Animal Farm: todos os animais são iguais…

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29 thoughts on “Animal Farm: todos os animais são iguais…

  1. É interessante como a teoria “a URSS não é/era o verdadeiro socialismo” parece ser muito mais popular quando expressa sob a forma fábula do que quando dita explicitamente.

  2. Porque é que não era verdadeiro socialismo? O socialismo implica sempre coerção. Coerção implica que alguém coage. Se alguém coage então como podem ser iguais?

    Talvez alguma comuna ou algum kibbutz só tenha pessoas que concordem e possam sair quando querem mas são minúsculas excepções à regra.

  3. Mesmo que admitamos que o Lucklucky esteja correto, isso não invalida o meu ponto – o paradoxo de muito gente que acha que a URSS era o verdadeiro socialismo gostar de evocar livros (como este e o “1984”) escritos com a intenção de demonstrar que a URSS não era socialista, e que os Comunistas-com-C-grande eram inimigos do socialismo; no caso do “1984” ainda percebo que qualquer “anti-estalinista” (seja anarquista, trotskista, social-democrata, liberal ou conservador) possa se rever na mensagem do livro (que é suficientemente vaga ou “aberta” para isso – p.ex., os “goldsteinistas” são mesmo a resistência ao regime, ou acabam por ser eles mesmos parte do regime?); mas no “Triunfo dos Porcos” o tom semi-trotskista (dos dirigentes que estarão a trair a revolução e a negociar alianças com os humanos/capitalistas) parece-me dominante e muito mais explícito.

    Agora, a respeito do argumento do Lucklucky, mesmo que aceitemos a primeira premissa (“O socialismo implica sempre coerção”) não me parece que a conclusão seja necessariamente verdadeira (“Coerção implica que alguém coage. Se alguém coage então como podem ser iguais?”) – afinal, poderiam coagir-se todos uns aos outros, com cada individuo a estar submetido, não a um ditador ou a um politburo, mas a uma assembleia geral plenária, ou a um congresso de delegados rotativos e revogáveis com mandato imperativo (o anarquista Júlio Carrapato chamou a isso de “jogo sado-masoquista em que se éao mesmo tempo prisioneiro e carcereiro” – mas mesmo que se ache esse sistema indesejável, ou talvez até pior e mais opressivo que a ditadura de uma minoria, ou talvez até impossivel de realizar na prática, creio que ultrapassa a objeção do Lucklucky, já que num sistema desses teriamos ao mesmo tempo coerção e igualdade)

  4. Gaius Octavius

    O MIGUELMADEIRA tem razão. É preciso não esquecer que Orwell era de extrema-esquerda. E embora possa ter tido opiniões e cometidos acções que o tornam incoerente enquanto extremo-esquerdista (mas que abonam a seu favor enquanto pessoa) como quando, a pedido do governo britânico, deu uma lista de nomes de pessoas que não deviam ser usadas para escrever propaganda anticomunista por serem elas mesmas comunistas ou simpatizantes, ele nunca deixou de acreditar que era possível criar o paraíso socialista na terra.

    O que Orwell pretendeu mostrar em Animal Farm foi que o regime dos czars era mau e que foi substituído por outro que começou com boas intenções mas que acabou por se tornar mau também, que se dizia socialista mas não o era verdadeiramente. Animal Farm não é uma sátira anti-socialista da União Soviética, mas sim uma crítica ao facto do “verdadeiro” socialismo ter sido traído.

  5. • Sendo o ‘Socialismo’ a forma Moderna da ‘Demagogia’ – exemplarmente trucidada e exposta por Aristóteles – ainda há quem sustente que há um verdadeiro ‘Socialismo’…
    • Seria o mesmo que sustentar que a Demagogia não é a verdadeira Demagogia (que sempre falou de pobres, pobres e mais pobres, para iludir os incautos que no fim descobrem – embasbacados – que era só artifício para encherem os bolsos com o dinheiro dos outros na sabida mancomunação intervencionista rendosa com a Plutocracia…).

