A “democracia” do PCP

À pergunta “Incomoda-o o facto de a Coreia do Norte não ser uma democracia?”, Jerónimo de Sousa respondeu: “Eu não fazia essa classificação de ser ou não ser”. Ao contrário do que pensam os incautos, a intelectualidade comunista está viva e com boa saúde, veja-se o devaneio hamletiano do dirigente do PCP. Não fosse Shakespeare suficiente, Jerónimo trata de apimentar o debate com a boa e velha dúvida socrática: “ O que é a democracia?”, pergunta o dirigente comunista. Como um digno socrático (nas mais diversas acepções do termo), Jerónimo logo corrige o seu discípulo, cujo conceito de democracia envolve “políticos eleitos, por exemplo”, relegando-o ao domínio do “é uma opinião”, ou seja, da doxa platónica (δόξα, para os entendidos). O diálogo terminou, infelizmente, numa aporia. Porém, tenho a certeza que o processo dialético continuará o seu caminho rumo ao esclarecimento.

Podemos tirar duas conclusões deste episódio: Jerónimo de Sousa não sabe o que é uma democracia ou, quiçá, Jerónimo de Sousa sabe perfeitamente o que uma democracia, nos é que não o entendemos. Tendo a ser simpático à segunda opção. Afinal, visto a quantidade de vezes que o PCP usa a palavra democracia, o ignorante aqui devo ser eu. Veja-se a marcha “Liberdade e Democracia”, a palestra “Liberdade, democracia e socialismo”(num colóquio sobre o famigerado democrata Karl Marx) ou as diversas manifestações do partido em relação ao “golpe contra a democracia” no Brasil e na Venezuela. O PCP reclama o conceito, usa-o abundantemente e não sabe o que ele significa? Estranho. Felizmente, o próprio Jerónimo começou a traçar um esboço conceptual, invocando a “democracia avançada tendo em conta os valores de Abril”, conceito que peca, creio, por falta de brevidade. Ao falar da “democracia avançada tendo em conta os valores de Abril”, porém, continuamos sem saber o que quer dizer com “democracia”. Não desesperemos. Dadas as diversas manifestações do partido contra o “golpe” na Venezuela e no Brasil, encontramos duas democracias aceites pelo PCP: o Brasil petista e a Venezuela de Chávez e Maduro. Ao que parece, democracia envolve, no caso do PT: esquemas de compra de votos; organização o maior escândalo de corrupção do país; tentativas de censura de imprensa; e regozijo pelo facto de “não ter um candidato de direita na campanha”. Já no caso da Venezuela atingimos um estado hiperdemocrático: em 14 eleições, o regime perdeu apenas uma; os poderes estão devidamente divididos: Maduro no executivo, Maduro no judicial e Maduro no legislativo; e os media estão devidamente controlados. Continuo, assim, sem descartar a segunda opção, apenas creio que deve ser devidamente reformulada: Jerónimo de Sousa sabe perfeitamente o que ele quer dizer com democracia e nós continuamos, voluntariamente, a ignorar esse facto.

Vemos isto ao verificar que a tirada do dirigente do PCP, como qualquer barbaridade proferida à esquerda do PSD, foi recebida com a devida leniência. Houve, efetivamente, alguma indignação (ou, pelo menos, afetação de indignação), porém, sempre travada pela aura de desculpabilidade que rodeia o PCP. Donald Trump gabava-se de poder “dar um tiro a alguém” sem perde qualquer voto. Se conhecesse os encantos nacionais, saberia que o PCP já goza de tal complacência há muito mais tempo. Bernardino Soares pode ter “dúvidas de que não haja lá [na Coreia do Norte] uma democracia” e o Partido dos Trabalhadores da Coreia pode marcar presença no Avante sem que tal “aura de desculpabilidade” se perca. Esta, por sua vez, baseia-se em dois mitos: a ideia de que o PCP lutou pela liberdade e a ideia de que o PCP se desradicalizou.

O primeiro mito é facilmente desmascarado: a “democracia” do PCP costuma fazer par com a “liberdade” do PCP (veja-se a marcha “Liberdade e Democracia”) e, tendo em conta o seu sentido peculiar de “democracia”, podemos concluir que esta “liberdade” nada mais significa do que o seu contrário. Como notou Alberto Gonçalves, umas das misérias que o Salazarismo nos legou “foi o mito de que o PCP combateu a ditadura em nome da liberdade. No mundo real, o PCP lutava por uma ditadura mais repressiva, da qual aliás se espreitou o grotesco rosto em 1975.” Continuarmos a louvar a luta do PCP como uma luta democrática, como fez Marcelo Rebelo de Sousa, é cair na ladainha do partido. Para o PCP, “ditadura”, “liberdade”, “democracia” são conceitos flutuantes, cujo significado varia com a maré e que servem, pura e simplesmente, como eufemismos para a defesa do socialismo. Entretanto, a experiência mostra-nos que “liberdade e socialismo” ou “democracia e socialismo” fazem tanto sentido quanto “putaria e castidade”.

