunidades aos excluídos, Renzi enfrentaria necessariamente uma enorme oposição de várias “forças” mais ou menos “vivas” do país, que não teriam outra alternativa que não lutar até à (figurativa)morte contra a perda daquilo que as alimenta. O descontentamento de quem dependia do estado de coisas liquidado seria brutal, e daria certamente a vitória em próximas eleições ao populista Cinco Estrelas, e muito provavelmente ao crescimento (também brutal) da independentista Liga Norte. À medida que as “soluções fáceis” do Cinco Estrelas se provassem não serem soluções nenhumas, a instabilidade política cresceria ainda mais, principalmente tendo em conta que as novas regras constitucionais lhe dariam um poder imenso quase sem obstáculos, que incentivaria o combate desesperado das outras forças políticas, sempre sob a ameaça da exclusão da partilha rentista. A degradação do ambiente político prosseguiria, provavelmente com a Liga Norte a conseguir explorar e aproveitar-se do ressentimento do Norte rico com a barafunda generalizada, conseguindo talvez reduzir drasticamente as transferências das zonas ricas que representa para o Sul pobre, que se revoltaria com o abandono a que seria votado, ateando a fogueira do conflito regional e levando mais tarde ou mais cedo a um referendo independentista no Norte e à desintegração da unidade política do país. E se porventura Renzi, uma vez eleito, recuasse nas suas proclamadas intenções reformistas uma vez batendo no muro imobilista dos interesses instalados, teria de viver com as consequências da manutenção desse estado de coisas, desde a degradação das finanças públicas à das condições de vida de grande da população, levando ao crescimento do descontentamento com a sua governação, ao crescimento do Cinco Estrelas e sua provável subida ao governo seguida de nova desilusão e crescente instabilidade, e ao crescimento da Liga Norte e consequente deflagração dos conflitos regionais e possível desintegração do país enquanto tal.

A derrota de Renzi no referendo de ontem e a sua consequente demissão lançam a Itália numa profunda incerteza. O que não deve ser menosprezado, e em parte talvez explique o resultado, é que o resultado inverso produziria o mesmo efeito, porque não é o sistema político italiano que torna a sociedade italiana como ela é: é o facto de a Itália ser o que é que faz com que o seu sistema político seja como é. Renzi não percebeu que as reformas constitucionais que quis introduzir eram, não uma solução para o que quer que fosse, mas apenas um sintoma dos sérios problemas que a Itália enfrentou, enfrenta, e enfrentará.

Sobre o referendo em Itália

As más notícias são que, com a vitória do “Não” às reformas constitucionais de Renzi, o actual governo pode cair e, nas próximas eleições, o populista e anti-euro Cinco Estrelas pode chegar ao poder (para não falar de que a partir de amanhã, os bancos italianos enfrentarão dias difíceis. As boas notícias são que, com a vitória do “Não” às reformas constitucionais de Renzi, um futuro governo do populista e anti-euro Cinco Estrelas não terá tanto poder como Renzi queria que os governos passassem a ter.

Coisas que o jornalismo português podia investigar

portugal-russia O Ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva deu recentemente uma entrevista à agência noticiosa russa TASS, em que afirmou que o Estado português considera a Rússia “um parceiro chave da União Europeia”, e teceu grandes loas às boas relações que os dois países vão mantendo, esperando até que um novo acordo em torno de “cooperação técnica e económica” seja concluído em breve, de forma a “promover e fortalecer as nossas trocas”. As declarações não têm nada de extraordinário, mas apenas a habitual colecção de palavras bonitas que se dizem neste tipo de ocasiões. Mas ao lê-las, não pude deixar de pensar numa coisa: sabendo-se das dificuldades financeiras que o PS atravessava, da apetência que o regime russo tem para intervir na política interna de estados europeus (e não só), inclusive através do financiamento mais ou menos directo de partidos (como, por exemplo, a Frente Nacional), e da posição simpática que o actual Governo tem em relação ao fim da aplicação de sanções à Rússia como penalização pela invasão da Crimeia, talvez não fosse má ideia que o jornalismo português se dedicasse a procurar saber se a Rússia também interfere na política portuguesa, e se o PS (ou outro partido qualquer) beneficia dessa interferência.

Pedro, Trump e o lobo

trump-triumphant O André e consequentemente o por ele citado Daniel Hannan têm razão ao notarem como a “esquerda” europeia tem o triste hábito de apelidar de “fascista” para baixo todo e qualquer presidente (ou candidato a presidente) Republicano (e por vezes Democrata) dos EUA. De facto, ao tratarem gente fundamentalmente decente (por muito que se possa, evidentemente, discordar deles) como Reagan, Romney ou Bush como uma espécie de “novo Hitler” é, para além de simplesmente absurdo, retirar a palavras como “fascista”, “nazi” ou “autoritário” qualquer validade, incluindo – e especialmente – para quando estas devam mesmo ser aplicadas. No fundo, é o princípio “Pedro e o lobo”: de tantas vezes se grita “fascista”, que quando um aparecer, o aviso será olimpicamente ignorado.