  6. • Como observado por von Mises: «Os socialistas criaram uma revolução semântica capaz de converter o significado dos termos em seu exato oposto.» – trata-se da materialização da ‘Novilíngua’ prenunciada por Orwell!
    • Aqui também se aplica o aviso de George Orwell: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”.

  7. André Miguel

    “mas sim uma crítica ao facto do “verdadeiro” socialismo ter sido traído.”

    Hayek provou um ano antes que o socialismo descamba sempre no mesmo, por isso alegar que o “verdadeiro” socialismo nunca foi implementado é conversa para boi dormir.

  8. Gaius Octavius

    André Miguel, eu, escusado será dizer, também não acredito nas (falsas) boas intenções do socialismo, mas Orwell, que era socialista, acreditava e acreditava que na União Soviética o socialismo tinha sido traído. No comentário anterior eu falava apenas do ponto de vista de Orwell sobre o assunto, do qual eu obviamente não partilho.

  9. André Miguel

    Gaius, certo e eu concordo consigo, não estava a refutar o seu comentário, apenas a complementar.

  10. Orwell sobre o significado de socialismo e a mania de mudar o significado das palavras: “Tenho perfeita consciência que é moda, agora, negar que o socialismo tenha alguma coisa a ver com a igualdade. Em todos os países do mundo, uma tribo colossal de escrivinhadores partidários e de teoricozinhos untuosos anda toda atarefada a «provar» que o socialismo mais não é que um capitalismo de Estado planeado, com a motivação do lucro intacta. Mas felizmente também existe outra visão do socialismo absolutamente diferente. O que atrai os homens comuns para o socialismo e os leva a arriscar a pele por ele, a «mística» do socialismo, é a ideia da igualdade; para a imensa maioria das pessoas o socialismo ou significa uma sociedade sem classes, ou não significa nada” (Homenagem à Catalunha, páginas 126-127, Edições Livros do Brasil)

  11. “0,28. 0,25. Um deles era o coeficiente de Gini da RFA e o outro da URSS nos anos 80. Qual era qual?”; para um trotskista, um anarco-sindicalista, um comunista de conselhos ou um adepto de qualquer uma outra do zilião de tendências que considerava que a URSS era “coletivista oligárquica”*, “capitalista de estado”, “regime operário deformado” ou algo do género, essa questão é largamente irrelevante (para falar a verdade, eu até pensei que o Gini da URSS fosse maior – seja 0,28 ou 0,25, nem parece muito grande)

    * penso que a opinião do Orwell era de que era “coletivista oligárquica”, mas não garanto a 100%

  12. Gaius Octavius

    Orwell disse um dia que o “nacionalismo é fome de poder temperada com auto-engano”. Se Orwell fosse suficientemente introspectivo teria chegado também à conclusão que o desejo socialista de criar um paraíso igualitário na terra era apenas, e na “melhor” das hipóteses, fome de controlo e poder sob a máscara do auto-engano. Porque “a ânsia de salvar a humanidade é quase sempre uma fachada para o desejo de controlá-la”, como diria um jornalista.

  13. mg

    O liberal/capitalista é aquele tipo que têm uma alergia enorme quando ouve falar em socialismo, daí vem-lhe logo à cabeça a brutalidade de tal regime e os assassinio em massa que gera, isto até que lhe chamarem à atenção para China o el-dourado dos Capitalistas. Aí o sistema operativo do liberal entra em curto-circuito e adopta o discurso do marxista: aí não que a china não é realmente um regime socialista e coisa e tal, veja como os chineses não passam fome, e ele têm “capitalismo”, patati patatá…
    A foto em honra do supremo lider ainda lá está para ser reverenciada .

