Sabática

Caros leitores d’O Insurgente,

Desde que, em 2004, comecei a escrever na blogosfera, assumi sempre o compromisso de não fazer política partidária através dos blogues. Com excepção do circunstancial Rua Direita, procurei sempre evitar que a minha condição de militante activo do CDS interferisse com a minha presença na blogosfera, sobretudo em blogues colectivos. Eventualmente não o terei conseguido fazer tão bem quanto quereria, mas acreditem que foi sempre minha vontade não comprometer o CDS com os meus escritos nem comprometer os blogues onde escrevo nos meus combates partidários ou eleitorais. Não saberia, aliás, estar de outra forma num blogue colectivo assim como nunca conseguiria lidar com a circunstância de os leitores me estarem a ler com a convicção de que teria propósitos partidários mais ou menos ocultos.

A minha recente eleição para membro da Comissão Executiva do CDS não vem mudar nada nesta minha vontade e nesta minha postura. Mas a natureza do cargo permite que muitos leitores possam questionar-se, agora de forma mais directa, sobre se aquilo que escrevo, e estaremos seguramente num ano em que a política nacional (e eventualmente eleitoral) vai dominar o debate, se destina ou não a ser uma extensão dos meus propósitos enquanto dirigente do CDS. E essa circunstância, por mais que a tentasse evitar ou desmentir, é tanto quanto baste para que eu considere a necessidade de suspender a minha actividade blogosférica n’O Insurgente. Essa é aliás a atitude mais natural em quem, como eu, tem tentado preservar os blogues colectivos onde escrevo da minha vida partidária.

Continuarei por cá como leitor e como autor que não escreve (ou pelo menos, como autor que não escreve sobre política) porque esta é também a minha casa. E porque aquilo que aqui se escreve, mesmo quando não subscreva, está normalmente mais perto do que penso do que em qualquer outro blogue onde se discuta política.

Por enquanto estarei, a título individual, no Aparelho de Estado a escrever sobre política.

Muito obrigado por tudo!

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Indignações Selectivas

A Ministra da Educação diz que é indigno usar crianças em protesto. A participação das crianças no protesto é «indigna, acima de tudo, porque se utilizaram crianças, o que é o exemplo do que não se deve fazer nunca quando o objectivo é a educação», diz a Ministra. Supõe-se que a indignidade a que se refere a Ministra esteja relacionada com a gratuitidade da participação das crianças, já que, se bem me recordo, o Governo Socialista nada tem contra a contratação de crianças como figurantes em apresentações de planos tecnológicos e outras coisas que tais
(também publicado no Delito de Opinião)

O caso que poderia ser mas não é (2)

Não considero que a honestidade de um político possa fundamentar a sua recusa em prestar esclarecimentos sobre os seus actos com repercussão política. É que essa honestidade só pode ser reconhecida, quanto a esses actos, depois de os mesmos estarem esclarecidos. O que equivale a dizer que essa conversa da honestidade tanto serve a táctica do honesto como do desonesto.

Nesse sentido, e apenas nesse Maria João, comparo a reacção de Cavaco, via Alexandre Relvas, às reacções típicas de Sócrates. Um e outro apostam na sua honestidade para se escusarem a responder às legítimas questões com que, sobre alguns dos seus actos, têm vindo a ser confrontados.

Não está aqui em questão, note-se, a minha percepção de que Cavaco Silva é honesto nem a minha percepção de que Sócrates o não é. Essas percepções autorizam-me dirigir primeiro a minha atenção para os casos que envolvem Sócrates, mas não me autorizam a considerar ilegítimas ou inaceitáveis as perguntas daqueles que preferem dirigir questões a Cavaco, sendo certo que, evidentemente, considero que podem retirar-se conclusões acerca das prioridades de cada um.

Cavaco Silva explicou pouco ou quase nada (note-se que Cavaco paradoxalmente já remeteu para notícias do Expresso publicadas apesar da falta dos seus esclarecimentos) apostando na percepção de que a maioria de nós tem (eu também) de que ele é honesto. É uma estratégia perfeitamente natural para quem, como Cavaco, conhece o nosso eleitorado. Mas não considero que o candidato tenha esclarecido convenientemente a questão (o que não significa que, a final, se veja que nada havia a temer – coisa que, lá está, só pode saber-se depois e não antes de os contornos do “caso” se saberem) e é com algum enfado que o vejo actuar com a mesma estratégia de Sócrates.

O caso que poderia ser mas não é

Estou entre aqueles que considera que Cavaco Silva deu explicações insuficientes, e até contraditórias, sobre o “caso” SLN. Não basta o próprio saber, com absoluta convicção, que nada fez de ilegal ou politicamente reprovável. E estou também entre aqueles que considera que a reacção de Alexandre Relvas foi excessiva, quase ao género Sócrates, já que não basta de falar de campanha suja quando, de facto, pouco foi dito ou explicado.

Mas já não estou entre aqueles que não se conformam com o facto de o “caso” SLN, por mais interessante ou sumarento que seja, estar, apesar de tudo, a passar ao lado da marcha triunfal de Cavaco.

Na verdade, o que impede o “caso” SLN de ferir de morte a candidatura de Cavaco Silva não é o facto de o assunto não ter sido analisado, discutido e investigado, que foi e está a ser. Nem é o facto de Cavaco cultivar um perfil apolítico, porque a verdade é que Cavaco Silva a ser escrutinado pelo “caso” e diariamente confrontado com o mesmo.

O que impede o “caso” SLN de ferir de morte a candidatura de Cavaco Silva é o facto de os portugueses se estarem nas tintas para o assunto, seja porque o consideram acima de qualquer suspeita, seja porque o assunto lhes é indiferente, seja porque, como aliás têm demonstrado ao longo de toda a governação Sócrates, se estão positivamente a borrifar para estas coisas de (i)legalidades.

Se querem que este caso faça baixas políticas, têm primeiro que mudar de povo.

Os perigos da criminalização do enriquecimento ilícito (1)

Os sinais de politização da nossa justiça penal são tão preocupantes que, como escrevi já no Aparelho de Estado, é com muita surpresa que vejo tanta gente, e tanta gente que admiro, a aderir à ideia de criminalização do enriquecimento ilícito. A inversão do ónus da prova que essa criminalização sugere (o que, só por si, seria o suficiente para travar a ideia) outra coisa não faria que não agravar essa politização, oferecendo um poder manifestamente exagerado a quem actualmente investiga em Portugal.