A Renúncia do Real

O último episódio da brilhante série Chernobyl é a encarnação perfeita da frase de Orwell: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”. Muito mais do que um desastre nuclear, a série retrata a profunda corrupção da alma que foi o comunismo e a pueril tentativa totalitária de viver uma segunda realidade, livre de complexidades, onde ser e parecer se confundem.

Gorbatchov disse, posteriormente, que Chernobyl foi o ínicio do fim da USSR. Longe disso. O ínicio do fim da USSR já está presente em Marx, em Lenine, em Trotsky e em todos aqueles que renunciaram o real em nome de um ideologia, de um projeto de mundo. O importante aqui é entender como esta deficiência da alma se pode transvestir de virtude. O monopólio da imundície está nas mãos dos que se julgam do bem e dos higiénicos compulsivos. Na visão do déspota, o governo totalitário não se caracteriza por perpetuar o mal a todos os seus servos. Pelo contrário, o totalitário é aquele que, julgando ter compreendido o mundo, pretende cuidar de todos os aspetos da vida dos seus escravos. A imaginação totalitária nasce sempre em quem se percebe santo. É este fenómeno que nos permite perceber a hagiologia contemporânea que é a imagética comunista.

Contudo, nada como a tradição cristã para demonstrar que quanto mais próximo alguém se julga de Deus, mais afogado na vaidade o sujeito se encontra. É a vaidade domina todo o pequeno ditador, evidenciada em verborreias recorrentes como “projeto de sociedade” ou “teoria de mundo”. E é a vaidade que impede o reconhecimento da tragédia que ocorreu em Chernobyl. Por trás do véu de bondade, esconde-se o pensamento único e o desejo de guiar corpo social. A impressão de santidade cria em todo o ditador aspiração de higienizar o globo via lei. Tudo o que atenta ao “projeto de sociedade” deve ser vetado, e aquele que questiona a santidade do projeto, censurado.

Vale a pena lembrar Michael Oakeshott, que costumava dizer que se mede a qualidade de um governante pela ausência de teorias de mundo em sua mente. O bom governante, segundo Oakeshott, entende que a política serve para manter a ordem e a livre-associação viáveis, estorvando a vida das pessoas o mínimo possível. Desta forma, a ausência da vaidade totalitária é essencial num jogo político saudável.

Para evitar o totalitarismo, é crucial entender que ele vem sempre mascarado como a receita fácil para o bem. Mais importante ainda, para o totalitário, o indivíduo deixa de ser um fim em si mesmo. Afinal, qualquer meio serve para que o Éden seja reconstruído.

Chernobyl foi a representação final do totalitarismo político e, pior, da mentalidade totalitária, esse fantasma que assombra cada um de nós. Foi esse fantasma que a série captou tão bem, o fantasma que faz com que dizer a verdade seja um ato revolucionário. A imaginação totalitária depende da renúncia do real, é a tentativa de viver uma segunda realidade, impondo essa tirania ao outro. A experiência totalitária depende, muito mais do que do poder do estado, da força de submissão que está na cabeça das pessoas. E, como a série deixa claro, a única forma que a mentalidade totalitária tem para sobreviver é a castração contínua de qualquer forma de consciência moral.

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5 pensamentos sobre “A Renúncia do Real

  1. OUTRA:

    Um homem dirige-se à porta do KGB. Reclama:

    — Venho reportar o roubo do meu papagaio.

    — Ó senhor. Aqui é a segurança do Estado. Para casos desses você vai à polícia.

    — Isso eu sei. Mas gostaria antes de ir de deixar expresso que discordo veementemente das opiniões do meu papagaio.

  2. Bom texto.

    A natureza de uma pessoa assim como de uma ideologia revelam-se assim que têm poder sobre os outros.

    “A imaginação totalitária nasce sempre em quem se percebe santo.”

    Precisamente assim como a referência que fez à vaidade como necessária para alguém se ver como santo. Que não passa de uma táctica para se julgar superior aos outros.

    Quanto mais superior essa pessoa se julga- perto do poder dos deuses se sente- emais consegue auto justificar-se em usar o poder dos deuses – vida e morte -sobre os outros.

    Por isso o Marxismo provocou milhões de mortos. Incluíndo milhões de outros Marxistas. Por isso é que digo que é um movimento de Supremacismo Social.

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