Pseudojornalismo

No JN, saiu a notícia sobre um senhor americano que sobreviveu à Covid-19 que esteve internado cerca de dois meses, foi praticamente dado como morto, mas no fim resistiu e curou-se. A notícia não é a sua sobrevivência, no entanto. A notícia é a conta de 1,1 milhões de dólares que recebeu no final.

Até aqui tudo normal. É de facto um número que supreende e um caso “insólito” – como aparece no título dado pelo próprio jornal. Mas este episódio é na verdade um mero fundo decorativo para o exercício de propaganda da notícia, que só no final do texto admite que o senhor não tem de pagar a conta. Escreve o jornalista:

«(…) o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.»

A quantidade de adjectivos torna evidente a ideologia por trás deste parágrafo. Até os cidadãos se vêem reduzidos ao papel de “contribuintes”. Mas o ponto mais grave é o erro factual de dizer que quase todo o mundo civilizado tem algo como o SNS. De uma penada só deixam de existir todos os sistemas de saúde não-beveridgeanos (genericamente onde os cuidados de saúde são prestados indistintamente por hospitais públicos ou privados com o custo sendo coberto maioritariamente por um seguro, que também pode ser público ou privado). Estes sistemas até são mais comuns que os beverigeanos (onde o estado opera e paga os serviços de saúde, financiados puramente com impostos), como o SNS português e o NHS britânico.

A ideia de “lucros abissais” numa “lógica puramente capitalista” para as “grandes corporações” também só serve para acicatar espíritos. A realidade é que dois terços dos hospitais americanos são instituições sem fins lucrativos e os restantes têm margens de lucro medíocres. O número 1,1 milhões deste caso impressiona, mas provavelmente tem a honestidade de reflectir a realidade que a saúde não é grátis. Há que pagar as máquinas, instalações, fármacos e recursos humanos.

Mas a cereja no topo do bolo vem quando o jornalista lá admite que o senhor não tem de pagar a conta. Está coberto pelo Medicare. Medicare é o seguro público que cobre os gastos de saúde de todos os americanos com mais de 65 anos e que o ignorante jornalista, que nem sequer se deu ao trabalho de pesquisar sobre o assunto, atribui a Barack Obama, rematando que é um sistema que «o atual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.»

Obama será realmente uma pessoa excepcional se conseguiu criar o Medicare aos 5 anos de idade (o sistema foi criado em 1966).

33 pensamentos sobre “Pseudojornalismo

  1. Jornalismo é provavelmente a mais desonesta das profissões.
    Quase ninguém vai para lá para fazer jornalismo.
    Vai para pregar a Religião Política.

    Doutrinar, censurar, enganar, mentir.

  2. Sérgio Gonçalves

    O sistema de saúde Norte americano é das coisas onde é mais fácil apanhar ignorantes e palermas. Já perdi a conta à quantidade de vezes que tive de explicar que para nós termos medicamentos novos e inovadores é porque há um país no mundo (e só há um) que paga isto tudo.

  3. ATAV

    Sergio Gonçalves

    Roche, Bayer, Novartis, GlaxoSmithKline; Sanofi, Merck e a “nossa” Bial.

    Apenas algumas das empresas farmacêuticas que aparentemente dependem de “um país (e só há um) que paga isto tudo”.

    Exemplo:
    Um tipo parte uma perna nos Estados Unidos. Chama-se um ortopedista e faz-se um raio x. Diagnóstico: Fratura em espiral deslocada do fémur, é preciso ser operado e levar gesso. Preço: 65 000 dólares.

    Distribuição: 30 000 para a equipa cirúrgica e médica, imagiologia e consumíveis, 5 000 para os custos administrativos do hospital e 30 000 para os Departamentos de investigação de farmacêuticas americanas e estrangeiras. Abençoado sistema de saúde americano.

  4. O sistema de saúde america é tão bom, tão bom, que… “a 62-year-old teacher, said she had saved as much as $2,400 by travelling from Salt Lake City to San Diego and then crossing the border, in order to refill a prescription for arthritis medication.”

