Os cúmplices (3)

De onde vem este consenso, sobretudo entre os economistas que comentam e opinam, sobre o triste resultado, na economia nacional, das políticas públicas socialistas? De onde vem este consenso, que hoje nos entra pela televisão, jornais e rádio, que assevera a maquilhagem, durante anos, das contas públicas pelos socialistas? De onde vem este consenso, partilhado por quem há anos comenta e analisa e detalha a economia, sobre o triste estado da nossa situação orçamental?

Pode haver quem se esqueça do que a esmagadora maioria desses senhores, supostamente esclarecidos, supostamente especialistas, andou a dizer nos últimos anos. Ou do desdém com que olhavam para quem ousasse alertar para a realidade que hoje se conhece. Mas eu não me esqueço.

E é por isso com nojo, exactamente – nojo – , que os vejo hoje, com ar grave e sério, a atestar o estado de emergência orçamental. Como se o estado de emergência tivesse surgido do nada. Como se o estado de emergência não tivesse surgido com a sua activa cooperação. Como se, afinal de contas, eles não tivessem sido parte da encenação socialista que nos trouxe até aqui.

Novo Insurgente: Tiago Loureiro

Quem nos segue na nossa página do Facebook já saberá que a partir de hoje contamos com um novo membro n’O Insurgente, o Tiago Loureiro. Alguns conhecê-lo-ão da blogosfera já que, apesar dos 24 anos, não é propriamente um novato nestas andanças, tendo eu tido a sorte de com ele poder contar, por exemplo, no Rua Direita.

Por ser meu amigo, e só por isso, cabe-me a tarefa de o apresentar aos leitores d’O Insurgente. Mas o Tiago não entra hoje para O Insurgente por ser meu amigo, que agradeço; ou por ser um fanático de Jorge Palma, que é sinal de bom gosto; ou sequer por ser sportinguista, que lamento.

O Tiago entra hoje para O Insurgente, como espero que muitos entrem no futuro, porque, como cada um dos que aqui está, à sua maneira, tem más relações com o socialismo e preza demais a liberdade. E gosta de explicar porquê.

Cada um terá as suas razões para se afastar do socialismo e prezar a liberdade. No caso do Tiago, como ele próprio diz, sendo capitalista não praticante (ao que parece, o dinheiro não lhe sobra nos bolsos), sempre preferiu ser ele gastar mal o dinheiro. É um excelente motivo, a juntar a todos os outros que ele por aqui evidenciará.

O Tiago logo explicará, se tiver vagar, o papel que a blogosfera desempenhou na sua tomada de consciência política. Mas posso garantir-vos que a sua entrada hoje, neste blogue, me dá uma particular sensação de recompensa. E digo-o sem qualquer paternalismo. Antes pelo contrário. Terão ocasisão de perceber porquê.

Desculpe??

A Comissão Europeia veio, ao que parece, e em comunicado, sugerir a criação de um novo imposto, desta feita europeu, para aumentar os recursos próprios da União. O objectivo, segundo diz a Comissão, é reduzir as contribuições dos Estados-membros.

Não entendo.

Se o dinheiro dos Estados vem dos contribuintes, qual é a necessidade de reduzir a contribuição dos Estados-membros, já que é o mesmo contribuinte que paga?

E já agora, se o contribuinte é o mesmo, a criação deste novo imposto envolve a proporcional redução das cargas fiscais nacionais? Ou o objectivo, vai lá ver, não é tanto o de reduzir a contribuição dos Estados-membros mas, isso sim, o de agravar ainda mais a carga fiscal dos contribuintes?

O beco sem saída de Passos (3)

Passos Coelho não é, nem está, obrigado a viabilizar o Orçamento de Estado. Ele tem, aliás, amplos motivos de ordem política, económica e financeira, para o não aprovar. E existem outros partidos que o podem fazer (embora destes se exija um voto favorável e não, como ao PSD, uma mera abstenção). Porque considero então que, tendo esta ampla liberdade, Passos Coelho está num beco sem saída?

Porque, de forma absurdamente desnecessária, Passos Coelho se colocou na boca do lobo. Chamou a si, desde o começo, o protagonismo do destino do Orçamento. Assumiu, antes de qualquer outro, o papel de condição necessária de viabilização do Orçamento. Apagou, de forma deliberada, qualquer papel dos restantes partidos da oposição na construção de uma qualquer solução. Apareceu, desde o primeiro dia, a condicionar a discussão orçamental, antecipando votos e posições, centralizando em si o procedimento de aprovação do documento. Passos centralizou no PSD a oposição e a solução para o país.

Com esta temerária estratégia, Passos desviou o centro da discussão. Em vez de termos começado o folhetim orçamental por olhar para o Orçamento e para o Governo, olhámos, por vontade do próprio, para Passos e para o PSD. Em vez de termos começado a discutir o Orçamento num plano parlamentar, discutimo-lo, por vontade do próprio, ao sabor das posições e medidas de Passos e do PSD.

