Socialismo para os portugueses; Liberalismo para os estrangeiros

Um país bom para os estrangeiros. Por Rui Ramos.

O estacionamento de Madonna é uma nota de rodapé no regime que transformou Portugal num paraíso para os estrangeiros. Para nós, os impostos directos mais altos de sempre; para eles, todas as isenções fiscais. Para nós, papelada e complicação; para eles, todas as facilidades. Para nós, os parquímetros da EMEL; para eles, terrenos camarários, a um euro e meio por dia.

Era assim nos antigos países socialistas: infernos de repressão e de escassez para quem lá nascia e que de lá não podia sair – mas locais encantadores para os convidados estrangeiros do progressismo internacional, que de lá vinham entusiasmados com as tardes no Mar Negro ou as noites de Havana. Gabriel Garcia Marquez nunca se queixou de Cuba e o casal Louis Aragon e Elsa Triolet regressava constantemente fascinado da União Soviética. O comunismo, para eles, foi sempre de veludo.

Mas não, não estou a dizer que é a mesma coisa. Ainda não estamos lá, como todos os dias lamentam amargamente os camaradas Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Também não estou a exigir que tirem as regalias aos estrangeiros: ainda bem que há quem possa disfrutar Portugal sem a praga da nossa burocracia e a assombração da nossa autoridade tributária. O que eu gostaria mesmo é que isso também fosse possível para quem aqui nasceu e não saiu daqui. No fundo, estas excepções criadas para os estrangeiros são uma confissão embaraçosa sobre a falência e a inadequação do regime português. Porque existem? Porque o regime, endividado e dependente de uma das economias mais estagnadas da Europa, precisa do investimento e da despesa dos estrangeiros. Por isso, tenta atraí-los poupando-os à opressão fiscal e burocrática. Muito bem. Mas não precisará o regime também do investimento e da despesa dos nacionais? E para os estimular, não seria conveniente aliviar os portugueses do estrangulamento fiscal e administrativo? Ou isso só vale para os estrangeiros?

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6 thoughts on “Socialismo para os portugueses; Liberalismo para os estrangeiros

  1. Camaradas, a publicidade à “liberdade, igualdade, fraternidade” tolda-vos a alegada razão de que tanto se orgulham (com muito pouco motivo).

    Há quem seja dono, e há quem não seja. O resto, são papas e bolos.

  2. Todos os países têm regimes fiscais que beneficiam estrangeiros ou investimento estrangeiro, esta não é uma particularidade comunista, mas sim o interesse de atrair recursos em concorrência com os serviços fiscais de outros países. Todos os países podem ser considerados off shores em certo ponto.

  3. São as maravilhas do liberalismo.

    A concorrência fiscal leva a que os estrangeiros paguem cada menos impostos e, entre os nacionais, os trabalhadores por conta de outrem paguem cada vez mais, sozinhos, os impostos das grandes empresas, que deslocalizam sedes e lucros para paraísos fiscais.

    Agora podem chamar comunismo ao liberalismo, se acham que ficam com um ar intelectual neoliberal.

    A trafulhice é de facto a essência d propaganda tanto comunista como neoliberal..

  4. Luís Lavoura

    terrenos camarários, a um euro e meio por dia

    O Rui Ramos sabe qual é o preço de mercado do aluguer de um local de estacionamento em Lisboa? É cerca de cem euros por mês, para um local coberto e guardado.
    A Madonna alugou 15 locais de estacionamento descobertos e não guardados ao preço unitário de 50 euros por mês. Não me parece que esteja fora dos valores de mercado. Não é propriamente um preço de favor.

  5. Luís Lavoura

    Para nós, os impostos directos mais altos de sempre; para eles, todas as isenções fiscais.

    O Rui Ramos é a favor do fim do regime especial de IRS para os reformados estrangeiros em Portugal? É que, esse regime foi introduzido pelo governo anterior…

  6. Luís Lavoura,

    Sugiro-lhe que volte a ler o texto de Rui Ramos, de preferência acompanhado de alguém que não seja analfabeto funcional.

    «ainda bem que há quem possa disfrutar Portugal sem a praga da nossa burocracia e a assombração da nossa autoridade tributária. O que eu gostaria mesmo é que isso também fosse possível para quem aqui nasceu e não saiu daqui.»

    É um perigo se alguém o colocar na posição de ler rótulos de produtos perigosos. Pista (e leia devagar): a cola forte não é para se cheirar.

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