Intenções versus Resultados

Citando Thomas Sowell, “o melhor argumento a favor do socialismo é que soa bem; o melhor argumento contra o socialismo é que não funciona.

Nota pessoal adicional: o socialismo nunca pode funcionar quer em teoria, quer na prática.  Ainda que o socialismo funcionasse, existe a questão da moralidade e da legitimidade associada com a coerção inerente ao socialismo e a consequente subjugaçao dos direitos e interesses individuais ao interesses colectivo.

Dou de barato que todos os partidos, incluindo os partidos que constituiem a geringonça, são bem intencionados. Todos os partidos desejam o que no seu entender é o melhor para a sociedade. As propostas que apresentam vão no sentido de criar um país melhor. No entanto, e como muito bem Adolfo Mesquita Nunes chama a atenção neste artigo, as políticas não podem ser medidas pelas suas intenções, mas apenas e só pelos seus resultados.

Por ignorância ou simplesmente por cegueira ideológica, acontece frequentemente que os partidos apresentem propostas com uma determinada intenção, mas cujo resultado é precisamente o oposto. Este precisamente o caso da Taxa Robles – que o Bloco de Esquerda propôs para tentar fazer penitência dos seus pecados; e que Rui Rio, apesar de ser (ou por causa de ser) licenciado em Economia, por ingenuidade e/ou inabilidade, acabou por apoiar ainda que noutro formato.

As leis da economia são poucas mas básicas. Aqui o termo lei é para indicar que são independentes da vontade, da intenção e da retórica de qualquer pessoa:

  1. Quanto maior a oferta, menor o preço; e simetricamete, quanto menor a oferta maior o preço.
  2. Quanto maior a procura, maior o preço; e quanto menor a procura, menor o preço.
  3. Quanto menor o preço, maior a procura e menor a oferta. Quanto maior o preço, menor a procura e maior a oferta.
  4. Impostos e taxas a serem pagas pelo lado da oferta representam um preço menor pelo que a oferta será menor. Impostos e taxas a serem pagas pelo lado da procura representam um preço maior, pelo que a procura será menor.
  5. Subsídios do lado da oferta representam um preço maior pelo que a oferta será maior; e subsídios ao lado da procura representam um preço menor, pelo que procura será maior.
  6. Quanto maior forem as restrições forem colocadas a determinadas transacções, menores dessas transacções irão ocorrer (basta imaginar quantos casamentos teriam lugar se não existisse a possibilidade do divórcio).

Estas leis aplicam-se a todos os mercados, incluindo o mercado laboral, o mercado de arrendamento e também ao mercado de habitação que é o foco da taxa Robles. Acresce neste caso, como chamou bem a atenção o Carlos Guimarães Pinto, existe um tempo muito longo no ajuste da oferta à procura pelo simples facto de que as casas demoram tempo a ser construídas e reabilitadas.

Isto é, o único resultado possível da implementação da Taxa Robles, cuja anunciada intenção é baixar o preço da habitação, é precisamente um aumento dos preços devido à redução da oferta que inevitalmente daí advirá.

Existe ainda o argumento do pseudo-moralismo (também conhecido como inveja) em que se argumenta que não é correcto/moral ganhar tanto dinheiro em pouco tempo ou com pouco esforço. Quando o especulador acerta, é verdade, pode ganhar bastante dinheiro – e nessse caso, o estado irá arrecadar o seu quinhão (o estado tem todo o interesse em que os especuladores sejam bem sucedidos). No entanto, quando o especulador se engana, este pode perder dinheiro, mesmo muito dinheiro – e neste caso o estado nem uma palavra de consolo lhe dá. Além disso, num mercado livre, todos podemos ser especuladores – até mesmo, imagine-se, o Ricardo Robles! Por isso ninguém está numa posição privilegiada. Se acham que é fácil enriquecerem por via da especulação, eu digo: Força – boa especulação! O que o país precisa é de mais Ricardos Robles, e de menos Taxas Robles.

Leitura complementar: Taxa Robles, por Adolfo Mesquita Nunes

Anúncios

20 pensamentos sobre “Intenções versus Resultados

  1. “Quanto maior forem as restrições forem colocadas a determinadas transacções, menores dessas transacções irão ocorrer (basta imaginar quantos casamentos teriam lugar se não existisse a possibilidade do divórcio).”

