A Política Apocalíptica de Greta

Por considerar tudo o que envolve a moça, no mínimo, ridículo, tenho evitado escrever sobre Greta Thunberg. Como se vê, acabei por ceder. You can run but you can’t hide. A Greta está em todo o lado: a abrir o jornal, nas trends do twitter, nas partilhas do facebook, nas conversas do metro. Um ridículo com tais proporções não deixa de ser ridículo mas deixa de ser desprezável.

No meio disto tudo posso, pelo menos, dizer: eu avisei. No meu texto de estreia aqui no blog, insurgia-me, enquanto jovem, contra a juventude. Dizia que “a sapiência juvenil é reiterada aos pontapés e todos tem algo a dizer sobre o jovem enquanto agente da mudança”. Mal sabia eu que, meio ano depois, as minhas palavras ganhariam vida e cerca de 20000 jovens portugueses faria uma “greve às aulas pelo clima”. O objetivo: “uma mudança de paradigma”. E, para que não restem dúvidas, eles não estão “a brincar com isto”. Não tenho dúvidas. Se acho que brincar seria uma atividade mais sã? Sim, mas isso não vem à baila. Jovens que querem mudar o mundo não são novidade. A novidade são os adultos encantados com os jovens que querem mudar o mundo.

Como dizia no meu texto, podemos datar esta inversão epistemológica em que o domínio do conhecimento passou para os mais novos com alguma exatidão: maio de 1968. Os protestos que aí ocorreram são, de certa forma, o mito fundador das “greves estudantis” que vemos hoje. E, na minha opinião, muito mais grave do que dar voz aos jovens (que, por si, não representa um problema) foi o surgimento e a deificação do “espírito jovem”, a expressão favorita de todos aqueles que gostam de mascarar o seu ressentimento com eufemismos. O “espírito jovem” não é, por si, um problema. Aliás, é mais do que normal que a Greta, com 16 anos, tenha esse mesmo “espírito jovem”. Torna-se patológico quando nunca é ultrapassado. O problema é, como nos diz o cada vez mais atual Nelson Rodrigues, que “o fato de um imbecil ter 17 anos transformou-se em um mérito formidável. O sujeito passou a ser seguido e respeitado, não por ter tais ou quais méritos, mas por ter nascido em 1952 [leia-se, 2003]”.

Greta Thunberg é o símbolo perfeito da “espírito jovem”-ização da sociedade, onde todos querem mudar o mundo de cima para baixo, de acordo com os seus ditames, como uma criança mimada. Para tal, qualquer discussão séria (que tem de existir) sobre como tratar os problemas ambientais sem matar o comércio, a mobilidade internacional, a agricultura e, acima de tudo, o desenvolvimento do 3º mundo, é adiada em prol de discursos apocalípticos. Com isto, o movimento de Greta Thunberg apenas consolidou algo que o maio de 68 falhou em fazer: a dimensão religiosa do “espírito jovem”. Não é preciso muito esforço para encontrar elementos apocalípticos no movimento liderado pela jovem sueca. Porém, a um paganismo e conceção de natureza enquanto a “Grande Mãe” foi somado um elemento apocalíptico tipicamente cristão. Aliás, não são poucos os que tentam (e tentaram) consolidar-se como profetas ao prever a data do Eco-Juízo Final.

O problema não é Greta Thunberg, é aquilo que ela encarna: uma crise que é, no seu âmago, espiritual. Como bem notou o Jorge Miguel Teixeira: “Que nos interessa se Greta é doente?”. Os seus supostos problemas mentais não explicam nada sobre o fenómeno que ela encarna: um gigante vácuo emocional que domina jovens e adultos. E esse mesmo vácuo concretiza-se tanto no movimento ambiental apocalíptico quanto no identitarismo que seduz cada vez mais, por exemplo, a juventude francesa. No cerne de ambos jaz o espírito revolucionário, que enxerga o mundo como uma longa e histórica tirania dos obscurantistas, que deve ser ultrapassada a qualquer custo pelos iluminados. É esse espírito que domina o mais recente discurso de Greta, onde diz que a sua infância foi roubada. A cegueira apocalíptica impede Greta (e todos os seus entusiastas) de ver que ela teve a sorte de ter uma infância incomparavelmente melhor que a da larguíssima maioria das crianças que habitam ou já habitaram este planeta. E mais, parece que as coisas vão continuar a melhorar para as futuras gerações.

