“Longos dias têm 100 anos”

Há dez anos atrás, vivia eu paredes meias com o Museu que perpetua a obra magnífica de Vieira da Silva e do seu marido, Arpad Szenes, choquei com uma biografia escrita nos anos 80, por Agustina Bessa-Luís, “Longos dias têm 100 anos“, onde a propósito da personagem ficcional e idealizada da pintora, a escritora partilha connosco um pensamento que se renova e reinventa nos tempos que hoje vivemos:

“Ainda hoje sei muito pouco de tudo, o que me causa embaraço quando vejo a tremenda bagagem de conhecimentos que têm as pessoas. Se ouvirmos tudo o que se diz nos autocarros, nas praias, nas repartições, ao fim do dia podíamos escrever uma enciclopédia em vinte volumes e até ter êxito com ela. Não há nada de mais aceitável do que a pequena sabedoria, os amores confessáveis e as histórias de doenças”

Vieira da Silva 1

Não há sistemas de saúde robustos sem economias saudáveis. Portanto, a ideia de que estamos confrontados com uma escolha entre “vida” e “economia” é uma falácia do raciocínio, motivada em grande parte por razões ideológicas.

O que se está a passar radica noutro eixo de análise, e prende-se com a gestão da incerteza. Os países foram surpreendidos por um vírus que, devido às suas características, paralisou os decisores políticos. Estes, num cenário de incerteza, estão a procurar equilibrar as suas respostas de curto prazo com os impactos daí resultantes, no médio e longo prazos.

É pacífico que, em tese, se salvam mais vidas se houver um rápido processo de imunização nas comunidades, e nesse período, se protegerem os cidadãos de risco. A principal razão pela qual muitos países não estão a optar, nesta fase, por deixar o vírus expandir-se livremente, radica desde logo, no receio que uma expansão rápida (este vírus aparentemente tem uma grande facilidade de propagação) bloqueie a resposta hospitalar, ou infecte demasiados cidadãos de risco antes de se atingir a imunização (sobretudo em comunidades onde não é fácil separar e proteger os cidadãos de risco, por razões culturais). O que foi assistimos em Itália, nas duas primeiras semanas de Março, foi decisivo para as opções que, um pouco por todo o mundo ocidental, começaram a ser tomadas, há duas semanas atrás. A Itália tem um bom sistema de saúde, pelo que a dificuldade que tiveram em gerir um pico da pandemia, e os relatos assustadores que fomos recebendo, deixaram apreensivos decisores políticos que temeram que nos seus países, menos preparados do que a Itália, um aumento da procura bloqueasse a resposta hospitalar e tratamento dos doentes mais graves, sejam vítimas de COVID-19 ou de qualquer outro tipo de doença.

O desafio, hoje, umas semanas já decorridas, não passa por entrar em disputas ideológicas sem sentido, ou recriminações maniqueístas e de falsa moralidade sobre as opções disponíveis. A economia de mercado estava a funcionar em pleno, e esta crise resulta, apenas, das dificuldades – com a quais temos a obrigação cívica de ser solidários – dos decisores políticos gerirem um fenómeno de incerteza que mexe com aquilo que nos é mais caro: a saúde e a sobrevivência.

O desafio, depois desta crise, não é pensar qual é o papel do Mercado, mas do Estado e das nossas comunidades, a quem compete antecipar e gerir estas crises. Neste momento, há que manter a coesão, temos de com serenidade e abertura de espírito fazer um esforço grande – TODOS – para minimizar os prejuízos o os impactos que as medidas de curto prazo, que tenham de ser tomadas, possam ter no médio e longo prazos. Esse exercício de equilíbrio é fundamental, porque todas as decisões que tomarmos hoje, terão, pela positiva ou pela negativa, consequências no nosso Futuro, não apenas num Futuro longínquo, mas já amanhã. Longos dias têm 100 anos, mas que, por esta vez, saibamos aprender com os erros, e começar, já amanhã, a construir o Futuro. Que saibamos aprender as lições, ser “como o frade no seu horto, [acordando] sempre a horas, (…) [retomando] a palavra que tinha começado muitos anos antes”, honrando a memória daqueles que, com engenho e arte, nos ensinaram grandes lições, não nos deixando ofuscar pela espuma dos dias e pelas névoas do medo e do ressentimento:

“Longos dias têm cem anos”. Assim me diziam quando se tratava de protelar um assunto, de o fazer amadurecer na lânguida separação do inadiável. E os longos dias passavam, carregados de justo sentimento pelas coisas que devíamos fazer de maneira lesta e durável. Às vezes, não se faziam nunca. Outros planos, mudanças, resistências, vazios súbitos do coração, que é quem nos comenda o trabalho e a fantasia. “Longos dias têm cem anos”. Era uma admoestação e uma ironia para o preguiçoso inveterado que num século acha tempo adequado para os seus projectos e a combinação laboriosa que os acabe.

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