  14. Melhor é economia de mercado, mesmo em autocracia, do que economia planificada. É óbvio no que o ideal consiste: em economia de mercado em plena liberdade. Os chineses terão de conquistar a liberdade que os chineses quiserem por mão dos próprios chineses, e viver como os chineses querem que os chineses vivam.

  15. “Agora, a respeito do argumento do Lucklucky, mesmo que aceitemos a primeira premissa (“O socialismo implica sempre coerção”) não me parece que a conclusão seja necessariamente verdadeira (“Coerção implica que alguém coage. Se alguém coage então como podem ser iguais?”) – afinal, poderiam coagir-se todos uns aos outros, com cada individuo a estar submetido, não a um ditador ou a um politburo, mas a uma assembleia geral plenária, ou a um congresso de delegados rotativos e revogáveis com mandato imperativo (o anarquista Júlio Carrapato chamou a isso de “jogo sado-masoquista em que se éao mesmo tempo prisioneiro e carcereiro” – mas mesmo que se ache esse sistema indesejável, ou talvez até pior e mais opressivo que a ditadura de uma minoria, ou talvez até impossivel de realizar na prática, creio que ultrapassa a objeção do Lucklucky, já que num sistema desses teriamos ao mesmo tempo coerção e igualdade)”

    Mas como isso é socialismo? a igualdade de coação entre todos implica que qualquer ideia pode ser posta a debate mesmo anti-socialista. Num certo sentido é isso que acontece hoje nas democracias onde há cada vez mais leis definidas essencialmente pela maior minoria.

    Como eu disse acima eu abri a porta para socialismo não coercivo, até se poderia chamar comunismo liberal – as pessoas serem livres de pertencer a uma comuna se concordarem e obviamente sair de uma comuna se passarem a discordar.

  16. “Mas como isso é socialismo? a igualdade de coação entre todos implica que qualquer ideia pode ser posta a debate mesmo anti-socialista. ”

    E…? O Joaquim, na assembleia geral da herdade coletiva (ou mesmo no congresso nacional de delegados de herdades coletivas), apresenta a proposta de que cada um deve poder ser proprietário da sua enxada; a proposta é votada e rejeitada e ele continua a não poder ser proprietário da sua enxada – e pronto, temos igualdade de coerção entre todos, e 51% de socialistas obrigam todos (incluindo 49% de não-socialistas) a terem a sua propriedade coletivizada. Parece-me à mesma “socialismo” (numa versão “dizes o que queres e fazes o que mandámos”).

    No seu comentário, o Lucklucky parece-me estar a fazer um salto entre as pessoas poderem defender ideias não-socialistas (na assembleia geral defender o direito a ficar com a sua enxada) e poderem efetivamente viver de forma não-socialista (isto é, poderem realmente ficar com a sua enxada).

  17. Agora, talvez haja aqui uma complicação adicional – algumas variantes de socialismo, nomeadamente o socialismo anarquista (que foi o que Orwell conheceu em primeira mão em Espanha – ele combateu numa milicia semi-trotskista, mas quem controlava as empresas e herdades coletivizadas eram os anarquista) realmente defendem o direito de cada um pôr-se a trabalhar por conta própria, e no caso das herdades expropriadas, ficar com um lotezinho só para ele em vez de trabalhar com os outros na terra coletiva.

    Isso talvez se enquadrasse no que o Lucklucky chamou de “comunismo liberal”, mas penso que não: um sistema coletivista que admite alguma posse privada, mas apenas enquanto essa posse for pequenina (estilo, podes ter um pedaço de terra para o trabalhares tu, ou uma mini-oficina, mas já não se contratares empregados) não é verdadeiramente propriedade privada nem verdadeiramente poder sair do sistema socialista.