    O divórcio foi permitido pela lei Almeida Santos a seguir ao 25 de abril.
    Evolução dos casamentos:
    1970 – 81.000
    1980 – 72.000
    2000 – 63.000
    2010 – 40.000
    2017 – 33.600

    Divórcios:
    1970 – 0.6%
    1980 – 8%
    2000 – 30%
    2010 – 69%
    2015 – 72%

    Portanto não precisamos imaginar “quantos casamentos teriam lugar se não existisse divórcio” porque já houve tempos em que o divórcio era proibido e os dados não batem certo com a teoria avançada por João Cortez. Evidentemente é a realidade que está errada. Tal socialista; tal liberal! Dizem-se tão diferentes. Não passam da mesma merda.

    Que pena os liberais portugueses não lerem/pensarem/refletirem mais Pedro Arroja…

  2. Muito engraçado: o Carlos Santos tenta confundir a argumentação, misturando uma tendência secular da reduçao de casamentos com a legalização dos divórcios. Obviamente, para fundamentar conveniente a sua refutação teria que criar dois grupos de controlo nas mesmas condições alterando apenas uma variável. O efeito é de dedução extremamente fácil, óbvia e lógica, mas respeito que o senhor não consiga atingir. Passe bem.

  3. Caro João, não era mais simples admitir que deu um exemplo disparatado, em vez de estar a tentar fingir-se muito profissional e possuidor de conhecimentos muito sofisticados?

    Como já escrevi várias vezes, aqui e no Blasfémias, os liberais têm uma crença infantil, a tal infantilidade que o Pedro Arroja superou. Acham que uma teoria económica muito boa (“classic liberalism”) é afinal a chave de interpretação do mundo, a cosmogonia universal, a solução para todos os problemas. Mas pensar que uma teoria económica ajuda a perceber o casamento (CGP escreveu uns posts compleatmente primários sobre o assunto, ao contrário da enorme qualidade habitual dos seus textos) ou dilemas morais, é tão estúpido como querer ter especialistas em ética a fazer túneis e pontes, e engenheiros civis a discorrer sobre metafísica. Cada macaco no seu galho. O liberalismo fique-se pela economia para não dizer disparates. As exportações do liberalismo para a ética, a política, a filosofia, etc., como fazem no insurgente o no blasfemias é tão estúpida como os físicos que pretendiam que o relativismo moral foi provado pela relatividade de Einstein…

  4. Por exemplo, alguém de Esquerda demonstrou alguma preocupação genuína pelo que se passa na Venezuela, fez alguma mea culpa?

    Não, a partir do momento em que obtêm o poder, o povo deixa de interessar, as condições deixam de interessar, todas as famosas causas deixam de interessar…

    …então porque é que a Direita continua a defender as boas intenções da Esquerda ?

  5. Sr. Carlos Santos: para lhe dar um exemplo equivalente: se os despedimentos fossem pura e simplesmente proibidos, os empregadores contratavam mais ou menos trabalhadores? Peço desculpa, mas não lhe posso dispensar mais atenção – o meu threshold para trolls é muito baixo. Passe bem.

  6. LuckyLucky – as boas intenções são relativas. Concordarei 100% consigo que a versão de esquerda para a sociedade e para o mundo apenas gera pobreza, miséria e sofrimento. Concordarei consigo em que a esquerda, de forma muito geral, é hipócrita, incoerente e cheia de contradições. No entanto, continuo a acreditar que na visão retorcida do ideal de esquerda, as intenções não deixam de ser boas.

  7. André Miguel

    Estou como lucky, não acredito nas boas intenções da esquerda, são perfidas e malevolas na sua genese.

    A celebre tirada do Marx – a cada segundo as suas necessidades, de cada um consoante as suas capacidades – é das ideias mais diabólicas que existem: é a escravatura dos mais capacitados às mãos dos incompetentes. O sonho húmido socialista.

  8. Caro João Cortez,

    O socialismo funciona e funciona muito bem — para os dirigentes socialistas. Estes dirigentes enriquecem desmesuradasmente com prebendas, lugares, negócios de amigo ou de leis à medida para desencorajar a insurgência de concorrentes. É o rendimento máximo garantido e o rendimento médio garantido. Este último para os desnecessários e atravancadores funcionários disfuncionais, aos quais designo desfuncionários, e aquele é para os emperresários do regime, e os ex-ministros a quem eles contratam.