  5. “nós termos medicamentos novos e inovadores é porque há um país no mundo (e só há um) que paga isto tudo.” — abençoados americanos, que santos… que baboseira!

  6. Filipe Bastos

    O culto direitalha do egoísmo, da ganância e do ‘mercado’ é nocivo para muitas coisas, mas em nenhuma o é tanto como na saúde.

    Não contentes com o sistema chulo e aberrante em vigor nos EUA, o mais caro e ineficaz do mundo civilizado, sonham alargá-lo a outros países.

    Antes até dos grandes mamões, das seguradoras, farmacêuticas ou grupos hospitalares, a ganância começa nos médicos e outros mercenários que mamam valores absurdos por uma profissão que devia ser nobre.

    Há uma diferença entre ser bem pago, algo merecido na saúde, e a mama em roda livre que se vê lá – e também cá, mas por cá ir numa ambulância ainda não custa $2000 e um parto ainda não chega aos $400.000, como alguns por lá.

    Por trás da defesa dos mamões da saúde pelo típico fã direitalha está um egoísmo que roça a sociopatia: este pensa que terá sempre acesso ao privado; quem não tiver que se amanhe. Também não merece mais.

    Como não podem falar de ‘selecção natural’ falam dum sistema misto. Na prática: saúde premium para ricos, saúde low-cost para pobres. E o Estado que pague pelos pobres, enchendo mamões privados, pois claro.

    A saúde não é, não pode ser um negócio. Tratá-la como tal é obsceno.

  7. Ó Filipe, tu não achas que o/a jornalista que escreveu a notícia merecia que alguém lhe esfregasse o jornal nas ventas? Tu leste a notícia e concordas? Não acredito.

  8. Sérgio Gonçalves

    Atav, vá ver de onde é que essas empresas europeias têm 40% ou mais do seu faturação e tem aí a explicação.

  9. Sérgio Gonçalves

    Quando se diz que a saúde não é negócio a quem é que se vai deixar de pagar ordenados? Aos médicos dos SNS, aos enfermeiros dos SNS, aos investigadores das várias empresas do setor, aos fornecedores de matérias prima, aos fabricantes de medicamentos ou componentes eletrónicos…? Quantos milhões de pessoas vão deixar de receber ordenados porque a saúde não é um negócio? É que no final do dia para produzir um medicamento são necessárias matérias primas que tem de ser compradas, transportadas e processadas e alguém tem de fazer algum trabalho que se espera que seja remunerado. Até onde se vai para decidir o que é negócio do que não é? Pedimos ao BE para o fazer, certo? Eles onde saber decidir isto por nós.

  10. Uma pena saúde humana não ser um negócio. Seria mais barata e mais competitiva. Assim é uma aristocracia-socialista.

    Os animais é que estão bem.
    Qualquer dia declaro-me animal e vou ao veterinário….

  11. ATAV

    Sergio Gonçalves

    Eu estive a ver e, para a Bayer, 31% das vendas são para os Estados Unidos enquanto para Europa são 29%. A Novartis tem duas divisões: uma vende 57% para a Europa enquanto que a outra divisão vende 37% para os Estados Unidos e 34% para a Europa. O grupo Merck vende 29% para a Europa e 26% para os Estados Unidos. Para as outras empresas europeias estes valores deverão ser semelhantes.

    Portanto deixe lá de andar a dizer que a distopia a que os americanos estão sujeitos é o que sustenta a inovação. Se gosta assim tanto desse sistema de saúde, emigre para lá em vez de tentar importar aquela miséria para aqui.

  12. Sérgio Gonçalves

    Portanto, isso em média por habitante há-de dar o mesmo,nao é? Que mais fazer?

    O atav, que gosta muito de mandar, mande mas é na sua vidinha e não na dos outros.

  13. Se o SNS fosse uma organização honesta, registava a conta dos serviços prestados a cada utente.
    E assim para os demais serviços do Estado.

    Dois objectivos:
    – Em final do ano os custos efectivos eram apurados.
    – Cada utente saberia o quanto deve aos outros contribuintes, em vez de tudo avaliar como maná derivado dos pregoeiros da ideologia do tudo a todos.