  18. E…? O Joaquim, na assembleia geral da herdade coletiva (ou mesmo no congresso nacional de delegados de herdades coletivas), apresenta a proposta de que cada um deve poder ser proprietário da sua enxada; a proposta é votada e rejeitada e ele continua a não poder ser proprietário da sua enxada – e pronto, temos igualdade de coerção entre todos, e 51% de socialistas obrigam todos (incluindo 49% de não-socialistas) a terem a sua propriedade coletivizada. Parece-me à mesma “socialismo” (numa versão “dizes o que queres e fazes o que mandámos”).

    Sim, nesse caso 51% escolheram socialismo da enxada para os outros 49%.
    Não me parece diferente do que como temos agora com a Democracia.


    “Isso talvez se enquadrasse no que o Lucklucky chamou de “comunismo liberal”.

    Não não é isso que digo, um Comunista Liberal é quem aceita pessoas fora do sistema colectivista.

    Como corolário o que parece estares a dizer é que um Socialista deixa de o ser se não aceitar que outras pessoas não possam fazer parte do sistema colectivista? Isso implica sempre coerção.

    Por outro lado levanta a questão se um Socialista só aceitar um sistema colectivista de adesões voluntárias deixa de ser Socialista? É infelizmente raro mas não percebo porquê é impeditivo de ser considerado um Socialista. Neste caso Socialista Liberal, aceita que os outros sigam outros caminhos, mas na sua vida e daqueles com quem concorda seguem as regras socialistas.

    Ainda uma adenda, o grau de opressão de um sistema colectivista depende da dimensão do sistema que falamos. Casa, Quinta, Comunidade, Cidade, Região, País. Quanto maior dimensão mais opressão pois o aumento de dimensão implica cada vez mais restrições para uma escolha diferente da dos Socialistas.

  19. Acho que um grande problema aqui é o que sequer se entende como “voluntário”.

    Para exemplificar melhor o que vou dizer, vou dar um exemplo com base numa forma de propriedade em que não é contra-intuitivo aceitar-se que haja diferenças significativas de opinião sobre a sua legitmidade – a propriedade intelectual.

    Um defensor da PI pode dizer algo como “Eu não me importo com situações em que não haja PI, desde que tal seja voluntário – isto é, desde que tenha sido o legitimo detentor dos direitos sobre a obra a licencia-la como domínio público, ou copyleft, ou algo do género”

    Inversamente, um adversário da PI pode dizer algo como “Eu não me importo com situações em que haja PI, desde que tal seja voluntário – isto é, em que os usuários de uma obra paguem direitos ao seu criador (ou se recusam a utilizar uma obra distribuida contra a vontade do criador) não porque haja uma lei a obrigá-los, mas numa base de honor system, em que só paga os direitos quem quer”

    Ambos os lados podem legitimamente argumentar que o que defendem é “voluntário”, ainda que seja completamente diferente – porque, nomeadamente em questões que tenham a ver com direitos de propriedade, a definição do que é “voluntário” depende muito do que se aceita como default inicial – para alguém que acha que o default inicial é haver PI, “voluntário” é alguém abdicar voluntariamente dos seus direitos de propriedade intelectual; já para alguém que acha que o default inicial é não haver PI, “voluntário” é algumas pessoas criarem uma PI virtual, em que por sua iniciativa respeitam o que acham ser os direitos do criador, mas sem serem obrigadas a isso por nenhuma lei. Como disse, isto é mais fácil de exemplificar com a PI, porque é uma forma de propriedade em que, no mundo real e presente. há debates acesos e explícitos sobre a sua legitimidade. Mas exatamente a mesma situação (com a concomitante disputa sobre o que conta como “voluntário”) pode ser imaginada face a qualquer outro tipo de propriedade (imaginemos que squatters ocupavam o edificio nº 6 a 26 da Rua Terreiro do Trigo, Alfama, e os proprietários chamavam a polícia para os expulsar – ambos os lados também poderiam achar que o outro os estava a coagir).

