CP sem comboios (2)

Um sistema ferroviário em colapso. Por João Cunha.

Se, no longo prazo, as perspectivas são inexistentes porque os governos não assumem objectivos estratégicos, na actualidade o dia-a-dia faz-se de supressões de serviços por falta de comboios, hoje mais massivas do que em qualquer outro período da história, incluindo as faltas de carvão de 1944-45 ou quando no final dos anos 80 se cozinhava já o fecho de muitos ramais.

As oficinas de manutenção são catedrais de comboios parados e sem pessoal, com saídas a todo o vapor e sem autorização para contratações, numa compressão de meios sem paralelo que se aprofundou com o virar da página da austeridade, em 2016, condenando CP e EMEF a viverem com menos do que no período da Troika.

Apesar dos repetitivos e histriónicos anúncios governamentais, a ferrovia sobrevive hoje com menos meios do que alguma vez teve. Se em 2016 planeava alugar comboios a Espanha para fazer face ao aumento da procura que a nova postura da CP induziu nos anos anteriores, em 2018 a empresa não consegue sequer manter a oferta que tinha em 2014. 30% das carruagens Intercidades estão paradas por falta de manutenção e muitas vezes mais de 50% das automotoras diesel que a CP opera estão também paradas porque, velhas e sem investimento, sofrem uma acelerada erosão. Além disso, cerca de 50% da sua frota carece de substituição imediata e outros 50% têm esse horizonte até 2025-2030.

É hoje habitual Beja passar alguns dias sem ter sequer uma automotora à disposição ou chegar a Braga não a bordo do Pendular, mas de um comboio regional sem qualquer conforto. É a face visível da pouco transparente execução orçamental deste governo, que abdicou de orçamentos rectificativos para corrigir desvios em rubricas importantes (impostos, despesas com pessoal) e recorre antes a expedientes menos controláveis para chegar ao número mágico (objectivo cuja importância não contesto, aliás).

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5 thoughts on “CP sem comboios (2)

  1. JP-A


    Já estamos com casos de mulheres transferidas em pleno trabalho de parto por
    falta de recursos. Não tarda e vamos ver buracos nas estradas nacionais e outras coisas como antigamente.

  2. «buracos nas estradas nacionais»

    Começam os buracos nas contas nacionais.

    Défice de 1,5% do PIB e a dívida a subir 6% num ano? Ou há um buraco nas contas ou acham que temos um buraco no lugar do cérebro. Azar o deles, não somos todos socialistas e compreendemos o conceito de derivada.

  3. Adelaide

    Porém, o governo continua a ser levado em ombros pela “comunicação social” e pelo PR. A culpa de tudo é do Passos. Acabou a austeridade. Viva!£

  4. Oscar Maximo

    Adelaide, a culpa não é do Passos, é da folga do Passos. E do Centeno querer ir além da troika ? Confesso que estou baralhado ! De qualquer modo, veremos que qualquer justificação serve, talvez “guerra comercial do Trump”.

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