Uma Defesa da Humildade

George Washington morreu, em 1799, rodeado pelos médicos mais consagrados da época. Deparados com uma infeção na epiglote, receitaram ao “Pai da Nação” cinco doses de sangria que, em suma, removeram metade do seu sangue. Na esperança de cura, o tratamento apenas agendou a morte do ex-presidente. A idiotice daqueles médicos parece-nos, nos dias de hoje, óbvia. O corpo humano é demasiado complexo e compreendê-lo viria a exigir mecanismos inexistentes na época. Sem essa compreensão, quase toda a intervenção se revela prejudicial.

No seu ensaio Da Estupidez, Robert Musil esboça um novo ponto de vista sobre uma velha reflexão: se os filósofos e intelectuais sempre procuraram definir a sabedoria, Musil pretende antes entender a estupidez. A estupidez não é simplesmente o antónimo da sabedoria — é, na verdade, cheia de subtilezas. O escritor distingue a estupidez honesta — aquela do “pobre em representações e em vocabulário, daquele que quando assimila qualquer coisa, não tem muita predisposição para consentir que lha retirem logo em seguida, nem para permitir que a analisem”, a estupidez incapacitante, talvez honrada, associada a limitações intrínsecas de um indivíduo — e a estupidez inteligente — uma estupidez superior, elevada, funcional, errática, pretensiosa e, mais, resultado da esforço voluntário de abdicação do pensamento crítico.

O maior problema do estúpido inteligente é que a sua deficiência é sobretudo moral, a sua estupidez advém de um esforço contínuo, reiterado em expressões como “eu não sou mais estúpido do que os outros” ou na sua necessidade de se ver mergulhado “em títulos e formas de tratamento como majestade, eminência, excelência, magnificência, prelado e afins”. Este não entende que, na tentativa de esconder a sua estupidez honesta, apenas pratica a velha arte do auto-elogio, da vaidade.

Nassim Taleb analisa a estupidez inteligente sob a forma do IYI-Intellectual Yet Idiot (Intelectual, Porém Idiota). O IYI é aquele que “patologiza outros por fazerem coisas que ele não entende sem perceber que o seu entendimento talvez seja limitado. Ele acha que as pessoas devem agir de acordo com os seus melhores interesses e ele acha que sabe os seus interesses, particularmente se estes forem “red necks” ou da classe inglesa que votou pelo Brexit. Quando a plebe faz algo com sentido para ela mesma, mas sem sentido para ele, o IYI usa o termo «ignorante»”.

A incapacidade dos médicos de George Washington em curar o presidente foi fruto de uma ignorância que estes se negavam a admitir, era um “experimento contra a realidade”. Se 220 anos depois ultrapassamos as sangrias e o humoralismo, não ultrapassamos algo mais grave e, surpreendemente, ainda mais comum nos nossos dias: a arrogância fatal que consome os “especialistas”, a estupidez que requer esforço para ser atingida.

Da mesma forma que aqueles médicos apoiavam teorias pré-cientificas e absurdas, a maior parte de produção em ciências humanas ainda crê que encontrou a estrutura basilar da sociedade, o motor da história, a causa e solução dos problemas sociais. O único problema é que, muito mais do que o corpo humano, a sociedade é complexa e a sua compreensão está aquém de uma teoria de gabinete.

A manutenção da civilização depende de um tecido infinitamente emaranhado e delicado de relações e atividades, das mais modestas às mais grandiosas. Destas, poucas são calculáveis. Como nos lembra Friedrich Hayek, a “incapacidade dos economistas em sugerir políticas mais bem-sucedidas está intimamente ligada à propensão a imitar, o mais rigorosamente possível, os procedimentos das mais brilhantemente exitosas ciências físicas”. Enquanto as ciências físicas trabalham com dados concretos e objetivos, a maior parte das ações humanas são inteiramente subjetivas, imensuráveis e impossíveis de ser isoladas. As teorias económicas dominantes, por exemplo, têm-se limitado a “encontrar” relações entre dados numéricos (a relação entre o nível de emprego e o tamanho da procura agregada por bens e serviços, no caso Keynesiano), ignorando por completo todas os outros fatores imprevisíveis e aleatórios da atuação humana.