    Mas, agora, face à questão se alguém pode ser considerado “socialista” se pretender construir o “socialismo” respeitando os direitos de propriedade “capitalistas” – possivelmente sim: Charles Fourier e Robert Owen são normalmente considerados socialistas (e até eram publicados na coleção de “clássicos” do Partido Comunista Francês) e julgo que pretendiam construir o socialismo, não como expropriações ou ocupações, mas simplesmente adquirindo terrenos e fazendo lá comunidades (o Owen também defendia alguma regulação estatal, mas penso que uma coisa muito leve, e muito mais moderada do que qualquer social-democracia moderna; o essencial do “socialismo” dele era mesmo criar cooperativas e comunidades); Lysander Spooner (que nunca se considerou socialista mas é frequentemente considerado como tal pelos socialistas anarquistas) também era um perfeito liberal na economia, que achava que economia totalmente liberal iria produzir uma sociedade em que quase não houvesse patrões e empregados (ele tem uns textos a defender que os rendeiros da Irlanda não pagassem rendas aos proprietários, mas era porque achava que a propriedade dos nobres ingleses era fruto de roubos e conquistas, não por ser em principio contra a propriedade). Os anarquistas individualistas, como Proudhon ou Benjamim Tucker também andam lá perto, mas não totalmente, já que esses consideravam que direitos de propriedade sobre a terra que fossem maiores do que um individuo pudesse pessoalmente utilizar eram ilegítimos (pelo que se presume que seriam a favor da invasão de grandes propriedades, independentemente de estas serem resultado de conquistas militares ou de transações no mercado).

  20. Um defensor da PI pode dizer algo como “Eu não me importo com situações em que não haja PI, desde que tal seja voluntário – isto é, desde que tenha sido o legitimo detentor dos direitos sobre a obra a licencia-la como domínio público, ou copyleft, ou algo do género”

    Inversamente, um adversário da PI pode dizer algo como “Eu não me importo com situações em que haja PI, desde que tal seja voluntário – isto é, em que os usuários de uma obra paguem direitos ao seu criador (ou se recusam a utilizar uma obra distribuida contra a vontade do criador) não porque haja uma lei a obrigá-los, mas numa base de honor system, em que só paga os direitos quem quer”

    Aplica isso a uma mulher que não quer fazer sexo e um homem que quer. Ou vice versa.

    A voluntariedade depende do default inicial?
    Se alguém recusar fazer sexo isso pode ser uma violação?

    Ainda melhor exemplo é a escravatura com direitos de propriedade sobre uma pessoa mais o seu trabalho.

    A voluntariedade depende do default inicial?

    Claro que não, A partir do momento que alguém obriga uma pessoa a fazer parte de algo de que não quer acaba a voluntariedade e começa a coerção.

    A coerção é completamente impossível de eliminar -indo ao absurdo existirá sempre uma regra de transito com que não concordemos – mas é mais saudável quanto menos existir e todos possam viver como querem. Ou seja de diferentes maneiras. Os Comunistas vivam como Comunistas, os Liberais como Liberais etc…

    No inicio as religiões -e o Islão ainda o faz parcialmente- conquistavam fieis pela coerção.
    A política ainda hoje não se livrou do seu fundamentalismo religioso.

  21. “Ainda melhor exemplo é a escravatura com direitos de propriedade sobre uma pessoa mais o seu trabalho.

    A voluntariedade depende do default inicial?”

    Do ponto de vista de quem seja a favor da escravatura, provavelmente sim – imagino que para um defensor da escravatura, “voluntário” seja o dono libertar voluntariamente o seu escravo, enquanto o escravo fugir sem autorização será um roubo e um ato coercivo contra a sua legitima propriedade; e nem precisa de ser um defensor da escravatura à seculo XIX (hereditária e com origem remota em recrutamento à força): imaginemos um defensor do direito do individuo vender-se como escravo (como alguns liberais mais radicais defendem; creio que era o caso de Richard Nozick): depois do contrato de escravatura estar assinado (e irrevogavel a partir daí, a menos que ambas as partes concordem), imagino que quem defenda a validade desses contratos ache que tudo o que o escravo faça a partir daí sem autorização do “dono” é uma agressão, e que o que é voluntário e não-coercivo é o que o escravo faz porque o “dono”, voluntariamente, o permitiu.