Bem ou mal, justa ou injustamente, o que hoje politicamente se discute são os humores do PSD quanto ao Orçamento. Isto não teria grande mal se os protagonistas fossem outros. Acontece que o país já conhece Sócrates e a sua teimosia e esperava que Passos também a conhecesse. De Sócrates, o país não espera que ceda. Já de Passos a coisa é diferente. É por isso que centralizar o Orçamento em Passos tem a dimensão que tem: é dele que se espera uma resposta, pois que de Sócrates já todos sabemos, e soubemos, que não cederá. É nas mãos de Passos que está a solução.

De nada vale agora apelar para o parlamento ou para as outras forças políticas. De nada vale agora insistir na necessidade de encontrar uma solução que ultrapasse o PSD. Politicamente o eleitorado foi conduzido, por Passos, ao ponto em que estamos: o PSD viabiliza o Orçamento? É esse o beco de Passos. Tome a decisão que tomar, é ele o responsável.

Dito isto, mantenho que considero que todos aqueles que, como eu, consideram que este Orçamento deve ser, a manter-se o que vem sendo anunciado, chumbado, estão a exigir demais de Passos com a conversa de que só é sério e capaz e de fibra se inviabilizar o Orçamento.

O beco sem saída de Passos (2)

Se o PSD estivesse mesmo à procura de espaço para inviabilizar o Orçamento, como esta notícia do DN procura dar conta, a convicção, anunciada pelo FMI, de que as medidas de austeridade anunciadas pelo Governo vão empurrar Portugal para a recessão, seria como ouro sobre azul para Pedro Passos Coelho. Oferece-lhe, como se ela ainda fosse necessária, a confirmação de que as medidas apresentadas pelo Governo são más e insuficientes para injectar credibilidade na nossa economia.

As coisas não são, no entanto, o que parecem. A notícia do DN não retrata propriamente a vontade de o PSD encontrar espaço e fundamento para inviabilizar o Orçamento. Antes pelo contrário, ela retrata, isso sim, a recente estratégia do PSD para encontrar espaço para o viabilizar. A estratégia, que seria boa se tivesse sido posta em prática desde o começo do folhetim orçamental, passa, por um lado, por fazer crescer o peso do PSD nas negociações do Orçamento e passa, por outro lado, por criar a imagem de um partido livre (e não encurralado, como efectivamente está) nas suas opções e confiante na sua liderança.

Se assim é, toda e qualquer notícia que acentue o disparate de Orçamento a apresentar pelo Governo terá por condão a diminuição do espaço político que Passos Coelho agora tenta criar. Essas notícias, que Passos agradecerá nos meses de execução orçamental, são agora dispensáveis para quem, como ele, procura aclimatar-se às irrenunciáveis pressões para viabilizar o Orçamento, que aqui já descrevi e para onde remeto. 

Se Passos Coelho estiver, como em minha opinião está, num beco sem saída, estas notícias não só lhe diminuem o espaço político como oferecem, a quem já espreita, boas oportunidades para questionar a liderança de Passos, dizendo aliás dele o que Passos disse de Manuela Ferreira Leite…

Os cúmplices (2)

Tenho chamado várias vezes a atenção, aqui n’O Insurgente, para o papel dos cúmplices do Governo na criação de uma ilusão colectiva que retrata Portugal como um país em crescimento e não como um país à beira do abismo. Faço-o não para desresponsabilizar o Governo, que é efectivamente o primeiro e último responsável pelo estado de coisas, mas para tentar ajudar a explicar o sucesso da estratégia de ilusão e o seu papel na carreira governativa dos socialistas.

Ao contrário do PSD, cujas chamadas elites se apressam a criticá-lo assim que lhes cheira a algo que lhes coloque o nome em risco (basta ver, por exemplo, a forma como sem grande problema se dedicaram a criticar os Governos de Durão, de Santana ou mesmo de Cavaco), o PS beneficia de uma espécie de cumplicidade das suas chamadas elites (filiadas ou não), que impede ou dificulta que o país acorde para a realidade.

Essa cumplicidade pode ser passiva, passando pelo absurdo, mesmo quando ruidoso, silêncio, como pode ser activa, passando pela despudorada e desonesta defesa de teses e teorias que se sabem falsas ou ilusórias. Há episódios para todos os gostos, desde o silêncio perante um deputado que furta gravadores a jornalistas, até à defesa despudorada de políticas despesistas e eleitoralistas que agora, também com a sua despudorada defesa, são revogadas. 

De uma forma ou de outra, a governação socialista passa assim sem que alguém insuspeito, e por isso das suas próprias fileiras (partidárias ou ideológicas), diga que o Rei vai nu. É por isso, essencialmente por isso, que a opinião pública, beneficiando aliás de uma certa preguiça da comunicação social, vai tomando como exagerada ou histérica a reacção da oposição às políticas ruinosas dos socialistas.

