Preço é o melhor sinal

Em anteriores posts, procurei demonstrar que flutuação do preço dos combustíveis é a melhor (e mais justa) forma de gerir a acrescida escassez, resultante de greves dos motoristas de transportes de matérias perigosas (ver aqui, aqui e aqui). Um aumento do preço sinaliza aos consumidores que devem reavaliar o custo-benefício das suas próximas viagens. Ao mesmo tempo, sinaliza aos produtores/distribuidores que terão disponível valor extra para financiar medidas que permitam aumentar a oferta de combustíveis.

Como poderão comprovar nos comentários aos posts acima referenciados, alguns leitores não aceitam os méritos da mais básica lei económica: desequilíbrios na oferta e/ou procura determinam variações do preço (grau de variação dependendo da “elasticidade” de cada). Destaco o uso do termo anglo-saxónico “price gouging” e afirmações como “quem está mais interessado [em abastecer] chega mais cedo á fila“.

Considerem esta última asserção. Tentei explicar que preço mais alto, em situação de greve, iria reduzir o número de pessoas na fila para abastecer, dado que o “valor” atribuído a 1 litro de combustível não é igual para todos os consumidores. Se, pelo contrário, é definido um limite na quantidade a abastecer (os 15 litros), para alguns leitores a maior ou menor preferência pelo combustível é mensurável pela hora de chegada ao posto de abastecimento. Como se consumidores valorizassem o tempo de espera de forma igual… Mas vejamos o seguinte cenário: e se um condutor no fim da fila, que valoriza mais o combustível que o condutor no início da fila, estiver disposto a pagar-lhe valor extra pelo combustível que vai comprar? Cria-se um “mercado negro”, sendo beneficiado o motorista que prefere vender o seu tempo, ao invés do posto de abastecimento que poderia usar esse valor para pagar prémio pelo fornecimento extraordinário.

Claro que, para estatistas, as virtudes da liberdade económica são difíceis de aceitar… Contudo, até os governantes parecem ser mais sensatos. Veja-se o Decreto-Lei 114/2001 que define/regulamenta situação de crise energética, aprovado por um Governo socialista (primeiro-ministro António Guterres) e promulgado por presidente socialista (Jorge Sampaio) [meus destaques]:

Princípios gerais
3 – A intervenção da Administração Pública será, tanto quanto possível, supletiva, devendo ser aproveitadas, prioritariamente, as potencialidades auto-reguladoras dos mecanismos de mercado para combater os efeitos da crise.

(…)

Medidas para redução da procura de energia
4 – As medidas visando indirectamente a poupança de energia podem consistir, designadamente, em:
c) Agravamento das tarifas e dos preços da energia.

Ou seja, a lei portuguesa reconhece que os preços em mercado livre devem (preferencialmente!) regular desequilíbrios na oferta e procura. A outra opção – não podia deixar de ser – é aumentar impostos.

Fica a seguinte questão: mesmo que a lei prioritize o que alguns incapazmente verbalizam de “price gouging“, será que actual Governo o permitiria? Provavelmente nunca o saberemos, porque gestores de grandes, médias e até pequenas empresas sabem que a maioria dos consumidores seria, nestes casos, mais emotiva que racional. Preferem, portanto, deixar o combustível esgotar e esperar que Governo intervenha. Para aqueles, se aos olhos dos consumidores tem de haver “maus-da-fita”, que sejam os sindicatos e/ou Governo. A quem anseia por uma sociedade mais livre, é lamentável que assim seja 😦

 

 

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15 pensamentos sobre “Preço é o melhor sinal

  1. fernandocorreia20

    “mesmo que a lei prioritize””

    “prioritize”??? será uma forma do verbo “prioritizar”???

  2. ATAV

    BZ

    Vejo que tem um problema com o termo “price gouging”. E se tentássemos outro anglicismo? Como por exemplo “cherry picking”.

    Sabe, essa lei quer citou não diz apenas que deve ser o preço a definir quem leva o bem. Também elenca muitas outras medidas que possam aumentar a oferta e medidas de redução da procura.

    Como por exemplo impondo o racionamento entre a população (os famosos 15 litros por cliente), obrigando as entidades públicas a consumirem apenas o estritamente necessário ou divulgar informação relevante que leve as pessoas reduzirem o seu consumo (o que o governo tem tentado fazer nas últimas semanas).

    Outra medida possível também pode ser o governo servir de mediador entre as partes para concluir esta greve.

    Mas como o BZ tem uma predileção pela plutocracia, a única medida que lhe interessa é o preço. Está no seu direito, mas não se queixe se nem toda a gente partilhar do seu entusiamo por essa via..

  3. Toda esta conversa de se quem valoriza mais é quem está disposto a pagar mais ou quem está disposto a ir mais cedo para a fila parece-me assentar na ideia de que é possível fazer uma comparação interpessoal de utilidade, o que talvez não faça grande sentido.