Certa vez, Karl Marx disse que “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; o ponto, contudo, é mudá-lo”. Porém, o maior feito de Marx foi ter demonstrado que não se muda o que não se entende. Dada a impossibilidade da matematização do tecido social, a ação politica (seja ela social ou económica) é, no mínimo, irracional. Reconhecer que a “pretensão do conhecimento” se baseia em premissas dúbias é um exercício de humildade e sensatez. A incapacidade de teóricos para aperfeiçoar a sociedade deveria ser tão pouco surpreendente quanto a incapacidade dos médicos de George Washington para curar a sua infeção por meio de sangrias.

Mas a estupidez inteligente está viva e com boa saúde. Veja-se a queda de 20% nas casas para arrendar. O pacote de medidas aprovado no Parlamento teve dois resultados: rendas mais caras e menor oferta. A humildade de entender que sabemos muito pouco e a responsabilidade para assumir as consequências dos nossos atos são os dois pilares de sabedoria. Infelizmente, dos que aprovaram o pacote de medidas, nenhum vai sentir na pele as consequências dos seus atos. Enquanto a situação piora, os estúpido inteligentes regozijam-se no seu gabinete uma vez que nunca “arriscam a pele”, nunca sofrem as consequências das suas teorias.

No seu discurso de receção do Prémio Nobel de economia, Hayek proferiu: “o esforço fatal do homem no sentido de controlar a sociedade – esforço que não apenas faz do homem um tirano de seus concidadãos, mas também pode levá-lo a destruir uma civilização que não foi engendrada por cérebro algum: uma civilização que tem prosperado como resultado dos esforços livres de milhões de indivíduos.” Ámen.

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12 pensamentos sobre “Uma Defesa da Humildade

  1. mg42

    Ai ironia deste texto…
    Vocês não têm a noção dos aluadinhos vocês são pois não ? Pois eu que não sou um inteligentinho não estúpido, deixem-me citar aqui umas frases do meu ídolo glorificado intelectual, de que constantemente bajulo e o cito mais de três vezes em cada minuto de conversa que tenho. Que este sim não é daqueles falsos “intelectualzinhos estúpidos”, que muitos que não seguem o verdadeiro credo glorificam, porque claro é o meu idolo e logo não pode ser estúpido.
    Que é para saberem porque ele é que tinha razão, porque afinal tem a autoridade do prémio nobel ao seu lado. Que é o prémio que dá autoridade aos “inteligentinhos não estúpidos”… Excepto aquele brilhante que recebeu dois e que dizia que a vitamina C era a cura para o cancro. Ou o outro da lobotomia…

  2. joaopinheirodasilva

    MG42. Não há ironia nenhuma. São pessoas que tentam fazer humildemente a sua profissão e criticam a arrogância de outros. É só uma defesa da humildade. Aliás, o texto do Musil acaba com o autor a confessar ser incapaz de ir mais longe, pois se desse um passo mais, um passo em frente, entraria no reino da sabedoria, para ele uma região sempre deserdada e evitada pelo homem.

  3. mg42

    MG42. Não há ironia nenhuma. São pessoas que tentam fazer humildemente a sua profissão e criticam a arrogância de outros

    Isto era para ser outra piada irónica ?

    “o esforço fatal do homem no sentido de controlar a sociedade – esforço que não apenas faz do homem um tirano de seus concidadãos, mas também pode levá-lo a destruir uma civilização que não foi engendrada por cérebro algum: uma civilização que tem prosperado como resultado dos esforços livres de milhões de indivíduos.”

    Já aqui o nobel messias intelectual ” não estúpido” não se apercebeu da contradição entre a primeira frase e a palavra civilização.

    E ainda persiste na ultima frase com na alucinação . A ideia de que as civilizações que têm prosperado resultam dos esforços “livres” de milhões de individuos, NÃO GOVERNADO PELO esforço do homem em controlar a sociedade.