Os meus gostos filosóficos sempre me inclinaram para o pessimismo mas creio que a única forma de combater o pensamento apocalíptico dominante é mostrar que há sólidas razões para não desesperar. O ocidente parece ser dominado por um síndrome de “fim de Roma”, onde paralelos com o decadentismo romano são traçados quase diariamente. E talvez seja por isso que não conseguimos perceber o quão singular (no bom sentido) é a nossa situação. Um dos sentimentos morais mais importantes numa comunidade política é a gratidão. Ora, é impossível ter qualquer tipo de gratidão pelo passado quando o pensamos como um tirania patriarcal e genocida que contribuiu para que o nosso mundo esteja à beira do desastre – e que, por isso, nos “roubou a infância”. Esta forma de pensar, para além de levar ao vácuo emocional que descrevi antes, é falsa. Recomendo, para contrabalançar o discurso apocalíptico cada vez mais dominante, o site humanhrogress.org ou o recente projeto da British Conservation Alliance onde podemos descobrir diariamente razões para ser gratos e soluções efectivas para os maiores problemas que nos assolam.

Face esta nova religião secular apocalíptica, vale lembrar a frase de Chesterton: ““When men choose not to believe in God, they do not thereafter believe in nothing, they then become capable of believing in anything”. O mundo de significados foi deslocado para a ordem puramente imanente da política. Aproxima-mo-nos de uma existência que começa e acaba na política e que começa a ver a mesma não como um espaço de debate entre adversários mas como um terreno de extermínio de inimigos, o lugar onde se dá a derradeira luta entre o Bem e o Mal e em que, claro, o Bem deve vencer. No caso de Greta, o Bem é verde e o Mal é não-Verde. O verdadeiro perigo da política apocalíptica jaz no facto de que a expectativa apocalíptica, ao perceber que jamais será realizada a contento (porque, afinal de contas, ninguém sabe quando o dia chegará), é o combustível para o surgimento de um ressentimento que enfim destruirá o resto de civilização que ainda julgamos conhecer tão bem.greta.png

7 pensamentos sobre “A Política Apocalíptica de Greta

  1. ATAV

    Estive a ler isto e há três coisas que me saltam à vista:

    1º Segundo o autor o que a Greta defende é uma visão maniqueísta do mundo e resume-se a politica apocalíptica. E o autor considera isso censurável porque é redutor. Então porquê que o autor trata de forma hipócrita toda a juventude nos mesmos termos?

    “Greta Thunberg é o símbolo perfeito da “espírito jovem”-ização da sociedade, onde todos querem mudar o mundo de cima para baixo, de acordo com os seus ditames, como uma criança mimada.”

    2º Outra das coisas que se pode depreender deste texto demasiado longo é que, se alguém pertencer a um grupo de pessoas mais afortunadas do que outras, as injustiças que sofra não são relevantes nem tem o direito de lutar para as corrigir. Comer e calar para os ambientalistas.

    “Um dos sentimentos morais mais importantes numa comunidade política é a gratidão. Ora, é impossível ter qualquer tipo de gratidão pelo passado quando o pensamos como um tirania patriarcal e genocida que contribuiu para que o nosso mundo esteja à beira do desastre – e que, por isso, nos “roubou a infância”. ”

    3º Fui ver os sites cujos links estão presente no post e aquilo é semelhante ao que se costuma impingir por aqui: direcionar o processo politico para beneficiar os empresários e as empresas. Até chega ao ponto de referir várias vezes que é preciso baixar o IRC e outros impostos às empresas. De resto umas referências ao progresso tecnológico já atingido e alguns soundbites ecológicos para disfarçar.

    Texto pejado de ideologia, longo, repetitivo e vápido.

  2. A instilar o pecado é o processo para tirar o poder da pessoa e passá-lo para o grupo.

    A negação da pessoa, do individuo é o objectivo que está por detrás do jornalismo que construiu a Greta e de quem a apoia.
    É também o que está por detrás do politicamente correcto ao meter todos em grupos com regras especificas de comportamento.

    Assim como ATAV, o movimento da Greta não aceita que outros vivam sem adoptarem a sua moral.