Obviamente, Trump não é Hitler, por muito que alguns dos seus apoiantes sejam também admiradores do fundador da outra “escola austríaca”. Mas não é preciso ser Hitler para ser um racista corrupto sem qualquer apreço pelas normas de uma sociedade democrática decente, e cuja visão do mundo e do papel da América nele coincide com os interesses do chefe de um estado corrupto e autoritário que representa uma ameaça à segurança dos seus vizinhos. E o que seria realmente importante perceber é que estar a discutir se o homem é Hitler ou não é pura e simplesmente contribuir para que não se discuta como e quão realmente mau ele efectivamente é; e o problema daquilo para que Hannan alerta é precisamente o de contribuir para que, quando alguém realmente mau e perigoso aparece mesmo, se perca a capacidade de o criticar e de alertar para o quão mau e perigoso ele é. Que outros tenham cometido o erro de gastar o significado e a validade de certas palavras em todo e qualquer um com quem não concordavam, é um erro deles, cujas consequências todos nós pagaremos de uma forma ou de outra. Que agora nós deixemos de usar algumas dessas palavras quando elas devem ser usadas, só porque outros as usaram indevidamente no passado, é outro erro, que não devemos cometer e pelo qual pagaremos um preço bem mais caro se de facto o cometermos.

A sociedade fechada e os seus amigos

Pelo andar da carruagem, temo que no futuro, o debate político se vá travar entre a “esquerda” e a “direita” anti-globalização e anti-liberdade, formas alternadas de iliberalismo, cuja única diferença estará em quais os grupos que beneficiarão da corrupção e abuso de poder, e quais serão prejudicados.

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“Os americanos” e “os portugueses”

Não deve haver muita gente mais anti-Trump do que eu. Mas não embarco naquilo em que muito “intelectual” português ao estilo Rui Tavares vai embarcar a partir das próximas horas, insultando “os americanos” pela sua suposta “estupidez”. Os americanos que votaram em Trump fizeram, acho eu, uma escolha erradíssima. Mas enquanto “nós” portugueses continuarmos a eleger gente do calibre de Sócrates (um mentiroso patológico bem parecido nesse aspecto com Trump) e a dar credibilidade a burlões como Louçã, os “jovens turcos” do PS, Paulo Portas ou os “notáveis” do PSD, não vejo razão para a típica sobranceria preconceituosa que essa gente gosta de alardear sempre que “os americanos” escolhem um presidente que não lhes agrada. Mesmo quando (como é o caso agora e não foi com Reagan ou Bush, por exemplo) essa escolha ultrapassa os limites do razoável: pura e simplesmente, “nós” não temos legitimidade para termos essa atitude em relação “aos americanos”.

Ponto de situação (3)

Há medida que a noite avança, torna-se cada vez mais provável que, mesmo que Clinton consiga ganhar no voto popular, não consiga aquilo que realmente importa, obter os 270 votos no colégio eleitoral.

Dilema

Neste momento, a eleição parece estar indefinida, com resultados por apurar em estados importantes, e sem grandes projecções acerca do que esses resultados poderão ser. E começo a ficar na dúvida se devo ir dormir umas horas e acordar daqui a pouco para ver resultados a entrarem, ou se aguento umas horas à espera que a coisa se clarifique, pelo menos na Florida.

O que se está a passar na Florida

Aparentemente, na contagem de votos já verificada, Hillary está a ter melhores resultados do que Obama conseguiu nos mesmos locais há quatro anos quando ganhou o Estado, o que apontaria para uma vitória na Florida e a quase garantia da eleição como Presidente.

A importância da Florida

As urnas na Florida, ou melhor, em parte da Florida, estão prestes a fechar, e no FiveThirtyEight, Nate Silver explica a importância do resultado nesse Estado para a escolha de quem chegará à Presidência: se Hillary Clinton ganhar aí, as probabilidades de ganhar passam a ser de 95%. Se Trump ganhar a Florida, passará a ter 59% de hipóteses de ser eleito.

Quem vai ganhar?

538-forecast O FiveThirtyEight de Nate Silver, que costuma acertar nestas coisas, já divulgou a sua previsão final dos resultados das eleições presidenciais americanas. Hillary Clinton surge com 71,4% de probabilidades de ser eleita, tendo Donald Trump 28,6% de probabilidades de a derrotar. Silver dá a Clinton uma probabilidade ligeiramente maior de ganhar estados como a Florida, o Nevada, a Pennsylvania e o New Hampshire, o que seria mais do que suficiente para lhe dar os votos de que precisa no colégio eleitoral (302, quando são necessários 270), mesmo que Trump consiga ganhar outros estados. Claro que 28,6% de probabilidades de ganhar não são 0% de probabilidades, mas uma vitória de Trump seria mesmo uma (desagradável) surpresa.

Comando sem pilha

Não há melhor símbolo do deslumbramento acrítico com a Web Summit e tudo o que cheire vagamente a “tecnologia”, e do pouco contacto desse deslumbramento com a realidade como ela é neste país, que o episódio do comando sem pilha de António Costa na inauguração do “galo” de Joana Vasconcelos (outra fraude cuja existência demonstra como os portugueses comem tudo o que lhes ponham no prato, por muito intragável que seja).