  14. ATAV

    Sérgio Gonçalves

    “Portanto, isso em média por habitante há-de dar o mesmo,nao é? Que mais fazer?”

    PIB per capita (PPP) Estados Unidos: 55,719 Dólares
    PIB per capita (PPP) União Europeia: 35,623 Dólares

    Tendo em conta que os valores de receitas das farmacêuticas que apresentei em cima são percentagens calculadas a partir de receitas nominais se calhar isto explica alguma coisa. Isto quer dizer que proporcionalmente as farmacêuticas europeias vendem muito mais aqui.

    Os americanos gastam mais não só porque o sistema é ineficiente e está cheio de rent-seeking mas porque também ganham mais. Não é segredo que os americanos pagam muito mais e recebem menos que nós.

    Resumindo, o chulanço do sistema de saúde dos Estados Unidos mais depressa acaba em offshores e em médicos a entrar regularmente em stands da Porsche que nos departamentos de R&D das farmacêuticas. E que as empresas farmacêuticas europeias não são sustentadas pelos americanos.

    “O atav, que gosta muito de mandar, mande mas é na sua vidinha e não na dos outros.”

    Pois. Você aparenta ter uma memória fraca.

    “Atav, vá ver de onde é que essas empresas europeias têm 40% ou mais do seu faturação e tem aí a explicação.”

    Quando somos nós a mandar postas de pescada e depois dizer aos outros para irem procurar, está tudo bem. Mas quando alguém nos responde à letra, há que ficar todo indignado…

  15. Sérgio Gonçalves

    O atav a fazer contas quase que parece um ministro socialista. Se calhar é o seu sonho. Não ponho dúvidas. Eu disse que os EUA financiam a maioria da inovacao na área da saúde. Ora se metade da população financia 40% eu não vejo onde é que o que disse não seja verdade. Vir para aqui cuspir PIB per capita é para quê? Enganar o parolo? Ou a Roche separa revenue por origem e ajusta – o ao poder de compra. No final do dia são dólares não interessa se são mais ricos ou pobres. Já que sabe muito diga lá em que país é que aparecem mais tratamentos para qualquer doença que afecte o mundo ocidental.

    Nota, a minha indignação vem de me ter mandado emigrar.

  16. ATAV

    Sérgio Gonçalves

    “O atav a fazer contas quase que parece um ministro socialista. Se calhar é o seu sonho. Não ponho dúvidas”.

    Aparentemente só um ministro socialista é que consegue perceber que:
    – 40% não é “um país (e só há um) que paga isto tudo”
    – esses 40% são na realidade 25 a 30%
    – empresas farmacêuticas europeias são perfeitamente viáveis e que o nosso mercado interno é bastante grande
    – uma empresa facturar 4 000 milhões nos Estados Unidos e facturar 4 000 milhões na Europa significa que tem maior presença no mercado europeu porque o poder de compra cá é menor. Resumindo: vende mais cá.

    “Eu disse que os EUA financiam a maioria da inovacao na área da saúde.”

    Claro! Maior economia do mundo e tem universidades de elite. Nem seria de esperar outra coisa. Mas não é o pais mais inovador… Mas sabe qual é? A Suíça. Sendo seguido pela Suécia. Os Estados Unidos aparecem em terceiro.

    “Ora se metade da população financia 40% eu não vejo onde é que o que disse não seja verdade.”

    Os Estados Unidos não têm metade da população da Europa e não responsáveis por 40% da faturação das farmacêuticas europeias. Mas contribuem imenso para margem de lucro das farmacêuticas.

    “Vir para aqui cuspir PIB per capita é para quê? Enganar o parolo? Ou a Roche separa revenue por origem e ajusta – o ao poder de compra.No final do dia são dólares não interessa se são mais ricos ou pobres.” ”

    A formação de preços dos medicamentos resulta dos custos de desenvolvimento e publicidade das fármacos, do poder de compra do consumidor e do poder negocial entre o comprador e o vendedor. (É por isso que uma das razões que os preços são tão altos nos Estados Unidos vem da Medicare estar impedida de utilizar o seu poder de monopsónio para baixar preços.)

