A inutilidade dos sindicatos segundo Fernando Pessoa

Diz Fernando Pessoa, esse liberal desconhecido, em Ideias Filosóficas sobre os sindicatos no tempo dele (ainda muito se adequa ao nosso tempo):

“Um sindicato ou associação de classe — comercial, industrial, ou de outra qualquer espécie — nasce aparentemente de uma congregação livre dos indivíduos que compõem essa classe; como, porém, quem não entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindicação é realmente obrigatória. Uma vez constituído o sindicato, passam a dominar nele — parte mínima que se substitui ao todo — não os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais hábeis e representativos, mas os indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é, para a política eleitoral dessas agremiações. Todo o sindicato é, social e profissionalmente, um mito.

Mais incisivamente ainda: nenhuma associação de classe é uma associação de classe. No caso especial da sindicação na indústria e no comércio, o resultado é desaparecerem todas as vantagens da concorrência livre, sem se adquirir qualquer espécie de coordenação útil ou benéfica (…)

Nem resulta da acção do sindicato qualquer coordenação útil que compense estas desvantagens todas. Não tendo uma verdadeira base de liberdade, o sindicato não coordena a classe como indivíduos; não tendo nunca uma direção profissionalmente superior, o sindicato não coordena a classe como profissionais; não tendo outro fim senão o profissional e o económico, o sindicato não coordena a classe como cidadãos”.

Parece que está a falar da Fenprof.

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9 pensamentos sobre “A inutilidade dos sindicatos segundo Fernando Pessoa

  1. Luís Lavoura

    Falta acrescentar que, no tempo de Fernando Pessoa, os sindicatos não eram em grande parte associações de trabalhadores, mas sim associações patronais.

  2. A. R

    Os funcionários público é que não deviam ter sindicatos. Um sindicato negoceia com o patrão e sabem que há um limite: pedir demais pode acabar com o posto de trabalho não pagar mais pode prejudicar a empresa.O Estado não vai à falência e é um poço sem fundo que serve para comprar votos: se o dinheiro faltar cobra-se em impostos normalmente. Os EUA, ao permitirem sindicatos para os servidores públicos, criou monstros corporativistas e uma cadeia de realimentação com o PD.
    Os salários do publico deviam ser indexados aos do privado e não com chantagens colectivas a doentes, a trabalhadores que precisam de transportes, etc

  3. Antonio Maria Lamas

    Ao contrário do que escreve Luís Lavoura, os sindicatos continuam a ser associações patronais do grande patrão PCP.
    Concordo com A.R.
    No limite (como dizia o outro) os funcionário públicos fazem greve contra eles próprios. O Estado é alimentado pelos contribuintes privados e públicos.

  4. André Miguel

    “O Estado é alimentado pelos contribuintes privados e públicos.”

    Errado, os contribuintes públicos não existem. O funcionário publico é um recebedor de impostos, dizer que os mesmos pagam é um dos maiores embustes vendidos pelo Estado.

    E por esse mesmo motivo quando fazem greves que colocam em causa o normal funcionamento da sociedade devem ser substituídos por quem cumpra o seu dever. Devíamos aprender com Reagan quando geriu a grave de controladores aéreos em 1981.

  5. André Miguel, se os funcionários públicos se limitam a receber impostos isso significa que recebem uma espécie de mesada sem terem de fazer nada em troca.

    Sendo assim não entendo problema dos funcionários publico fazerem greves.
    As greves desses destinatários de mesadas devem fazer tanto impacto como o amuo do adolescente cujos paizinhos não lhe deram os ténis de marca que ele queria.

  6. André Miguel

    EMS, os FP devem trabalhar para quem lhes paga o ordenado, se não o fazem venham outros. Tal como nas empresas privadas. Simples.

  7. ” Não tendo uma verdadeira base de liberdade, o sindicato não coordena a classe como indivíduos; não tendo nunca uma direção profissionalmente superior, o sindicato não coordena a classe como profissionais; não tendo outro fim senão o profissional e o económico, o sindicato não coordena a classe como cidadãos”

    A função do sindicato é só coordenar a classe para obter melhores condições laborais e melhores salários, tal como as associações patronais não têm por objetivo melhorar as condições de trabalho ou promover a cidadania entre os patrões. Não tem nada de injusto, é o mercado a funcionar.

  8. FP, como sociólogo foi um grande poeta!

    Já o caso da enfermagem está a por em movimento os electricistas:
    – Primeiro requerem o estatuto do protocolo de Bolonha para os cursos de electricista,
    – Segundo dizem que são licenciados e requerem a equiparação a engenheiros electrotécnicos. Senão vamos para a greve!

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