As árvores morrem de pé

Debater a eutanásia de uma forma panfletária ou seguindo um guião ou uma cartilha não me entusiasma. Não tenho frases eloquentes para escrever sobre o tema, nem estou seguro que seja possível ter respostas translúcidas para um dilema que é íntimo, de humanidade, e que se coloca no epílogo da vida. Com total honestidade, não tenho orgulho na minha posição, nem um libelo acusatório para quem sobre este tema pense diferente. Há muito que não tenho paciência para a Constituição, e já não sei bem o que é juridicamente um “direito absoluto”. Cada vez respeito mais a complexidade que é lidar com a dor, o sofrimento e a exigência de carácter que tal implica. Fico aliás estupefacto com a aparente facilidade com que tantos em ambas as barricadas são capazes de dissertar sem dúvidas sobre alguns dos assuntos que, para muitos de nós, humanos com sentido e consciência, mais nos tiram o discernimento: o sofrimento na doença e a hora da morte. Admito que esta degenerescência no debate seja mais um sinal dos tempos, onde na Torre de Babel em que voluntariamente nos fechamos se escreve muito mais para os que compreendem a nossa linguagem, para alicerçar agendas, e bastante menos para analisar o próprio tema e construir as pontes que, desejavelmente, deveriam ser o suporte das soluções em sociedades plurais, tolerantes e saudavelmente recheadas de diferenças.

Da minha parte, espero ter sempre força e ânimo para que a doença não me vença, ser capaz de dar sentido à dor e ao sofrimento para nunca desejar a morte. Espero que quando os meus olhos se apaguem possa ver uma luz na escuridão e sentir o calor de uma mão amiga, familiar, de alguém que me ame. Espero nas minhas limitações físicas ouvir ao longe um eco ensurdecedor de todos os que me rodeiam. Espero morrer fisicamente esvaziado mas com o coração cheio de amor.

Tenho medo que a hora da minha morte seja precedida de um hiato silencioso, suspensa por um derradeiro ato burocrático, em que pessoas que me desconhecem procurem avaliar na minha fragilidade se ainda existe uma réstia de discernimento e capacidade para decidir o meu caminho. Tenho medo de morrer desejando a morte, aguardando a minha viagem final um salvo-conduto, cheio de carimbos e autorizações. Assusta-me pensar que posso vir a morrer sozinho, com as mãos vazias e geladas, desejando uma injecção que me alivie a dor de me ter tornado dispensável e não amado. Espero, se me faltar a força de espírito para querer viver, que a minha morte seja ao menos acelerada por um ato de amor.

Tenho medo de morrer sozinho, nas mãos dos que possam interpretar na minha fragilidade, a minha vontade. Espero que a minha morte não implique o preenchimento de mais um formulário passível de copy-paste, sujeito a apostilha e imposto do selo.

Quando debatemos a eutanásia, não falamos hoje todos a mesma linguagem, nem partilhamos os mesmos valores. Para muitos (desconfio ainda assim que cada vez menos), a recusa da eutanásia passa por não se aceitar que a vida possa ser disponível às mãos dos nossos semelhantes. Para muitos, como eu, viver é um ato de responsabilidade, cujas incidências aceitamos, mas cujo fim não nos compete comandar. A minha vida não me pertence, sou apenas o seu guardião, não tendo por isso a liberdade de decidir quando ela começou, ou quando terá de acabar.

A cultura dominante porém hoje recusa crescentemente esta visão. A liberdade para dispor integralmente do próprio corpo é algo que hoje se assume como um pressuposto na discussão, e que a maioria considera já como um dado de partida. Viver já não é uma responsabilidade, mas apenas um direito. Somos além disso cada vez menos preparados para aceitar o sofrimento inevitável, para lhe dar sentido, para saber viver em alegria na fragilidade, mesmo quando a marca da dor é muito forte. Na cultura dominante são aceitáveis fórmulas de sofrimento, se forem desejadas, no desporto, no trabalho, até nas nossas vidas íntimas, mas paralisamos se elas resultarem das circunstâncias de uma vida onde a fragilidade e a decadência físicas são incontornáveis. Acresce que com a evolução tecnológica e científica a nossa esperança de vida tende a aumentar exponencialmente, mas muitas vezes num contexto de limitação e doença prolongada muito exigentes para cada um de nós, para os que nos rodeiam – e para o chamado “erário público”.