Manuela Ferreira Leite soou demasiado alarmista, não tanto porque do PSD lhe faltou apoio, mas porque o povo não estava preparado para que o estado de coisas que ela relatou pudesse existir sem que, do lado dos senadores e das reservas do país, se ouvisse um “ui” sequer. Se a situação fosse tão desesperada como Manuela Ferreira Leite a pintava, evidentemente que uma enorme mole de gente sábia e respeitável, mesmo do lado dos socialistas, estaria igualmente a alertar o país para o país. Se essas reservas estavam caladas, Manuela Ferreira Leite estava apenas a fazer oposição. Simples.

É por isso que entrevistas como a que hoje é feita a Henrique Neto fizeram falta, não agora, momento em que o país começa a acordar, mas durante os meses em que a estratégia da ilusão funcionava em pleno e era necessário trazer a público todos aqueles que, sendo insuspeitos porque não ligados a qualquer outro partido, estavam na disposição de cumprir a sua função de elite.

Era então que apetecia ler, de um histórico do PS, que “Sócrates iludiu, durante cinco longos anos, todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente. Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras”. Agora vem tarde.

O beco sem saída de Passos

São vários os apelos, mais na blogosfera do que propriamente na opinião publicada, dirigidos a Passos Coelho pedindo-lhe que não viabilize o Orçamento de Estado. Entendo esses apelos, ciente de que também estou que este Orçamento, conhecidas que são as suas linhas gerais e tendo em conta o autismo com que temos sido brindados pelo Governo, é absolutamente insuficiente para resolver os problemas com que nos defrontamos. Mas será justo, do ponto de vista político, pedir a Passos Coelho que o faça?

No actual calendário político, e depois de o Presidente da República ter, na prática, sancionado o Orçamento, uma inviabilização do Orçamento conduziria a um período de meses sem eleições. Nesse período, como me parece natural, os mercados reagiriam de forma muito negativa à instabilidade criada em Portugal, agravando em muito a situação económica do país . Instabilidade essa que não depende só da inviabilização do Orçamento mas também, ou talvez sobretudo, da especial vocação nacional para arrastar processos eleitorais durante meses.

Pode exigir-se a Passos Coelho que, durante esses meses, apareça, pela propaganda socialista e pela especial actuação política do Primeiro-Ministro, como a razão de todos os males e como o rosto de todos os aumentos (juros, dívida, desemprego…)? Como pode Passos Coelho defender-se, num país político dominado por uma propaganda socialista (a mesma que considera impensável a inviabilização do Orçamento) dos ferozes ataques que vai sofrer? Não tenhamos dúvidas: chumbado o Orçamento, tudo o que vier de pior a seguir será culpa de Passos. Diariamente o Governo o dirá e diariamente a propaganda o repetirá.

Consideram alguns, e eu percebo, que a fibra política de Passos Coelho ver-se-ia precisamente aí. Nesse seu gesto de pensar no país e não nas eleições. Talvez seja. Mas se esse gesto de pensar o país conduzir a um novo e legitimado governo socialista, serve-nos a fibra de muito pouco. Infelizmente, penso que Passos Coelho está num beco sem saída. Sobretudo quando o Presidente da República, a quem tudo se admite em prol da reeleição, sancionou o Orçamento.

Adenda: Não contesto, de forma alguma, que os mercados também reagirão a um mau Orçamento. O que apenas procuro dizer aqui, com este cenário, é que sem Orçamento e com um Governo em roda livre durante meses, os mercados vão reagir negativamente. E a culpa, sendo apenas do Governo, vai morrer casada com Passos, atenta a propaganda socialista. Já uma reacção negativa dos mercados a este Orçamento culpará apenas o Governo.

Da austeridade

As medidas anunciadas ontem pelo Governo seriam de austeridade se não se traduzissem, afinal de contas, na correcção de um conjunto de desvarios em que o Governo se deixou enredar nos últimos tempos, mesmo quando a crise já estava instalada. Assim sendo, as medidas anunciadas pelo Governo deveriam ter outro nome qualquer. Medidas de correcção de disparates eleitoralistas, por exemplo.

Demitam-se sff

As medidas de austeridade anunciadas pelo Governo deveriam, se aquilo fosse um Governo normal, determinar a demissão (a pedido próprio ou por iniciativa do Primeiro-Ministro) de uns quantos ministros. Não porque esses ministros sejam maus (nem é isso sequer que está em causa) mas, isso sim, porque esses ministros  foram desmentidos lapidar e categoricamente.

As medidas de austeridade não podem ser aplicadas por, ou estar à mercê de, ministros que, durante meses, mesmo quando a inevitabilidade de medidas de austeridade estava à vista de todos, negou as vantagens e a necessidade e urgência das políticas de austeridade, chegando mesmo, em alguns casos, a alertar para os perigos de tais medidas.

Manter António Mendonça no Governo (ou Vieira da Silva ou Santos Silva ou o próprio Teixeira dos Santos) a aplicar medidas de austeridade será qualquer coisa de parecido a pedir a um pirómano que vá para a floresta fazer limpeza de prevenção de fogos.