O caminho para a servidão

Bastou um vírus e a inevitabilidade de provisoriamente convivermos com ele, para que rapidamente boa parte da nossa sociedade tenha capitulado e desenvolvido pulsões totalitárias. Ironicamente, não vem do Estado essa vontade de ir mais longe na compressão dos direitos, nem (apenas) de militantes da esquerda radical. São os cidadãos, alguns deles a militar supostamente na liberdade, a rasgar as vestes em defesa de soluções securitárias, exigindo ao Estado sevicias e outro tipo de humilhações, em troca da eliminação completa do novo coronavírus da face do planeta e da possibilidade de regressar à vidinha.

Ontem havia quem exigisse a demissão da Provedora de Justiça, referida como “mera licenciada em Direito“, por ter dado provimento a queixas contra a DGS. Houve quem tenha ido mais longe, exigindo a “detenção da Provedora“, para evitar que ela exerça aquilo que é suposto: ser o garante da Lei e da sua aplicação pelas entidades administrativas, neste período excepcional que vivemos, de Estado de Emergência. Pela manhã, acordei com o pedido de vários twitternautas, de que pudessem ser libertados do Estado de Emergência, mediante apresentação de um certificado sanitário, de que já estariam imunizados face ao novo coronavirus. O zénite, porém, encontrei-o nas palavras de uma cidadã desesperada, que diz estar disposta a “prescindir da sua privacidade“, defendendo soluções semelhantes às da China e de Israel no combate ao COVID19, para concluir o seguinte:

Se o preço a pagar para deixarmos de estar todos confinados em casa, for cada um de nós permitir o acesso aos seus dados pessoais para que as autoridades consigam mapear o nosso dia-a-dia, terem acesso a onde e com quem estivemos para conseguir identificar novos focos de propagação da doença, contem comigo!

Eu cedo já a todas as autoridades o acesso a todas as minhas contas e perfis digitais se a partir dessa cedência elas fizerem o seu trabalho que é controlar cada um de nós para um bem comum.

Pelo bem de todos, eu cedo os meus dados!

A liberdade que hoje temos foi conquistada a pulso, ao longo de séculos. Muitos milhões de pessoas morreram, para a defender e conquistar. Muitos suportaram bombas, trincheiras, fome, perseguição. Todas estas atitudes de capitulação são degradantes e insultam a memória dos que, antes de nós, nos entregaram tão valiosa herança. Temos um sistema imunitário muito vulnerável, não ao COVID e outras patologias, mas ao medo que está a corroer as bases das sociedades livres.

Na sua obra “O caminho para a Servidão“, Hayek constatava algo que é hoje visível: a luta pela segurança tende sempre a ser mais forte do que o amor à liberdade. Considerava ainda ser sensato sacrificar temporariamente a liberdade de modo a garanti-la no futuro. Mas também nos recordava que, se a longo prazo, podemos ser os criadores do nosso destino, no imediato, somos escravos das ideias que criamos. Há nesta pandemia um lado incerto, uma ameaça que nos pode paralisar, mas devemos saber que não viveremos melhor no futuro se prescindirmos de aquilo que nos trouxe até aqui, evolução, progresso, bem estar, construídos em liberdade. “Uma civilização complexa como a nossa baseia-se necessariamente no ajustamento do indivíduo a mudanças cuja causa e natureza ele não pode compreender“, escrevia Hayek. Se o futuro é incerto, pelo menos, saibamos confiar nas nossas convicções. São elas que nos devem guiar. A servidão não é o caminho.

17 pensamentos sobre “O caminho para a servidão

  1. É constrangedor. A pandemia é para ser levada a sério mas perdemos qualquer noção da perspetiva da dimensão do problema.

    Afundar a economia é um erro grave; prescindir de liberdades individuais é indesculpável.

  2. Caro Rodrigo Adão da Fonseca
    Eu, em vez de Hayek, ou mesmo de Rand, referido no “post” anterior, eu citaria Chesterton, …”quando o homem deixa de crer em Deus, …,passa a acreditar em tudo”.
    O homem, na sua ânsia de certezas, entrega-se ao primeiro deus que lhe aparece,sja ele o estado,a ciência,ou o ambientalismo. Qualquer um que lhe tape o pavor da incerteza, do infinito, da morte.

    O artigo de CS Lewis que divulgou ontem no Observador, e que tão apropriado é para os tempos actuais, trata disso mesmo:
    _ Vivam, tranquilos, pois estão condenados a morrer desde o dia em que nasceram.

    Cumprimentos

    Vasco Silveira

  3. Velho do Restelo

    Tenho grande consideração pela Drª Lúcia Amaral, não só pela postura em casos anteriores, mas também pelo relacionamento com familiares seus.
    No presente caso, parece-me inadequada a ingerência de orgãos judiciais em assuntos de saúde tendo em conta o contexto actual.
    Não esperava dela a iniciativa, o que lamento, mas já por várias vezes manifestei a minha opinião sobre outro organismo (CNPD) muito vocacionado a exercer entropia em assuntos sérios em nome de direitos fúteis!
    O responsável pela Protecção Civil de Gondomar pediu a lista dos cidadãos a quem tinha sido ordenada quarentena, para os poder fiscalizar, mas foi-lhe recusada pela mesma pessoa que garantiu que o facto da constituição portuguesa não o permitir, não era problema porque havia mecanismos legais para o fazer !
    É o velho jogo do gato e do rato, para intelectuais que precisam dos autores da moda (Hayek, Rand, Chesterton …) para darem alguma credibilidade ao que escrevem !
    Curiosamente, morre um jovem de 16 anos em Ovar, quebrando o paradigma que o covid-19 era só para velhos, e de imediato é conhecido o nome do
    jovem, violando o dogma da privacidade, e ninguém vai preso !