    “Já que sabe muito diga lá em que país é que aparecem mais tratamentos para qualquer doença que afecte o mundo ocidental.”

    Olha, mais trabalho-de-casa…

    “Nota, a minha indignação vem de me ter mandado emigrar.”

    Ah! Quando é o Passos Coelho a fazê-lo não há problema nenhum. Quando sou eu cai o carmo e a trindade.

    A minha indignação vem de pessoas que tentam destruir o nosso sistema de saúde para tentar importar aquela pouca-vergonha dos Estados Unidos alegando que encher os bolsos das seguradoras, médicos e gestores hospitalares traz inovação.

    Nem uma palavra sobre investimento público, criação de universidades com departamentos de investigação e laboratórios de topo, mais imigração qualificada para fazer investigação aqui, redução de burocracias para facilitar a introdução de inovações médicas ou mesmo isenções fiscais para gastos em R&D. Nada disso! Pegar num aspirador e sugar o dinheiro da carteira da população directamente para o bolso de CEOs e acionistas.

  17. Sérgio Gonçalves

    Sim, o Atav tem toda a razão. Só não sei onde disse que o sistema de saúde dos EUA é perfeito. Só disse que é responsável pela maioria da inovação (admito algum excesso de linguagem a dizer que era a totalidade) mas é o grande motor da inovação na área. Repare é num pormenor, pequeno, sem dúvida. A população americana é de 300 milhões e a europeia é de cerca de 600 milhões. Mas o Atav, como sempre, tem razão. Ámen

    Nota sobre a indignação. Quem lhe disse a si que não fiquei indignado com Passos?

  18. ATAV

    Sérgio Gonçalves

    “Só não sei onde disse que o sistema de saúde dos EUA é perfeito”

    Isto é um homem de palha. Você nunca o disse e eu nunca o acusei de dizer isso. Eu embirrei consigo por causa da sua defesa que o sistema de saúde dos Estados Unidos sustenta a inovação médica do mundo. Não foi difícil perceber que quer importar esse sistema para aqui…

    “Só disse que é responsável pela maioria da inovação (admito algum excesso de linguagem a dizer que era a totalidade) mas é o grande motor da inovação na área. Repare é num pormenor, pequeno, sem dúvida.”

    São um motor importante da inovação em tamanho e proporção. Mas terá mais a ver com as universidades de topo, imigração qualificada e clusters de inovação (há farmacêuticas europeias que decidiram colocar os seus laboratórios de pesquisa ao pé destes centros). Achar que a inovação deriva do rent-seeking é abusivo.

    “A população americana é de 300 milhões e a europeia é de cerca de 600 milhões.”

    A população americana são 330 milhões (curiosamente o nº de pessoas sem seguro de saúde nos Estados Unidos são 27 milhões) e a da União Europeia são 445 milhões. Se incluirmos a Suíça e Reino Unido são 520 milhões. Para ser mais do dobro da população americana é preciso incluir a Turquia, Ucrânia e Rússia Ocidental. Aí já dá cerca de 740 milhões. Mas nesse caso o poder de compra da população em termos reais é ainda menor que os valores avançados anteriormente.

    Ou será que “contas de ministro socialista” significa ter algum respeito pelos números?

    “Nota sobre a indignação. Quem lhe disse a si que não fiquei indignado com Passos?”

    Ficou? Olhe, eu também. Há boas hipóteses que tenhamos sido os únicos por aqui…

  19. Sérgio Gonçalves

    Atav, não tenho mais a acrescentar. O que tinha a dizer já disse. Passe bem e boa sorte com as suas ideias.

  20. Carlos Guerreiro

    ATAV
    “Exemplo:
    Um tipo parte uma perna nos Estados Unidos. Chama-se um ortopedista e faz-se um raio x. Diagnóstico: Fratura em espiral deslocada do fémur, é preciso ser operado e levar gesso. Preço: 65 000 dólares.
    Distribuição: 30 000 para a equipa cirúrgica e médica, imagiologia e consumíveis, 5 000 para os custos administrativos do hospital e 30 000 para os Departamentos de investigação de farmacêuticas americanas e estrangeiras. Abençoado sistema de saúde americano.”