Ora, no contexto cultural e social em que vivemos, dificilmente a eutanásia deixará de se impor no curto prazo, seja nesta legislatura, seja numa legislatura próxima. Há muito que os valores dominantes estão alinhados para valorizar a recusa do sofrimento e o arbítrio da pessoa sobre a sua vida e o seu corpo, e cada vez mais a eutanásia e outras fórmulas de morte assistida ou facilitada serão a solução fácil para dar resposta às múltiplas circunstâncias às quais não vamos conseguir dar resposta. Mesmo muitos dos que hoje têm medo da morte ou a recusam, serão empurrados pelas circunstâncias para uma lenta e solitária decadência física, com falta de cuidados, progressiva ou até abruptamente abandonados à sua sorte. A eutanásia e outras fórmulas de morte assistida ou facilitada são hoje genuinamente vistas por muitos como expressões de livre arbítrio e, até, de misericórdia e generosidade; ora, estes sentimentos e convicções convenientemente acalmarão, no contexto das vidas de hoje, as consciências dos saudáveis, cegando voluntariamente a burocratização da morte. Se a vida – e todas as suas incidências – se tornou apenas num direito e não numa responsabilidade que nos vincula a todos, porque não associar a liberdade a um redentor sopro de morte?

O mundo que favorece a afirmação da eutanásia enquanto valor e enquanto expediente há muito que está a ser construído. Quem hoje o recusa, já só apenas resiste, pois pouco tem a propor à maioria que não compreende a sua linguagem. Agora, se as nossas convicções são fortes, e válidas, como acredito que são, temos de saltar os muros que nos isolam, sem saudosismos, e fugindo do conforto das frases feitas das soluções do passado que não respondem aos problemas do nosso tempo. E nisso há muito a fazer: há uma nova linguagem que importa construir, que motive as futuras gerações para sair das Trevas em que já estamos mergulhados. Até lá, resta-nos a dignidade de morrer de pé, como as árvores, firmes nas nossas raízes, esperando que a natureza se renove, afirmando um novo tempo.

One short sleep past, we wake eternally, / And death shall be no more, Death thou shalt die

Um sono curto passado, e acordaremos eternamente, / E a morte não o será mais, a morte morrerá

(John Donne)

 

Um pensamento sobre “As árvores morrem de pé

  1. Rodrigo, só agora li o texto mas concordo em absoluto. Tanto no respeito pelas posições de incerteza, como no shift cultural.
    Mas sobretudo com o que escreves sobre o sofrimento, que eu também penso mas não consegui exprimir eficazmente até agora sob pena de me sentir moralista.
    A mim preocupa-me o valor que é dado ao sofrimento: ‪Nulo. Negativo até. Que não vale a pena, que não aguentamos, que os que nos amam não querem passar por isso, ou não aguentam eles, que não é digno, que é evitável. Nada mais longe da verdade, como sabe quem já viveu. Mesmo que no final queira morrer, o sofrimento faz parte da vida. Todos experimentaremos, em maior ou menor grau, perdas, doenças graves, acidentes, sofrimento físico e emocional. Que ponha o dedo no ar quem nunca passou por isso. E, olhando para trás, que fizeram? Que dirão aos vossos filhos quando eles passarem por isso?‬‬
    Se estão a ler isto, é porque esses sofrimentos passaram e não advinham de uma doença terminal, que naturalmente traz consigo o desespero agravante de não ver luz ao fundo do túnel. Mas o sofrimento não tem só sentido se tiver uma data limite. E, por muito que não queiramos, faz parte da vida mesmo em situações não terminais.
    Como dizes, “Somos cada vez menos preparados para aceitar o sofrimento inevitável”, e é uma pena.

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