    Funciona também para os que caem na esparrela de pensar que podem viver com pouco fazendo nada. Eis os beneficiários do rendimento mínimo garantido, aliás votantes maximamente garantidos no socialismo.

  9. Carlos Santos,

    Apesar de haver divórcio, veja quantos amancebados há. Mais de 50% das crianças não nascem hoje dentro de vínculo matrimonial.

    As pessoas simplesmente não querem casar-se. Sem a possibilidade de divórcio, pior seria. A união de facto simplesmente já não tem o estigma de outros tempos.

  10. “No entanto, continuo a acreditar que na visão retorcida do ideal de esquerda, as intenções não deixam de ser boas.”

    Você nem percebe que uma das tácticas da esquerda para obter o Poder é construir uma nova linguagem.

    Se têm tão boas intenções porque é que a Esquerda não se preocupa nada com o que acontece ao povo na Venezuela, ou em Cuba ou na Nicarágua ou em…

    A Esquerda quer Poder. Tudo o resto são pretextos para o obter.

    E quando a Esquerda obtém o poder os pretextos deixam de ter utilidade, por isso é que a Esquerda se está nas tintas para a pobreza na Venezuela, a violência na Nicarágua ou a Ditadura em Cuba.

  11. “Sr. Carlos Santos: para lhe dar um exemplo equivalente: se os despedimentos fossem pura e simplesmente proibidos, os empregadores contratavam mais ou menos trabalhadores?”

    O exemplo do despedimento é bom, ilustra exatamente o que o João queria ilustrar no texto original, mas não é equivalente ao do casamento pelo simples facto do casamento não ilustrar o que quer. Tivemos divórcio proibido durante séculos, e as pessoas casavam-se praticamente todas; hoje temos divórcio permitido, e praticamente ninguém se quer casar (a não ser os gays, claro).

    Para si tudo é muito simples: o casamento é um contrato (tal como uma relação laboral) pelo que quanto mais complicações houver associadas ao contrato, menos pessoas o quererão fazer. Mas se a realidade não bate certo com a sua teoria (no caso dos casamentos), deveria tentar perceber onde é que a sua argumentação falha.

    Em sentido próprio, “Casamento” (com maiúscula), pode ser visto como um contrato de compra e venda, em que o pagamento é efetuado pela entrega total de si. A pessoa não dá tudo o que tem: dá-se a si própria. E isto era o que as pessoas todas desejavam (e no fundo no fundo no fundo continuam a desejar; aquilo que para si é uma complicação contratual extra, é no fundo o anseio mais profundo das pessoas….).

    A proibição do divórcio garantia que não havia mentiras (é fácil dizer “amo-te e quero viver contigo para sempre”, mas saltar fora na primeira curva da estrada). A proibição do divórcio, portanto, não acrescentava complicações ao contrato: era, isso sim, a condição necessária para que o contrato de Casamento fosse genuinamente/sinceramente/verdadeiramente/realmente celebrado entre os noivos.

    A partir do momento em que não há a garantia de que o outro se está a entregar todo, para sempre, as pessoas deixaram de ter a expectativa de “Casar”; a expectativa que têm é de ficar algum tempo com o outro (por mais que ele jure amor eterno), pelo que o contrato civil de casamento só aumenta a confusão quando chegar a hora de cada um seguir o seu caminho. Ou seja, o divórcio não teve o potencial de aumentar casamentos (como o João afirmou): teve foi o efeito de acabar com o Casamento, em sentido próprio, e de diminuir a atratividade do “casamento”.

    Habitualmente gosto dos seus textos, mas tremo só de pensar o mal que os liberais portugueses podem causar com a superficialidade com que olham para os assuntos extra-economia e a forma básica/primária com que tentam exportar para as outras áreas as técnicas do liberalismo (“O casamento é nada mais que um contrato pelo que quanto mais complicações tiver menos atrativo será e portanto o divórcio vai aumentar o número de casamentos; se a realdiade tem outra opinião, tanto pior para a realidade”).