    O exemplo não foi muito feliz.
    O SNS não inclui acidentes, ou tem seguro ou paga. Assim, fractura complicada do fémur:
    Internamento (severidade 4) – 5.727,35€´
    Diária – 1.431,84€
    Procedimento na anca e/ou fémur por tratamento excepto substituição de articulação – 15.401,59€
    TOTAL – 22.560,78€
    Não inclui os medicamentos, os exames complementares de diagnóstico, nem procedimentos e internamentos posteriores que serão necessários. Nem a Fisioterapia (que quando for autorizada já não deve ser necessária). E claro, não inclui os tempos de espera para os procedimentos posteriores (fora da situação de urgência)
    Poderá conferir os valores aqui (preços de 2018):
    http://www.acss.min-saude.pt/wp-content/uploads/2016/12/Anexo-III-Final.xlsx
    Poderá fornecer link dos valores que refere nos EUA? Especialmente os 30.000,00 dólares “para os Departamentos de investigação de farmacêuticas americanas e estrangeiras”
    Se não possuir um seguro de acidentes pessoais será enviada a conta para o domicilio (convém pagar, caso contrário terá a AT à perna, a boa, que a outra ninguém quer).
    Não tem dinheiro? Se atestar situação de pobreza, o estado suporta os custos, caso contrário vão-se os anéis e ficam os dedos…

  21. Filipe Bastos

    “Quando se diz que a saúde não é negócio a quem é que se vai deixar de pagar ordenados? Aos médicos dos SNS, aos enfermeiros dos SNS, aos investigadores … aos fornecedores de matérias prima, aos fabricantes de medicamentos ou componentes eletrónicos…?
    Até onde se vai para decidir o que é negócio do que não é?”

    É evidente que os profissionais de saúde devem ser pagos; é também evidente que alguns são sobrepagos (overpaid – uma palavra muito pouco usada cá, mas que faz muita falta).

    Isto reflecte quão trocadas estão as nossas prioridades. Nada é tão prioritário quanto a saúde. Sem ter saúde nada importa. Tudo o resto é secundário. Então, como sociedade, é para aí que devemos canalizar primeiro o nosso trabalho e recursos.

    Quase todos passamos a vida inteira a produzir e a vender tretas; a ocupar-nos uns aos outros. O sacrossanto mercado é excelente a fabricar tretas e distracções; a doutrinar a carneirada a precisar delas, a exigi-las em abundância e a baixo preço. É isto o capitalismo.

    Daí as vidas vazias que levamos. São raras as pessoas que contribuem para algo realmente útil, que avance o mundo – cientistas, médicos, investigadores, pensadores. Quanto trabalho e intelecto desperdiçados em actividades inúteis, a enriquecer mamões.

    E daí esta mama da saúde. Devia haver mais médicos, mais hospitais, investigação, medicamentos, muito mais saúde. Gratuita. Há inúmeras outras actividades onde a iniciativa privada pode actuar e ser útil. Na saúde, quando muito, só na estética.

    Accionistas, lucros e mercenários não têm lugar na saúde. O que é ganhar de mais? Já falámos disto: veja-se o salário médio de um país. Os profissionais de saúde merecem ser bem pagos; mas ninguém merece mamar na saúde. Ou noutra coisa qualquer.

  22. ATAV

    Carlos Guerreiro

    “O exemplo não foi muito feliz.
    O SNS não inclui acidentes, ou tem seguro ou paga.”

    O quê? Acha mesmo que se eu cair de umas escadas o SNS vai-me espetar uma conta desse tamanho? Ou será que não sabe o significado de tendencialmente gratuito? Isso são as tabelas dos custos dos tratamentos para o SNS e os preços convencionados com prestadores privados para diminuir as listas de espera (tipo o SIGIC). O cidadão não paga isso directamente.