  3. ATAV

    lucklucky

    “A instilar o pecado é o processo para tirar o poder da pessoa e passá-lo para o grupo. ”

    Tipo a Igreja Católica quando diz que uma criança recém-nascida está contaminada pelo pecado original de Adão e Eva. Mas com os ratos de sacristia você não aparenta ter problemas…

    “A negação da pessoa, do individuo é o objectivo que está por detrás do jornalismo que construiu a Greta e de quem a apoia.”

    As já habituais teorias da conspiração da extrema-direita. Nada de novo aqui, avancemos…

    “É também o que está por detrás do politicamente correcto ao meter todos em grupos com regras especificas de comportamento.”

    Cada vez que alguém escreve o termo “politicamente correcto” eu leio apenas “sou um choninhas que quer insultar os outros mas não aguenta o contraditório”. Sabia que quase toda a gente em Portugal está metida num grupo (os portugueses) e que têm todos regras específicas de comportamento (cumprir a lei portuguesa)?

    “Assim como ATAV, o movimento da Greta não aceita que outros vivam sem adoptarem a sua moral.”

    A Greta defende que se não se preservar o ambiente, a espécie humana extingue-se. Isto inclui-o a si presumo. A coisa resume-se naquele meme do “Não há planeta B”.

    Eu defendo que quem quer viver numa sociedade civilizada deve contribuir para a sustentar.

    Você quer usufruir dos benefícios e confortos da civilização e da sociedade mas quer despejar a conta em cima dos outros. E depois vem para aqui choramingar que uma é enorme injustiça ter de pagar impostos. Você apenas defende uma ideologia que quer parasitar quem trabalha…

  4. ATAV,

    “Tipo a Igreja Católica quando diz que uma criança recém-nascida está contaminada pelo pecado original de Adão e Eva. Mas com os ratos de sacristia você não aparenta ter problemas…”

    Não, não é isso o pecado o original. O pecado original é capacidade (ou propensão se quiser) humana para o mal. Por exemplo, tal como você demonstra na forma como discute.

  5. ATAV

    Nelson Goncalves

    “Não, não é isso o pecado o original. O pecado original é capacidade (ou propensão se quiser) humana para o mal.”

    Não me diga que está afirmar que a igreja católica não acredita na doutrina da Queda do Homem e das consequências que as acções de Adão e Eva tiveram na vida dos seus descendentes. Nomeadamente que só atingem a salvação se se sujeitarem ao sacramentos e integrarem a comunidade cristã.

    Citando outro comentador daqui que descreveu isto perfeitamente: “A instilar o pecado é o processo para tirar o poder da pessoa e passá-lo para o grupo.”

    Citação apropriada não acha? Ou só é aplicável aos impostos?

    ” … é capacidade (ou propensão se quiser) humana para o mal. Por exemplo, tal como você demonstra na forma como discute.”

    Nunca me tinham chamado de maléfico portanto nem sei bem como se defende dessa acusação. Mas posso tentar.

    Ser maléfico aparentemente implica vir a este blog recheado de extremistas e achincalhar autores e comentadores que defendem coisas repreensíveis. Como por exemplo atacar crianças autistas de 16 anos, querer usufruir dos benefícios da sociedade sem os pagar, querer dar cabo do estado social mandando milhões para a pobreza, manter minorias subalternizadas, promover o darwinismo social, espalhar teorias da conspiração para efeitos políticos, atacar jornalistas, fazer propaganda a partidos que estão cheios de estupores misóginos que fazem guerra de classes em prol dos mais fortes, etc, etc, etc…

    Mandar vir com quem defende este tipo de coisas? Maléfico!
    Defender este tipo de coisas? Pessoas às direitas…

  6. É evidente que por aqui há opiniões que se chocam mas, felizmente, graças a Deus, não se insultam.
    Para o humano sempre houve a procura de muitos porquês e dos aléns (do que houve, do que há e do que haverá).
    Creio que seja claro que se desde há milénios se continuam essas buscas, e que têm sido desenvolvidas por quem consideramos humanos superiores. Então é porque o humano não pode ‘dar a passada maior que a perna’.
    Na Crença, na Fé, na Religião, todos temos humanas dificuldades. E temos de saber viver com os nossos limites. E tirar o maior e melhor proveito destes.
    Também acredito que as pessoas sabem que há gente decente e gente indecente. E que temos que tirar o maior e melhor proveito de todos.

    Isto foi longo mas estou em paz. Espero que vós também. Mas como escreveu Alfred North Whitehead: The absolute pacifist is a bad citizen; times come when force must be used to uphold right, justice and ideals.

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