    Friedman era Nobel, mas quando falava do que não sabia, só dizia disparates, como todas as outras pessoas, por mais geniais que sejam, quando falam do que não sabem. Para dizer coisas com propriedade sobre economia é preciso estudar muitos anos no duro; mas para dizer coisas com propriedade nas outras áreas não é preciso estudar menos…

  12. “Carlos Santos,

    Apesar de haver divórcio, veja quantos amancebados há. Mais de 50% das crianças não nascem hoje dentro de vínculo matrimonial.”

    Certo!

    “As pessoas simplesmente não querem casar-se.”

    Certo!

    “Sem a possibilidade de divórcio, pior seria.”

    Porquê? Foi isso que aconteceu na história?

    Porque é que tantos Estados têm o “casamento blindado” (quem o desejar pode casar num casamento que não permite o divórcio, pelo menos durante X anos)? Porque há pessoas a escolher a modalidade?

    Os contratos de casamento tal como o Sócrates os deixou são uma piada; quem quer misturar casamento com farsa?

    Quando os casamentos eram coisa séria, as pessoas casavam-se; quando o contrato de casamento passou a ser uma brincadeira, as pessoas saltaram fora, a ponto de várias pessoas que eu conheço se manterem casadas, mas terem-se divorciado só para não ter nada a ver com estes contratos ridículos…

    É mais fácil manter a casa desarrumada do que arrumada, mas as pessoas preferem o difícil…

  13. Luís Lavoura

    Parece-me que o autor do post está a confundir a oferta com o número de transações.
    Suponhamos que há uma casa e que ela é vendida diversas vezes de uma pessoa para outra. Isso faz aumentar a oferta de casas? Não, não faz. Faz diminuir o preço? Também não, pelo contrário – quanto mais não seja porque cada vendedor vai querer recuperar o imposto que lhe foi cobrado aquando da compra.
    Se um bem fôr escasso, não é o facto de ele ser comprado e vendido múltiplas vezes que vai fazer diminuir a escassez e o preço.
    Pelo contrário: a escassez e o preço vão aumentar, primeiro porque o bem nunca vai chegar a ser utilizado, segundo porque cada vendedor vai sempre pedir um preço ligeiramente superior àquele porque comprou.

  14. Carlos Santos,

    Existe um claro problema de moralidade nas sociedades ocidentais. E um desamor à família que nos vai custar caro, como custou ao Império Romano. A razão pela qual os casamentos escasseiam não é o divórcio — ou pode ser as penas associadas a um eventual divórcio. Ambos os lados são arguíveis.

    O próprio Jesus Cristo deu a razão pela qual o divórcio pode ser aceitável perante Deus. João Ferreira de Almeida traduz com a palavra «prostituição» em «salvo por causa da prostituição», e isso pode ser interpretado como adultério ou como outras coisas.

    O casamento é um contrato. Imagine que a sua mulher, bem aconselhada por idiotas misóginas ou pela Lisístrata de Aristófanes, ter-lhe-ia dito «Alha, nunca mais vou ter relações sexuais. Aguenta, que é assim que vai ser a partir de agora.» É razão para divórcio? Eu penso que sim. Nenhum cônjuge vai para o casamento pensando se converter ao priscilianismo, e há uma quebra irrazoável de expectativas e de compromissos por parte do cônjuge. Irrazoável porque não se deve a uma impossibilidade física, como uma doença, mas a um acto de volição. O cônguje abstinente tem o direito de o ser; mas o outro não tem o dever de aturar isso.

    Violência doméstica, especialmente se recalcitrante, é razão para divórcio? Claro que sim. Ninguém deve viver sob ameaça, nem ser obrigada a estar ligado a uma pessoa — que até poderá estar a ver o Sol aos quadradinhos durante muito tempo — que efectivamente lhe quer mal.

    Idem para o adultério repetido.

    O Carlos poderia defender, como alguns que conheço, que o casamento é indissolúvel, mas que as escapadinhas são desculpáveis e irrelevantes. Não penso assim. O casamento é um contrato civil para alguns. Para outros como eu, é um contrato divino, com direitos e deveres da parte de cada um dos cônjuges. Se um repetidamente prevarica, o moto que deu origem ao casamento esboroa-se.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.