    Há efectivamente casos em que o SNS pode exigir pagamentos como por exemplo a turistas doentes que recorram às urgências ou a trabalhadores acidentados. Mas nesse caso o turista pode pedir o reembolso ao SNS ou segurança social do pais de origem e o trabalhador é reembolsado pela seguradora ou a seguradora paga ao SNS directamente.

    “Poderá fornecer link dos valores que refere nos EUA? Especialmente os 30.000,00 dólares “para os Departamentos de investigação de farmacêuticas americanas e estrangeiras””

    Não, porque é treta. Inventei isso para demonstrar que o argumento de que o sistema de saúde dos Estados Unidos é tão caro porque paga tratamentos inovadores.

    Até mesmo o valor de 65 000 dólares para uma fractura grave do fémur que tirei de um site qualquer não é fidedigno. O preço dos tratamentos varia grandemente de estado para estado e até mesmo entre hospitais do mesmo estado. Os Hospital Chargemasters que são basicamente os preçários de cada hospital têm disparidades brutais entre si. Um hospital pode cobrar 20 dólares por uma compressa e outro hospital no fim da rua pode cobrar 100 dólares. Aquilo lá é um faroeste e as pessoas são esfoladas de forma rotineira. É por isso que há tantos liberais que gostam daquilo…

    “Não inclui os medicamentos, os exames complementares de diagnóstico, nem procedimentos e internamentos posteriores que serão necessários. Nem a Fisioterapia (que quando for autorizada já não deve ser necessária). E claro, não inclui os tempos de espera para os procedimentos posteriores (fora da situação de urgência)”

    É espantoso! Pela maneira como se fala aqui até parece que o nosso SNS atende marcianos e está entupido com eles. Nenhum português é tratado pelo SNS em Portugal. Fica tudo à espera. Claro que como não há marcianos, presumo então que as camas estejam vazias e as salas cirúrgicas fiquem trancadas à chave.

    Sabia que nos outros países também há tempos de espera? E não são assim tão diferentes dos portugueses. Os sistemas públicos (EX: R.U.) têm o maior tempo de espera seguido dos sistemas mistos (ex: Alemanha) e depois os privados (ex: USA). Mas as diferenças são de semanas ou dias não de meses ou anos. E o nivel de satisfação dos utentes é muito maior nos sistemas mistos ou públicos.

  23. ATAV

    Carlos Guerreio

    Onde diz:

    “Não, porque é treta. Inventei isso para demonstrar que o argumento de que o sistema de saúde dos Estados Unidos é tão caro porque paga tratamentos inovadores.”

    Deverá ler-se:

    “Não, porque é treta. Inventei isso para demonstrar que o argumento de que o sistema de saúde dos Estados Unidos é tão caro porque paga tratamentos inovadores é um disparate.”

  24. Carlos Guerreiro

    ATAV

    “O quê? Acha mesmo que se eu cair de umas escadas o SNS vai-me espetar uma conta desse tamanho?”
    Se não tiver seguro de acidentes pessoais e não houver responsabilidade de terceiros vai ter de pagar (ou então atestar a existência de situação de pobreza). Procure no goolge e encontrará exemplos. Pode até ver queixas apresentadas na ERS, e verá como o estado envia a conta para casa.

    “Não, porque é treta. Inventei isso”
    “Até mesmo o valor de 65 000 dólares para uma fractura grave do fémur que tirei de um site qualquer não é fidedigno.”
    Sem comentários

  25. ATAV

    Carlos Guerreiro

    “Se não tiver seguro de acidentes pessoais e não houver responsabilidade de terceiros vai ter de pagar (ou então atestar a existência de situação de pobreza). Procure no goolge e encontrará exemplos. Pode até ver queixas apresentadas na ERS, e verá como o estado envia a conta para casa.”