    O joão silva parece que não saber o significado real de Civilização, o que foi por exemplo o imperio Romano, quanto tempo durou, e por que razão chamavam às tribos fora do seu dominio bárbaros, pois não ? E todos nós sabemos que aquelas imponentes pirâmides egipcias foram construidas pelo esforço “livre de milhões de individuos”, e nos reinos da India os sistema de casta era por “voluntariado”. No Otomano, os individuos livremente se voluntariavam para se atirar pra cima de estacas afiadas para serem impalados. Na prospera Inglaterra imperial reinava a democracia e a soberania dos “povos livres que escolhiam” ser governados pela rainha de inglaterra. E as mais de 700 bases militares das próspera america liberal é para garantir a “liberdade” de milhões de individuos, pois caso contrario levam umas doses de TNT que é para saberem que precisam de “voluntariamente” aceitar as regras do individuos livres.
    A sua expressão do Amén demonstra o seu estado de espirito e confirma a pergunta que fiz lá em cima.

  4. mg42

    “MG42, és mesmo burro ou apenas fazes-te???”

    Vá lá, inteligentinho dinâmico André, é só isso que o penteadinho de camisinha e sapatinho de véla tem para oferecer ? Ou vocês, netinhos do iluminismo materialista revolucionário, têm a cabecinha idealista tão enfiada no próprio rabo, que não notaram que a frase citada do vosso ídolo “messiânico” , é em grande o idealismo comunista. nas palavras do vosso odiado “satanás” que escreveu ele: “o comunismo é o “trabalho livremente associado”, para além de proselitar a abolição do Estado ?

  5. Luís Lavoura

    O pacote de medidas aprovado no Parlamento teve dois resultados

    “teve”, não: terá, presumivalmente.

  6. mg42

    Olhem uma coisinha inteligentinhos, a ideia da ordem social espontanea de Hayek é mais estupida que as ideias de sangramento que os médicos na altura de Gerorge Washington tinham para curar o corpo humano.

    Ponham uma coisa na vossa cabecinha dinâmica inteligentinha .Não é possivel os individuos terem DIREITO DE PROPRIEDADE E SEREM LIVRES. Se querem ser livres não podem ter direitos de propriedade. E se não têm direitos de propriedade prontos estão no idealismo comunista. Perceberam o desenho demonstrativo ou precisam que expande e vós ponha mais papinha na boca ? Daí que quando ouço vossas excelencias “humildes” luminarias falarem das” civilizações que prosperam como resultado dos esforços livres de milhões de indivíduos, que não foi engendrada por cerebro nenhum”, chego à conclusão que estas iluminárias são idealistas cripto-comunistas sem sequer saberem que o são.

    Já a forma como o autor do artigo se refere à suposta estúpida ignorância arrogante dos médicos no tempo de George Washington pelas teorias que tinham e técnicas que utilizavam, reflete bem a presunção do materialismo progressista revisionista. O artigo está ao nivel de uma tese histórica de feminista de cabelo azul, sobre o patriacado. Daí a ironia disto tudo.

  7. mg42

    Eu sei que sou, penteadinho AndréSilva, agora deixe-me ver o que esta personalidade intelectual promovida pelo vosso comité Mises brasil tem a dizer sobre o vosso messias Hayek.


    “Diz assim caso a imagem não apareça: Os liberais são optimos na crítica à economia marxista. Só que esse serviço já está feito desde os anos 30 do séc XX. Nada a acrescentar.
    Quando o Hayek subiu acima das chinelas saltando das analises críticas para a teoria ridícula da “ordem social espontânea”, o LIBERALISMO COMEÇOU A DAR O CÚ AOS COMUNISTAS E NÂO PAROU NUNCA MAIS.”

    LMAO

    Prontos, Andrezito agora vá meter pomadinha nesse rabinho, recitar 10 Mises nossos e 50 Hayeks marias.

  8. MG42, podes fazer como os teus amigos: mete muita vaselina e complementa com Hirudóide no final. Depois faz como a do Ronaldo e vai levar pontos para sarar mais depressa.
    E pára de choramingar em público e de balir como uma cabra, que é constrangedor.
    Sem mais.

  9. mg42

    Oh André Silva, a tua mãe não se importava com o balir da cabra. Quando o macho da cabra lhe “marrava” em cima, a tua mãe “balia” mais ainda …

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