    Claro que se pode contra-argumentar que liberdade é o direito de cada um fazer o que quiser com o seu corpo físico, e que agressão/coerção é quando outrem exerce violência (ou ameaça disso) contra esse corpo físico (o que significa que obrigar um escravo a trabalhar ou uma mulher a ter sexo é sempre coercivo e involuntário), e que misturar a propriedade com isso só dá origem a raciocinios circulares (em que em ultima instância toda a gente pode alegar que defende a liberdade e os outros defendem a coerção, de acordo com os direitos de propriedade que cada um acha ou não legítimos) – mas assim a definição liberal de liberdade (que gira largamente à volta do direito de cada um fazer o quiser com a sua propriedade) vai à vida, e o que sobra será uma definição de liberdade mais parecida com a dos ansoc (em que o “coletivo” pode confiscar os teus bens, mas desde que não te possa obrigar a trabalhar na quinta ou na fábrica “coletiva” é livre).

  22. A mistura é plenamente justificada, a propriedade é uma extensão da pessoa.
    Foi ela que criou, adquiriu, herdou, ou doação de outrem com o seu acordo.

    Por isso é que alguém pode recusar algo que outra pessoa/comunidade lhe quer dar.

    Sem isso é que temos a desumanidade, passamos a ser meras peças, ou sub organismo do colectivo sem individualidade.
    E sem reconhecer a individualidade o que impede o colectivo de dizer que as mulheres devem estar sempre disponíveis para os homens ou vice versa ?
    Como a coerção implica em ultimo grau força física será como a história demonstra o homem a impor a sua vontade sexual.
    Ou a escravatura (1)?

    Por isso a propriedade está indelevelmente ligada à individualidade.
    (1)É evidente que a propriedade acaba quando começa a individualidade do outro.

    O reconhecimento da individualidade, é o reconhecimento de limites ao poder sobre os outros. Que é só o maior avanço da humanidade.

    Por isso é que o Socialismo não passa de um movimento reaccionário.
    Que quer justificar o regresso à discricionariedade do Poder pela negação da individualidade.

  23. “(1)É evidente que a propriedade acaba quando começa a individualidade do outro.”

    Isso é tão vazio de sentido concreto como o famoso clichê “a liberdade de um acaba quando começa a liberdade do outro” – qualquer estabelecimento de direitos de propriedade implica alguma limitação à individualidade ou à liberdade dos outros; quando se diz “isto é do Fernando”, o que se está a dizer é “os outros só podem usar isto com autorização do Fernando, e é legítimo o uso da violência física para impedir o uso não-autorizado”.

  24. Não – mas o principio geral “a propriedade acaba quando começa a individualidade do outro” por si só não nos permite definir onde deve acabar a propriedade de um e começar a individualidade do outro (diferentes fronteiras entre uma coisa e outra podem ser todas compatíveis com a regra geral “a propriedade acaba quando começa a individualidade do outro”). Ok, admito que é uma formulação talvez melhorzinha do que o clássico “a liberdade de um acaba quando começa a liberdade do outro” (esse, até por usar a palavra “liberdade” em ambos os termos, é que não dá mesmo critério nenhum que permita decidir entre a liberdade de A e de B quando elas conflituam), já que pode eventualmente ser interpretada no sentido de dar prioridade à individualidade sobre a propriedade. Mas, como já disse, qualquer direito de propriedade (e atenção que estou a escrever “propriedade”, não “propriedade privada”) implica uma restrição ao que indivíduos podem fazer (se uma praia tem um dono, a liberdade de qualquer um lá entrar é menor do que se a praia não tiver dono).

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