    Isto é uma afirmação bombástica e em lado algum encontro registo de um cidadão português que, sofrendo uma emergência médica, tenha sido “brindado” com uma conta de milhares de euros do SNS. Há as exceções que falei anteriormente em que pode haver a cobrança do SNS pelos serviços prestados (Estrangeiros e acidentes laborais), mas geralmente o SNS cobra o valor à seguradora ou ao SNS do pais de origem do turista. Claro que se o turista ou alguém sem autorização de residência for originário de fora da Europa pode ter que suportar o valor pessoalmente…

    Há ainda o caso das taxas moderadoras mas isso é uma coisa mais especifica (não apanha internamentos), tem uma listas de exclusões, os preços estão tabelados e são baixos. Ninguém leva uma “bisca” 22 000 euros por cair de umas escadas.

    Resumindo: sem fontes não acredito nisto.

    ““Não, porque é treta. Inventei isso”
    “Até mesmo o valor de 65 000 dólares para uma fractura grave do fémur que tirei de um site qualquer não é fidedigno.”
    Sem comentários”

    Lamento que o tenha induzido em erro, mas nunca pensei que alguém pudesse achar que isto era a sério:

    “Exemplo:
    Um tipo parte uma perna nos Estados Unidos. Chama-se um ortopedista e faz-se um raio x. Diagnóstico: Fratura em espiral deslocada do fémur, é preciso ser operado e levar gesso. Preço: 65 000 dólares.

    Distribuição: 30 000 para a equipa cirúrgica e médica, imagiologia e consumíveis, 5 000 para os custos administrativos do hospital e 30 000 para os Departamentos de investigação de farmacêuticas americanas e estrangeiras. Abençoado sistema de saúde americano.”

    O “Abençoado sistema de saúde americano.” e o “subsídio para farmacêuticas estrangeiras” deveriam ter sinalizado o esturro. Da próxima vez tentarei ser mais evidente.

    Não importa. Mas eu digo-lhe com tirei esse valor. Fui a este site peguei no maior valor do segundo parágrafo e acrescentei-lhe 30 000 para as farmacêuticas.
    https://health.costhelper.com/broken-leg.html#comments

    Só agora vi os comentários dos utilizadores. Aparentemente pequei por defeito. Deveria ter “subsidiado” ainda mais as nossas farmacêuticas:
    Fractura do fémur – 109 000 dólares.

  26. Carlos Guerreiro

    ATAV

    Quando vai a um serviço de urgência, ao inscrever-se o funiconário pergunta-lhe “doença ou acidente?”. Nunca se questionou da razão?

    “Isto é uma afirmação bombástica e em lado algum encontro registo de um cidadão português que, sofrendo uma emergência médica, tenha sido “brindado” com uma conta de milhares de euros do SNS.”

    Deliberação da ERS sobre pessoas vitiams de agressão que receberam a conta da urgência para pagar https://www.ers.pt/uploads/writer_file/document/1048/ERS_068_12_F__HGO_.pdf

  27. ATAV

    Carlos Guerreiro

    Está a ver como me dá razão? É tal como eu disse. Só são cobrados valores aos não beneficiários do SNS como estrangeiros ou a terceiros como seguradoras em casos de acidentes de trabalho ou neste caso especifico, ao agressor.

    Há uma diferença entre um sistema onde levar com uma conta enorme que tem que ser paga é normal e outro onde alguém foi alvo de uma factura que não lhe era devida. A mim, a EDP já me tentou cobrar uma factura de outra pessoa. Isso quer dizer que em Portugal é normal as pessoas terem que pagar as facturas dos outros? Não, foi aselhice da pessoa que trabalha na empresa.

    A ERS disse, e bem, que custos imputáveis a terceiros têm de ser imputados a esses terceiros, não aos assistidos.