O segundo mito, igualmente enraizado, parte de uma má compreensão da trajetória do PCP. Este seduz, inclusivamente, parte da direita e baseia-se na ideia de que o PCP é agora um partido do sistema, que conversa com o PS, que faz a barba e usa gravata. Assim sendo, pensar um PCP radical seria perpetuar um “vem aí o diabo” que não espelharia nenhuma situação politica real. Ora, eu conheço poucas situações mais expressivas do “diabo” na política do que a de um partido “do sistema” que tem dúvidas quanto à natureza do regime Norte-Coreano.

É óbvio que o PCP de 2019 não tem planos de socialização dos meios de produção a curto prazo. Contudo, o PCP já faz a barba e usa gravata desde que passou à legalidade. Achar que isso significa uma desradicalização dos comunistas é não entender que o “PCP responde a nova realidade revolucionária”. Esta começou, por exemplo, no momento em que houve a “alteração da expressão «ditadura do proletariado», deixando de se usar a formulação mas mantendo-se o conceito”. Segundo o próprio partido, o conceito mantém-se sob diferentes formulações: “democracia” e “liberdade, quiçá. Esta nova realidade revolucionária é aquela em que vivemos: a realidade onde dúvidas em relação à natureza do regime Norte-Coreano ou Venezuelano são aceitáveis e têm representação parlamentar; a realidade onde conceitos como “liberdade” e “democracia” servem exatamente para subverter o seu sentido; a realidade onde a foice e o martelo são vistos como símbolos libertadores; a realidade em que acontece na FLUL o colóquio “Hegel/Marx- “Cães mortos” ainda vivem”, que já em 1963 era datado ; a realidade em que ser comunista é “cool”.

Apesar do seu caráter quase folclórico, a fala do dirigente do PCP é paradigmática tanto de um PCP que nunca se desradicalizou (e que continua a radicalizar o debate) como da nossa leniência frente aos radicalismos. E esta leniência é ainda mais visível quando falamos do Bloco de Esquerda. Esse caratér quase folclórico do PCP (que funciona para alguns como uma espécie de memorabilia de outubro de 1917) espelha, apesar de tudo, uma genuinidade que não se encontra no Bloco. Enquanto o Bloco apaga publicações de apoio à Venezuela, pelo menos o PCP não esconde as suas simpatias. Enquanto o PCP quer uma revolução para chamar de sua, o BE quer uma casa-de-banho não-binária para chamar de sua. Com isto, trabalham espontaneamente na mesma direção: alargar o espetro de opiniões aceitáveis de modo a abarcar posições que são, na sua essência, radicais — e, pior, transvestidas de virtude.

Aproveitando o espírito platónico/socrático de Jerónimo de Sousa, vale lembrar que, segundo Platão, a democracia está a um passo da tirania. É essa a democracia do PCP.

Sem Título

Anúncios

6 pensamentos sobre “A “democracia” do PCP

  1. “Para o PCP, “ditadura”, “liberdade”, “democracia” são conceitos flutuantes, cujo significado varia com a maré e que servem, pura e simplesmente…”

    Na realidade, é a versão política do “gender fluid” na ideologia do género. É coerente com os respectivos autores.

  2. Ricardo

    Acho que o cassete Jerónimo perguntou o que é a democracia porque genuinamente não sabe. É que esse conceito não faz parte do léxico comunista, e daí o uso e abuso do termo em contextos e com significados desajustados…

  3. mg42

    Vocês Libertoinos falam sempre a Coreia do Norte, mas quando vos falam da China eis que o pêlo vos eriça, e mudam logo o discurso demagógico .
    PUTARIA são o que vocês libertoinos fazem e são.

  4. Nuno

    Um tratado.

    O PCP não quer nem pode abandonar a revolução porque sem ela não tem razão de existir. A chave aqui é o curto prazo vs. o muito longo prazo, a esperança que amanhã o futuro será mais vermelho. Até lá é uma guerra de trincheiras em que tem pânico de ceder um milímetro.
    Normalmente, costuma pensar-se no perigo que representam os radicais mas nunca se pensa no que o radicalismo representa para os radicais: essencialmente mete-os numa camisa de sete varas semelhante à daqueles senhores que vão aos programas da bola jurar a pé juntos que não é penalti ou que a bola não entrou.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.