    Caro Sr. Silveira, agora entendo porque erra tanto nas suas análises à curva do covid-19!
    Afinal o problema não é da calculadora, é da literatura !

  4. “Ironicamente, não vem do Estado essa vontade de ir mais longe na compressão dos direitos, nem (apenas) de militantes da esquerda radical”

    Normalmente, a esquerda radical só defende o “Estado forte” quando está no governo, e quando está na oposição por vezes até são dos maiores defensores das liberdades civis; nisso distingue-se da direita radical, que tende a ser “lei e ordem” mesmo quando está na oposição..

  5. Olympus Mons

    É constrangedor. A pandemia é para ser levada a sério mas perdemos qualquer noção da perspetiva da dimensão do problema.

    Ir lembrando as pessoas que o número de mortes na Europa está a ser o mais baixo desde há muito tempo, como reportado aqui pela União Europeia. https://www.euromomo.eu/index.html

    Sim, vamos ter o ano menos mortífero. Não o mais mortífero. Claro que se não fizéssemos nada o numero teria sido maior. Mas até que ponto seria maior? Quão cedo entraria a imunidade de grupo? Os cuidados que as pessoas tiveram no SARS a lavar as mãos e usar desinfectante, etc teria tido impacto?

    Tal como o Diogo, também concordo com as medidas que tomámos. Não é esse o ponto.

    Mas então porque fazemos tudo isto? Porque a nossa espécie não se protege nem se governa por meio do utilitarismo e mesmo do racionalismo muitas vezes promovido pela esquerdalhada mas sim pelo moralmente deontológico. E o deontológico não se restringe ao medo do incerto mas espalha-se até ao direito à propriedade, liberdade. Não perceber isto foi e é o erro de decartes. Nao aceitámos que os nossos idosos fossem vitima da doença. Será que o custo beneficio o justificaria? – Nao interessa. deontológicamente não o aceitamos e pronto.

    Mas da próximas vez que falarmos de questoes morais vamos lembrar o deontológico? Sei lá, Aborto?……… Eutanásia?

  6. Olympus Mons:

    “Ir lembrando as pessoas que o número de mortes na Europa está a ser o mais baixo desde há muito tempo, como reportado aqui pela União Europeia. https://www.euromomo.eu/index.html

    Não me parece que esse link diga isso:

    “Pooled estimates of all-cause mortality show, overall, normal expected levels in the participating countries; however, increased excess mortality is notable in Italy.

    Data from 24 participating countries or regions were included in this week’s pooled analysis of all-cause mortality in Europe.”

  7. Olympus Mons

    @Miguel Madeira,
    Olhe para os gráficos e ignore as explicações parvas e reveladoras da estupefação de quem escreve a porcaria do texto. – Qualquer um deles que escrevesse uma representação dos gráficos era despedido na hora.

    Veja que os picos de mortes da época da gripe (por isso maiores nas idades maiores) não estão a ocorrer este ano (por razões óbvias).

    Quarentena não é só para o Covid-19. Isso é tao óbvio que nem era esse o meu ponto. Quando muito tentar inferir quão maior seria o pico sem termos destruído a nossa economia e quiçá o modo de vida. Fizemos isso por razoes deontológicas e não por estar a morrer muita gente.

    Veja o pico inverno 17/18… aquela onda que ali vê, matou algo como 750 mil pessoas (worldwide). — Nem passou nas noticias.

  8. Precisamente Olympus Moon
    Olhar para o gráfico não para o texto.
    O Inverno de 2016-17 parece ter sido desastroso.

    Por exemplo em Itália o pico de 2016-17 é bem maior e mais extenso que em 2020.

    O que mostra mais uma vez o “valor” do jornalistas, do jornalismo, das notícias.

  9. Olympus Mons

    Da categoria invisível para jornalistas e esquerdoides

    Acabei de ouvir a equipa para a pandemia de Trump dizer que ficaram surpreendidos porque o Reino Unido só tem 8,000 ventiladores quando os Estados Unidos tem 200,000 (5 vezes mais que o ratio que daria 40,000) – pensei, não, no continente dos SNS têm tudo como é possível? Na terra dos direitistas da trumplandia é que quem apanha uma doença morre a não ser que seja milionário… 200K! aliás só 10K tem o governo como stockpile para poder enviar para quem tiver com necessidade.

    Pensei, esta falta de ventiladores deve ser uma coisa do reino Unido. Devem odiar ventiladores por alguma razão. Fui investigar…
    França – 5000.
    Portugal – 1200.

  10. Cacim Bado

    Se alguém puder fazer um esclarecimento sobre isto agradeço:

    Pergunta e respectiva resposta colhida em documento oficiais sobre a pandemia.
    Pergunta:
    Tenho filha menor de 12 anos e vou ter de ficar em casa para a acompanhar, As faltas ao trabalho são justificadas?
    Resposta:
    Sim, as faltas são justificadas, desde que não coincidam com as férias escolares. O trabalhador deve comunicar à entidade empregadora o motivo da ausência através de formulário próprio.

    Baseando-me no caso concreto da minha filha, será ajustado considerar falta ao trabalho quando por articulado governamental e determinação da entidade empregadora, é forçada a ficar em casa onde simultaneamente com o teletrabalho, perfeitamente enquadrado com a função profissional, tem a premente necessidade de dar assistência à sua bebé de 2 anos?
    Embora se reconheça que alguma parte do tempo de tarefas seja de atendimento à sua criança, pode isso constituir factor de exclusão do regime de teletrabalho? Tendo consciência que o caso que relato será comum a muitos outros trabalhadores, para evitar situações de preocupante desespero.
    Muito obrigado por um possível esclarecimento.
    Aarão Marques

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