Incêndios e mitos sobre eucaliptos

Eucaliptos, florestas e fogos: os mitos e os factos. Por José Miguel Cardoso Pereira.

Portanto, o fogo afectou os grandes tipos de ocupação do solo quase exactamente na proporção em que estavam presentes no concelho de Monchique, não tendo “preferido” (nem “evitado”) nenhum deles. Todos revelaram igual propensão para arder. Verificou-se o mesmo para tipos de ocupação do solo com menor extensão, como as áreas agrícolas e as de outros tipos de floresta, ou seja, a propagação do fogo foi essencialmente indiferente ao tipo de vegetação que encontrou pela frente.

(…) Há alguns anos, no Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia a minha então doutoranda Ana Barros e eu analisámos esta questão das preferências do fogo pelos diferentes tipos de vegetação e como essas preferências variavam em função do tamanho do fogo. Estudámos 5712 fogos ocorridos entre 1990 e 1994, com tamanhos que variavam de 5 ha até áreas próximas da deste fogo de Monchique e que queimaram uma área total de 442.924 hectares. Concluímos, previsivelmente, que as áreas agrícolas são as que revelam menor propensão a arder, seguidas pelos montados de sobreiro e azinheira, e depois pelos eucaliptais, que ardiam menos do que seria de esperar, atendendo à extensão que ocupam em Portugal. Os tipos de vegetação em que o fogo incidia mais fortemente do que a sua abundância relativa faria prever, eram o pinhal bravo e, sobretudo, os matagais. Este estudo demonstrou também que as diferenças de apetência do fogo pelos diferentes tipos de vegetação se atenuavam fortemente quando o tamanho dos incêndios se aproximava dos 10.000 hectares.

(…)

O factor que mais propicia a ocorrência de mega-incêndios é a existência de grandes extensões ininterruptas de florestas e matagais, muito mais do que a natureza da espécie que constitui a floresta. É por isso que é importante construir e manter uma rede de faixas largas, tratadas periodicamente para manter cargas muito baixas de vegetação combustível e em localizações estrategicamente selecionadas no terreno. Estas redes devem, sempre que possível, incorporar áreas agrícolas e outras desprovidas de vegetação, como zonas rochosas e albufeiras de barragens. A função destas faixas de gestão de combustível não é, por si só, deter a propagação do fogo, é sim propiciar locais onde o combate seja simultaneamente mais seguro e mais eficaz. Isto exige um grau de integração entre acções de prevenção e de combate bastante superior ao que actualmente caracteriza o sistema nacional de defesa da floresta contra incêndios. O facto de uma das prioridades estratégicas da futura Agência para a Gestão Integrada dos Fogos Rurais ser a aproximação entre a prevenção e o combate é motivo de esperança acrescida em que se venha a concretizar o potencial deste tipo de intervenção de larga escala territorial.

Tenho a noção de que muito do que aqui ficou dito contraria hipóteses populares entre boa parte da opinião pública, mas que são contraditadas por análises objectivas dos dados relevantes. Por muito apelativas que algumas dessas hipóteses possam ser, não resistem ao confronto com o que T.H. Huxley, o biólogo evolucionista contemporâneo de Darwin, chamava “ugly little facts”.

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3 thoughts on “Incêndios e mitos sobre eucaliptos

  1. Luis Barata

    O mais importante para combater os fogos é a população estar bem distribuída. Era por isso que antigamente os fogos eram mais pequenos: havia sempre muita gente perto e por isso água rapidamente e não deixava que ganhassem grandes proporções.

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