    “Daqui resulta que aos utentes beneficiários do SNS, que façam prova dessa
    qualidade, nunca lhes poderá ser exigível o pagamento dos encargos diretos
    decorrentes da prestação dos cuidados de saúde, mesmo naquelas situações em
    haja um terceiro legal ou contratualmente responsável;

    Ou seja naquelas situações de recurso a cuidados de saúde na sequência de
    agressões ou de um acidente de viação, trabalho, desportivo, entre outros, ao
    assistido nunca poderão ser imputados os encargos diretos decorrentes da
    prestação de cuidados de saúde, mesmo que não seja possível identificar o
    agressor ou a entidade seguradora responsável, ou esta última não assuma a
    responsabilidade;”

    Os funcionários desses hospitais é que foram incompetentes. O SNS é tendencialmente gratuito e não é suposto as pessoas levar com “biscas” gigantescas em casos de urgências. Se levarem quer dizer que algo está errado. E em muitos casos essas pessoas até estarão isentas das taxas moderadoras. Por outro lado, nos Estados Unidos contas gigantescas são o pão nosso de cada dia. Lá a insolvência pessoal devido a contas médicas é comum. Não misture casos esporádicos de erros de facturação de um SNS universal com um sistema de saúde que é iníquo e injusto de forma rotineira.

  28. Carlos Guerreiro

    ATAV

    “Os funcionários desses hospitais é que foram incompetentes”
    Estranho, funcionários de vários hospitais a fazerem o mesmo… Como foram todos a ter a mesma ideia “errada”?
    Se o SNS cobre os tratamentos por acidente, por que motivo existem seguros de acidentes pessoais? E não estou a falar do presente, estou a referir-me ao passado quando não existiam hospitais privados como hoje (os acidentados seriam tratados obrigatoriamente num hospital público).
    O mesmo se passa com a segurança social. Se tiver um acidente, magoou-se na perna e não pode andar, logo não pode trabalhar. Fica de baixa, o que justifica as faltas, mas se não tiver seguro, não recebe nada. Como não existe ERSS (Entidade Reguladora da Segurança Social) o governo faz o que quer.

  29. ATAV

    Carlos Guerreiro

    “Estranho, funcionários de vários hospitais a fazerem o mesmo… Como foram todos a ter a mesma ideia “errada”?”

    Não sei. Dois dos hospitais são PPPs (Cascais e Vila Franca de Xira) e o outro é público (Garcia de Horta). Se foi um caso esporádico (como aparenta ter sido), identifica-se, implementa-se medidas correctivas e apresentam-se as devidas desculpas ao utente injustiçado. Caso o utente tenha pago alguma coisa, o dinheiro terá que ser devolvido imediatamente.

    Se em alguma unidade estes casos forem recorrentes devido a um gestor mais afoito que quer melhorar os seus números de facturação à custa dos doentes é processo disciplinar em cima e despedimento com justa causa. Se for PPP, é identificar a falha, multar o concessionário ou denunciar o contrato PPP. Simples.

    “Se o SNS cobre os tratamentos por acidente, por que motivo existem seguros de acidentes pessoais?”

    É um mecanismo de segurança privado em adicional ao sistema público. Tal como os PPRs e seguros de saúde. Uma garantia extra. O meu pai tinha um seguro de acidentes pessoais quando trabalhava e eu era menor de idade. Se ele morresse num acidente de viação ou em casa, eu teria direito a receber uma indeminização do seguro e à pensão de sobrevivência da Segurança Social. Caso ele não tivesse o seguro, eu receberia apenas a pensão de sobrevivência da Segurança Social.

    Lá porque existem PPRs não quer dizer que uma pessoa que entre na idade da reforma não receba pensão se não tiver um. Tem direito à sua pensão da S.S. e, se tiver um PPR também recebe daí. É a mesma coisa para os seguros de saúde. Lá porque existem seguros de saúde, não quer dizer que o SNS não exista nem seja universal e tendencialmente gratuito. Um titular de ADSE tem direito ao SNS tal como os outros.

    “O mesmo se passa com a segurança social. Se tiver um acidente, magoou-se na perna e não pode andar, logo não pode trabalhar. Fica de baixa, o que justifica as faltas, mas se não tiver seguro, não recebe nada.”

    Isto é outra aberração. Se está de baixa e se reúne as condições para atribuição (se fez os descontos para a S.S. durante um determinado período) então tem o direito a receber durante a baixa.

    Se for uma caixa de previdência tipo a dos advogados então isso é outra conversa. Depende das regras deles e os advogado não descontam para a S.S…

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