O dilema dos prisioneiros (2)

As dificuldades do Reino Unido neste seu processo de saída da União Europeia podem ser entendidas recorrendo a um enquadramento de teoria de jogos. Como escrevi uns tempos depois do referendo de 2016, a decisão de permanecer ou não na União é uma espécie de Dilema do Prisioneiro (DP). O que parece ter ocorrido é que o Reino Unido optou pela estratégia não dominante (a que resulta sempre pior). Correndo o risco de tentar atribuir racionalidade a uma decisão que provavelmente teve muito pouco de racional, como se milhões de motivações individuais pudessem realmente levar a uma vontade geral coerente, podemos explicar a decisão de duas formas alternativas:

  1. A fleuma britânica resultou numa escolha sub-óptima por uma questão de princípio (mais vale mais pobre mas mais livre para decidir localmente sem restrições pan-continentais); ou
  2. A decisão seria o prólogo numa série de decisões sequenciais que terminaria no cenário de cooperação mútua do DP (aposta numa queda de dominós na União).

O presente bloqueio parlamentar sugere que nem a questão de princípio era tão forte, nem o tecido comunitário tão fraco.

Abaixo deixo uma explicação mais detalhada do DP para os interessados.

Na definição formal do problema, temos um DP num jogo com dois participantes, de uma única iteração, onde cada participante tem a decisão de cooperar ou desertar. Assumindo que as regras dois-a-dois sem mantêm num conjunto de N participantes, onde um decide de uma forma e os N-1 decidem de outra, mais igual, forma, continuamos a ter um DP onde o raciocínio clássico é válido. Se definirmos cooperação como saída mútua da União (assumindo que essa saída mútua corresponderia à reforma da União no sentido de manter as vantagens comerciais e aduaneiras) e deserção como desistência perante o status quo, obtemos a figura abaixo, que em muito se assemelha a um DP.

dp1

Não estamos perante um DP formal na medida em que uma das três condições de ganhos/perdas não é cumprida:

  • Cooperação mútua é melhor que deserção mútua (V)
  • Deserção unilateral é pior que deserção mútua (V)
  • Deserção unilateral é melhor que cooperação mútua (F)

Ou seja, não há uma estratégia dominante clara de desertar porque assumimos que cooperação mútua tem um “payoff” superior ao cenário de deserção unilateral. Isto é, que uma reforma coordenada da União tem um efeito melhor que ficar nela saindo o outro participante.

Basta flexibilizarmos um pouco a condição de cooperação mútua (p.ex. assumindo que o desmembramento da União, mesmo com reformas para tentar manter os benefícios, teria custos maiores) para termos um DP clássico, na sua forma forte (segunda figura).

dp2

Uma consideração importante é que se o comportamento dos restantes N-1 participantes não for homogéneo, os “payoffs” podem alterar-se. Teria sido, como o benefício de olharmos para o passado com informação presente, mais inteligente o Reino Unido ter assegurado uma coligação de estados membros que estivesse na disposição de cooperar para negociar em grupo uma saída conjunta (na verdade uma reforma profunda das instituições da União sem na verdade a mesma terminar). A relação de forças K vs. N-K com um peso suficiente no conjunto poderia eventualmente mudar a configuração de “payoffs”. Mas a pergunta no referendo era apenas Ficar ou Sair, sem este género de considerações estratégicas.

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