    [Isto parece uma remake de uns posts que o BZ escreveu há uns anos sobre os preços dos bilhetes dos concertos de rock – não me lembro se fiz este comentário na altura, mas pensei nisso]

  4. miguelmadeira, não é necessário comparar (nem é possível) utilidades. Basta deixar preços flutuarem e essas preferências manifestam-se na acção dos consumidores.
    PS: não me lembro de post sobre bilhetes de concertos, mas é provável 🙂

  5. ATAV

    BZ

    Eh lá! Tão legalista que me você me saiu. Pouco credível para alguém cujo avatar é a mascara do Guy Fawkes, símbolo dos anarquistas.

    Isso é grande treta e você sabe-o! Se a lei dissesse o exacto oposto, você defenderia exactamente o mesmo.

    “1 – A resposta a uma situação de crise energética requer a formulação de planos e a execução de medidas com a finalidade de optimizar a utilização dos recursos energéticos disponíveis, tendo em atenção as prioridades que forem definidas pelo Governo.”

    Está a ver isto? É o primeiro ponto desse mesmo artigo. O governo decidiu que a prioridade era aumentar a oferta mediando o conflito entre as partes e fazendo a requisição civil e diminuir a procura divulgando a informação que a greve poderia durar e impondo os 15 litros por viatura ligeira.

    “Cherry picking” com a intenção de permitir que a ANTRAM e as gasolineiras encham os bolsos e, com parte desse dinheiro, contratem fura-greves para dar cabo do sindicato.

    Outro sinal que você só refere a lei de forma oportunista: já demonstrou que não tem problemas nenhuns se as empresas furarem a greve.

  6. Acho bem que se aumente o preço desde que esse aumento reverta a favor do Estado (aumento do imposto sobre combustíveis durante a greve). Há que financiar um aumento das despesas que o Estado está a ter com o controlo e mediação da greve. São custos não orçamentados…

    Isso não vão vocês aceitar, como defensores das gasolineiras que são…

  7. JgMenos

    O resultado desse liberalismo seria mais dinheiro para Estado e motoristas e mais custos para todos mais…

    Antes de ser mais liberal é preciso uma sociedade com representação mais activa.

  8. Anonimus

    Curioso que os serviços mínimos se centram nas grandes metrópoles, onde as alternativas de transportes públicos são maiores.
    As cidades sem metro ou ferrovia, que dependem exclusivamente do combustível fóssil, terão direito a preços mais baixos?

  9. mg42

    É engraçado como estes uber-neo-tontos, têm a mesmo quadro mental que os marxistas. Apelam a “leis” das suas doutrinas baseadas em permissas ideológicas. Retiram as suas conclusões logico-materialistas que lhes interessa sob a capa de um pretenso universalismo mecanicista cientifico, da qual eles dominam toda a sua história.

    A mediocridade filosófica é tal que não são capazes de se aperceber das contradições constantes que proclamam, sobretudo nas suas mais elementares permissas. Como o constante apelo ora por um lado da diminuição da intervenção do Estado na sua “liberdade”, ora por outro para que esse mesmo Estado se imponha e intervenha na garantia do seu direito de propriedade, à custa da “liberdade” dos outros. É por isso eles adoram tanto aplicar os “Preços” nos outros, mas berram quando o Estado lhes aplica o dele .

  10. Hipocrisia socialista no seu esplendor : Mais de 60% de impostos sobre um bem essencial , onde a componente do preço relativo ao transporte em comparação é minimo e a componente mão-de-obra do transporte quase despresível , face ao glutão estado socialista .
    Seriam os impostos aquilo que se deveria discutir , mas os oligarcas (politicos) e seus cães de guarda ( tvs/radio/jornais /jornalistas) não permitem.
    E assim o Kosta e pandilha atiram o ónus da sua miseravel condutoa para outro lado, enganando o rebanho.

  11. Ricardo

    Sendo o preço variável, que acontece às pessoas que trabalham no centro das cidades e que foram empurradas para a periferia devido às rendas elevadas? As pessoas que dependem exclusivamente do automóvel devido ao fraco serviço prestado pelos transportes públicos e, ao mesmo tempo, não têm tantos recursos para pagar combustíveis inflacionados em tempo de escassez? Despedem-se dos seus empregos? A solução apresentada aqui seria empurrar estas pessoas para uma situação ainda mais precária.

  12. ATAV,

    «Como por exemplo impondo o racionamento entre a população»

    Na Venezuela sabem-no fazer bem.

    E isso aumenta os preços. No mercado negro. Na Venezuela os mercados vêm de todas as cores. Há os mercados brancos, onde as prateleiras estão vazias, e os mercados negros, onde as barrigas ficam vazias.

    É a lei da vida… pá.

  13. ATAV

    Francisco Miguel Colaço

    Acha mesmo que a greve de motoristas de matérias perigosas transformou Portugal num petroestado corrupto e à beira de uma guerra civil?

    Não sei se sabe, mas os países desenvolvidos costumam impor racionamentos de algumas coisas em situações de crise. Assim de repente estou a lembrar-me da Califórnia que restringiu o consumo de água no verão de 2018. Aliás, até tenho a ideia que estas medidas foram tornadas permanentes este ano…

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